Mestrado em Educação Área de Esp. Tecnologia Educativa. Tecnologia da Imagem. Elisa Castro. Docente: Prof. Doutor Henrique Chaves

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1 Literatura Infantil e Ilustração: Imagens que Falam Mestrado em Educação Área de Esp. Tecnologia Educativa Tecnologia da Imagem Docente: Prof. Doutor Henrique Chaves Trabalho realizado por: Elisa Castro Braga 2004/2005

2 Índice Introdução... 4 Literatura Infantil... 5 Génese e evolução... 5 O livro para a criança... 7 Os primeiros impressos... 9 Classificação da literatura infantil Ilustração Técnicas Manuais Lápis e tinta O aerógrafo Manejo do aerógrafo Ilustração Infantil Aspectos gráficos e visuais Leitura de imagens Funções da ilustração Figuras de estilo Alice no País das Maravilhas Lewis Carroll Contextualização do texto e do autor Como surgiu a Alice? Lewis, o fotógrafo John Tenniel, o ilustrador Outros ilustradores Imagens que falam Conselhos de uma Lagarta, por sete ilustradores Matemática na obra? Conclusão Bibliografia

3 Alice começava a sentir-se muito cansada por estar sentada no banco, ao lado da irmã, e por não ter nada que fazer. Mais do que uma vez espreitara para o livro que a irmã estava a ler, mas este não tinha gravuras nem conversas... E para que serve um livro que não tem gravuras nem conversas? pensou Alice. CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas 3

4 Introdução O presente trabalho tem como título Literatura Infantil e Ilustração: Imagens que falam. Partindo do conceito de literatura infantil, procedemos a uma breve resenha histórica em torno do mesmo. A partir de que momento surgiu a literatura infantil e se começaram a escrever histórias direccionadas para crianças? A par do texto quais as funções da imagem que o acompanham? Quais os autores/ilustradores mais representativos deste tipo de escrita destinado aos mais jovens? Tentamos responder a estas e outras questões, pondo a tónica principal no papel das imagens e das ilustrações neste tipo de livros. Num segundo momento, passamos às técnicas da ilustração propriamente ditas. Que utensílios e que materiais um ilustrador utiliza para a concepção dos seus desenhos? Que cuidados deve ter um ilustrador ao conceber desenhos para livros de crianças? Até que ponto as imagens desenhadas são um reflexo das palavras, ou seja, do texto escrito? Será que todas as imagens representam e materializam o texto escrito, ou por outro lado, são apenas uma mera repetição ou redundância daquilo que está escrito? Partindo destas questões, seleccionamos uma obra para a infância intitulada Alice no País das Maravilhas e analisamos as respectivas ilustrações. Tentamos ver em que medida elas convergem ou distanciam-se do texto. Fizemos ainda uma pesquisa em relação aos vários ilustradores da obra em questão (mais de duzentos), sendo que John Tenniel, o primeiro ilustrador da obra, é até hoje, o mais conhecido pelas suas ilustrações a preto e branco. Por último, passamos à parte prática do trabalho, no qual colaboraram quatro crianças. Estas fizeram a análise de uma série de ilustrações da Alice no País das Maravilhas e depois passaram à visualização do filme. Em relação a este trabalho, apresentamos as conclusões na parte final. 4

5 Literatura Infantil Génese e evolução O impulso de contar histórias deve ter nascido no momento em que o Homem sentiu necessidade de comunicar aos outros alguma experiência sua. A primeira obra realmente direccionada ao público infantil foi uma colectânea de cantigas infantis publicada por Mary Cooper em 1744, cujo título era: Para todos os pequenos senhores e senhoritas, para ser cantada para eles pelas suas amas até que possam cantar sozinhos. Uma segunda colectânea intitulada Melodia da Mamã Gansa de 1760, provavelmente do livreiro John Newberg, considerado precursor na descoberta e exploração do mercado de livros para crianças. O aparecimento da literatura infantil decorre da ascensão da família burguesa e do novo estatuto concedido à infância na sociedade. É a partir do século XVIII que a criança passa a ser um ser diferente do adulto, pelo que devia distanciar-se dos mais velhos e receber uma educação especial. Em Portugal (1866), literatura para crianças era coisa que ninguém sabia ainda muito bem o que era. Liam-se traduções e não muitas. A literatura infantil portuguesa começa a vislumbrar-se nos finais do século XIX com o Tesouro Poético para a Infância de Antero de Quental, Os contos para a infância de Guerra Junqueiro e ainda com a obra de João de Deus. 5

6 A literatura infantil tem o seu ponto de partida sob o aspecto de consagração universal, na França do século XVII. Século XVII Século XVIII Século XIX Charles Perrault ( ) O Gato das botas A Gata Borralheira O Capuchinho Vermelho A Branca de Neve Fénelon ( ) Telémaco La Fontaine ( ) Fábulas Mme. D Aulnoy (Maria Catarina Jumel de Berneville) O Delfim A ave azul, A bela dos cabelos de ouro Jonathan Swift ( ) Viagens de Guliver Daniel Defoe ( ) Robinson Crusoe Mme. Leprince de Beaumont ( ) A fada das ameixas, A bela e a fera Mme. De Genlis ( ) Influenciada por Rousseau, escreveu assuntos de natureza informativa e científica. Berquin ( ) Considerado por muitos o verdadeiro fundador da literatura infantil. Literaturas Escolhidas Hans Christian Andersen ( ) O patinho feio, O soldadinho de chumbo, A pequena vendedora de fósforos Irmãos Grimm: Luís Jacob ( ) e Guilherme Carlos ( ) Contos populares, Lendas alemãs Frances Hodon Burnet O Pequeno Lord Collodi (Carlos Lorenzini) Pinocchio Edmundo de Amicis Cuore Charles Dickens David Copperfield Mattew J. Barrie Peter Pan Condessa de Ségur Memórias de um burro Que amor de criança! Lewis Carroll Alice no país das maravilhas Mark Twain Tom Sawyer Fenimore Cooper O ultimo dos moicanos Lyman Frank Baum O Feiticeiro de Oz Rudyard Kipling Jungle Books Selma Lagerlof (rainha da fantasia sueca) Júlio Verne A volta ao mundo em 80 dias Vinte mil léguas submarinas Otávio Feuillet Polichinelo Maeterlink Pássaro Azul Tchekov Álbuns de contos russos Antoine de Saint-Éxupery O Pequeno Príncipe 6

7 O livro para a criança Nos cânones da literatura infantil de Harold Bloom e Maurice Sendak, encontramos diversos autores / ilustradores como William Blake, Wilhelm Bush, Beatrix Potter, Edward Lear. William Blake ( ) foi pintor, gravador, poeta, místico visionário e uma das primeiras e maiores figuras do romantismo. Songs of Innocence (1789) é sua primeira obra-prima de "iluminura impressa." Blake imprimia ele próprio o seu trabalho. Ajudado pela sua mulher, muitas vezes aquarelava à mão cada página, ou imprimia os pratos de cor numa ordem diferente, de maneira que cada livro fosse uma obra única. Canções da Inocência de William Blake Wilhelm Bush é um excelente caricaturista. O traço é ágil e, como o texto, cheio de humor. Podemos acompanhar a história pelos desenhos. Influenciado por Topffer, o seu trabalho funciona como uma história em quadrinhos. Juca e Chico - 7 Travessuras, escrito em 1865, é talvez o seu livro mais conhecido. 7

8 Juca e Chico de Wilhelm Bush O livro mais conhecido de Beatrix Potter, The Tale of Peter Rabbit, nasce numa carta escrita em 1893 para uma criança que estava doente. Na primeira edição de Peter Rabbit, 1902, paga pela autora, as ilustrações eram a preto e branco. Mas logo aparecerem as edições coloridas. Os livros adocicados de Beatrix eram pequeninos, desenhados de maneira a que as crianças pudessem carregálos confortavelmente. Até hoje são sucesso garantido. Edward Lear foi desenhador num zoológico, viajante, artista, escritor. Deprimido, epiléptico, solitário. Em 1845 escreveu e ilustrou A Book of Nonsense. Capaz de esquecer a sua destreza e optar por um gesto fluído e solto como o de uma criança, Lear dá-nos, no século XIX, uma lição de modernidade. A Book of Nonsense de Edward Lear 8

9 Os primeiros impressos Os primeiros impressos para crianças são cartilhas: hornbooks, "batledores" ou "catones". Página coladas num suporte, que à primeira vista podiam servir também de palmatória. Começam a ser usadas em 1440 e continuam a aparecer até Além do ABC incluíam orações, ensinamentos morais ou políticos. A criança descobre desde logo os chapbooks, pliegos sueltos, "fliegende blätter", "folhas volantes" ou "de cordel" com as baladas, xácaras, anedotas, contos maravilhosos, episódios de cavalaria., e apossam-se dessas narrativas populares, que não foram escritas especialmente para elas. Chapbooks eram folhas ou folhetos vendidos nas ruas. Valentine and Orson.é um exemplo típico desses livros baratos que não eram feitos para crianças, mas que as conquistaram. As personagens são dois irmãos gémeos separados ainda pequenos. Orson, criado por um urso, Valentine, pelo rei da França. Valentine captura o seu irmão e os dois, depois de muitas façanhas, casam-se com belas princesas. 9

10 Espécie de romance popular, em verso, que se cantava ao som da viola, ou xácara, coletado por Almeida Garrett, que acreditava que a viagem da nau portuguesa que em 1565 transportava Jorge de Albuquerque Coelho de Olinda para Lisboa deu origem a esta xácara: A Nau Catrineta. Lá vem a nau Catrineta Que tem muito que contar! Ouvide, agora, senhores, Uma história de pasmar... De entre os primeiros livros para crianças, não é possível esquecer a obra de Johann Amos Comenius. O bispo de Morávia é considerado um grande inovador da pedagogia. Comenius Orbis Sensualium Pictus foi escrito em Nele temos um ABC com imagens de animais. O texto traz os ruídos característicos dos bichos, para ensinar o som de cada letra. 10

11 Comenius não foi o primeiro a fazer cartilhas ilustradas. Temos, no século XVI, a Cartinha para aprender a ler de João de Barros, com o "A" debaixo de uma árvore, e assim por diante. Humanista, historiador e gramático, deixou-nos ainda o curioso Diálogo de Iom de Barros com dous Filhos seus sobre Preceptos Moraes em forma de Jogo, publicado em O conceito de literatura para a infância tem sido problematizado ao longo do tempo por diversos autores que o definem de acordo com diferentes pressupostos: Citam-se alguns exemplos: São as crianças, na verdade, que o delimitam, com a sua preferência. Costuma-se classificar como Literatura Infantil o que para elas se escreve. Seria mais acertado, talvez, assim classificar o que elas lêem com utilidade e prazer. Não haveria, pois, uma Literatura Infantil a priori mas a posteriori. Mais do que literatura infantil existem "livros para crianças". Cecília Meireles 1 (1951) 1 Poetisa brasileira nascida no Rio de Janeiro. Professora universitária, Cecília Meireles interessou-se pelo estudo das línguas, música, cultura oriental e literatura infantil. Casou-se com o ilustrador português Fernando Correia Dias, artista que contribuiu imensamente para o desenvolvimento das artes gráficas no Brasil, autor de caricaturas e desenhos altamente requintados e modernos. 11

12 A literatura para a juventude é uma comunicação histórica (quer dizer localizada no tempo e no espaço) entre um locutor ou um escritor adulto (emissor) e um destinatário criança (receptor) que, por definição, de algum modo, no decurso do período considerado, não dispõe senão de forma parcial da experiência do real e das estruturas linguísticas, intelectuais, afectivas e outras que caracterizam a idade adulta. Marc Soriano 2 (1975) Sublinhemos: o livro infantil é o livro ilustrado; e esta situação já comporta a existência do livro de imagens... Américo Lindeza Diogo 3 (1994) 2 Estudioso de literatura infantil para a infância 3 Doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade do Minho. É Professor Auxiliar no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho. 12

13 Classificação da literatura infantil Fases normais no desenvolvimento da criança: O caminho para a redescoberta da Literatura Infantil, no nosso século, foi aberto pela Psicologia Experimental que, revelando a Inteligência como um elemento estruturador do universo que cada indivíduo constrói dentro de si, chama a atenção para os diferentes estágios do seu desenvolvimento (da infância à adolescência) e a sua importância fundamental para a evolução e formação da personalidade do futuro adulto. A sucessão das fases evolutivas da inteligência (ou estruturas mentais) é constante e igual para todos. As idades correspondentes a cada uma delas podem mudar, dependendo da criança, ou do meio em que ela vive. Primeira Infância: Movimento vs Actividade (15/17 meses aos 3 anos) Maturação, início do desenvolvimento mental; Fase da invenção da mão - reconhecimento da realidade pelo tacto; Descoberta de si mesmo e dos outros; Necessidade grande de contactos afectivos; Explora o mundo dos sentidos; Descoberta das formas concretas e dos seres; Conquista da linguagem; Nomeação de objectos e coisas - atribui vida aos objectos; Começa a formar sua auto-imagem, de acordo com o que o adulto diz que ela é, assimilando, sem questionamento, o que lhe é dito; Egocentrismo, jogo simbólico; Reconhece e nomeia partes do corpo; Forma frases completas; Nomeia o que desenha e constrói; Imita, principalmente, o adulto. Histórias para crianças (faixa etária/áreas de interesse/materiais/livros): 1 a 2 anos: A criança, nesta faixa etária, prende-se ao movimento, ao tom de voz, e não ao conteúdo do que é contado. Ela presta atenção ao movimento de fantoches e a objectos que 13

14 conversam com ela. As histórias devem ser rápidas e curtas. O ideal é inventá-las na hora. Os livros de pano, madeira e plástico, também prendem a atenção. Devem ter, somente, uma gravura em cada página, mostrando coisas simples e atractivas visualmente. Nesta fase, há uma grande necessidade de pegar na história, segurar o fantoche, agarrar o livro, etc.. 2 a 3 anos: Nesta fase, as histórias ainda devem ser rápidas, com pouco texto de um enredo simples e vivo, poucos personagens, aproximando-se, ao máximo, das vivências da criança. Devem ser contadas com muito ritmo e entoação. Há um grande interesse por histórias de bichinhos, brinquedos e seres da natureza humanizados. Identifica-se, facilmente, com todos eles. Prendem-se a gravuras grandes e com poucos detalhes. Os fantoches continuam a ser o material mais adequado. A música exerce um grande fascínio sobre ela. A criança acredita que tudo ao seu redor tem vida e vivência, por isso, a história transforma-se em algo real, como se estivesse mesmo a acontecer. Segunda Infância: Fantasia e Imaginação (dos 3 aos 6 anos) Fase lúdica e predomínio do pensamento mágico; Aumenta, rapidamente, seu vocabulário; Faz muitas perguntas. Quer saber "como" e "porquê?"; Egocentrismo - narcisismo; Não diferenciação entre a realidade externa e os produtos da fantasia infantil; Desenvolvimento do sentido do "eu"; Tem mais noção de limites (meu/teu/nosso/certo/errado); Tempo não tem significação - não há passado nem futuro, a vida é o momento presente; Muitas imagens ainda completando, ou sugerindo os textos; Textos curtos e elucidativos; Consolidação da linguagem, onde as palavras devem corresponder às figuras; Para Piaget, etapa animista, pois todas as coisas são dotadas de vida e vontade; O elemento maravilhoso começa a despertar interesse na criança. Dos 6 aos 6 anos e 11 meses, aproximadamente: Interesse por ler e escrever. A atenção da criança esta voltada para o significado das coisas; 14

15 O egocentrismo diminui. Já inclui outras pessoas no seu universo; O seu pensamento torna-se estável e lógico, mas ainda não é capaz de compreender ideias totalmente abstractas; Só consegue raciocinar a partir do concreto; Começa a agir cooperativamente; Textos mais longos, mas as imagens ainda devem predominar sobre o texto; O elemento maravilhoso exerce um grande fascínio sobre a criança. Histórias para crianças (faixa etária/áreas de interesse/materiais/livros): 3 a 6 anos: Os livros adequados nesta fase devem propor "vivências radicadas" no quotidiano familiar da criança e apresentar determinadas características estilísticas. Predomínio absoluto da imagem, (gravuras, ilustrações, desenhos, etc.), sem texto escrito, ou com textos brevíssimos, que podem ser lidos, ou dramatizados pelo adulto, a fim de que a criança perceba a inter-relação existente entre o "mundo real", que a cerca, e o "mundo da palavra", que nomeia o real. É a nomeação das coisas que leva a criança a um convívio inteligente, afectivo e profundo com a realidade circundante. As imagens devem sugerir uma situação que seja significativa para a criança, ou que lhe seja, de alguma forma, atraente. A graça, o humor, um certo clima de expectativa, ou mistério são factores essenciais nos livros para o pré-leitor. As crianças, nesta fase, gostam de ouvir a história várias vezes. É a fase de "conte outra vez". Histórias com dobraduras simples, que a criança possa acompanhar, também exercem grande fascínio. Outro recurso é a transformação do contador de histórias com roupas e objectos característicos. A criança acredita, realmente, que o contador de histórias se transformou no personagem ao colocar uma máscara, chapéu, capa, etc.. Podemos enriquecer a base de experiências da criança, variando o material que lhe é oferecido. Materiais como massa de modelar e argila atraem a criança para novas experiências. Assim como as histórias infantis, os contos de fadas têm um determinado momento para serem introduzidos no desenvolvimento da criança, variando de acordo com o grau de complexidade de cada história. 15

16 Os contos de fadas, tais como os "Os Três Porquinhos" e "O Patinho Feio" apresentam uma estrutura bastante simples e têm poucas personagens, sendo adequados a crianças entre 3 e 4 anos. Por outro lado, "Capuchinho Vermelho", "O Soldadinho de Chumbo", "Pedro e o Lobo" e o "Pequeno Polegar" são adequados a crianças entre 4 e 6 anos. 16

17 Ilustração A palavra "ilustrar" vem do latim, ilustrare, e significa "lançar luz ou brilho, ou tornar algo mais evidente e claro". Dar luz ao entendimento, instruir, civilizar, acepções da palavra ilustrar, que, junto com a puramente ornamental, definem uma actividade que vincula a expressão plástica ao desenho, a arte aplicada a uma função concreta: a informação. A função que cumpre a ilustração transcende, na maioria dos casos, o puramente ornamental para se converter em informação não escrita, um meio de expressão que prescinde de barreiras linguísticas, facilitando a compreensão de uma mensagem. O ilustrador, ao contrário de outros profissionais da arte, está sujeito a certas limitações no seu trabalho. O bom resultado da sua obra não depende exclusivamente de um estado de espírito ou inspiração, a sua criação deve cumprir uma função que lhe é imposta quando aceita o trabalho e, ao mesmo tempo, deve efectuá-lo tendo em conta o processo de reprodução a que vai ser submetido: sistema de impressão, limitações de cor, etc., o que não se deve interpretar como aspectos negativos, antes pelo contrário: é desafio profissional que não se tem ao pintar um quadro de inspiração livre e ao qual não se exige mais do que qualidade artística. A ilustração, foi, sem dúvida, o primeiro meio de expressão gráfica empregue pela Humanidade. Desde as pinturas rupestres até aos actuais infogramas, passando pelos ideogramas de culturas como a egípcia e as pré-colombianas, foi sempre o método mais directo de comunicação, já que não precisa de um código abstracto de leitura. Com a descoberta da imprensa, não só não decaiu como atingiu um auge notável, como suporte e ampliação da informação fornecida pelo texto com o qual compartilha as páginas impressas, ou como elemento descritivo que torne desnecessário o mesmo. 17

18 Ilustração que adorna o artigo sobre a música numa enciclopédia de 1023 elaborada no Mosteiro de Montecasiano. Nas primeiras publicações periódicas, as ilustrações feitas chapas metálicas eram a única possibilidade de imprimir a imagem até ao aparecimento da fotografia e os processos de fotogravação, os quais não foram o fim da sua utilização, mas uma libertação, já que, a partir desse momento, se recorria ao ilustrador não como única fonte de imagem, mas sim como um profissional cuja criatividade ia dar a esta um toque especial, diferente da pura captação da realidade, o que não resulta em detrimento do trabalho fotográfico, que pode constituir uma autêntica ilustração para lá da reportagem. Aubrey Beardsley ( ), apesar da sua curta vida, tornou-se num dos mais importantes ilustradores da história moderna. Aubrey Beardsley ( ) Ilustração para a obra Salomé de O. Wilde 18

19 Técnicas Manuais O processo de trabalho na ilustração difere do desenho e da pintura não só na escolha do tema a tratar, que neste caso é imposto ao profissional; também é de vital importância ter em conta o meio de reprodução que vai ser utilizado e a idiossincrasia do público a quem é dirigido: evidentemente, não podem ter o mesmo tratamento uma ilustração para imprensa diária e a destinada a um livro colorido, ou uma ilustração técnica e a dirigida a crianças. O conhecimento de algumas técnicas como algumas aplicações do lápis e da tinta e uma ferramenta de desenho quase exclusiva da ilustração, o aerógrafo, são fundamentais para o ilustrador manual. Lápis e tinta O lápis é uma das técnicas de desenho mais influenciadas pelo meio de reprodução e impressão final. Portanto, antes de escolher a sua utilização, o ilustrador deve conhecer o tratamento a que o seu trabalho vai ser submetido, evitando, mediante técnicas concretas, que a ilustração sofra alterações. Apesar da alta qualidade dos meios de reprodução actuais, um trabalho de graduações de cinzento realizadas com o lápis deverá ser tratado com maior ou menor dureza segundo a resolução (pontos por polegada ou por centímetro) da textura com que vai ser reproduzido. Tons muito suaves de cinzento podem chegar a perder-se ou a fazer que as áreas brancas adjacentes não possam ser reproduzidas como tal, ou seja: corre-se o risco de que o desenho seja suavizado ou endurecido pela reprodução, impedindo que um cinzento muito claro se funda com o branco sem brusquidão. 19

20 O aerógrafo O primeiro aerógrafo, o aerograph, foi desenhado pelo ilustrador britânico Charles Burdick em 1893, e desde então passou por aperfeiçoamentos técnicos e épocas de esquecimento produzidas por predominâncias de outros estilos, mas mantendo-se sempre como o instrumento-rei da ilustração de efeitos realistas. Charles Burdick Primeiro aerógrafo Uma vez dominada a sua técnica, o ilustrador conseguirá efeitos de luz, texturas e tons suaves insubstituíveis em muitos tipos de ilustrações. Há muitos tipos de aerógrafos, consoante a sua finalidade e preço, mas todos se baseiam no mesmo princípio: o ar, comprimido a 2-3 atmosferas, atravessa uma conduta chamada Venturi (em cujo princípio é baseado o aerógrafo), passando para outra mais larga, onde se expande, absorvendo a tinta que cai de um depósito à pressão normal, pulverizando-a, projectando o fluxo através de uma boquilha cónica até ao papel. O ar comprimido pode ser fornecido por meio de garrafas recarregáveis ou postas de lado, ou por meio de um compressor eléctrico, a melhor opção, já que costumam ser munidos de manómetros para regular a pressão e de filtros de condensação de água. 20

21 Há dois tipos básicos de aerógrafos: de alavanca simples ou dupla. A alavanca simples produz um jacto uniforme, controlável apenas pela separação entre o instrumento e o plano de desenho. A alavanca de dupla acção permite controlar pressionando para baixo o fluxo de ar e para trás o da tinta, o que o torna mais útil para trabalhos delicados. Secção ou corte de um aerógrafo Legenda: 1. Boquilha de saída; 2. Entrada de ar; 3. Depósito de tinta; 4. Agulha; 5. Gatilho de dupla acção; 6. Mordaça da agulha. Há aerógrafos com boquilhas múltiplas que lhes permitem adaptar-se tanto a trabalhos de traço fino como a projecção de grandes fundos. Como norma básica de uso, a posição do aerógrafo em relação ao plano do desenho deverá ser a mais aproximada possível de um ângulo recto e a distância ao papel será inversamente proporcional à espessura do traço: muito perto quando se projecta pouca tinta e muito ar (traços finos); mais afastado para muita tinta (grandes 21

22 superfícies). Nunca se deve incidir sobre o mesmo ponto sem que a projecção anterior esteja seca. Manejo do aerógrafo Para se familiarizar com o manejo do aerógrafo existem vários exercícios: 1º Sobre uma quadrícula de uns 10 mm de lado, tentar desenhar um ponto no centro de cada rectângulo. 2º Traçado de barras paralelas e círculos à mão: exercita o domínio do traço e posição do mesmo, aumentando o ar ao máximo e diminuindo a tinta ao mínimo, tentando que o traço seja o mais fino possível. 22

23 3º Esbatimentos finos e picados. Deve ter-se presente que maior pressão e menor quantidade de tinta produzirão graduações suaves de cor. Pelo contrário, se se restringe a passagem do ar e se abre a da tinta, o resultado serão pontos mais ou menos grossos (efeito de picado ). 4º Superfícies em três dimensões e máscaras. As superfícies a tratar são delimitadas com máscaras de película auto adesiva fabricada para esse efeito, recortando e descobrindo a parte a tratar com uma lâmina ou bisturi. Para este exercício desenham-se figuras geométricas simples, como o cubo, o cilindro e a esfera, projectando a tinta em esbatimentos dando efeitos de luz, como se fossem superfícies polidas. 23

24 Exemplo: Desenhar um tigre com o aerógrafo Materiais necessários Lápis de cor preto Pincel fino humedecido para esbater o traçado 1ª Camada de cor onde as sombras são mais marcadas Pinceladas na pelagem para dar o aspecto de pelos pretos Sombras acentuadas. A luz vem da direita. Pincel para finalizar a face e uma camada de cor preta com o aerógrafo 24

25 Ilustração Infantil A ilustração está a aumentar a sua importância num momento em que cada vez tem mais preponderância a imagem sobre o texto, num mundo em que, para a comunicação visual, dados os meios informáticos existentes, as possibilidades de criação, mistura e transformação de imagens são cada vez mais complexas e elaboradas. A ilustração apoia uma mensagem escrita, dentro do contexto da obra em que se encontra. A sua função é fundamentalmente estética: tornar mais agradável à vista a obra a que pertence. De todas as especialidades no campo da ilustração, a dedicada ao mundo da infância constitui uma área muito especial. Em qualquer tipo de trabalho, o profissional deve entrar na mentalidade do receptor, e isto torna-se especialmente difícil no caso das crianças. Não é fácil encontrar uma linguagem gráfica compreensível sem tentar desenhar como eles, o que, por outro lado, careceria de validade: a criança utiliza mais a fantasia do que o adulto, e não vêem os seus desenhos como os vêem os mais velhos. Esta capacidade de comunicação específica, e o que implica de conhecimento dos processos mentais infantis faz com que seja a especialidade de ilustração mais rara. Ilustração para conto infantil, de Enrique Santana 25

26 Aspectos gráficos e visuais A classificação de livro ilustrado está baseada, segundo Joan Cass, no seu formato: Picture books tell a story through a unique combination of text and illustration so that meaning conveyed in the text is extended by the illustrations. The content may be realistic, fanciful, or factual, but the format of text and illustration combined defines it as a picture book. Desde Coménio até aos nossos dias que os pedagogos têm vindo a salientar a importância da imagem nos livros para crianças. Surgem os ilustradores, que são os primeiros intérpretes da história. Estes vão desenhá-la e recontá-la através da linguagem da arte. As ilustrações têm assim como objectivo principal comunicar significados, possibilitando à criança o prazer do jogo visual das formas e das cores. No entanto, muitas vezes cai-se no risco da paráfrase, ou seja, as imagens são uma mera repetição do texto, ou então, o próprio desenho nada tem a ver com o texto, tal como aponta Gérard Bertrand: L illustration y court le risque d affadir par la paraphrase ce que la recontre de quelques mots a suffit à faire surgir dans l esprit du lecteur. Os livros ilustrados pretendem aliciar as crianças. Estas preferem livros com imagens realistas e coloridas, sendo a cor de grande importância neste tipo de livros. Os livros deverão ter mais imagens e menos texto quanto mais novas forem as crianças, já que estas têm uma atenção muito móvel. A dificuldade de concentração por parte das crianças será tanto mais reduzida quantas mais imagens tiver um livro. Os autores dos livros infantis não devem esquecer que os destinatários das suas histórias são as crianças, por isso, o estilo e os aspectos técnicos e materiais de um livro levam-no a ser aceite ou rejeitado pelas crianças. Assim, o formato, o tamanho das páginas e das letras, a qualidade do papel, a capa, o colorido das imagens são muito importantes. Capas vistosas são um elemento de persuasão que levam um leitor a comprar um livro. Além disso, os nomes das personagens devem ser divertidos e sonantes para captar a atenção das crianças. A fantasia cativa as crianças e desperta nelas a curiosidade e estimula a imaginação. Todos estes factores contribuíram para uma grande aceitação deste tipo de livros por parte das crianças, a partir do início do século. Eles são, ainda hoje, um bom entretenimento para os mais novos em horas de lazer e antes de deitar. 26

27 A ilustração obedece a códigos próprios de significação: - o aliciamento do leitor virtual (em tempos de escolaridade mínima todas as crianças podem e devem ser leitores); - a necessidade intrínseca ou extrínseca de suportar a actividade do leitor que começa face a um texto, que infantil ou não, é uma estrutura mais intencional que real. A ilustração acompanha assim, a faixa etária: quanto menor for a idade do leitor, tanto mais o livro que se lhe dirige tem imagens e tanto menos letras terá. Sendo a criança um leitor infantil a cativar, o livro infantil deverá ter uma função lúdica, no qual a imagem domina. É a ilustração que, sem dúvida, surge como uma segunda natureza da obra infantil (Lajolo & Zilberman, 1985:13) Ler uma imagem é também ter acesso a um conjunto de convenções gráficas próprias da nossa cultura e da nossa sociedade. As imagens devem corresponder ao núcleo do eu / mundo de forma a que a criança as identifique e permitam uma progressão ajustada ao seu desenvolvimento. Folhear as páginas do livro é a metáfora do desenrolar do tempo que a própria sucessão das ilustrações realça; ao fazê-lo a criança brinca com o tempo, fazendo-o avançar ou recuar. 27

28 Leitura de imagens Verdade / Falsidade É a linguagem verbal que determina a impressão de verdade ou de falsidade que podemos ter de uma mensagem visual. Uma imagem é considerada verdadeira ou falsa não por causa daquilo que representa mas por causa daquilo que nos é dito ou escrito acerca do que ela representa. Tudo depende da expectativa do espectador. É a conformidade ou a não-conformidade entre o tipo de relação imagem/texto e a expectativa do receptor que dão à obra um carácter de verdade ou falsidade. A mentira Felix Valloton Quando o pintor Valloton, a uma pintura forte e comovente representando um homem e uma mulher que se beijam, abraçados, num recanto sombrio de um salão burguês, não dá o título de O Beijo mas sim A mentira, aceitamos a interpretação proposta, uma vez que se trata de uma pintura e, portanto, de expressão, mais do que informação. 28

29 A leitura das imagens implica processos de codificação-descodificação e actos de compreensão. Em relação ao uso da palavra leitura (reading), Colin fala em duas acepções da palavra: - Decifração (readability); - Compreensão (comprehensibility). Só a leitura compreensiva e não a mera decifração permitem a comunicação. Nem todas as imagens têm o mesmo nível de complexidade, sendo que imagens complexas têm leituras mais complexas. Sendo a semiologia a teoria dos signos, ela é uma referência fundamental a partir do momento em que passamos a encarar a imagem como um sistema de signos. Surge assim a semiologia da imagem : A semiologia da imagem, melhor denominada iconologia, estuda uma imagem ou um objecto icónico (por exemplo, um filme) como um sistema, isto é, como um conjunto de elementos interdependentes e organizados de modo a que estes elementos e o todo que constituem só possam compreender-se uns em relação aos outros. Da mesma maneira que a ciência da linguagem procura descobrir os elementos constitutivos da significação linguística, a iconologia visa pôr em evidência as componentes da significação icónica e as suas leis de organização. (Cazeneuve, pág.146) 29

30 Funções da ilustração A relação entre o texto e a imagem está na interpretação que o ilustrador cria para a história. A ilustração é uma linguagem que dialoga com a linguagem verbal e apresenta diferentes possibilidades de leitura de um mesmo texto. A ilustração tem as funções de ornar ou elucidar o texto. No entanto, ela pode ter ainda outras funções: Função representativa: Quando a imagem imita a aparência do ser ao qual se refere. Função descritiva: Quando a imagem detalha a aparência do ser ao qual se refere. Função narrativa: Quando a imagem situa o ser representado em devir, através de transformações ou acções por ele realizadas. Função simbólica: Quando a imagem sugere significados sobrepostos ao seu referente, como é o caso das bandeiras nacionais. Função expressiva: Quando a imagem revela sentimentos e emoções do produtor da imagem. Função estética: Quando a imagem enfatiza a forma da mensagem visual. Função lúdica: Quando a imagem está orientada para o jogo. Função conativa: Quando a imagem está orientada para o destinatário, visando influenciar o seu comportamento, através da persuasão. Função metalinguística: Quando o referente da imagem é a linguagem visual ou a ela directamente relacionado. 30

31 Função fática: Quando a imagem enfatiza o papel do seu próprio suporte. Função de pontuação: Quando a imagem está orientada para o texto junto ao qual está inserida. Figuras de estilo Na linguagem verbal, as figuras de estilo alteram ou enfatizam o sentido das palavras, e possuem correspondentes similares na linguagem visual, como a hipérbole, a metáfora, a metonímia e a personificação. Apresentamos de seguida exemplos para cada uma delas: Hipérbole: Processo de exagero que ocorre, por exemplo, na caricatura. Metáfora: Corresponde a transformações na imagem, através de relações de similaridade. Metonímia: Há uma relação objectiva entre a imagem e o ser representado, como por exemplo, a representação de parte de um determinado ser para referir-se ao ser inteiro. Personificação: Atribuição de características humanas a seres inanimados bem como a ideias abstractas como as figuras alegóricas que representam a justiça, a liberdade, etc. 31

32 A Imagem As Palavras A ilustração é uma imagem que acompanha o texto e que estabelece uma relação semântica com ele. Esta relação pode ser denominada de coerência inter semiótica, visto que articula dois sistemas semióticos: a linguagem verbal e a linguagem visual. Pode entender-se a coerência inter semiótica como a relação de convergência ou não-contradição entre os significados denotativos e conotativos da ilustração e do texto. Pode falar-se em três graus de coerência: 1) a convergência; 2) o desvio; 3) a contradição. Assim, avaliar a coerência entre uma ilustração e um texto significa avaliar em que medida a ilustração converge, desvia-se ou contradiz os significados do texto. Denotação / Conotação Para analisar ou ler uma imagem devemos diferenciar claramente dois níveis fundamentais, a denotação e conotação. Uma imagem pode ter significados denotativos e conotativos: 1) significados denotativos: - referem-se ao ser que a imagem representa; - decorrem da função representativa. 2) significados conotativos: - referem-se a associações sugeridas pela imagem; - decorrem da função estética. O nível denotativo refere uma enumeração e descrição dos objectos num determinado contexto e espaço. O nível conotativo refere-se à análise das mensagens ocultas numa imagem, e na forma como a informação aparece escondida ou reforçada. É composta por todos os elementos observáveis: desde a mais pequena unidade de análise, como o ponto ou a linha até aos objectos de volume variável e materiais diferentes. 32

33 Para Umberto Eco a conotação é a soma de todas as unidades culturais que o significante pode evocar institucionalmente na mente do destinatário. O poder evocativo de uma imagem não é o mesmo para todos, em linha de conta estão experiências e contextos próprios a cada pessoa que receberá de forma diferente. Imagens monosémicas: São imagens que têm um significado óbvio e único, que não oferecem ao espectador outras possibilidades de leitura do que aparece representado. recebe. Imagens polissémicas: Proporcionam diferentes interpretações de acordo com o grupo social que as É importante para compreender os fenómenos perceptivos, esquematizar a sequência dos acontecimentos da visão. À interacção entre o conjunto das superfícies físicas e o seu comportamento na absorção ou reenvio da energia luminosa e a captação através do olho humano da luz a que chega dos objectos que se encontram no seu campo visual damos o nome de processo de visão. O olho humano constitui um canal fisiológico e é o meio natural de passagem entre a emissão de uma mensagem e sua sensação resultante (Moles e Zeltman: 1975). Esta perspectiva do conhecimento das partes essenciais do olho (córnea, cristalino, íris e pupila, humor aquoso e vítreo, retina) realça a importância que os mecanismos da visão têm como ponto de partida para a formação de imagens na retina. 33

34 Alice no País das Maravilhas Lewis Carroll 34

35 Contextualização do texto e do autor Lewis Carroll ( ) Charles Lutwidge Dodgson, escritor e matemático britânico, mais conhecido pelo seu pseudónimo de Lewis Carroll, nasceu a 27 de Janeiro de 1832 e faleceu a 14 de Janeiro de O seu pai, Reverendo Charles Dodgson, era pastor protestante e deu ao filho uma educação religiosa, preparando-o para uma carreira também religiosa. No entanto, Charles Dodgson ingressou na Universidade de Oxford e, em 1855, foi convidado para permanecer como professor de Matemática, leccionando em Oxford até Apesar dos seus primeiros livros abordarem temas de Geometria e Álgebra, foi como lógico que Dodgson se destacou. O seu interesse pela lógica matemática e pelos jogos capazes de testar a razão, levou-o a publicar diversos livros sobre lógica, entre os quais se destacam The Game of Logic (1887) e Symbolic Logic (1896). Dedicavase também a criar adivinhações, silogismos e problemas lógicos divertidos que usava nas suas aulas como por exemplo o dos Relógios Loucos : Qual dos relógios regista o tempo mais fielmente? Um que se atrasa um minuto por dia ou um que não funciona? 4 Enquanto professor em Oxford, conheceu aquele que viria a ser o seu grande amigo, Henry Liddell, pai de três meninas Alice, Lorina e Edite, a primeira das quais viria a ser a sua fonte de inspiração para o seu primeiro grande romance publicado em 1865: Alice in Wonderland. 4 O relógio que se atrasa um minuto por dia dá a hora exacta de dois em dois anos, pois como se atrasa um minuto por dia só voltará a estar certo depois de se atrasar doze horas, o que só acontece ao fim de 720 dias. O relógio que está parado está certo duas vezes em cada vinte e quatro horas. Por isso, o relógio que regista melhor o tempo é o que está parado. 35

36 C. Dodgson adopta então o pseudónimo de Lewis Carroll para as obras literárias reservando o seu verdadeiro nome para as obras científicas. Após o sucesso de Alice in Wonderland, escreveu Through the Looking Glass (1871) que alcançou tanto sucesso como o primeiro. Seguiram-se The Hunting of Snark (1876) uma poesia plena de nonsense que fascinou a crítica e Sylvie and Bruno (1889). A partir de 1850, Lewis Carroll destacou-se também como fotógrafo tendo-se especializado em dois tipos de fotografia: retratos de pessoas importantes da época (artistas, escritores, poetas, religiosos, cientistas, professores, etc) e crianças, em geral, raparigas com idades entre os 8 e os 12 anos, que lhe rendeu uma obscura e insólita fama de preferência por ninfetas...). Charles L. Dodgson faleceu em 1899, no dia 14 de Janeiro em Guilford, Inglaterra. Alice no País das Maravilhas é um conto de surpreendente originalidade. A pequena Alice encontra-se um dia na floresta com um coelho branco que caminha a resmungar como quando se chega tarde a um encontro. Segue-o até à sua cova, onde a menina cai por um buraco profundíssimo. A partir dali acede a um estranho mundo habitado por criaturas surpreendentes. Alice, que encontra um bolo e uma bebida que a fazem crescer ou minguar à vontade, entra no país das maravilhas, onde a rainha, rodeada da sua corte de naipes, a convida para uma partida de croquet. Toma de 36

37 imediato o chá com o Chapéu Louco, a Lebre de Março e um rato do campo, e mantém uma conversação com o gato de Cheshire, que tem a virtude de aparecer e desaparecer à vontade. Assiste finalmente a um julgamento contra a Dama de Copas, mas antes de terminar Alice desperta bruscamente: tudo tinha sido um sonho. Carroll serve-se da capacidade infantil para observar a realidade com total ingenuidade, capacidade que utiliza para evidenciar os aspectos absurdos e incoerentes do comportamento dos adultos e para animar jogos encantadores baseados nas regras da lógica. Como surgiu a Alice? Lewis Carroll era um homem tímido, introvertido e conservador. Gostava imenso de crianças e de lhes contar histórias. No dia 4 de Julho de 1862, convidou as três filhas do seu amigo Liddell - Alice, Lorina e Edite - para um passeio de barco no rio. Durante o passeio, como já era hábito sempre que estavam na companhia de Lewis, as três meninas pediram para que lhes contasse uma história muito divertida. Lewis começou a contar a história à medida que ia remando ao longo do rio. Fez três tentativas para que a história terminasse mas as meninas não o permitiram e iam pedindo para que continuasse. Quando a história terminou já passava das oito da noite e com ela findou também o passeio de barco dos quatro amigos. 37

38 Da esquerda para a direita: Edith, Lorina e Alice Liddell, 1858 Antes de se deitar, nessa mesma noite, Lewis escreveu toda a história tal como a tinha contado a Alice e às suas irmãs. Chamou-lhe Alice Debaixo da Terra. Só dois anos mais tarde, em 1864, é que a tornou a ler. Acrescentou-lhe então algumas personagens, acrescentou alguns capítulos (a história ficou com, sensivelmente, o dobro das páginas) e alterou o título para Alice no País das Maravilhas. O livro foi editado, no ano seguinte, em Seguiu-se-lhe, seis anos mais tarde, Alice do outro Lado do Espelho, em Muitas das personagens e situações dos livros foram inspirados em pessoas e factos reais pertencentes do quotidiano de Lewis e da comunidade onde viveu: Alice Liddell 38

39 Também a nogueira onde aparece o Gato de Cheshire, o gato que está sempre a rir, ainda hoje pode ser vista no jardim do Colégio de Deanery. E, na Catedral de Ripon, onde o pai de Lewis exercia funções de reverendo, existe talhada em madeira uma imagem de um grifo que serviu de inspiração para o Grifo amigo da Falsa Tartaruga, grifo que é também o símbolo do "Trinity College. Os poemas e os versos que Alice recita, e que parecem não ter sentido nenhum, são sátiras aos poemas enfadonhos que as crianças inglesas daquela época tinham que saber de cor. Quanto ao poema que Alice descobre no Livro do Espelho, e que só se consegue ler quando está reflectido no espelho porque está escrito ao contrário, foi na realidade escrito pelo sobrinho de Lewis, Stuart Dodgson Collingwood. Um, dois! Um, dois! Zás, catrapás, A espada vorpal foi cortando. morto o deixou, E com a sua cabeça galufante voltou. (...) Também o dia do Lanche Maluco não é uma data ao acaso mas sim o verdadeiro dia de aniversário de Alice Liddell, 4 de Maio. A história que o Chapeleiro e a Lebre de Março contam a Alice sobre as três irmãs que vivem num poço de mel - Elsie, Lacie e Tillie - refere-se às três irmãs Liddell, respectivamente, Lorina, Edite e, claro está, Alice. A Porta que Alice ordena ao criado Rã que abra, é a caricatura da porta Norman da sacristia da Igreja onde o pai de Lewis Carroll era Reverendo. O capítulo sobre o Leão e o Unicórnio é inspirado nos símbolos das bandeiras de Inglaterra e Escócia, respectivamente. Lewis aproveitou as características mais marcantes de alguns dos seus colegas na Universidade de Oxford e utilizou-as na caracterização de algumas das personagens dos seus livros: - professores que dão conselhos filosofais a Alice, tal a Lagarta; - o professor Bartholomew, apaixonado por morcegos: Brilha, brilha, morceguinho! Como te invejo! Voa pelo céu Como um tabuleiro de chá. Brilha, brilha... Brilha, brilha... - o seu colega Duckworth que inspira Lewis no desenho do Pato; 39

40 - professores que tal como Humpty Dumpty seriam capazes de discutir, com Alice, questões de semântica; - o próprio muro onde Humpty Dumpty se balançava é uma caricatura dos muros da Universidade Oxford; - na beira do Lago, onde Lewis e as três irmãs passeavam de barco, existiam de facto algumas cobras que inspiraram Lewis na história do Pai Guilherme que equilibrava uma cobra no nariz. As três crianças tinham também, dias antes, assistido a uma actuação de equilibristas e acrobatas que estavam de passagem por aquela região. Lewis, o fotógrafo Carroll referia-se à fotografia como um fascínio e uma devoção. Era um fotógrafo bastante apreciado, que fotografou muita gente da sociedade que frequentava e onde ocupava o lugar de excêntrico solitário: conhecidos, amigos e filhos de amigos, escritores, artistas eram objecto da sua arte fotográfica social. Mas a aplicação realmente simbólica da técnica fotográfica centrou-se nos seus retratos de meninas. Neles, muitas vezes Carroll não se satisfazia só com o aspecto natural da foto. Tinha de criar um artifício. O cume desse artifício está no retrato da menina Alice encarnando um pedinte, com a mão estendida. Nele, Alice Liddell está com um vestido rasgado, mostrando os braços e as pernas, com os pés descalços, uma das mãos fechada na cintura e a outra aberta como quem pede esmola, o corpo encostado a um muro. Além do erotismo explícito, há um fundo pervertido em contraste com o rosto infantil. Alice Liddell,

41 Numa bela foto de Mary Ellis, ela está encostada num tronco rugoso com folhagens, mas aí o erotismo talvez fosse inconsciente. Mary Ellis Não será este, certamente, o caso de uma foto de Xie Kitchin, em que ela repousa, dormindo, reclinada sobre um sofá, com o vestido abaixado, mostrando os ombros nus, propositadamente descobertos (como também se vê na foto de Alice ''mendiga'' (com a mão pousada sobre o regaço). Xie, aliás uma favorita, aparece em outras fotos sugestivas, uma reclinada num sofá com um livro no regaço, outra também dormindo na cama e finalmente de pé contra a parede, ou com um violino. Xie Kitchin,

42 Uma foto de Irene Mac Donald parece bem inocente. Ela está de camisola, escova numa das mãos e um espelho noutra, que pousa sobre uma cadeira. Mas os cabelos estão significativamente soltos, os pés descalços. Viramos a página do álbum de fotos e defrontamo-nos com a mesma Irene reclinada num sofá. Não está descalça, nem dorme. Mas a expressão do seu olhar perdido está entre o sono e o êxtase. Não se pode negar a relação estreita entre o sono, o ato de se estar deitado sobre travesseiros ou inclinado sobre almofada num sofá e o erotismo. Irene MacDonald, 1863 Mary Millais Mary Millais, por exemplo, está recostada num chão que parece de grama ou de tapete felpudo. Também os recantos, a posição inclinada e a expressão longínqua, próxima do êxtase, são visíveis obsessões eróticas. Nada disso se encontra nas fotos comuns de familiares, pessoas distintas ou de renome que também constituíam o alvo das fotos do ''reverendo'', que se dizia ''praticamente um leigo'' no final da sua vida. 42

43 Dymphna Ellis, 25 Julho 1865 Tryphena Hughes com os filhos, 19 Julho

44 Maria White, 11 Julho 1864 Margaret Anne e Henrietta Mary Lutwidge,

45 Mary e Charlotte Webster, e Margaret Gatey, 1857 Seis irmãs de Carroll e o irmão Edwin,

46 John Tenniel, o ilustrador ( ) Ilustrador e caricaturista inglês, nasceu a 28 de Fevereiro de 1820, em Londres, e morreu nesta cidade a 25 de Fevereiro de Estudou na Royal Academy e foi aluno do célebre Charles Keene, tendo estudado escultura no Museu Britânico. Em 1845, já cego de um olho, foi premiado no concurso aberto pelo Governo aberto pelo Governo para decorar o Parlamento, com o projecto O Espírito de Justiça. Uma das suas primeiras obras foi um fresco representando Santa Cecília e que lhe fora encomendado para decorar a capela da Câmara dos Lordes. Trabalhou na redacção do jornal Punch e, em 1893, foi armado cavaleiro. Ilustrou mais de trinta livros e produziu cerca de duas mil e quinhentas caricaturas para o Punch. A sua maior glória foram as ilustrações de Lalla Rookh de Thomas Moore, em 1861, mas aquilo que o tornou numa figura que se recorda afectuosamente foram as ilustrações que fez para Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho. As ilustrações a preto e branco de Sir John Tenniel ainda hoje continuam a ser as mais famosas. Depois dele, surgiram muitos outros ilustradores diferentes do original. 46

47 Outros ilustradores Maria L. Kirke, 1904 Arthur Rackham, Bessie Pease Gutmann,

48 Mabel Lucie Attwell, 1910 A.E. Jackson, 1915 Gwynedd M. Hudson,

49 Jessie Willcox Smith, 1923 Arte contemporânea Marshall Vandruff Walt Disney 49

50 Imagens que falam Imagem 1 Mas, no preciso momento em que o Coelho tirou um relógio do bolso do colete, olhou para ele e começo a correr mais depressa. Imagem 2 No entanto, numa segunda volta, reparou numa cortina baixa que não vira antes, por detrás da qual havia uma pequena porta com cerca de trinta centímetros de altura. Alice tentou enfiar a pequena chave dourada e ficou deliciada ao ver que ela se abria ali! Imagem 3 (...) por isso, Alice voltou para a mesa, na esperança de encontrar ali outra chave ou um livro de instruções para ensinar as pessoas a fecharem-se como se fossem telescópios, mas desta vez o que achou foi uma pequena garrafa ( que decerto não estava ali antes, pensou) que, à roda do gargalo, tinha um rótulo de papel, onde podia ler-se em letras grandes e maravilhosamente impressas: BEBE-ME. Imagem 4 Agora estou a crescer como se fosse o maior dos telescópios! Adeus, pés! (pois quando olhou para os pés mal os viu, de tão longe que estavam). Oh, meus pobres pezinhos! Quem irá agora calçar-vos as meias e os sapatos, meus queridos? Tenho a certeza que não serei eu. Imagem 5 Alice sentia-se tão desesperada que estava pronta a pedir ajuda a quem quer que fosse. Por isso, quando o coelho se aproximou dela, começou a dizer com uma voz tímida: - Por favor, senhor... O Coelho deu um salto violento, deixou cair as luvas brancas de pele e o leque, e desapareceu na escuridão, o mais depressa que pôde. 50

51 Imagem 6 Ao completar este pensamento, um dos pés escorregou-lhe e, de repente, ficou mergulhada na água salgada até ao queixo. Imagem 7 Foi precisamente nessa altura que ouviu qualquer coisa chapinhar na poça, não muito perto dela. Nadou até lá para ver do que se tratava. (...) Finalmente, descobriu que era apenas um rato que escorregara para a água, tal como ela. Imagem 8 Que mais tens dentro da algibeira? perguntou, voltando-se para Alice. - Apenas um dedal respondeu Alice tristemente. - Trá-lo aqui disse o Dodó. Mais uma vez, todos os se reuniram à volta dela, enquanto Dodó exibia o dedal, dizendo com solenidade: - Pedimos-te que aceites este lindo dedal. Imagem 9 Então sentaram-se de novo em círculo e pediram ao Rato que lhes contasse mais alguma coisa. Imagem 10 Mas já era tarde de mais! Alice continuou a crescer, cada vez mais, e em breve teve de ajoelhar-se no chão. Pouco depois, já nem isto foi suficiente e ela tentou deitar-se com o cotovelo encostado à porta e o outro braço enrolado à volta da cabeça Mesmo assim, continuou a crescer. 51

52 Imagem 11 Pouco depois, o Coelho alcançou a porta e tentou abri-la, mas não conseguiu pois o cotovelo de Alice empurrava-a pelo lado de dentro. Alice ouviu-o dizer: - Nesse caso, vou dar a volta e entrar pela janela. Isso é que tu não fazes! pensou Alice, e depois de esperar até imaginar que ouvira o Coelho debaixo da janela, deitou o braço de fora e fez um gesto no ar. Não agarrou nada mas ouviu um gritinho, o ruído de uma queda e de vidros partidos. Imagem 12 Enfiou um dos pés na chaminé, o melhor que pôde, e ficou à espera até ouvir um pequeno animal (não conseguiu adivinhar de que animal se tratava) a arrastar-se e a roçar no interior da chaminé, mesmo acima dela. Depois, disse com os seus botões: Lá vem o Bill. Deu um pontapé rápido e ficou à espera do que iria passar-se. Imagem 13 Mal sabendo o que fazia, apanhou um pauzinho e estendeu-o ao cachorro que deu imediatamente um salto no ar, soltando um latido de prazer, e correu para o pauzinho, fazendo crer que lhe dava importância. Então, Alice abrigou-se atrás de uma grande moita de silvas, para impedir que ele lhe passasse por cima. Imagem 14 Durante algum tempo, a Lagarta e Alice olharam-se em silêncio. Por fim, a Lagarta tirou o cachimbo da boca e perguntou-lhe numa voz lânguida e sonolenta: - Quem és tu? Imagem 15 Estás velho, pai Guilherme, disse o jovem, E o teu cabelo está a enbranquecer Mas andas sempre de cabeça para baixo... Achas isso certo na tua idade? 52

53 Imagem 16 Estás velho, disse o jovem, como eu já disse, E engordaste muito, Mas entraste em casa aos pulos... Diz-me, qual é a razão por que o fizeste? Imagem 17 Estás velho, disse o jovem, e já tens os dentes fracos De tanto mastigar, Mas comes o pato com ossos e bico... Diz-me, como consegues? Imagem 18 Estás velho, disse o jovem, e ninguém diria Que tens a vista forte como nunca. Aguentas uma enguia na ponta do nariz... O que te faz assim tão esperto? Imagem 19 De repente, um criado de libré pareceu a correr, vindo do bosque (Alice considerou-o um criado porque ele vinha de libré, mas, a julgar pela cara, ter-lhe-ia chamado peixe) e bateu à porta ruidosamente, com os nós dos dedos. Esta foi aberta por um outro criado de libré, de cara redonda e olhos grandes, como uma rã. Eram ambos criados. (...) O criado começou por tirar debaixo do braço uma grande carta, quase do seu tamanho, que estendeu ao outro dizendo num tom solene: - É para a Duquesa. Um convite da Rainha para jogar croquet. Imagem 20 A porta dava directamente para uma cozinha enorme que estava cheia de fumo. A Duquesa estava sentada num banco de três pés a embalar um bebé; a cozinheira estava inclinada sobre o lume, a mexer um caldeirão que parecia estar repleto de sopa. 53

54 Imagem 21 O pobrezinho soltou um novo soluço (ou um novo ronco) e por instantes fez-se um silêncio. Alice estava precisamente a pensar: Agora o que hei-de fazer com ele quando chegar a casa?, quando o bebé voltou a roncar, desta vez com tal força que ela olhou-o, aterrorizada. Agora, era impossível enganar-se: o bebé não passava de um porco, e Alice achou que era um absurdo continuar a pegar-lhe ao colo. Imagem 22 Nesse momento, ficou um pouco admirada ao avistar o Gato de Cheshire empoleirado no galho de uma árvore, alguns metros adiante. O Gato sorriu apenas quando viu Alice. Parecia bemdisposto, mas, mesmo assim, tinha umas grandes unhas e muitos dentes, por isso era melhor tratá-lo com respeito. Imagem 23 E dessa vez desapareceu muito devagarinho, começando pela ponta da cauda e acabando no sorriso, que permaneceu ainda no ar por algum tempo, depois dele já se ter ido embora. Imagem 24 A Lebre de Março e o Chapeleiro estavam a tomar chá numa mesa debaixo de uma árvore, em frente da casa. Apoiavam os cotovelos sobre um Arganaz, que estava sentado entre eles, meio adormecido, e que lhes servia de almofada. Deve ser muito desconfortável para o Arganaz, pensou Alice, mas como está a dormir, é natural que não se importe. Imagem 25 O Chapeleiro abanou a cabeça tristemente e respondeu! - Eu, não! Em Março tivemos uma briga... Antes de ela enlouquecer, percebes? (e apontou para a Lebre de Março com a colher do chá). Foi durante o grande concerto dado pela Rainha de Copas, e eu tive de cantar: Brilha, brilha, morceguinho! Como te invejo! 54

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