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1 Registros de Batismo da Paróquia Nossa Senhora Penha de França: Uma fonte para o estudo do cotidiano privado das crianças negras livres na província de São Paulo ( ). Desafios e possibilidades Daniela Fagundes Portela 1 Faculdade de Educação da USP. A presente comunicação tem como objetivo apresentar os registros de batismos de crianças negras livres, após 1871 como uma fonte que possibilita a identificação de vestígios dos processos educativos e de elementos cotidiano privado das crianças negras livres. Comumente, os registros de batismos são fontes amplamente utilizadas nos estudos do campo da historiografia, principalmente em estudos que privilegiam a demografia da família escravizada. Após, 1871 quando é promulgada a lei do ventre livre, o registro de batismo torna-se um instrumento essencial para o asseguramento da liberdade dos filhos e filhas de famílias escravizadas. Para mergulhar e compreender a dimensão do mundo privado das crianças negras livres, alguns aspectos da documentação serão detalhados e diagnosticados com o intuito de demonstrar de que forma, a inserção dessa fonte documental colabora para o enriquecimento dos estudos do Campo da Historiografia Educacional. Nesse sentido, nessa comunicação vislumbramos inicialmente apresentar uma descrição histórica da importância do uso dos registros de batismos especialmente, após 1871 pontuando especialmente, os desafios e possibilidades de análise dessa fonte documental. Do mesmo modo, que se fez necessário caracterizar as particularidades da Freguesia Nossa Senhora Penha de França que é o lócus do nosso estudo, pois embora haja uma homogeneidade na produção dos registros de batismos, as informações referentes ao cotidiano privado da vida das crianças negras livres estão estritamente relacionadas com o contexto social, no qual a fonte documental foi produzida. Posteriormente, adentraremos nas análises das informações referentes às madrinhas e padrinhos das crianças negras livres que são sujeitos sociais de extrema importância dentro do contexto escravista. Em relação às crianças negras livres, demonstraremos como informações como a questão da legitimidade, o intervalo de tempo entre o nascimento e a data dos registros, o dia do batismo, dado identificado com o auxílio do calendário perpétuo possibilitam acompanhar os vestígios da dinâmica e a organização da família escravizada, do mesmo modo que revela os aspectos dos processos educativos em âmbito privado das crianças negras livres. Por fim, ressaltamos que essa foi apenas, uma das possibilidades de análise e compreensão de alguns aspectos do cotidiano privado das crianças negras livres da Paróquia Nossa Senhora da Penha França, portanto não a única e, certamente ao analisarmos outras paróquias outras informações em torno do cotidiano da criança negra livre emergirão. Nessa comunicação a nossa intenção é apontar as possibilidades e desafios, e principalmente a contribuição dessa fonte documental dentro do campo da Historiografia Educacional. 1 Doutoranda em História da Educação pela Faculdade de Educação da USP.

2 Palavra Chaves: crianças negras livres;registros de batismos; fontes 1. Considerações Iniciais O registro de batismo é uma fonte documental amplamente utilizada pelos estudos populacionais, sobretudo nos estudos sobre a vida de populações do passado, como por exemplo, os estudos sobre famílias escravizadas. De acordo com Portela (2012): Os estudos sobre família escrava brasileira realizados entre os anos de 1960 e 1970, comumente teciam duas considerações em torno da família escravizada: apontavam a inexistência de laços familiares entre os escravizados e assinalavam a patologia da família escrava. Esses aspectos eram reforçados pelos viajantes estrangeiros 2, cujas análises levavam a crer que a vda na senzala era repleta de promiscuidade sexual, uniões instáveis e crianças escravizadas crescendo sem a figura paterna. Slenes (1999) identifica o surgimento de uma abordagem inovadora nos estudos sobre família escravizada no Brasil, principalmente entre os anos de 1975 e 1976 essas pesquisas acabavam por contestar a visão de família escravizada descrita anteriormente. O mesmo autor argumenta que de forma geral, os estudos sobre família escravizadas têm: Alternativamente, têm apontado para a existência significativa de laços de parentescos simples (aqueles entre conjugues e entre pai/mãe e filhos), apesar do desiquilíbrio numérico causado pelo tráfico interno de escravos.( Slenes, p.44, 1999). Os novos estudos sobre família de escravizados revelam que de modo geral, as famílias eram extensas e não necessariamente formadas por membros com laços consangüíneos, o que se caracteriza como uma estratégia de sobrevivência dos escravizados perante a hostilidade do sistema escravocrata. Essa composição familiar era indício de uma nova configuração dos escravizados em situação de cativeiro. Sobre esse aspecto Slenes revela : A família cativa, no entanto, não se reduzia as estratégias e projetos centrados em laços parentescos. Ela expressava um mundo mais amplo que os escravos criavam a parte de suas esperanças e recordações;ou melhor, ela 2 Portela, cita como exemplo a obra de Slenes, ao descrever o estudo sobre família do francês Louis Couty.

3 era apenas uma das instâncias culturais importantes que contribuíram, nas regiões de plantation do Sudeste, para a formação de uma identidade nas senzalas antagônica à dos senhores e compartilhada por uma grande parte de cativos (Slenes, p.49). Essa nova organização familiar representava naquele contexto, não apenas uma estratégia de resistência, mas principalmente a continuidade de experiências vivenciadas pelos escravizados que foram destruídas completamente pela brutalidade do tráfico negreiro. Outra informação importante que é possível identificar através das análises dos registros de batismos e que se configura como uma forma de resistência dos escravizados é o sistema de compadrio, Mattoso afirma que: São solidariedades individuais. Elas pronunciam laços do compadrio. O padrinho, a madrinha, a comadre, assumem responsabilidades idênticas às dos pais (MATTOSO, 2003, p.132). O sistema de compadrio é um elemento central na constituição da história da infância da criança negra, seja na condição jurídica de escravizada, seja livre, após 1871 e também, depois de 1888 quando finda a escravidão no Brasil. O ritual de batismo para a criança escravizada representava uma possibilidade de concessão de sua liberdade, pois muitas crianças escravizadas, principalmente do sexo feminino e da região urbana eram libertas na Pia Batismal. Portela (2012) argumenta que : Um aspecto notável desse grupo de crianças escravizadas que eram libertadas no momento do batismo envolvia a questão de gênero: na maioria das vezes, as crianças alforriadas eram meninas ( Portela, 2012, p.139.). Ainda sobre esse mesmo tema, Reis discorre que : Provavelmente, os motivos pelos quais esse tipo de concessão de alforria ocorria em número reduzido e que a justificativa habitual para a concessão de benefício era o apadrinhamento e os bons serviços prestados pela mãe da criança. Podemos chegar a conclusão de que essas manumissões atingiam, em grande proporção, os filhos das escravizadas domésticas, mucamas prediletas das famílias senhoriais ( REIS, 2010, p. 180) Sendo assim, o momento do batismo acaba por constituir-se em uma estratégia dos escravocratas na manutenção do consentimento da liberdade, conservando assim, o seu lucro, principalmente ao controlar a população feminina. Por outro lado, é preciso refletir sobre a estratégia adotada pelas mães escravizadas, como descreve o excerto da

4 pesquisa 3 de Reis ( 2010), pois a prestação de bons serviços, não deve ser compreendida como um simples ato de dedicação da mãe escravizada, mas sem titubear configura-se como mais uma das estratégias adotadas pela família para manter seus filhos, em especial as filhas por perto. Com a promulgação da lei do ventre livre, os registros de batismo assumem um papel, mais uma vez essencial na constituição da história desse novo sujeito social que é a criança negra livre. Em relação ao registro de batismo por parte dos escravocratas, Conrad (1978) identifica que: Evidentemente muitas crianças tiveram negada a sua condição de ingênuo através dos registros falsos, já que, de novo, segundo os oponentes da escravidão aparentemente nenhumas crianças nasceram de mães escravas imediatamente após o 28 de setembro de 1871, enquanto por outro lado, mostram ( os registros das fazendas) um aumento até então nunca verificado, de nascimento em (Conrad, p.144) De fato, dentro desse novo contexto social, político e econômico, a criança negra livre era um objeto de extremo valor, já que supostamente, depois de 1871 nenhuma criança nasceria escravizada em território brasileiro. Assim sendo, restava aos escravocratas a manutenção do seu lucro conservando, adulterando os registros de nascimentos, ação que mantinha as crianças negras livres na condição de escravizadas. Assim, mais uma vez o ato do batismo torna-se um instrumento de luta das famílias escravizadas para proteção e garantia da liberdade dos seus filhos e filhas, já que de fato, a lei do ventre livre proporcionou aos filhos e filhas de mulheres escravizadas uma liberdade hibrída. O que confere a essa fonte documental um aspecto central na constituição dessa nova condição jurídica dos filhos e filhas de famílias escravizadas. È nesse sentido, que esse artigo pretende apontar algumas possibilidades e limites análises dessa documentação dentro do campo da historiografia educacional. 3 A pesquisa Práticas Sociais relativas às crianças negras em impressos agrícolas e projetos de emancipação de escravizados ( )( Tese de Doutorado) Faculdade de Educação Universidade de São Paulo.

5 3.Metodologia Os procedimentos metodológicos adotados durante as reflexões em torno dos desafios e possibilidades de análise dos registros de batismos das crianças negras livres da Paróquia Nossa Senhora Penha de França, coletados no Acervo da Cúria Metropolitana de São Paulo, embora tenha como suporte teórico- metodológico, os estudos sobre demografia da família, destacamos alguns elementos que possibilitam uma aproximidade com alguns vestígios do cotidiano da vida privadas das crianças negras livres. A paróquia Nossa Senhora de França era situada na atual região da Penha, fundada em 1796, localizada na freguesia da Penha, atualmente é considerada uma área de classe média na cidade de São Paulo, porém no período da escravidão, era uma região com alta densidade de população escravizada e/ou liberta, mas que com o advento a República e o ideário de modernização da cidade, passa a ser uma localidade considerada imprópria 4 para a população negra. Os registros de batismos condizentes Paróquia Nossa Senhora Penha de França correspondem ao período de 1881 até 1888, vale destacar que embora a freguesia da penha fosse uma região com alta densidade de população negra, não há registros de batismos de crianças antes de 1881, no acervo da Cúria Metropolitana, o que pode ser um vestígio da utilização por parte dos escravocratas de mecanismo de falsificação de registros das crianças negras livres. Para essa reflexão em torno da utilização dos registros de batismos como uma fonte documental para a história da educação, selecionamos 10 registros 5 entre os anos de 1875 e Conforme ilustra o quadro abaixo: 4 A Obra de Raquel Rolnik. A Cidade e a Lei. Legislação Urbana e territórios na Cidade de São Paulo.discorre sobre o processo de reurbanização da Cidade de São Paulo e expulsão compulsória da população negra da região central da cidade. 5 O critério de seleção da massa documental foi restrito, pois a escolha de uma massa documental de maior número não possibilitaria demonstrar dentro das normas do CBHE, as possibilidades e os desafios de análise que é o objetivo desse trabalho.

6 Quadro 1. Intervalo entre Nascimento e Batismo. Nome Data de Nascimento Data de Batismo Deodata 08/03/ /12/1875 Paulo 8/12/ /01/1876 Mile/ Maria 28/12/ /01/1876 Antonia 05/01/ /01/1876 Domitilla 12/01/ /01/1876 Pedro 03/01/ /02/1876 Franco 25/02/ /02/1875 Maria 10/03/ /03/1876 Olegário 02/03/ /03/1876 Domingas 20/03/ /03/1876 Fonte : Acervo da Cúria Metropolitana de São Paulo Quadro 2. Condição Jurídica dos Padrinhos. Nome Padrinhos Madrinhas Deodata Escravizado Liberta Paulo Liberta Mile/ Maria Escravizado Liberta Antonia Escravizado Liberta Domitilla Escravizado Escravizada Pedro Liberto Escravizada Franco Escravizado Liberta Maria Liberto Liberta Olegário Escravizado Liberta Domingas Escravizado Liberta Fonte : Acervo da Cúria Metropolitana de São Paulo

7 Quadro 3. Condição de Nascimento: Nome Condição de Observações Nascimento. Deodata Filha natural Só consta nome da Mãe Paulo Filho natural Só consta nome da Mãe Mile/ Maria Filha Legítima Pais João e Maria Joaquina Antonia Filha Legítima João Fernandes e Benedita Maria Domitilla Filha Legítima Emílio Antonio Maria Emilia da Assunção Pedro Filho Legítimo Batismo feito em Casa Maria do Carmo, não consta nome do Pai, Franco Filho Legítimo José Benedito e Gertrudes Maria Filha Legítima João Gonçalves (não consta nome da Mãe Olegário Filho Legítimo Galdino José de Oliveira e Benedita Maria das Candeas Domingas Filha Natural Maria e Bento da Cunha Fonte : Acervo da Cúria Metropolitana de São Paulo Umas das primeiras reflexões que os registros de batismos proporcionam em relação às crianças negras e o seu processo educativo é que essa fonte documental, retira os filhos e filhas de escravizados do anonimato, ou seja, com os registros é possível identificar nominalmente essa nova categoria da infância que emerge com a legislação de Em relação a condição familiar verificamos que a grande maioria das crianças registradas entre os anos de 1875 até 1876 na Paróquia Nossa Senhora de França são crianças legítimas, o que significa provavelmente que seus pais eram casados de acordo com a igreja católico, pois o fato a criança denominada ilegítima, não necessariamente era uma criança sem pai, como é amplamente divulgado pela historiografia, mas sim tratava-se de uma criança cuja união dos pais não era concebida na igreja católica.

8 Nesse conjunto de quadro apresentado em relação a condição jurídica dos padrinhos e madrinhas, dois aspectos importante devem ser pontuados, o primeiro é que podemos observar que em sua grande maioria a condição jurídica é divergente o que significa uma leitura dos pais em relação a nova condição dos seus filhos, sendo assim, a escolha pautava-se em dois mundos distintos: libertos e escravizados, o que conferia a essa criança negra livre uma proteção de acordo com a sua própria condição hibrida de liberdade, o que ampliava a rede de solidariedade para além dos limites do poder dos escravocratas. Segundo Portela ( 2012, p. 142) Os pais sabiam que, completado os oito anos de vigência da Lei do Ventre Livre, os escravocratas poderiam entregar essas crianças aos cuidados do Estado. Ao observar os dados já apresentado, percebemos que não foi o que aconteceu na província de São Paulo e em muitas outras, mas nos primeiros anos da referida lei essa situação não poderia ser antevista. Sendo assim, tendo padrinhos com diferentes condições jurídicas, a criança livre estaria protegida em dois mundos distintos, dos quais ela acabava fazendo parte e nos quais podia transitar: o mundo escravizado e o mundo livre. Nesse sentido, podemos compreender a escolha de padrinhos de condições jurídicas diferentes como uma micro luta popular, pois caso essas crianças livres fossem mantidas nas propriedades rurais elas estariam protegidas pelos pais biológicos e também pelo madrinha ou padrinho escravizado, no mundo escravo. Caso essas crianças fossem entregues a alguma instituição ou a particulares, os padrinhos libertos teriam a possibilidade de oferecer proteção no mundo livre.

9 4. Considerações Finais ; Os registros de crianças livres são um conjunto de fontes nas quais é possível obter informações restritas ao mundo privado das crianças negras, desvelando a identidade dessa nova categoria de infância. Ainda é uma fonte pouco utilizada no campo da historiografia educacional; pois trata-se de um processo educativo e de socializado de crianças que distanciam-se da instituição escolar, mas que servem como um conjunto rico de referencias em torno da historiografia da infância da criança negra livre brasileira.

10 REFERÊNCIAS ALANIZ, Anna Gicelle Garcia. Ingênuos e libertos: estratégias de sobrevivência familiar em épocas de transição ( ). Dissertação de Mestrado Universidade Estadual de Campinas, Campinas, CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil: Tradução de Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro; Brasília: Civilização Brasileira; INL, MATTOSO, Kátia. M. de Queirós. Escravidão. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 8, n. 16, p , NADALIN, Sergio Odilon. História e demografia: elementos para um diálogo. Campinas: Abep, Portela, Daniela Fagundes Iniciativas de atendimento para crianças negras na província de São Paulo ( ) ( dissertação de Mestrado) FEUSP. 2012

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