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1 BPI ESTUDOS ECONÓMICOS E FINANCEIROS Moçambique OÇAMBIQUE - U MOÇAMBIQUE - UM NOVO LUGAR NO XADREZ INTERNACIONAL (BREVE APRECIAÇÃO APÓS VISITA AO PAÍS AÍS) A economia Moçambicana registou uma performance assinalável nas últimas décadas, destacando-se positivamente face aos seus pares no continente africano: desde 2000, a economia registou uma taxa média de expansão de 7.2%. O país registou também progressos assinaláveis ao nível do desenvolvimento humano - acesso a água, cuidados de saúde, redução de pobreza extrema, são exemplos - bem como na melhoria do ambiente de negócios. A capacidade de implementação de políticas de estabilização macroeconómicas depois do conflito interno, de atracção de investimento directo estrangeiro melhorando o potencial de crescimento do país, e a ajuda financeira e assistência técnica providenciadas pelos doadores e organizações internacionais, possibilitaram progressos estruturais de assinalar e forneceram o impulso para a criação de condições de ressurgimento do sector privado. No entanto, o país mantém um grau de dependência ainda elevado dos donativos internacionais (embora decrescente) e os progressos de redução de pobreza e melhoria de qualidade de vida da população tornaram-se mais lentos e difíceis de alcançar. Junho 2012 Paula Carvalho Telef.: O ano de 2011 marcou um ponto de viragem importante para Moçambique pois os grandes projectos de investimento no sector mineiro iniciaram actividade e o país exportou carvão pela primeira vez. No futuro próximo, a economia deverá manter taxas de expansão próximas de 6%-7%, dado que o esforço de investimento vai perdurar, implicando maiores importações; acresce que mesmo os actuais projectos, já em laboração, enfrentam constrangimentos à utilização da totalidade da capacidade instalada devido a estrangulamentos na capacidade de transporte, entre outros. Mas a médio prazo, o potencial de expansão será provavelmente superior e as actuais estimativas poderão ser conservadoras. De facto, as recentes descobertas de gás natural colocam o país no centro das atenções de grandes empresas internacionais na área de energia pois tudo indica que possua reservas à escala mundial: quarta posição ao nível de reservas de gás natural depois da Rússia, do Irão e do Catar. Caso as actuais estimativas se confirmem, os contornos de desenvolvimento e crescimento económico alterar-se-ão provavelmente nu futuro próximo bem como a posição do país no panorama económico internacional. Apesar da percepção de baixo risco politico, elevado potencial de crescimento e oportunidades de investimento significativo na generalidade dos sectores de actividade económica, o sucesso não está ainda garantido, dependendo o futuro da forma como forem geridos os proveitos decorrentes da exploração de recursos naturais. Escapará Moçambique à chamada maldição dos recursos ou doença holandesa, cenário em que a apreciação cambial impediria o surgimento de actividade competitivas no sector de bens transaccionáveis? Conseguir-se-á obter um processo de crescimento e desenvolvimento inclusivo, isto é, em que a generalidade da população tire partido desta janela de oportunidade? Ainda é cedo para responder a esta questão. No entanto, é perceptível o esforço ao nível de toda a Administração Pública e dos responsáveis políticos para analisar soluções, conhecer exemplos internacionais, tirar partido da acessoria e aconselhamento técnico providenciados pelas várias entidades internacionais no terreno, de forma a evitar piores cenários. Existem também significativos desafios e barreiras a ultrapassar, designadamente no que se refere ao défice de infraestruturas e de recursos ao nível dos transportes, energia, saneamento, saúde; falta de mão-de-obra qualificada, inclusive nas áreas de engenharia mineira, civil, mecânica, electrotécnica, entre outras; áreas de saúde e educação; necessidade de alargar a base fiscal de modo a que os grandes investimentos contribuam mais para as receitas geradas internamente, permitindo a diminuição da dependência de doações e de crédito externo; o investimento em recursos humanos, com especial destaque para os mais jovens, não só nas áreas urbanas, mas também nas zonas rurais, garantindo o envolvimento e participação de todos os cidadãos no progresso económico do país. Vencer estes desafios é fundamental para que se alcance um crescimento económico sustentável, especialmente quando este assenta principalmente na exploração de recursos naturais não-renováveis

2 Moçambique - Forte de S. Sebastião na Ilha de Moçambique DEPAR ARTAMENTO AMENTO DE ESTUDOS ECONÓMICOS E FINANCEIROS Cristina Veiga Casalinho Paula Gonçalves Carvalho Carmen Mendes Camacho Teresa Gil Pinheiro Directora Coordenadora SubDirectora ANÁLISE TÉCNICA & MODELOS DE TRADING Agostinho Leal Alves Tel.: Fax:

3 1. 1. APRECIAÇÃO GLOBAL E PRINCIP RINCIPAIS RISCOS No âmbito do acompanhamento regular da economia moçambicana, voltámos a Maputo três anos após a nossa anterior visita, onde tivemos oportunidade de trocar impressões com autoridades locais, representantes do sector privado e das universidades. Este relatório pretende dar conta das nossas impressões posteriores à visita. A nossa apreciação global é positiva, sendo evidentes grandes melhorias desde a última visita, começando pelo aeroporto internacional, actualmente com condições para lidar com maior tráfego. É possível também identificar melhorias na limpeza das principais artérias da cidade, onde o volume de tráfego se intensificou e a frota automóvel está mais modernizada. Acresce referir a presença de inúmeros estrangeiros, sendo possível identificar nacionalidades muito diversas, desde asiáticos a norte-americanos, passando por brasileiros e naturalmente, portugueses. De facto, a obtenção de visto de entrada no país é relativamente fácil e o valor mínimo de investimento, por não residentes, para ter acesso a condições vantajosas relativamente à transferência de lucros para o exterior e repatriação do capital investido, ronda 90 mil dólares 1. Do ponto de vista do investidor internacional, Moçambique é um país próspero, com inúmeras oportunidades de negócio e considerável potencial de crescimento em praticamente todos os sectores da actividade económica. Para além das actividades mais directamente relacionadas com a exploração de recursos naturais, outros sectores oferecem oportunidades atractivas, desde a agricultura e a silvicultura, indústria (agro-indústria, por exemplo), construção e serviços (turismo, actividades comerciais e serviços prestados às empresas, tais como contabilidade e consultoria, etc). Apesar de percepção de baixo risco político e do potencial de crescimento no futuro próximo, há ainda riscos e desafios importantes a ultrapassar: O crescimento que se perspectiva deverá beneficiar toda a população, Estrutura demográfica em 2010 devendo também ponderar-se o benefício inter-geracional - As questões Grupo Etário População % que se colocam relativamente ao problema do "crescimento económico (milhares habitantes) inclusivo" são actualmente fruto de um intenso debate e troca de ideias na 0-14 anos 10,170 45% sociedade moçambicana, envolvendo os media, responsáveis governativos e ,347 19% ,033 14% entidades da sociedade civil. Os jornais têm frequentes artigos sobre o assunto, ,071 9% realizam-se conferências e debates sobre o tema e as autoridades estão em ,289 6% contacto com vários especialistas internacionais, nomeadamente de países % com experiência neste tipo de questões, como a Holanda, Dinamarca e Noruega. > % Importa considerar que a própria estrutura demográfica constitui um desafio Total 22,417 neste contexto: em 2010, 45% da população de Moçambique tinha menos de Fonte: INE. 15 anos; a taxa de desemprego é muito elevada (a OCDE estima em 27%) e a proporção da população no sector informal da actividade económica é maioritária. 1 Sitio do Centro de Promoção ao Investimento, CPI, em 3

4 Desigualdades e problemas de governância? - Alguns observadores referem desigualdades crescentes entre a população; em particular, nas zonas onde se desenvolvem os grandes projectos de investimento, existem alguns problemas de integração da população local; é certo que a esta questão não será alheio o problema da falta de qualificação/educação dos recursos humanos, mesmo para tarefas não especializadas; designadamente ao nível de competências de relacionamento e organização pessoal, as chamadas "soft skills". A necessidade de uma maior transparência, nomeadamente no que diz respeito ao envolvimento de dirigentes políticos em questões empresariais (por exemplo, estabelecendo regras e delimitações à semelhança de exemplos já testados noutros países) deverá também ser reforçada. Falta de mão-de-obra qualificada - Esta é uma das maiores limitações referidas pelos empresários e representantes do sector privado. A mão-de-obra local especializada é escassa - nomeadamente nas áreas de engenharia de minas, mecânica, civil, entre outras - originando alguma concorrência entre as maiores organizações/empresas, que disputam os quadros locais mais qualificados. Esta limitação reflecte, por um lado, a oferta existente ao nível das áreas de especialização, que até há bem pouco tempo privilegiava áreas de humanidades em detrimento de tecnológicas; a preferência dos estudantes; a qualidade do ensino, nomeadamente ao nível da docência a partir do ensino básico, reflectindo-se posteriormente na formação do educando. Refira-se que em 2010 apenas 6% dos estudantes do ensino superior estavam matriculados nas áreas de Engenharias, Indústria e Construção; em contrapartida, 30% estudavam Educação e 45% Ciências Sociais, Gestão e Direito. Limitações ao nível de infra-estruturas, que são precárias ou Indicadores de Saúde inexistentes - as estradas estão em más condições, as ferrovias Variação por mil habitantes têm capacidade reduzida e não há uma ligação rodoviária nem Pessoal do SNS 16,983 33,402 97% 1.5 ferroviária adequada entre o Norte e o Sul do país, sendo muitas Superior % 0.1 vezes menos oneroso importar bens da África do Sul do que Médios % 0.3 transportá-los de províncias do norte, onde a atividade económica Hospitais centrais Hospitais rurais é mais orientada para a agricultura; a eletricidade só cobre 36% Centros de Saúde do país, e o acesso à água e saneamento ainda é exclusivo de Consultas Externas 20,676,201 26,185,269 27% - uma parte muito pequena da população, nomeadamente dos Partos 435, ,702 43% - que vivem nas capitais provinciais ou próximo. E a disponibilidade de meios e equipamentos no sector da saúde Fonte: INE. ainda é escassa: em 2006 funcionavam 12 hospitais centrais em todo o país, número que encolheu para 11 em 2010 (2 em Indicadores de desenvolvimento Maputo, cidade, e 1 em cada uma das restantes províncias); Variação Esperança de vida ao nascer refira-se, no entanto, que aumentou o número de hospitais rurais; Mortalidade infantil (por mil nados-vivos) o número de centros de saúde, de consultas externas e de partos Taxa de analfabetismo aumentou, assim como o pessoal afecto ao Serviço Nacional de Fonte: INE. Saúde, mas este aumento verificou-se sobretudo ao nível do pessoal com funções básicas, elementares ou de apoio geral. De facto, o pessoal com funções superiores (médicos) passou de 737 em 2006 para 1426 em 2010, 1 médico por cada dez mil habitantes; e mesmo o pessoal com funções médias (enfermeiros) é ainda escasso, 3 por cada dez mil habitantes. Assim, o actual ambiente e as perspectivas económicas futuras do país oferecem efectivamente oportunidades significativas; mas os obstáculos e os desafios a superar pelas autoridades moçambicanas e sociedade em geral para o alcance de um crescimento económico sustentável e inclusivo são também de uma dimensão muito considerável. Acresce referir que a confirmação de reservas de petróleo no Norte do país, embora muito favorável do ponto de vista puramente económico, intensificaria os desafios e pressões futuras ao nível da necessidade de maior transparência e imperativos de governância DESENVOL ESENVOLVIMENTOS VIMENTOS RECENTES Nos últimos anos o posicionamento de Moçambique no radar de investimento internacional mudou consideravelmente. Há não muitos anos atrás, o país era sobretudo visto como um dos melhores exemplos dos resultados positivos das políticas de estabilização macroeconómica em países que viveram conflitos bélicos. Durante as últimas duas décadas, desde o fim da guerra civil, o país tem beneficiado da ajuda 4

5 externa, através de donativos, perdão da dívida ou por meio de linhas de crédito concedidas por organizações internacionais com condições favoráveis (BEI, FMI, etc). Entretanto, tirando partido de aconselhamento e consultoria técnica providenciada por diversas organizações internacionais no terreno, particularmente o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, o Governo pôs em prática um conjunto de medidas com o objectivo de redução da pobreza e apoio ao desenvolvimento, melhoria do ambiente de negócios, revitalização do sector privado, aumento da transparência e responsabilização das classes dirigentes, prosseguindo o fim último de gerar um processo de crescimento e desenvolvimento sustentado que reduzisse (ou eliminasse) a dependência dos donativos internacionais. Estas políticas incluíram a adopção de um conjunto de medidas destinadas a atrair investimento directo estrangeiro, envolvendo a criação de um quadro fiscal favorável e outras condições atractivas, que na época se destinaram a compensar os investidores externos pelo risco político e económico significativo, no período posterior ao conflito bélico. O maior desses grandes projectos de investimento e um dos primeiros a iniciar as actividades no país foi a fundição de alumínio Mozal, maioritariamente detida pelo grupo australiano BHP Billiton, actualmente ainda a maior empresa do país, responsável por uma parte significativa das exportações de Moçambique - cerca de 50% das exportações de bens nos últimos dois anos. Refira-se que os grandes projectos de investimento representaram 73% do total das exportações em 2011, sendo responsáveis por cerca de 37% das importações. Nos últimos cindo anos a situação alterou-se significativamente, dada a descoberta de importantes reservas de recursos naturais, nomeadamente na área da energia, atraindo as atenções de investidores internacionais das maiores economias emergentes, com destaque para a China, Brasil e Índia. De facto, para além de recursos florestais e água em abundância, Moçambique dispõe de pedras preciosas incluindo ouro, e possui vastas reservas de carvão e de gás natural, colocando o país na fileira dos potenciais maiores fornecedores a nível mundial. Para além de que continuam a avançar as prospecções de petróleo na bacia do Rovuma, no norte de Moçambique marcou um ponto de viragem para o país, pois o primeiro dos megaprojectos na área da energia iniciou actividades e ocorrerem as primeiras exportações de carvão. Considerando os vastos recursos naturais de Moçambique, o país está estrategicamente bem posicionado para abastecer os mercados emergentes mais dinâmicos, nomeadamente o Brasil, Índia e China, países com os quais tem vindo a estreitar o relacionamento. A forma como as autoridades locais gerirem os proveitos esperados da exploração dos recursos naturais será fundamental para ditar o futuro do país e as probabilidades de alcançar um crescimento inclusivo e um desenvolvimento sustentável. 3. TURAL - U 3. CAR ARVÃO E GÁS NATURAL - UMA JANELA DE OPORTUNIDADE PARA REFORMULAR A ESTRUTURA ECONÓMICA E SOCIAL O sector da indústria extractiva representa apenas cerca de 1,5% do PIB, enquanto o peso do sector da energia se situa perto de 5%. No entanto, atendendo aos vastos recursos disponíveis e aos projectos de investimento já em curso ou prospectivos (no caso do gás natural), estes sectores deverão revelar um dinamismo significativo nos próximos anos; a OCDE antecipa ritmos de expansão superiores a 10% ao ano. De uma forma resumida, a situação actual e prospectiva nos sectores de carvão e gás natural é a seguinte: Carvão - O Governo concedeu 112 licenças a empresas nacionais e não residentes durante os últimos dois anos. Em 2011, a produção de carvão atingiu 1 milhão de toneladas (mt); em 2012, deverá aumentar para 5.93 mt, atingindo a longo prazo 110 mt por ano desde que entretanto surjam estruturas de escoamento adequadas, de acordo com estimativas da OCDE Os principais intervenientes no sector são: Vale, empresa brasileira que investiu cerca de 1.7 mil milhões de USD na mina de Moatize; anunciou um investimento adicional de USD 6 mil milhões, a fim de expandir a capacidade de 11 mt/y para 26 mt/y em Rio Tinto, uma empresa australiana, que assumiu o controle de 22 licenças de exploração, incluindo 65% do projecto de mineração de Benga. A produção combinada estima-se em 25 mt/y em Beacon Hill, uma empresa britânica, que exportou o primeiro carvão em Dezembro passado (cerca de 11 mt), usando camiões para o porto da Beira, devido à saturação da linha-férrea do Sena. Jindal Power and Steel of India, deve iniciar operações antes do final do ano. No entanto, as evidências apontam para a existência de várias restrições ao desenvolvimento do sector,, sobretudo ao nível de falta de vias e meios de transporte ferroviário e da capacidade portuária, limitações que actualmente já pesam sobre a produção (a EIU 5

6 estima que a capacidade instalada seja de, aproximadamente, 40 mt/y). A maneira mais viável de transporte de carvão de Tete, onde as mais importantes reservas de carvão estão localizadas, é através da linha férrea de Sena e do porto da Beira, com uma capacidade para lidar com perto de 6 mt/y. Entretanto, já está a ser construída uma nova linha ferroviária através de Malawi, devendo ligar Tete ao porto de Nacala, com capacidade para navios de maior porte. Electricidade - A cobertura do país ainda é reduzida. Apenas cerca de 36% do território tem electricidade, pelo que este ainda é um obstáculo significativo para o desenvolvimento de qualquer actividade económica. A título de exemplo, mesmo para empresas de telecomunicações esta é uma restrição pois existem partes do território que estão cobertas pela rede de comunicações móveis, mas não têm electricidade. Em Novembro passado o governo lançou o projecto CESUL, um consórcio formado por várias empresas, incluindo a REN Portuguesa, a EDM - a empresa de electricidade de Moçambique, a ESKOM da África do Sul, a Eletrobrás do Brasil e a EDF, cuja principal finalidade é construir uma linha de transmissão regional, para garantir a distribuição de electricidade a partir das barragens hidroeléctricas localizadas na região norte (Cahora Bassa e Mpanda Nkuwa) para a parte sul do país. Este consórcio deverá envolver um investimento de cerca de USD 2 mil milhões. Gás - A descoberta de extensas reservas de gás natural off-shore, sobretudo desde 2011, tem constituído um dos principais desenvolvimentos recentes com potenciais implicações económicas de monta. Segundo a OCDE, se as actuais estimativas estiverem correctas, Moçambique terá a quarta maior reser eserva de gás natural mundial, a seguir à Rússia, Irão e Qatar. Em Setembro passado, a Anadarko Petroleum anunciou descobertas no bloco Área 1 ascendendo a 623 biliões de metros cúbicos de gás; a ENI, a petrolífera italiana, encontrou cerca de 424 biliões de metros cúbicos de reservas de gás. De acordo com observadores, a extensão das reservas encontradas justifica a construção de uma unidade produtiva de grandes dimensões de gás liquefeito (LNG) em Moçambique. Apesar de, até ao momento, terem tido reduzido impacto sobre a actividade económica, estas descobertas de gás natural podem alterar completamente os contornos de desenvolvimento económico, social e humano de Moçambique a médio/longo prazo. 4. O CENÁRIO CENÁRIO MACROECONÓMICO E OS RISCOS EM PERSPECTIVA O alargamento da base fiscal constitui um dos maiores Indicadores Macroeconómicos desafios que as autoridades enfrentam nos próximos anos, tendo (e) 2012(p) 2013(p) como objectivo último a geração de receitas internamente que possibilitem ao Estado cumprir com as suas funções de fornecimento OCDE - Maio 2012 PIB real (tx var anual) de serviços essenciais à população e a formação de uma rede de PIB real per capita (tx var anual) assistência social sólida e alargada; e também a redução da Taxa de Inflação Saldo Orçamental (% do PIB) dependência do exterior: os donativos internacionais e o crédito Balança Corrente (% do PIB) concedido por organizações internacionais ainda representam cerca FMI - Abril 2012 de 40% do orçamento de Estado (refira-se, no entanto, que esta PIB real (tx var anual) dependência já ultrapassou 60% na década de 90). Deste modo, é PIB real per capita (tx var anual) fundamental uma maior capacidade do Estado para cobrar receitas, Taxa de Inflação em primeiro lugar, para minorar o deficit de infra-estruturas, factor Saldo Orçamental (% do PIB) Balança Corrente (% do PIB) de restrição ao desenvolvimento em todos os sectores e cujas Economist Intelligence Unit - Maio 2012 necessidades de investimento envolvem grandes quantidades de PIB real (tx var anual) fundos. Em segundo lugar, para promover o crescimento inclusivo, PIB real per capita (tx var anual) n.a. n.a. n.a. reduzir a pobreza e, de uma forma genérica, cumprir as metas Taxa de Inflação estabelecidas no Plano de Acção para a Redução da Pobreza (PARP Saldo Orçamental (% do PIB) ), cujo enfoque é o seguinte: aumento da produção agrícola, Balança Corrente (% do PIB) promoção de emprego associado ao desenvolvimento de um sector Ministério das Finanças - Maio 2012 PIB real (tx var anual) n.a. robusto de pequenas e médias empresas; investimento no PIB real per capita (tx var anual) n.a. n.a. desenvolvimento humano e social. Taxa de Inflação n.a. Deve reconhecer-se que as circunstâncias cunstâncias iniciais que estiveram subjacentes às condições favoráveis obtidas pela primeira vaga de investidores nos grandes projectos de Saldo Orçamental (% do PIB) Balança Corrente (% do PIB) n.a. n.a. Fonte: OCDE, FMI, EIU, Ministéroo das Finanças de Moçambique. Nota: Os saldos orçamental e da balança corrente incluem donativos internacionais. 6

7 investimento - elevado risco económico e político -, já não estão presentes, pois Moçambique tem já um historial de estabilidade económica e social, para além do sucesso evidente na capacidade de implementação de políticas. Assim, é justificável que as condições de determinados contractos possam ser revistas, repensadas, de modo que os rendimentos provenientes de exploração de recursos naturais, a maioria deles não renováveis, possa contribuir para fazer face às necessidades de desenvolvimento social, económico e humano do país. O que pode acontecer por via de um incremento da carga fiscal - os megaprojetos historicamente têm contribuído com menos de 1 pp do PIB para a receita fiscal (em 2011, segundo a execução orçamental, representaram 3,5% da receita total do Estado) - ou aumentando as royalties nomeadamente no sector de mineração e nos futuros investimentos na exploração de gás natural. Os responsáveis governativos estão actualmente a analisar todas as possibilidades e avaliar as várias opções, não havendo ainda conclusões definitivas nesta matéria. Este assunto tem sido acompanhado atentamente pelos países doadores, que têm colaborado com as autoridades no sentido de encontrar formas de tornar o crescimento e desenvolvimento em perspectiva mais inclusivo, encontrando formas de a população local tirar também partido da instalação dos grandes projectos de investimento - a título de exemplo, peritos noruegueses vão participar na formação de técnicos e na elaboração de um projecto de desenvolvimento social, partilhando a sua própria experiência; as autoridades dinamarquesas estão também envolvidas, apoiando alguns movimentos civis que desenvolvem várias iniciativas nesta área e ajudando a trazer a discussão para o cidadão comum. Nos próximos anos, a economia Moçambicana vai provavelmente continuar a expandir-se acima de 6% - 7%. No entanto, o potencial de crescimento parece ser muito maior: alguns observadores sugerem mesmo que o crescimento económico poderá alcançar a casa dos dois dígitos, mencionando valores em torno de 14% -15%. As actuais projecções são possivelmente conservadoras e cautelosas, aguardando a definição de posições oficiais em alguns aspectos relacionados com a exploração dos recursos naturais e esperando por avanços mais concretos relativamente à exploração do gás natural. Recorde-se que o país registou uma expansão média de 7.2% na última década, superando os seus pares na região. As projecções do Governo apontam para uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) este ano de 7.5%; o FMI é mais prudente e antecipa um crescimento de 6.7%, principalmente devido à aparente restrição à política de concessão de crédito pelas instituições financeiras, possivelmente reflectindo políticas da banca comercial, dadas algumas restrições sentidas pelas instituições mãe; a Economist Intelligence Unit (EIU), cuja postura é tradicionalmente cautelosa ou mesmo pessimista, espera que a economia se expanda, em média, 8% nos próximos anos, reflectindo a expansão do sector da mineração. Finalmente, a OCDE, espera um crescimento de 7.5% para 2012 e 7.9% em Esta é a projecção mais recente. Em relação às perspectivas de crescimento num horizonte mais Produto Interno Bruto - Evolução histórica e perspectivas largo (FMI projecta 7.8% no período ) salientam-se os 14 4 seguintes aspectos: em primeiro lugar,, o crescimento nos próximos 12 anos deve ser negativamente afectado pelo aumento significativo de importações relacionadas com a necessidade de investimento 3 8 dos megaprojetos, mesmo antes de estes iniciarem a produção a contribuírem positivamente para o crescimento; estas hipóteses já estão incorporadas nos vários cenários disponíveis; em segundo lugar, de acordo com simulações do FMI, os novos projectos de investimento nos sectores de extracção de minério e da energia deverão ter um impacto favorável na taxa de crescimento potencial Moçambique - PIB anual % (ELE) África Subsariana - PIB anual % (ELD) em cerca de 2 pp a 4 pp. A dimensão desse impacto dependerá Moçambique - PIB per capita (PPS; 2000=100) sobretudo do sucesso das autoridades no desenvolvimento de um Africa Subsariana - PIB per capita (PPS; 2000= 100) Fonte: FMI (WEO Abril 2012) sector privado robusto fora da área dos megaprojetos; da existência de uma adequada rede de infra-estruturas e de protecção social (transportes, saneamento básico, rede de cuidados de saúde e esquemas de protecção social para os mais vulneráveis), que apesar de já existir, está numa fase embrionária (caso de transferências para os mais desfavorecidos, incluindo idosos, grávidas, etc) ou dispõe de condições deficitárias (caso das redes de transportes e de cuidados de saúde, por exemplo); os resultados também dependerão da determinação das autoridades na obtenção de uma distribuição equitativa dos proveitos provenientes dos recursos naturais, não só entre a população actual como também tendo em perspectiva as gerações futuras, particularmente tendo em conta que os recursos (caso do carvão e gás natural) não são renováveis. As autoridades pretendem manter a inflação na casa de um dígito, ou seja, abaixo de 10%, objectivo que também é importante 7

8 considerando as perturbações que ocorreram em Setembro de 2010, Evolução da Taxa de Câmbio associados ao aumento dos preços de bens de consumo básico, como 55 6 o pão e os transportes. Para 2012, o FMI projecta uma taxa média Apreciação de 34% 6 de inflação de 7,2%, enquanto o EIU antecipa que poderá mesmo 50 5 situar-se em níveis mais baixos graças à queda antecipada na cotação 45 5 dos produtos alimentares nos mercados internacionais. Com efeito, 4 Moçambique importa praticamente todos os bens de consumo da 40 4 África do Sul e da União Europeia, o que significa que os preços 3 35 internos estão particularmente sujeitos à volatilidade dos preços 3 internacionais dos alimentos e energia, bem como da taxa de câmbio Em relação à moeda nacional, o metical (MT) tem registado uma Dez.08 Mai.09 Out.09 Abr.10 Set.10 Fev.11 Jul.11 Dez.11 tendência de valorização desde finais de cerca de 34% contra EUR/MZN ZARMZN (ELE) Fonte: Bloomberg o euro e 39% face ao rand sul-africano. O aumento das taxas de juro como forma de combate à inflação e as significativas entradas de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) são os principais factores que explicam a tendência do metical: de acordo com o Banco de Moçambique, os fluxos anuais de IDE situavam-se tipicamente em torno de USD 800 milhões quando em 2011 ultrapassaram USD 2 mil milhões. Embora a orientação da política monetária se tenha alterado desde Agosto de 2011, quando o banco central efectuou o primeiro corte das suas taxas directoras, o metical tem persistido forte em relação às moedas mais importantes do ponto de vista das trocas comerciais, o euro, o rand e o dólar, embora a tendência se tenha gradualmente vindo a esbater. A expectativa de uma pressão contínua proveniente de significativas entradas de IDE - a EIU antecipa entradas superiores a 90 mil milhões de euros na próxima década, valor que tem vindo a ser sucessivamente revisto em alta - e o esforço para controlar a inflação deverão manter o metical em níveis relativamente fortes, embora o Banco Central deve tentar moderar esta tendência, de forma a estimular (ou pelo menos, a não ser um factor impeditivo) o desenvolvimento da produção doméstica, que tem vindo a perder competitividade para os fornecedores internacionais, em particular a África do Sul. O risco político em Moçambique é percepcionado como sendo reduzido, apesar de algum desconforto por parte de alguns sectores dada a presença de elementos da Frelimo, o partido dominante, em quase todas as iniciativas empresariais de vulto e não obstante reparos quanto ao aumento da corrupção. Nas últimas eleições presidenciais realizadas em 2009, o Presidente Armando Guebuza obteve 75% dos votos, enquanto o líder da Renamo, o Sr. Dhlakama apenas conseguiu 16% das preferências do eleitorado. Nas eleições para a Assembleia Nacional, a Frelimo ganhou por esmagadora maioria e obteve 191 assentos parlamentares, enquanto a Renamo se quedou por 49 lugares e a força política mais recente, Movimento Democrático de Moçambique, cujo líder é Davis Simango, que foi autorizado a concorrer apenas em quatro círculos, alcançou apenas 8 assentos no Parlamento. O Presidente Guebuza já declarou que não pretende candidatarse à reeleição em 2014, (o que só seria possível com uma alteração nas regras da Constituição, dado que o Presidente pode candidatarse no máximo a dois mandatos, de quatro anos cada). No entanto, é possível que sejam conhecidas novidades sobre este assunto em Outubro próximo, quando a Frelimo realizar o seu congresso. O actual Primeiro-Ministro, Aires Ali, surge como um dos candidatos naturais, mas todas as possibilidades estão ainda em aberto. De qualquer forma, a presença de grandes multinacionais e de projectos de investimento de vulto essenciais para o crescimento e o desenvolvimento do país, desempenham também um papel importante garantindo a estabilidade do ambiente político. Paula Carvalho 8

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