O APERFEIÇOAMENTO PROFISSIONAL E INTELECTUAL DA REDE OPERÁRIA CALÇADISTA NA REGIÃO DE FRANCA-SP

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1 255 O APERFEIÇOAMENTO PROFISSIONAL E INTELECTUAL DA REDE OPERÁRIA CALÇADISTA NA REGIÃO DE FRANCA-SP Glenda Roberta Pereira (Uni-FACEF) Prof. Dr. Daniela de Figueiredo Ribeiro (Uni-FACEF) INTRODUÇÃO Ao se observar o atual cenário econômico-social brasileiro, pode-se caracterizá-lo pela ascensão da violência, do tráfico de drogas, da prostituição e da criminalidade em geral, que atingem diretamente a camada mais empobrecida da população, e indiretamente as classes superiores. Uma característica dessas camadas inferiores é a exclusão do sistema educativo e, conseqüentemente, a impossibilidade de obter capital escolar, fundamental ao acesso aos melhores cargos e salários. Algo já vem sendo feito para que tal realidade seja modificada, como o Programa Universidade para Todos (ProUni) e o Programa de Financiamento Estudantil (FIES), mas ainda não é o suficiente. Pensando nisso, foi criado o atual projeto de pesquisa, que recortou da sociedade uma pequena parte a ser estudada e compreendida. A parcela selecionada foi a classe operária das indústrias calçadistas de Franca-SP que sofre, na maioria das vezes, com o baixo nível de escolaridade, ora por não ter concluído os estudos, ora pela baixa qualidade de ensino a ela oferecida. Conseqüentemente, não têm condições de desenvolver seu potencial intelectual, e melhorar seu emprego e remuneração. Em contrapartida, será pesquisado também o nível de escolaridade dos proprietários de indústrias calçadistas, com o intuito de comparálos aos seus funcionários. Portanto, o objetivo do estudo é pesquisar o nível de escolaridade, instrução e intelectualidade desses operários e chefes e, através do resultado encontrado, conhecer sua influência e participação na manutenção e/ou aprofundamento da desigualdade econômica e social na região de Franca-SP. Teoricamente, a pesquisa fundamentar-se-á na leitura de Paulo Freire em relação à educação e influência social. O intuito dessa abordagem é relacionar o

2 256 poder transformador que a educação oferece, e como pode contribuir para modificação da realidade social. Sua concepção a respeito do homem como criador e transformador do mundo e da cultura também será abordada como referência. Logo, em análise comparativa ao referencial teórico, serão relacionados os dados relativos aos sujeitos da pesquisa (operários e proprietários), quanto à educação que possuem e ao poder da crítica e ação dela advinda. Os dados para a criação de estatísticas e análise da realidade serão obtidos através de questionários e entrevistas semi-estruturadas. As respostas resultantes serão interpretadas e correlacionadas ao contexto cultural e sócio-econômico mais amplo, e também ao ambiente de trabalho existente nessa região. 1 JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS O mercado de trabalho, caracterizado pelo capitalismo acirrado e pela idéia neoliberalista de meritocracia, fez com que a escola se tornasse uma instituição de socialização de jovens, cuja mão-de-obra é aproveitada pela sociedade. Assim, segundo a ideologia capitalista, a oportunidade é igual para todos, porém terão posições profissionais e sociais melhores aqueles que se destacarem dentre os demais. Dessa forma, a escola pública, que é a principal responsável pela formação básica da parcela mais carente da população, acompanha as leis do mercado, e oferece ao estudante os requisitos necessários para tornar-se útil ao processo produtivo, como hábitos e comportamentos de convívio em sociedade. Entretanto, não é oferecido a ele oportunidade de desenvolver seu raciocínio crítico, dificultando sua análise do ambiente em que vive e, conseqüentemente, tornando-o submisso e muitas vezes incapaz de pleitear sozinho uma vaga nos níveis mais altos da hierarquia social. Reis (1990, p. 7), em seu estudo sobre educação para a democracia política, afirma que sendo a crítica uma das características do sistema, não há como fugir da transcendência da educação, sem a qual, a crítica tem pouca consistência, validade escassa. Dessa forma, crianças carentes são inseridas em uma realidade da qual não têm força para fugir. Elas aceitam o método de ensino que o governo e a sociedade lhe impõem, e dela pouco ou nada aproveitam, somente o necessário para

3 257 considerarem-se alfabetizados. Assim, quando essas crianças e suas famílias vivem de forma precária, muitas abandonam a escola para trabalhar e ajudar no orçamento familiar o que engrossa as estatísticas da evasão escolar. É como um círculo vicioso no qual a falta de educação gera pobreza e a pobreza gera a falta de educação. (HOFMEISTER, 2006, p. 8) Crianças não devidamente educadas se tornarão jovens capacitados apenas para ocupar os menores lugares na hierarquia do mercado de trabalho, ou partirão para segmentos marginais, como a prostituição ou o tráfico de drogas. Tal fato contribui para o aumento da desigualdade social, já que quanto menor o nível de emprego ocupado, menor será o salário, ou seja, quem tem pouco continuará com pouco, e os mais abastados terão cada vez mais oportunidades de desenvolveremse. Pinsky (2001, p. 109), afirma também que (...) para o futuro só vejo duas possibilidades: ou fazemos um importante investimento social, que deverá ser referendado por toda a sociedade, ou assumimos o risco de uma sociedade dicotomizada. Nesse caso, devemos providenciar já reforços de nossos prédios e casas. O acesso ao nível superior para os pobres tornou-se uma utopia. Faculdades particulares nem sempre oferecem mensalidades acessíveis, e as públicas são ocupadas, em grande parte, por aqueles que tiveram um bom ensino básico e fundamental, advindos das escolas e colégios particulares. O governo oferece alguns programas de inclusão, como o FIES (Programa de Financiamento Estudantil), que tem o intuito de financiar a graduação no Ensino Superior daqueles que não têm condições de arcar com os custos dela decorrentes, e o ProUni (Programa Universidade para Todos), que oferece bolsas de estudos parciais e integrais a alunos aprovados em processos seletivos exclusivos. Entretanto, tais programas não conseguem atender à grande demanda de jovens que têm interesse em especializar-se, o que traz como conseqüência uma sociedade repleta de jovens sem formação suficiente para ocuparem cargos que lhe ofereçam uma melhor remuneração, e planos de carreira. Ioschpe (2004, p.138), em seu estudo sobre a educação e o desenvolvimento econômico no Brasil, afirma que à medida que os processos produtivos vão ficando mais complexos e aumenta a

4 258 demanda por qualificação universitária, o país engatinha e se deixa ultrapassar em termos de qualificação. Um exemplo é a rede operária das indústrias de calçados de Franca-SP. Ela é composta de pessoas advindas das classes média e baixa da sociedade, ou seja, por quem não teve boa formação escolar e, em sua maioria, não possui ensino superior, ou mesmo o ensino médio completo. Essas pessoas ingressam no ramo calçadista ainda jovens (muitas delas ainda crianças), e lá permanecem, geralmente, até sua aposentadoria. Realizam funções como: passar cola, passar fitas, furar peças, pregar ilhoses, pespontar, costurar, chanfrar, cortar linhas e dobrar. Nenhuma dessas funções exige mais que o ensino fundamental para sua realização, por tratarem-se de cargos inteiramente operacionais, os quais independem de conhecimento científico e cultural. Todavia, há quem não queira permanecer dentro de uma fábrica de calçados até que chegue sua aposentadoria. Jovens que não tiveram chances de estudar buscam oportunidades de desenvolvimento intelectual, objetivando alcançar melhores empregos e, conseqüentemente, melhorar seu salário e nível de vida. Porém, como fora anteriormente citado, as escolas, os cursos de especialização, as faculdades particulares e os cursos pré-vestibulares custam caro (em relação ao que operários de indústrias podem pagar), impossibilitando-os de concretizarem seu objetivo. Este estudo é importante uma vez que quanto mais conhecimento, informação, capacidade de interpretação e raciocínio tem um funcionário (mesmo que de chão de fábrica), mais a empresa poderá capacitá-lo para empregar seu potencial no progresso tecnológico de sua organização. Dias e Dias (1999, p. 63), em conclusão à pesquisa realizada entre educação versus produtividade, afirmam que quanto maior o crescimento da educação total dos países, maior é a taxa de crescimento de suas produtividades e, conseqüentemente, de seu produto total. O Artigo 5º da Constituição Federal diz que todos são iguais perante a lei. Essa afirmação remete-nos à premissa que, se todos são iguais, todos possuem os mesmos direitos, incluindo boa formação escolar e emprego digno, que lhes possibilite mais do que somente a subsistência de sua família. Belloni, Magalhães e Souza (2000, p. 29), dizem que um dos enfoques de seu estudo sobre políticas públicas pauta-se em uma concepção de sociedade voltada para a justiça e

5 259 igualdade, construída a partir da reflexão e da crítica às propostas vigentes, baseada em uma teoria mítica e histórica da educação. Este estudo tem como objetivo geral investigar de que forma a educação, como um índice de desenvolvimento social, é tratada na região de Franca-SP, através do levantamento do capital escolar de funcionários e proprietários de indústrias calçadistas. Porém, o termo educação engloba outras terminologias, como instrução, intelectualidade e escolaridade, cujos significados, diferenças e correlações serão pesquisadas e demonstradas ao término do estudo. Como objetivo específico procurar-se-á relacionar o resultado da pesquisa com o desenvolvimento humano e transformação social. Durante a pesquisa procurar-se-á responder a algumas questões, dentre elas: Quem estaria mais propenso a elevar-se socialmente: o sujeito com nível escolar elevado, ou aquele qualificado e experiente naquilo que faz? De que forma o conhecimento pode interferir em sua ascensão social? Qual a diferença intelectual e de escolaridade entre os funcionários da indústria calçadista e os proprietários? E como se pode definir essa diferença, quando ocorrer? Como relacionar o nível de instrução com o nível de desigualdade social? Qual o valor atribuído à educação pelos sujeitos pesquisados? As respostas a essas questões poderão colaborar para que os objetivos da pesquisa sejam alcançados. 2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Tendo em vista que o objetivo desse estudo é pesquisar a relação entre o nível de instrução, escolaridade, intelectualidade e o aperfeiçoamento profissional dos operários das fábricas de calçados de Franca-SP e região, há a necessidade de apresentar pesquisas bibliográficas e de campo, com o intuito de conceituar esses termos e investigar a real situação intelectual e escolar desses trabalhadores. A princípio, o estudo bibliográfico concentrar-se-á na leitura dos teóricos a respeito de educação, desenvolvimento social, e cidadania. Assim, serão conhecidas as contribuições científicas sobre o tema, buscando selecionar, analisar e interpretar a teoria já existente. Serão feitas comparações entre opiniões e estudos já realizados, objetivando estabelecer parâmetros de análise.

6 260 Em âmbito exploratório, serão feitas pesquisas junto às diversas indústrias de calçados de Franca-SP e região, obtendo dados sobre a escolaridade dos trabalhadores, os benefícios educacionais a eles já destinados, e seu interesse de progressão intelectual. Além disso, os proprietários das empresas pesquisadas também serão questionados a respeito de seu capital escolar, com o intuito de compará-lo ao de seus subordinados. A primeira etapa da pesquisa exploratória consistirá em aplicar questionários para no mínimo cinqüenta funcionários e dez proprietários, procurando conhecer seu nível escolar, intelectual e de instrução. A segunda etapa apresentará entrevistas a pelo menos dez funcionários e cinco proprietários, com o intuito de obter informações qualitativas a respeito de seu nível educacional, e o valor a ele atribuído.

7 261 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELLONI, Isaura; MAGALHÃES, Heitor de; SOUZA, Luzia Costa. Metodologia de Avaliação em Políticas Públicas. São Paulo: Cortez, DIAS, Joilson; DIAS, Maria Helena Ambrósio. Crescimento Econômico, Emprego e Educação em uma Economia Globalizada. Maringá: Eduem, HOFMEISTER, Wilhelm (editor). Educação e pobreza na América Latina. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer, IOSCHPE, Gustavo. A ignorância custa um mundo O valor da educação no desenvolvimento do Brasil. São Paulo: Francis, PINSKY, Jaime. Cidadania e Educação. São Paulo: Contexto, REIS, Sólon Borges dos. Educação Política Educar para a Liberdade, Educar para a Responsabilidade. São Paulo: Pannartz, 1990.

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