BAKHTIN: O EVENTO DA ENUNCIAÇÃO NO PROCESSO TRADUTÓRIO

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1 BAKHTIN: O EVENTO DA ENUNCIAÇÃO NO PROCESSO TRADUTÓRIO Evandro Santana 1 RESUMO O presente artigo propõe uma análise do processo de tradução à luz das proposições de Mikhail Bakhtin ( ) 1975) no que diz respeito ao enunciado. A proposta é apresentar o texto traduzido como um evento único, dotado de significação própria, e não simplesmente o texto fonte em outro código linguístico. Para defender essa proposta, utilizam-se textos das obras Marxismo e Filosofia da Linguagem (2010), e Estética da Criação Verbal (2003). INTRODUÇÃO Na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem,, encontramos uma definição para a palavra, que é considerada [...] o fenômeno ideológico por excelência. [...] (BAKHTIN, 2010, p.36, grifo nosso). Ao abordar a questão do signo na obra referida, ele observa que não existe signo sem ideologia e que eles são formados na prática social, na interação social. Mas não basta colocar duas pessoas juntas para que se formem signos: é preciso que essas pessoas estejam organizadas socialmente. Todo signo é ideológico, e a palavra é o signo ideológico por excelência. Podemos entender a língua como um sistema de signos organizados, e que diferentes línguas possuem signos específicos, que refletem realidades distintas. Nos termos de Benjamim L. Whorf (LOPES, 2008), cada língua recorta a realidade de um modo particular, assim 1 Graduação em Licenciatura Plena em Língua Inglesa e Literaturas pela Universidade Federal do Espírito Santo(2004), graduação em Bacharelado em Música - Habilitação em Canto pela Faculdade de Música do Espírito Santo(2011) e mestrado em Lingüística pela Universidade Federal do Espírito Santo(2014). Atualmente é Professor da FABRA - Faculdade Brasileira. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Línguas Estrangeiras Modernas. 1

2 [...] as línguas naturais não são um decalque nem uma rotulação da realidade; elas delimitam aspectos de experiências vividas por cada povo, e estas experiências, como as línguas, não coincidem, necessariamente, de uma região para outra. (LOPES, 2008, p.22) O vocabulário das línguas indica bem esse processo. Edward Lopes (2008) nos dá exemplo: indivíduo que guia o automóvel é chamado de chauffeur em francês, de condutor em espanhol, de driver em inglês e de motorista em português. Isto significa que os franceses associam tal indivíduo com a atividade de aquecer o motor para pôr a máquina em movimento; os espanhóis e ingleses o associam com o ato de dirigir o carro, enquanto nto que nós, falantes do português, o associam diretamente com o motor do veículo. Trata-se de uma mesma atividade, mas a análise que cada língua pratica nessa realidade resulta na apreensão de um aspecto particular de uma série de operações, e esse aspecto focalizado difere de uma criação para outra comunidade de falantes. Partindo do pressuposto de que as línguas, na organização de seus signos em forma de textos, retratam a realidade de maneira particular, vê-se o problema de se pensar a tradução enquanto a reprodução de um sentido único, específico, é tarefa impossível, pois uma vez que se reescreve o texto numa outra língua, ele pode ganhar novos contornos, o que será observado mais adiante. TEXTO E ENUNCIAÇÃO Bakhtin observa que o texto é [...] a realidade imediata [...] a única da qual podem provir essas disciplinas e esse pensamento. [...] (BAKHTIN, 2003, p.307), e todo o texto tem um sujeito, um autor o falante ou aquele que escreve. Existem dois elementos que determinam o texto como enunciado: a ideia (intenção) e a realização dessa ideia, e são as inter-relações relações dinâmicas desses elementos que determina a natureza do texto. Cada texto pressupõe um sistema universalmente aceito (convencional no âmbito de um dado grupo) de signos, uma linguagem ainda que seja linguagem da arte. (BAKHTIN, 2003, p ) 2

3 A questão do sujeito no texto aqui se faz relevante ao pensar o processo tradutório, pois, conforme observado por Bakhtin, todo texto tem um sujeito, um autor. Além do mais, todo sistema de signos (como o texto pode ser considerado) em princípio pode ser decodificado, traduzido para outro sistema de signos (outras linguagens). Mas o texto, ao mesmo tempo, nunca pode ser traduzido até o fim, visto que [...] não existe um potencial único dos textos. (BAKHTIN, 2003, p.311). Essa observação vai ao encontro de uma compreensão mais moderna sobre o processo tradutório, na qual o tradutor não é um simples reprodutor de um sentido único, mas que no produto final de seu trabalho encontra-se a sua marca, podendo ser considerado também autor do texto traduzido. Cabe ressaltar que se entende, aqui, como enunciado a manifestação concreta de uma frase em situação de interlocução. Eu digo uma frase qualquer em português, ela somente ganha contornos de enunciado no momento da interação, quando proferida por algum dos participantes da situação de interlocução. 2 No artigo Os gêneros do discurso (2003), Bakhtin ressalta que o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados concretos e únicos, proferidos pelos integrantes dos diversos campos da atividade humana. Os limites de cada enunciado concreto, enquanto unidade de comunicação discursiva, são definidos pela alternância dos sujeitos do discurso,, ou seja, pela alternância dos falantes. É possível dizer que todo enunciado tem um princípio absoluto e um fim absoluto: antes do seu início, os enunciados dos outros; depois de seu término, aos enunciados responsivos de outro. O enunciado, portanto, não é uma unidade convencional, mas uma unidade real, precisamente delimitada da alternância dos sujeitos do discurso (BAKHTIN, 2003, p.275). 2 Cf. KOCH, I. V. A inter-ação pela linguagem. 10ªed. São Paulo: Contexto, 2010, p.11. 3

4 O DISCURSO CITADO Outra questão proposta por Bakhtin que vale a discussão é em relação ao discurso citado. No Marxismo e Filosofia da Linguagem, o autor define o discurso citado como o discurso no discurso, a enunciação na enunciação. O discurso citado é entendido pelo falante como a enunciação de outra pessoa, completamente independente na origem, situada fora do contexto narrativo. O material com que o tradutor se depara é em geral com texto (enunciação/enunciações) de outra pessoa. Mesmo o produto final de seu trabalho ainda é reconhecido como o texto do outro, negando a voz daquele que traduziu o texto. Entretanto, é importante frisar que aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser privado de palavra, mas cheio de palavras interiores. (BAKHTIN, 2010, p ) Mesmo no discurso citado, ao pensar no enunciado enquanto evento único, jamais repetido, pode-se entender que o discurso citado é apreendido pelo sujeito, e ganha contornos próprios. Assim, [...] A enunciação do narrador, tendo integrado na sua composição uma outra enunciação, elabora regras sintáticas, estilísticas e composicionais para assimilá-la parcialmente, para associá-la à sua própria unidade sintática, estilística e composicional, embora conservando [...] a autonomia primitiva do discurso de outrem, sem o que ele não poderia ser completamente apreendido. (BAKHTIN, 2010, p. 151). A concepção tradicional da tradução baseia-se na possibilidade de descobrir/ decodificar o pensamento do autor e recodificá-lo em outra língua (MITTMANN,2003), e trazem em si a visão de que o texto e a língua fossem baús capazes de guardar o sentido, a mensagem, o conteúdo, ou a informação. A perspectiva tradicional é contraposta por alguns teóricos da tradução, como Francis H. Aubert, Rosemary Arrojo, Lawrence Venuti e Theo Hermans. Entre as argumentações contrárias a perspectiva tradicional está a de que o sentido não está contido no texto original pronto para ser decodificado e recodificado, mas esse sentido é o resultado de um ato interpretativo do tradutor, e essa interpretação é 4

5 determinada por fatores externos (visão de mundo, ideologia, padrões estéticos, etc.) que agem sobre o tradutor e que tem uma relação particular com cada língua. Nessa perspectiva, reconhece-se o papel ativo que o tradutor, que é um papel de transformação e de produção, e não um mero decodificador/ recodificador de uma mensagem pronta (MITTMANN, 2003, p.34). A QUESTÃO DA AUTORIA NA TRADUÇÃO J. C. Catford e Eugene Nida retratam a tradução como processo de transferência ou substituição (ARROJO, 2008). Aquele define a tradução como a substituição do material textual de uma língua pelo material textual equivalente em outra língua; este ilustra a tradução através da comparação das palavras em uma fileira de vagões de carga. Segundo esta descrição, a carga pode ser distribuída de forma irregular: um vagão pode conter muita carga, enquanto outro vagão pode conter muito pouca. De maneira semelhante, Nida sugere que algumas palavras carregam vários conceitos e outras têm que se juntar para conter apenas um. Argumento relevante, que contesta a visão de que a tradução é transferência de sentido de uma língua para outra, vem de um dos contos de Jorge Luis Borges, intitulado Pierre Menard, Autor Del Quijote, encontrado no livro de Rosemary Arrojo Oficina de tradução (2007). Menard, na tentativa de traduzir Dom Quixote seguindo à risca os três princípios de uma boa tradução propostos por Tytler, percebe que o resultado final é, na verdade, sua própria leitura de Quixote. Ao tentar reproduzir a totalidade do texto de Cervantes, ele descobre a impossibilidade de sua tarefa, pois as palavras do texto de Cervantes não conseguem delimitar ou petrificar seu significado original, independente de um contexto ou uma interpretação. Ao mesmo tempo, Menard se torna autor de Quixote, seus leitores também interpretam seu texto sob diferentes pontos de vista. Assim [...] ainda que um tradutor conseguisse chegar a uma repetição total de um determinado texto, sua tradução nunca recuperaria a totalidade do original ; revelaria, inevitavelmente, uma leitura, uma interpretação desse texto que, 5

6 por sua vez, será, sempre, apenas lido e interpretado, e nunca totalmente decifrado e controlado. (ARROJO, 2007, p.22) Dentro dessa perspectiva, torna-se claro que o tradutor desempenha um papel de destaque dentro do processo tradutório. Não é simplesmente um transferidor de significados, uma vez que dentro do texto não se encontra nenhuma mensagem estática, imutável a ser desvendada. Como diz Arrojo, o significado depende da leitura feita do texto e do momento em que esta foi realizada: esse (o tradutor) contribui de forma peculiar ao deixar traços característicos seus na obra a ser traduzida (ARROJO, 2007, p.22). CONSIDERAÇÕES FINAIS Do então exposto, pode-se concluir que a tradução traz novos eventos de enunciação, não se trata somente de uma atividade de reprodução das palavras de outra pessoa, mas, no ato interpretativo que é realizado pelo tradutor, e a partir de seus referenciais, temos um novo texto, que também tem suas particularidades e nuances, diferentes do texto que então foi utilizado como fonte do trabalho do tradutor. Apropriando-se das palavras [...] cada tradução é um evento singular, uma vez que focaliza um texto preciso, e que cada texto é único, individualizado. Sendo assim, sua tradução apresentará um caráter particularizado, individual. (TRAVAGLIA, 2003, p.61). Como vimos no exemplo do conto de Borges, a interpretação do material a ser reescrito em outra língua tem influência no produto final, e também reflete a voz do tradutor, e a relação que este tem com o texto fonte. Ao traduzir, teremos aqui um texto em relação de diálogo com outro, no caso o texto do tradutor em relação com o texto original, sendo que no momento da tradução, pode-se dizer que aconteceu uma apreensão, apropriação do texto fonte. 6

7 REFERÊNCIAS ARROJO, Rosemary. Oficina de tradução: a teoria na prática. 5ª edição. São Paulo: Ática, BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem.. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi. 14ª edição. São Paulo: Hucitec, Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 4ª edição. São Paulo: Martins Fontes, LOPES, Edward. Fundamentos da linguística contemporânea. 20ª edição. São Paulo: Cultrix, MITTMANN, Solange. Notas do Tradutor e Processo Tradutório: Análise sob o Ponto de Vista Discursivo.. Porto Alegre: Ed. Da UFRGS, TRAVAGLIA, N. G. Tradução retextualização: a tradução numa perspectiva textual.. Uberlândia: EDUFU,

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