O SERVIÇO DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA NO MUNICIPIO DE VIÇOSA/MG: UMA NOVA CONCEPÇÃO DE TRABALHO EM PROL DA CIDADANIA

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1 O SERVIÇO DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA NO MUNICIPIO DE VIÇOSA/MG: UMA NOVA CONCEPÇÃO DE TRABALHO EM PROL DA CIDADANIA Rita de Cássia Bhering Ramos Pereira 1 Jacqueline Fonseca Sampaio 1 Lucíola Lourenço da Silva 1 Caroline Silva Almeida Benine 1 Paulo F. G. Leal 1 Elge de Azevedo Magalhães Fialho 2 Departamento de Economia Domésica Avenida Peter Henry Rolfs, Campus UFV, Viçosa/MG CEP: Tel: (31) INTRODUÇÃO A crescente inserção do Brasil na economia globalizada nas últimas décadas tem provocado grandes transformações sócio-econômicas, inclusive no que concerne à saúde de sua população. Tal transformação tem como características predominantes o aumento da pobreza e da exclusão social, o que acarreta elevados níveis de desigualdades presentes em todas as instâncias da sociedade. Tendo em vista esse processo geral de desequilíbrio social, cultural, econômico e ambiental, faz-se necessário à busca por estratégias que promovam o equilíbrio no relacionamento que os vários componentes sociais estabelecem entre si e com as atividades humanas, de forma a manter a capacidade de suporte, integração e de sustentação desses componentes. De acordo com Buss (1999), a promoção da saúde, bem como a educação em saúde, representa uma estratégia promissora para enfrentar os múltiplos problemas que afetam as 1 Universidade Federal de Viçosa 2 Prefeitura Municipal de Viçosa

2 populações humanas. Nesse sentido, considera-se que os serviços de saúde devem atuar com programas abrangentes de promoção da saúde, o que inclui informação, educação e comunicação massivas e de qualidade, assim como a mobilização do esforço inter-setorial no enfrentamento de problemas que têm origem fora do contexto exclusivamente biológico e individual, para localizar-se nos componentes sociais, econômicos e culturais da sociedade. Dentro dessa temática, aponta-se a vigilância sanitária como uma área muito importante para a saúde pública, por buscar o controle dos riscos sanitários envolvidos na produção e consumo de produtos e serviços; para a reversão do modelo antigo de atenção à saúde, pela possibilidade de regulamentar os serviços, organizando-os segundo uma nova lógica dentro do novo sistema de saúde; e para o desenvolvimento da cidadania no País (LUCCHESE, 2001). De acordo com a Lei de 19/09/1990, chamada Lei Orgânica da Saúde e o Código Municipal de Viçosa, Vigilância Sanitária (VISA) é um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente, se relacionam com a saúde, compreendidas todas as etapas e processos, da produção de consumo; e o controle da prestação de serviços que se relacionem direta ou indiretamente com a saúde. (LEAL, 2002). De acordo com Mello (2007), O papel da VISA vai além do caráter meramente punitivo. As ações educativas mostram ao cidadão como ele pode ajudar a vigilância a exercer sua função de proteção à saúde e de garantia de acesso a produtos e serviços de qualidade. Segundo o mesmo autor, todo cidadão deve ser um agente sanitário e observador do seu ambiente, fazendo da vigilância sanitária uma militância coletiva. Dessa forma, a Vigilância Sanitária Municipal de Viçosa, buscando uma nova maneira de promover um diálogo com a população, com o intuito de tornar público o conhecimento de vigilância sanitária, bem como a identificação de suas necessidades e interesses, realizou um trabalho em parceria com a Universidade Federal de Viçosa, no qual estudantes do curso de Economia Doméstica ministraram palestras em escolas da rede municipal de ensino levando às crianças de 10 a 14 anos de idade informações a respeito do serviço de Vigilância Sanitária. Neste contexto, entende-se que o presente trabalho constitui de um importante instrumento na busca por uma nova concepção a cerca da saúde pública, uma vez que a principal meta do mesmo foi transformar crianças em multiplicadores de informação entre amigos, vizinhos e familiares, visando à geração de uma mobilização social, sendo este um

3 processo de envolvimento e engajamento do individuo no coletivo para o desenvolvimento, pactuação e alcance de objetivos comuns. 2. OBJETIVOS Em face do exposto, o objetivo geral do presente trabalho foi ampliar e aplicar conhecimentos na área de Saúde da Família e comunidade, procurando conciliar embasamentos teóricos com a vida prática, contribuindo para a formação de cidadãos conscientes, enfatizando o trabalho da Vigilância Sanitária e sua importância na vida cotidiana. Especificamente, pretendeu-se: Divulgar o trabalho da Vigilância Sanitária em prol da saúde e sua importância para a população; Desenvolver temas relacionados à Educação do consumidor e Vigilância Sanitária, possibilitando aos alunos de escolas municipais de Viçosa, MG conhecer seus direitos e exercer sua cidadania; Orientar as crianças na identificação e utilização somente de produtos de boa qualidade e inspecionados; Estimular uma discussão entre os participantes das palestras a cerca das ações da vigilância sanitária no seu cotidiano, bem como as participações sociais, buscando transformar crianças em multiplicadores de informação entre amigos, vizinhos e familiares sobre a Vigilância Sanitária. 3. METODOLOGIA O presente trabalho foi realizado no município de Viçosa, uma cidade da região da Zona da Mata mineira, que possui uma população de aproximadamente 80 mil habitantes, tendo uma área de 300,2 KM 2 e uma densidade de 20,54 hab./ Km 2 (IBGE-2008). O município possui 20 escolas municipais, sendo que o universo do estudo foi de 06 destas, selecionadas em uma reunião na Secretaria Municipal de Educação, onde as diretoras das mesmas demonstraram interesse por um pacote educativo a cerca de temas relacionados com a Vigilância Sanitária. O público envolvido no presente trabalho foi composto por alunos de idades entre 10 e

4 14 anos, que cursam a 4ª série do ensino fundamental das escolas já mencionadas, escolhidos intencionalmente, uma vez que se considera que essa faixa etária condiz com a proposta de trabalho desenvolvida. Dentre os métodos utilizados no estudo, realizou-se pesquisa bibliográfica, a fim de uma maior interação e conhecimento sobre a Vigilância Sanitária, bem como para elaboração do material utilizado nas palestras. Posteriormente, passou-se ao planejamento das palestras. Optou-se por apresentar o conteúdo formulado na forma de teatro de fantoches, sendo abordados os seguintes temas: o conceito de Vigilância Sanitária, sua importância, seu objetivo, sua área de atuação e a necessidade do alvará sanitário no estabelecimento. No intuito de complementar o conteúdo da palestra, elaborou-se um folder informativo, contendo os principais tópicos abordados na palestra. Realizou-se ainda, ao final de cada palestra, a aplicação de um questionário com os alunos, a fim de dimensionar o que elas aprenderam com a palestra. 4. RESULTADOS Desde o momento em que acordamos e por todo o dia, a Vigilância Sanitária faz parte da nossa vida. A pasta e a escova de dente, o sabonete, os alimentos consumidos, os serviços de saúde, a água, os medicamentos que utilizamos e os ambientes de trabalho, todos passam pelo olhar atento dos serviços de Vigilância Sanitária. De acordo com Ribeiro e Leal (2007), a qualidade de vida é um item importante a ser pensado juntamente com a saúde, bem como com o serviço de Vigilância Sanitária, uma vez que a saúde é resultante das condições de vida e trabalho das pessoas. Cuidando-se das qualidades dessas condições, aproxima-se do conceito de saúde para todos. Neste contexto, percebe-se a importância da Vigilância Sanitária para a sociedade, uma vez que sua premissa básica é proteger a saúde das pessoas. Diante disto, buscou-se, por meio das palestras desenvolvidas no estudo, aperfeiçoarem o senso crítico nos alunos para que possam exercer sua cidadania e assim buscar uma melhor qualidade de vida. Como citado anteriormente, elaborou-se um folder explicativo contendo informações sobre a VISA. A iniciativa de confeccionar um folder teve como principal objetivo expandir o público atingido pelo trabalho, uma vez que se esperava que os alunos levassem os mesmos para casa e mostrassem aos seus familiares, vizinhos e amigos, ampliando assim o número de pessoas a acessarem a informação distribuída.

5 4.1 Detalhamento das Palestras Neste tópico procurou-se fazer um detalhamento das palestras nas escolas, a fim de atender aos objetivos propostos. As palestras tiveram início com a distribuição de um questionário contendo duas questões que abordavam o conhecimento dos alunos a cerca do tema. Após a resposta dos mesmos, os questionários foram recolhidos e deu-se início ao teatro de fantoches. Observou-se que os alunos permaneceram atentos durante todo o teatro. Após a apresentação teatral de cada palestra, passava-se a um segundo momento onde se realizava esclarecimentos sobre o conteúdo abordado, neste respondia-se às dúvidas, e os alunos podiam relatar suas experiências relacionadas à vigilância sanitária. Realizou-se ainda, nas palestras, uma dinâmica de grupo com os alunos a fim de atentá-los para a importância de conferir data de validade dos produtos, bem como o rótulo dos mesmos. Percebeu-se que grande parte dos alunos das escolas tinha o hábito de conferir data de validade, não havendo muita dificuldade de encontrá-la em diferentes produtos. Quanto ao rótulo, não tinham conhecimento da importância do mesmo enquanto instrumento de informação. A seqüência de apresentação do conteúdo das palestras foi à mesma em todas as escolas. Foi observado em apenas em uma das escolas, que a maioria dos alunos não tinha conhecimento sobre o tema, observado na dificuldade que tiveram de responder os questionários. 4.2 Percepções das crianças sobre o conceito de Vigilância Sanitária Como dito anteriormente, uma das etapas da palestra foi à aplicação de um pequeno questionário, onde foi questionando o que eles entendiam por Vigilância Sanitária, e se eles achavam que a Vigilância Sanitária prevenia riscos à saúde deles e da família. Foram aplicados 132 questionários, com alunos de escolas da zona rural e urbana, sendo 7,5% representantes da zona rural e 92,5% da zona urbana. Com relação ao primeiro questionamento, a maioria dos alunos respondeu que a Vigilância Sanitária é importante para a saúde da população (31%), como explicitado na fala abaixo:

6 Ela é importante em nossa saúde, e ela também previne riscos em nossa vida. (Aluna 13, 11 anos) Sobre o mesmo questionamento, obteve-se ainda que 16% dos alunos consideram que a Vigilância Sanitária é responsável por fiscalizar local e estabelecimentos. Um dos entrevistados afirmou: Eu acho que a Vigilância Sanitária visita lanchonetes, mercados, quitandas, padarias, etc (Aluno 04, 13 anos). Outro aluno disse: A Vigilância é importante porque fiscaliza os lugares contaminados e que tem contato com a sujeira (Aluna 127, 11 anos). Outros 21% dos alunos afirmou que a Vigilância Sanitária verifica a data de validade dos alimentos e suas condições de consumo, como mostra a fala que se segue: Eu acho que a Vigilância Sanitária vai nos supermercados para ver se os alimentos estão vencidos. (Aluno 56, 10 anos) Obteve-se ainda que 9% dos alunos questionados afirmaram que a Vigilância Sanitária está relacionada com a limpeza. No entanto, alguns não souberam especificar que tipo de limpeza, e outros se confundiram dizendo que a Vigilância era responsável pela limpeza da casa e das ruas. Alguns alunos, que correspondem a 11% dos entrevistados, receberam o folder explicativo antes de responder ao questionário e copiaram o conceito de Vigilância Sanitária que estava posto no folder. Sendo assim, eles responderam que: A Vigilância Sanitária é um conjunto de ações capazes de eliminar, diminuir, ou prevenir riscos à saúde, e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente da produção e circulação de bens e da prestação de serviços. O restante dos entrevistados respondeu que a Vigilância Sanitária é muito boa (3%), ou que ela significa organização (3%), e 1% disse que a Vigilância sanitária é uma organização do governo. Apenas 5% não responderam. Com relação ao segundo questionamento, quando se perguntou se eles achavam que a Vigilância Sanitária prevenia riscos à saúde deles e da família, obteve-se que 90,15% consideram que sim, 6,0% acham que não, e 3,85% não responderam. Este resultado mostra

7 que as crianças perceberam o papel da Vigilância Sanitária, bem como sabem da sua importância na proteção da saúde. 5. CONCLUSÕES Através dos resultados, pôde-se concluir que a maioria dos alunos tinha algum tipo de conhecimento sobre o tema, mesmo que superficial. Entretanto, mesmo com a palestra e discussões realizadas, eles ainda quiseram levar os produtos vencidos para suas casas, o que evidencia a falta de consciência dos mesmos, sabendo dos riscos de se consumir produtos vencidos. Tal situação pode estar relacionada ao fato de grande parte dos alunos pertencerem a famílias de baixa renda, priorizando muitas vezes a alimentação do que a proteção à saúde. Percebeu-se que a metodologia utilizada para apresentação do conteúdo foi bastante atrativa, visto que as maiorias dos alunos se mantiveram atentos durante toda a palestra e mesmo aqueles que se mostraram dispersos na apresentação de fantoches, com as discussões posteriores demonstravam-se interessados. Da mesma forma, as diretoras das escolas elogiaram a iniciativa da Vigilância Sanitária, bem como o trabalho desenvolvido, alegando ter sido válido para agregar conhecimentos junto ao conteúdo do programa da escola. Com relação à percepção dos alunos sobre o conceito de Vigilância Sanitária, pôde-se observar uma grande variação nas respostas, porém a porcentagem de não respondentes foi bastante pequena. Tal variação pode ser atribuída ao fato de que os alunos se atentaram a momentos diferentes da palestra, e responderam aquilo que lhes chamou mais atenção. Finalmente, vale ressaltar a importância e competência do profissional de Economia Doméstica no Serviço de Vigilância Sanitária, uma vez que a formação multidisciplinar deste profissional lhe dá competência para atuar neste segmento.

8 REFERÊNCIAS BUSS, Paulo Marchiori. Promoção e educação em saúde no âmbito da Escola de Governo em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública. Caderno Saúde Pública vol.15 suppl.2 Rio de Janeiro Disponível em: Acesso em: IBGE. Pesquisa nacional por amostra de domicílos-pnad/2000. Disponível em: <http: //www.ibge.org.br>. Acesso em: LEAL, Paulo F. G. Caderno de Vigilância Sanitária. Edição: Prepare-se. Viçosa/ MG, LUCCHESE, Geraldo. Globalização e regulação sanitária: os rumos da vigilância sanitária no Brasil. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; p. Disponível em: <http://portalteses.cict.fiocruz.br/transf.php?script=thes_chap&id= &lng=pt&nrm=is o> Acesso em MELLO, D. R. Consumidor é chamado a exercer a vigilância sanitária. Disponível em: Acesso: RIBEIRO, R. de C. L.; LEAL, P. F. da G. Fundamentos de Vigilância Sanitária. Prepare-se: Viçosa MG, 2007.

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