A apreciação das provas no processo do trabalho

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1 A apreciação das provas no processo do trabalho Ricardo Damião Areosa* I. Introdução Segundo Aroldo Plínio Gonçalves, processualista mineiro e juiz do trabalho, Nulidade é a conseqüência jurídica prevista para o ato praticado em desconformidade com a lei que o rege, que consiste na supressão dos efeitos jurídicos que ele se destinava a produzir. 1 Teresa Arruda Alvim Pinto nos afirma que:... por meio de via recursal serão atacáveis sentenças proferidas em processo em que tenha havido, quer nulidades, quer anulabilidades, em relação às quais não tenha havido preclusão. (...) Por meio da ação rescisória serão atacáveis as sentenças nulas, ou porque o sejam intrinsecamente, ou porque provenham de processos onde tenha havido nulidades absolutas. (...) Por meio de ação declaratória de inexistência poder-se-ão atacar sentenças inexistentes, em si mesmas, ou porque provenientes de processos inexistentes. 2 Visto assim, o estudo das nulidades da sentença trabalhista é relevante, na medida em que o domínio da teoria das nulidades processuais, em especial das nulidades que acometem a sentença trabalhista terá reflexos óbvios no estudo da teoria dos recursos, da ação rescisória e da ação declaratória de inexistência. Candido Rangel Dinamarco nos alerta que...as nulidades são vicissitudes da vida do processo e perdem todo o seu significado e razão de ser quando ele se extingue, tornando-se irrecorrível a sentença dada. 3. Portanto, as sentenças podem ser classificadas, no tocante ao plano de nulidade em quatro tipos: sentenças hígidas, sentenças rescindíveis, sentenças inexistentes e sentenças inatacáveis por qualquer remédio legal. Segundo Teresa Arruda Alvim Wambier são vícios intrínsecos da sentença em si mesma. 4, ou segundo Aroldo Plínio Gonçalves, são nulidades que podem decorrer dos requisitos de que se deve revestir a própria sentença. 5 As nulidades por vícios intrínsecos podem derivar da não observância de um feitio legalmente exigível para a prolatação da sentença trabalhista. Este feitio da sentença trabalhista está no art. 832 da CLT, verbis: * Desembargador Federal do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, RJ. 1 Nulidades no Processo. Rio de Janeiro: AIDE Editora, 2000, p Nulidades da Sentença. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1987, p Litisconsórcio. São Paulo: Editora /RT, 1984, p Nulidades do Processo e da Sentença. São Paulo: Editora TR, 2004, 5. ed., p Op. cit. p

2 Art Da decisão deverão constar o nome das partes, o resumo do pedido e da defesa, a apreciação das provas, os fundamentos da decisão e a respectiva conclusão. 1º - Quando a decisão concluir pela procedência do pedido, determinará o prazo e as condições para o seu cumprimento. 2º - A decisão mencionará sempre as custas que devam ser pagas pela parte vencida. 3º - As decisões cognitivas ou homologatórias deverão sempre indicar a natureza jurídica das parcelas constantes da condenação ou do acordo homologado, inclusive o limite de responsabilidade de cada parte pelo recolhimento da contribuição previdenciária, se for o caso. (grifo nosso) II. A forma e o conteúdo da decisão trabalhista Observa-se que o feitio da sentença trabalhista é algo distinto do feitio da sentença civil, uma vez que os elementos essenciais desta estão descritos no art. 458 do CPC. Verbis: Art São requisitos essenciais da sentença: I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a suma do pedido e da resposta do réu, bem como o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo; II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões, que as partes Ihe submeterem. Cotejados os artigos 832 da CLT e 458 do CPC, verificaremos que a diferença está na exigência, pela sentença trabalhista, de alguns requisitos essenciais que a sentença civil não exige. Quando a CLT diz que...na decisão deverão constar, está a dizer o mesmo que São requisitos essenciais da sentença trabalhista e que a falta de alguns daqueles requisitos ensejará um vício intrínseco, principalmente no tocante à apreciação das provas. Tudo o que se disse a respeito das sentenças trabalhistas também se aperfeiçoa para os acórdãos trabalhistas, muito embora a CLT não demonstre, de forma clara, qual deva ser o modelo de tal tipo de provimento jurisdicional. No entanto, o CPC traduz em seu art. 165 que As sentenças e acórdãos serão proferidos com observância do disposto no art. 458; as demais decisões serão fundamentadas, ainda que de modo conciso. Portanto, sentenças e acórdãos civis e trabalhistas devem respeitar o mesmo formato e conteúdo. Nesse passo, os acórdãos trabalhistas também devem realizar uma apreciação das provas, mormente porque todas as questões devolvidas ao tribunal em extensão, devem ser analisadas em toda a sua profundidade, aí incluindo as todas provas realizadas para o esclarecimento deste ou aquele ponto ou desta ou daquela questão. No CPC de 1939, os requisitos essenciais da sentença eram a o relatório, os fundamentos de fato e de direito e a decisão. Não fazia menção à apreciação das provas. Isso indica que a Consolidação das Leis do Trabalho, de 1943, introduziu uma novidade no panorama processual nacional, ao exigir que o juiz fizesse uma apreciação das provas produzidas durante a instrução processual. O art. 458 do atual CPC repetiu o esquema do CPC revogado. Ora, a lei não traz instruções inúteis, portanto, a apreciação das provas é requisito essencial da sentença trabalhista que a distingue da sentença civil. 66

3 A razão é simples: quer no CPC revogado, quer no atual CPC era e é exigido que a petição inicial elenque os meios de prova com que o autor pretenda demonstrar a verdade do alegado (CPC/39, art. 158, V) ou as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados (CPC/73, art. 282, VI). Na CLT não consta tal exigência ao reclamante, bastando que este apresente uma reclamação, ou petição inicial trabalhista, que deverá conter a designação do juiz do trabalho, ou do juiz de direito a quem for dirigida, a qualificação do reclamante e do reclamado, uma breve exposição dos fatos de que resulte o dissídio, o pedido, a data e a assinatura do reclamante ou de seu representante (art. 840, caput). III. A consequência jurídica da falta de apreciação das provas As provas trabalhistas, portanto, são produzidas independentemente do requerimento da parte autora ou ré, pois o poder inquisitório do juiz trabalhista é superior ao do juiz civil, na medida em que as partes podem litigar na Justiça do Trabalho sem a representação por advogado. Esta atividade oficiosa está descrita no art. 765 da CLT ( Os Juízos e Tribunais do Trabalho terão ampla liberdade na direção do processo e velarão pelo andamento rápido das causas, podendo determinar qualquer diligência necessária ao esclarecimento delas. ) e cobre uma amplitude de atuação probatória bem superior àquela delineada no art. 130 do CPC ( Caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas necessárias à instrução do processo, indeferindo as diligências inúteis ou meramente protelatórias. ). Neste ordenar de idéias, incumbe ao juiz trabalhista, quando proferir o decreto judicial final, explicitar às partes trabalhistas que provas foram por ele determinadas, bem como que provas foram por ele admitidas e produzidas no processo e a razão desta determinação, bem como a razão do indeferimento desta ou daquela prova, ou deste ou aquele quesito ou pergunta. A motivação da sentença trabalhista não é apenas centrada na análise das questões de fato e de direito (CPC, 458, III), mas antes desta análise, que são os os fundamentos da decisão descritos no art. 832 da CLT, expor as provas e os motivos de sua colheita. Valentim Carrion nos disse: O limite entre a ilícita cegueira e a displicência do juiz, de um lado, e a conveniente capacidade de síntese é perceptível na simples referência contida em uma frase ou uma palavra que evidenciam que a sentença levou em consideração pedidos, argumentos ou provas trazidas. 6 Ora, a apreciação das provas não importa apenas em se relatar as provas que o juiz levou em consideração, mas também justificar os motivos desta consideração, bem como os motivos que levaram o juiz a desconsiderar certa prova produzida ou negar a produção de certa prova requerida. Apreciar a prova é explicar às partes, principalmente àquela cuja massa probatória não convenceu o julgador, as razões de sua decisão. Visto assim todo o tema probatório deve ser devidamente motivado na sentença ou no acórdão, pois a falta de motivação a respeito deste ou aquele incidente pode levar ao simples e caprichoso arbítrio do julgador. Não basta dizer o juiz que esta ou aquela prova o convenceu ou não o convenceu. Tais afirmativas refletem apenas o juízo interno do julgador, sem expor as causas positivas ou negativas de tal opinião. Dizer que está ou não convencido é simplesmente opinar, sem exuberar as razões do convencimento. É dever do juiz, ao emitir a decisão sobre a lide deduzida em juízo, apreciar todas as provas produzidas em juízo, para prestigiá-las como fundamentos de 6 In: Comentários à Consolidação das Leis do Trabalho. São Paulo: Saraiva, 2006, p

4 sua motivação decisória ou para desprestigiá-las, pela pouca força probante delas advinda, desde que expresse de forma clara as razões de uma ou outra posição. Para que uma sentença trabalhista seja processualmente hígida, necessário se faz que explicite de forma fundamentada as razões do seu convencimento ou de seu não convencimento, pois assim fazendo estará realizando a apreciação das provas requeridas pela lei consolidada em seu art Sem tal análise das provas, devidamente fundamentada, estará sendo emitido provimento jurisdicional trabalhista acometido de grave anomalia, eis que o dever de fundamentar as decisões, a princípio, é imperativo constitucional, segundo o cânone do art. 93, inciso IX da Constituição Federal. O que não pode ocorrer mas, infelizmente, geralmente ocorre é que o juiz emita seu provimento jurisdicional baseado em certa prova produzida (p. ex., um depoimento de certa testemunha), sem nada indicar a respeito da falibilidade de outra prova produzida (p. ex., o depoimento de outra testemunha). No entanto, tal anomalia não é capaz de despertar a absoluta nulidade do julgado de primeira instância, ensejando acórdãos que determinem a baixa para apreciação desta ou aquela prova omitida na fundamentação. Costumam alguns juízos trabalhistas de primeira instância dizer que não são obrigados a esmiuçar todas as alegações das partes, bastando emitir sua decisão devidamente fundamentada, com as razões do seu convencimento. Isto é verdade, mas não decorre do chamado princípio do livre convencimento imiscuído no art. 131 do CPC 7, ou seja, o juiz pode apreciar livremente a prova, mas isso não significa silenciar sobre provas contidas nos autos ou desconsiderar sem fundamento outras provas dos autos. A desobrigação do juiz de primeira instância em não analisar todas as alegações das partes decorre da ampla devolução dos recursos do tipo apelação, do qual o recurso ordinário é vertente trabalhista, ante o direcionamento 8 do art. 515, 1º, do CPC. Se o juiz de primeira 7 Art.131. O juiz apreciará livremente a prova, atendendo aos fatos e circunstâncias constantes dos autos, ainda que não alegados pelas partes; mas deverá indicar, na sentença, os motivos que Ihe formaram o convencimento. 8 Assim, naquilo que diz respeito à decisões proferidas em 1º grau, interlocutórias ou sentenças, realmente não é necessário que o magistrado se manifeste expressamente sobre todas as questões fáticas e jurídicas suscitadas pelas partes em defesa de suas pretensões. Isto porque os recursos cabíveis da decisão interlocutória e da sentença, meios de controle da decisão, são o agravo e a apelação, que possuem efeito devolutivo pleno. Com efeito, dispõe o art. 515 e seus parágrafos que ao Tribunal é transferido o conhecimento de todas as questões suscitadas e discutidas pelas partes, ainda que não decididas pelo magistrado, bem como todos os fundamentos da ação e da contestação, mesmo que o juiz tenha se manifestado sobre uma deles. Este dispositivo, embora se refira ao recurso de apelação, também se aplica ao recurso de agravo, naquilo que é cabível. Portanto, a controlabilidade das decisões de 1º grau, basta, realmente, que o magistrado exponha, com clareza e logicidade, os fundamentos fáticos e jurídicos de sua decisão, enfrentando as questões que se apresentam como preliminares ou prejudiciais ao seu raciocínio, não se revelando juridicamente imprescindível a sua manifestação e decisão a respeito de todas as questões fáticas e jurídicas suscitadas pelas partes. Independentemente do julgamento destas, poderão as partes recorrer e o Tribunal ad quem verificar, de forma suficiente e adequada, a correção do julgamento proferido em 1º grau. Já no que se refere aos julgamentos de 2º grau de jurisdição, todas as questões fáticas e jurídicas suscitadas pelas partes e cuja apreciação explícita no acórdão se revela necessária ao manejo do Recurso Especial ou Extraordinário eventualmente cabível, se apresentam como questões relevantes e de obrigatória apreciação pelo tribunal. Isto porque estes recursos são de estrito direito, possuem efeito devolutivo restrito à questão federal ou constitucional, estabelecendo a Constituição Federal a necessidade de que estas tenham sido decididas pelas instâncias ordinárias, para que os tribunais superiores possam exercer o controle de legalidade ou constitucionalidade mediante o conhecimento dos recursos excepcionais, segundo Joaquim Felipe Spadoni, A função constitucional dos embargos de declaração e suas hipóteses de cabimento, in NERY Jr., Nelson e WANBIER, Teresa Arruda Alvim (Coords.). Aspectos Polêmicos e atuais dos recursos cíveis. São Paulo: RT, vol

5 instância tiver se omitido sobre certo ponto ou questão, se tiver havido recurso voluntário sobre esta questão omitida deve o tribunal manifestar-se sobre o mesmo, esmiuçando-o por completo, inclusive no tocante às provas produzidas, tendentes a elucidar a questão. Simples decorrência do inciso II do art. 458 do CPC para o conteúdo dos acórdãos. Assim sendo, quem possui o dever jurídico de apreciar todas as provas produzidas é o juízo de segunda instância, ou recursal ordinário, ainda que a parte recorrente nada tenha alegado a respeito de tal anomalia, bastando que tenha havido recurso voluntário por sobre a questão a respeito da qual a prova tenha sido realizada. O que o tribunal não pode fazer é manifestar-se sobre pedido omitido na decisão de primeiro grau, pois assim estaria sonegando instância às partes. Neste sentido a Súmula 393 do Tribunal Superior do Trabalho 9. IV. Conclusões: 1ª) A norma do art. 832 da CLT exige que o juiz se manifeste sobre todas as provas produzidas durante a instrução, especificando os motivos pelos quais aderiu seu convencimento a essa ou aquela prova; 2ª) Se o juiz de primeira instância não se manifesta sobre essa ou aquela prova produzida, tal omissão não importa em nulidade insanável, pois é dever do juiz de segunda instância, por força do princípio devolutivo de recurso do tipo apelação, ter o conhecimento de todas as questões suscitadas e discutidas pelas partes, ainda que não decididas pelo magistrado, bem como todos os fundamentos da ação e da contestação, mesmo que o juiz tenha se manifestado sobre uma deles; 3ª) Se este juízo de segunda instância não se manifestar sobre as provas produzidas nos autos, ainda que sobre uma ou outras o juízo de primeira instância não se tenha manifestado, estará acometido de grave anomalia tal acórdão, ante o direcionamento do art. 832 da CLT e dos artigos 165; 458, II e 515, 1º do CPC. 9 Súmula Recurso ordinário. Efeito devolutivo em profundidade. Art. 515, 1º, do CPC. O efeito devolutivo em profundidade do recurso ordinário, que se extrai do 1º do art. 515 do CPC, transfere automaticamente ao Tribunal a apreciação de fundamento da defesa não examinado pela sentença, ainda que não renovado em contra-razões. Não se aplica, todavia, ao caso de pedido não apreciado na sentença. (ex-oj n DJ 22/06/2004) 69

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