Entre joias e cabeças: algumas representações do carbúnculo na literatura. Resumo. Palavras Chave: Carbúnculo Animal Encantado Literatura Lendas Mito

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1 REVISTA LITTERIS ISSN Número 4, Março de Entre joias e cabeças: algumas representações do carbúnculo na literatura Elisângela Aparecida Zaboroski de Paula 1 (UFSC, Florianópolis, Brasil) Resumo Carbúnculo: que animal é esse que nos causa tanto fascínio? Ficção ou realidade, o fato é que ele está presente na literatura mundial, representado em várias lendas e por diversos autores. O presente trabalho tem o intuito de mapear/ traçar uma genealogia inicial sobre esse animal encantado. Lembrando que ao falarmos dos carbúnculos o associaremos também com o mito dos dragões e das serpentes protetoras de tesouros. Abordaremos qual seria o possível surgimento desses seres encantados, os primeiros relatos literários acerca deles, onde e como aparecem. As lendas são as principais fontes onde podemos encontrar referências ao carbúnculo e através delas pretendemos apresentar esse animal encantado aos humanos, fazendo, por fim, uma relação do carbúnculo com o homem. Palavras Chave: Carbúnculo Animal Encantado Literatura Lendas Mito Abstract Carbuncle: what is this kind of animal that causes us so much fascination? Fiction or reality, the fact is that the carbuncle is present in the worldwide literature, represented in several languages and for many authors. This paper has the intention of mapping/ drawing up an initial genealogy about this enchanted animal. Remembering that at speaking about those carbuncles we will associate them with the myth of dragons and the serpents that protect treasures. We will deal with what would be the possible appearance of these enchanted creatures, the firsts literary narratives concerning them, where and how they appeared. The legends are the main source where we can find the reference to the carbuncles and through them we intent presenting this enchanted animal to humans, doing, at last, a relationship of the carbuncle with the man. Keywords: Carbuncle Enchanted animal Literature Legends Myth INTRODUÇÃO Nossa pesquisa pretende trabalhar com o tema dos carbúnculos, ou carbunclos, como querem alguns autores, esses animais encantados que possuem uma pedra preciosa incrustada na cabeça, juntamente com o tema dos dragões, das serpentes aladas, da 1 Elisângela Aparecida Zaboroski de Paula é graduada em Letras Português/ Inglês pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória FAFIUV. Atualmente cursa mestrado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina UFSC.

2 2 teiniaguá, a moura encantada transformada em animal, que possui uma joia no lugar da cabeça, e queremos, contudo, ressaltar que esses seres ficcionais estão, na grande maioria das vezes, relacionados com o mito da proteção de tesouros. Seriam eles os principais guardiões das moedas de ouro, joias, pedras preciosas e dos tesouros encantados. E ao falarmos sobre dragões e serpentes lembramos de Mircea Eliade ( ) que em seu livro Tratado de Historia de las Religiones: Morfologia e dialéctica de lo sagrado (2008) ele fala sobre esse tema de animais encantados, de pedras preciosas e joias mágicas. O autor fala, por exemplo, que na Índia acredita-se que as nâgas i têm na face, e também na cabeça certas pedras mágicas brilhantes. Certamente uma variação para nosso tema, dos carbúnculos. Para evidenciarmos como esse tema secular é ainda muito recorrente na literatura mundial nos valeremos novamente do Tratado de Historia de las Religiones de Mircea Eliade que em um verbete intitulado Degradación de los símbolos o autor discorre sobre o tema dos dragões e das serpentes protetoras de tesouros. El origen y el fundamento teórico de estas leyendas y tantas otras es claro: es el mito arcaico de los monstruos (serpientes, dragones), guardianes del árbol de la vida, de una zona consagrada por excelencia, de una sustancia sagrada, de valores absolutos (immortalidad, eterna juventud, ciencia del bien y del mal, etc.). No hay que olvidar que los símbolos de esta realidad absoluta están siempre guardados por monstruos que prohíben el acceso a los no elegidos; el árbol de la vida ; el árbol de las manzanas de oro o el vellocino de oro, los tesoros de todas especie (las perlas del fondo del oceano, el oro de la tierra, etc.) están defendidos por un dragón, y el que quiera apoderarse de uno de esos símbolos de la immortalidad tendrá primero que dar pruebas de su heroísmo o de su sabiduría, afrontando toda clase de peligros y acabando por dar muerte al monstruoso reptil. De este tema mítico arcaico han derivado, por múltiples procesos de racionalización y de degradación, todas las creencias en los tesoros, las piedras mágicas y las joyas. (ELIADE, 1964, p ) Desejamos, por fim, com isso estreitar as relações entre humanos e animais, mostrando ao final de nossa pesquisa e através do mito do encantamento da princesa moura em animal com uma joia no lugar da cabeça que as relações entre humanos e animais podem ser bem mais estreitas do que parecem e são.

3 3 ALGUMAS REPRESENTAÇÕES DOS CARBÚNCULOS NA LITERATURA MUNDIAL Carbúnculos: Que animais são esses que enriquecem a mitologia e a literatura mundial? Acerca deles estamos fazendo uma genealogia, tentando mapear seu surgimento, sua aparição no mundo das letras, uma vez que histórias populares que aludem a sua existência perdem-se pelos séculos e séculos passados. É com esse intuito de buscar sua fonte livresca primária que recorremos a Filostrato, Plínio, Shakespeare, Daniel Granada, entre outros. Filóstrato ( a.c.), também conhecido como Filóstrato, O Ateniense, o qual era filho de Filóstrato de Lemnos, escritor grego, escreveu dizendo que os dragões também seriam seres mágicos, encantados e, ainda segundo ele, dentro das cabeças desses seres poderiam ser encontradas pedras preciosas. Filóstrato: según el cual el ojo de ciertos dragones es una piedra de destelhos cegadores y dotada de virtudes mágicas; los hechiceros, añade Filostrato, después de haber adorado a los reptiles, les cortan la cabeza y sacan de ella piedras preciosas. (ELIADE, 1964, p. 615) Outro autor que em sua obra alude ao tema de animais com pedras preciosas incrustadas na cabeça e que cita Filostrato quando fala sobre esses seres encantados é o irlandês Oscar Wilde ( ) em sua obra O retrato de Dorian Gray (1891) onde sua personagem principal Dorian Gray descobre uma série de histórias sobre pedras preciosas. Dorian Gray descobrira igualmente histórias fantásticas sobre pedras preciosas. Certa obra mencionava uma serpente de olhos de jacinto autêntico; outra lenda atribuía a Alexandre a sorte rara de haver descoberto, no vale do Jordão, serpentes de cujo dorso brotavam enfiadas de esmeraldas verdadeiras. (WILDE, 1998, p. 141) Embora na versão de Wilde as pedras preciosas estejam incrustadas no dorso da serpente podemos vê-la como uma variação de nosso tema. Apesar da mudança de local corporal, uma vez que temos carbúnculos por animais que possuem pedra incrustada em suas cabeças, podemos dizer que a serpente idealizada por Wilde e descoberta por Dorian Gray pode aludir ao tema desses animais encantados.

4 4 Wilde também faz referência, nesta mesma obra, ao filósofo grego Filostrato, já citado anteriormente: Filostrato conta que havia uma pedra preciosa no cérebro do dragão que a simples vista de letras de ouro e de uma roupagem de púrpura induzia a um sono mágico, durante o qual era possível matá-lo facilmente. (WILDE, 1998, p. 141) Novamente Wilde nos apresenta uma modificação do tema dos carbúnculos, pois o dragão descrito por Filostrato e citado por Wilde possui uma pedra mágica dentro do próprio cérebro, o que o torna vulnerável, como vimos, mas esse dragão pode nos remeter também aos animais que possuem gemas em suas cabeças. Lembremos ainda de Plínio, O Velho, (23-79 d. C.) onde encontramos, em sua Historia Naturalis (77/79), lembrando que a mesma possui 37 volumes. No volume XXXVII, capítulo 57 ele faz uma referência sobre a crença de que a dracontia ou dracontites é uma pedra que se forma no cérebro dos dragões. Draconitis or dracontia is a stone produced from the brain of the dragon; but unless the head of the animal is cut off while it is alive, the stone will not assume the form of a gem, through spite on the part of the serpent, when finding itself at the point of death: hence it is that, for this purpose, the head is cut off when it is asleep. (PLINIO,1855, p.6448) Plínio é citado por diversos autores quando o assunto diz respeito a dragões que possuem no cérebro uma pedra incrustada. Exemplo disso temos, a obra Tesoro de la Lengua Catelhana o Española (1611) de Sebastián de Covarrubias Orozco ( ), onde o referido autor faz uma alusão a Plínio em um verbete intitulado Dragón. Refiere Plínio [...] que se saca de la cabeza de los dragones una piedra de mucho valor y estima llamada dracontias en latín, si bien no se halla si no se quita de los vivos porque si el dragón se muere primero, aquella duricia a modo de piedra se resuelve y desaparece, juntamente con el alma. (OROZCO, 2006, p. 442) Outro autor que alude a Plínio, sobre a pedra no cérebro do dragão e sobre o dever de retirá-lo quando o dragão ainda está vivo é Filippo Picinelli ( ) em seu livro El mundo simbólico: serpientes y animales venenosos: Los insectos (1694) que nada mais é do que uma espécie de bestiário moderno onde Picinelli fala de seres encantados e para falar do dragão relembra Plínio.

5 5 Relata Plínio que en la cabeza del dragón, una vez arrancada y triturada se encuentra una piedra preciosa llamada dracontia. Los dragones, o mejor dicho, la dracontia, salen de la cabeza de los dragones, pero sólo el caso de que áun estén vivos, nunca resulta una piedra preciosa si el dragón está ya muerto. (PICINELLI, 1999, p. 108) Outro autor que trata do assunto dos carbúnculos em sua obra é Isidoro de Sevilha ( d.c.), em suas Etimologias ele faz uma alusão ao que seria em síntese a definição da palavra carbúnculo, referindo, no entanto, a pedra como carbúnculo e não ao animal em si, como fazem a maioria dos outros autores aqui mencionados. Mas resolvemos incluí-lo nesta genealogia, uma vez que ele fala sobre nosso objeto de pesquisa. No capítulo VI intitulado De Acvtis Morbis temos a seguinte definição para o carbúnculo: Carbunculus dictus, quod in ortu suo rubens sit, ut ignis, postea niger, ut carbo extinctus. ii (ETIMOLOGIAS, s.p.) Sendo que Isidoro de Sevilha ainda faz outra referência explícita aos animais que possuem uma gema incrustada na cabeça, fazendo juntamente uma alusão aos dragões. It is taken from the dragon s brain but does not harden into a gem unless the head is cut from the living beats; wizards, for this reason, cut the heads from sleeping dragons. Men bold enough to venture into dragon lairs scatter grain that has been doctored to make these beasts drowsy, and when they have fallen asleep their heads are struck off and the gems plucked out. (SEVILHA, Apud. BORGES; DI GIOVANNI, s.p.) Encontramos também em William Shakespeare ( ), escritor referencial para estudos sobre a literatura inglesa, uma referência a um ser que possui uma gema incrustada em sua cabeça. Trata-se de sua obra As you like it (1599), onde no Ato II, Cena I da referida peça o poeta inglês alude ao tema dos carbúnculos. Fato demonstrado pela fala do Duke, personagem da peça. I smile and say/ This is no flaterry persuade me what I am?/ Sweet are the uses of adversity,/ Which, like the toad, ugly and venomous,/ Wears yet a precious jewel in his head. (SHAKESPEARE, 1968, p. 70. Grifo nosso.) Aqui Shakespeare vale-se da figura do carbúnculo para falar da inveja humana, para denominar uma pessoa astuciosa e sem escrúpulos. Temos, portanto, a aproximação das relações entre o homem e o animal, uma vez que o autor inglês utiliza-se dessa metáfora da

6 6 joia na cabeça do sapo para falar de um personagem de sua peça. Alguém que quer persuadir o outro assim como faz o sapo que tem a referida pedra na cabeça. Outro autor que alude ao tema dos carbúnculos é o francês Gustave Flaubert ( ) em seu livro As tentações de Santo Antão (1874), onde Santo Antão é tentado pelo diabo durante uma noite inteira, onde vários seres fantásticos o atormentam, e quando Apolônio está falando a Antão temos a seguinte fala: Verás dormindo sobre prímulas, o lagarto que só desperta de século e século, quando cai de maduro o rubi que tem na testa. (FLAUBERT, 2004, p. 101) Sem dúvida temos aqui uma referência explícita ao carbúnculo feita pelo escritor francês. Ao falarmos sobre animais que irradiam luz de suas cabeças não podemos deixar de também recorrer a Daniel Granada ( ), escritor espanhol nascido em Sevilha, mas que passou quase toda a vida no Uruguai. Granada dedicou um livro todo para falar sobre os mitos guaranis e as lendas da região do Rio da Prata. Em sua Reseña Historico- Descriptiva de Antiguas y Modernas Supersticiones del Rio de La Plata (1896), o escritor sevilhano falará em várias passagens de sua obra sobre um animal que possui uma pedra incrustada na cabeça, lembrando que esses seres encantados, na maioria das vezes, estão ligados com o mito da proteção dos tesouros e pedras preciosas. En los lugares metalíferos de las propias regiones andinas aparecíase ante la imaginación de los indios comarcanos un ser viviente que despedía de la cabeza una luz vivísima extraordinaria, que muchos presumían fuese el ambicionado carcunclo, según refiere el P. Techo. Esta aparición, o farol, ha continuado presentándose hasta el día de hoy a los ojos de los arribemos, que miran en ello un indicio inequívoco de las muchas riquezas que oculta aún la tierra, ahora en minas, ahora en tesoros escondidos por la mano del hombre. Buen modo de esconder un tesoro: encendiendo un farol. El carbunclo, por tanto, de las regiones próximas a los Andes, que no es sino, bajo alguna forma parecida, el teyuyaguá de las Misiones del Paraná y Uruguay, se halla en relación íntima con el origen de los metales. (GRANADA, p. 99) E não podemos deixar de relacionar o carbúnculo com os dragões e as serpentes encantadas, que, segundo as lendas, também eram símbolo da proteção dos tesouros. Daniel Granada faz em sua Reseña uma referência a esses seres mitológicos:

7 7 En la antigua Europa, en el Oriente, en la India, hubo dragonesy serpientes aladas que despedían de la cabeza una luz vivísima, semejante a un rubí o carbunclo de color muy encendido. Simbolizaban, según antiguas leyendas, el sol de la primavera que comunica a la naturaleza el movimiento de la vida: la luz desvaneciendo las tinieblas. (GRANADA, 1947, p.99) Encontramos ainda no livro do autor espanhol mais referências a esses dragões encantados, protetores de tesouros ocultos, especialmente na região do Rio da Prata. El dragón e los demonios bajo diversas formas custodian igualmente los tesoros en el Río de la Plata. En las regiones andinas especialmente tienen centinelas de fuego. El fuego es señal constante de tesoros ocultos y encantos. Pero en las regiones andinas más señaladamente que en otras partes. (GRANADA, 1947, p. 98) Neste mesmo livro o escritor sevilhano alude ainda a vários mitos guaranis, entre os quais podemos citar o do encantamento de uma jovem e bela princesa moura por Anhangá- Pitã, o diabo dos guaranis. El teyuyaguá, que repetidas veces habíase transformado en impúdica mujer hechicera, desapareció. (GRANADA, 1947, p. 105) Granada também faz referência ao padre e poeta espanhol Martín del Barco Centenera ( ), falando de uma viagem que o padre teria feito até essa região do Rio da Prata, de seu encontro com esse animal encantado que possuía uma pedra incrustada na cabeça e a qual seria a jovem e bela princesa moura encantada e transformada em teiniaguá. Granada nos relata todas as peripécias que Centenera teria passado ao deparar-se com tal animal. El arcediano Martín del Barco Centenera, autor del poema histórico La Argentina, vino al Río de la Plata el año 1573 con la expedición del adelantado D. Juan Ortiz Zárate. Por este tiempo corría valida la especie de que en las Indias había un animalejo que tenía en la cabeza una piedra preciosa, semejante a una brasa vivísima, del color del rubí. Llamánle carbunclo o carbúnculo. Barco Centenera dice haberle visto más de una vez en el Río de la Plata y que pasó infinitas congojas y trabajos por darle caza. El maravilhoso reptil se le escapaba de entre las manos, por decirlo así, merced a la extremada agilidad de que estaba dotado. L a misma luz que despedia, ofuscando la vista, extraviaba al perseguidor. Los guaraníes denominábanle añangpitang, o sea, diablo de piel colorada, por el aspecto ígneo que presentaba su cuerpo o su cabeza. El añangapitanga o carbunclo que Barco Centenera tuvo la fortuna de ver repetidas veces en las comarcas rioplatenses, no es otra cosa, ni menos real y verdadera,

8 8 que el teyuyaguá de la salamanca del Yarao que vino a meterse en la guampa del sacristán de la iglesia de Santo Tomé. (GRANADA, 1947, p. 104) Outra referência importante sobre o padre Martín del Barco Centenera é a feita pelo tradutor do escritor argentino Jorge Luis Borges ( ), Norman Thomas di Giovanni (1933) que diz que Borges teria também feito uma referência ao poema La Argentina (1602) de Centenera. Borges fala sobre esse livro do padre e poeta Martín del Barco e sobre um animal que possuía uma luz na cabeça. The poet-priest Martín del Barco centenera, who claims to have seen the animal in Paraguay, describes it in his Argentina (1602) only as a smallish animal, with a shining mirror of light on its head like a glowing coal. (BORGES; GIOVANNI, 2009, s.p.) E precisamos ressaltar também que o escritor argentino utiliza o tema dos carbúnculos para produzir um livro intitulado, em um primeiro momento: Manual de zoologia fantástica (1957), um livro de descrições de seres fantásticos, ao qual foram adicionados mais animais encantados e foi então republicado sob o título de O livro dos seres imaginários (1967). Neste livro, entre todos os animais fantásticos mencionados encontramos um verbete intitulado El Dragón, o qual irá falar sobre os dragões e de uma característica em especial nestes animais fantásticos: a de possuir uma pérola no pescoço, a qual tem poderes mágicos, referência aos animais que levam incrustada uma gema na cabeça. Dragón [...] Es habital representarlo con una perla, que pende de su cuello y es emblema del sol. En esa perla está su poder. Es inofensivo si se la quitan. (BORGES; GUERRERO, 1979, p. 617) E podemos encontrar ainda outra referência sobre o dragão, neste mesmo verbete, como sendo o dragão um dos protetores de possíveis tesouros encantados. el Dragón Subterráneo cuida los tesoros vedados a los hombres. (Idem. Ibidem.) Já no verbete intitulado El dragón del Ocidente, Borges aborda, o que seriam as possíveis características físicas de um dragão e discursa também acerca das lendas germânicas, da história de Beowulf, onde então Borges relaciona a figura do dragão com a proteção de objetos preciosos e com o mito da caverna.

9 9 En el Ocidente el Dragón siempre fue concebido como malvado. Una de las hazañas clásicas de los héroes (Hércules, Sigurd, San Miguel, San Jorge) era vencerlo y matarlo. En las leyendas germânicas, el Dragón custodia objetos preciosos. Así, en la Gesta de Beowulf, compuesta en Inglaterra hacia el siglo VIII, hay un dragón que durante años es guardián de un tesoro. (BORGES; GUERRERO, 1979, p. 622) Na versão publicada em inglês, e somente nesta, do Livro dos seres imaginários intitulada The book of Imaginary Beings (1969) traduzido por Di Giovanni e atualmente disponibilizada no site do tradutor, temos outra referência clara e agora explícita ao carbúnculo. Trata-se de um verbete intitulado: The carbuncle (O carbúnculo), onde Borges fala de um animal visto pelos colonizadores espanhóis do século XVI na América do Sul, ao qual chamaram de carbúnculo. In mineralogy the carbuncle, from the Latin carbunculus, A little coal, is a ruby; as to the carbuncle of the ancients, it is supposed to have been a garnet. In sixteenth-century South America, the name was given by the Spanish conquistadors to a mysterious animal mysterious because nobody ever saw it well enough to know whether it was a bird or a mammal, whether it had feathers or fur. (BORGES; GIOVANNI, 2009, s.p.) Sendo que Di Giovanni ainda faz referência a Isidoro de Sevilha e William Shakespeare, para referenciar autores que escolheram o carbúnculo como tema de suas literaturas. Sejam eles conquistadores, padres, dramaturgos ou historiadores, todos fascinados pelo tema desses animais encantados fizeram alusão a eles em alguma parte de suas obras. Ao vermos Martín del Barco Centenera referenciado por autores como Jorge Luis Borgese Daniel Granada, somos levados a falar sobre este padre historiador e de seu livro La Argentina de 1602, onde Centenera fala sobre os vinte e quatro anos que passou aqui na América, sobre o que observou e os perigos que passou, entre outros. No entanto, o que nos chama a atenção no livro de Centenera são as referências que são feitas ao carbúnculo. No Discurso preliminar de La Argentina de Centenera, feito por Pedro de Angelis ( ), historiador ítalo-rioplatense em 1836, (ficou conhecido por seus estudos históricos científicos na Argentina) ele faz uma alusão ao que Barco Centenera teria visto na região do Rio da Prata.

10 10 Aun así, la autoridad de Centenera ha sido de tanto peso para sus sucesores, que hasta han adoptado sus fábulas; y si por mucho tiempo se há creido en las Sirenas, en los Carbunclos y en otras patrañas del mismo quilate, es porque él aseguró que los habia visto con sus propios ojos. (DE ANGELIS, 1836, p. 11) E com isso buscando no livro de poemas do padre espanhol encontramos referência ao carbúnculo em seu Canto Tercero, onde ele falará sobre animais, répteis, víboras e serpentes, sobre a sereia, sobre o carbúnculo, sobre a saga de Dom Rui Diaz Melgarejo e do mesmo ter devido sua má sorte por ter ajudado tal animal, entre outros. Otra laguna grande mas crecida, De mas admiracion que aquesta vemos, Que està la tierra adentro algo metida; Los indios del Acay en sus extremos Habitan, y ellos dicen que fundida Antiguamente fué gente, y creemos, Nos dicen, està el diablo atormentando Aquellos que pecaron en nefando. Gran grita y alarido y gran estruendo Allá dentro parece que resuena; Cuando se allega junto, estremeciendo El cuerpo queda todo con gran pena. Algunos de temor vuelven huyendo; Pajas, se les antoja, y el arena Que son diablos que vienen en pos de ellos, Y vuelven erizados los cabellos. Y no lejos de aquí, por propios ojos, El Carbunclo animal veces he visto: Ninguno me lo juzgue por antojos, Que por cazar alguno anduve listo. Mil penas padecí, y mil enojos En seguimiento de èl; Mas cuan bien quisto, Y rico y venturoso se hallàra Aquel que Anagpitan vivo cazára! Un animalejo es, algo pequeño, Con espejo en la frente reluciente, Como la brasa ignita en recio leño. Corre y salta veloz y diligente: Asì como le hirieren echa el ceño, Y entùrbiase el espejo de repente: Pues para que el Carbunclo de algo preste En vida el espejuelo sacan de este.

11 11 Cuan triste se hallò, y cuan penoso Rui Diaz Melgarejo! que hallado Habia, à mi me dijo, de uno hermoso; Perdiólo por habérsele volcado Una canòa en que iba muy gozoso. Yo le ví lamentar su suerte y hado, Diciendo "si el carbunclo no perdiera, Con él al Gran Philipo yo sirviera." (CENTENERA, 1836, p ) Martín del Barco Centenera, alude a esse animal fantástico assim como Daniel Granada o faz, falando de um ser fantástico, mas como se ele realmente existisse, e ao falarmos de Granada lembramos do escritor brasileiro, João Simões Lopes Neto ( ), uma vez que é através de Daniel Granada que apresentaremos Simões, pois, segundo, estudiosos da obra de Lopes Neto, teria ele conhecido a obra de Granada e ela pode ter influenciado, ou pode ter sido uma de suas fontes literárias para que o escritor gaúcho produzisse a lenda da Salamanca do Jarau, lenda esta que alude ao mito dos tesouros encantados e dos carbúnculos como protetores dos mesmos, Foi Daniel Granada, pois, quem forneceu a Simões Lopes todos os elementos de que se valeu para compor a Salamanca do Jarau. (MEYER, 1979, p. 180) E através da obra de Granada e de suas informações sobre o carbúnculo que adentramos na literatura brasileira e na obra do escritor regionalista gaúcho João Simões Lopes Neto, contador de casos, mitos e lendas que ao produzir sua obra utilizou-se desse tema dos carbúnculos para produzir a saga de seu personagem Blau Nunes, na lenda/ conto A salamanca do Jarau componente de seu livro Lendas do Sul (1913). Segundo essa versão da lenda contada por Simões iii o carbúnculo trata-se de uma jovem e bela bruxa moura encantada pelo diabo e transformada em uma espécie de lagarto - teiniaguá e que no lugar da cabeça tem incrustada um joia cujo brilho é semelhante ao de uma brasa viva. O diálogo entre o escritor gaúcho e o autor espanhol é evidente, lembrando que Lopes Neto valeu-se da obra de Daniel Granada para escrever suas Lendas do Sul. Nessa versão da lenda contada pelo escritor gaúcho temos mais uma referência explícita ao carbúnculo. O maldoso pegou o condão mágico que navegara em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos -, esfregou-os no suor do seu corpo e virou-o em

12 12 pedra transparente, e lançando o bafo queimante do seu peito sobre a fada moura, demudou-a em teiniaguá, sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da encantada a pedra, aquela que era o condão, aquele. E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do dia, do sol vermelho que ia querendo romper dos confins por sobre o mar, por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como brasa e tão brilhante que olhos de gente vivente não podiam parar nela, ficando encandeados, quase cegos... (LOPES NETO, 2006, p ) Nessa versão para o carbúnculo Simões cita como o encantamento de uma jovem fada moura em teiniaguá pode nos remeter a uma transmutação do humano em animal. Uma relação do ser racional com o ser irracional e precisamos lembrar ainda que essa teiniaguá encantada seja ora mulher, portanto, humana, ora animal. Ambos estão interligados pelo encantamento sendo que misturados o animal passa a raciocinar e a moura encantada enquanto teiniaguá passa a ter hábitos animalescos. Para falarmos desse híbrido entre humanos e animais, precisaremos refletir primeiro sobre as relações entre homens e animais. E qual seria essa relação do homem com os animais? Amistosa, amigável ou apenas uma relação de dominação onde, na maioria das vezes, o homem, enquanto ser pensante, escraviza os animais, enquanto, ditos, seres irracionais. É com esse questionamento que queremos falar um pouco mais sobre esse animal encantado já tão citado em nossa pesquisa. Será que pode existir uma relação entre um animal encantado e um humano? Produto da nossa imaginação e da literatura mundial, o fato é que animal e homem unem-se e misturam-se em um só, sem podermos distinguí-los. Com essa perspectiva encontramos a obra O Tempo e o Vento (1947) do escritor também gaúcho Erico Veríssimo ( ) no volume intitulado O continente II da referida obra, onde o autor dedica um capítulo inteiro para a teiniaguá, o animal encantado citado por Granada e Simões Lopes Neto. Nessa parte de seu livro Veríssimo fala do comportamento humano e de como são as relações humanas utilizando-se para isso da sua personagem Luzia que em muitas passagens desse capítulo é citada como sendo a teiniaguá, como sendo esse animal encantado de que tanto falamos. É clara, portanto, a junção entre humano e animal, pois em

13 13 certa ocasião não podemos saber quem é quem, e o autor ainda faz uma alusão explícita a essa transformação de sua personagem humana em animal: Estava ela sentada no sofá ao lado do noivo, vestida de crinolina verde, de saia muito rodada com aplicações de renda, tinha cravado nos cabelos dum castanho profundo grande pente em forma de leque, no centro do qual faiscava um brilhante. Winter pensou imediatamente na bela e jovem bruxa moura, que o diabo, segundo a lenda que corria pela Província, transformara numa lagartixa cuja cabeça consistia numa pedra preciosa de brilho ofuscante. Como era mesmo o nome do animal? Ah! Teiniaguá. A sua musa da Tragédia havia agora virado teiniaguá. (VERISSIMO, 1995, p Grifo nosso) Através deste pequeno fragmento do texto do escritor gaúcho podemos observar como a literatura enriquece essa relação íntima entre homem e animal. E aqui poderíamos valer-nos das ideias de Jacques Derrida ( ) e de se livro O animal que logo sou (2004) quando o filósofo discute que animal é ele, quando fala sobre as relações entre humanos e animais e ainda quando debate acerca do porquê de serem designados animais todos os viventes não humanos. (DERRIDA, 2002, p. 64) Essas relações entre humanos e animais podem ser escravizadoras e aqui conversamos novamente com Derrida, uma vez que, para ele a palavra animal é apenas um termo utilizado pelos humanos como forma de dominação do ser racional para com o ser irracional. O animal, dizem eles. E eles se deram essa palavra concedendo-se ao mesmo tempo, a eles mesmos, para reservar-se, a eles os humanos, o direito à palavra, a nome, ao verbo, ao atributo, à linguagem de palavras, enfim àquilo de que seriam privados os outros em questão, aqueles que se coloca no grande território do bicho: O animal. (DERRIDA, 2002, p ) Já na literatura encontramos uma forma mais amistosa de relacionamentos, onde alguns autores, como é o caso de Erico Veríssimo colocam o animal no mesmo nível que os humanos, onde muitas vezes, não podemos distingui-los. Em sua obra o escritor gaúcho, naturalmente, está relacionando sua personagem Luzia com a teiniaguá animal para falar de sua esperteza, de sua ambição, de seu olhar que e certos momentos, não parece ser humano e de sua malícia que fugia dos padrões da

14 14 época e da região. Era uma mulher astuciosa. A Teiniaguá pensou Dr. Carl Winter, e ficou olhando para o animal, como que enfeitiçado... (VERISSIMO, 1995, p. 386) E então? O que há de mais misterioso nesta simples comparação de Veríssimo? Seria um animal encantado com hábitos humanos ou um humano com os hábitos de um animal? Realidade ou não, o fato é que os carbúnculos vêm fazendo parte da literatura universal ao longo dos séculos até chegarmos aqui em Veríssimo e depois dele certamente virão outros que encantados com o tema do carbúnculo ou enfeitiçados pela magia das pedras preciosas farão alguma referência a esse animal que hoje domina nossos sonhos e as páginas de nossos livros. Nossa genealogia sobre os carbúnculos chega ao fim com a certeza de que o ser humano e o ser animal podem ser muito parecidos. Quanto ao carbúnculo, esse ser mitológico que habita nosso imaginário, pode-se dizer, que enquanto existir o folclore e a cultura popular ele continuará enriquecendo e transformando escritores e leitores em verdadeiros amantes dos mitos. REFERÊNCIAS BORGES, J. L; GUERRERO, M. El Libro de los seres imaginários. In: Obras Completas en colaboración. Buenos Aires: EMECÉ, ; DI GIOVANNI, N. T. The Carbuncle. Disponível em: Acessado em: 29 jun DE ANGELIS, P. Discurso preliminar a La Argentina de Barco Centenera. In: CENTENERA, M. D. B. La Argentina. Buenos Aires: Imprenta del Estado, DERRIDA, J. O animal que logo sou. Trad. Fábio Landa. São Paulo: UNESP, ELIADE, M. Tratado de Historia de las Religiones: Morfologia y dialéctica e lo sagrado. Madrid: Ediciones Cristiandad, ETIMOLOGIAS. Disponível em: Acesso em: 07 jul

15 15 FLAUBERT, G. As tentações de Santo Antão. Trad. Luís de Lima. São Paulo: Iluminuras, GRANADA, D. Resenã historico-descriptiva de antiguas y modernas supersticiones del rio de la Plata. 2. ed. Buenos Aires: Kraft, LOPES NETO, J. S. Contos Gauchescos e Lendas do Sul. Edição crítica por Aldyr Garcia Schlee. Porto Alegre: UNISINOS, MEYER, A. Prosa dos pagos. Rio de Janeiro: Presença, OROZCO, S. C. Tesoro de la lengua castellana o española. Madrid: Castalia, PICINELLI, F. El mundo simbólico: serpientes y animales venenosos: Los insectos. Trad. Rosa Lucas González e Eloy Goméz Bravo. Zamora, México: Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología, PLINIO. Historia Naturalis. Trad. John Bostock (English). Trad. Karl Friedrich Theodor Mayhoff (Latin). Livro XXXVII. Londres: Perseus, SHAKESPEARE, W. As you like it. England: Penguin Books, VERISSMO, E. A teiniaguá. In: O Continente II. In: O Tempo e o Vento. São Paulo: Globo, WILDE, O. O retrato de Dorian Gray. Trad. Mariana Gaspari. São Paulo: PubliFolha, i Nagâs: na mitologia Hindu, são definidas como serpentes, filhas de Kadru, a verdadeira personificação das trevas. ii O carbúnculo se chama assim porque no princípio é vermelho como o fogo e depois como o carbono extinguido. iii Uma vez que essa lenda sobre uma princesa encantada pelo diabo e transformada em réptil e que possui no lugar da cabeça uma pedra preciosa semelhante a um rubi, que protege um tesouro e tem pacto com o demônio, que vive em uma salamanca/ furna encantada, é recorrente na cultura popular e ganhou os campos do sul do Brasil com a chegada dos colonizadores espanhóis naquela região do Rio da Prata e que, devido a proximidade com o Rio Grande do Sul chegou em terras brasileiras.

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