O cotidiano da gestão educacional e a gestão do cotidiano escolar

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1 5 CAPÍTULO 5 ESTÁGIO SUPERVISIONADO I: GESTÃO EDUCACIONAL O cotidiano da gestão educacional e a gestão do cotidiano escolar Introdução A compreensão deste capítulo está diretamente relacionada ao entendimento dos conteúdos do capítulo 3 da disciplina Organização e Gestão Educacional II, que aborda os pressupostos básicos da gestão democrática. A compreensão de princípios como a participação, a delegação de poderes e responsabilidades, o respeito mútuo, entre outros, serão fundamentais para a análise dos estudos de caso aqui apresentados, bem como para a comparação das atitudes descritas, nestes casos, com a perspectiva da gestão democrática. Falar em gestão democrática, equipe gestora, trabalho em equipe, ações integradas é muito bom e parece-nos o ideal para o funcionamento das instituições escolares. No seu cotidiano, a escola enfrenta desafios e mudanças em virtude da sociedade que exige uma educação básica de qualidade, principalmente da rede pública. Nesse sentido, Melo (2008, p. 243) nos alerta para o fato de que a escola, como instituição social que interage com a sociedade [...] tem o seu cotidiano permeado por práticas e teses autoritárias. A citação de Melo, apesar de apontar uma verdade aparentemente óbvia, geralmente não é levada em consideração nos debates sobre a democracia nas instituições escolares. Geralmente nos discursos sobre a implantação da gestão democrática, consideramos teoricamente a escola como o lugar de concepção, realização e avaliação de seu projeto educativo. Em tal discurso, os profissionais, lotados em cada unidade escolar, têm autonomia para organizar o trabalho pedagógico com base na realidade e nas necessidades pedagógicas de seus alunos, como se a escola tivesse autonomia financeira, jurídica, além da autonomia administrativa e pedagógica. Na verdade, esses profissionais defrontam-se diariamente com decisões a serem tomadas, orientações a serem dadas, tarefas a serem cumpridas que, muitas vezes, extrapolam a sua alçada, limitando suas ações. Várias decisões e encaminhamentos dependem dos órgãos superiores, da descentralização de poder, da autorização de recursos humanos e liberação de recursos financeiros que emperram a operacionalização do projeto político-pedagógico e, consequentemente, dificultam a concretização da gestão democrática que promoveria o pleno cumprimento da função social da escola. UNITINS/FAEL PEDAGOGIA 4º PERÍODO 523

2 Como futuro pedagogo, você precisa avaliar essas questões e perceber que, apesar dos condicionantes, precisamos nos posicionar enquanto profissionais da educação e lutar pela escola que acreditamos, buscando formas eficazes de desenvolvê-la e colocá-la a serviço dos interesses do grupo social por ela atendido. E isso só se torna possível a partir da conscientização sobre a importância da gestão democrática e a partir do diagnóstico real do cotidiano escolar, planejar ações para a gestão desse cotidiano em toda sua complexidade e antagonismos. É preciso que o gestor saiba identificar estilos de exercício da gestão, mesmo aqueles inadequados sob a perspectiva da gestão democrática, para não cair no equívoco de adotá-los, imaginando-se democrático. Neste capítulo, você terá a oportunidade de fazer estudos de casos extraídos do cotidiano da gestão escolar, pois, a partir da análise do cotidiano da gestão, acreditamos ser possível compreender melhor as estratégias para a gestão. Saiba mais Antes de passar para os estudos de caso, sugerimos que você conheça um trabalho que aborda a questão da tomada de decisão na gestão escolar. No trabalho de conclusão de curso de Pedagogia do Centro de Ciências Humanas e Educação da UNAMA, disponível no sítio < unama.br/site/bibdigital/monografias/gestao_escolar.pdf>, os pedagogos Juçara dos Santos Gonçalves e Raimundo Santos do Carmo fazem um estudo interessante intitulado Gestão escolar e o processo de tomada de decisão, no qual relacionam essa tomada de decisão aos estilos de liderança autocrática, democrática ou laissez-faire. Os autores falaram, no capítulo IV, sobre métodos e instrumentos para tomada de decisão. Sugerimos que você acesse e conheça o trabalho. 5.1 O cotidiano da gestão escolar Na gestão escolar democrática, a tomada de decisão se faz com o compartilhamento de informações, responsabilidades e poder de decisão com professores, funcionários, pais e alunos, além da participação dos conselhos escolares. A partir disso e considerando que as condições de trabalho dos profissionais da escola dependem do respeito entre toda a equipe escolar e de apoio extraescolar, analise as três situações de reuniões apresentadas nos casos 1, 2 e 3. Caso 1: reunião geral da escola no início do ano letivo para apresentação do calendário escolar e estabelecimento das linhas de ação para a gestão no novo ano Ao iniciar o ano letivo, o gestor José fez uma reunião geral e, após a apresentação do calendário realizada pelos coordenadores (discutido 524 4º PERÍODO PEDAGOGIA UNITINS/FAEL

3 no fim do ano anterior e aprovado pela DRE), deixou suas intenções bem claras, em sua fala de boas-vindas: Este ano vamos realizar todas as nossas atividades em equipe. Quero cinco comissões permanentes de trabalho para resolver todas as questões da escola. Vocês conversem com os coordenadores e organizem as comissões. Até meados de março, quero que me apresentem a composição de cada comissão que, depois de nomeadas, darão conta do recado. Depois disso, não quero que me peçam para resolver nada, que eu já tenho muito trabalho. Só quero resultados positivos, afinal temos uma escola democrática, ou não temos? Tenho certeza de que tudo vai dar certo, pois todos são competentes e não vão querer deixar a peteca cair diante dos pais, da comunidade e da DRE. Agora, vamos para o lanche porque temos muito serviço pela frente. Aliás, o lanche está uma beleza. Espero que durante o ano possamos ter muitos encontros como este e que a comissão de festas fique, desde já, encarregada de preparar bons lanches para nós. E saiu da reunião todo sorridente, distribuindo abraços, no maior alto-astral. Caso 2: reunião da equipe gestora para organização de suas atividades na perspectiva de ações integradas A gestora Angélica apresentou-se muito eufórica na primeira semana de retorno às aulas do segundo semestre letivo, diante da equipe que se reuniu extraordinariamente conforme sua convocação. Logo de cara, ela afirmou ter conseguido várias contribuições da comunidade para melhorar a escola e apresentou a lista de suas conquistas. Todos ficaram admirados e aplaudiram Angélica e iniciaram a discussão sobre a aplicação das conquistas da gestora. Esta, aparentemente receptiva, começou a ouvir as sugestões, mas não demorou muito e retomou a palavra pedindo licença para apresentar seu plano de ação, dizendo: eu pensei nisso, vamos fazer aquilo, pensei em você (apontando um funcionário da secretaria) que sabe agilizar esse setor, e você (apontando um coordenador), para conseguir dos professores essas ações. A você (dirige-se a outro coordenador) peço que controle o pessoal, para que possamos atingir nossas metas. E continuou seu monólogo: Vai ser muito bom! Sei que todos estão empolgados como eu. Em pouco tempo, a escola vai oferecer melhores condições de trabalho, maior reconhecimento dos alunos e das famílias. Na parte pedagógica, também tenho um plano excelente e tenho certeza de que você, você e você (dirige-se aos coordenadores e orientador), dinâmicos como são, vão realizar todas as minhas ideias junto aos professores e alunos. Podem dar sugestões. Nesse ponto, ela parou um pouco de falar e ouviu a sugestão UNITINS/FAEL PEDAGOGIA 4º PERÍODO 525

4 do secretário escolar e respondeu sorridente: eu já pensei nisso. Você não ouviu o que eu falei sobre esse tema? Estamos pensando da mesma forma, isso é muito bom! Aqui é uma escola democrática e autonomia é com a gente mesmo! Nesse ponto, um dos componentes da equipe perguntou ironicamente: Você vai se candidatar à direção nas próximas eleições? Um puxa saco retruca: Não, para vereadora. E os todos (será todos mesmo?) aplaudiram Angélica que resolveu tudo tão rápido e não os fez ficar naquelas reuniões demoradas do gestor anterior. Caso 3: reunião do Conselho Escolar para deliberar sobre questões disciplinares envolvendo as turmas do 4º ano, tendo como objetivo traçar princípios norteadores para a ação da escola e famílias Era meados do mês de abril e os professores não paravam de reclamar da disciplina das turmas do 4º ano. O coordenador sugeriu que o tema fosse discutido com o conselho da escola, mas Marinalva, a gestora, não achava necessário, entretanto acabou concordando. No dia e na hora marcados, Marinalva iniciou a reunião dirigindo-se aos presentes (pais, professores, funcionários e representantes da comunidade local) com a seguinte afirmação: a questão de disciplina tem de ser resolvida em casa, porque é no lar que se dá educação. Concordam?. Um representante dos pais começou a argumentar dizendo que a situação não era bem assim, que às vezes os filhos se comportavam bem em casa, mas na escola cada caso é um caso e que merece ser discutido para se descobrirem as causas da indisciplina e aí serem tomadas as medidas necessárias em casa e na escola. Nesse ponto, Marinalva acabou concordando, mas pediu desculpas por não poder continuar na reunião, uma vez que tinha outros problemas urgentes na escola para resolver. E, reafirmando-se democrática, pediu licença para retirar-se da reunião, deixando-a ao comando do pai que havia se manifestado, enquanto os pais diziam: temos de encontrar uma solução! Resumo Os três estudos de casos demonstraram a importância do exercício da gestão democrática no processo de tomada de decisão na escola. O gestor, como articulador da equipe de trabalho, é quem coordena, organiza e gerencia todas as atividades da escola, auxiliado pelos demais componentes da equipe gestora. Os gestores José, Angélica e Marinalva adotaram diferentes atitudes no momento de tomar decisões em situações do cotidiano escolar. A partir da análise dos três gestores, percebemos que a gestão democrática ainda não foi consolidada e que adotá-la é uma necessidade, pois, somente assim, o gestor contribuirá para o crescimento da equipe e da melhoria dos aspectos pedagógicos e gerenciais da escola º PERÍODO PEDAGOGIA UNITINS/FAEL

5 Atividade Agora é com você. Em cada caso, faça a análise da situação para responder às seguintes questões. CASOS / QUESTÕES Houve compartilhamento das decisões? Quais as características do estilo de gestão acentuadas na prática do gestor? Que consequências possíveis essa prática pode acarretar para o bom andamento das atividades escolares? Outros aspectos observados. Reescreva cada situação (casos 1, 2 e 3), fazendo intervenções no texto para apresentar as possíveis modificações no papel representado pelo gestor tornando-o de fato democrático. Comentário da atividade Você deve ter percebido que os gestores dos casos apresentados têm estilos diferentes de gestão, mas que, em nenhuma situação, predomina o estilo democrático. José, o gestor do caso 1, prefere deixar que as coisas aconteçam, não se preocupa em planejar e deixa que outros façam o que precisa ser feito. As características que podem ser depreendidas da análise do caso são a falta de compromisso, o desconhecimento do verdadeiro significado de descentralização e delegação de responsabilidades, assim como a desinformação sobre o conceito de autonomia. As consequências podem ser as mais diversas possíveis. Podemos afirmar que, diante dessa situação, teremos uma escola sem rumo e profissionais inseguros em relação às decisões, conscientes de que não serão respaldados, caso algo precise ser revisto e melhorado. Poderá haver também um alheamento por parte de alguns profissionais, uma vez que o próprio gestor se apresenta omisso. Angélica, gestora do caso 2, por sua vez, apresenta-se muito carismática, porém voltada para os próprios interesses, ou seja, não usa seu carisma em favor do grupo. Entre suas características marcantes, estão a facilidade de comunicação, a capacidade de influenciar o grupo e o grande poder de persuasão. Caso as ideias dessa gestora sejam realmente boas, os resultados podem ser até positivos, entretanto, como consequência de sua forma de agir, estamos diante UNITINS/FAEL PEDAGOGIA 4º PERÍODO 527

6 de um caso em que a escola está a serviço dessa gestora e não da coletividade, que está sendo tolhida de participar verdadeiramente do processo decisório. No caso 3, a gestora Marinalva apresenta um estilo autoritário e, sob a capa de democrática, deixa de discutir questões essenciais para o bom andamento das atividades escolares. Ela apresenta como principais características o autoritarismo, a ausência de diálogo, os preconceitos e a imposição de suas ideias pré-concebidas. Nesse caso, as consequências podem ser graves, desde o distanciamento dos membros do conselho, cujas ideias não são consideradas, até a submissão às ideias preconceituosas da gestora, uma vez que não adianta discordar nem perder tempo discutindo ações que a escola não vai implantar. Agora vem a segunda parte da atividade relacionada aos estudos de caso. Reúna-se com seu grupo de estágio e debata as respostas dadas aos casos 1, 2 e 3. Analise também como seriam as atitudes de um gestor democrático em cada contexto. Você e seu grupo devem reescrever cada situação fazendo intervenções no texto para apresentar as possíveis modificações no papel representado pelo gestor tornando-o, de fato, democrático. Assim você deve redigir a conclusão sobre as possibilidades de intervenção do gestor democrático. De nossa parte, queremos concluir o capítulo refletindo sobre a metodologia de estudos de caso. Você percebeu como é bom estudar um conteúdo a partir dessa metodologia? Você teve a oportunidade de refletir sobre várias situações nas quais a atuação direta do gestor pode fazer toda a diferença no trabalho pedagógico. Isso não significa que ele vai fazer tudo na escola, mas, se não for o articulador da equipe, a ideia de um projeto político-pedagógico próprio da instituição, construído e implantado pela equipe da escola, de forma coerente com suas necessidades, pode nunca sair do papel. E pior, situações de conflito como a do professor Zé autoritário, apresentada no capítulo 3, podem ficar se arrastando por anos a fio e comprometendo o alcance dos objetivos educacionais. Saiba mais A revista Gestão em rede é uma publicação do CONSED Conselho Nacional de Secretários de Educação. A primeira edição foi lançada em setembro de 1997, com o objetivo de promover a divulgação de informações sobre a prática e as concepções competentes de gestão educacional, visando à promoção da melhoria da qualidade das escolas públicas e de seus sistemas. Visite o sítio < asp?id=302&desc= 445&arquivo=true> e conheça casos de sucesso de gestão democrática. A revista Nova Escola, em edição especial, também apresentou cinco histórias de gestores que, sem medo das dificuldades, arregaçaram as mangas e conseguiram transformar a realidade de suas escolas, para a alegria da comunidade, das famílias e dos estudantes. O artigo 528 4º PERÍODO PEDAGOGIA UNITINS/FAEL

7 é Eu fiz... e deu certo, que está disponível no sítio < abril.com.br/edicoes/esp_023/aberto/ eu-fiz-deu-certo shtml> e conheça os casos relatados e identifique as possíveis características comuns entre as práticas desses gestores. Agora que você já analisou alguns contextos da gestão, avaliou comparativamente diferentes posturas dos gestores com a perspectiva de uma gestão democrática, será importante compreender os muitos desafios enfrentados pelos gestores para desempenhar democraticamente suas funções, auxiliar a integração de sua equipe na construção e na consolidação do projeto político-pedagógico e atuar, sempre, em prol da aprendizagem dos alunos. É isso que faremos, no próximo capítulo, ou seja, analisaremos alguns desafios objetivos ou subjetivos para a consolidação da gestão escolar democrática. Referência MELO, Maria Teresa Leitão. Gestão educacional: os desafios do cotidiano escolar. In: BASTOS, João Batista (Org.). Gestão democrática. Rio de Janeiro: DP&A, Anotações UNITINS/FAEL PEDAGOGIA 4º PERÍODO 529

8 530 4º PERÍODO PEDAGOGIA UNITINS/FAEL CAPÍTULO 5 ESTÁGIO SUPERVISIONADO I: GESTÃO EDUCACIONAL

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