Travel guides: apresentando Porto Alegre através da língua inglesa

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1 Travel guides: apresentando Porto Alegre através da língua inglesa Ana Carolina Rosa Posuelo de Oliveira Bruna Souza Passos Introdução É de conhecimento geral que o ensino de línguas na escola é principal e insubstituível objeto de estudo, uma vez que a linguagem perpassa todas as atividades humanas. Dessa forma, uma educação linguística que tenha como objetivo a inserção bem sucedida de qualquer indivíduo nessas atividades, sejam quais forem, deve ter como preocupação proporcionar, no âmbito escolar, usos socialmente situados de linguagem, ou seja: trazer para dentro da sala de aula assuntos, discussões, recursos linguísticos que tenham relevância para o aluno e para a comunidade na qual se insere. Para isso, as aulas devem basear-se no uso de textos autênticos, trabalhados através de atividades que recuperem ao máximo as situações comunicativas em que aparecem (RCs, 2009). Partindo desses pressupostos e com base nos Referenciais Curriculares do Rio Grande do Sul (RS, 2009), foi criado o projeto O gênero travel guide e a apresentação da cidade Porto Alegre para estrangeiros, o qual tem como objetivos a ampliação do conhecimento dos alunos acerca de gêneros relevantes em língua adicional e o aumento da confiança dos educandos para transitar em diferentes textos em língua inglesa, relacionados ao gênero estudado. Além disso, visou-se valorizar o conhecimento prévio dos alunos, tendo em vista que o trabalho com língua inglesa, principalmente na escola, tende a considerar pouco a sabedoria adquirida nas práticas cotidianas que envolvem a língua as quais muito acrescentam às atividades escolares. Considerando, ainda, que o trabalho desenvolveu-se através de um projeto pedagógico, montamos as atividades de maneira que tivessem sentido para o projeto; logo, elaboramos as aulas de modo que os alunos tivessem a oportunidade de paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

2 mobilizar-se em torno de um objetivo central, isto é, a produção de um produto final que, no caso aqui relatado, constituía-se na elaboração de um travel guide. Descrição do projeto Esse projeto foi aplicado em uma turma de oitavo ano, com 16 alunos, na Escola Estadual de Ensino Fundamental Dr. Emílio Kemp, localizada no bairro Partenon da cidade de Porto Alegre. O gênero estruturante, travel guide, foi escolhido devido à atenção que Porto Alegre recebeu dos estrangeiros por causa da Copa do Mundo da FIFA. A Copa do Mundo de Futebol possibilita o contato com pessoas de outros países que, muitas vezes, não dominam a língua portuguesa. Acreditamos que visitantes do evento (e outros visitantes estrangeiros), por não falarem a língua portuguesa, podem fazer um bom uso de travel guides da cidade de Porto Alegre escritos em língua inglesa. Além disso, o sentimento de inferioridade recorrente nos alunos no que concerne à atratividade da cidade em que vivem motivou-nos ainda mais a aplicar esse projeto, pois se tornou possível não só pensar na cidade como um ponto turístico temporário do país, mas como um lugar digno da visitação de turistas em qualquer época. Pensando nisso, os produtos finais do projeto são pequenos guias turísticos, no formato folder, os quais contemplam dicas sobre a cidade e descrições de alguns pontos turísticos, para serem disponibilizados em locais de fácil acesso para estrangeiros, como a RELINTER (Secretaria de Relações Internacionais) e o Programa de Português para Estrangeiros (PPE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e também para a comunidade escolar. Para o desenvolvimento desse produto final foi, contudo, necessário o cumprimento de algumas etapas: Momento 1 - Apresentação do gênero Nesse primeiro momento, os alunos fizeram algumas atividades de preparação de leitura de travel guides, nas quais pretendíamos investigar se os alunos já haviam entrado em contato com o gênero. Essa fase tinha como objetivo instigar os alunos a paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

3 pensarem o que poderia ser um travel guide, onde circularia, quem o leria. Poucos tinham contato com o gênero, logo passamos para a atividade de leitura de guias turísticos. Nessa etapa, os alunos tiveram contato com alguns exemplos de guias turísticos escritos em língua inglesa, os quais retiramos de páginas da internet. Para estimular a leitura dos guias, foram entregues questões para ajudá-los, como as seguintes: A partir desses questionamentos e da ajuda de dicionários, foi possível analisar o conteúdo dos guias e sua estrutura (como as informações são organizadas, o que geralmente aparece, o papel das imagens etc). Essa análise foi de grande relevância uma vez que, desde o primeiro momento do projeto, os alunos tiveram um contato mais aprofundado com o gênero, o que facilitou o desenvolvimento do produto final previsto. Após o estudo dos guias escolhidos, juntos criamos uma definição para travel guide, que sintetizava as análises realizadas pela turma. A fim de aprofundar os estudos acerca do conteúdo recorrente nesse gênero, foram realizadas tarefas com recursos linguísticos relevantes, como caça-palavras com vocabulário (currency, tourists, language), jogo com adjetivos (cada aluno recebeu cartões com adjetivos em inglês e adjetivos em português, como expensive e caro, tendo como objetivo encontrar o par do seu cartão, em inglês ou português) entre outros. Assim, os alunos paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

4 ampliaram seus conhecimentos sobre a língua e nós, professoras, pudemos mapear aquilo que fora bem entendido e o que precisaria ser revisado. Momento 2 - Descrevendo imagens O segundo momento visava à aplicação dos conhecimentos do momento 1 em descrições de imagens de Porto Alegre. A caracterização de locais da cidade constitui informação básica no gênero estudado, logo é essencial o estudo desse aspecto dos travel guides. Considerando que os alunos estudaram substantivos e adjetivos recorrentes nos textos lidos, foram dadas imagens da cidade de Porto Alegre para que, em duplas, os alunos descrevessem cada uma delas. Para isso, estudamos algumas estruturas linguísticas usadas nas caracterizações de locais (This place is ; It is very ). Os alunos, assim, associaram as estruturas estudadas aos adjetivos do momento anterior e descreveram imagens. A atividade é relevante não só para a posterior produção final do guia turístico dos alunos, mas também para a prática de produção textual em língua inglesa. Momento 3 - Estudando os meios de transporte da cidade de Porto Alegre O momento 3 do projeto baseou-se no trabalho com os meios de transporte de Porto Alegre. Pensando que é sempre útil um guia turístico ter dicas de transporte, trabalhamos esses aspectos com nossos alunos para que eles colocassem isso nos seus próprios travel guides. Para isso, introduzimos o assunto através do vídeo Coisas que Porto Alegre fala no trânsito ( no qual vemos aspectos característicos dos transportes em Porto Alegre através de um viés cômico. A visualização do vídeo também funcionou como um momento para o aumento dos conhecimentos dos alunos acerca do assunto. Após, trabalhamos recursos linguísticos relacionados a meios de transportes: estruturas e vocabulário. Nessa etapa, contamos com os conhecimentos prévios dos alunos, que ajudaram no vocabulário (bus, car, bike, etc.) e também nas estruturas relacionadas a transportes (Means of transportation in Porto Alegre are ; The easiest way to get around the city paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

5 is ). Com isso, foram aprendidas as bases para a escrita das dicas de transporte no folder. Momento 4 - Produção escrita do folder Essa fase do projeto é marcada pelo início da elaboração dos folders pelos alunos. A produção deu-se em duplas, o que é bastante produtivo, pois favorece a troca de ideias, de conhecimentos e de experiências, além de aperfeiçoar o trabalho em grupo. Em um primeiro momento, os alunos produziram as capas, utilizando folhas, canetas e lápis coloridos. A capa contava com título, criado pelos alunos, e informações básicas da cidade de Porto Alegre, como localização, moeda e língua. A próxima etapa na elaboração do folder foi a escrita das dicas dos meios de transporte. Para isso, os alunos utilizaram os seus conhecimentos sobre o transporte em Porto Alegre e também os conteúdos trabalhados no momento 3. O passo seguinte foi a descrição de imagens de Porto Alegre. Levamos fotos de diferentes locais da cidade; os alunos escolheram aqueles que mais lhes agradavam e as descreveram de acordo com as estruturas e adjetivos estudados. Prontos os folders, passamos ao momento da publicação. Locais como a RELINTER e o PPE da UFRGS e também a comunidade escolar foram escolhidos para a distribuição. Acreditamos que, com isso, os travel guides chegam aos seus interlocutores e adquirem uma real função comunicativa. Avaliação Para avaliar o trabalho desenvolvido ao longo do projeto, parte-se do pressuposto que o resultado atingido é apenas uma das etapas do processo. Dessa forma, os alunos foram avaliados a partir da sua participação e aprendizagem durante todas as aulas. Para ter um maior controle disso, foi criada uma tabela que registrava as atividades pedidas e quais alunos as realizaram. Para avaliar o produto final criou-se uma tabela avaliativa para ser preenchida pelos alunos e pelas professoras. Nela, havia discriminadas as tarefas exigidas na paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

6 elaboração dos travel guides, como confecção da capa, elaboração das informações sobre meios de transportes, descrições de lugares da cidade etc. Para cada uma dessas tarefas os alunos tinham que se avaliar de 1 a 4, sendo 1 pouco, 2 razoável, 3 bom e 4 muito bom. Após esse momento, era a vez de as professoras avaliarem. Acredita-se que a partir desse tipo de avaliação o aluno torna-se parte consciente do processo avaliativo, capaz tanto de recuperar um trabalho mal realizado quanto de ganhar confiança pelo seu sucesso. É ainda importante lembrar que os critérios avaliativos motivadores para essa tabela e para toda avaliação realizada no projeto foram baseados em discussões e reflexões feitas pela turma, o que reforça o papel fundamental dos alunos nessa etapa do projeto. Além disso, realizou-se uma pequena prova, devido às necessidades da escola. Tal prova tinha como objetivo verificar o que os alunos compreenderam acerca do gênero estudado, como foi o andamento das aulas e o que eles puderam aprender a partir delas. Para isso, realizaram-se três atividades: a primeira constava em um exercício de descrição de imagens, em que os alunos podiam consultar um quadro com adjetivos e frases possíveis para descrevê-las, ambos vistos em aula; a segunda, um exercício dissertativo, em que o aluno precisava escrever sobre o gênero travel guide, apontando as suas principais características; a terceira, uma autoavaliação em que os alunos responderam questões sobre o andamento das aulas e sintetizaram todo o conhecimento adquirido. A partir desse tipo de avaliação tem-se um conceito mais variado e flexível de proficiência, uma vez que o aluno proficiente não é aquele que decorou mais vocabulário ou estruturas, mas o que tem o domínio do sistema para um uso adequado da língua no desempenho de ações no mundo (RCs, 2009), nesse caso, identificando, lendo ou escrevendo guias turísticos. Considerações finais O presente trabalho tinha por objetivo relatar o projeto aplicado em uma turma de oitavo ano da E.E.E.F. Dr. Emílio Kemp, desenvolvido no primeiro semestre de 2014, considerando aspectos básicos do ensino de língua adicional. Tendo como paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

7 base os Referenciais Curriculares do Rio Grande do Sul (RS, 2009), elaboramos um projeto que visava: (a) o contato do aluno com gênero relevante em língua adicional; (b) aumento dos conhecimentos em língua inglesa; (c) ler e produzir textos no gênero estudado; (d) efetivar uma interlocução significativa em que os alunos sentem-se responsáveis pelo seu dizer; (e) uso socialmente situado das práticas de leitura e escrita. Acredita-se que esses objetivos foram alcançados haja vista os produtos finais realizados pelos alunos, os quais refletem não só os recursos linguísticos aprendidos, como também o engajamento e a motivação na escrita de textos que circularão na sociedade. Travel guides confeccionados pelos alunos paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

8 Referências Bibliográficas RIO GRANDE DO SUL, Secretaria de Estado de Educação. Departamento Pedagógico. Referenciais Curriculares do Rio Grande do Sul: linguagens, códigos e suas tecnologias. Secretaria de Estado da Educação. v. 1. Porto Alegre: SE/DP, paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

9 Ana Carolina Rosa Posuelo de Oliveira Graduanda em Letras Português e Inglês na UFRGS e bolsista do Projeto Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência Língua Portuguesa (PIBID/UFRGS). Bruna Souza Passos Graduanda em Licenciatura em Letras Português e Inglês na UFRGS e bolsista CNPq de pesquisa em Teoria e Análise Linguística. paginas.ufrgs.br/revistabemlegal REVISTA BEM LEGAL Porto Alegre v. 4 nº

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