As políticas habitacionais sociais como fomentadoras dos problemas urbanos. O caso do Conjunto Habitacional Ana Paula Eleotério em Sorocaba-SP.

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1 Felipe Comitre Silvia Aparecida Guarniéri Ortigoza Universidade Estadual Paulista UNESP Rio Claro As políticas habitacionais sociais como fomentadoras dos problemas urbanos. O caso do Conjunto Habitacional Ana Paula Eleotério em Sorocaba-SP. INTRODUÇÃO O acesso a terra sempre esteve relacionado ao de status social, e principalmente como meio político da classe dominante manter e reproduzir seus privilégios. Desta forma, a terra torna-se o principal meio para esta classe manter-se no controle do país. No Brasil este tema não se diverge, já que sua forma de acesso a terra ocorreu sucessivamente de modo segregador, isto é, sempre privilegiando uma pequena parcela da população dotada de poder aquisitivo e (ou) prestígio. Causando problemas sociais existentes até hoje em nossa sociedade, como o habitacional, que está sendo abordado nesta pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso durante o ano de Assim, desde a cessão de terra pelas Capitanias Hereditárias, posteriormente com a Lei de Terras de 1850 e o início da sujeição da terra ao capital, até a atuação do mercado imobiliário existente atualmente, notamos a exclusão da classe trabalhadora ao direito de moradia. Reconhecendo o déficit habitacional existente no país e o direito constitucional do acesso a moradia para todo cidadão, torna-se imprescindível a execução de políticas habitacionais sociais visando atenuar este problema marcante da sociedade brasileira, e conseqüentemente, praticar o cumprimento da legislação vigente. Contudo, a partir de uma revisão histórica destas políticas habitacionais sociais, é notado que as mesmas foram pouco difundidas no país. Já que é a partir do governo ditatorial em 1964, que elas ganham destaque no cenário nacional com a criação do Banco Nacional de Habitação (BNH), destinado a promover a construção e a aquisição da casa própria principalmente para classe trabalhadora. Porém, o plano que foi executado não funcionou de 1

2 acordo com as expectativas iniciais, sendo útil, sobretudo, como um estímulo econômico para o país, por meio do aquecimento no setor da construção civil. Posteriormente, com o fim do projeto do BNH em 1986, o tema da habitação deixou de apresentar-se como o centro das políticas sociais. Portanto, as políticas de habitação social no Brasil sempre privilegiaram outras funções ao invés da principal, isto é, conceder moradia para população necessitada. Entre as políticas habitacionais sociais existentes no Brasil, destacou-se a construção de conjuntos habitacionais em áreas situadas nas periferias das cidades, carentes quanto à infra-estrutura e serviços, tornando-se questionável a validade destas políticas quanto sua efetividade no aspecto social, bem como suas conseqüências para própria cidade. Pois de acordo com Maricato (1982, p. 29) os serviços urbanos se irradiam do centro à periferia, tornando-se cada vez mais escassos à medida que a distância do centro aumenta. Portanto, esta característica de atuação do Estado na construção de moradias em periferias, segundo Maricato (2002), é inadequado ao desenvolvimento urbano. Assim, este artigo visa relacionar a criação de conjuntos habitacionais sociais em periferias, como fomentadores dos problemas urbanos vistos atualmente nas grandes e médias cidades, destacando especialmente a segregação sócioespacial, para tanto, aborda-se o caso do Conjunto Habitacional Ana Paula Eleotério, o Habiteto, situado na cidade de Sorocaba-SP. O referido Conjunto Habitacional data de 1997, e consistiu na retirada das populações localizadas em favelas espalhadas pela cidade, assim como das situadas em áreas de riscos em diversos bairros, envolvendo inicialmente cerca de 500 famílias, que foram transferidas para lotes ditos urbanizados distantes da área central, com o intuito de melhorar as condições de vida da população beneficiada pelo projeto. Entretanto, como debateremos a seguir, este discurso político ficou muito aquém da prática efetiva a qual poderia ter provocado uma maior justiça social na cidade de Sorocaba. OBJETIVOS O objetivo geral deste trabalho consiste em analisar a atuação do Estado na elaboração de políticas habitacionais sociais, como responsáveis por estimular os problemas 2

3 urbanos nas grandes e médias cidades brasileiras. Demonstrando que os conjuntos habitacionais produzidos pelo poder público nas periferias das cidades são responsáveis por gerar a segregação sócioespacial das mesmas. Para efetivar este nível de reflexão será utilizado como exemplo o Conjunto Habitacional Ana Paula Eleutério, o Habiteto, localizado na cidade de Sorocaba-SP. Os objetivos específicos fundamentais para consolidação do objetivo geral são: - Elaborar mapa da cidade de Sorocaba demonstrando a localização do Conjunto Habitacional Ana Paula Eleotério e sua relação com as demais áreas da cidade no quesito de rendimento per capita, com o intuito de evidenciar a segregação sócioespacial na cidade. - identificar os interesses sociais, econômicos e políticos atendidos com a produção do conjunto habitacional. METODOLOGIA Para a execução do trabalho serão utilizados os principais procedimentos técnicos como: pesquisa, leitura e seleção da bibliografia; levantamento e a análise de dados estatísticos de alguns órgãos, como o IBGE; além da consulta e seleção de documentos e do acervo cartográfico da Prefeitura Municipal de Sorocaba, sendo realizadas as devidas adaptações nestes materiais procurando demonstrar as características da área de estudo. A pesquisa apresentará a abordagem qualitativa focada no Método Dialético, tendo como embasamento teórico a Geografia Crítica, partindo da leitura da cidade como produto e condição das relações sociais. Nosso entendimento, neste contexto teórico é a de que todas as relações sociais se materializam no território, (re) produzindo o espaço. Assim, o problema habitacional será caracterizado como produto da Revolução Industrial e suas conseqüências no modo de viver da população, responsáveis por eclodir na desigualdade entre as classes. Desta contradição entre as classes surgem novas relações que podem culminar em outras desigualdades. Como será abordada no trabalho a partir da atuação do Estado na execução de políticas habitacionais sociais que acabam culminando na estimulação de outros problemas urbanos, bem como novas contradições. Entendemos que as reflexões em torno das questões urbanas neste novo milênio devem estar centradas nos elementos que contribuem para a fragmentação do espaço e nos limites das políticas públicas 3

4 de uso do solo urbano, mas, também, de forma positiva, temos que considerar as possibilidades para a superação e/ou minimização das desigualdades sócio-espaciais. RESULTADOS PRELIMINARES As mudanças advindas com o modo de produzir da sociedade influenciam na transformação da forma de residir da população. Isto é, a implantação do capitalismo industrial cria bases e condições para o processo de urbanização, como afirma LEFEBVRE (2001). O processo de urbanização como produto da produção industrial, que é pautada na divisão de classes, tem como característica a existência de desigualdades entre a população. Assim, o crescimento urbano, como defende MARICATO (2002), ocorre gerando a exclusão social, motivo estimulador de problemas urbanos, dentre eles, a especulação imobiliária e a segregação sócio-espacial. Portanto, nas cidades capitalistas a ocupação de determinadas áreas se pautará nos seus aspectos de atração ou repulsão para população. Sendo que as primeiras envolvem sua adequada qualidade quanto à infra-estrutura, serviços, assim como possuir características que convergem aos costumes de determinadas épocas, já a segunda as ausências dos mesmos. Contudo, apenas a população dotada de poder aquisitivo tem a oportunidade de escolher estes locais atrativos, pois notadamente as áreas melhores estruturadas estão atreladas aos altos preços impostos pelo mercado imobiliário. Deste modo, as áreas relegadas pelo mercado imobiliário, bem como pela população mais abastada tornam-se os únicos locais permissivos a fixação da classe trabalhadora. Rodrigues (1988) elucida que: A rigor, os equipamentos coletivos deveriam beneficiar todos os moradores das cidades. Porém verifica-se que para serem utilizados é necessária uma capacidade de pagar que depende do lugar que os moradores ocupam no interior da divisão do trabalho, o que define seu lugar na cidade. (p. 51 e 52) 4

5 Ocorre, portanto, a segregação da classe de maior renda nas áreas de qualidade quanto à infra-estrutura e serviços e, conseqüentemente, a segregação da classe de menor renda nos locais periféricos ausentes de equipamentos tanto públicos quanto privados. Assim, Villaça (2001) defende que: Na verdade, não há dois tipos de segregação, mas um só. A segregação é um processo dialético, em que a segregação de uns provoca, ao mesmo tempo e pelo mesmo processo, a segregação de outros. (p. 147 e 148) Então, a segregação sócioespacial existente nas grandes e médias cidades brasileiras está associada à luta entre classes por determinadas localizações dentro das cidades, isto porque, o poder público não atua de forma uniforme ao produzir a cidade. Sendo assim, a estrutura urbana apresenta uma heterogeneidade em seus equipamentos de infra-estrutura e serviços, fomentando a segregação espacial entre as classes sociais. Além de produzir equipamentos públicos desigualmente pela cidade, o poder público pode também estimular a segregação sócioespacial ao produzir políticas sociais, que ao invés de promover melhorias para população menos abastada, assim como para a estrutura urbana funcionam contrariamente a estes intuitos. Santos (1994) avalia que: O poder público, entretanto, não age apenas de forma indireta. Ele também atua de forma direta na geração de problemas urbanos, ainda que prometendo resolvê-los. (p. 112) Esta característica foi encontrada na cidade de Sorocaba-SP, por meio do estudo do Projeto de Desfavelamento Habiteto, que resultou na formação do Conjunto Habitacional Ana Paula Eleotério. Este projeto realizado pela prefeitura de Sorocaba no ano de 1997 consistiu na retirada das populações localizadas em favelas espalhadas pela cidade, bem como das situadas em áreas de risco em diversos bairros, envolvendo inicialmente cerca de 500 famílias, que foram transferidas para lotes urbanizados, com o intuito de melhorar as condições de vida da população beneficiada pelo projeto. O projeto inicial previa a construção das moradias para os beneficiados através da ação da CDHU, porém esta não concordou com a área cedida pela prefeitura por considerar fora dos padrões estabelecidos para o projeto, alertando principalmente a distância do assentamento em relação ao centro, responsável por gerar pouca viabilidade de inclusão com o restante da cidade, além do difícil acesso ao centro comercial e aos empregos, causando a exclusão social desta população. 5

6 Dentre os inúmeros problemas sociais provenientes desta política pública, a segregação sócioespacial se destaca, já que a população beneficiada pelo projeto é excluída das localizações atrativas da cidade, nas quais se encontram as principais atividades socioeconômicas. Sendo remanejadas para áreas em que a classe dotada de poder aquisitivo não habita e, principalmente, não precisa conviver com a classe trabalhadora. Para ENGELS (1975): Todas as grandes cidades têm um ou vários bairros operários pobres onde se concentra a classe operária. É certo que muitas vezes a pobreza habita tugúrios escondidos perto dos palácios dos ricos, mas de uma maneira geral, é lhe atribuído um terreno à parte, longe das vistas das classes mais felizes, onde o proletariado se governa sozinho, bem ou mal. (p. 47) A segregação existente em Sorocaba, além da imposta pelo projeto de desfavelamento realizado, é um processo segundo o qual diferentes classes ou camadas sociais tendem a se concentrar cada vez mais em diferentes regiões gerais ou conjuntos de bairros da metrópole. (VILLAÇA, 2001, p. 142) O mapa a seguir demonstra o rendimento médio per capita da população de Sorocaba obtidos no Censo Demográfico de 2000, segundo os setores censitários delimitados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e a delimitação do Conjunto Habitacional Ana Paula Eleotério (o Habiteto). A partir de sua análise é possível entender a atuação do poder público como fomentador da segregação sócioespacial na cidade, pois a área de estudo possui o menor índice de renda em comparação as demais localidades. A produção da cidade segregada, a privatização do espaço público e a freqüente submissão dos governos locais aos interesses do grande capital têm levado à ocorrência de graves problemas sócio-espaciais, prejudicando sobremaneira os interesses dos cidadãos e levando-os à perda da qualidade de vida (ORTIGOZA, 2009, p. 157) Desse modo, o mapa elaborado também permite elucidar que a cidade em geral apresenta forte segregação entre as classes sociais, pois notadamente as áreas periféricas e as ausentes quanto à infra-estrutura e serviços são povoadas pela classe de menor poder 6

7 aquisitivo. Já as regiões centrais e da zona sul, que possuem os principais equipamentos tanto coletivos quanto privados da cidade são habitadas pelas classes de maior renda. Comprovando que a cidade capitalista confere a cada um o seu lugar visto que a configuração do urbano tende a reproduzir as classes do capitalismo. (RODRIGUES, 1988, p. 32) 7

8 Fonte: Censo Demográfico Elaborado por: Eder Roberto Silvestre/Felipe Comitre Esta pesquisa visa, portanto, questionar a construção de conjuntos habitacionais periféricos realizados pelo poder público como responsáveis por estimular inúmeros 8

9 problemas urbanos, sobretudo, a segregação sócioespacial que foi apresentada e debatida no desenvolvimento da mesma. Desta forma, cabe analisar os impactos que os problemas sociais, carência de infra-estrutura, densificação de áreas periféricas e inadequadas, segregação sócio-espacial, degradação ambiental e de vida, entre outros, causam no espaço urbano, para assim propor soluções para que estas políticas habitacionais não atuem na degradação da classe trabalhadora, assim como no aumento dos problemas nas cidades. A partir do aprofundamento da reflexão em torno desses problemas na cidade e, considerando a lógica da produção do espaço urbano, a pesquisa aqui apresentada pretende averiguar as possibilidades das políticas públicas urbanas mudarem seu curso, voltando-se definitivamente para a promoção da melhoria da qualidade ambiental e de vida da população que reside no Habiteto em Sorocaba (SP). BIBLIOGRAFIA BOLAFFI, G. Habitação e Urbanismo: O problema e o falso problema. In: MARICATO, E. (org.). A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial. São Paulo: Alfa-Omega, BONDUKI, N. Habitar São Paulo: reflexões sobre a gestão urbana. São Paulo: Estação Liberdade, p. ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora em Inglaterra. Coleção SÍNTESE. Livraria Martins Fontes. Editorial Presença. Tradução de Conceição Jardim e Eduardo Lúcio Nogueira, KOWARICK, L. A espoliação urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, LEFEBVRE, H, 1905 A cidade do capital/henri Lefebvre, tradução Maria Helena Rauta Ramos e Marilene Jamur. Rio de Janeiro: DP & A,

10 . O direito à cidade. Tradução: Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro, MARICATO, E. Brasil, cidades: alternativas para crise urbana. Petrópolis: Vozes, p. ORTIGOZA, S. A. G. Desenvolvimento sócio-espacial e dinâmica urbana. In BIZELLI, J. L. e FERREIRA, D. A. de O. (orgs). Governança Pública e Novos Arranjos de Gestão. Piracicaba: Jacintha Editores, p. SANTOS, M. A urbanização brasileira. São Paulo: Hucitec, p. RODRIGUES, A. M. Na procura do lugar o encontro da identidade Um estudo do processo de ocupação de terras: Osasco. 333 f. Tese (Doutorado) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. São Paulo, VILLAÇA, F. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel: FAPESP: Lincoln Institute,

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