Palavras chaves: Formação de professores. Prática inovadora. Planejamento docente.

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1 REPENSANDO O PLANEJAMENTO DIDÁTICO PARA UMA PRÁTICA INOVADORA EM UM CURSO DE FORMAÇÃO DOCENTE. Cecilia Gaeta Universidade Federal de São Paulo UNIFESP (professora convidada) Martha Prata-Linhares Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Resumo: No novo contexto do ensino superior os professores têm se confrontado com vários desafios em sua profissão visto que os contextos e condições de trabalho têm se alterado consideravelmente para atender às demandas de formação profissional e as necessidades dos alunos. Novas propostas curriculares e metodologias inovadoras vêm sendo adotadas em grande parte das instituições de ensino e o professor cada vez mais sente a necessidade de rever seu papel e reinventar sua prática, incorporando a competência pedagógica de planejar situações de aprendizagem. Neste artigo, relatamos, e discutimos uma experiência de formação docente em curso de lato sensu, que procura desenvolver com os professores o repensar e reelaborar o planejamento didático para organizar e alcançar uma prática inovadora que vá ao encontro dos desafios que hoje lhes são propostos. Adotamos para o desenvolvimento do artigo uma abordagem qualitativa apoiada na pesquisa documental e bibliográfica baseada principalmente em autores como Zabalza, Imbernón, Masetto e Gaeta. Ao final apresentamos algumas considerações obtidas a partir das analises da produção dos planos didáticos dos alunos do referido curso. Palavras chaves: Formação de professores. Prática inovadora. Planejamento docente. Introdução: É natural que os professores apresentem uma série de dúvidas, expectativas e ansiedades em relação às transformações pelas quais vem passando o ensino superior. Tanto às referentes ao domíniodo conteúdo específico do tema que leciona frente à acelerada produção de informações, quanto e principalmente, às relacionadas às novas expectativas sobre o papel docente e aos novos conceitos e propostas didáticas utilizadas por grande parte das Instituições de ensino. A democratização do acesso à grande quantidade de informações e as transformações verificadas no processo de ensino-aprendizagem impacta a forma como se entende o processo de ensino. Novos termos, próprios a prática inovadora, são 06106

2 incorporados à realidade do professor, tais como: utilização de estruturas curriculares que transcendem as disciplinas, metodologias ativas centradas no aprendiz, diversificação de ambientes e cenários de estudos, professores como facilitadores/mediadores dos processos de aprender de seus alunos. Este processo provoca, ou deveria provocar nos docentes, o repensar de seu papel profissional e a forma como planeja agir em sala de aula. Zabalza (2004, p.128) caracteriza essa mudança como a passagem do especialista da disciplina para o didata da disciplina, onde há a transferência do ponto de apoio da atividade docente (apresentar a informação, explicar, propor atividade e avaliar) para a aprendizagem (organizar o processo para que os estudantes tenham acesso ao novo conhecimento, desenvolver orientações e recursos que os ajudem, acompanhar o processo). Neste novo contexto o planejamento de situações de aprendizagem ganha destaque. Se durante um bom tempo o ensino tradicional centrado nas aulas expositivas era ótima estratégia, quando se pensava em transmitir informações e experiência do professor, (atingia padronizadamente vários alunos ao mesmo tempo) e a preocupação com a aprendizagem se restringia em verificar a retenção e memorização nas provas finais, agora as necessidades são outras. Espera-se que o docente vá para a sala de aula, para o laboratório, para o trabalho de grupo, para a pesquisa na biblioteca, para a tutoriae outros espaços de aprendizagem sabendo exatamente o que espera que os alunos aprendam ao final daquela seção de estudos, que significado trará para a formação profissional deles, como este tema se relaciona com o que os estudantes têm aprendido com os outros professores, que estratégias serão utilizadas para facilitar esta aprendizagem, que recursos serão necessários, como avaliará se os alunos realmente aprenderam e como dará continuidade ao processo no próximo encontro. O planejamento didático ganha importância estratégica como instrumento de trabalho do professor e torna-se indicativo de sua competência pedagógica. Objetivo: A partir destas considerações nos propomos neste artigo a relatar, analisar e discutir uma experiência de formação docente, em cursos de lato sensu, que procura desenvolver com os professores repensar e reelaborar o planejamento didático como um instrumento eficaz para organizar uma prática inovadora e adequada aos desafios que hoje lhe são propostos

3 Metodologia: Adotamos uma abordagem qualitativa para encaminhamento da investigação e elaboração do artigo. Utilizamos a pesquisa bibliográfica ressaltando os autores: Imbernón (2001), Zabalza (2004), Masetto (2013) Gaeta (2013). Para a pesquisa documental nos utilizamos do projeto politico pedagógico do curso de lato sensu para formação de professores intitulado: Docência no ensino superior e de alguns trabalhos de conclusão de alunos. Para a análise e discussão final nos utilizamos também de nossas experiências como professoras e das observações durante a disciplina de Planejamento Didático em doze turmas do curso. O planejamento didático para uma prática educativa inovadora: Planejar é um processo mental de previsão metódica e intencional de um conjunto de ações com vistas a uma meta ou resultado desejado. Trata-se, portanto, de um processo reflexivo, uma atitude crítica diante do trabalho a ser realizado. Entretanto no cotidiano atual das faculdades o planejamento didático tem-se reduzido, na maioria das vezes, a uma atividade na qual o professor preenche e entrega à secretaria um documento padronizado (muitas vezes uma reprodução do formulário do ano anterior) e sente que cumpriu uma de suas obrigações burocráticas. Ao subestimar o valor do planejamento didático inutiliza-se um eficiente instrumento de ação didática e de organização pedagógica; perde-se excelente oportunidade de revisão critica da atuação docente; ignora-se proposta de trabalho; facilita-se a improvisação; distancia-se o pensar do fazer, a teoria da prática pedagógica. Ao contrário do usual, o planejamento de cada unidade de ensino deve ser valorizado e considerado estratégico para o sucesso da docência e do curso, à medida que se trata de de construir um instrumento de ação educativa, onde cada disciplina estará colaborando para a formação de um profissional competente e um cidadão responsável (MASETTO, 2013, p.68). Sendo assim cada plano deve estar intimamente integrado ao projeto pedagógico do curso, portanto em interface com suas unidades e atividades. A integração (não a somatória) das áreas cognitivas específicas possibilita a formação profissional dos alunos de cada curso e, portanto, não deve ser feita de forma isolada, focada apenas na especificidade de uma matéria, mas uma construção conjunta entre todos os atores do processo de aprender (GAETA,2007, p.29)

4 Neste documento estarão previstas de forma sistematizada e flexível as atividades que os professores e os alunos desenvolverão, em conjunto, para atingirem os objetivos e competências pretendidas. É um documento orientador do processo: a experiência pedagógica do docente, suas reflexões e vivências lhe darão condições de superar as limitações e adequar o planejamento conforme as necessidades e situações de aprendizagem surgirem e o perfil dos alunos e da turma demandar. Na perspectiva da educação inovadora para o ensino superior o planejamento didático torna-se mais complexo, pois estará prevendo a organização de situações de aprendizagem que ocorrerão em um novo paradigma. Amplia-se o foco para o desenvolvimento do saber, saber fazer e saber ser para a formação profissional, a partir de um processo de ensino centrado no aluno, que utiliza propostas curriculares diferenciadas, metodologias ativas, estratégias colaborativas em ambientes presenciais e virtuais e processo de avaliação formativo. Optar por práticas inovadoras é buscar constantemente alternativas para desenvolver com nossos alunos um processo de aprender interessante e significativo que lhes proporcione uma efetiva formação profissional. É preciso inovar a cada dia, a cada turma, a cada curso que participamos. Imbernón (2000) ao apresentar seu pensamento sobre mudanças em educação nos dias de hoje, comenta a existência de uma crise em relação ao que se deve ensinar ou aprender em um mundo onde imperam a incerteza e a mudança vertiginosa e em relação ao novo papel do professor e chama a todos a um a um compromisso com suas ideias, por meio de sugestões concretas que permitam a implantação das inovações ou mudanças que defende (IMBERNÓN,2000, p.101). Optar por uma prática inovadora significa planejar e re-planejar constantemente. Exige um planejamento didático responsável, critico e um complexo processo de análise, previsão e tomada de decisão sobre cada situação de aprendizagem. Será necessário identificar necessidades individuais e coletivas da turma; estabelecer prioridades e objetivos; selecionar conteúdos pertinentes, métodos, estratégias e alternativas de ação adequadas, espaços de estudos apropriados; definir responsabilidades do professor e dos alunos, racionalizar recursos, tempo e energia e ajustar critérios, processos de avaliação e feedbacks contínuos. A inovação exige uma reflexão atenta e crítica, exige seleção e exploração de boas ideias, assim como coragem para descartar ideias novas que ao final não ofereçam algum tipo de benefício (PRATA-LINHARES, 2012, p.101)

5 Planejar ações educativas para uma prática inovadora é um dos desafios que o professor do ensino superior tem enfrentado no novo contexto das instituições educacionais. Trata-se de uma competência específica do professor e que este, em raras oportunidades, pode desenvolver. É neste contexto e para suprir esta carência que o curso de Docência para o Ensino Superior desenvolve a disciplina de Planejamento do trabalho docente que discutiremos a seguir. Curso de docência no ensino superior. Este curso de pós-graduação lato sensu é ofertado em uma instituição de ensino de São Paulo, desde 2002 na modalidade presencial e desde 2012 também em EAD. Tem como objetivo a formação do profissional da docência, refletindo sobre seu papel no contexto atual e desenvolvendo e/ou aperfeiçoando competências para o exercício da docência no ensino superior presencial. Está destinado aprofessores do ensino superior ou profissionais que desejem se tornar professores deste nível de ensino. Trata-se de um curso diferenciado, organizado a partir de um currículo inovador que integra a educação com a área de conhecimento específica de cada aluno e se baseia no pressuposto que o desenvolvimento do professor para uma prática profissional inovadora passa pelo desenvolvimento de competências nas dimensões: (i) cognitiva (domínio dos saberes específicos); (ii) pedagógica (compreensão do processo de ensino-aprendizagem e atuação coerente com seus princípios); (iii) reflexiva (a capacidade de pesquisar sobre sua própria prática apoiada por referenciais teóricos) e (iv) a política (formação da identidade profissional docente) (GAETA, 2007, p. 88). Ao longo do curso o participante vivencia uma série de situações de aprendizagens mediadas pelo docente (ora como aprendiz, ora como professor em exercício) que lhe permitem o desenvolvimento paulatino e crítico de uma docência inovadora. Para concluir o cursista deverá elaborar um plano didático para uma prática diferenciada em um componente curricular de sua livre escolha. Entende-se que este plano será a representação da proposta didática de cada aluno e em sua justificativa transparecerão as novas concepções e competências desenvolvidas durante o curso. O processo de construção deste plano ocorre ao longo do curso e vai sendo subsidiado pela discussão de uma série de temas e realização de várias atividades de simulação da prática. Primeiro o aluno elege o componente curricular que pretende 06110

6 lecionar e faz uma pesquisa de aprofundamento e atualização de conteúdo específico. Paralelamente uma série de discussões, atividades de simulação da pratica cotidiana e projetos são utilizados para o desenvolvimento dos seguintes temas: Prática docente inovadora; Planejamento como instrumento de ação educativa; Metodologias ativas e estratégias para aprender; Inter e transdisciplinaridade; Ambientes de aprendizagem: acadêmicos, profissionais, presenciais e virtuais; Novas tecnologias aplicadas à educação; Prática docente virtual; Ensino a distancia e atividades virtuais como apoio ao presencial; Processos de avaliação. No terceiro semestre do curso, são realizadas as oficinas para elaboração do plano. Esse espaço permite que os planos possam ser construídos em conjunto, professor e aluno, aluno e aluno, em forma reflexão, discussões e trabalhos em grupos, presenciais e virtuais, com orientação do professor. Em conjunto são definidos os parâmetros e os elementos que deverão compor o plano: contemplar o saber, saber fazer e saber ser, utilizar metodologias inovadoras e processo de avaliação formativo, utilizar entre três e cinco unidades de ensino. A intenção é de que seja um exercício crítico, consciente e atualizado de um planejamento docente para a prática inovadora no ensino superior e que ofereça aos participantes a oportunidade de utilizar o que aprenderam no curso e que possa ser útil em sua vida acadêmico-profissional, respeitando o contexto do componente que ministrará. No quadro I, podemos visualizar o formulário-orientador do planejamento utilizado pelos alunos e construído em conjunto pela classe. Considerações finais: O que pudemos perceber durante as oficinas e na análise dos produtos finais foi que os alunos ansiavam por propor algo que fosse diferente da experiência que tiverem em seus respectivos cursos de graduação em uma evidente insatisfação com os processos tradicionais vivenciados. Sentiam-se fortalecidos pelas experiências do curso, 06111

7 mas, o paradigma tradicional que estava arraigado muitas vezes aflorava no momento de concretizar suas ideias. Foi preciso muita discussão e empenho para superar esta etapa e muito provavelmente este processo se repetirá em seu percurso profissional. De forma geral, podemos considerar que o primeiro grande desafio que os alunos, futuros professores encontram, é transitar da perspectiva do ensinar para a de mediar o aprendizado do aluno. As primeiras versões dos planos ainda apresentam objetivos para o professor e não para o aluno. Por exemplo: Demonstrar a importância no lugar de compreender a importância, explicar ou apresentar em lugar de pesquisar. Mas no amadurecimento do processo esta dificuldade é superada. Outro desafio está em se liberar do domínio do cognitivo e prever objetivos nas dimensões do saber, saber fazer e saber ser. Há um evidente pré-conceito de que aqueles que conhecem sabem fazer, foca-se então o planejamento no saber. Alguns futuros professores que são oriundos de cursos tecnológicos também se preocupam com o desenvolvimento de competências, mas muito raramente questões do saber ser vêm à tona sem um estímulo e discussão intenso. No andamento do processo a questão que surge refere-se ao encadeamento, integração e coerência entre os componentes do plano: os objetivos são o eixo do processo de aprender, são os indicadores de onde queremos chegar; os conteúdos e estratégias são selecionados para dar suporte aos objetivos. São utilizados aqueles, e somente aqueles, que são adequados para cumprir esta meta. E o processo de avaliação, com seus critérios e instrumentos, permite analisar se os objetivos foram atingidos e indicam como intervir no processo em busca de melhores resultados. Para que os alunos amadureçam os novos pressupostos de seus planos são realizadas várias oficinas entremeadas por estudos teóricos e discussões que permitem aos participantes, professor e alunos irem paulatinamente consolidando as propostas pedagógicas e integrando os elementos de seu plano didático. O último e grande passo é o repensar do processo avaliativo. Entendê-la como um processo que contribui para a aprendizagem e que exige feedback constantes são pressupostos que veem de encontro às necessidades que sentiram como alunos, portanto, não é difícil de serem incorporados. O que é interessante é a dificuldade que apresentam para definir os critérios de aprendizagem e sistematizar a análise dos trabalhos. Quando questionados sobre como atribuem um conceito ou nota, tendem à subjetividade: este merece 10, este merece 8. Em função desta dificuldade é que a grande maioria das turmas, ao definir o modelo de formulário didático a ser trabalhado, 06112

8 opta por incluir na coluna de instrumentos de avaliação, o item critérios de avaliação de aprendizagem. Ao final, com os planos concluídos, os alunos manifestam imenso orgulho e prazer em produzir algo diferente, novo. Dizem ter a sensação, como um deles mencionou de ter posto o ovo em pé. Comentam que não esperavam que dar aulas fosse tão complicado e aprendem a valorizar e utilizar o plano didático como instrumento facilitador de sua prática. Referências: GAETA, Cecília. Formação docente para o ensino superior: uma inovação em cursos de especialização. Tese (Doutoramento em Educação: Currículo) - Programa de Pósgraduação em Educação - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, IMBERNÓN, Francisco. Formação docente profissional formar-se para a mudança e incerteza. São Paulo: Cortez, MASETTO, Marcos. T. O professor iniciante no ensino superior: aprender, atuar e inovar. São Paulo, SENAC: PRATA-LINHARES, Martha M.. A Inovação e o uso das tecnologias de informação e comunicação na educação. In: Galán, José Gomez; Lacerda Santos, Gilberto. (Org.). Informática e telemática na educação: as tecnologias de informação e comunicação na educação. Coleção informática na educação. 1ed. Brasília, Liber Livros: ZABALZA, Miguel A.O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed,

9 Quadro I Unidade Objetivos Conteúdos Estratégias Recursos Avaliação Instrumentos e critérios I II III IV Pontuação Unidade De três a cinco Considerar a perspectiva do aluno. Objetivos Considerar o saber, saber fazer e saber ser. Conteúdos Selecionar aqueles apenas os significativos Verificar a possibilidade de utilizar ambientes de Estratégias aprendizagem variados, metodologias ativas, projetos interdisciplinares. Selecionar os necessários para a eficiência da Recursos estratégia. Avaliação Utilizar a avaliação formativa. Selecionar os instrumentos de acordo com os objetivos. Instrumentos/critérios Definir claramente os critérios que identificarão se houve aprendizagem e em que nível. Definir a pontuação correspondente a cada atividade Pontuação ou conjunto de atividades

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