O CONCEITO DE ACESSIBILIDADE SOB A PERSPECTVA DOS COORDENADORES DOS NÚCLEOS DE ACESSIBILIDADE

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1 O CONCEITO DE ACESSIBILIDADE SOB A PERSPECTVA DOS COORDENADORES DOS NÚCLEOS DE ACESSIBILIDADE Ana Paula Camilo Ciantelli Pós-graduação em Psicologia FC/UNESP - Bauru Lucia Pereira Leite Pós-graduação em Psicologia FC/UNESP Bauru OBEDUC - CAPES PALAVRAS-CHAVE: Acessibilidade. Ensino Superior. Núcleo de acessibilidade. Pessoa com deficiência INTRODUÇÃO O Decreto Federal 5.296/2004, em seu artigo 8, inciso I, estabelece: I acessibilidade: condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida. Segundo Guerreiro (2012, p. 4), o decreto amplia a definição ao introduzir total ou assistida ao se referir à condição de utilização; para ele, trata-se da sua usabilidade, no sentido de que é algo que se torna concreto quando posto em prática. A Norma Brasileira Técnica 9050/2004 (ABNT, 2004) define em seu item 3.1 que a acessibilidade pode ser entendida como a [...] Possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos. Trata-se de uma definição voltada somente para os aspectos físicos de acessibilidade. Todavia, com a nova Norma Brasileira Técnica 9050/2015 (ABNT, 2015) esse conceito se estende, com a possibilidade de utilização de transportes, informação e comunicação, incluindo sistemas e tecnologias, na zona urbana ou rural, explicando e detalhando um pouco mais a informação o uso da sinalização tátil e visual no piso, a inclusão da Língua Brasileira de Sinais, sem se restringir à acessibilidade arquitetônica e urbanística. Além disso, a norma brasileira leva em consideração uma arquitetura e um design mais centrados no ser humano e na sua diversidade (NBR 9050/2015, p.139). A definição de acessibilidade dada pela Convenção Internacional sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (PCD), adotada pela ONU em 2007 e ratificada pelo Decreto Federal

2 6.949 (2009), estabelece em seu artigo 9º, inciso I, que os Estados Partes deverão tomar as medidas apropriadas para assegurar-lhes o acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, ao meio físico, ao transporte, à informação e comunicação, inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e comunicação. Recentemente, com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2015), o conceito de acessibilidade sofre novas alterações, com destaque para a concepção social da deficiência, cabendo à sociedade se reorganizar de forma a garantir o acesso de todos os cidadãos a tudo o que a constitui e a caracteriza. Portanto, deve-se promover a acessibilidade em todos os âmbitos da sociedade, o que inclui o direito da PCD ao Ensino Superior (ES). Os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP, 2014) demonstram que as matrículas das PCD no Ensino Superior têm aumentado nos últimos anos, passando de em 2003 para em 2014, um crescimento de 656%. Isso se deve em parte a legislações criadas recentemente e a programações implantadas por algumas universidades para atender esses estudantes. Um exemplo é o Programa Incluir Acessibilidade na Educação Superior, criado em 2005 pelo MEC. Sua meta pautou-se no desenvolvimento de políticas institucionais de acessibilidade nas IFES (Instituições Federais de Ensino Superior), buscando o pleno desenvolvimento acadêmico da PCD. O Incluir foi executado de 2005 a por chamadas públicas concorrenciais, por meio das quais as IFES apresentavam projetos de criação, reestruturação e consolidação de Núcleos de Acessibilidade (NA). De 2012 em diante essa ação foi universalizada para todas as IFES, induzindo o desenvolvimento de uma Política de Acessibilidade ampla e articulada. O Ministério da Educação criou o Plano Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência Viver sem Limites, que prevê o apoio para a ampliação e fortalecimento de 63 Núcleos de Acessibilidade nas IFES (Brasil, 2013). Os NA de algumas universidades federais e estaduais representam uma resposta das IES para dar suporte educacional e social para essa demanda. Visam promover ações institucionais para garantir a inclusão da PCD à vida acadêmica, eliminando barreiras pedagógicas, arquitetônicas, atitudinais e na comunicação e informação, promovendo o cumprimento dos requisitos legais de acessibilidade e se estruturando com base nos seguintes eixos: 1 Em algumas chamadas foi possível a participação de IES de natureza estadual.

3 infraestrutura, currículo, comunicação e informação, programas de extensão e programas de pesquisa (BRASIL, 2013). Este estudo teve como objetivo analisar o conceito de acessibilidade dos coordenadores dos NA das universidades federais brasileiras, visto que determinado conceito aponta a direção em que caminham as ações desenvolvidas nos núcleos. MÉTODO O método de investigação adotado foi o descritivo analítico, embasado na análise documental. O início da coleta de dados ocorreu pela consulta eletrônica ao documento Orientador do Programa Incluir Acessibilidade na Educação Superior (BRASIL, 2013) no site do MEC. Foram localizadas 55 instituições de ES que indicavam a presença de NA ativos ou em fase de desenvolvimento 2. Em seguida foi feito o convite a todos os coordenadores dos NA atuantes nas universidades selecionadas, via . Primeiramente foi realizada uma visita técnico-científica ao NA da UFSC, para conhecer as ações desenvolvidas e recolher informações sobre seu funcionamento. Também resgataram-se as informações referentes ao Programa INCLUIR Acessibilidade no Ensino Superior e as dimensões de acessibilidade apresentadas por Sassaki (2009). O conjunto dessas informações subsidiou o instrumento de coleta - questionário, constituído de 18 3 questões, disponibilizado aos participantes por formulário eletrônico on-line, pelo recurso do Google Docs 4. Na análise, as respostas dadas às questões sobre o conceito de acessibilidade foram categorizadas em função dos seis âmbitos de acessibilidade (arquitetônico, metodológico, comunicacional, instrumental, programático e atitudinal), buscando investigar aspectos relacionados ao funcionamento do núcleo de acessibilidade. Resultados e Discussão Dos dezessete participantes desta pesquisa, dez focalizam esse conceito na acessibilidade arquitetônica (30,3%); quatro priorizam a acessibilidade comunicacional (12,1%), outros quatro a acessibilidade metodológica (12,1%) e mais quatro a acessibilidade 2 Ressalta-se que alguns núcleos de acessibilidade ainda se encontram em fase inicial de operacionalização, sendo nomeados então como Comitês de Acessibilidade. 3 Nesse estudo iremos abordar apenas uma das questões, que diz respeito ao conceito de acessibilidade. 4 Trata-se de um serviço da empresa Google que permite ao usuário criar e editar documentos on-line, ao mesmo tempo colaborando em tempo real com outros usuários.

4 atitudinal (12,1%); um participante abrange a acessibilidade instrumental (1%) e outro a acessibilidade programática (1%). Além desses conceitos, quatro participantes consideraram acessibilidade como o acesso (condição e permissão) nos diferentes setores da sociedade (12,1%); quatro identificaram acessibilidade como a eliminação de barreiras existentes na sociedade (12.1%) e um participante respondeu que acessibilidade é a inclusão em todos os setores da sociedade (3%). Segundo Souza (2010, p. 131), historicamente o termo acessibilidade se restringia a remoção de barreiras arquitetônicas e adaptações de logradouros para pessoas com deficiência física e dificuldades locomotoras, sendo o termo incorporado pelos discursos da política educacional à medida que a inclusão surgiu. Complementarmente, algumas definições de acessibilidade ressaltam a importância dos aspectos relacionados à estrutura física, como a Nota Técnica 9050/2004 (ABNT, 2004) que define que a acessibilidade pode ser entendida como a possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos. Isso sugere por que a acessibilidade arquitetônica mostrou-se o conceito mais presente entre os coordenadores dos núcleos. Além disso, a ausência de acessibilidade por barreiras arquitetônicas, urbanísticas ou ambientais afeta a população de forma geral, sendo os deficientes físicos os mais prejudicados. As barreiras arquitetônicas são as mais visíveis e divulgadas pelos meios de comunicação de massa: incomodam toda a população, além daquelas com mobilidade reduzida permanente ou temporariamente; portanto, tornam-se a acessibilidade mais comum e mais cobrada pela sociedade. Todavia, a acessibilidade não se restringe a ações de acessibilidade arquitetônica, é preciso que seja ofertada em todas as dimensões, para que se torne cada vez mais possível a inclusão no Ensino Superior. Conclusão A participação da PCD no Ensino Superior é uma realidade recente no país e, apesar das promulgações de políticas e/ou ações específicas, muitas ainda são as barreiras de acessibilidade a serem superadas para que a educação superior pública possa de fato garantir o acesso e a permanência de estudantes com deficiência. Mas os primeiros passos foram dados - com a criação, ampliação e o fortalecimento dos núcleos de acessibilidade, apontando para um caminho possível a fim de favorecer a participação de um segmento ainda pouco expressivo na realidade universitária no país. Todavia, faz-se necessário ampliar o conceito de

5 acessibilidade no contexto universitário, promovendo mudanças que eliminem não apenas as barreiras arquitetônicas, mas todas elas (arquitetônicas, comunicacionais, instrumentais, metodológicas, programáticas, atitudinais) para que a PCD possa acessar espaços, serviços, informações e bens materiais necessários para o seu desenvolvimento humano. Referência ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9050: Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Rio de Janeiro: ABNT, ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9050: Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Rio de Janeiro: ABNT, BRASIL. Ministério da Educação/ Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Censo da Educação Superior. Resumo Técnico Censo da Educação Superior. Brasília, INEP, Presidência da República. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de Disponível em: Acesso: 17 maio Presidência da República. Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de Brasília: PR, Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato /2004/decreto/d5296.htm> Acesso em: 15 maio Presidência da República. Lei nº , de 6 de julho de Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Brasília, Disponível em: Acesso em: 20 fev Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI). Documento orientador: Programa incluir - Acessibilidade na educação superior SECADI/SESu Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option= com_ content&view=article&id=17433&itemid=817>. Acesso em: 19 ago GUERREIRO, E. M. B. R. A acessibilidade e a educação: um direito constitucional como base para um direito social da pessoa com deficiência. Revista Educação Especial., Santa Maria, v. 25, n. 43, p , maio/ago SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: acessibilidade no lazer, trabalho e educação. Revista Nacional de Reabilitação, São Paulo, Ano XII, mar./abr. 2009, p SOUZA, B. C. S. Programa INCLUIR ( ): uma iniciativa governamental de educação especial para a educação superior no Brasil f. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.

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