Newsletter dos Portos de Setúbal e Sesimbra. Nº 39 - janeiro de Trimestral

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1 Newsletter dos Portos de Setúbal e Sesimbra Nº 39 - janeiro de Trimestral

2 FICHA TÉCNICA Newsletter dos Portos de Setúbal e Sesimbra Número 39 - janeiro de 2014 Propriedade: APSS - Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, SA Morada: Praça da República Setúbal Tel.: (+351) Fax (+351) Diretora: Fátima Évora Edição: Divisão de Marketing e Documentação Coordenação gráfica: Nuno Lobo Paulo Fotografia: Nuno Lobo Paulo Redação: Maria João Bacalhau, João Gonçalves, Fátima Évora Colaboradores convidados: Ernesto Carneiro, Inês Vaz Pinto Conceção gráfica: White Brand Services Impressão: Lokemark SA ISSN: X Depósito legal: Tiragem: exemplares Periodicidade: Trimestral Distribuição: Gratuita APSS - Todos os direitos reservados

3 EDITORIAL Propiciar a discussão sobre as valências do Porto de Setúbal e estimular o diálogo entre os elementos da comunidade logística-portuária, foi o objetivo principal da conferência Porto de Setúbal, a solução ibérica disponível, organizada em novembro pela CPS - Comunidade Portuária de Setúbal, com o apoio da APSS, entre outras empresas que se envolveram através do patrocínio do evento. A conclusão mais marcante da conferência terá sido que o Porto de Setúbal é o futuro na região de Lisboa. Ideia sustentada pelo estudo sobre o Sistema Portuário Nacional da autoria do Prof. Doutor Crespo de Carvalho, apresentado publicamente pela primeira vez, e reiterada pelo Prof. Doutor Augusto Mateus e pelo Prof. Doutor Eduardo Catroga. Esta visão explica-se, segundo o autor do estudo, por este porto poder constituir a alavanca para o crescimento na região. O porto já dispõe de um conjunto de valências e de investimentos efetuados que devem, de imediato, ser rentabilizados e utilizados. Por outro lado, o planeamento estratégico para as infraestruturas do sistema portuário deverá ser feito de forma a dar prioridade ao aproveitamento das capacidades instaladas. O evento contou com a honrosa presença do Secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Dr. Sérgio Monteiro, que referiu que a intenção do Governo é rentabilizar as estruturas já existentes e combater desperdícios. Quanto à movimentação de mercadorias, o ano que agora findou foi muito positivo para o Porto de Setúbal; foi um ano de consolidação, com um valor acima de 7 milhões de toneladas, que representou um record absoluto e uma variação positiva de 16%, face a No que se refere à carga, merece ainda referência a consolidação da posição como porto exportador de referência e parceiro das indústrias nacionais, a carga exportada pelos seus terminais portuários, excluindo a cabotagem, representou 65% do total. Regozijamo-nos por poder contribuir para as competências exportadoras das empresas do hinterland do porto, através da oferta de serviços de transporte marítimo regulares para cada vez mais destinos e com transit time muito competitivos. O fortalecimento do relacionamento com os parceiros indústrias, armadores e operadores logísticos é um desígnio que seguimos todos os dias na APSS. Merece ainda destaque, por ter iniciado a sua atividade, o Centro de Formação Portuária. Trata-se de uma iniciativa desenhada com base em parcerias com entidades certificadas na vertente formativa ligada ao mar e às atividades portuárias, com as quais assinámos protocolos de colaboração. Visa-se a capacitação e valorização dos recursos humanos de empresas e entidades inseridas na comunidade portuária de Setúbal e Sesimbra. Congratulamo-nos com a conclusão com êxito, mais uma vez, da Auditoria de Acompanhamento ao Sistema de Gestão Ambiental (SGA), segundo o referencial NP EN ISO 14001:2004, realizada à empresa pela Lloyds Register Quality Assurance. O sucesso alcançado resulta do empenho e colaboração de todos os colaboradores da APSS, sendo reconhecido pelo auditor o nosso compromisso para com o sistema de gestão ambiental. A manutenção da certificação constitui um estímulo para o empenhamento dos serviços dos portos de Setúbal e Sesimbra na melhoria contínua da qualidade, ambiente e segurança. O Presidente Vitor Caldeirinha 3

4 NOTÍCIAS Centro de Formação Portuária de Setúbal A APSS - Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, SA, no âmbito do desenvolvimento do Centro de Formação Portuária, celebrou no passado dia 28 de novembro um Protocolo de Colaboração com o FOR-MAR Centro de Formação Profissional das Pescas e do Mar. Esta iniciativa marcou, de forma simbólica, o início de atividade do Centro de Formação Portuária de Setúbal. A cerimónia integrou ainda um Seminário Técnico sobre Formação e Qualificação na Área do Mar: A Cultura de Segurança no Trabalho Marítimo e Portuário, realizado no Auditório da APSS. O programa incluiu dois painéis e terminou com um debate moderado pelo Chefe da divisão Pedagógica do FOR- MAR, Carlos Serôdio. O IEFP Instituto do Emprego e Formação Profissional, IP, através do Departamento de Formação Profissional, em parceria com o FOR-MAR e o Porto de Setúbal, participaram no referido seminário técnico, com o objetivo de promover a divulgação e discussão das Normas de Certificação nestas atividades. Porto de Setúbal recupera movimento Para o Porto de Setúbal, 2013 foi um ano de consolidação da movimentação de carga, com uma recuperação que se veio a revelar regular ao longo do ano, no final, o total do porto fixou-se acima de 7 milhões de toneladas, uma variação positiva de 16%, em relação aos 6 milhões de toneladas de 2012, e um máximo absoluto. O protocolo foi assinado pelo Presidente do CA, Vítor Caldeirinha, e pelo Vogal do CA, Carlos Seixas da Fonseca, por parte de APSS, e pelo Presidente do CA, Aníbal Figueiredo, e pelo Vogal do CA, Duarte Leite de Sá, por parte do FOR-MAR. Este documento de colaboração visa a valorização dos recursos humanos nos vários domínios da atividade portuária, da logística e dos transportes marítimos, com enfoque para os pertencentes às Comunidades de Setúbal e Sesimbra. Com este protocolo a APSS disponibilizará ao FOR-MAR instalações para realização de aulas teóricas, oficinas para atividades práticas, sendo igualmente facilitado o acesso ao mar na sua área de jurisdição, permitindo deste modo a realização das diversas unidades modulares de formação, cursos e demais iniciativas. Por sua vez, ao FOR-MAR caberá desenvolver e executar um plano de formação nas áreas abrangidas do protocolo, correspondendo às necessidades identificadas de certificação. Foi um ano em que escalaram o porto um total de navios, mais 15% em relação a 2012, que somaram, em Gross Tonnage, 19,4 milhões de toneladas, mais 10,4% do que no ano anterior. Destes, fizeram escalas comerciais, mais 11% do que em 2012, o que corresponde, em Gross Tonnage, a 15 milhões de toneladas, representando um aumento de 10%, face a A carga geral dominou a movimentação do porto, com 3,7 milhões de toneladas, mais 31% do que em 2012, com a carga geral fracionada a registar 2,9 milhões, 33% de recuperação. Por sua vez, os contentores voltaram à fasquia dos 70 mil TEU, 43% mais do que o ano transato, também se registou uma melhoria nos granéis sólidos que, com 2,8 milhões de toneladas, aumentaram 6,2%. Por mercadorias movimentadas, liderou o cimento, com 1,6 milhões de toneladas, seguido dos produtos metalúrgicos, com 1,1 milhões de toneladas, do clínquer, com 887 mil toneladas, da madeira, com 527 mil toneladas, dos minérios, com 4

5 NOTÍCIAS Spranger, e do Presidente da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, Dr. Vitor Caldeirinha. Na sessão da manhã, o estudo do Prof. Doutor José Crespo Carvalho serviu de ponto de partida para um debate moderado pelo subdiretor de informação da SIC, Dr. José Gomes Ferreira, onde também participaram o Prof. Doutor Augusto Mateus, professor do ISEG-UTL, e o Dr. Marcello Di Fraia, Managing Director da Grimaldi Portugal. 435 mil toneladas, dos adubos, com 394 mil toneladas, e do papel, com 239 mil toneladas. Os Terminais de Serviço Público apresentaram um incremento de 23%, face a 2012, com 4 milhões de toneladas, e os Terminais de Uso Privativo aumentaram 7%, com o total remanescente de 3 milhões de toneladas. Terminado o ano de 2013 com 4,3 milhões de toneladas de mercadorias exportadas, valor correspondente a 65% do total da carga que passou pelos seus terminais, excetuada a cabotagem, o Porto de Setúbal consolidou a sua posição como porto exportador de referência e parceiro ativo no esforço das empresas nacionais empenhadas na recuperação da economia do país. Conferência O Porto de Setúbal, a solução ibérica disponível A CPS - Comunidade Portuária de Setúbal organizou a Conferência Porto de Setúbal, a solução ibérica disponível, realizada no dia 26 de novembro, no auditório do Novotel de Setúbal. A iniciativa obteve grande sucesso, quer pela qualidade dos oradores que integraram o painel de comunicações, quer pelo elevado número de participantes, com perfis diversificados, que representaram diversas entidades e empresas ligadas à atividade logístico-portuária. A abertura do encontro contou com intervenções do Presidente da Comunidade Portuária de Setúbal, Engº Frederico À tarde, o debate surgiu em torno do tema Reindustrialização e Logística na Região de Setúbal, moderado pelo subdiretor do Diário Económico, Dr. Francisco Ferreira da Silva, contou com a participação da Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Dra. Maria das Dores Meira, do Presidente da CIP, Dr. António Saraiva, do administrador da AICEP, Dr. José Vital Morgado e da representante da CCDR-LVT, Dra. Fernanda do Carmo. Dada a riqueza de ideias veiculadas na conferência, a Comunidade Portuária de Setúbal produziu um documento com as conclusões do evento, que de seguida se reproduz integralmente. Conclusões da conferência A ideia de que o Porto de Setúbal pode ser a grande alavanca para o crescimento da região de Lisboa teve grande impacto, sobretudo porque surgiu amplamente sustentada pelo estudo Um contributo para (Re)pensar o Sistema Portuário Nacional, efetuado pelo Prof. Doutor José Crespo de Carvalho, Professor do ISCTE e que foi apresentado publicamente pela primeira vez. 5

6 NOTÍCIAS A análise deste estudo revela que no Porto de Setúbal existe um conjunto de valências e de investimentos já efetuados e que podem, de imediato, ser mais rentabilizados. Por esta razão, o planeamento estratégico para as infraestruturas portuárias de Setúbal e Lisboa deverá ser feito de forma conjunta e complementar, para aproveitar a capacidade instalada em cada um dos Portos, evitando desperdícios. Entre as infraestruturas que já estão disponíveis, hoje, no Porto de Setúbal e que devem ser maximizadas estão, de acordo com o estudo feito pelo Prof Doutor Crespo de Carvalho, o maior terminal de contentores do país, que neste momento só movimenta TEU [capacidade de carga de um contentor de 20 pés] por ano, quando tem investimentos feitos para uma capacidade de TEU/ano e capacidade de expansão para chegar até aos 600 mil TEU/ano. Outra vantagem de assinalar é ter ligações ferroviárias com ramais dedicados dentro dos principais terminais e com ligação direta à rede nacional. Algo de verdadeiramente distintivo. O estudo destaca, ainda, o facto de o Porto de Setúbal beneficiar de excelentes acessibilidades marítimas, com barra aberta todo ano e a qualquer hora. Tem 11 quilómetros de frente portuários utilizáveis, dos quais só cerca de um terço está aproveitada. Beneficia, ainda, de acessos rodoviários sem constrangimentos de tráfego com o tecido urbano e com ligações diretas à rede nacional e transfronteiriça de autoestradas. Ao longo da conferência foi também destacado que, neste momento, o Porto de Setúbal está a trabalhar a cerca de 25% da capacidade em termos de contentores e a 50% nos segmentos de carga geral e granéis. A própria barra pode passar a ter profundidade para receber navios de maior dimensão, através O reforço desta ideia surgiu pelo próprio Governo, através do Secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Dr. Sérgio Monteiro, que garantiu que a intenção do Governo é, como sempre foi, rentabilizar as estruturas já existentes. Por outro lado, foi também referida a decisão sobre os investimentos em eventuais infraestruturas portuárias estar, agora, nas mãos de um grupo de trabalho, no qual o governo deliberadamente não quis fazer-se representar. de investimentos de baixo valor e ambientalmente sustentáveis. O Governo retirou-se dessa questão técnica, que está nas mãos de um grupo de trabalho que integra a Associação Industrial Portuguesa, a Associação Nacional dos Municípios, a CIP Confederação da Indústria Portuguesa, a AICEP, o Conselho Português de Carregadores, entre outros, garantiu o Secretário Estado. Estamos mais preocupados com assentar num diagnóstico que reúna o consenso dos cidadãos e das empresas e que tenha em atenção o modelo de financiamento, sublinhou o Dr. Sérgio Monteiro. 6

7 NOTÍCIAS As soluções do Porto de Setúbal incluem, ainda, valências como 17 mil hectares de jurisdição portuária; uma localização estratégica; 300 hectares de infraestruturas com acessibilidades marítimas e navegabilidade permanente (24 horas por dia e 365 dias por ano); 12 terminais especializados; ligações rodoferroviárias ao norte e sul do país e a Espanha; e áreas logísticas que centralizam exportações e importações. Estas condições permitem ao Porto de Setúbal movimentar atualmente 7 milhões de toneladas de mercadorias por ano, com vocação marcadamente exportadora, com cotas situadas em cerca de 60% da carga movimentada. Na sua intervenção, a Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Dra. Maria das Dores Meira, registou o novo clima de relações entre a autarquia e a Administração portuária para o desenvolvimento estratégico da cidade, conciliando desenvolvimento industrial, portuário e de atividades ligadas ao turismo, cultura e lazer. Por outro lado, ressaltou das intervenções proferidas que a Região de Setúbal já tem toda uma base industrial extremamente diversificada e que essa mais valia deverá ser aproveitada para um novo ciclo de expansão, assente num aumento sustentável na cadeia de valor já implantada na região. O Prof. Doutor Augusto Mateus sublinhou que se trata de garantir um desenvolvimento harmonioso dos portos, considerando que precisamos de aproveitar a capacidade que o Porto de Setúbal oferece para uma complementaridade ativa. O Prof. Eduardo Catroga, Chairman do Grupo Sapec, referiu que O Porto de Setúbal dispõe de um conjunto de valências e de investimentos já efetuados, que podem ser rentabilizados. Outra conclusão do dia de trabalhos é a ideia de que o Porto de Setúbal é uma solução já disponível num quadro de recursos escassos, já que com um investimento mínimo é possível potenciar as valências estruturais, alcançando significativos acréscimos de produtividade. 7

8 OPINIÃO indústria de salgas de peixe em fábricas de salga, com tanques dispostos à volta de pátios. Nestes tanques punha-se o peixe no sal durante algumas semanas para obter peixe salgado, mas faziam-se também molhos de peixe, um condimento essencial na cozinha e mesa romanas. Eram também feitos nos tanques com peixe e sal, mas deixavam- -se as tripas, deixando-se macerar e liquefazer durante alguns meses. O resultado era o garum e o liquamen, molhos muito líquidos e com um sabor muito intenso, com que se temperava o peixe, a carne, os legumes e até o vinho, e outros mais alimentícios, bons para alimentar os escravos, como o hallec! Conhecem-se fábricas de salga romanas em Setúbal, na Comenda, na Rasca, no Creiro, em Sesimbra mas em nenhum destes sítios existem tantas e tão grandes como em Tróia. Tróia: um sítio exportador em época romana. Frente ao movimentado Porto de Setúbal, fica Tróia, bem conhecida pelas suas praias e também pelo seu projecto turístico, actualmente dinamizado pelo troiaresort. Muitos conhecem ainda as ruínas romanas, entre o estuário do Sado e a lagoa da Caldeira, mas poucos sabem da sua importância na época romana, quando foi um dinâmico ponto de embarque de mercadorias. A orientação regular dos edifícios de Tróia, em parcelas transversais à linha de costa, separadas por estreitas vielas, indica que, à semelhança de muitos espaços romanos urbanizados, também o areal de Tróia, então plano, foi sujeito a um loteamento prévio e os lotes concedidos aos interessados em instalar aqui o seu negócio de salgas de peixe. O que significa que houve um Nos alvores da nossa Era, Tróia seria ainda um cordão de ilhas desertas que o rio e o mar iam alimentando de areia, e que se tinham tornado terra firme, que se podia finalmente ocupar. Nessa época, tal como todo o território português, o baixo vale do Sado era dominado pelo Império Romano a partir da importante cidade Salacia Urbs Imperatoria (Alcácer do Sal), um povoado muito antigo e um grande empório que comercializava os produtos agrícolas e os minérios do interior do Alentejo. Junto à foz do rio, na margem direita, começava a desenvolver-se a cidade de Cetóbriga (Setúbal). O mundo romano, com grandes cidades (Roma chegou a ter um milhão de habitantes!) e numerosos exércitos para abastecer, necessitava de muitos alimentos que se pudessem conservar e transportar, entre os quais o peixe salgado. Certamente devido à riqueza dos recursos de pesca e sal, nas margens do estuário do Sado vai-se instalar uma importante plano estratégico para instalar uma indústria de salga de peixe em Tróia. De notar, ainda, que o investimento necessário foi enorme, pois Tróia era uma ilha de areia, e todos os materiais de construção tiveram que ser trazidos de fora. 8

9 OPINIÃO nas têm uma capacidade de produção de 1013 m3, de Sabratha (Líbia), com 18 pequenas oficinas com 99 m3 de capacidade de produção, e de Baelo Claudia (Cádiz, Espanha) com sete oficinas que não produziriam mais de 277 m3 de cada vez. Tendo em conta que nos primeiros séculos de funcionamento uma ânfora levava cerca de 35 litros, uma só produção de 1429 m3 exigiria ânforas para ser escoada, e não se sabe se se faziam uma, duas ou mais produções por ano. Quem planeou? Os oficiais do município de Salácia ou os de Cetóbriga? E qual o papel de Lúcio Cornélio Boccho? Sabe-se, no entanto, que entre o século I e o século V, muitas toneladas de peixe e sal foram descarregadas em Tróia, e muitos milhares de ânforas com peixe salgado e molhos de peixe foram embarcadas para seguirem, rio acima, para o interior do Alentejo, e pelo mar, para outras paragens, sobretudo nas costas do Mediterrâneo e, em particular, para Roma, a capital do Império. Num recente congresso realizado em Tróia, foram apresentadas ânforas lusitanas achadas em Sevilha, Cartagena, Tarragona, Arles, Sicília, Pompeia, Óstia e Roma. À distância de 2000 anos, só algumas deduções e hipóteses são possíveis. A administração das cidades tinha equipas de agrimensores especializadas no traçado dos cadastros urbanos e rurais. A família Cornélio Boccho, por sua vez, era uma das mais importantes de Salácia e deixou registo da sua presença tanto em Alcácer do Sal como em Lisboa e na própria capital da Lusitânia, Mérida. Onde se embarcavam as mercadorias? Não há dúvida de que a acostagem dos barcos era feita na margem do estuário pois todas as oficinas estão voltadas para o Sado. Por outro lado, a dispersão das oficinas ao longo de 1,5 km sugere múltiplos pontos de acostagem. Numa zona junto à praia conhecida como Porto Romano há um edifício com entradas largas que devia ser um mercado ou um armazém que se localizava certamente junto a um cais. Em Tróia apareceu, no século XIX, uma inscrição de homenagem a Lúcio Cornélio Boccho, o que leva a querer que possa ter tido um papel relevante na fundação deste complexo industrial. É muito provável que tenha sido a cidade de Salácia a querer instalar esta lucrativa indústria na foz do rio, mais perto das matérias- -primas (peixe e sal) e mais acessível aos barcos que transportavam os produtos para os diversos mercados. Apesar da pouca área escavada, estão identificadas em Tróia 25 oficinas de salga ainda com 165 tanques visíveis, algumas delas de grandes dimensões e com grandes tanques. As 22 oficinas que se considera terem funcionado nos séculos I e II têm ainda 80 tanques que é possível medir, e esses tanques têm uma capacidade de produção de 1429 m3 que fazem de Tróia o maior centro de produção de peixe salgado e molhos de peixe que se conhece no mundo romano em época imperial. Acima dos famosos sítios de Lixus (Marrocos), cujas 10 ofici- Só que há muitos séculos que a erosão marinha fustiga severamente a praia da margem do estuário e as construções romanas aí localizadas, levando muita areia e causando o desmoronamento dos edifícios. Dos pontos de acostagem não ficou qualquer vestígio. Não é provável, no entanto, que alguma vez fosse construído um porto em Tróia, pois os portos estavam reservados às cidades costeiras que serviam largos territórios. Em Tróia devia haver múltiplos cais de madeira que não sobreviveram à erosão e ao tempo. Resta-nos a certeza de um dinâmico movimento de barcos de pesca, de sal, de transporte de ânforas vazias e também de barcos de comércio a curta, média e longa distância que em Tróia embarcaram milhares de ânforas que alcançaram as mais diversas regiões do Império. Inês Vaz Pinto Arqueologa. Diretora do Departamento de Arqueologia do troiaresort. 9

10 COLABORADOR APSS Doca das Fontainhas Ernesto Carneiro Diretor de Equipamento, Infraestruturas e Ambiente A Doca das Fontainhas, no Porto de Setúbal, localiza-se na margem direita do Rio Sado. A doca, com uma área aproximada de 360x115 m2, possui, no seu lado poente, passadiços flutuantes para estacionamento de embarcações de recreio e, no seu lado nascente, um sistema de correntes fixadas em poitas assentes no fundo, para embarcações mais pequenas. No lado norte, sensivelmente a meio, situa-se o terminal de ferries que operam para Tróia. A estrutura de contenção do terrapleno da Doca das Fontainhas, cuja construção remonta à década de 30 do século XX, caracteriza-se por uma retenção marginal em talude, revestida com perré, com inclinações acentuadas. Actualmente, a estrutura de contenção do terrapleno, no lado norte-nascente, apresenta sinais de instabilização por deslizamento global, com a ocorrência de assentamentos significativos no coroamento e elevação do fundo devido ao escorregamento do talude. Descrição da estrutura existente ao perré. O perré, com inclinação 1H:1V, é constituído por blocos de pedra calcária aparelhada, de dimensão variável, com juntas preenchidas com argamassa. O terrapleno realizou-se através de um aterro hidráulico, com areias provenientes das dragagens realizadas no porto de Setúbal, à data da construção da obra. No tardoz do prisma de fundação e do perré, existe uma camada de argila, servindo de barreira impermeável. No extremo poente da área de intervenção da retenção marginal, existe um muro cais, composto por uma estrutura de gravidade. Esta estrutura, foi projectada com coroamento a m (ZH), possui 2.80 m de largura na base, fundada a m (ZH) sobre um prisma de enrocamento com 6 m de largura, e talude de 1.2H:1V até à cota m (ZH). Zona de Intervenção O perfil inicial da estrutura de retenção marginal, desenvolve- -se em talude. Neste projeto, a retenção marginal desenvolve-se entre as cotas m (ZH), no coroamento, e m (ZH), na base. A sua fundação é constituída por um prisma de enrocamento, assente sobre o terreno natural, previamente dragado com um rasto de aproximadamente 5 m e talude de transição até à superfície com inclinação 3H:1V. O prisma de fundação, com inclinação exterior de 1.2H:1V, possui ao nível m (ZH) um bloco de betão, com 1.70 m de largura e 1.20 m de altura, que serve de apoio Cais Nº3 Doca de Recreio das Fontainhas Terminal de ferries Zona Portuária T. Tersado 10

11 OPINIÃO Descrição das patologias observadas Observam-se, atualmente, sinais de instabilização da estrutura existente, no lado norte da doca, numa extensão total de aproximadamente 131 m. O coroamento da retenção apresenta assentamentos significativos, que aumentam no sentido longitudinal nascente-poente, como se pode observar na imagem infra, atingindo o valor máximo de aproximadamente 0.85 m no extremo poente, junto ao muro cais vertical. A cota de coroamento da estrutura, na extensão estável, é de aproximadamente m (ZH). Dado que as obras existentes foram projectadas para uma cota de coroamento m (ZH) e que a cota da retenção marginal nas zonas estáveis se encontra a m (ZH), observa-se que ocorreu um assentamento global de 0.40 m. No sentido transversal, são igualmente observados assentamentos significativos. Numa faixa de 5 m de largura, relativamente ao alinhamento do coroamento, o terrapleno apresenta assentamentos que variam entre 0.23 m, no lado nascente, e 0.85 m, junto ao cais vertical no lado poente. Estes assentamentos correspondem a inclinações de 5% e 17 %, respetivamente. Sobre os planos dragados, será construído um prisma de enrocamento em TOT, com uma banqueta de 3.80 m de largura a m (ZH), no pé do talude inferior, que sobe segundo um talude 3H:2V até ao nível 0.00 m (ZH). A este nível existirá uma nova banqueta com cerca de 3.70 m de largura, onde será assente, no lado interior, um bloco em betão simples pré-fabricado para remate do revestimento em perré do talude superior da retenção. O talude superior terá igualmente uma inclinação de 3H:2V, até atingir a cota m (ZH), onde terá uma largura de 3 m. O talude superior da retenção marginal será revestido com perré, conforme a retenção existente. A face do talude em TOT será regularizada com rachão, para a posterior aplicação da argamassa de assentamento dos blocos de pedra. As juntas entre blocos serão igualmente seladas com argamassa. O perré será dotado de tubos PVC DN 32, dispostos numa malha quadrada em quincôncio, com 2 m de lado, a fim de permitir a drenagem da água intersticial do prisma de TOT. Pavimento em calçada à portuguesa O tipo de deformações observadas, e descritas atrás, levam a crer que a retenção marginal sofreu um escorregamento por insuficiente capacidade resistente. O paramento do talude em perré apresenta um empolamento do revestimento e destacamento, nestas zonas, da argamassa de ligação entre blocos de pedra. Estas deformações podem provocar a fuga de material fino do aterro, agravando os assentamentos observados na superfície do terrapleno, bem como a desagregação da restante extensão do perré. Outra patologia identificada é a existência de uma loca, junto à escada no extremo jusante da doca. Solução estrutural a implementar A solução de reparação consistirá na construção de uma nova retenção marginal terá o seu coroamento ao nível m (ZH) e a sua base a m (ZH). O seu perfil tipo é o ilustrado na imagem infra. Perfil tipo da nova retenção marginal O perfil da solução proposta consiste na execução de dragagens de construção, à profundidade m (ZH), com um rasto de 12 m, subindo no sentido de terra segundo um talude com inclinação 2H:1V até à superfície do terrapleno existente. Zona de intervenção Terreno natural No tardoz da retenção, será colocada uma manta geotêxtil entre os aterros (novo e existente) e o prisma de TOT, de modo a impedir a fuga do material fino de aterro. Esta tela aplicar-se-á entre a cota m (ZH) e o coroamento da retenção. Nas faces de contacto com o enrocamento, a tela deverá ser protegida com uma camada de rachão com 0.10 m de espessura média. Sobre o talude de tardoz do prisma de TOT, após colocação da tela geotêxtil, será colocado o material de aterro. Sobre o coroamento da retenção e do novo aterro, será efectuada uma camada de pavimento provisória em tout-venant, com 0.20 m de espessura. Após a conclusão destes trabalhos, toda a superfície superior do terrapleno será alvo de novas melhorias, com pavimentação em calçada à portuguesa, com um desenho similar à construída no molho poente da doca e topo poente, consistindo o desenho em quadrados de calçada preta com quadro de calçada branca. Serão colocadas algumas árvores e colocado mobiliário urbano, banco, peças para que a população possa usufruir de mais este espaço reabilitado pela APSS. 11

12 SESIMBRA Balanço da época balnear De acordo com o tradicional balanço feito pela autarquia sesimbrense, o verão de 2013 constituiu uma das melhores épocas balneares dos últimos anos, seja em ocupação, eventos e receitas. Para a APSS, numa época em que a bandeira azul continuou a ser hasteada na Praia do Ouro, os bons resultados económicos associados à praia são um motivo de contentamento, igual satisfação, fica associada à ausência de acidentes. Exercícios FOR-MAR no Porto de Sesimbra Aproveitando as excelentes condições naturais oferecidas pelo mar e a funcionalidade das infraestruturas construídas no porto, têm vindo a repetir-se em Sesimbra, exercícios do FOR- MAR, com diversos objetivos, nomeadamente quanto a técnicas pessoais de sobrevivência e práticas simuladas de segurança marítima. Ministrados por profissionais com larga experiência, estes cursos são ainda enquadrados pelos procedimentos de segurança da Capitania do Porto e pelos serviços competentes da APSS. Sesimbra e o Mar, uma pluralidade de olhares No dia 16 de novembro, a Câmara Municipal de Sesimbra organizou, no âmbito das comemorações do Dia Nacional do Mar, o seminário Sesimbra e o mar, uma pluralidade de olhares, com apresentações muito interessantes, varrendo um largo espectro de interesses, com um destaque natural para a recente campanha Sesimbra é Peixe, que tem vindo a despertar uma grande atenção por parte da APSS, por reconhecer nela uma ferramenta eficaz para impulsionar a vida económica de Sesimbra, e portanto do seu o porto. Auditoria de acompanhamento do Sistema de Gestão da Qualidade Ambiente e Segurança no Porto de Sesimbra No último terço do mês de Novembro, o Sistema de Gestão da Qualidade Ambiente e Segurança da APSS no Porto de Sesimbra foi auditado no âmbito da norma ISO 14001:2004. A exemplo de anteriores auditorias, a sessão acabou por identificar e registar a conformidade entre os procedimentos implementados, e os requisitos especificados para os mesmos na norma de referência, de onde resultou a manutenção da certificação, o que constitui um estímulo para o empenhamento dos serviços do Porto de Sesimbra na melhoria contínua da qualidade, ambiente e segurança. Porto de Sesimbra com Ponte Cais nº 3 auditada A Ponte Cais nº 3 do Porto de Sesimbra foi auditada, no dia 4 de dezembro, por uma equipa da DRAPLVT - Direção Regional de Agricultura e Pescas de Lisboa e Vale do Tejo, no âmbito do financiamento PROMAR-Programa Operacional das Pescas de que a empreitada usufruiu. A auditoria incluiu uma visita de verificação física ao local, evidência documental e contabilística. Recorde-se que a obra cumpriu rigorosamente preço do concurso, o que é relevante em obras marítimas, um dos dois únicos casos, juntamente com os túneis, em que a legislação admite a existência de sobrecustos para além dos atuais limites muito restritivos colocados. Esta obra veio contribuir de forma relevante para a segurança e operacionalidade das embarcações de pesca e pessoas, bem como para o ordenamento do espaço. 12

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