1 As mudanças na agricultura

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1 MANEJO DE QUALIDADE NA GRANJA, SEGURANÇA ALIMENTAR PRÉ-ABATE E CERTIFICAÇÃO DA INDÚSTRIA SUINÍCOLA Th. G. Blaha University of Minnesota College of Veterinary Medicine, St. Paul, MN 55108, EUA Resumo Comparada com outras indústrias, a agricultura é bastante instável devido a fatores como sistemas biológicos altamente complexos e dependência do clima. No entanto, as crescentes incertezas para a comunidade rural independente originam-se principalmente da rápida e crescente mudança estrutural na agricultura, que está criando um modelo mais industrializado de produção. O aumento resultante da instabilidade aumenta a volatilidade do ambiente econômico para quase todos os empreendimento agrícolas. Infelizmente, há diferenças significativas na capacidade de reagir a estas mudanças em empresas agrícolas de integração vertical, com estruturas de comando e controle, em comparação a empresas familiares com pouca, ou nenhuma, coordenação. Encontrar uma forma de direcionar o desenvolvimento agrícola com que a maioria da sociedade concorde é extremamente difícil, já que o público em geral desenvolveu uma atitude complicada e singular em relação à agricultura. Questões altamente controvertidas como energia nuclear, aquecimento global e biotecnologia dividem as populações em oponentes e proponentes. O aumento da riqueza, aliado à nostalgia pela velha fazenda do vovô, produziu uma atitude de certa forma esquizofrênica sobre como a sociedade espera que seus alimentos sejam produzidos. Esta atitude caracteriza-se pela exigência simultânea de preservação da granja familiar idealizada E do rígido cumprimento dos mais novos conhecimentos em segurança e qualidade alimentar, que só são possíveis através da rastreabilidade e da coordenação. O público não se dá conta que, em contraste com os sistemas de granja fábrica, tão estigmatizados socialmente, o sistema agrícola de granjas independentes não apenas é muito ineficiente, como também não é capaz de implementar seus próprios procedimentos padronizados de segurança alimentar e garantia de qualidade para diminuir o risco de doenças transmitidas através do alimento e para aumentar a sua qualidade. O conflito entre esperar alimento barato, seguro e de alto qualidade e a nostálgica simpatia pela granja familiar levou a uma mistura de percepções errôneas, expectativas irreais e perda de respeito pelos que produzem nosso alimento. O público, confuso com opiniões e sinais contraditórios da agricultura, parece esperar dos líderes na agricultura e dos que determinam as políticas públicas uma estrutura familiar de granja que preserve os valores das comunidades rurais familiares E que possa competir sem subsídios numa economia global com empresas cada vez mais integradas verticalmente. O objetivo deste artigo é investigar a questão de se e como este ideal aparentemente impossível pode ser atingido. 11

2 1 As mudanças na agricultura Há diversos motores das mudanças que a agricultura está sofrendo no momento. Os principais são: 1. A paz mundial e o final da Guerra Fria permitiu que países, que até recentemente tinham um sistema interno seguro de produção de alimentos, dependessem de abastecimento de alimentos do exterior. Os programas nacionais agrícolas que haviam sido projetados para a auto suficiência hoje contribuem para o excesso de produção. 2. A globalização e a liberação do comércio, incluindo aí produtos agrícolas e alimentos, aceleram o ritmo do aumento da falta de concordância da sociedade com subsídios para a produção agrícola não competitiva. 3. Os consumidores dos países industrializados, agora quase esquecidos que já passaram fome, exigem uma variedade cada vez maior de critérios de qualidade antes de comprar alimentos, incluindo critérios de qualidade inatingíveis de como os animais são criados. O manejo ambiental, o uso de antimicrobianos e o bem estar animal estão se tornando cada vez mais determinantes da qualidade. 4. A falta de confiança nas inspeções obrigatórias de um único ponto como garantia da segurança alimentar está crescendo devido à incidentes como a Doença da Vaca Louca (BSE), o escândalo da dioxina e riscos emergentes à segurança alimentar como a E. coli O157:H7 e a crescente resistência bacteriana aos antibióticos. 2 As conseqüências destas mudanças Estas mudanças tem um grande impacto na indústria de alimentos como um todo. Entretanto, as implicações mais drásticas se aplicam à área de produção agrícola primária, especialmente a pequenos e médios produtores que são independentes e não participam de alguma organização coordenada de comercialização. As principais conseqüências são: 1. A dependência das nações dos sistemas domésticos e auto suficientes de produção de alimentos está encolhendo, resultando em um declínio agudo na aceitação do subsídio contínuo de métodos ineficientes de produção agrícola. 2. Os tradicionais ciclos de preços de commodities perderam sua estabilidade (as fases de preço baixo eram seguidas, com confiança relativa, por fases de preço alto). A crescente especialização de granjas cada vez maiores e a diminuição do setor de granjas diversificadas de pequeno e médio porte resultam em menor flexibilidade para reduzir a produção em resposta a baixos preços em uma commodity. Consequentemente, as fases de preço baixo ficam mais longas e as de alto preço, mais curtas, a não ser que haja outros reguladores de preço além da quantidade. Como resultado disso, muitos produtores tentam participar das cadeias de produção de valor agregado. 12

3 3. As cadeias de produção de alimento tentam estender a transparência e a rastreabilidade até a granja fornecedora, e exigem na granja medidas de manejo ambiental, bem estar animal e segurança alimentar que criam novas tarefas e responsabilidades para os produtores de animais e os veterinários. 4. Há uma tendência em não fazer inspeções de produtos em um único ponto para verificar se produtos apresentam riscos à saúde animal ou são de baixa qualidade, mas na direção de procedimentos de qualidade para evitar erros durante os procedimentos de produção, assim como de uma combinação construtiva de auto controle industrial e supervisão governamental. 3 As mudanças na suinocultura A recente crise no preço do suíno terminado que afetou a suinocultura de quase todo o mundo demonstrou claramente que, sob as atuais condições do mercado de carne suína como commodity, os produtores independentes orientados pela quantidade e pela redução de custo enfrentam o risco de tornar-se um centro de custo para a indústria de carne suína da qual são fornecedores. Figura 1 A Figura 1 mostra a atual estrutura de produção de commodity da indústria suinícola. A espessura das barras simboliza o poder econômico dos setores da indústria. O mercado de carnes (varejistas, fornecedores, exportadores) claramente 13

4 determina as condições para os parceiros linha abaixo da cadeia de produção. Além disso, os produtores independentes (P) estão presos entre as empresas fornecedoras e as empresas processadoras. A reação natural destas pressão é reduzir custos. No entanto, os sistemas empresariais de produção agrícola de integração vertical como Smithfield e Seabord, podem reduzir ainda mais seus preços devido ao seu sistema interno de comando e controle. Consequentemente, manter o modelo de commodity significa apenas extinguir gradualmente o produtor independente. O chamado ciclo do porco tornou-se uma espiral para baixo para o produtor não integrado de suínos. A principal razão disto é que as ferramentas tradicionais do produtor não funcionam mais, já que os pequenos e médios produtores, que funcionavam como tampão, devido à produção rapidamente decrescente, estão desaparecendo. Isto criou um ambiente instável de negócios para os que vendem suínos para viver. Muitos produtores e veterinários reconhecem a necessidade de mudar a suinocultura, passando de um sistema que produz o máximo possível para um sistema que produz o que o mercado quer. Esta mudança também pode ser descrita como uma transição da produção de commodity para produção impulsionada pela demanda". Figura 2 A Figura 2 mostra a alternativa ideal para a estrutura de produção de commodity, a estrutura de cadeia de produção impulsionada pela demanda. Fornecedores, produtores de suínos e frigoríficos fazem parcerias com segmentos de mercado que 14

5 já existem ou que estão surgindo, de forma que a produção agrícola primária reflete os vários segmentos do mercado de carnes E é tratada como um parceiro essencial para produzir a qualidade exigida pelo mercado, e não como um potencial centro de custo. 4 A criação do Minnesota Certified Pork (MNCEP) O MNCEP é uma rede de produtores de carne suína que está desenvolvendo uma cadeia de fornecimento impulsionado pela demanda. É uma cooperativa de nova geração, cujos membros compram ações (por número de animais produzidos), pagam taxas anuais e concordam com procedimentos de produção padronizados e orientados para o mercado. O MNCEP baseia-se nos princípios de implementação e certificação de altos padrões de qualidade e de segurança em todas as granjas associadas para produzir um produto de carne suína para o mercado, um produto diferente da carne suína atualmente anônima e comercializada como commodity. A missão do MNCEP é: Fornecer ao mercado produtos de carne suína de qualidade superior, rastreáveis até a granja de origem, produzidos por produtores independentes, garantindo risco mínimo de ameaças à saúde humana transmitidas através do alimento através de procedimentos de produção padronizados, submetidos à auditoria e certificados. Os padrões de qualidade do MNCEP estão no MNCEP Quality Handbook (Manual de Qualidade do MNCEP) que exige que todos os associados do MNCEP cumpram com estes padrões. O Manual de Qualidade inclui os seguintes tópicos: Política de qualidade do MNCEP Melhores Práticas de Produção como biossegurança procedimentos diários durante todos os ciclos da produção limpeza, etc. Segurança Pré-Abate como uso prudente de antibióticos controle de salmonela produção livre de trichinella e de toxoplasma procedimentos para evitar resíduos e corpos estranhos Manejo Ambiental regras para armazenagem e uso adequado de esterco medidas para redução de odor planos de contingência para acidentes ambientais Bem estar Animal 15

6 programa de saúde do rebanho regras de manuseio e cuidado humanitários regras para o transporte e manuseio pré-abate eutanásia humanitária Registros e Documentação Além da descrição detalhada de cada procedimento diário da produção como Procedimento Padrão de Operação (SOP) para fornecer a base da padronização pretendida dentro do MNCEP, há novos padrões para melhorar a segurança alimentar como o uso prudente de antibióticos, controle de salmonela na granja e padrões para a proteção do ambiente e para melhorar o bem estar dos animais na granja que excedam as exigências obrigatórias. O cumprimento destes padrões de qualidade e de segurança será atingido através: 1. de auditorias internas mensais de todas granjas MNCEP por veterinários locais para ajudar os membros do MNCEP a implementar os SOP descritos no Manual de Qualidade MNCEP e para registrar nas listas de auditoria o cumprimentos dos SOP. No caso de não cumprimento, os veterinários ajudam os membros do MNCEP a implementarem as medidas corretivas necessárias e registram o cumprimento resultante durante a visita seguinte; 2. de certificação anual por terceiros do cumprimento de toda a cooperativa às regras do Manual de Qualidade MNCEP pelo Setor de Saúde Animal da Secretaria de Agricultura do Estado de Minnesota, usando um selo estadual. As auditorias internas pelos veterinários locais e a certificação por terceiros para o Estado de Minnesota seguem o conceito da ISO 9000: Estes procedimentos de manejo da qualidade e de certificação permitem que o MNCEP forneça ao mercado produtos suínos que satisfazem as exigências de qualquer segmento de mercado, que podem ser rastreados até a granja de origem e que são diferentes da carne suína anônima como commodity produzida atualmente. 16

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