Reflexões sobre crescimento e desenvolvimento em crianças e adolescentes

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1 49 ARTIGO Reflexões sobre crescimento e desenvolvimento em crianças e adolescentes Ms. José Fernando de Oliveira Docente do Curso de Educação Física da UNIPINHAL, do Instituto Mairiporã de Ensino Superior (IMENSU) e da UNIP. Resumo O presente artigo tem o escopo de refletir sobre a preocupação que o homem possui em acompanhar e compreender o seu desenvolvimento físico, refletindo sobre alguns conceitos de crescimento, maturação, e a interferência do meio ambiente e da atividade física na formação do homem adulto, visto que o papel da atividade física na infância e na adolescência sobrepassa o simples papel orgânico e deve oportunizar uma prática multivariada das atividades a qual deverá fomentar positivamente seus hábitos futuros. Palavras-chave: Crescimento, Desenvolvimento, Maturação, Crianças e Adolescentes. Abstract The present article has the target to reflect about the concern human beings, have in following and understanding their physical development, reflecting about some development concepts, maturation and environment and the physical activity in the formation of grown up, interferences. As seen, role of physical activity in child hood and adolescence overtake the simple organic role and can create an opportunity of one various activities. Which must to incite positively their habits in the future. Key-words: Grownth, Development, Maturation, Child and Adolescent.

2 50 Introdução O ser humano sempre teve a preocupação de acompanhar e compreender o seu desenvolvimento, suas características físicas e suas variações tanto internas quanto externas, pois, sua acentuada curiosidade despertou esse desejo de conhecer, compreender e explicar tudo a sua volta. Hipócrates ( a.c.) já mencionava a teoria da influência do meio ambiente sobre as características físicas do homem, esse conhecimento era relevante não somente para a seleção de guerreiros, mas também por considerações estéticas. Pois o homem percebeu que a sua capacidade para realizar trabalho ou atividade física estava relacionada com a proporção entre diferentes tecidos (PORTA et al., 1995). Assim, compreender suas características físicas, bem como o movimento humano foi importante para nossa civilização tanto no sentido do desenvolvimento da arte, do esporte ou mesmo para fins bélicos, pois notamos o quanto o movimento humano se faz presente na nossa vida, partindo desde a aquisição de novas habilidades até a perda de algumas delas na senilidade (SANTOS, 2002). Portanto, a preocupação do homem em atingir bons níveis de aptidão física e mantê-los por toda a vida não é uma busca recente, muito embora nos dias atuais, as facilidades obtidas com o avanço tecnológico, têm levado o homem a modificar seus hábitos de vida, favorecendo atividades sedentárias e a um estilo de vida menos ativo. E quando falamos especificamente de adolescentes, notamos paulatinamente o desinteresse de jovens, principalmente do sexo feminino em práticas que envolvam a atividade física (GUEDES; GRONDIM, 2002). Contudo a infância e a adolescência representam períodos ótimos para estimular hábitos e comportamentos de um estilo de vida mais saudável, os quais quando são adquiridos nessa faixa etária, possibilitam uma maior probabilidade de serem transferidos para a idade adulta (SHEPARD; TRUDEAU, 2000).

3 51 Corroborando com os estudos mencionados podemos citar o Centers for Disease Control and Prevention de 1998 (apud GUEDES; GRONDIM, 2002), o qual estima que em 2020, cerca de 73% da população adulta apresentará disfunções orgânicas atribuídas à aquisição de hábitos alimentares e de prática de atividades físicas inadequadas. Essa última representa um fator relevante na questão de se manter um estilo de vida saudável. Quando lidamos com crianças e adolescentes, notamos que essas sofrem inúmeras mudanças/transformações significativas no organismo, tanto na ordem física, quanto nos aspectos psico-sociais. Essas variáveis influem nas atividades corporais e na capacidade de suportar carga, fazendo com que o treinamento realizado pelas crianças e adolescentes sejam diferentes dos realizados pelos adultos (WEINECK, 1991). Os efeitos desencadeados pela ação do crescimento, desenvolvimento e maturação podem ser tão significativas ou até maiores do que as adaptações decorrentes de um programa de atividade física (TOURINHO; TOURINHO FILHO, 1998). Portanto é imprescindível ter-se conhecimento sobre as alterações e adaptações que o organismo da criança e do adolescente sofrem durante o período de crescimento, bem como, de que maneira estas alterações influenciam na capacidade física e na resposta ao exercício. É necessário ao profissional de educação física ter conhecimento sobre crescimento, desenvolvimento, maturação, idade cronológica e idade biológica, conceitos esses relevantes para compreendermos o verdadeiro papel da atividade física na criança, onde: Crescimento refere-se às mudanças no tamanho do individuo, ou seja, é um aumento da estrutura do corpo decorrente da multiplicação ou aumento de células. Desenvolvimento refere-se a alterações nas funções orgânicas de um individuo ao longo do tempo. Maturação refere-se a variações na velocidade e no tempo de surgimento de determinadas características, capacitando o individuo a atingir a maturidade biológica (DUARTE, 1993).

4 52 Idade cronológica representa a idade do individuo em meses ou anos e é ordenada em consonância com a idade do nascimento. Idade biológica corresponde à idade que o organismo aparenta com base na condição biológica dos seus tecidos confrontados com padrões, se interrelacionando com os processos de maturação biológica e de fatores exógenos. De posse desses conhecimentos e analisando a trajetória até a idade adulta, notamos que o homem leva cerca de duas décadas até alcançá-la e metade desse tempo no processo de maturação, onde o estirão de crescimento na puberdade é influenciado por uma variedade de elementos genéticos que operam em função de fatores ambientais como nutrição, ocorrência de enfermidades, condições climáticas e stress emocional (GALLAHUE; OZMUN, 2001). Atividade física na infância. Avaliar as conseqüências das brincadeiras espontâneas ou de programas esportivos que buscam o rendimento da criança é uma árdua tarefa, pois vários fatores como o psicológico, biomecânicos, fisiológicos e o desenvolvimento motor devem ser considerados. Portanto, ao ouvirmos a famosa frase de que o esporte faz crescer, devemos considerar que o crescimento físico é caracterizado pelo somatório de fenômenos celulares, biológicos, bioquímicos e morfológicos, sendo predeterminado geneticamente e apenas influenciado pelo meio ambiente (RUBIN, 2000; SKINNER et al., 2001). O ambiente contribui com os seguintes fatores: os efeitos da nutrição, as diferenças étnicas, os efeitos sazonais e climáticos, os efeitos de doença, a pressão psicossocial, a urbanização, o tamanho da família, a posição socioeconômica e a tendência secular (alterações de variáveis de crescimento e diferenciação somática ao longo do tempo) (TANNER, 1962 apud MOREIRA et al., 2004). A atividade física nesse contexto atua como um fator coadjuvante, onde o exercício físico moderado pode estimular o crescimento, muito provavelmente por induzir aumentos significativos no hormônio do crescimento na circulação, tanto de crianças, como de adolescentes e adultos (COOPER, 1999; GODFREY

5 53 et al., 2003), enquanto que o treinamento intenso parece ser capaz de atenuar o mesmo, no entanto esse efeito possui uma relação muito maior com a intensidade e o volume de treino, não se relacionando assim com o tipo de modalidade escolhida (GEORGOPOULOS et al, 1999). Somando a essa citação, temos Damsgaard et al., 2001, os quais relatam que o treinamento de força intenso em adolescentes parece ocasionar uma diminuição nos níveis de IGF-1 (polipeptídio presente na circulação sanguínea, o qual é o principal mediador da aceleração linear do crescimento), insinuando assim, que esse tipo de treinamento pode vir a reduzir o crescimento. Fleck (1997) recomenda que os exercícios envolvendo a força máxima devem ser evitados, pois podem provocar uma ossificação antes do período pubertário, o que prejudicaria o crescimento ósseo. Os genes desempenham também importante efeito no tamanho do tronco, dos braços e das pernas além de exercerem grande influência no tamanho e composição da fibra muscular e conseqüentemente no desenvolvimento da força muscular, pelo fato da mesma estar intimamente relacionada com a composição da fibra (SKINNER et al., 2001). Entretanto, os fatores determinantes de todas essas variações não são totalmente conhecidos, uma vez que as variantes como a idade, o sexo, o nível socioeconômico ou mesmo as condições para a prática esportiva são elementos importantes na apresentação do nosso fenótipo (OLIVEIRA et al., 2003). Por outro lado, fatores como o peso corporal, a circunferência da cintura, as atividades enzimáticas no metabolismo energético sofrem grandes influências do meio ambiente, porque podem ser modificadas tanto pelas dietas, como pelos diferentes tipos e volume de atividade física, assim, a herança genética acaba tendo uma influência bem menor nessas variáveis (SKINNER et al., 2001). É pertinente enfocar que muitos estudos sugerem que a obesidade infantil está mais associada à inatividade física do que a alimentação, muito embora, filhos de pais obesos apresentam um maior risco de se tornarem obesas quando comparadas às crianças cujos pais apresentam peso normal (quadro 1). As preferências alimentares das crianças, bem como, as atividades físicas

6 54 praticadas são influenciadas diretamente pelos hábitos dos pais, reforçando a idéia de que os fatores ambientais são determinantes no ganho excessivo de peso (sobrepeso e obesidade), (OLIVEIRA et al., 2003). Quadro 1: (INAN,1991). Porcentagem de risco para a criança se tornar obesa PAIS RISCO PARA AS CRIANÇAS (%) Ambos Obesos 80% Pai ou Mãe Obeso 40% Ambos não Obesos 10% Outro dado relevante sobre essa temática é que os pais influenciam de maneiras distintas os filhos, pois o índice de massa corporal (IMC) do pai relaciona-se muito mais com a gordura corporal e o estilo de vida da mãe associa-se com a atividade física dos filhos (ILHA, 2004). Desta forma o desenvolvimento da obesidade infantil sofre influência de fatores biológicos, psicológicos e socioeconômicos, predispondo a criança às mais variadas complicações, refletindo tanto no seu comportamento e na sua parte orgânica, podendo acarretar problemas respiratórios, diabetes entre outros distúrbios (TADDEI, 1993). Soma-se a esses fatores o tempo de assistência à televisão e o jogar videogame que também conduzem à obesidade, pois contribuem para um baixo nível de atividade física durante esse período. Estudos demonstram que a incidência de obesidade é de 10% em crianças que assistem menos de 1 hora de televisão por dia, enquanto que se o hábito de ver TV persistir por 3, 4, 5 ou mais horas por dia a prevalência aumenta para 25%, 27% e 35% respectivamente (MELLO et al., 2004). Além de aumentarem as chances de ingestão de alimentos, pois segundo Almeida et al, (2002), aproximadamente 23% dos comerciais observados eram de produtos alimentícios, dos quais 60% eram produtos do grupo de gorduras, óleos e doces (SILVA et al, 2003). A obesidade se apresenta nas diferentes faixas socioeconômicas do Brasil, sendo influenciada pela educação, pela renda e ocupação, resultando em

7 55 diferentes padrões comportamentais, os quais afetam a ingestão calórica, o gasto energético e a taxa de metabolismo. Nos países em desenvolvimento, o acesso a alimentos saudáveis é mais difícil aos indivíduos de baixa classe socioeconômica (GRILLO et al., 2000). É relevante salientar que a atividade física é um fator que contribui para a redução da gordura, aumento da massa muscular e aumento da densidade óssea (ROWLAND, 1996). Entretanto o papel da atividade física na infância e na adolescência sobrepassa o simples papel orgânico, pois a mesma proporciona o aprimoramento de suas potencialidades físicas, psíquicas e sociais (FELLER, 1978). O melhor exercício é aquele que se pode fazer regularmente, salientando que a concepção contemporânea sugere que a atividade não pode ser punitiva, nem necessariamente competitiva; deve ser sempre prazerosa, oportunizando uma prática multivariada das atividades, onde a aderência deve ser um fator fundamental, visto que esse hábito deve perdurar por toda a vida. Referências Bibliográficas ALMEIDA, S. S.; NASCIMENTO, P. C. B.; QUAIOTI, T.C.B. Qualidade e quantidade de produtos alimentícios anunciados na televisão brasileira. Rev Saúde Pública. v. 36, n. 03, p , BENCKE, J.; DAMSGAARD, R.; MÜLLER, J. IGF-I levels in 188 adolescents during two years of training at a competitive level. Am Acad Pediatr. n. 33, Supplement 01, CDC Centers for Desease Control and Preventinon. Youth risk behavior survillance. Atlanta - EUA, v. 47, (SS-3), COOPER, D.M. Exercise, growth, and the GH-IGF-I axis in children and adolescents. Curr Opin Endocrinol Diab. n. 06, p , DUARTE, M. F. S. Maturação Física: Uma revisão da literatura, com especial atenção à criança brasileira. Caderno Saúde Pública. Rio de Janeiro, v.09, supl. 01, p , FLECK, S. Riscos e benefícios do treinamento de força em crianças: Novas tendências. Rev. Bras. de Atividade Física e Saúde. v. 2, n. 1, p , 1997.

8 GALLAHUE, D.L.; OZMUN J.C. Compreendendo o desenvolvimento motor. 3. ed. São Paulo: Phorte, GEORGOPOULOS, N. et al. Growth and pubertal development in elite female rhythmic gymnasts. Journal Clin. Endocrinol Metab. n. 84, p , GODFREY, R.J.; MADGWICK, Z.; WHYTE, G.P. The exercise-induced growth hormone response in athletes. Sports Med. n. 33, p , GRILLO, L.P. et al. Influência das condições socioeconômicas nas alterações nutricionais e na taxa de metabolismo de repouso em crianças escolares moradoras em favelas no município de São Paulo. Rev Assoc Med Bras. v. 46, n. 01, p.07-14, GUEDES, D. P.; GRONDIN, L. M. V. Percepção de hábitos saudáveis por adolescentes: associação com indicadores alimentares; prática de atividade física e controle de peso corporal. Rev. Bras. Cienc. Esporte. v. 24, n. 01, p , set ILHA, P. M. V. Relação entre nível de atividade física e hábitos alimentares de adolescentes e estilo de vida dos pais. Rev. Bras. Cine. Des. Hum. v. 06, n. 02, p.90, INAN. Condições nutricionais da população Brasileira. Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição. Brasília, Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição: Ministério da Saúde, MACHADO, D. R. L. Maturação esquelética e desempenho motor em crianças e adolescentes f. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Escola de Educação Física e Esporte, Universidade de São Paulo, São Paulo, MELLO, E. D.; LUFT, V. C.; MEYER, F. Obesidade infantil: como podemos ser eficazes? J Pediatr. v. 80, n. 03, p , MOREIRA, D. M.; FRAGOSO, M.I.J.; OLIVEIRA JUNIOR, A. V. Níveis maturacional e socioeconômico de jovens sambistas do Rio de Janeiro. Rev Bras Med Esporte. v.10, n. 01, p , jan./fev OLIVEIRA, A. M. A. et al. Sobrepeso e Obesidade Infantil: Influência de Fatores Biológicos e Ambientais em Feira de Santana, BA. Arq. Bras. Endocrinologia Metab. v. 47, n. 02, p , Abril OLIVEIRA, M. M. C. et al. Aspectos genéticos da atividade física: Um estudo multimodal em gêmeos monozigóticos e dizigóticos. Rev. Paul. Educ. Fís. v.17, n. 02, p , jul./dez

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