PAINEL CURSO DE EXTENSÃO EM ANIMAÇÃO: O PRAZER DA ARTE

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1 PAINEL CURSO DE EXTENSÃO EM ANIMAÇÃO: O PRAZER DA ARTE Carlos Robério Silva - Graduando Prof. Dr. Fábio José Rodrigues da Costa Orientador Universidade Regional do Cariri URCA Centro de Artes Reitora Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau A Animação está bastante presente no cotidiano, como podemos ver na produção cinematográfica, nos contextos virtuais, nos programas televisivos. Enquanto linguagem visual traz o fantástico e o surreal, além de uma capacidade crítica da realidade, aspectos estes inerentes ao ser humano. Tendo isso em vista, se experimentou a linguagem da Animação com estudantes de escolas públicas dentro do Projeto O Prazer da Arte, realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ensino da Arte NEPEA. Tal projeto oferece cursos de extensão na área das Artes Visuais para estudantes das escolas públicas e particulares com o objetivo de aproximá-los da Arte e do fazer artístico. O curso teve como objetivo experimentar a linguagem da Animação de modo a aproximar os participantes desta como construtora de suas narrativas visuais. A metodologia utilizada buscou orientações na Abordagem Triangular que consiste na leitura/interpretação, contextualização e experimentação da Arte. As bases de referência estiveram situadas nas contribuições das disciplinas Didática do Ensino das Artes Visuais e Estágio Supervisionado em Ensino das Artes Visuais. Os alunos participantes do curso de extensão geraram um produto no qual puderam compreender todas as etapas para a construção de uma animação. A experiência foi muito enriquecedora no sentido do exercício da coletividade e do trabalho em grupo pelos sujeitos, aspectos estes que esta linguagem exige. PALAVRAS-CHAVE: Animação; Arte/Educação; Estágio Supervisionado. 1. Introdução O presente painel trata da experiência vivida na disciplina Estágio Supervisionado em Ensino das Artes Visuais II do Curso de Licenciatura Plena em Artes Visuais do Centro de Artes Reitora Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau da Universidade Regional do Cariri - URCA. No sexto semestre de curso foi vivenciada a elaboração e realização de um curso de extensão chamado Curso de Animação, que fez parte do projeto O Prazer da Arte. Realizado pelo NEPEA Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ensino da Arte, o projeto oferece cursos na área de Artes Visuais para estudantes das escolas públicas e particulares do triângulo Crajubar 1 com o objetivo de aproximá-los da Arte e do Fazer Artístico. O curso foi realizado nas dependências do próprio Centro de Artes e atendeu adolescentes com faixa etária entre 14 e 18 anos que estudam em escolas adjacentes ao Centro de Artes, o que foi muito valioso, pois deste modo provocou uma interação entre os jovens estudantes do Ensino Fundamental II e Ensino Médio com a Universidade, assim como, para os estudantes de graduação, uma vez que passamos a conhecer melhor estes sujeitos que cercam o nosso entorno. Tal interação encontra lugar na tríade Ensino-Pesquisa-Extensão defendida em todos os projetos de extensão da Universidade pública brasileira e, consequentemente, na URCA que por sua vez acredita que as discussões e atividades existentes no meio acadêmico devem superar suas paredes e atingir os diversos sujeitos que vivem a sociedade. 1 O Crajubar compreende as seguintes cidades: Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha e faz parte da Região do Cariri situada ao sul do estado do Ceará.

2 O curso de Animação foi oferecido por acreditar que esta linguagem sempre teve um enorme potencial no ambiente de ensino e aprendizagem. Sua linguagem adentra o espectador em um mundo diferente, desprevenindo-o da ordem natural do mundo. Ela traz o fantástico e o surreal, além de uma capacidade crítica da realidade, aspectos estes inerentes ao próprio ser humano: La animación permite no sólo percibir el mundo de manera distinta, sino también crear otros diferentes mediante dos herramientas poderosas: la fantasía y la imaginación 2 (REYES, 2010, p.113). A Animação hoje está bastante presente em nosso cotidiano, como podemos perceber na produção cinematográfica, nos contextos virtuais, nos programas televisivos. Enquanto linguagem visual reelabora discursos que permeiam nossa vida social, permitindo assim aproximação e reflexão com os diversos signos existentes em muitos momentos da vida cotidiana. Qué aporta, pues, la utilización de la animación? Para empezar, suspende, en gran medida, la realidad y adentra al espectador en un mundo diferente, desarmándole de sus prevenciones sobre el orden de las cosas y permitiendo no sólo la fantasía, la fabulación o la ficción, sino que a través de ellas y ante la bajada de barreras por parte del público, facilita la introducción de lo simbólico (una de las herramientas más fructíferas de que dispone el arte) (IDEM) 3. Só por isso, a sua inserção no ensino formal ou informal já se justifica. A experimentação da Animação no curso oferecido por meio do Estágio Supervisionado em Ensino das Artes Visuais se revelou uma linguagem com grandes potencialidades no processo de ensino e aprendizagem dos sujeitos envolvidos. 2. Referencial Teórico e Metodologia A metodologia utilizada buscou orientações na Abordagem Triangular proposta pela arte/educadora Ana Mae Barbosa, que consiste na leitura/interpretação, contextualização e experimentação artística. Desta forma, todo o processo foi permeado pelo fazer artístico, pela análise de obras de arte e pela contextualização histórica, social, estética, etc. Enfim, um conhecimento que nas Artes Visuais se organiza inter-relacionando o fazer artístico, a apreciação da arte e a história da arte (BARBOSA, 2009, p. 33), com o intuito de formar sujeitos conhecedores, fruidores e decodificadores da obra de arte (BARBOSA, 2009). As bases de referência estiveram situadas nas contribuições das disciplinas Didática do Ensino das Artes Visuais e Estágio Supervisionado em Ensino das Artes Visuais. Além da própria referência de Ana Mae, o pensamento de Edmund Feldman também contribuiu para as reflexões acerca da leitura de um trabalho artístico através do seu Método Comparativo de Análise de Obras de Arte, que consiste em quatro processos interligados: Descrição (prestar atenção ao que vê), Análise (observar o comportamento do que se vê), Interpretação (dar significado à obra de arte e Julgamento (decidir acerca do valor de um objeto de arte). O método comparativo de Feldman desenvolve a atitude crítica do sujeito 2 A Animação permite não só perceber o mundo de maneira diferente, como também criar outros diferentes mediante duas ferramentas poderosas: a fantasia e a imaginação. 3 O que traz, portanto, a utilização da animação? Para começar, suspende, em grande medida, a realidade e adentra o espectador em um mundo diferente, desarmando-lhe de suas prevenções sobre a ordem das coisas e permitindo não só a fantasia, a fabulação ou a ficção, mas que através delas e diante da redução de barreiras por parte do público, facilita a introdução do simbólico (uma das ferramentas mais frutíferas de que se dispõe a Arte). (Idem).

3 diante da Arte, perante ao que vê na sua frente, seja uma obra de arte ou uma imagem do seu cotidiano. Seu método Demonstra o quanto se pode entender o mundo, entendendo uma obra de arte do ponto de vista da relação entre os elementos visuais como linha, forma, claro-escuro, cor, unidade, repetição, equilíbrio, proporção, e do ponto de vista das características de construção com predominâncias diversas como agudeza, ordenação, emoção, fantasia, e também tendo em vista comportamentos apreciativos como empatia, distanciamento ou fusão com a obra de arte. (BARBOSA, 2009, p. 46) O pensamento de Ana Mae, juntamente com o de Edmund Feldman foram de fundamental importância para a fruição e a compreensão do fazer artístico. 3. Processo: O Caminho percorrido Participaram 05 adolescentes com faixa etária entre 14 e 18 anos: Áquila Alexandre, Ariany Silva, Cícero Akiles, Francisco Vinicius e Junior Gama. Primeiramente procurou-se compreender como se dá a linguagem da Animação. Para isso analisamos a origem da linguagem do Cinema, onde encontramos os primeiros estudos científicos acerca do fenômeno da imagem em movimento, principal constituinte da animação. Com a utilização de computador e data show, os participantes apreciaram os primeiros filmes realizados pelos irmãos Lumiére, surgidos a partir destes primeiros estudos. Também analisamos o filme Viagem à Lua de George Meliés: tal filme é considerado pela história o primeiro filme com efeitos especiais. A partir desses filmes pudemos discutir suas implicações estéticas e compará-las com a produção atual nos mais diversos aspectos. Ainda nesta etapa foi estudada a experiência realizada por Edward, James e Muybridge, que consiste em um conjunto de fotografias que decompõem o movimento de um cavalo em uma corrida no hipódromo. Com a intenção de enfatizar a compreensão acerca da imagem em movimento, foram propostas duas atividades em que consistiu na construção de dois objetos lúdicos: o Fenacistoscópio e o Traumatópio. Estes objetos tiveram origem na Europa do século XIX. Em um segundo momento os participantes do curso apreciaram trabalhos de animações para que assim tivessem uma maior aproximação deste objeto de estudo. Entre eles: Enquanto isso na Sala de Aula, Juazeiro Capital e Fé e Fertividade 4 (imagem 1), todas animações produzidas por artistas da região do cariri cearense. O principal objetivo era mostrar aos participantes a produção existente do lugar em que vivem, conseguindo deste modo que tivessem identificação, aproximação e conhecimento da existência da produção artística local. Os alunos analisaram os materiais utilizados, a construção da narrativa, os personagens, compararam elementos existentes entre eles, enfim, verificaram todas as possibilidades existentes para a construção de uma animação. 4 Fertividade é uma animação concebida por mim juntamente com mais três estudantes do curso de Licenciatura Plena em Artes Visuais da Universidade Regional do Cariri: Fábio Tavares, Francisco dos Santos e Ísis Xenofonte. Este trabalho foi selecionado para a exposição do LUMEN_EX 2011: Premios de Arte Digital / Digital Art Awards, um dos mais importantes eventos de Arte Digital da Espanha, promovida pela Universidad de Extremadura. Foi a experiência deste trabalho que me impulsionou a pensar o enorme potencial do conhecimento da Animação para o contexto educativo. Fertividade está inclusa na página oficial do evento hospedada no site Youtube, no seguinte link:

4 Imagem 1: Frame da Animação Fertividade. Depois desta análise vivenciamos o terceiro momento, que constituiu na construção do roteiro. Fora formado um grupo para criar os personagens, definir os cenários, discutir e organizar as idéias para a realização da animação. O quarto momento foi dedicado à construção dos cenários e dos personagens (imagens 2 e 3). Já o quinto momento foi dedicado totalmente à produção da animação, utilizando a técnica Stop Motion (Imagens 4 e 5). Imagem 2: Construção do Cenário e dos Personagens. Na foto: Cícero Akiles, Áquila Alexandre e Francisco Vinicius.

5 Imagem 3: Construção do Cenário. Na foto: Cícero Akiles. Imagem 4: Produção da Animação através da técnica Stop Motion. No alto: Áquila Alexandre e Francisco Vinicius. Abaixo: Carlos Robério (Mediador), Ariany Silva e Cícero Akiles. Imagem 5: Produção da Animação através da técnica Stop Motion.

6 Estes dois momentos propiciaram situações didáticas de muito enriquecimento já que nesta parte do processo é onde se percebe o intenso diálogo das artes tradicionais o Desenho, a Pintura e a Escultura com o Cinema, evocando assim tanto conhecimentos importantes do primeiro como do segundo. O caráter híbrido da Animação favorece um campo de grande experimentação, experimentação esta intimamente ligada ao seu mais de cem anos de história. Portanto, um território que garante a efervescência de idéias múltiplas e criações que desafiam o estabelecido. A utilização de novas tecnologias também ampliou a experimentação dos envolvidos. Uma máquina digital e o uso de programas populares para a edição das imagens, como o Windows Movie Maker, permitiram a percepção de que a Animação está acessível a todos, que também podem construir um produto visual a partir de ferramentas digitais próximas do nosso cotidiano: La implantación de lo digital también ha favorecido tanto su expansión o popularización, como unas aplicaciones cada vez sencillas de manejar." 5 Desta forma, os alunos geraram um produto no qual puderam compreender todas as etapas para a construção de uma animação: Aventura de Buzz SK8year (imagens 6 e 7) é o nome que leva a animação resultante desta experiência. Imagem 6: Frame da animação Buzz SK8year. 5 A implantação cada vez maior da tecnologia digital tem favorecido tanto sua expansão ou popularização, como uma das aplicações cada vez mais fáceis de manuseio. (Reyes, 2010, p.111).

7 4. Impressões e Resultados Imagem 7: Frame da animação Buzz SK8year. Os participantes ficaram muito entusiasmados em realizar outras animações em outros momentos. Notou-se que para os alunos o processo da Animação era algo desconhecido, mas depois desta experiência a desmistificaram e a compreenderam como construtora de suas narrativas visuais, além da percepção da pontecialidade de muitos materiais e ferramentas próximos a eles, em especial as que classificamos de novas tecnologias. A experiência foi muito enriquecedora no sentido do exercício da coletividade e do trabalho em grupo pelos sujeitos, aspectos estes que a linguagem da animação exige para que se realize um ótimo trabalho. O grupo permaneceu bastante unido durante todo o curso, o que favoreceu a troca mútua de ensino e aprendizagem por todos os envolvidos. Posso dizer, de modo sincero, que o curso não proporcionou o prazer da Arte somente aos participantes, mas também de um modo muito especial a mim. Neste curso percebi, de forma mais direta que o professor não é o único responsável pela produção de conhecimento em sala de aula, mas todos os envolvidos no processo. Venho de uma trajetória onde acreditava que o conhecimento se dava somente de um lado, que a transmissão deste somente cabia ao docente em sala de aula. Consequentemente, minha imagem como um professor se constituía em algo ainda muito difuso, uma silhueta distante, uma imagem turva. Um dos grandes ensinamentos que trago até hoje no curso de Licenciatura Plena em Artes Visuais é a de que este sujeito chamado professor traz consigo uma bagagem, uma gama de experiências que refletem a sua personalidade, o seu jeito de pensar, o seu modo de perceber o mundo. O professor não é parte separada de um todo; é matéria que contribui no ser homogêneo que o abriga. Nas experiências anteriores no Estágio Supervisionado não estava dando totalmente lugar a pessoa que sou realmente. Ainda que estas experiências tenham sido agradáveis e geradoras de grandes resultados, sentia que faltava algo, alguma peça que eu necessitava para completar este quebra-cabeça. Conduzi o curso de Animação com a responsabilidade que um professor deve ter com seus alunos. Contudo, a de um professor que reflete suas crenças e expectativas tecidas a partir da sua própria história de vida. Desta forma, consegui extrair dos sujeitos envolvidos suas melhores idéias e habilidades contribuintes na construção do trabalho artístico, ao

8 mesmo tempo em que a reciprocidade de nossas experiências se constituiu, em cada um, parte do seu processo de ensino e aprendizagem, processo este que exercitamos até o fim de nossas vidas. 5. Referência Bibliográfica BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da Arte: anos 1980 e novos tempos. Ed. Perspectiva, São Paulo, REYES, Juan Antonio Àlvarez. De una animación a otra. IN: Catálogo LUMEN_EX Publicação Digital, Universidad de Extremadura, 2010.

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