ROCK E SOCIEDADE DO CONSUMO: UMA REFLEXÃO A PARTIR DA MÚSICA CONSUMO GUSTO

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1 ROCK E SOCIEDADE DO CONSUMO: UMA REFLEXÃO A PARTIR DA MÚSICA CONSUMO GUSTO Daniele Dondoni 1 Thaise Fernanda de Lima Mares 2 INTRODUÇÃO O processo de internacionalização da economia, a dita globalização, impulsionada a partir dos anos 80 pelo advento da política neoliberal, constitui-se na atualidade uma das peças constituintes da ordem econômica mundial. Este sistema tem como estratégia o estimulo ao consumo, para aqueles bens e serviços produzidos em grandes proporções pela lógica capitalista de produção. Todo esse consumo é incitado por estratégias de marketing e por acesso aos meios de comunicação, inclusive em nível mundial como a internet, aliados a garantia de compra por meio de facilidades de credito e em meio a este turbilhão, o trabalhador que tem no salário seu meio de subsistência, passa a ser estimulado a consumir, tornando se escravo deste sistema como forma de atingir um bem estar. Dessa forma, as discussões acerca do consumo serão tratadas no presente trabalho por meio de explanações sobre as questões políticas e econômicas que o cerca, para tal será lançado mão das expressões encontradas na letra da música Consumo gusto da banda Espanhola SKA-P. A banda de punk Rock SKA-P, criada em 1994, é conhecida por expressar em suas letras as mais variadas problemáticas sociais e criticas ao capitalismo. Nesta perspectiva, em 2002 lançou a música consumo gusto (ANEXO 1), que traduzida ao português ficaria consumo gosto (ANEXO 2). Em sua letra a música expressa às faces do consumismo em massa na sociedade capitalista, que nada mais é do que a consequência da globalização exercida e intensificada no neoliberalismo. Neste sentido este trabalho, buscará fazer uma reflexão perante o consumismo, vinculando-se a crítica realizada pela letra da música e ao 1 Aluna regular do Mestrado em Educação- UNIOESTE 2014/ Aluna regular do Mestrado em Educação- UNIOESTE 2014/

2 referencial teórico. Vale lembrar, optou-se por utilizar no texto a versão da música traduzida para o português. 1- O contexto histórico e a emergência do consumismo na sociedade capitalista Historicamente, a humanidade consome, este consumismo emerge de forma mais intensa diante do Modo de Produção Capitalista, é neste contexto que o consumo e a exploração dos trabalhadores se intensificam. Sob uma perspectiva econômica e conforme o paradigma liberal, este último conceito refere-se a um dos fatores determinantes para o desenvolvimento da humanidade, o consumo crescente e a produção de excedente. Suas origens sociológicas emergem da antiguidade, tendo surgido contemporaneamente ao processo civilizatório, e dele sendo parte integrante. Com efeito, os padrões da vida civilizada baseados na produção de excedentes e estocagem foram moldados ainda nos primórdios da humanidade, [...] quando o ser humano substituiu o modo de vida nômade, rústico e precário das primeiras civilizações cujas necessidades eram supridas pela coleta por um estilo que promovia atividades direta ou indiretamente relacionadas à produção e ao consumo [...] (PORTO, 2015, s/p). Diante destes acontecimentos emerge o liberalismo, de acordo com Behring e Santos (2009), esta lógica funda-se na procura do interesse próprio dos indivíduos, estes que devem ser conduzidos pelo mercado, sendo o Estado quem deve fornecer base legal para o bom funcionamento da economia, caracterizando-se, portanto, como um Estado Mínimo. Esta cultura foi estimulada com maior ênfase, a partir dos anos 1920, com a expansão dos fordismo 3 nos Estados Unidos da América (EUA), o qual possuía algumas características em relação aos produtos produzidos e destinados ao consumo. 3 Tratava-se de um método de racionalização da produção, criado por Henry Ford, que, associado aos ensinamos de administração científica propostos por Frederick Taylor, visa promover alta produtividade e demanda, tornando-as equivalentes. Sua gênese remonta à Revolução Industrial, iniciada no século XVIII na Inglaterra, a partir da qual tornou-se possível a fabricação de produtos mais baratos, menos duráveis e mais acessíveis (PORTO, 2015 p. 1). 2

3 Até então os produtos eram avaliados por sua durabilidade e eficiência, assim, a regra era: quanto mais duráveis e eficientes, mais valorizados pelo consumidor. Neste diapasão, os fabricantes da época orientavam seus engenheiros e desenhistas a considerarem, em seus projetos, o desempenho e conservação para que o produto permanecesse inalterado durante muitos anos, tornando dispensável sua reposição em curto prazo. Era corrente a ideia da baixa rotatividade de produtos e, portanto, baixo consumo (PORTO, 2015 p. 1). Para Porto (2015), essa dinâmica fez com que o mercado percebesse que havia diminuição no consumo dos produtos e que concomitantemente houve queda nos lucros. Esta percepção, aliada aos efeitos da Grande Depressão de 1929, que durou por toda a década de 1930, somados ao início da Segunda Guerra Mundial, contribuíram decisivamente para o enfraquecimento do liberalismo. Esta foi a maior crise econômica mundial do capitalismo até aquele momento. Uma crise que iniciou no sistema financeiro americano, a partir de 1929, como resposta a estes acontecimentos, utilizou-se em 1936 a teoria geral de Keynes 4 (Bering; Santos, 2009). Todos estes fatos culminaram em novo pensamento, no qual os fabricantes americanos, tomados pelo pensamento fordista e com o intuito de estimular o crescimento econômico passaram a diminuir a vida útil dos produtos para elevar as vendas, aumentando consideravelmente seus lucros. (PORTO, 2015 p. 1). A partir dos anos de 1950, com a intensificação do fordismo, [...] o estimulo ao consumo deixou de ser apenas estratégia para geração de lucro e assumiu uma perspectiva ideológica nos EUA, onde a classe média branca, estimulada pelo Governo Eisenhower, e incitada pelo crescente design industrial e marketing publicitário, passou a consumir produtos mais modernos, bonitos e com tecnologia evoluída, consolidando o consumo pela satisfação do desejo de possuir e não mais em razão da utilidade do produto (PORTO, 2015 p. 1). 4 Segundo Keynes, cabe ao Estado o papel de reestabelecer o equilíbrio econômico, por meio de uma política fiscal, creditícia de gastos, realizando investimentos que atuem nos períodos de depressão. A teoria de Keynes predominou até o início dos anos de 1970 (Bering; Santos, 2009). 3

4 Neste sentido, uma sociedade anteriormente poupadora deixou-se seduzir pela satisfação imediata do consumo exagerado. No Brasil, nesta mesma época as políticas internas também favoreciam o surgimento de uma forma mais expressiva do consumo, embora restrito às classes sociais mais elevadas [...] (PORTO, 2015, p. 1). Contudo, nos anos posteriores (1960/1980), o consumo em massa no Brasil fora inexpressivo. A mal sucedida política econômica promovida pelos Governos Militares e as desastrosas tentativas de estabilização executadas pelos primeiros Governos da Nova República, ora privilegiando elites sociais e inviabilizando a compra massiva pelas classes mais baixas, ora derrocando a todos, indistintamente, com a corrosão do dinheiro pela hiperinflação, inibiram, durante mais de 20 anos, o aumento do consumo. O consumidor, empobrecido e sem renda extra, percebia inviabilizado seu poder de compra (PORTO, 2015 p. 1). Pelo contrário, nos países desenvolvidos, a partir da década de 1970, houveram inúmeras transformações no modo de produção capitalista, com o intuito de incentivar uma globalização econômica. Para Behring e Santos (2009), é neste período também que as políticas sociais têm seu ápice, com o surgimento do chamado Estado de Bem-Estar Social representado pelo advento das políticas sociais. No entanto, ainda na década de 1970, - devido a inúmeros empecilhos da expansão das atividades estatais - surge a crise do Estado ou crise do Estado-Providencial 5. O que se propõe como solução da crise do Estado, é a retomada do padrão liberal, agora denominado neoliberalismo, para Soares (2003), este é um meio de direcionar os serviços sociais aos comprovadamente pobres e, concomitantemente, diminuir os gastos sociais. No neoliberalismo, esta intervenção do Estado fica cada vez mais fragmentada, focalizada com ações paliativas que resolvam a situação de imediato. Outras transformações que se dão por meio do ideário neoliberal é a flexibilização do trabalhador e a terceirização do trabalho que amplia a contratação dos serviços privados para atuar na rede pública. 5 Para Behring e Santos (2009), esta crise tem tido sua manutenção por aqueles que pretendem diminuir as atividades do Estado diante do modo de produção capitalista. 4

5 A política neoliberal adotada pelo sistema capitalista apresenta a economia como válvula mestra da vida humana, estabelecendo valores e necessidades independentemente do caráter, de modo a determinar a identidade social e, principalmente, pessoal do homem. (LIMA, 2004, p.33). Todas estas transformações tiveram impactos na vida em sociedade, com a expansão do capitalismo e do neoliberalismo, houve uma reorganização do espaço mundial, mudanças de ordem estrutural em diversas áreas. Entre elas a explosão da dita globalização. Evoluindo gradativamente, esse modelo estabelecido trouxe, em dado momento da história recente, drásticas alterações às relações de mercado, fazendo surgir a chamada sociedade de consumo, definida como composição mercantilista caracterizada pela existência de relações de compra e venda massificadas onde a oferta excede a procura. (PORTO 2015, p.1). A globalização na economia mundial intensificou os novos mecanismos ideológicopolíticos e econômicos utilizados pelo capital para ativar a produção e concomitantemente sufocar a organização dos trabalhadores. Por intermédio das estratégias de retroalimentação do capital, tais como: a terceirização, a flexibilização, a informalidade, a busca por mão-deobra barata, o controle de qualidade, entre outras, colaborou para o aumento da precarização, da exploração do trabalho e do trabalhador (LIMA, 2004, p.33). Novamente são processadas mudanças na identidade pessoal do novo tipo de trabalhador que se quer constituir. Esse processo mascara e fetichiza, alcança crescimento mediante a destruição criativa, cria novos desejos e necessidades, explora a capacidade do trabalho e do desejo humano, transforma espaços e acelera o ritmo da vida. (LIMA, 2004 apud HARVEY, 1992, p.307). Partindo desta perspectiva, a música consumo gusto aborda em sua primeira estrofe a questão do desejo da compra e a criação de novas necessidades a partir do estimulo ao consumo: Comprar, coisas que não valem para nada Comprar, para esquecê-las no sótão Comprar, é um prazer excepcional Comprar, como eu gosto de desperdiçar (SKA-P, 2002). 5

6 Este modelo de internacionalização da economia, cujo foco da manutenção do sistema é o consumo, na contemporaneidade vem recebendo várias significações, que entre as suas mais variadas expressões, objetivam expressar um mundo sem fronteiras, que possibilite uma economia global para os mercados internos já saturados, visando, sobremaneira aproximar as nações umas das outras, tudo isto, associado a expansão do capitalismo no mundo. Associado a este conceito, tem-se ainda como definição do termo globalização, segundo a doutrina majoritária, a explosão de valores de um povo, englobando alterações no seu modo de ser, agir e pensar (SOUSA, 2011, P.2). 2- O processo de internacionalização da economia no Brasil e no Mundo Para Sousa (2011), internacionalização da economia, também conhecida como globalização, está intimamente associada ao surgimento do Estado neoliberal, a mesma se expandiu entre as nações por meio deste sistema. Esse processo aconteceu [...] desde a década de 80 [...], para os países então denominados do primeiro mundo, e a partir dos 90 para a América Latina, o avanço do processo relatado marcado pela derrubada de barreiras comerciais e liberalização do comércio exterior (DePAULA, 2013 p.241). No Brasil, foi na década de 1990, sob o governo de Fernando Collor de Mello, que houve implantação do Estado Neoliberal o qual viabilizou as privatizações por meio da intervenção mínima do Estado nas políticas sociais e econômicas. Com a implantação do Plano Real (1994), no governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), o consumo popular teve significativo desempenho impulsionado pelo aumento do poder aquisitivo das famílias consideradas carentes, isto devido ao controle da inflação e estabilização econômica, associado às políticas de inclusão social e o aumento das taxas de emprego, abrindo assim as comportas do consumo no Brasil (PORTO, 2015 p.1). De modo geral, estas transformações ocorridas em virtude da internacionalização da economia [...] impulsionaram uma nova visão sobre as relações econômicas em nível 6

7 internacional, que deixaram de se dar em nível local e regional, geograficamente limitada aos territórios nacionais, e adquiriram uma amplitude global (DePAULA, 2013 p 240). Deste modo, a globalização se apresenta hora de forma positiva e hora de forma negativa. Positiva, pois traz benefícios para as grandes potências, contudo, de forma negativa, pois são estas grandes potências que impões regras aos demais países que não são ouvidos, deixando-os cada vez mais excluídos de sua própria sociedade. É possível exemplificar esta dinâmica: [...] o único país no FMI que tem poder de veto são os EUA; pois, todos os presidentes do Banco Mundial foram designados pelo presidente dos EUA, assim, resta claro, que a globalização é a forma maquiada dos EUA impor sua vontade soberana. (SOUSA, 2011, P.6). Já para Eric Hobsbawm, os efeitos são apenas negativos, visto que, para o autor: a globalização acompanhada de mercados livres, atualmente tão em voga, trouxe consigo uma dramática acentuação das desigualdades econômicas e sociais no interior das nações e entre elas (SOUSA, p.5 apud Hobsbawn, 2007). Conclui-se que na realidade a globalização gerou a exclusão dos países pobres e representou a marginalização dos países ricos, visto que apenas uma nação pode impor o certo e o errado no que tange a economia mundial. Ainda, como afirma Hobsbawm acerca de organismos como Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio, Fundo Monetário Internacional, Nações Unidas, nenhum desses órgãos tem algum poder efetivo além daquele que lhes é conferido voluntariamente pelos Estados, ou por acordos entre eles, ou graças ao apoio de países poderosos. [...] Como apenas os Estados têm poder real, o risco é que as instituições internacionais se mostrem ineficazes ou carentes de legitimidade ao tentarem lidar com questões como os crimes de guerra (MELO apud HOBSBAWM, 2007, p.480) Desta forma, [...] a produção e o consumo vêm, indistintamente, se revelando o motor propulsor das economias, interferindo na graduação do nível de evolução de um país e até no conceito político de desenvolvimento (PORTO, 2015, p.1). Desta forma, de acordo com o entendimento dos autores contemporâneos, a globalização ou processo de mundialização, caracteriza-se pela ampla integração econômica, política, cultural entre as nações. Neste 7

8 sentido, o processo de internacionalização não se restringiu apenas ao campo mercantil, mas também à produção de tecnologias, utilização de recursos financeiros e investimentos, neste contexto, emergem as empresas transnacionais, que passam a compor tal cenário (DePAULA, 2013). A integração entre os países acarretou no surgimento de um terceiro mercado, denominado de mercado eletrônico ou virtual, decorrente do uso da internet. Neste mercado, a interferência estatal é praticamente nula ou mínima, porque não existem donos ou porque todos são donos. (SOUSA, 2011, P.4). Nesse sentido, quando se fala em globalização como um processo de integração, deve-se estar atento para o fato de que, [...] hoje o mundo se transformou numa verdadeira aldeia global, o que envolve a troca e transferência de mercadorias, pessoas, informações, comunicação, tudo facilitado pela eletrônica (SOUSA, 2011, P.7). Para a autora, [...] não existe mais fatos ou situações isoladas, já que o que acontece em um dado local pode repercutir em todo o mundo, em algumas nações de forma mais ou menos direta tudo através dos mais diversos meios de comunicação. Trata-se do empacotamento e da alienação do combustível que move o mundo: ideias, informações, cultura e outras notícias que circulam sem fronteiras nos mais longínquos e diversos lugares. Assim, relações de cunho internacional requerem regulamentação em caráter urgente, pois a consequência imediata desse cenário é uma sociedade mundial (SOUSA, 2011, P.7). A nova ordem econômica, também trouxe mudanças significativas nas relações existentes na sociedade, estas relações na contemporaneidade se massificaram e parte do seu fundamento é o capital, tudo com base no aparelho do Estado, na administração do dinheiro, de empresas, de interesses cada vez mais pessoais, ficando as pessoas cada vez mais preocupadas com status (SOUSA, 2011, P.8). Neste sentido, [...] o consumo paulatinamente foi alçado à regra social promovedora de status e satisfação pessoais capazes de definir o papel do indivíduo na sociedade (PORTO, 2015 p.1). 8

9 Para a autora, [...] os produtos e serviços a que o indivíduo tem acesso passaram a definir seu nicho social no qual o consumo sucessivo lhe garante a permanência (PORTO, 2015 p.1). A questão da compra excessiva fica claro no trecho da música abaixo, quando se evidencia que não basta comprar, deve-se permanecer comprando contínua e precocemente. Porra de dinheiro, porra de dinheiro A sociedade de consumo me transformou em um serviçal Porra de dinheiro, porra de dinheiro Sempre com a água batendo na bunda, essa é a vida de um consumidor (SKA-P, 2002). Assumindo estas características, o consumo passou a fazer parte de todas as atividades humanas. Isso se deu em razão da convergência de interesses dos produtores industriais e do mercado de crédito, patrocinados pelo estabelecimento definitivo da cultura consumista e da hipervalorização do possuir (PORTO, 2015 p.1), Ou seja, a abundância de produtos no mercado tem sua demanda garantida pelo crédito fácil disponibilizado pelas instituições financeiras (PORTO, 2015 p.1). Como expressa a música consumo gusto o mundo do consumo [...] gera um ritmo eufórico de compra e venda que traz consigo problemas manifestos no âmbito social com nefastas consequências, como o superendividamento. (PORTO, 2015 p.1). Pagar o colégio das criança Pagar a porra da luz, água e gás Pagar a residência da mamãe Pagar, a minha vida consiste em pagar Pago o boleto do carro, pago a taxa do condomínio Pago a porra da hipoteca, pago a conta que devo no bar Pago o boleto do dvd, pago o boleto da televisão Pago o seguro do carro, pago o boleto do computador (SKA-P, 2002). Com efeito, eis que se pode afirmar que o consumo exagerado é fruto de um conceito perverso e ultrapassado de desenvolvimento (PORTO, 2015, s/p). No trecho abaixo esta situação fica fortemente evidenciada e caracterizada, quando a banda expressa na letra da música, a necessidade do consumo como uma questão imprescindível para atingir o Bem- 9

10 estar. Sob o ponto de vista das teorias econômicas liberais é no mercado que o indivíduo satisfaz suas exigências de bens e serviços, portanto, adquire seu bem-estar (FALEIROS, 1980, p.9). Escravo da porra da publicidade Escravo eu sou Escravo. A sociedade do bem-estar não é igual para todos, não é igual. (SKA-P, 2002). O trabalhador, neste sentido, torna-se escravo diante da economia capitalista. Pois, além de ser parte fundamental do processo de produção enquanto trabalhador assalariado, também é uma peça chave no que diz respeito ao processo do consumo, haja vista que, ao produzir, necessita consumir, para tal, faz uso de seu salário que é o meio de prover a sua subsistência (FALEIROS, 1980, p.10). Todo o dia se fodendo como um bastardo até as 10 Com um salário de merda que não chega ao fim do mês Mas a tv me diz que eu tenho que consumir Aceito de bom grado e me deixo persuadir (SKA-P, 2002). Desta maneira, a expansão do consumo é garantida pela tríade, oferta, crédito e demanda, as três constituem-se uma ordenação de elementos favoráveis ao surgimento do conceito de sociedade de consumo na qual, atualmente, todas as pessoas estão incluídas. Suas características abrangem elevada produção, consumo massivo e alto desenvolvimento industrial (PORTO, 2015 s/p), no qual o trabalhador é o protagonista deste processo, e responsável por sua perpetuação. Aqui termina a história deste humilde trabalhador Que foi usado e nem se quer aprendeu Quem fica com a "fatia", quem manipula o "pingado" Quem está acima dos que dividem o "bacalhau" (SKA-P, 2002) 10

11 CONSIDERAÇÕES FINAIS Na sociedade capitalista, o consumo tem se expressado de inúmeras formas, até mesmo, por meio de gêneros musicais, entre eles o Rock and Roll. Foi por intermédio da canção consumo gusto, da banda de punk Rock ska-p e tendo em vista que o consumo em massa se fortalece cada dia mais na sociedade capitalista, que procuramos pensar um pouco mais sobre a temática em questão. A produção e o consumo são as forças que representam os pilares da economia de mercado, este sistema vem evoluindo de acordo com as necessidades humanas e com as exigências mundiais, elementos como a terceirização, flexibilização, crédito fácil, e o processo de internacionalização da economia, também conhecido como globalização, se caracterizaram como elementos fundamentais para a consolidação do consumismo. Este promove inovações no que tange a tecnologia, a força produtiva, a divisão internacional do trabalho, os quais apresentaram-se como pontos positivos para alguns pensadores contemporâneos, visto que por intermédio destas novas tecnologias, pode-se ter acesso ao que nunca se imaginou. Em suma, apesar das mudanças que o consumo em massa acarretou para a sociedade capitalista, este fenômeno ostenta características ambíguas e contraditórias que norteiam o mundo moderno, onde todas as coisas articulam-se entre si. Embora inovadora, a dita evolução apresentou mudanças no que tange a economia, porém, o mundo continua desigual e contraditório, capaz de privilegiar apenas alguns. Neste processo, o menos favorecido é o trabalhador, que além de produtor é consumidor e já não consume apenas para suprir suas necessidades, pois, na atualidade você é o que tem, ou melhor, você é o que pode consumir. 11

12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BEHRING, Elaine Rossetti; SANTOS Silvana Mara de Morais. Questão Social e direitos. In. Serviço Social Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília-DF, DePAULA. Lucas Franco. Internacionalização da economia e suas transformações sobre o estado contemporâneo e a ordem institucional internacional voltadas aos negócios jurídicos inseridos no setor bancário e de produtos financeiros. RVMD, Brasília, V. 7, nº 1, p , Jan-Jun, FALEIROS. Vicente de Paula. A política Social do Estado Capitalista: As funções da previdência e Assistência Sociais. São Paulo: Cortez Editora, HOBSBAWM, Eric J. Globalização, democracia e terrorismo. In. Uma Resenha De Um Mestre: Hobsbawm E A Globalização, Democracia e Terrorismo. Por Marcelo Paula De Melo (Org). Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 2, p , maio/ago Disponível em: LIMA. Ângela Maria de Sousa. Os Impactos da Globalização no Mundo do Trabalho. Revista. Terra E Cultura, Ano Xx, Nº http: //web.unifil.br/docs/revista _eletronica/terra_ cultura/39/terra%20e%20cultura_39-3.pdf. PORTO. Elisabete A. Desenvolvimento e demanda na economia de mercado: seus desdobramentos na teria do superendividamento do consumidor Disponível em: SOUSA. Andréia Nádia Lima de Globalização: Origem e Evolução Globalization: Origins And Evolution. Caderno de Estudos Ciência e Empresa, Teresina, Ano 8, n. 1, jul Disponível em: Artigo%20Andreia%20Nadia%20 Globalizacao %20ABNT. pdf SOARES, Laura Tavares: O Desastre Social. In. SADER, Emir (Org). Os porquês da Desordem Mundial Mestres Explicam a Globalização Disponível em: <http://books.google.com.br/books?hl=en&lr=&id=tkk_pzgczkmc&oi=fnd&pg=pa9&dq =o+desastre+social+laura+tavares&ots=_i-mxhe0q6&sig=9-acamm9uqygr4k9 PdYDGs 11mOw#v=onepage&q=o%20desastre%20social%20laura%20tavares&f=true> SKA-P. Consumo Gusto. Gravadora: BMGouvir 2002 ANEXO 1 Música consumo gusto Comprar, cosas que no valen pa na Comprar, para olvidarlas en el desvan Comprar, es un placer excepcional Comprar, como me gusta despilfarrar Todo el dia currando como un cabron hasta las 10 Por un salario de mierda que no me llega a fin de meses Pero la tele me dice que tengo que consumir 12

13 Aceptos con sumo gusto yo me dejo persuadir Pagar, el colegio del chaval Pagar, la puta luz, el agua y el gas Pagar, la residencia de mama Pagar, mi vida consiste en aforar Pago la letra del coche, pago la cuota de comunidad Pago la puta hipoteca, pago la cuenta que debo en el bar Pago la letra del video, pago la letra del televisor Pago el seguro del coche, pago la letra del ordenador PUTO DINERO, PUTO DINERO [X2] La sociedad de consumo me ha convertido en un servidor PUTO DINERO, PUTO DINERO [X2] Siempre con el agua al cuello, estas es la vida de un consumidor Esclavo de la puta publicidad Exclavo soy Esclavo la sociedad del bienestar no es para todos por igual Aqui termina la historia de este humilde trabajador Que ha sido utilizado y ni siquiera se ha enterao Quien saca la tajada quien maneja este tinglao Los que estan por arriba los que parten el bacalao PUTO DINERO, PUTO DINERO [X2] La sociedad de consumo me ha convertido en un servidor PUTO DINERO, PUTO DINERO [X2] Siempre con el agua al cuello, estas es la vida de un consumidor Fonte: Tradução música consumo gosto ANEXO 2 13

14 Comprar, coisas que não valem para nada Comprar, para esquecê-las no sótão Comprar, é um prazer excepcional Comprar, como eu gosto de desperdiçar Todo o dia se fodendo como um bastardo até as 10 Com um salário de merda que não chega ao fim do mês Mas a tv me diz que eu tenho que consumir Aceito de bom grado e me deixo persuadir Pagar o colégio das criança Pagar a porra da luz, água e gás Pagar a residência da mamãe Pagar, a minha vida consiste em pagar Pago o boleto do carro, pago a taxa do condomínio Pago a porra da hipoteca, pago a conta que devo no bar Pago o boleto do dvd, pago o boleto da televisão Pago o seguro do carro, pago o boleto do computador Porra de dinheiro, porra de dinheiro A sociedade de consumo me transformou em um serviçal Porra de dinheiro, porra de dinheiro Sempre com a água batendo na bunda, essa é a vida de um consumidor Escravo da porra da publicidade Escravo eu sou Escravo. A sociedade do bem-estar não é igual para todos Aqui termina a história deste humilde trabalhador Que foi usado e nem se quer aprendeu Quem fica com a "fatia", quem manipula o "pingado" Quem está acima dos que dividem o "bacalhau" Porra de dinheiro, porra de dinheiro A sociedade do consumo me transformou em um serviçal Porra de dinheiro, porra de dinheiro Sempre com a água batendo na bunda, essa é a vida de um consumidor Escravo da porra da publicidade 14

15 Escravo eu sou Escravo. A sociedade do bem-estar não é igual para todos Não é a sociedade do bem-estar não é igual para todos, não é igual 15

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