IMPLEMENTAÇÃO DE BOAS PRÁTICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE EM MICRO E PEQUENAS EMPRESAS BRASILEIRAS

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1 IMPLEMENTAÇÃO DE BOAS PRÁTICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE EM MICRO E PEQUENAS EMPRESAS BRASILEIRAS Guerra A. C. Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer - CTI Rodovia Dom Pedro I, km 143,6 Campinas SP Brazil Moreno J.N. Stefanini IT Solutions Oliveira A. A. A. C. P. Saggita Comércio e Prestação de Serviços em Qualidade de Software Campinas SP Rodrigues J. Faculdade de Ciências Exatas e da Natureza (FACEN) - Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) Piracicaba SP RESUMO Este artigo apresenta experiências vivenciadas com a prestação de serviços de consultoria em melhoria de processo, para micro e pequenas empresas de desenvolvimento de software. Relata de maneira geral o perfil das empresas consideradas, com o objetivo de chamar a atenção sobre o contexto diferenciado dessas experiências e a importância dessas empresas no mercado nacional. As principais expectativas e dificuldades vivenciadas bem como os resultados alcançados pelas empresas foram fatores motivadores para a apresentação deste relato. As lições aprendidas foram determinantes para a condução de outras iniciativas de implementação de práticas em micro e pequenas empresas brasileiras. PALAVRAS-CHAVE Melhoria de processo, software, desenvolvimento de software, micro empresa, pequenas empresa, MPS Br. 1. INTRODUÇÃO O atual governo analisando o cenário formado pelo mercado mundial de TI e o mercado de software e serviços de TI no Brasil, reconheceu a importância do software e das oportunidades de negócio para o país. No planejamento do MCT/SEPIN para o período de [CORREA, 2007] destaca-se o Programa de Estímulo ao Setor de Software e Serviços Correlatos cujas ações são: Formar e capacitar recursos humanos; Incrementar a competitividade do setor; Fortalecer o mercado nacional; Promover melhores práticas; Incentivar segmentos emergentes; Fomentar pesquisa e desenvolvimento. Esse cenário mostra que existe demanda para produtos de software e a saturação do mercado ainda está longe, porém, de uma maneira geral, as empresas sejam elas de qualquer porte, precisam melhorar sua forma de trabalhar estabelecendo melhorias nas suas rotinas e processos sistemáticos, por exemplo. As ações do MCT/SEPIN permitirão acelerar o processo de desenvolvimento também das micro e pequenas empresas as quais desempenham um importante papel para o aumento da geração de empregos no

2 país. Os incentivos financeiros e programas de melhoria contribuirão para a melhoria de sua forma de trabalhar e conseqüentemente para a melhoria da qualidade de seus produtos. Embora existam muitos trabalhos que relatem as armadilhas [WIEGERS, 1996] e problemas que são dificuldades para a implantação de melhoria de processo [MEZZENA, 2005], [NIAZI, 2003] e [ROCHA, 2005], é difícil encontrar na literatura relatos de experiência de trabalhos com microempresas. Isso talvez aconteça, porque o faturamento dessas empresas é pouco considerável, suas equipes são muito pequenas e dificilmente elas chegariam a uma avaliação para obtenção de níveis de maturidade. Este relato aborda experiências vividas na realidade de micro e pequenas empresas. Nossa expectativa é chamar atenção sobre a importância dessas empresas e do que representa para elas as pequenas melhorias que possam ser implantadas. 2. RELATO DE EXPERIÊNCIA 2.1 Microempresa e Pequena Empresa Há vários critérios para o enquadramento das empresas como microempresa e pequena empresa, como por exemplo: receita bruta e faturamento. No contexto deste trabalho consideraremos apenas o critério do número de pessoas que compõem a empresa. A maioria das empresas com as quais este trabalho foi desenvolvido possuía equipes de desenvolvimento de cerca de 10 pessoas. 2.2 Gestão do Negócio: Produção de Software O negócio Produção de Software carrega consigo muitas dificuldades entre elas algumas que são inerentes às características do software como por exemplo, sua natureza abstrata [GUERRA, 2004]. A estrutura de custos apresentada na Figura 1 embora bastante simplificada, mostra a composição do custo das atividades fundamentais no negócio Software Pacote, para o qual apenas 30% do contexto do negócio representam o desenvolvimento propriamente dito (desenvolvimento com a execução e produção). Entretanto, as outras atividades para a gestão do negócio são de igual ou maior importância numa empresa de software. Figura 1. Estrutura de Custos. Figura 2. Empresas desenvolvedoras de software Conforme os dados fornecidos pelo IDC (ABES,2007), exibidos na Figura 2, no universo das empresas desenvolvedoras de software temos 1894 empresas, das quais 1085 possuíam entre 10 e 99 empregados. Assim, temos uma quantidade considerável, cerca de 35%, de empresas com características semelhantes às que se enquadram no contexto deste relato. Esse número está em constante crescimento devido à tendência

3 das grandes empresas em diminuir o número de pessoas e terceirizar o serviço de desenvolvimento, através da subcontratação de micro e pequenas empresas. 2.3 Relato da Experiência As atividades realizadas para a implantação de melhoria de processos de softawre, objeto deste relato, foram realizadas formalmente por empresa de consultoria Contextualização Este texto relata a vivência com empresas desenvolvedoras de software com perfil técnico e financeiro diferentes entre si que em sua maioria enquadram-se na classificação de microempresa, atuando com o desenvolvimento de software em áreas de aplicação bem diversificadas, com as seguintes características: perfil do negócio: empresas desenvolvedoras de software atuando como prestadoras de serviços subcontratadas, para projetos específicos, de empresas maiores e empresas desenvolvedoras de software para o mercado interno; tempo de mercado: empresas iniciando suas atividades e empresas já constituídas e atuantes há algum tempo; tamanho da equipe: empresas com equipe bastante reduzida com até 5 pessoas e empresas com equipe entre 10 e 20 pessoas Motivação para a Empresa de Consultoria Responsável pela Implantação A implantação de melhoria nessas empresas, apesar de não ser lucrativa em termos financeiros, para a empresa de consultoria, foi bastante motivadora, e fonte inesgotável de aprendizado devido às seguintes razões: muitas das micro e pequenas empresas desenvolviam produtos de software com idéias inovadoras quanto à aplicação e seus dirigentes estavam motivados e orgulhosos de seus empreendimentos; queriam construir a imagem como fornecedor de conteúdo tecnológico e são responsáveis pela criação de boa parte dos empregos no Brasil.; suas equipes eram compostas por estudantes ou recém-formados, com domínio sobre as tecnologias de ponta como linguagens de programação, dispositivos móveis, internet, banco de dados, etc; as empresas eram terceirizadas por empresas com maior faturamento, grandes contratos e projeção consideráveis e necessitavam produzir software com qualidade para se firmarem no mercado, e concretizarem a expectativa de aumentar suas equipes e seu faturamento Método de Trabalho No contato inicial com a consultoria, as empresas através de um ou mais representantes, na maioria das vezes declaravam a expectativa de obter uma certificação de software, termo não adequado, mas que usualmente é utilizado pelas empresas que buscam implementar programas de qualidade. Foram identificados alguns fatores causadores dessa expectativa como por exemplo as seguintes características das empresas: empresas atuantes como subcontradas de empresas maiores, já possuidoras de alguma certificação CMM ou CMMI e que sentiam-se pressionadas a definir/melhorar seus processos; empresas que buscavam ajuda para melhoria de seus processos, por atuarem como subcontradas de empresas maiores que conduziam projetos financiados por alguma instituição de fomento como FAPESP, FINEP, etc.; empresas que já possuíam um programa de qualidade e estavam em busca de uma certificação; alguém da empresa que tinha ouvido falar em certificação de software e convenceu os responsáveis ou diretores a iniciar um programa de qualidade; expectativa da empresa em atender a chamada de editais nos quais era exigido o atendimento ao modelo de referência MPS Br (http://www.softex.br/portal/mpsbr/_home/default.asp). Após as reuniões para o levantamento de informações e a identificação da expectativa e dos fatores envolvidos, para a maioria das empresas utilizou-se a estratégia de levantar o diagnóstico da empresa tendo

4 como referência o nível G do modelo MPS.Br. Uma empresa solicitou que se utilizasse o CMMI (www.sei.cmu.edu/cmmi). Em alguns casos, identificou-se que a empresa não realizava as mínimas práticas necessárias para um planejamento e acompanhamento das atividades de desenvolvimento de software. Para algumas empresas não foi necessário levantar o diagnóstico pois o número de funcionários se reduzia aos sócios do pequeno negócio, que acumulavam atividades técnicas, gerenciais e executivas de forma não disciplinada. Em todos os casos foram definidas e implantadas práticas adequadas que em alguns casos se restringiram a algumas rotinas de trabalho Dificuldades Encontradas As dificuldades encontradas durante a implementação de práticas para melhoria de processo têm sido discutidas em diversos trabalhos como em [MEZZENA, 2005], [NIAZI, 2003] e [ROCHA, 2005]. Neste texto cabe evidenciar as dificuldades vivenciadas por seus autores e que constituíram um quadro desafiador para a condução dos trabalhos e influenciaram nas estratégias de negócio e metas das empresas. As principais dificuldades foram: equipes muito pequenas e falta de recursos financeiros para a contratação de novos elementos necessários à equipe ou falta de experiência para contratação de novos integrantes para a equipe equipes das empresas sem conhecimentos básicos de Engenharia de Software; pessoas das equipes com dificuldade em conciliar os papéis desempenhados com as práticas a serem realizadas; falta de disciplina interna para a realização das atividades de maneira equilibrada por todos os participantes das equipes; falta de compromisso efetivo, por parte dos responsáveis pela empresa e falta de compromisso dos dirigentes para o desempenho, do processo definido, por parte dos elementos da empresa, de uma forma homogênea e disciplinada; condução de trabalhos paralelos envolvendo a reestruturação da empresa, comprometendo o trabalho que estava sendo realizado; falta de alinhamento quanto aos objetivos dos dirigentes e da equipe operacional. Os gerentes de projetos e desenvolvedores sentiam a necessidade de adotar melhores práticas, enquanto o objetivo da diretoria era meramente comercial Lições Aprendidas A vivência dessas experiências com microempresas proporcionou aos autores deste texto diversos aprendizados, sendo válido salientar: o objetivo, a missão e a visão da empresa de consultoria eram focados na implantação de melhoria de processo de desenvolvimento de software, no entanto, na maioria dos casos o que ocorreu foi implementação de simples práticas de Engenharia de Software, pois nesses casos era impossível o estabelecimento de processo mais elaborado. Isso, entretanto, não inviabilizou a atuação da empresa, e ao contrário mostrou que o mercado de atuação é até maior que o levantado inicialmente; o trabalho realizado foi bastante gratificante, uma vez que o contato com as equipes de desenvolvimento foi rotineiro e a visibilidade dos resultados era imediata; identificou-se a necessidade de programas de formação em Engenharia de Software, Gestão de Empresas e Empreendedorismo, pois na grande maioria dos casos o problema não era técnico, mas sim de falta de conhecimento nessas disciplinas. Essa formação, uma vez obtida, contribuirá para a consolidação das empresas e para melhorar sua produtividade e rentabilidade; a necessidade de aumentar a atuação de Instituições de Pesquisa e de Ensino, com o mundo empresarial, canalizando o conhecimento teórico para o mercado, sobretudo no que diz respeito a metodologias aplicadas às áreas técnica e financeira.

5 3. CONCLUSÃO Durante a atuação da consultoria junto a essas empresas, foi possível observar a importância de considerar a realidade cultural e financeira de cada empresa e conduzi-la para a implementação de práticas adequadas ao que realmente elas necessitavam. Os resultados alcançados foram bastante diversificados, o que já era de se esperar, e também muito gratificantes. Observou-se que quanto menor o porte da empresa os resultados alcançados por ela eram mais significativos, mesmo considerando os casos onde somente pequenas práticas foram estabelecidas. Neste texto cabe evidenciar os seguintes resultados: identificação dos papéis existentes e como conviver com o acúmulo de papéis por uma mesma pessoa; definição de instrumentos para auxiliar na definição do perfil da equipe e para o recrutamento de pessoal para a área de desenvolvimento; estabelecimento de práticas para planejar as atividades e acompanhar os trabalhos das equipes; estabelecimento de um processo de Gerência de Projetos; ajustes em práticas e templates para adequação dos processos, às necessidades da empresa; conscientização dos responsáveis que em alguns casos resolveram evoluir os trabalhos participando de grupos da SOFTEX. Vale à pena salientar que nesses casos o trabalho realizado com a consultoria foi totalmente aproveitado. É importante relatar o seguinte caso: Em uma das empresas, após implementadas as práticas para o planejamento das atividades, e após realizado o planejamento para um dos projetos de desenvolvimento de um novo produto de software, o responsável pela empresa optou em abortar tal desenvolvimento. O planejamento mostrou que seria impossível a conclusão do desenvolvimento do software no prazo prédeterminado. Era importante a conclusão a tempo de lançar o produto durante um evento que iria acontecer. O responsável da empresa, que nunca havia executado um planejamento para o desenvolvimento de seus produtos, convenceu-se rapidamente de sua importância. Deixou de investir recursos nesse produto e concentrou os recursos em um outro desenvolvimento cujo planejamento evidenciou a factibilidade. AGRADECIMENTO Nesta oportunidade queremos agradecer a todas as pessoas integrantes das empresas com as quais desenvolvemos os trabalhos brevemente relatados aqui. A implementação de práticas, modificando rotinas de trabalho e/ou estabelecendo novas rotinas muitas vezes colocou-nos frente ao desafio de interferir diretamente na atuação de jovens empreendedores, aos quais também agradecemos a confiança demonstrada. Ao comitê do IADIS CIAWI 2008 Português, agradecemos a oportunidade de compartilharmos esta experiência. Essencialmente a Deus, agradecemos por nos ter contemplado com a vida e a oportunidade de vivenciarmos essa experiência e o a aprendizado resultante. REFERÊNCIAS CORREA A.,2007, Política de Software e Serviços: Ações MCT Encontro da Qualidade e Produtividade em Software EQPS, Manaus, Brasil. GUERRA A. C.. ALVES A. M., Aquisição de Produtos e Serviços de Software. Elsevier. Rio de Janeiro, Brasil. GUTIERREZ R., 2007, O Setor de software brasileiro e o PROSOFT BNDES. MEZZENA, B., Benefícios e Dificuldades da Implantação do Modelo CMM: Estudo de Caso. Trabalho de conclusão do curso de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, Brasil. NIAZI, M.; WILSON, D.; ZOWGHI, D.,2003, A Model for the Implementation of Software Process Improvement: A Pilot Study. Proceedings of the Third International Conference On Quality Software (QSIC 03), Sidney, Australia. ROCHA, A. R.; MONTONI, M; SANTOS, G. et al, 2005, Fatores de Sucesso e Dificuldades na Implementação de Processos de Software Utilizando o MR-MPS e o CMMI. I Encontro de Implementadores do MPS.BR. Brasília, Brasil. WIEGERS, K., Software Process Improvement: Ten Traps to Avoid. Software Development Magazine, pp

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