TEDSON DA SILVA SOUZA

Tamanho: px
Começar a partir da página:

Download "TEDSON DA SILVA SOUZA"

Transcrição

1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA CURSO DE MESTRADO EM ANTROPOLOGIA TEDSON DA SILVA SOUZA FAZER BANHEIRÃO: AS DINÂMICAS DAS INTERAÇÕES HOMOERÓTICAS NOS SANITÁRIOS PÚBLICOS DA ESTAÇÃO DA LAPA E ADJACÊNCIAS Salvador 2012

2 TEDSON DA SILVA SOUZA FAZER BANHEIRÃO: AS DINÂMICAS DAS INTERAÇÕES HOMOERÓTICAS NOS SANITÁRIOS PÚBLICOS DA ESTAÇÃO DA LAPA E ADJACÊNCIAS Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Antropologia. Orientador: Prof. Dr. Edward John Baptista das Neves MacRae Salvador 2012

3 3 AGRADECIMENTOS Ao meu orientador Edward MacRae que me adotou como um filho. A Minha Mãe, Terezinha, que esteve presente nas horas mais difíceis, compreendendo e apoiando todas as minhas escolhas.. A Minha avó Lindaura (in memorian). Ao amigo Ari Sacramento, pelas orientações e pela confiança no meu trabalho. A Ton Israel pelas leituras, revisões e dicas. A Osmundo Pinho pelas aulas de África Antropológica e pelas indicações bibliográficas, tão importantes para a construção do referencial teórico deste trabalho. A todos os colegas, professores e funcionários do PPGA/UFBA. Aos amigos Maurício Tavares, Rafael Abreu e Silvana Oliveira, sempre presentes em momentos de descontração e de desabafo. A todos os participantes da pesquisa, que me contaram suas histórias. A Ranieri Souza pela compreensão e disponibilidade nessa reta final. A CAPES, pelo financiamento parcial, com apenas 17 meses de bolsa de estudos.

4 RESUMO As pesquisas de sexualidade in loco são bastante insólitas no campo da Antropologia e essa situação se agrava quando as variáveis homossexualidade, raça e gênero são tomadas para compreender as interações sexuais entre homens nos espaços públicos das grandes cidades. A fim de compreender tal dinâmica, procedo, através de uma abordagem autoetnográfica, uma investigação das práticas de pegação em banheiros públicos masculinos da Estação da Lapa maior terminal de ônibus urbano de Salvador e adjacências. Como não se trata de um objeto tradicional da Antropologia ( comunidade X ou Y ), tomo como objeto a deriva urbana da pegação no Centro da Cidade por onde transitam sujeitos que praticam sexo ocasional e não comercial entre homens, nas negociações e consórcios episódicos tecidos no e no entorno do banheirão. Percebo que, para além de um simples terminal com um sanitário, a Estação da Lapa é ressignificada como espaço de práticas sexuais de desejos dissidentes, na direção de interesses tão diversificados quantos são os sujeitos que interagem na cena e que só são reunidos aqui pelo traço em comum dos desejos, diversificadamente, homo-orientados. Palavras-chave: Homossexualidade Masculina. Gênero. Raça. Corpo. Narrativas pessoais. Autoetnografias.

5 5 ABSTRACT In loco research into sexuality is very unusual in anthropology and it is even less common to take into account variables like homosexuality, race and gender in order to understand sexual interaction among men in public areas of big cities. In order to understand such a dynamics, I have undertaken an autoetnography, an investigation of cruising practices in male public conveniences in the Lapa station- the biggest urban bus terminal in Salvador, where there is a transit of subjects who practice occasional and non-commercial sex among men. Studying the negotiations and episodic conjunctions occurring in and in the vicinities of the public convenience, I notice that the terminal is resignified as a space for sexual practices of dissident desires, in accordance with interests as diverse as are the subjects who interact in the scene and who are only united by their common desires of a diversified homosexual nature. Key words: Male Homosexuality. Gender. Race. Body. Personal narratives. Autoetnography

6 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Pegação com sigilo Salvador 67 Figura 2 Post Clube do Banheiro SSA 68 Figura 3 Pegação no Orkut 70 Figura 4 Perfil Disponível.com 72 Figura 5 Clube do Banheiro SSA 79 Figura 6 Escada do SSA SHOPPING 81 Figura 7 O caso Jão Vitor 83 Figura 8 Chat no Facebook 99

7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 8 A SUBJETIVIDADE ERÓTICA DO ANTROPÓLOGO EM CAMPO 9 UMA NARRATIVA DE SI COM PERSPECTIVAS DIALÓGICAS 13 1 INÍCIO DE CONVERSA: TEMÁTICA, SEXUALIDADES DISSIDENTES E O OBJETO DE ESTUDO 1.1 A GANG BANG NO SANITÁRIO DA ESTAÇÃO A LAPA: UM TERRITÓRIO MARGINAL PERCURSO ETNOGRÁFICO SEXO E ESPAÇOS PÚBLICOS O BANHEIRÃO COMO LOCAL DA PRÁTICA SEXUAL HOMO-ORIENTADA EROTICIDADES HETEROSSEXUAIS MASCULINAS: TENSÕES EM TORNO DO MODELO HEGEMÔNICO 2.1 A MASCULINIDADE HEGEMÔNICA E AS HOMOSSEXUALIDADES BRASILEIRAS O HETEROSSEXUAL PASSIVO E OUTRAS HETEROSSEXUALIDADES FLEXÍVEIS EM CAMPO 2.3 O JOGO DAS HETEROSSEXUALIDADES FLEXÍVEIS A SACANAGEM TODO MUNDO FAZ POR DEBAIXO DO PANO TUDO PODE 56 ACONTECER 2.4 DESCARTO AFEMINADOS : ENTRE O CIBERESPAÇO E A RUA UM NEGÃO DESSE... VIADO! : RAÇA, GÊNERO, SEXUALIDADES E TENSÕES NA PEGAÇÃO DA ESTAÇÃO DA LAPA O CASO ZUMBI DOS PALMARES E AS TENSÕES ENTRE MOVIMENTOS NEGRO, LGBT E O MEIO HOMOSSEXUAL 3.2 DIGA PRA ELE QUE VOCÊ ME CONHECE E QUE EU NÃO SOU LADRÃO O SURFISTINHA DE OLHOS AZUIS E A CAIXINHA DE NATAL CONSIDERAÇÕES FINAIS 104 REFERÊNCIAS 107 ANEXOS

8 8 INTRODUÇÃO Nas últimas décadas, a Antropologia Social abriu-se para o estudo das culturas de grupos sociais urbanos e começou a fazer uma espécie de antropologia de nós mesmos. Com isso, pesquisadores que muitas vezes se auto-identificam com minorias como mulheres, gays e negros colocaram questões referentes a sexualidades dissidentes na pauta de pesquisa das Ciências Sociais. A inclusão desses novos campos de pesquisa demandou a criação de uma nova metodologia para a construção da etnografia, que levasse em conta o autobiográfico e empregasse uma nova concepção para o conceito de subjetividade. Além disso, precisava ser construída de maneira dialógica através de uma escrita capaz de revelar diferentes vozes culturais. Desse modo, a subjetividade passa a ser construída de forma transpessoal, estabelecendo uma relação entre memória pessoal e memória coletiva. Diante dessa conjuntura, achei necessária a escrita de um texto autoetnográfico, em que a posição do pesquisador diante do objeto fosse explicitada. Esta dissertação foi construída por mim, homem negro, morador do Subúrbio Ferroviário de Salvador, assumidamente homossexual e adepto da deriva urbana e da pegação em banheiros públicos. Logo, esse relato não é apenas sobre a vida sexual de outros homens que buscam interações sexuais em banheiros, e, sim, sobre uma reunião de relatos autobiográficos, observações participantes e depoimentos de homens que partilham da mesma prática. Por isso, o objetivo desta dissertação é configurar, através de uma abordagem (auto)etnográfica, as interações em banheiros públicos masculinos da Estação da Lapa maior terminal de ônibus urbano de Salvador e adjacências, isto é, os trânsitos desses sujeitos que praticam sexo ocasional e não comercial entre homens, nas negociações e consórcios episódicos tecidos no, e no entorno do, banheirão. É necessário ainda asseverar que este estudo não é sobre uma comunidade ou um grupo homogêneo, mas sobre a prática da pegação (caracterizada como breve, impessoal e, na maioria dos casos, não mediada por palavra) e os sujeitos que por ela transitam e operacionalizam a cena. Por isso, diante de toda a dinâmica, diversidade e interatividade do objeto, foi impossível a adoção de uma postura metodológica rígida de caráter homogeneizador. Desse modo, a imersão do sujeito pesquisador na deriva homoerótica que atravessa e demarca, erótica e sexualmente, os sanitários públicos

9 9 masculinos da Estação da Lapa, Shopping Piedade e Shopping Center Lapa darão o rumo ao relato que foi construído através de observação participante da cena e das coletas de dados, a saber: observações livres (em que foi feito um percurso nos banheiros de pegação, colhendo, meticulosamente, impressões, descrições e cenas), entrevistas itinerantes (em que, inserido na cena, o pesquisador fez contato verbal com os partícipes) e, por fim, entrevistas profundas (em que há maior interação entre o entrevistador e o entrevistado) (PERLONGER, 2008). A SUBJETIVIDADE ERÓTICA DO ANTROPÓLOGO EM CAMPO No final do século XIX e início do século XX, a Antropologia foi fundada sobre princípios positivistas e, no intuito de ser reconhecida como ciência, pretendeu adotar, como parâmetro para coleta de dados, os padrões de objetividade e neutralidade característicos da matemática e das ciências exatas. O objetivo do trabalho do antropólogo que, naqueles tempos, geralmente, era branco, homem, heterossexual, europeu ou estadunidense consistia, em geral, em etnografar o cotidiano de povos distantes do dele em colônias conquistadas pelas Expedições Européias, nas exóticas e desconhecidas América, África, Ásia e Oceania. Mas, apesar de todas as distâncias e divergências, para ser bem sucedido em campo, era necessário que este pesquisador fizesse uma espécie de imersão nos costumes desses outros, vivenciando a dinâmica social desses povos. Estava estabelecida a tensão entre tornar-se amigo, conquistar a confiança dos informantes e, consequentemente, estar contaminado pelos impactos emocionais provocados pelas situações vividas em campo e a busca pela isenção e objetividade científicas modeladas nas ciências duras. Embora não exista uma espécie de código de conduta em que se explicite até onde o pesquisador deve ir em relação aos contatos com os seus informantes, observase que interações mais íntimas, a exemplo de interações afetivas com os informantes, não são bem avaliadas no seio das discussões no âmbito das ciências sociais. Um caso bastante conhecido que até hoje levanta questionamentos sobre o envolvimento sexual do etnógrafo em campo é o de Malinowvki, considerado o pai da Antropologia Moderna. Ele foi o primeiro antropólogo a pensar em etnografia densa, pois seus escritos traziam análises minuciosas, sistemáticas e detalhadas dos povos estudados. Apesar de expedições etnográficas serem muito comuns antes de sua atuação

10 10 como pesquisador, ele ganha notabilidade por inventar o método da observação participante que consistia em conviver longamente com a comunidade pesquisada, participar de suas atividades, aprender sua língua para, prescindindo da ajuda de intérpretes e registro de dados feito de forma distante e formal, poder familiarizar-se com o que antes fora estranho ao pesquisador. Em suas pesquisas nas Ilhas Trobriand, Malinowvski (1983 [1929]) estuda a sexualidade dos nativos, escrevendo notas de campo com vários recortes que, naturalmente, dada a amplitude e densidade dos dados coletados em relação ao que, de fato, é tratado na análise constante de um relatório do estudo feito, não se tornaram públicos enquanto o autor vivia. Em 1967, entretanto, foi publicado o diário pessoal de Malinowski sob o título de Um diário no sentido estrito do termo, em que o antropólogo confessa ter sentido desejo sexual em campo, masturbar-se e até mesmo manter relações sexuais com os nativos. A partir dessa publicação, o tema da sexualidade do pesquisador, tópico que não era até então citado em seus escritos, nem nos de outros antropólogos, tornou-se também objeto de crítica, contestação, mas também, por outro lado, validação como dado de análise em pesquisa. A subjetividade sexual do pesquisador é trazida, assim, para o centro da discussão sobre a inquirição em Antropologia, sendo, então, a reflexividade e a subjetividade (STRATHERN, 2004), em sua acepção mais íntima e profunda, discutidas como dado de campo. É fato que a sexualidade sempre esteve presente nas pesquisas antropológicas (BRAZ, 2010). Através da sexualidade, era possível estabelecer as fronteiras entre nós (pesquisadores) e eles (pesquisados), porque, nos relatos de pesquisa, a sexualidade era sempre vista como exótica, distante, estranhada a sexualidade do outro. A questão foi tradicionalmente abordada na busca pelo entendimento de como se dão as relações de parentesco na configuração das comunidades. Vários antropólogos Newton (1993), Kulick (1995), entre ouros começaram a questionar essa perspectiva de estudos da sexualidade, porque tal perspectiva tinha como objetivo e/ou efeito aumentar a distância entre pesquisador e pesquisado, colocando a sexualidade dentro de padrões euro-americanos. Assim, a sexualidade do outro (não branco, não europeu) era muitas vezes classificadas como doentia, patológica, categorizando, desse modo, o sujeito pesquisado como inferior, exótico, selvagem. Embora o tema da sexualidade estivesse sempre presente nas análises euroamericanas, essas pesquisas tendiam à patologiazação da sexualidade dos outros. Há,

11 11 assim, alguns pesquisadores (TORGOVINICK, 1990; KULICK, 1995, dentre outros) que sugerem a abordagem também da sexualidade do antropólogo in loco. Kulick (1995) questiona o silêncio sobre a sexualidade do pesquisador em campo tratando dos problemas decorrentes do silenciamento da sexualidade da antropologia como forma de manutenção do pacto da diferença irreconciliável entre nós e eles. Ao abordar questões relativas a relações de poder em pesquisa, Cardoso (1996) diz que, tradicionalmente, a Antropologia tratava de contextos distantes e inferiorizados. Posteriormente, começam a ser estudadas sociedades mais próximas, porém ainda em estado de pauperização. Há, nessa relação, o suposto problema do envolvimento do antropólogo com o participante, possivelmente com o intuito de este engajar-se em uma barganha de política pública. No caso da pesquisa sobre sexualidade, em que há envolvimento sexual, quando há esta disparidade entre etnógrafo e etnografado, a sexualidade pode figurar como moeda de troca, barganha, exercício de poder. Kulick (1995) ressalta que, em estudos com grupos desprivilegiados socialmente, o envolvimento sexual entre pesquisador e pesquisado tem sido visto como uma forma de operação do poder na qual os sujeitos são postos em uma posição hierárquica mais baixa. Ainda segundo o autor, esse estabelecimento de relações de poder está pautado em um modelo de construção de sexualidades ocidentais embasada na tríade raça, sexo e gênero. Um exemplo prático, e numa perspectiva invertida, aconteceu no Brasil no estudo de Rojo (2004), que se envolve com uma das participantes de seu estudo, praticante de naturismo. Ela era professora universitária, psicóloga, entretanto como alega Rojo não mantinha nenhum domínio sobre a participante, nem nenhum problema provocado pelo envolvimento sexual. Nesse caso, o domínio a partir do fator econômico não existe. Em todo caso, tradicionalmente, quando se trata de sexualidade, a abordagem era sempre in absentia, sempre se discutindo o outro, da terceira pessoa de quem se fala. A consideração da sexualidade do pesquisador in loco, em Antropologia, tem seu início mais representativo no caso Humphreys (1975), que faz uma pesquisa sociológica no final da década de 1960 nos Estados Unidos. O sociólogo pesquisou as tearoom trade termo que se refere a atividades sexuais entre homens em um banheiro público (NARDI, 1999) em campo, observando e atuando muitas vezes como bicha vigia, tomando conta do banheiro para que seus usuários engajassem em práticas sexuais

12 12 (HUMPHREYS, 1975). A pesquisa foi publicada em 1970 e o pesquisador nela declara que, para conseguir as informações, muitas vezes disfarçou-se de funcionário do governo e adentrou os lares desses homens com intuito de aplicar questionários e entrevistas sobre a vida de cada um. Consequentemente, apesar da importância de seus estudos, esse pesquisador foi visto como personna non grata em antropologia por sua criticada (falta de) ética. Entretanto, Nardi (1999) tenta resgatar a importância do trabalho de Humphreys por este sugerir a mudança de abordagem metodológica por fazer pesquisa in loco sobre sexualidade nesta ciência. Em Cuerpo, parentesco y poder, ao responder ao que é um ato sexual nas pesquisas que fizera, Godelier (2000) afirma que [p]arece que quando lhes é pedido para definir o que para eles significa um ato sexual, de acordo com a sua experiência, antropólogos e psicanalistas se encontram em situação distinta, ainda que, de certa forma, similar. Porque nenhum deles costuma observar diretamente atos sexuais durante o exercício de sua profissão. À primeira vista, o que parecem experimentar é a forma como as pessoas falam ou não a respeito. (GODELIER, 2000, p. 173, apud DÍAZ-BENÍTEZ, 2010, p. 21). Na perspectiva do presente estudo, a citação de Godelier talvez seja bastante pertinente no sentido de ajudar a entender como a metodologia antropológica tem, tradicionalmente, possibilitado que se estudem os discursos sobre as práticas sexuais, e não as práticas propriamente ditas. Nesse sentido é que a contribuição desse marxista se faz presente, já que questiona os métodos tradicionalmente utilizados em Antropologia na abordagem do objeto de estudo. Godelier questiona a falta de trabalhos etnográficos e de psicologia sobre sexualidade in loco e chega a afirmar que antropólogos e psicólogos conhecem somente discursos sobre sexualidade, não sabendo, especificamente, da prática sexual dos participantes em virtude da busca pelo distanciamento entre pesquisador e pesquisados, tão caro à ciência positivista. Porém, Díaz-Benítez (2010) o critica por evitar o contato com os humanos e estudar a sexualidade de entidades das comunidades. A pesquisadora atenta para o fato de que O próprio Godelier pesquisou entre os baruya, de Papua Nova Guiné, outro tipo de atos sexuais aqueles que acontecem na imaginação e sem manifestações corporais visíveis (DÍAZ-BENÍTEZ, 2010, p. 22). Em uma pequena busca no portal da Capes, notei que ainda é muito pequeno o número de trabalhos sobre a sexualidade in loco, sobre erotismo e prazer sexual nas Ciências Humanas e Sociais do Brasil. A heterogeneidade dos nomes dos trabalhos

13 13 impossibilitou que eu os quantificasse, pois a busca via web tornou-se bastante difícil. Pude notar, através das leituras de Parker (1999) (e, mais especificamente nos estudos empreendidos por Braz (2010) que realiza esse levantamento no âmbito do grupo de pesquisa que integra o Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM)) que o número de pesquisas sobre a sexualidade é um pouco maior quando o foco é a sexualidade e juventude e sexualidades em tempos de Aids ou na prostituição. Nas últimas décadas, levantei através da internet as etnografias de Gaspar Neto (2008), Díaz-Benítez (2010), Braz (2010), Costa Neto (2005) e Vale (2000) que trabalham com observação de práticas sexuais in loco. A dissertação de mestrado em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense de Gaspar Neto (2008), intitulada Na Pegação: encontros homoeróticos em Juiz de Fora e a de Costa Neto (2005), que retrata a pegação nos banheiros da UFRN, intitulada Banheiros Públicos: os bastidores das práticas sexuais, versam sobre objetos muito parecidos com o meu, pois tratam de pegação homoerótica em lugares públicos ou semi-públicos. Diferente desta dissertação, nenhum dos trabalhos citados acima é um relato autoetnográfico, todos os pesquisadores optaram por deixar claro que não eram adeptos das práticas sexuais etnografadas. UMA NARRATIVA DE SI COM PERSPECTIVAS DIALÓGICAS Os relatos das minhas experiências de interação sexual nos sanitários públicos e escadas da Estação da Lapa são o ponto de partida para a realização deste estudo autoetnográfico. Ao escrever sobre autoetnografia, Versiani (2005) enxerga essa modalidade de texto como uma alternativa de construção de uma subjetividade através de processos dialógicos, que possibilitam dar vozes e visibilidade a minorias por meio de textos de cunho autobiográficos. Ao dialogar com Watson (1993) e Clifford (1998), ele atenta para a necessidade da negociação construtiva do texto, privilegiando a polifonia das vozes. Clifford se refere à não negação da experiência pessoal e, principalmente, à explicitação do contexto performativo imediato no qual ocorre a relação interpessoal entre etnógrafo e etnografado como pressuposto básico da construção da própria etnografia (VERSIANI, 2005, p. 84). Gostaria de explicitar que, neste trabalho, descarto o distanciamento do objeto pregado, tradicionalmente, como pressuposto indispensável para a realização do

14 14 trabalho de campo. Eu sou, ao mesmo tempo, produtor de conhecimento e objeto etnografado e entendo que seria um equívoco metodológico falar aqui em terceira pessoa, pois este trabalho não é, e não pretende, ser a interpretação de uma realidade distante. O outro que encontrei no campo é muito parecido comigo e o diálogo construído no decorrer do texto é intersubjetivo. Em Sexo público, Lauren Berlant e Michael Warner (2002) refletem sobre a cultura sexual hegemônica que insiste em separar a vida pessoal da vida pública, destinando tudo relacionado às questões de sexualidade ao âmbito da intimidade pessoal. É através dessa estratégia que a heteronormatividade 1 impera, impossibilitando a construção de novas culturas sexuais não normativas ou explicitamente públicas. É exatamente a partir da necessidade de um olhar que se desloca das díades homossexualidade/heterossexualidade, norma/desvio, regra/exceção, centro/margem que esta pesquisa mostra-se de extrema relevância. O texto problematiza as explicações acerca das relações entre homens com desejos homo-orientados e de seu exercício em espaços públicos; uma vez que, os discursos da cultura sexual normativa descontextualizam as circunstâncias nas quais os encontros entre gays, bissexuais, transgêneros e homens-que-fazem-sexo-com-homem (HSH) em sanitários públicos são/foram possíveis em nome de uma narrativa de coerção estética dos usos dos corpos. Lancei olhares, que evitam psicologizar e patologizar a questão do sexo público e dessa forma discutir tais relações nos espaços urbanos nos quais há a alternativa de se poder ser anônimo em meio ao público. Assim, nesta dissertação, o leitor encontrará logo no primeiro capítulo um relato de uma das minhas idas a campo. Esse posicionamento foi escolhido para que o leitor pudesse começar seu percurso pelo texto, criando imagens desse objeto de enorme heterogeneidade que é a pegação no banheiro da Estação da Lapa e adjacências. Essa parte do trabalho dedica-se a apresentar o histórico de como o presente estudo se configurou. 1 Por heteronormatividade, entende-se a reprodução de práticas e códigos heterossexuais, sustentada pelo casamento monogâmico, amor romântico, fidelidade conjugal, constituição de família (esquema pai-mãefilho(a)(s)).na esteira das implicações da aludida palavra, tem-se o heterossexismo compulsório, sendo que, por esse último termo, entende-se o imperativo inquestionado e inquestionável por parte de todos os membros da sociedade com o intuito de reforçar ou dar legitimidade às práticas heterossexuais (FOSTER, 2001, p. 19).

15 15 No capítulo 2, problematizarei o modelo de masculinidade hegemônica presente no imaginário brasileiro. O objetivo é discutir outros modelos de eroticidade heterossexual masculina permissíveis na prática do banheirão. Os relatos de campo ilustram identidades de homens que se auto-definem como heterossexuais, mas cujas práticas alteram, de certo modo, a matriz heterossexual hegemônica, fugindo do que se convencionou permissível para um macho dentro da conjuntura social brasileira. Lançarei o meu olhar para essas heterossexualidades periféricas e, para isso, também é necessário discutir qual o discurso que regula a eroticidade heterossexual hegemônica, isto é, o que é ser um homem de verdade no Brasil? Na última seção, discutirei a hierarquia que se construiu tomando como topo o modelo hegemonizado e como base a ostensiva repulsa em relação aos afeminados. Por fim, no capítulo 3, através dos relatos etnográficos, tratarei das relações entre negritude e sexualidade na Cena da Pegação da Estação da Lapa, um lugar considerado marginal. Para isso, trabalharemos com discursos sobre as identidades do homem negro e a relação entre conceitos como sujeira versus limpeza, belo versus feio dentro desse território de deriva sexual.

16 16 1 INÍCIO DE CONVERSA: TEMÁTICA, SEXUALIDADES DISSIDENTES E O OBJETO DE ESTUDO Este capítulo terá início com um relato de uma das minhas idas a campo. Esse posicionamento foi escolhido para que o leitor pudesse começar o percurso pelo texto, criando na mente retratos desse objeto de heterogeneidade tamanha que é a pegação no banheiro da Estação da Lapa e adjacências. Entendo por adjacências os sanitários e escadas de emergência dos shoppings Piedade e Center Lapa. Esta parte do trabalho dedica-se a apresentar o histórico de como o presente estudo se configurou. Assim, após situar o leitor acerca da escolha do tema, apresento o objetivo da pesquisa e as perguntas de pesquisa. Em seguida, discuto de forma panorâmica a visão de alguns autores no tocante à prática sexual homo-orientada em contextos públicos e privados, além de tratar da escolha do macro-território e da microterritorialidade (o banheirão como contexto de vivências homoeróticas consideradas dissidentes) em que o registro de dados se deu. 1.1 A GANG BANG 2 NO SANITÁRIO DA ESTAÇÃO Eram quase 22h de uma terça-feira do mês de maio. Após assistir a uma sessão de filmes LGBT no Complexo Cultural da Caixa Econômica, localizado na Rua Carlos Gomes, atravessei a Avenida Sete de Setembro e segui pela Praça da Piedade. No entorno da Praça, já se encontravam alguns garotos a procura de clientes na noite do Centro de Salvador, que se esvaziava. Confesso nunca ter conseguido estimar a idade desses meninos que fisicamente são raquíticos e, por conta do tipo franzino, aparentam ter menos idade do que tem. Certo dia, numa dessas idas e vindas pelo Centro, quando voltava de um show no Âncora do Marujo 3, conversei com um deles. O garoto aparentava uns 16 anos e me abordou oferecendo serviços. Daniel cobrava R$50 por um boquete 4. Esse valor baixou gradativamente para R$40, R$30 e parou em R$5, 2 É um dos principais gêneros de sexo explícito, muito requisitado pelos fãs do cinema pornô. É caracterizado por cenas de sexo entre uma pessoa e várias outras em um curto espaço de tempo. Disponível: em: 21/10/ Bar tradicional do baixo gay soteropolitano, palco para shows de transformistas, situado na Rua Carlos Gomes 4 O mesmo que sexo oral ou felação - prática sexual que consiste em acariciar o pênis do parceiro com a boca, a língua ou ainda a garganta.

17 17 quando eu disse não estar interessado. Para minha surpresa, o garoto magro que trajava short, camisa e boné Adidas e uma corrente de prata no pescoço, informou ter 23 anos. Após passar pela Praça, acompanhei o grande fluxo de trabalhadores dos shoppings Center Lapa e Piedade, de estudantes de escolas públicas, cursos técnicos profissionalizantes e faculdades da região. Todos seguiam apressadamente pela Ladeira do Camelô em direção à Estação da Lapa maior terminal de ônibus da cidade. Na noite daquela terça-feira, ao chegar ao pavimento superior 5 da Estação da Lapa, fui direto ao sanitário masculino. Ao adentrar o recinto, sujo, mal cheiroso (é indispensável lembrar o cheiro fétido, que mistura o ardor da uréia ao péssimo cheiro das fezes espalhadas pelos cantos) e com um dos dois mictórios de inox quebrado e isolado, segui em direção ao mictório dos fundos e acabei sendo surpreendido: o equipamento, com vazamentos que permitia que a urina caísse sobre os pés dos usuários, estava totalmente ocupado e oito homens espremiam-se e masturbavam-se um ao lado do outro. Notei também que mais outros seis exibiam, discretamente, os pênis em frente ao espelho e tentavam disfarçar fingindo estar penteando o cabelo ou lavando as mãos em pias, cujas torneiras haviam sido arrancadas. A estratégia deles era, ao perceber que estavam sendo observados por outros homens com desejo homo-orientado, colocar o pênis para fora das cuecas rapidamente, mostrar e esconder em seguida, deixando apenas à mostra a excitação através do volume das bermudas e calças. Eles eram de todas as idades, comerciários, rodoviários e estudantes, alguns de farda, um trajava o uniforme do Colégio Estadual Senhor do Bonfim, situado nos Barris, outro era rodoviário e vestia a farda da empresa Litoral Norte e ainda tinha um jovem com a farda de uma casa de material elétrico localizada no bairro da Calçada. Fiquei olhando aquela cena excitante e, como o mictório estava cheio, eu não podia estacionar 6 como os demais e me contentei em observar a cena a alguns metros de 5 No pavimento superior da estação da Lapa, ficam localizados um dos postos de recarga e revalidação do cartão de meia passagem estudantil, dezoito lojas e dezesseis boxes (dentre elas um sebo e diversas lanchonetes que vendem cachorro quente e suco), telefones públicos (a maioria com defeito) e muitos ambulantes vendendo desde comida e produtos eletroeletrônicos a cartões de recarga para celular. 6 Os adeptos da pegação utilizam a palavra estacionar para reclamar quando alguém para no mictório, finge estar urinando e não sai mais, passando horas ocupando o espaço. Geralmente, quem estaciona no mictório acaba despertando suspeita dos seguranças e dos auxiliares de serviço gerais do banheiro e fazem com que eles comentem em alto e bom tom Aquele viado estacionou no mictório olhando o cacete dos outros.

18 18 distância. De repente, o jovem mais cobiçado no momento por trazer consigo as características que compõem o tipo moleque (rapaz negro, másculo, utilizando bermuda da Mahalo 7, camiseta regata preta e boné) um dos tipos mais viris e valiosos daquele contexto agarrou o pênis do homem ao lado, um senhor negro retinto, cerca de 1,70m de altura, magro, aparentando entre 45 e 50 anos, cabelos curtos grisalhos, de vestimenta discreta (trajava camisa social de manga comprida azul e calça social de tergal, figurando como um pastor de igreja neopentencostal). Era mais um homem comum no meio da multidão, mas que tinha uma ferramenta que aumentava o seu poder de sedução, um pênis descomunal, aparentando de medir entre 22cm e 25cm. Eu já conhecia esse negão de outras pegações na Estação da Lapa e nos banheiros do Shopping Piedade, Center Lapa e da Estação Iguatemi, mas o que me fazia lembrar dele era o relato de um colega de trabalho, considerado bonito por estar dentro dos padrões de beleza nacional ser um moreno jambo, no degradê de cores da Bahia, ter 1,90m, 27 anos e um sorriso avassalador. Lembro João 8 dizer que aquele negão crente é feio, mas eu não resisto à pica dele, abaixo e chupo onde estiver, mas uma vez no banheiro da Estação Iguatemi ele tirou onda comigo e não deixou. E a pegação continuava. O jovem atraente de bermuda Mahalo se curvou, ficou de joelhos e começou a chupar o enorme pênis do negão. A atitude do rapaz foi a senha para que eu e os demais homens, que observavam de longe, cheios de desejo, nos sentíssemos a vontade para nos aproximar. Uma semi-roda com cerca de doze homens se formou em volta dos dois, o rapaz sugava sem parar o pênis preto, cheio de veias e com uma mancha branca entre a glande e o prepúcio que aparentava ser uma lesão por Vitiligo. Em seguida, pênis de todas as cores e tamanhos brotaram das calças e começou um chupa-chupa, um pega-pega generalizado. Outras rodas se formaram pelo sanitário, perdi a conta dos homens que se masturbavam e se chupavam mutuamente. Alguns, certamente, voltavam de uma noite regada a muita cerveja e cravinho na tradicional Terça da Benção no Pelourinho e, quando iam urinar, se deparavam com uma cena digna de gang bang pornô gay e interagiam, outros bradavam coisas como Isso aqui tá foda!! Esse rebanho de viado fica fodendo aqui, depois quando morre acha ruim!, É uma sacanagem da porra, com 7 Grife de moda Surf Wear muito popular na Bahia. Uma das preferidas dos moleques da periferia, vendedores de picolé, engraxates, guardadores de carros, por isso, usar Mahalo é indicador de virilidade e masculinidade. 8 Todos os nomes de informantes citados são fictícios.

19 19 tanto hotel baratinho os filhas da puta ficam nessa putaria e ninguém pode mijar. Em situações cotidianas, toda vez que um desavisado ou um não receptivo reclamava, faziase uma pausa brusca nas interações e o contingente desejante se dispersava. Alguns paravam em frente ao espelho e fingiam pentear o cabelo, outros tentavam esconder a ereção. Existiam aqueles que davam um tempo e deixavam o sanitário por alguns minutos, mas voltavam na maioria das vezes. No entanto, o clima daquela noite era propício para uma postura diferenciada, com a falta de vigilância na Estação da Lapa, que, naquele horário, não tinha segurança, guardas municipais, policiais militares ou mesmo o auxiliar de serviços gerais, o que fazia com que aqueles adeptos do sexo anônimo se sentissem menos temerosos. Outro fator que considero determinante é a reunião de muitos homens em busca de prazer no mesmo espaço. Talvez isso tenha coibido a prática de violência física pelos usuários do sanitário público que se sentiram incomodados com a prática. E as interações continuavam no banheirão da Lapa, alguns pênis esporravam 9, os que queriam penetrar e serem penetrados se apropriavam da porta interditada dos fundos onde se dividia espaço com grandes ratos. O lugar mal iluminado, mal cheiroso, cheio de fezes e urina espalhados pelo chão e paredes, era isolado por um madeirite. Ali naquele quadrado improvisado que funcionava como um dark room 10 era permitido todo tipo de interação e, principalmente, a penetração, raramente concretizada no meio dos sanitários na frente dos outros participantes. Cada vez mais, as interações se intensificavam e vários homens chegavam ao clímax. O negão bem dotado ejaculou no rosto do rapaz da bermuda Mahalo. Com o rosto todo sujo de gala 11, ele se deparou com as limitações causadas pela degradação da estrutura física do sanitário da Estação da Lapa. Ao dirigir-se à pia para lavar o rosto, 9 Fiz opção por utilizar o termo nativo. O mesmo que ejacular, atingir o orgasmo, ou para empregar um vocabulário mais popular gozar 10 (do inglês, quarto escuro, também designado por backroom ou blackroom) é um quarto ou sala com iluminação muito baixa ou totalmente escura que existe em alguns bares ou saunas. A finalidade do dark room é propiciar atividade erótica ou sexual entre os presentes que é quase anônima por causa da escuridão, e por isso pode ajudar reduzir as inibições das pessoas. Dark rooms começaram aparecer nos Estados Unidos nos anos 70 em boates gays. Hoje em dia, também há dark rooms em estabelecimentos voltados ao público heterossexual. Disponível: em: 29/11/ Optei usar aqui novamente o termo nativo. Nos dicionários de língua portuguesa, a palavra gala significa grande festa, geralmente de caráter oficial: noite de gala; uniforme de gala. Mas em Salvador e, em outras cidades do nordeste como Aracaju, Fortaleza e Recife, o termo foi ressignificado e substitui porra palavra considerada de baixo calão por no resto do país ser sinônimo de esperma, mas que entre os soteropolitanos é muito utilizada para designar espanto, admiração, aborrecimento, elogio e para fazer pausas em discursos informais. Na capital da Bahia, a palavra gala é, massivamente, utilizada para se referir ao sêmen.

20 20 não encontrou torneiras, pois todas haviam sido arrancadas. A única alternativa para a assepsia do rosto foi a abertura das torneiras do mictório, que estavam fechadas, pois como já relatei anteriormente, o equipamento tinha um furo e derramava urina sobre os pés dos usuários. Mesmo após a ejaculação cinematográfica do negão desmarcado 12, a pegação continuava com muito fôlego. Os espectadores de filmes pornôs 13 sabem do poder da ejaculação nesse gênero. Ela é o momento do ápice de uma relação sexual e o fato de ser registrada com riqueza de detalhes ao espectador é requisito indispensável para que o filme seja considerado de boa qualidade. Enquanto homens saciados e satisfeitos com seus gozos, ou com o prazer de terem presenciado uma ejaculação digna de uma produção pornô, deixam o sanitário, outros sedentos por prazer interagiam formando novos círculos para desfrutar da libido de forma proibida em outros espaços. É indispensável registrar que a proximidade da meia-noite horário de partida da maioria dos últimos ônibus para bairros mais distantes como os localizados no Subúrbio Ferroviário ou em Cajazeiras e cidades da Região Metropolitana fazia com que muitos daqueles homens acelerassem o passo desesperadamente. Alguns chegavam a dizer: tenho que gozar logo, senão eu perco o buzu. Poucos eram os que, como eu, tinham a coragem de ficar à mercê dos ônibus pernoites, no meu caso, depois das 23h. Eu tinha a opção de pegar um ônibus à 1h da madrugada ou às 3h30. Outra opção para voltar para minha residência, localizada no bairro de Paripe, seria uma das Kombis que, porventura, faziam transporte clandestino durante a madrugada na Estação da Lapa. O fator financeiro representava um complicador para quem desejava voltar para casa utilizando essa modalidade de transporte, pois nem todos podiam pagar pela Kombi, já que a maioria dos adeptos da pegação naquele sanitário é formada por estudantes e trabalhadores que utilizavam o cartão Salvador Card 14 e não dispunham de dinheiro em espécie. Com o esvaziamento, apenas um grupo bem menor, de seis homens, continuava as interações homoeróticas. Essa diminuição de adeptos os tornou mais suscetíveis à 12 Optei por utilizar o termo nativo, bastante utilizado em Salvador e Região Metropolitana. Desmarcado nesse contexto refere-se ao fato de ele possuir um pênis considerado descompensado, desmesurado, enorme. A palavra é sinônima de pauzudo. 13 Para mais informações sobre o cinema pornô no Brasil ver (ABREU, 1996) e (DÍAZ-BENÍTEZ, 2010) 14 Cartão de passe estudantil ou de vale transporte eletrônico pré-pago. Geralmente o usuário recarrega o cartão previamente no início do mês. Ele não é aceito nas Kombis clandestinas, pois elas estão fora do sistema oficial de transporte coletivo da cidade.

21 21 ação dos sacizeiros 15. Quatro dos homens praticavam uma masturbação coletiva e recíproca no mictório e dois deles estavam mais afastados. O mais velho, aparentando 50 anos, que era gordo, branco, tinha cabelos pretos e media cerca de 1,70m de altura, chupava o pênis de um homem pardo, magro, aparentando 28 anos e com cerca de 1,75m de altura. Os dois carregavam mochilas e pareciam ter saído do trabalho em algum restaurante é comum que garçons e ajudantes de cozinha da região central e também da orla peguem a segunda condução de volta para casa na Estação da Lapa, que é um dos poucos pontos da cidade com possibilidade de transporte 24h. Tudo parecia tranquilo, mas o clima de excitação mudou com a chegada de dois homens, sujos e maltrapilhos, que se posicionaram na parte dos fundos do sanitário para fumar uma pedra 16. Naquele momento, apesar da fala de suposto consentimento dos dois rapazes que diziam podem continuar, com a gente é limpeza, é nenhuma..., o medo e a tensão sobressaíram-se ao prazer e o banheiro foi esvaziado. Essa desconfiança é decorrente da relação tensa entre os adeptos da pegação e os usuários de drogas (principalmente crack) que circulam pela Estação. Certa vez, fui confundido com um Policial Militar por um homem que utilizava um dos boxes do sanitário da Lapa para cheirar cocaína. Ele tinha acabado de sair do reservado e eu observava a pegação que acontecia no mictório através do espelho quando ele encostou ao meu lado e disse Se você é policial e vai me prender, prenda logo, não fique me olhando não!!. Fui tomado de surpresa pela fala do rapaz e, com medo de represálias, fui obrigado a me justificar dizendo: Meu velho, você tá viajando brother! A minha onda aqui é outra, eu não tô ligado na sua não. Fique frio! De onde você tirou essa idéia de que eu sou policial?. No final, ele acabou pedindo desculpas pelo ocorrido e tudo ficou bem, mas nem sempre as coisas se resolvem dessa maneira. Os sacizeiros são jovens mendicantes que ficam embaixo de escadarias e em áreas mais recônditas da mal conservada Lapa. Ali eles sobrevivem, praticando pequenos furtos e roubos, e também prestando serviços sexuais para homens com desejo homorientado que praticam cruising 17 ( caçação ) no centro da cidade. Em 15 Gíria popular em Salvador (BA), que define as pessoas viciadas em crack ou usuário de drogas pesadas em geral. Para fumar a pedra de crack é preciso ter uma espécie de cachimbo improvisado o que remete ao personagem Saci-Pererê do folclore brasileiro. Disponível em: <http://www.dicionarioinformal.com.br/sacizeiro/.>. Acesso em: 24 set O mesmo que utilizar Crack 17 É o ato de caminhar ou dirigir-se a uma localidade em busca de um parceiro sexual, geralmente anônimo e casual. O termo também é usado quando a tecnologia é usada para encontrar o sexo casual,

22 22 depoimento, um dos informantes desta pesquisa atentou para os riscos da ação desses garotos que, segundo ele, não são michês profissionais e querem dinheiro a qualquer custo. São aproveitadores, muitas vezes não conseguem nem fazer o pau subir (20/11/2011), afirmou o estudante universitário, de 28 anos, frequentador da cena da pegação na região da Lapa desde a adolescência. Ele também disse ter presenciado por várias vezes sacizeiros inconformados por não conseguirem dinheiro com as gays, passarem informações de bote para policiais militares que, munidos de características físicas e também da localização exata de onde as interações estão ocorrendo, fazem um flagrante e conduzem esses homens para módulos policiais e lá realizam uma chantagem. Ainda segundo o informante, esses policiais dariam uma ponta 18 para os sacizeiros, ou seja, uma percentagem do dinheiro extorquido. Um homem desempregado, de 30 anos, contou ter sido vítima de extorsão por parte de policiais militares após ser flagrado em uma relação sexual com outro homem dentro de uma cabine do sanitário da Estação da Lapa. Nós fomos levados para uma sala especial para essas coisas por dois policiais, chegando lá, eles perguntaram onde a gente morava e ameaçaram contar para nossa família. Na época (2005), eu morava com minha avó e tinha saído para pagar a prestação de uma geladeira na Insinuante do Shopping Piedade. Um deles (policiais) encontrou o carnê e 50 reais da prestação e ficou com o dinheiro, nos liberando em seguida. Apesar de ter ouvido muitos relatos, eu nunca presenciei casos de extorsão em campo, nem sofri chantagens por parte de policiais, mas já ouvi xingamentos, fui vítima de agressões verbais e presenciei agressões físicas tanto por parte de seguranças quanto por policiais. Após a dispersão no sanitário masculino, desci as escadas que dão acesso à plataforma A da Estação para tomar o pernoite para Paripe. Ao mesmo tempo em que eu seguia para pegar a última condução, também faziam o mesmo percurso os últimos homens que interagiam no WC. Para minha surpresa, todos eles se dirigiram para a última escadaria da Estação que promove acesso à última plataforma de embarque da Lapa. Essa plataforma, onde os passageiros embarcavam com destino a cidades da como o uso de um site na Internet ou um serviço de telefonia. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/cruising_for_sex em: 21/10/2011>. Acesso em: 20 set Para os jovens da periferia e do Subúrbio Ferroviário de Salvador dar uma ponta significa pagar algum dinheiro por um serviço informal prestado, que pode ser um pequeno trabalho braçal ou até a prestação de favores sexuais.

23 23 Região Metropolitana, foi interditada no início da década passada para obras do metrô e, por isso, é pouco movimentada. Chegando à escadaria, percebi que o lugar deserto era propício a práticas sexuais. Dois homens já fingiam urinar encostados no canto da parede e, rapidamente, foram se aproximando e começaram a interagir, mas as interações que ocorriam na escada não chegaram ao ápice, foram interrompidas pelo barulho que alertava para a saída do pernoitão de 1h da manhã. 1.2 A LAPA: UM TERRITÓRIO MARGINAL A Estação da Lapa é o maior terminal de ônibus da cidade de Salvador, funciona 24h e recebe mais de 460 mil passageiros por dia. O precário, sujo e inseguro terminal é a única alternativa que eu e muitos deles temos para tomar um transporte de volta para casa. De acordo com dados da Transalvador 19, cerca de 460 mil passageiros embarcam e desembarcam diariamente no Terminal, cujo funcionamento 24 horas por dia, recebendo 71 linhas urbanas e 21 metropolitanas. São 325 ônibus por hora com uma frota de 511 coletivos por dia. A Estação, com área total ocupada de ,00m 2, correspondendo a ,00m 2 de área construída e ,00m 2 de área urbanizada possui nove escadas rolantes 20, a maior parte delas eternamente quebrada, dificultando a locomoção dos usuários entre um nível e outro e, também, entre a Lapa e a Avenida Joana Angélica. A escada rolante quebrada causadora de maior transtorno à população é a responsável por ligar a Lapa ao Colégio Central, na Joana Angélica 21. O não funcionamento do equipamento, considerado pelo CREA-BA o maior do Brasil, com 12m de desnível, dificulta a vida dos passageiros que precisam subir e descer a pé. O 19 Superintendência de Trânsito e Transporte do Salvador, vinculada a Secretaria dos Transportes Urbanos e Infraestrutura da Prefeitura do município. 20 Dados do portal oficial da Transalvador e do Relatório de Vistoria da Estação da Lapa nº. 007/2006, elaborado pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia da Bahia CREA (SANTOS, 2006) a pedido do Ministério Público do Estado da Bahia 4ª Promotoria de Justiça do Consumidor. O objetivo da vistoria era verificar condições físicas nos aspectos da manutenção periódica, estruturas, instalações, acessibilidade, segurança e conforto ambiental, a fim de constatar problemas decorrentes do uso, vida útil do equipamento e estado de conservação, bem como verificar se aquela Estação tem condições de suportar eventual incremento do afluxo de pessoas decorrente da instalação de Posto do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador SETPS. Quando houve divergência entre os dados, como no caso do número de escadas rolantes O CREA-BA apontou onze escadas na Estação da Lapa e a Transalvador nove optei pelos dados da Transalvador que administra todas às estações de ônibus urbano da cidade. 21 O equipamento foi interditado no dia 25/10/2011, cinco ônibus foram disponibilizados pela Transalvador para fazer o traslado de passageiros até o Colégio Central na Avenida Joana Angélica

24 24 drama da escada rolante quebrada é tão grande que está naturalizado nas músicas da Axé Music, como é o caso de Óculos Escuros, da Banda Eva, na qual escutamos, num dos versos, na promoção Hot-dog, Ki-suco, da escada quebrada já vejo o circular. Essa situação está tão impregnada no cotidiano soteropolitano que, numa das minhas passagens pelo Terminal, um vendedor de recargas para celular, vendo a minha insatisfação com a tal escada, exclama: Anormal aqui é se tivesse funcionando!. Outro problema que provoca pavor e faz com que os usuários da Lapa apressem o passo é a insegurança. Apesar de contar com um posto da Polícia Militar (PM) e outro da Guarda Municipal, os assaltos são constantes na Estação. Matéria publicada no site do Jornal Correio no dia 28/08/2011, aponta a escadaria que dá acesso à Avenida Joana Angélica como o ponto mais perigoso. Em Estação da Lapa vive pânico durante assalto a repórter Camila Mello narra o episódio em que um homem rouba o celular de uma garota na escadaria da Joana Angélica, a menina grita e ele dispara para cima provocando pânico e confusão entre os usuários da Lapa. Um dos ambulantes da Estação relatou: Foi gente correndo, caindo, deixando chinelo para trás. Nesse horário de 7h ainda não tem policial. De acordo com o periódico da Rede Bahia, ocorrem em média 15 assaltos por dia na estação, principalmente de manhã cedo e à noite e seis vigias trabalham na estação três de dia e três à noite além de três duplas de policiais, com um carro, das 7h às 19h. Eu mesmo fui vítima de uma tentativa de assalto no banheiro da Lapa. Na noite do dia 20/06/2011, após sair do exame de qualificação, fiquei ávido pelo retorno ao campo e segui da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas em São Lázaro de ônibus em direção ao Terminal. Ao me dirigir ao banheiro, que estava vazio naquela noite, fui abordado por dois homens enquanto urinava no segundo mictório dos fundos. Um deles fazia cobertura para o outro apontar uma faca grande e enferrujada ao meu pescoço. Eles queriam levar minha mochila, que só tinha o caderno de campo e um livro. Nesse dia eu havia esquecido o telefone celular que eles imaginavam estar guardado na mochila, mas para minha sorte eu saí de casa apressado por conta do Exame e deixei o aparelho. Um deles dizia Passa o celular e eu respondi Não tenho celular, nessa mochila tem apenas um livro e um caderno. Ele arrancou a minha mochila e, quando vasculhava meu material em busca de dinheiro e do celular, foi surpreendido pela entrada de três seguranças. De forma hábil, o assaltante escondeu a peixeira enferrujada nas calças. Um dos seguranças perguntou o que estava acontecendo, eu

25 25 respondi que eles estavam me assaltando e que ele tinha colocado uma peixeira no meu pescoço e havia escondido a faca nas calças. Um deles, o que apontou a faca, dizia aos seguranças Ele fez um programa comigo e não pagou. O segurança fez a revista no homem e encontrou a faca enferrujada. Enquanto isso um deles se dirigiu a mim e perguntou: Você é viado é? Você fez um programa com o cara e não quer pagar?! Irado, apesar da situação acho que esse foi único momento em que perdi a calma respondi: Você deve estar pensando que eu achei meu pau no lixo pra trepar com uma desgraça dessa? Me respeite, rapaz!. O ladrão insistia em gritar que eu tinha feito um boquete nele e que não tinha cumprido com o acordo de pagar dez reais. Diante do deboche e escárnio das insinuações dos seguranças que afirmavam coisas como tem muito viado que vem pra cá chupar pau de marginal, mas esse não deve ser o seu caso.... Seguidas de um irônico e sarcástico sorrisinho e da afirmação de um deles que disse não ter poder de Polícia e que por isso soltaria o cara que atentou contra a minha vida decidi procurar o efetivo da PM, mas, ao chegar ao módulo policial, descobri que não havia nenhum soldado de plantão e fui aconselhado por um Guarda Municipal a sair da Estação rapidamente, pois o cara já deveria estar solto. Acatei aos conselhos e fui obrigado a evitar a Estação da Lapa por 15 dias, com medo de encontrar um dos dois. Os banheiros masculinos da Estação da Lapa são o ponto principal de partida para uma série de encontros homoeróticos que acontecem no entorno entre os banheiros masculinos e escadas de emergência dos Shoppings Piedade, Center Lapa, terrenos baldios e da própria escada que leva até a última plataforma do subsolo do Terminal de ônibus urbano. Nesse circuito, muitas interações que começam de forma anônima acabam em hotéis de bairros como Barris, Largo Dois de Julho, Avenida Sete de Setembro e Rua Carlos Gomes. A Estação da Lapa foi escolhida por ser a ligação entre a Grande Salvador e a Região Moral conceito de Park utilizado por Pherlongher (1987/2008) para referir-se às zonas de perdição e vício das grandes cidades Boca do Lixo. De acordo com Pinho (2011), seria quase possível fazer a mesma analogia que o antropólogo argentino fez com o Centro de São Paulo para caracterizar a Rua Carlos Gomes, em Salvador, pois a localidade concentra bares gays, boates, saunas, além da presença de michês e travestis se prostituindo em via pública. Ao escrever sobre sociabilidade no Metrô, a antropóloga Janice Caiafa (2007) aponta que a experiência do transporte coletivo promulga sociabilidades e

26 26 comunicabilidades de toda ordem. São fluxos de intersubjetividades e experiências culturais que permitem a seus usuários vivenciarem, de acordo com a autora, um ritmo coletivo de recolocação dos corpos e assumindo novos sentidos na coletividade O fluxo contínuo de pessoas na Estação da Lapa configura várias possibilidades de relações e interações intensas e (des)contínuas entre todos os usuários. No terminal, entre esperas e deslocamentos, é possível se alimentar, (re)encontrar pessoas, marcar encontros, ou seja, realizar aquelas atividades cotidianas da vida social-cultural e isso inclui o acesso ao banheirão. Outro fator que acarretou na escolha da Região da Lapa como campo de estudo foi o estado de degradação em que se encontram os equipamentos públicos do Centro da Cidade do Salvador e, principalmente, da suja, mal conservada e insegura Estação de ônibus, que sofre com o descaso da administração municipal. Esse contexto de precariedade faz com que a prática considerada abjeta da pegação homoerótica tornese ainda mais dissidente dentre as práticas sexuais marginalizadas. 1.3 PERCURSO ETNOGRÁFICO Os primeiros contatos com textos de temática gay, como as produções dos antropólogos como Luiz Mott (2000), Peter Fry e Edward MacRae (1991), aconteceram no decorrer da graduação, quando eu cursava a disciplina Antropologia Cultural, no Bacharelado em Comunicação com habilitação em Jornalismo. Estimulado pela leitura dos textos, lancei outro olhar para o circuito de pegação homoerótica de Salvador. Entre os anos de 2004 e 2007, trabalhei como auxiliar administrativo no Espaço Xisto Bahia, nos Barris, Centro de Salvador e, frequentemente, transitava pelos sanitários públicos da Estação da Lapa e dos shoppings Center Lapa e Piedade. Numa dessas passagens, atentei para uma interação entre homens com desejo homo-orientado no interior desses espaços. Passei a observar com atenção a atuação desses homens que, por inúmeras vezes, praticavam exibicionismo, voyeurismo, masturbação recíproca ou não e até sexo oral nos mictórios desses movimentados banheiros. O primeiro contato misturou medo e excitação, mas não demorei em enxergar nessa prática uma alternativa para satisfazer os meus desejos homoeróticos. Emprego a palavra alternativa, pois essa prática anônima e marginal representou para mim uma opção à cena gay tradicional. Eu nunca me senti à

27 27 vontade no circuito de bares e boates gays. A música eletrônica, o jogo de caras e bocas, a necessidade do corpo sarado me excluíam do processo. Faltava a mim didática para a dinâmica da paquera e da conquista. A emergência de personagens homossexuais nas telenovelas brasileiras, a proliferação de Paradas do Orgulho Gay em diversas partes do país e a chegada de estudantes oriundos de programas de ações afirmativas na universidade faziam com que discussões acaloradas sobre a questão gay acontecessem em sala de aula. Em 2007, chega a hora de escolher o tema do trabalho de conclusão de curso de graduação. Como homossexual assumido, imaginava que a produção deveria ser um projeto experimental que abordasse o tema homossexualidade, mas eu não simpatizava com as pesquisas realizadas na época por alguns colegas de curso, pois eram voltadas para o estudo da representação de homossexuais em telenovelas da Rede Globo ou sobre as versões britânica e norte-americana da série Queer as Folk. Eu não me sentia representado em nenhuma dessas produções, apesar de ser consumidor ávido das novelas e das séries, e de acreditar que estudar os discursos dessas representações era importante para compreender a cena gay contemporânea. Por isso, meu Projeto Experimental da graduação foi uma série de reportagens para o rádio sobre o sexo público na cena gay soteropolitana. Através de um trabalho de observação participante, entrevistei, de forma espontânea, e revelando a minha condição de pesquisador, homens adeptos da pegação. O trabalho também contou com entrevistas de militantes do movimento gay e estudiosos da questão LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros). No decorrer da coleta de depoimentos, os entrevistados apresentaram uma nova topografia do sexo público na capital baiana que extrapola os limites da região central. De acordo com informações das fontes, é possível presenciar tais interações na região do Iguatemi, Pituba, Barra e até em bairros mais afastados como Paripe, Pau da Lima e Cajazeiras. É importante atentar para o dinamismo desse circuito, que, por muitas vezes, é itinerante e muda conforme o grau de vigilância e repressão da prática nos sanitários públicos. O conjunto de discussões de internautas nos fóruns das comunidades do Orkut sobre interações homoeróticas em Salvador também serviram de base para a formação de uma topografia de locais de pegação na cidade. As comunidades Pegação em Salvador, Clube do Banheiro SSA, Pegação com sigilo-salvador e BSB-Bofes

28 28 Suburbanos da Bahia possuem uma diversidade de discussões sobre a prática em locais públicos e realizam uma espécie de agendamento de encontros entre usuários em sanitários públicos da cidade. A descrição das comunidades em suas páginas principais é reveladora das representações e discursos sobre a prática da pegação e seus locais na capital baiana. Dessa maneira, decidi dar continuidade ao projeto de estudos no mestrado, pesquisando tais ambientes, vivenciando a teoria aprendida e formulando novas proposições sobre o tema. O foco da minha (auto)etnografia é o circuito de pegação em banheiros da região central da cidade; mais especificamente, os banheiros da Estação da Lapa, Shopping Piedade e Center Lapa. Com isso, configurei, através de uma abordagem autoetnográfica, as interações sexuais desses banheiros públicos masculinos da capital baiana, isto é, os trânsitos dos sujeitos nas negociações e consórcios episódicos tecidos no e no entorno do banheirão, bem como a produção do significado erótico desses espaços sociais. Esses banheiros foram escolhidos por propiciarem maior anonimato. São locais de circulação de uma massa de gays, homens que fazem sexo com homens (HSH) e de outras tribos urbanas consideradas marginais e, por isso, potencializam a cena da pegação. Por conseguinte, após imergir na deriva homoerótica que atravessa e demarca, erótica e sexualmente, os sanitários públicos, escadas de emergência e lugares recônditos como o teto e o subsolo da Estação da Lapa e dos Shoppings Piedade e Center Lapa, busquei entender, durante o presente estudo, como essa cena se articula. Como esse espaço de trânsito é reconfigurado para o exercício dessas sexualidades consideradas dissidentes, analisando os mecanismos de operacionalização desses lugares para interações sexuais. Procurei compreender as negociações sexuais entre os sujeitos na cena do banheiro e entender a trama tecida entre esses homens com desejo homo-orientado, que sofrem uma repressão, ainda que não explicitada, pelo discurso heteronormativo. Eu ansiava também compreender o significado da pegação nos WC para a comunidade gay soteropolitana, através da coleta de relatos sobre sexo público entre homens com desejo homo-orientado em Salvador. É preciso ressaltar, com Perlongher (2008, p. 60), que este estudo [...] não é sobre uma comunidade, nem sequer sobre um grupo, mas [...] uma abordagem de certa prática e das populações nela envolvidas. É exatamente esse fator que impossibilita que haja uma postura metodológica rígida e de caráter homogeneizador.

29 29 A fim de responder às questões de pesquisa e buscar atingir os objetivos, procedi ao registro de dados nos banheiros da Estação da Lapa e adjacências, utilizando-me de notas de campo e entrevistas com participantes. Julgo, assim, de significativa importância descrever esse local de práticas sexuais consideradas dissidentes para melhor entendimento do estudo feito. Não obstante, antes de adentrar com mais detalhes na explicitação de meu local de registro de dados, explano a seguir, de forma genérica, a cena gay de Salvador e recortes de outras capitais brasileiras, além de fazer referências a estudos de pesquisadores em outros países. É importante ressaltar que a Estação da Lapa é a principal ligação entre os bairros periféricos, o subúrbio ferroviário, a região metropolitana e a cena Gay 22 do Centro de Salvador. Por isso, o banheirão da Lapa é encenado tanto por trabalhadores, estudantes que se deslocam para casa ou para escola depois de um dia de trabalho ou estudo como por um contingente de gays, lésbicas profissionais do sexo (travestis e michês) e de jovens negros, periféricos com práticas homoeróticas, sem nenhuma vinculação identitária, que vão em busca de diversão e sexo nos espaços de homossociabilidade da Carlos Gomes e do Beco dos Artistas. Dessa forma, busco levar o leitor a compreender melhor as escolhas feitas ao longo da pesquisa empreendida, principalmente no tocante à escolha dos locais de registro. 1.4 SEXO E ESPAÇOS PÚBLICOS A sexualidade e o erotismo são elementos fortalecedores da identidade e cultura gay. O apelo ao erotismo é predominantemente presente e movimenta a Cena Gay Ocidental. Em Tricks, friends, and lovers: erotic encounters in the field, ao observar a Cena Gay da Noruega, Ralph Bolton (1995) constata que a cultura gay comemora o erótico, que é o fundamento do seu ser, mas com o surgimento da AIDS esse erotismo teve de ser ressignificado por conta das ameaças das poderosas forças heterossexistas de morte e opressão. A epidemia da AIDS e a pressão dos grupos conservadores não podem ser considerados os únicos motivos que provocam a condenação do sexo e do 22 Em Public Sex, Gay Space, Leap (2007) entende por Cena Gay um conjunto locais significados pelo contingente de homossexual para expressão de sua sexualidade. Essa cena é diversificada e acontece tanto em locais públicos (ruas, praças, praias e banheiros públicos) quanto em privados (bares, boates, saunas e cinemas).

30 30 erotismo na cena gay. De acordo com a antropóloga Gayle Rubin (1993, p. 4 apud SPARGO, 2006, p. 5), [o] reino da sexualidade tem sua própria política e modos de opressão internos. Assim como outros aspectos do comportamento humano, as formas institucionais concretas de sexualidade, em qualquer tempo e local, são produtos da atividade humana. Com isso, constata-se que mesmo em contextos construídos em torno de uma sexualidade considerada abjeta em relação aos padrões estabelecidos pelo discurso heteronormativo dominante, práticas sexuais como relações homoeróticas em espaços públicos são rotuladas como ainda mais abjetas dentro da Cena Gay. Para Green (2000), a acessibilidade do homem a determinados espaços públicos potencializou os encontros homoeróticos aleatórios, pois constituíam um dos poucos meios de conhecer parceiros em potencial. Parques e praças tornaram-se locais propícios para a pegação entre homens. Quando mapeia a topografia homossexual dos dois grandes centros urbanos do sudeste brasileiro no século passado, o autor afirma que, após passar por uma série de melhoramentos, o Vale do Anhangabaú, na capital paulista, na época apelidado de Central Park do Brasil, logo tornou-se um ponto de encontro para homens interessados em paqueras homoeróticas (GREEN, 2000, p. 97). Na década de 30, o Anhangabaú, a Avenida São João, a Praça da República, o Jardim da Luz e o banheiro público da Estação da Luz foram espaços do centro de São Paulo que atraíam homens em busca de contato sexual com outros homens. Essa configuração de espaços para a vivência sexual dissidente toca no que Costa (2010) trata como território. Para o autor, [o] território significa a brecha por entre o espaço público normatizado, ou agregações informais, nas quais sujeitos negociam representações sobre si mesmos e estabelecem moldes culturais práticos para suas relações (COSTA, 2010, p. 21). Assim, ainda segundo o referido autor, os territórios homoeróticos representam a apropriação de partes do espaço urbano no qual tais sujeitos podem exercer práticas homoafetivas. Essas territorializações se relacionam à produção de representações sociais que definiram, no processo histórico, as origens do desvio social (COSTA, 2010, p. 22). Nesse sentido, o sexo em espaços públicos é entendido como uma prática considerada dissidente, porém imbricada de sujeitos que também circulam pelas redes públicas normatizadas pelo imperativo heterossexual. Perlongher (2008, p. 159), por sua vez, trata dos espaços em que os sujeitos à deriva interagem como sendo [o]s diversos pólos e categorias [que] funcionariam como pontos de reterritorialização na fixação a um gênero ou a uma postura

31 31 determinada; fixação que manifestar-se-á na adstrição categorial e, correlativamente, na aparência gestual e discursiva, indícios de um desempenho sexual esperado ou proclamado. O autor, embora ressalte a importância do espaço físico na configuração da territorialidade por aquele delimitar as fronteiras do gueto desta, entende territorialidade no próprio espaço do código, ou seja, [a]s redes do código capturariam os sujeitos que se deslocam, classificando-os segundo uma retórica, cuja sintaxe corresponderia à axiomatização dos fluxos. No entanto, o dispositivo territorial agiria canalizando os fluxos, mas ao mesmo tempo veiculando-os (PERLONGHER, 2008, p. 163). Como se vê, o autor considera a possibilidade de o sujeito ocupar vários espaços no código no sentido de circularem intermitentemente na trama do desejo em diversos territórios (espaço e códigos), e não tão-só adscritos a uma categoria identitária pré-definida por suas práticas sexuais. Perlongher (2008) trata de uma situação em que haveria unidades totais, com uma segmentariedade binária (homem/mulher, jovem/velho etc...) e, simultaneamente, outro tipo de segmentação. Nesta, haveria fluxos moleculares, que fazem referência ao desejo - considerado não como uma energia pulsional indiferenciada, mas como resultante de uma montagem elaborada, de um engineering de altas interações: toda uma segmentariedade flexível que trata de energias moleculares (DELEUZE e GUATARI, 1980, p. 262) - sacodem disruptivamente o corpo social. Movimentos de desterritorialização e reterritorialização operarão complexas transduções entre esta diversidade de planos. (PERLONGHER, 1987, p. 161, grifos do autor) Assim, o autor justapõe a ideia de territorialidade à de identidade. Entendo, dessa maneira, que o olhar é então direcionado para as práticas do sujeito, que são situacionais, variáveis, fluidas, e não estanques ou resultantes de uma identidade acabada e concreta. Perlongher (2008, p , grifo do autor), ao articular Lefevbre (1978) e Maffesoli (1985), afirma que: [h]á um modo de circulação característico dos sujeitos envolvidos nas transações do meio homossexual, a paquera ou a deriva. Trata-se de pessoas que saem à rua à procura de um contato sexual ou, simplesmente, vão para o centro pra ver se pinta algo. [...] A rua, microcosmo da modernidade (LEFEVBRE, 1978), torna-se algo mais do que mero lugar de trânsito direcionado ou de fascinação

32 32 espetacular perante a proliferação consumista: é, também, um espaço de circulação desejante, de errância sexual (MAFFESOLI, 1985). Esta 'errância sexual' refere-se à busca pelo prazer obtido nas práticas sexuais consideradas dissidentes, próprias de espaços ora alternativos, ora imbricados no espaço mainstream, heteronormativo. A reação de homossexuais à repressão policial contra eles no Stonewall Inn, Estados Unidos, em 1969, representa um marco inicial para o surgimento de lugares de convivência mais declaradamente gays, como bares, boates, restaurantes etc (COSTA, 2010). Por isso, [e]sse contexto reforça a territorialização homoerótica nos bares e boates das grandes cidades, cujos eventos precursores temos a cultura disco norteamericana, dos anos de 1970, e da 'Meca Gay Studio' 54, em Nova Iorque (COSTA, 2010, p. 23). Assim, a cultura gay passa ao período (talvez ainda vigente) em que representa uma alternativa oposta ao mundo heteronormativo em várias instâncias, principalmente na música, dança, moda, experiências eróticas etc. Nesse sentido, é que Costa (2010) fala de territorialização, ou territórios homoeróticos como sendo 'brechas' existentes no espaço público normatizado, ou melhor, heteronormatizado. Na capital baiana, ruas e praças do centro também servem de ponto de encontro para homens que fazem sexo com homens que figuram, assim, esse território considerado dissidente no tocante às práticas homoeróticas que aí se dão. A maioria dos pontos de sociabilidade gay está concentrada nessa zona da cidade, entre o Campo Grande e a Praça da Sé. De acordo com Luiz Mott (2000, p. 76), isso ficou constatado desde a década de 30, quando um trabalho do médico Estácio de Lima, intitulado A Inversão dos sexos, apelidou o Campo Grande de o covil famoso dos invertidos da terra. Entretanto, nos dias atuais, a territorialização se apresenta de uma maneira um pouco diferenciada, uma vez que se apresenta como rizomas (DELEUZE, 1995) que se espalham em diferentes regiões dos grandes centros. A configuração desses espaços, dessa maneira, é peculiar dentro mesmo da territorialização que se propõe distinta da sociedade (hetero)normatizada, não havendo assim uma homogeneidade quanto a esses espaços no que concerne ao combate puro e simples contra os preceitos heteronormativos, ocorrendo o que Costa (2010) chamaria de modificação estética do gueto gay, no sentido de que há

33 33 condições híbridas variáveis e múltiplas entres os seguintes aspectos: as condições heteronormativas e de gênero, impostas em meios familiares e profissionais; as propostas também unificadoras de uma cultura gay alternativa; a diversidade de reuniões e misturas culturais pós-modernas, nos quais se apresentam oportunas as experiências afetivas para com o mesmo sexo (COSTA, 2010, p. 23). Assim é que surgem o que o autor chama de micro-territorializações (COSTA, 2007), isto é, formas rizomáticas ativadas e desativadas em consonância com o desejo (não com uma identidade pré-existente ou sentimento de pertença a um gueto gay específico) homoerótico. A cidade de Salvador que, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), tem cerca de 3 milhões de habitantes, como qualquer outra metrópole no mundo, possui uma cena gay. Levando em consideração o entendimento de Perlongher (1987) e Costa (2010), os sujeitos que frequentam esses lugares de sociabilidade e/ou práticas sexuais nem sempre se inserem (ou se vêem) em uma comunidade gay supostamente homogênea. Atualmente, o circuito da orla de Salvador também vem se consolidando como área de convivência gay e espaço para o sexo público, que ocorre, frequentemente, em locais como Cristo e Farol da Barra, Praia do Jardim de Alah, no bairro da Pituba, Praia dos Artistas, na Boca do Rio e Pedra do sal, no bairro de Itapuã. Vale atentar para a constante reclamação de frequentadores desse circuito quanto à pequena variedade de locais de homossociabilidade em Salvador. Em matéria intitulada Está o ó do borogodó, publicada no extinto Jornal Província da Bahia no ano de 2004, os frequentadores do circuito de bares e boates gays da cidade já se queixavam de mesmice, falta de variedade, diversidade e de preços altos e serviço ruim. Atualmente o quadro não mudou, um dos informantes dessa pesquisa, que se autoidentifica como urso homossexual masculino, gordo, peludo e que rejeita o padrão gay vigente marcado pelo privilégio de uma estética em que é preciso combinar um corpo com músculos definidos e roupas da moda queixa-se de falta de opções especificamente direcionadas para os gays da caverna nas três boates destinadas ao público LGBT em Salvador. Atualmente, na cena gay da capital baiana, é significativa a presença de marcadores de diferença (PARKER, 1999) que se interseccionam, como classe, idade, raça e cor. Os bares e boates da região central da cidade localizados entre o Campo

34 34 Grande e a Rua Carlos Gomes são frequentados por gays, em sua maioria, negros e pardos e oriundos de bairros populares, com menor poder aquisitivo e pejorativamente rotulados como bichas baixo astral, ploc-ploc e pão com ovo. Já o circuito gay da orla que compreende bares e boates localizados em um eixo de bairros nobres e pontos turísticos como Barra, Rio Vermelho e Patamares é o conjunto de templos dos gays da classe média-alta soteropolitana, hoje personificado num ideal barbie ressignificação gay da boneca americana de corpo perfeito para um ideal de beleza masculina, em que se persegue o cada vez mais musculoso. Diante dessa polarização, nota-se a carência de espaços para o exercício de sexualidades consideradas mais dissidentes em Salvador. Nas principais metrópoles do sudeste brasileiro, São Paulo e Rio de Janeiro, são notáveis a presença de estabelecimentos de sociabilidade e exercício de prazer para ursos, leather (espécie de segmentação dos ursos que cultuam o couro) sadomasoquistas (adeptos das práticas sexuais mediadas pela dor para a obtenção de prazer sexual), como mostra a tese de doutorado de Camilo Albuquerque de Braz, que constrói uma etnografia sobre clubes de sexo para homens na capital paulistana. Em Salvador, são apenas dois clubes de sexo: a Queen s Club, situada no bairro central dos Barris, e o Cine Cabine 155, localizado no boêmio Rio Vermelho. A Queen s Club funciona desde o ano 2000 e foi idealizada pelo ex-garoto de programa e hoje empresário André Cupolo. O lugar oferece vídeo-locadora com filmes pornôs, sex shop e glory holes cabines, onde as pessoas podem assistir a filmes eróticos e manter relações sexuais através de buracos nas paredes que as separam. A casa viveu seu auge na década passada, quando funcionava também como danceteria, com shows de gogoboys, sexo explícito ao vivo e eventos temáticos como A Festa da Cueca, que aconteciam no primeiro e terceiro domingo do mês, em que os homens dançavam de cuecas ao som de muita música eletrônica podendo, ainda, desfrutar do darkroom (quarto escuro destinado à prática sexual). O estabelecimento atualmente vive um momento de decadência e o proprietário queixa-se de diminuição de público. De acordo com informações da homepage oficial, o Cine Cabine 155 é um [e]spaço de entretenimento para o público ADULTO masculino, assim definimos o 155. Uma casa onde a famosa pegação pode ser realizada com segurança, discrição, conveniência, higiene e com muito prazer, é claro! Casa feita para proporcionar encontros entre clientes. Não é permitida a prostituição ou presença de menores de

35 35 idade. São dez cabines com buracos, cada uma equipada com TV exibindo vídeos eróticos de vários gêneros além de quarto escuro, espaço de convivência, mini bar (onde podem ser consumidos cerveja, água mineral e refrigerantes) e espaço para fumantes. Apesar de estar em funcionamento há mais de um ano, o Cine cabine 155 parece não ser muito frequentado. Fui à casa em uma tarde de domingo do verão de 2011 e apenas cinco pessoas estavam no recinto. Os usuários da comunidade Pegação em Salvador, no site de relacionamentos Orkut comentam que a casa não pegou entre o público soteropolitano. No fórum Como está a Cabine 155?, vemos o seguinte relato: Sou de Maceió, e estou indo p SSA semana q vem!! Curto uma pegação bem discreta, e aqui na cidade quase n saio c caras com medo de ser descoberto. Queria aproveitar essa ida a SSA p dar uma chupada, e ser chupado, com algum cara bem discreto!! Queria saber se vale a pena tentar algo na CABINE 155!! (usuário 1) Se ainda não fechou não merece uma visita. Fuja de lá. (usuário 2) pois é (usuário 3) já tem muito tempo que abriu e o movimento não cresce.eu só fui lá 3 vezes, e já tem mais de 4 meses que eu não vou pelo fraco movimento, então, eu também não recomendo. só tem moscas la (usuário 4) Bom...estive lá a (sic) duas semanas assim que cheguei o movimento estava fraco, era umas 18:00, mas quando resolvi ir embora umas 20:00 tava começando a movimentar, mas tinha q sair nesse tempo fiquei com dois, foi legal, mas assim se vc quiser marcar seria bom. sou de Maceió. mas moro em ssa. (usuário 5) (Diálogo entre usuários da comunidade Pegação em Salvador Disponível:http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm= &tid= acesso em 10/05/2011) Ainda em 2004, na ocasião da apuração para a matéria do Província da Bahia, era possível notar um certo receio entre os entrevistados em assumir frequentar lugares exclusivos para a prática de sexo dentro do ciclo de sociabilidade gay. Tal incômodo pode ser oriundo do fato de que, dentro da própria cena gay, os homens que frequentam lugares de pegação são rotulados como promíscuos e sujos e são descartados para a constituição de um relacionamento mais formal e estável. É comum no circuito LGBTT a demonização de estabelecimentos como os clubes de sexo, saunas e cinemas pornôs.

36 36 A fala seguinte, de um dos frequentadores de uma boate gay classe média soteropolitana, reflete a hierarquização desses espaços de sociabilidade homossexual no imaginário do público: Para ele a Queen s banaliza o sexo, enquanto a Off 23 é mais hipócrita, já que a maioria do público da Off frequenta a casa com o mesmo objetivo: sexo. Como se nota, tal qual preconizado por Costa (2010) sobre o micro-território, sujeito às opressões internas e intrínsecas de que trata Gayle Rubin (1993), também em Salvador produz-se mais um espaço social, híbrido, no que concerne aos sujeitos que os produzem (não pertencentes a nenhuma categoria identitária fixa e pré-existente), sendo tal hibridismo resultante da dialética entre as formas normatizadoras da sociedade e os posicionamentos transgressores de tais normas dos sujeitos, ligadas tais formas e tais posicionamentos pelo desejo. O fato de o espaço público ser negado à expressão e experimentação do desejo homo-orientado resulta na produção de localismos ou reuniões expressos pelo aqui e agora estético sem propósitos funcionais ou reisificados, mas pela afetividade e sexualidade (MAFESOLI, 2002) que acabam tornando singularizada uma parte do espaço público (COSTA, 2010, p 25). Ao burlarem a organização da normativa sociedade mainstream, os sujeitos que produzem estes localismos criam o micro-território (COSTA, 2010), composto pelo hibridismo de sujeitos que convergem no que concerne ao desejo sexual. A deriva desses sujeitos, assim, se dá ora por entre espaços pouco frequentados, ora em locais com muito contingente como os banheiros públicos, como na deriva atenta e na paquera por entre a multidão, fato que constrói trajetos e pontos de parada e contato sobrepostos aos corredores de circulação e aos lugares mais comuns das tarefas outras cotidianas, cujas interações homoeróticas nem são vistas e percebidas por aqueles que não se interessam a elas (COSTA, 2010, p. 25). Ressalte-se, também, que Costa (2010) chama atenção para o fato de que, ao passo que o microterritório se configura como um espaço para a experiência homoerótica menos passível de atos homofóbicos e discriminatórios, a permissividade também 23 Boate gay situada no bairro da Barra, um espaço caro para os padrões médios soteropolitanos, que cobra entrada em torno de 30 reais considerada por alguns participantes da pesquisa como a boate das bichas bicudas.

37 37 se apresenta perigosa em relação ao contato direto com outros 'transgressores' que não somente são 'transgressores quanto aos determinantes sociais', mas buscam oportunidade de lucro rápido e oportunismos financeiros que acabam gerando atos de violação pessoal pelo roubo, extorsão, furto, atentado e violência. Atos de bandidagem se misturam com oportunismos lucrativos envolvidos com a sexualidade e com a homofobia, tornando a deriva homoerótica uma atividade necessária, em virtude da impossibilidade de visibilidade social dela, mas muito insegura quanto à vida desses sujeitos (COSTA, 2010, p. 25, grifos do autor). Dessa maneira, entendo que o banheiro público se torna uma das formas de microterritorialização das quais trata o autor, e é no sentido de funcionar como 'brecha' por entre a dissidência e as regras normatizantes da sociedade heteronormativa que o tomo neste trabalho como micro-território. Na subseção a seguir apresento a visão de alguns autores que pesquisaram a prática sexual em banheiros público e situo o leitor quanto à escolha desse contexto para a pesquisa realizada. 1.5 O BANHEIRÃO COMO LOCAL DA PRÁTICA SEXUAL HOMO- ORIENTADA Perlongher (2008) demonstra como a homossexualidade tem se despido de características que a estereotipam Isso se dá, por exemplo, com o crescimento de populações legitimamente homossexuais que se diferenciam da famigerada bicha louca. Assim, na luta contra esse estereótipo, o homem superviril ou macho tornou-se ideal: cabelos curtos, bigodes ou barba, corpo musculado. Assim: enquanto o tema da emancipação dos heterossexuais está, muitas vezes, ligado à indiferenciação dos papéis masculino e feminino, a emancipação homossexual passa atualmente por uma fase de definição muito restrita da identidade sexual (POLLAK, 1983, p. 64 apud PERLONGHER, 2008, p. 79). Perlongher (2008), citando Park (1973), trabalha também com o conceito de região moral, entendida como o espaço urbano em círculos concêntricos: uma faixa residencial, outra industrial e o centro que serve ao mesmo tempo como ponto de concentração administrativa e comercial, e como lugar de reunião das populações

38 38 ambulantes que soltam, ali, seus impulsos reprimidos pela civilização (PARK, 1973, p. 65 apud PERLONGHER, 2008, p. 69). O banheiro público é, sem dúvida, um exemplo de microterritório imerso na região moral da qual trata o autor. O sanitário público é um local de interação homoerótica que desperta muita polêmica. Para Perlongher (2008, p ), o mictório ocupa o lugar mais baixo na categorização dos locais de engate homossexual. É, junto com as saunas, o mais diretamente sexual, o menos amoroso ; mas é também o mais perigoso, pois está sujeito a esporádicas irrupções policiais. Ao discutir a relação entre os banheiros e o sistema de gêneros, Preciado (2011), por sua vez, afirma que, a partir do século XIX, os sanitários públicos se transformam de forma progressiva em cabines de vigilância do gênero. A autora atenta para o fato de que escapar do regime de gênero dos banheiros públicos é desafiar a segregação sexual que a moderna arquitetura urinária nos impõe há mais ou menos dois séculos: público/privado, visível/invisível, decente/obsceno, homem/mulher, pênis/vagina, de pé/sentado, ocupado/livre. Na cena gay, constata-se uma valoração a partir de parâmetros comportamentais do segmento, que, por sua vez, são fundamentados pelo modelo heterossexual. Tece-se uma série de princípios éticos e morais, isto é, uma categorização em que homens que buscam aventuras em locais públicos, como banheiros, são marginalizados. Essa marginalização é evidenciada no hit da drag music a Piranha do Banheiro. A música que explodiu nas boates LGBTs e ganhou as pistas dos clubes heterossexuais trata da pegação em banheiros com o humor e a ironia marcantes do gênero das Drags e reflete a condenação a esse tipo de comportamento dentro da própria cena gay: Piranha! Eu sou a piranha do banheiro! Samba! Meu corpo é um carnaval Eu sou a troya, eu sou o pecado A vergonha! Eu sou a piranha! Eu sou a vagabunda Meu corpo é um carnaval Vagabunda! Raspada! Safada! Eu sou o pecado a vergonha Baby Marcelo (Disponível: Acesso em: 20/12/2007)

39 39 Luiz Mott (2000), em A cena Gay de Salvador em tempos de AIDS, afirma que: [...] Dependendo da audácia dos frequentadores e da tolerância dos vigilantes, em tais lugares, se pratica voyeurismo e masturbação recíproca no próprio espaço dos mictórios, e, dentro das privadas, todo tipo de intimidade homoerótica. São tais W.C. um dos nichos mais típicos e preferidos dos adeptos do sexo anônimo. (MOTT, 2000, p. 88, grifo meu) Apesar da forte vigilância, com o progressivo desaparecimento de banheiros de rua, decorrentes das transformações urbanas, novos locais são significados como espaços da chamada pegação esta caracterizada como breve, impessoal e não mediada por palavra como, por exemplo, banheiros de grandes shoppings, de hipermercados, de estações de transporte coletivo e de edifícios empresariais. Ainda com Mott (2000, p. 88), observa-se um esboço de uma topografia homossexual: [...] em todos os sanitários masculinos dos shoppings centers de Salvador e em alguns supermercados mais movimentados, há discreta paquera homoerótica, incluindo Shoppings Lapa, Piedade, Iguatemi, Barra, Itaigara etc. Esses espaços constituem-se como alternativas para preservar, de particulares, o desejo sexual, para que não se sofra sanção decorrente da transgressão dos padrões legitimados pelo discurso dominante. Em etnografia pioneira sobre homossexuais que formam uma rede na Zona Sul carioca nos anos 1970, a antropóloga Carmem Dora Guimarães que classifica as relações entre eles como homossociais (relações sem conotação sexual entre indivíduos do mesmo sexo) e homossexuais (engloba relações de busca de prazeres sexuais como as interações homoeróticas em lugares públicos) relata a pegação entre seus informantes como uma tentativa de ocultar a identidade homossexual quando é conveniente e atenta para a utilização de códigos não-verbais na hora de firmar tais contatos. Embora nesse mesmo plano, mas sob outro ponto de vista, Bourdieu (1999) traz o conceito de efeito de destino responsável pela tendência do dominado em assumir, a respeito de si, o ponto de vista dominante, isto é, aceitar determinadas categorias de percepção que os façam, conforme a leitura de Nussbaumer (2007), viver envergonhadamente suas experiências sexuais. Todavia, não se pode descartar o fetiche pelo sexo em banheiros públicos, como supõe Mott (2008), já que há muitos

40 40 gays assumidos que são assíduos frequentadores desses ambientes simplesmente por sentirem prazer pelo medo e pelo risco. Líper (2008) acredita que a prática do banheirão é uma alternativa à repressão do próprio circuito de estabelecimentos gays de classe média: Uma contradição é que nós temos locais oficialmente gays e que a repressão acompanha, por exemplo, até bem pouco tempo alguns bares do beco não permitiam carências mais intensas entre homens. Eles queriam que o comportamento se limitasse mais ou menos como ficam um rapaz com uma moça. O ideal é vender uma cerveja muito cara, explorar a clientela e não permitir que eles façam nada contra a moral vigente. Isso não é porque a polícia proíbe. É um moralismo do dono do bar. O dono do bar que não quer que um rapaz alise o pau do outro, nem bote pra fora. O medo do falo ereto fora da calça faz com que o viadinho que é dono do bar fique chocado. Ou então a tradicional tirania da bicha de classe média. Ela quer sim que você pague, mas saia de lá frustrado, aí ela fica satisfeita, e volte no outro dia para ser torturado. Isso fica abominante, ninguém pega ninguém e vai para o sanitário. O que acontece no sanitário? Ele é muito explícito e não há clima para caras e bocas. Eu sou bonita, eu sou isso. Ali é putaria mesmo. Quem não quer não faz. Nos anos 60, o teatrólogo argentino Tulio Carella, ao descrever sua deriva sexual em um diário, relata o episódio em que teve o pênis chupado por um rapaz no banheiro de um bar do Centro do Recife, em Pernambuco: [...] Abstraído nestes pensamentos olha sem ver os grupos que se reúnem na calçada do bar: permanecem de pé, conversando, longas horas. Paga ao garçom e vai urinar. Surpreende-o a disposição do mictório: é uma espécie de pia de azulejos brancos, sem divisões. [...] Dois ou três tipos fingem urinar, mas o que fazem é mostrar a mercadoria fálica. Lúcio tem a uretra pudica e retira-se sem satisfazer seu desejo. Um pouco mais adiante, numa rua transversal, há um bar aberto. Entra, e logo que desabotoa a braguilha surge um rapaz louro que se inclina e chupa seu membro de surpresa. Lúcio deixa, divertido e pasmado, vendo que o jovem se masturba com um frenesi cego. Ao sair, vê que outro louro, que estava na calçada do Deserto, o deseja e o segue. (CARELLA, 2011, p. 75, grifo nosso) Em Fiestas, baños y exilios. Los gays porteños en la ultima dictadura (2001), Flavio Rapisardi e Alejandro Modarelli acenam para um declínio da prática da pegação em banheiros nas grandes cidades Ocidentais como Buenos Aires, Córdoba, Londres e Nova Iorque. Eles atribuem o desaparecimento a fatores como a privatização do circuito do sexo, com aberturas de clubes de sexo, cines eróticos e também as

41 41 mudanças arquitetônicas e urbanísticas proporcionados pelo neoliberalismo, pois os banheiros de shopping e estabelecimentos privados são extremamente vigiados. Não é possível notar esse declínio da prática da pegação em Salvador, mas constata-se que a privatização do circuito do sexo não ocorre com a mesma velocidade por aqui. Desde 2000, a capital baiana conta somente com duas casas do gênero: Queens e Cabine 155.

42 42 2 EROTICIDADES HETEROSSEXUAIS MASCULINAS: TENSÕES EM TORNO DO MODELO HEGEMÔNICO Nos anos 1970, com a publicação do primeiro volume da História da Sexualidade, Foucault contestou o discurso dominante disseminado sobre a sexualidade, que, desde o período vitoriano, reforçou a premissa de que o comportamento sexual era característica ou fato natural da vida humana. A obra de Foucault é importantíssima para a compreensão da sexualidade para além dos aspectos biológicos. Ao evidenciar que a sexualidade é uma categoria construída, com origens históricas, sociais e culturais, o historiador e filósofo prestou grande contribuição para a pesquisa da sexualidade e foi um dos responsáveis para que tais estudos seguissem um rumo que divergia da maioria das pesquisas da época, que eram construídas sob uma ótica médica e patologizante. Com essa perspectiva provocadora, Foucault ajudou a canalizar o olhar dos cientistas sociais para o papel que o discurso conservador das instituições exercia na formação da sexualidade ocidental. A preocupação principal de Foucault não era definir ou conceituar a sexualidade, o foco do seu trabalho era entender a maneira como ela funciona na sociedade. Logo, a sexualidade não é estática e sofre mudanças com os processos históricos e sociais que fazem com que novas modalidades sejam sempre produzidas. Estimulado pelas reflexões de Foucault, neste capítulo problematizarei o modelo de masculinidade hegemônica presente no imaginário brasileiro. O objetivo é discutir outros modelos de eroticidade heterossexual masculina permissíveis na prática do banheirão. Os relatos de campo que seguem ilustram identidades de homens que se auto-definem heterossexuais, mas cujas práticas alteram, de certo modo, a matriz heterossexual hegemônica, fugindo do que se convencionou permissível para um macho dentro da conjuntura social brasileira. Lançarei o meu olhar para essas heterossexualidades periféricas e, para isso, também é necessário discutir qual o discurso que regula a eroticidade heterossexual hegemônica, isto é, o que é ser um homem de verdade no Brasil? Na última seção, discutirei a hierarquia que se construiu tomando como topo o modelo hegemonizado e como base a ostensiva repulsa em relação aos afeminados.

43 A MASCULINIDADE HEGEMÔNICA E AS HOMOSSEXUALIDADES BRASILEIRAS Ao deixar de ser apenas um adepto da Pegação nos sanitários públicos da Estação da Lapa e adjacências e lançar um olhar também de pesquisador sobre esse objeto tão dinâmico, afinal, como já disse a partir de Perlongher (2008, p. 60), o tipo de pesquisa aqui apresentado escapa dos eixos tradicionais da Antropologia, pois não se trata de comunidade ou de um grupo, e sim de práticas homoeróticas na deriva urbana de Salvador e dos sujeitos nelas envolvidas. Por isso, logo veio à memória as reflexões realizadas por Fry (1982) no artigo Da Hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil, cuja proposta é investigar a construção das categorias sociais que dizem respeito à sexualidade masculina no Brasil (FRY, 1982, p. 87). Para Fry, fica evidente que conceitos de homossexual e homossexualidade não poderiam ser utilizados em pesquisa de campo realizada por ele em Belém, no Pará. A acertada postura metodológica do etnógrafo parte da reflexão de que esses conceitos teriam sido gestados pelas ciências biomédicas e apropriado pelo movimento homossexual das grandes cidades e enfatizavam a igualdade entre parceiros, o que era destoante do modelo de Bofes e Bichas predominante na periferia de Belém do início dos anos de As Bichas de Belém em nada pareciam com os entendidos 24 ou gays de classe média dos grandes centros brasileiros. Era um modelo sexual regido pelas díades atividade/passividade, dominação/submissão. Ao homem cabia se comportar de maneira masculina e à bicha reproduzir um comportamento feminino. No ato sexual, a função do bofe/homem é penetrar; a da bicha, ser penetrada. As ações de penetrar (atividade) e de ser penetrado (passividade) são o reflexo de um cenário em que o bofe/homem domina e a bicha é submissa. Ainda segundo Fry, naquele contexto cultural, ficava perceptível que as representações das relações sexuais-afetivas entre homens e mulheres esboçavam 24 Modelo de relacionamento homossexual não pautado na dicotomia ativo e passivo, presente entre os gays das classes médias dos grandes centros urbanos brasileiros a partir da década de Diferente do modelo Bicha e Bofe, entre os entendidos a passividade não estaria necessariamente ligada à feminilidade e os papéis sexuais não seriam tão demarcadas e poderiam variar entre os parceiros. Para melhor aprofundamento ver a etnografia pioneira O Homossexual visto por Entendidos de Guimarães (2004).

44 44 basicamente um sistema pautado na dominação e na submissão, e não na homossexualidade. É indispensável ressaltar que ao bofe/homem era permitido manter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo sem ferir a sua condição de homem de verdade caso desempenhasse o papel de ativo. Diante disso, apesar da bicha ser considerada uma figura desviante, as relações entre bichas e bofes/homens eram normativas e não representavam uma transgressão perante a ordem sexual vigente. Ainda no âmbito da América do Sul, um estudo com dois grupos de homens que fazem sexo com homens (HSH) 25 de bairros pobres de duas cidades costeiras do Peru, a capital Lima e Trujilo, mostrou um modelo de relações afetivo-sexuais semelhante ao observado por Fry na periferia de Belém e também pautado na atividade/passividade. Segundo Fernandez-Dávila (2005), o fato de se relacionarem com homossexuais, travestis e mariconas não violava a masculinidade de homens que também se envolviam com mulheres e desempenhavam atividades consideradas pertinentes à conduta de um heterossexual. Ele notou que as relações sexuais entre esses homens com condutas marginais e clandestinas eram aceitas e toleradas quando mantidas num pseudo-anonimato. Elas eram uma espécie de segredo aberto e poderiam até figurar como fofoca, mas não eram oficialmente assumidas. Esses homens são popularmente chamados de esquineiros quando mantêm relações sexuais com afeminados sem fins lucrativos e mostaceros quando praticam sexo pago. Logo aos mostaceros/esquineiros machos e ativos cabia se comportar de forma viril, como homens de verdade. Uma conduta semelhante à das mulheres era designada aos homossexuais com trejeitos femininos e passivos. Ao refletir sobre o sistema de gênero brasileiro, Parker (1999, p. 55) observa que talvez em nenhum outro lugar do mundo esta distinção entre atividade e passividade seja mais evidente do que na linguagem popular usada para descrever as relações sexuais, em verbos como comer e dar. Ele nota que a utilização da palavra comer para descrever a penetração ativa até nas relações entre machos e fêmeas é um reflexo da 25 A terminologia HSH Homens que fazem sexo com homens surgiu nas políticas de saúde para o enfrentamento HIV, com o intuito de conciliar a divergência de comportamento sexual e identidades entre esses homens. Muitos autores, dentre eles Júlio Simões e Sérgio Carrara, pensam que essa denominação é problemática por dissolver a questão da não-correspondência entre desejos, práticas e identidades numa formulação que recria a categoria universal homem com base na suposta estabilidade fundante do sexo biológico, ao mesmo tempo em que permite evocar as bem conhecidas representações da sexualidade masculina como inerentemente desregrada e perturbadora (Carrara e Simões, 2007, p.94, nota 35)

45 45 dominação simbólica presente na cultura tradicional brasileira de gênero e em diversos contextos o verbete pode significar possuir ou vencer. Já o verbo dar é utilizado como sinônimo de submissão passiva de quem é penetrado. Após três décadas da publicação da obra de Fry (1982) e há mais de uma década da publicação do livro Parker (1999), é evidente que a forma de o brasileiro encarar a sexualidade e o gênero passou por profundas transformações. A ação do Movimento LGBT organizado, o crescimento estrondoso da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, a proliferação de uma série de outras paradas gays nos lugares mais longínquos e distantes do país e a presença de personagens homossexuais nas poderosas 26 telenovelas da Rede Globo contribuíram para que a figura do Gay másculo e de classe média, que se relaciona com iguais, chegasse até as camadas mais populares da população. Atualmente, as representações de um homossexual afeminado (com trejeitos femininos e muito semelhantes ao modelo bicha versus bofe/homem apresentado por Fry) e de um homossexual próximo da figura do entendido (másculo, branco, de classe média, corpo atlético e com parceiro de características semelhantes) estão bem consolidadas no imaginário do brasileiro. Esse último modelo citado foi tomado como padrão e aqueles que não se enquadravam nele passaram a ser estigmatizados socialmente, inclusive dentro da própria cena gay. Não comungar desse ideal do gay másculo, viril e monogâmico coloca o sujeito divergente sobre rótulos pejorativos como o da bicha louca e fechativa 27, da bicha pão com ovo 28 e do gay promíscuo. 26 Apesar de ter perdido audiência nas últimas décadas, as telenovelas da TV Globo ainda são os programas televisivos mais assistidos no Brasil. Até a década de 1990, a novela das oito (exibida às 21h) chegava a marcar 60 pontos de audiência (cada ponto é equivalente a 60 mil domicílios na Grande São Paulo). Atualmente, a trama das oito Avenida Brasil chega a marcar em média 40 pontos e é a atração mais vista pelos brasileiros. De acordo com reportagem da Revista Veja, um capítulo de Irmãos Coragem, de Janete Clair, foi mais visto que a vitória do Brasil sobre a Itália na final da Copa do Mundo de 1970, um dia antes. Em sua autobiografia lançada em 2011, um dos responsáveis pela criação desse modelo de teledramaturgia, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (BONI), narrou um episódio que demonstra a força desse produto televisivo no país: No dia 1º de janeiro de 1971, eu e minha família, o Tarcísio (Meira) e a Glória (Menezes)... e alguns familiares fomos participar da procissão marítima do Senhor dos Navegantes em Salvador... Eram mais de mil barcos no mar... Os barcos iam navegando e todos cantavam hinos religiosos, como Queremos Deus. Quando perceberam que o Tarcísio Meira estava em uma das embarcações, as pessoas do barco ao lado começaram a entoar a música de abertura de Irmãos Coragem e a coisa foi passando de barco em barco. De repente, mais de três mil barcos e trinta mil pessoas cantavam, no mar de Salvador, a uma só voz: Irmão, é preciso coragem... Milhares de embarcações tentavam se aproximar da nossa, atirando flores e jogando beijos... (OLIVEIRA SOBRINHO, 2011, p 259.). 27 "o povo chama de 'bicha louca'- rapazes efeminados ou "desmunhecados", que não têm como esconder sua "androginia psicossocial", e que se distinguem dos travestis por que não se vestem de mulher, embora alguns adotem nomes femininos, se chamem entre si de "monas", "mulher", etc. "Fechativa" ou "fechação" vem de "fechar", que no vocabulário gay, ou no "bichionário" é sinônimo de "dar bandeira", exibir-se, "arrasar". A bicha fechativa é certamente a categoria homossexual que sofre

46 46 Como já explicitei no capítulo anterior, após chegar do interior do Estado para estudar em Salvador, no final dos anos 1990, a dificuldade de inserção na Cena Gay de cidade grande na qual o objeto de desejo ideal era o homem másculo, de corpo atlético e que conseguia manter um padrão de classe média e sustentar uma vida boêmia nos bares e boates da moda e vestindo roupas de grife fez como que eu enxergasse na prática da pegação uma oportunidade de exercer a minha sexualidade de forma livre. Em pouco tempo de convívio na Capital, eu descobri as interações homoeróticas que ocorriam aos fundos do Farol da Barra e a pegação nos sanitários de Shoppings e Estações de ônibus. Diante da variedade e da heterogeneidade dos freqüentadores não é possível afirmar qual o tipo de homem que pratica a pegação nos sanitários públicos da Estação da Lapa. Não tenho dúvidas que esse contingente de trabalhadores e estudantes, em sua maioria negra, mestiça e moradora da periferia da Capital 29, é unificado pelo desejo sexual homoerótico. Isso não quer dizer que esse desejo seja uniforme, pelo contrário, a minha experiência levou-me a perceber que, apesar da busca pelo homem de verdade, esse desejo se manifesta de maneiras muito heterogêneas e diversas. Em uma das minhas idas a campo, numa conversa informal, ou melhor, numa entrevista itinerante, tentei contato verbal com um homem de cerca de 60 anos, que sempre estava presente no mictório da Lapa. A figura daquele senhor discreto, sempre de calça comprida e camisa de botão xadrez, branco, para os padrões soteropolitanos 30, e calvo, me chamou atenção. Seja no mictório do sanitário do piso de serviços da Lapa maior discriminação e violência, exatamente por se situarem, indefinidamente, na fronteira entre o macho e a fêmea. Há travestis que dizem ter sofrido mais violência nas ruas quando eram "bichinhas" do que depois que vestiram saia. Texto extraído do Manual do Multiplicador Homossexual do Programa Nacional DST/AIDS do Ministério da Saúde. Disponível: em: 30/11/ Bicha-pão-com-ovo S.f. (pejorativo) (P) 1. Homossexual pobre culturalmente; 2. Diz-se das bibitas que não têm condições financeiras para comer na rua e levam um pão com ovo para comer na condução, na viagem de volta para casa depois da balada. Ex.: Aquela lacria saiu voada da domingueira com as bichas-pão-com-ovo; já eram onze e meia e ela não podia perder o último metrô. 3. Refere-se àquela bicha de moral baixa, sem escrúpulos nem dignidade e com lapsos de caráter. Ex.: Gustafa, aquela bichapão-com-ovo, ela não se enxerga mesmo; agora deu pra ficar dando em cima do meu bofe!. Disponível em: <http://revistacriativa.globo.com/criativa/0,19125,ett ,00.html em: 30/11/2011>. Acesso em: 20 jan Essa afirmação não exclui a presença de homens de outras classes sociais, mas a maioria dos que fazem pegação naquela região são homens que utilizam daquela Estação para pegar ônibus e fazer o percurso casa/ trabalho ou escola e vice e versa 30 Apelidada de Roma Negra, parece até clichê reafirmar aqui que a Capital da Bahia é a cidade mais negra do Brasil, mas é necessário informar que em uma terra tão negra como Salvador, convencionou-se um degradê de cores e tonalidades. E nesse sistema racial á brasileira, os negros que possuem a pele mais clara e o cabelo menos escuro e se enquadram num padrão mais próximo ao do branco europeu, podem tornar-se brancos.

47 47 ou na escada da última plataforma, ele sempre carregava na mão uma lata de cerveja. Eu sempre o observava comprando mais cervejas no isopor do primeiro piso de embarque e desembarque. Eram 18h de uma segunda-feira do mês de outubro, a fila do posto de recarga do Salvador Card estava imensa e, enquanto isso, em meio ao horário de pico da Estação da Lapa, o fluxo de homens em busca de prazer entre os sanitários e a escada da última plataforma era grande. Em um momento, junto-me a uma dezena deles que fingia urinar e se masturbava na escada. O senhor de cerca de 60 anos era um deles. A passagem de uma viatura da PM, nas imediações da escada, fez com que os adeptos da pegação corressem e se dispersassem. Minutos depois, reencontro-o encostado em uma das pilastras do Terminal de ônibus. Puxo conversa, o homem é receptivo ao meu papo e narra, brevemente, sua história. Conta-me que foi casado com uma mulher por mais de 25 anos, com quem tem uma filha de 22 anos. Ele é professor de matemática aposentado da Rede Estadual e viu seu casamento terminar após a esposa descobrir a paixão e o caso amoroso com um aluno da escola na qual ocupava o cargo de vice-diretor do noturno, numa cidade do interior do estado. Ele me contou: O rapaz era maior de idade, tinha 19 anos e era aluno do terceiro ano. Nós passamos a andar junto o tempo todo. Ele frequentava a minha casa. Meu grande erro foi presenteá-lo com uma motocicleta. A cidade toda ficou comentando e isso fez com que minha mulher confirmasse as suspeitas e terminasse comigo. O professor me contou que o primeiro contato dele com a pegação na Estação da Lapa ocorreu após solicitar transferência para uma escola na Capital. Eu era louco para conhecer a sauna quando morava no interior, mas, quando fui a uma, ninguém me quis. Tava cheio de rapazes novos, bonitos, malhados, mas eles só queriam os novinhos como eles e me desprezaram. Aí, eu dava aula num Colégio aqui no Centro. Passava por aqui todo dia para pegar ônibus e via a putaria. Aqui é possível pegar caras novos, mas na sauna não. Gosto de novinhos de 20 anos, não curto velhos da minha idade. O professor aposentado é mais um homem que, como eu, enxergou no banheiro uma oportunidade de exercer sua sexualidade dissidente. Em Pensando o Sexo: Notas para uma Teoria Radical da Sexualidade, a antropóloga norte-america Gayle Rubin (2003) atenta para o fato de que as sociedades ocidentais modernas classificam os atos sexuais conforme um sistema hierárquico de valores sexuais. Nesse sistema, homens como nós, que mantêm relações sexuais com outros homens em lugares públicos e não

48 48 somos monogâmicos, fazem parte das castas sexuais mais desprezadas. Ainda segundo o esquema apresentado por Rubin, ficamos muito abaixo dos casais lésbicos e gays estáveis, de longa duração, que figuram no limite da respeitabilidade. Aos adeptos da pegação resta o olhar patológico e criminal. Como Fry (1982), ao lançar o olhar sobre o meu objeto de pesquisa, percebi que nem o conceito de homossexualidade, gestado nos moldes de um movimento homossexual de classe média; nem o de Masculinidade Hegemônica 31, que rejeita outras formas de masculinidade divergentes da firmada pelo modelo viril e másculo brasileiro e latino americano, serviam para pensar a questão das relações homoeróticas na Estação. 2.2 O HETEROSSEXUAL PASSIVO E OUTRAS HETEROSSEXUALIDADES FLEXÍVEIS EM CAMPO Começava mais uma tarde de sol escaldante em Salvador e, após uma manhã de trabalho, resolvi passar no sanitário da Estação da Lapa com o intuito de realizar mais uma maratona de observações para esta pesquisa. Como já havia sinalizado no capítulo anterior, o local sofre degradação total, um mau cheiro estonteante, falta de portas nas cabines, torneiras sem pia, mictórios com vazamento que fazem com que a urina caia sobre os pés dos usuários. Essa descrição da atmosfera física da Estação parece exaustiva, mas é proposital, pois como cidadão, contribuinte que se sente lesado com alta carga tributária desse país, não consigo deixar de esboçar a minha indignação diante da omissão dos poderes públicos perante a tamanha degradação. Naquela tarde de terça-feira, em que a cidade já tinha cara de feriado prolongado, pois parte da população já deixava a Capital para aproveitar os dias de Corpus Christi e de São João no interior, um homem isolava o mictório e deixava como opção para os passageiros apenas as privadas, local onde se ficava extremamente exposto por não ter portas. Dava pra ver alguns homens que defecavam sentados no vaso sanitário e outros urinavam ou defecavam nos cantos do banheiro. 31 A Masculinidade Hegemônica garante a legitimação de ideais fundados dentro de um patriarcado brasileiro e representa a consolidação de um homem viril, dominador, provedor e preferencialmente branco. Esse modelo de masculinidade não abarca a série de masculinidades líquidas que surgem em contextos considerados transgressores. Para aprofundamento nesse conceito ver PINHO (2011) e ALMEIDA (2000)

49 49 Saí daquele banheiro em direção ao do Shopping Piedade, vizinho a Lapa. Quando o sanitário da Lapa sofre alguma interdição o fluxo nos sanitários do Piedade aumenta. Realmente, o sanitário do piso L2 estava cheio. Dentre os usuários, um homem de mais ou menos 25 anos me chamou atenção. Ele era negro, alto, magro e muito atraente. Tinha um belo sorriso, carregava uma mochila nas costas e havia estacionado no último mictório do banheiro. Os movimentos de masturbação, interrompidos com a chegada de homens estranhos, que não davam sinais de interesse em interações homoeróticas, eram visíveis. Não demorou muito para que percebesse que eu o observava, começamos a trocar olhares e eu encostei-me no mictório que estava ao seu lado e, também, comecei a me masturbar. Logo em seguida, chegou um homem, negro, forte, trajando camiseta regata amarela, bermuda surf wear 32, batidão 33 dourado no pescoço. Ele não se aproximou do mictório, mas me chamou atenção, pois olhava com muito desejo e sem disfarçar para nós dois. Não cheguei a temê-lo, pois o tesão que sentia era perceptível. De repente, ele encosta-se na fileira oposta do mictório que nós usávamos, finge urinar. Para no meio do banheiro e tenta olhar nossos pênis. O servente do banheiro entra em cena, ele o cumprimenta e pergunta: De folga hoje? Ele responde: É, dando um rolé [sic] e curtindo meu dia de folga!!. Com a chegada do servente, eu e o outro rapaz deixamos o mictório e nos dirigimos à pia para lavar a mão, o rosto e arrumar o cabelo. O homem de regata amarela que pelo visto trabalha no Shopping Piedade também para em frente ao espelho da pia e nos olha. Saímos juntos os três do sanitário, começa uma troca de olhares, todos caminham em direção a Estação da Lapa, a excitação é visível pelo volume dos pênis eretos que transparecem, mas apesar de caminharmos na mesma direção não trocamos uma só palavra. O silêncio impera. Entramos no banheiro da Estação, algumas bichas pintosas 34 conversam sobre o estado de degradação daquele banheiro estacionadas em frente aos espelhos e um deles diz tem gente que está gostando, se referindo aos 32 É um estilo popular de vestuário casual, inspirada pela cultura do surfe. Muitas marcas relacionadas ao surfe surgiram de indústrias artesanais, suprindo surfistas com bermudas, roupas de mergulho, pranchas de surfe e outros acessórios. Disponível: em: 20/11/ Cordão de bijuteria, ouro ou prata, que confere status e prestígio, a homens jovens oriundos de bairros periféricos, dentro das comunidades onde eles residem. O batidão é um acessório da estética do Hip-Hop e do Funk Carioca e nas duas últimas décadas foi incorporado por jovens adeptos do pagode baiano em Salvador. 34 Termo pejorativo utilizado para rotular gays afeminados que dão pinta ou bandeira demonstram, através de gestos e trejeitos, a homossexualidade.

50 50 homens adeptos da pegação, que transitam sedentos por uma interação homoerótica entre os sanitários dos shoppings Lapa, Piedade e da Estação da Lapa e as escadas de emergência desses estabelecimentos. O mictório continuava interditado, seguíamos a nossa deriva a procura de um lugar para concretizarmos o nosso desejo. Fomos até a escadaria da última plataforma da Lapa pouco movimentada por ter ficado interditada por muito tempo durante as intermináveis obras do Metrô o lugar sujo, que durante a noite numa espécie de breu estava muito iluminado por conta do horário, por volta de 15h e era impossível fazer 35 ali. O negro alto desistiu e se desvencilhou da gente. E, eu e o homem de camisa amarela voltamos para a parte superior da Estação da Lapa. Ele encostou-se a uma das sacadas do primeiro piso, próximo à saída para o Colégio Central, na Avenida Joana Angélica, eu parei próximo. Ele se aproximou de mim e disse: Não posso vacilar aqui porque sou segurança do Piedade e alguém pode me ver aqui fazendo pegação. Você tem local?. Eu respondi que morava distante da Lapa com meus pais e não tinha local. Olhando o tempo todo para minha bermuda que marcava o volume do pênis ereto, ele respondeu: Eu sou casado, moro com minha mulher e duas filhas no Matatu de Brotas. Minha esposa está no trabalho, minha filha mais nova de 2 anos está na creche e minha outra mais velha, de 13 anos, deve está saindo para um curso. Vou ligar pra ver se ela já saiu. Ele telefona para a filha e constata que a garota não está mais em casa. E resolve me convidar para irmos até a sua casa: Olha, eu vou confiar em você. Nunca levo ninguém para minha casa e você tem cara de que é do bem. Minha mulher é policial (tive a impressão de que falou para tentar me amedrontar), está trabalhando em Camaçari e só vai voltar às 18h. Vamos lá pra casa. Dá pra gente foder a vontade. Concordei em ir, mas fiz ressalvas: Negão, eu não quero problemas com sua mulher. Você tem a certeza de que ela não irá voltar antes? Obtive como resposta: Brother, é nenhuma! Pode ficar tranquilo que é limpeza. É só a gente não demorar. Subimos a escada rolante em direção a Joana Angélica e seguimos andando para o Matatu de Brotas. O segurança preferiu fazer o trajeto a pé. A opção dele foi proveitosa para mim, pois consegui conversar bastante com ele no caminho. Perguntei há quanto tempo 35 No meio LGBT e entre os adeptos da pegação o verbo Fazer não necessita de complemento. A expressão fulano fez, por exemplo, já traz elíptico o fazer sexo. Em rodas de conversas com colegas lingüistas gays, chegamos a parodiar o título Amar, verbo intransitivo de Mario de Andrade com a expressão Fazer, verbo intransitivo.

51 51 rolava esses lances com ele no banheiro? Ele respondeu: há mais ou menos três anos. Depois de transar com um primo fiquei ligado nessas coisas e comecei a frequentar, os banheiros, mas com muito cuidado porque não posso me queimar, depois de trabalhar no Shopping. Ele completou a gente pega muitos caras fodendo dentro das cabines e é muito constrangedor. A gente leva para a administração, eles assinam um livro de ocorrência e, em seguida, são conduzidos para o módulo policial e podem até ser presos. Você sabe que é crime de atentado ao pudor!. Eu retruco: - Mas até você que curte a putaria faz isso com os caras? Ele responde: tenho de fazer quando sou solicitado pelo cara da limpeza, ou quando estou com outros colegas. Quando pego sozinho, eu peço para sair e digo que eles podem ser presos. Em seguida, conta-me que todo segurança faz. E já fez com três colegas no vestiário do Shopping Piedade. Pergunto se isso não vaza, se não rola boato, fofoca e ele responde que não, pois todos são casados. Ele me deu a dica e os horários de trabalho de um funcionário da limpeza do banheiro próximo à entrada da C&A do primeiro piso. Disse que o rapaz trabalha a partir das 14h e folga às quintas-feiras. É um cara gostoso, malhado e macho, discreto e não dá pinta e adora sentar numa pica. Conta também que na semana anterior, havia feito sexo com um policial colega de trabalho da esposa. Eu estava bebendo com ele, minha mulher e a dele na casa dele, no dia de Santo Antônio e percebi que ele olhava para minhas pernas diferente. Ficou tarde e acabamos dormindo na casa dele. Transamos a noite toda enquanto nossas esposas dormiam. Ele me chupou e eu chupei ele, comeu o meu cu e eu comi o dele. Foi massa. No outro dia fomos embora e fingimos que nada tinha acontecido. Passamos pela Avenida Joana Angélica, pelo Campo da Pólvora, descemos a Ladeira do Estádio da Fonte Nova e continuávamos a andar e conversar. Na Ladeira dos Galés, nos deparamos com um adolescente muito atraente trajando short e camiseta, o garoto aparentava ter 16 anos, de longe admiramos a beleza dele, as pernas grossas, a bunda grande e ele confessou-me ser assediado por um vizinho adolescente de 15 anos, que o menino era uma tentação e vivia convidando-o para transar dentro da casa de seus pais, quando eles saiam para trabalhar. O segurança jurou-me nunca ter cedido aos assédios do menor criado pela mãe e pelo padrasto considerado por ele um homem muito gostoso e atraente. O garoto confessou-lhe manter relações sexuais com o marido da mãe quando a mesma sai para o serviço.

52 52 Logo depois, ele olhou para o ponto de ônibus no qual estava parado um jovem de aproximadamente 25 anos e falou tenho certeza que aquele ali é da putaria! Nós dois olhamos para o rapaz que correspondeu o olhar e nos seguiu até o Supermercado Bompreço do Matatu. Sugeri que ele convidasse o jovem para também ir até a casa dele e temeroso de que a presença de mais um pudesse levantar suspeitas na vizinhança ele recusou. Enfim, após passar pelo supermercado, descemos a primeira de uma série de escadarias e adentramos a invasão 36 em que ele reside. Não demorei a perceber que ele era muito popular no local, pois cumprimentava vários moradores (homens e mulheres) que transitavam as ruas estreitas. Ao chegar à escadaria onde morava, ele simulou uma conversa para fingir que nos conhecíamos de outro contexto mais familiar Rapaz, minha mãe estava prestando atenção e viu que ela exagerou na bebida. Depois cumprimentou a vizinha de frente à sua casa que fica n 1 andar de um sobrado. Adentramos a casa, fotos das filhas. Ele oferece água; eu aceito. Sou conduzido por ele até o quarto do casal. Começamos a nos beijar, despimo-nos e ele insiste numa penetração sem camisinha. Eu recuso e acabo gozando quando ele me faz sexo oral. Noto a foto de um homem na cabeceira da cama e pergunto quem é. Embaraçosamente, ele diz que é o cunhado, mostra-me fotos da filha adolescente e da menor, mas nenhuma fotografia da esposa. Peço para ir ao banheiro, pensei em me lavar, mas não tinha água. Uso papel higiênico para limpar o pênis com resto de esperma e sou interrompido por ele, que simulando certa aflição, diz ter ouvido o celular tocar. Eu, que tenho ouvidos muito sensíveis, não escutei nada. Vai até o quarto, pega o telefone e diz que a ligação era da filha adolescente. Retorna, e diz Cristiane 37, como você esquece sua apostila?. Você precisa sair porque minha filha esqueceu a apostila e está voltando para buscar. Finjo sair apressado. Ele me conduz até a frente de casa, pois necessita abrir o portão e se despede dizendo Na próxima semana, Alberto te paga a outra parte, ele está no 36 Conjunto de habitação popular erguido a partir da ocupação de um terreno público ou privado, geralmente desprovido de serviços básicos, como educação, segurança, saúde e saneamento. Nas metrópoles do sudeste brasileiro, esse tipo de moradia é denominado favela. Em Salvador, até a década de 90, a palavra favela, tinha uma carga negativa e, por isso, os próprios moradores preferiam o termo invasão. Atualmente, jovens da periferia e do Subúrbio Ferroviário influenciados pelo movimento Hip- Hop, pelo Funk Carioca e, principalmente, pelo Pagode Social ou Neo-pagode (denominações utilizadas pelos veículos de comunicação para rotular bandas de pagode baiano, que cantam problemas das comunidades) utilizam a palavra favela com um cunho de auto-afirmação. Expressões como Você é Favela ou é Orla? e Sou Favela são muito comuns para afirmar essas origens, mas em outros contextos, menos poéticos, e dentre outras faixas etárias, a palavra invasão ainda é predominante. 37 Todos os nomes de personagens desse trabalho são fictícios para preservar as identidades das pessoas

53 53 trabalho agora. O que me fez pensar que aquele lar era construído por um casal homossexual. O episódio relatado acima me fez lembrar uma cena vivenciada antes do ingresso no curso de Mestrado, em meados do ano de 2009, quando realizei um précampo para escolha do objeto e elaboração do anteprojeto desta pesquisa. Numa tarde de sexta-feira, fazia observação no sanitário público da Estação de Transbordo do Iguatemi 38, quando percebi que alguns dos adeptos da pegação subiam no vaso para observar uma interação que acontecia entre dois homens na cabine de deficiente físico, que é maior do que as outras. Percebendo tamanho alvoroço e excitação, movido pela curiosidade que a mim é inerente, negociei com outro homem que ocupava a cabine vizinha para subir no vaso sanitário. Logo dei de cara com um homem negro de mais ou menos 1.90 metros sendo penetrado por outro homem negro dentro da cabine. Após presenciar a cena, desci do vaso sanitário, saí da cabine e passei a observar a movimentação dentro do sanitário. Alguns minutos depois os dois homens deixaram a cabine e se separaram. O homem que penetrava saiu rapidamente pela passarela de pedestres e sumiu em meio à multidão que trafegava na movimentada região. Já o que estava sendo penetrado se dirigiu ao ponto de ônibus da estação, onde esperava condução para retornar ao lar, possivelmente depois de uma jornada de trabalho, pois ele trajava a calça da farda de uma empresa de segurança e carregava uma mochila nas costas. Fiquei a observar o homem de longe, pensei em fazer um contato verbal em busca até de uma possível entrevista, mas naquele momento não tive oportunidade. Voltei para casa frustrado, pois poderia não encontrá-lo nunca mais. Mais ou menos quinze dias se passaram, eu retorno a Estação Iguatemi. Gostaria de explicitar que no início dessa pesquisa eu carregava uma imensa dúvida, pois ainda não havia definido o recorte geográfico da minha pesquisa. Sabia que diante da problemática de deslocamento em uma metrópole com a dimensão de Salvador, eu precisava optar por uma região da cidade e, mais tarde, venho escolher a Região da Estação da Lapa. Os motivos dessa escolha já foram explicitados no capítulo anterior, mas penso que a Região do Shopping Iguatemi, considerado o novo Centro financeiro da capital baiana, também, oferece um cenário de investigação bastante dinâmico. 38 De acordo com reportagem de Daniela Prata, exibida em no programa Bahia no ar da TV Itapoan, Rede Record, a Estação de Transbordo do Iguatemi é a terceira em número de passageiros da Capital Baiana, 65 mil pessoas embarcam e desembarcam no local que funciona 24 horas por dia. Na matéria, a repórter mostra o estado de degradação do sanitário masculino, sujo, sem torneira e com vazamentos. Disponível: em: 30/11/2011

54 54 Mas agora voltemos a Estação de Transbordo do Iguatemi. Já passavam das 19 horas e ao adentrar ao sanitário masculino, me deparo com o mesmo homem, trajando uma calça de uma empresa de segurança patrimonial, uma camiseta regata branca e com uma mochila nas costas. Com o intuito de me aproximar, finjo urinar no mictório ao lado. Trocamos olhares e começamos a nos masturbar, enquanto olhávamos um para o outro. Em seguida, estrategicamente, guardo o meu pênis e deixo o sanitário. Ele me segue. Sento-me em um dos bancos da Estação e logo após, ele senta ao meu lado. Puxo uma conversa e ele me convida para voltar ao sanitário. Informo que não posso, pois tenho horário para chegar em casa. Ele pergunta se sou casado, respondo que não, mas moro com minha mãe. Ele me conta que tem 32 anos, é casado com uma mulher, mora no bairro de Massaranduba, na Cidade Baixa, e tem um filho de 6 anos. O papo sobre a família é a deixa para que eu pergunte sobre como ele se define sexualmente. Ele responde que se considera heterossexual, pois é um cara homem, comporta-se como um homem, não anda rebolando e nem desmunhecando e não freqüenta o meio-gay. Diante dessa afirmação sinto-me à vontade para provocá-lo e digo Como você pode se considerar heterossexual, se outro dia vi você dando a bunda para outro cara na cabine de deficientes do banheiro aqui do transbordo? Obtenho como resposta que isso não tem nada a ver, ser bicha é se comportar como uma bichinha, se o cara é plantado 39, anda e fala como um homem, ele pode ser ativo ou passivo. Insisto e pergunto mais uma vez como ele se define sexualmente, pois, para a maioria das pessoas, dar a bunda não seria aceitável para um macho e ele responde: me considero um heterossexual passivo, sou casado, tenho filhos e respeito a sociedade e não saio por aí provocando e dando pinta. 39 O termo plantado é muito usado em chats e sites de relacionamentos gays para designar que não se é afeminado ou cheio de trejeitos, que coloquem em xeque a masculinidade e a virilidade.

55 O JOGO DAS HETEROSSEXUALIDADES FLEXÍVEIS Os relatos de campo apresentados acima mostram experiências em que a heterossexualidade se concretiza através de masculinidades e heterossexualidades flexíveis. O jovem que se auto-intitula heterossexual passivo, o segurança que, apesar de casado e pai de família, concede penetrar e ser penetrado por outro homem, e o professor casado que se envolve amorosamente com um aluno mais jovem e faz pegação em banheiro rasuram o sistema de gênero heteronormativo vigente na sociedade brasileira e latino-americana (FIGARI, 2008). As trajetórias eróticas desses homens adeptos da pegação em banheiro e suas práticas divergentes são uma ameaça à masculinidade hegemônica ou, se observarmos por outra ótica, podem colaborar para a manutenção desse modelo tradicional de masculinidade, pois tais práticas apenas são permitidas em contextos de anonimato. O meu objetivo nesse tópico é apresentar uma série de práticas sexuais de homens que se auto-identificam heterossexuais, observadas por mim em campo (a pegação no banheiro da Estação Lapa e Adjacências). Todas elas extrapolam o permissível pelos padrões da eroticidade heterossexual masculina hegemônica vigente. A leitura do artigo publicado por Figari (2008) intitulado Heterossexualidades Masculinas Flexibles influenciou a minha abordagem metodológica. No texto, baseado principalmente em observação participante e não participantes em darkrooms, saunas e outros lugares de encontro gay e mistos da Capital da Argentina, o autor descreve diversas possibilidades de variações eróticas consideradas por ele heteronormativas, uma vez que os diversos sujeitos envolvidos se autodenominam heterossexuais, embora, freqüentemente, fraturem, nas mais diversas performances sexuais, as concepções mais rígidas da masculinidade-heterossexualidade hegemônica. Tal como Figari, trabalharei nesta seção com descrição de cenas de campo e trechos de entrevistas para descrever essas performances divergentes do discurso hegemônico.

56 A sacanagem Todo mundo faz Por debaixo do pano tudo pode acontecer Parece, de fato, que a dinâmica das interações homoeróticas em contextos de anonimato (banheirão, escadas, praças, parques) proporciona a criação de arranjos que extrapolam os limites mais comuns dos contatos entre homens heterossexuais que se arrogam machos. Parker (1991) chama a atenção para expressões populares consolidadas no imaginário erótico no Brasil como debaixo do pano tudo pode acontecer, entre quatro paredes tudo pode acontecer ou ainda as paredes vêem, mas não falam que seriam índices da forte distinção entre as performances sexuais no público e privado na nossa cultura. Ainda no texto de Parker sobre a cultura sexual do Brasil contemporâneo, a fala de uma das informantes aponta para o fato de que é imprescindível estar escondido na hora do ato sexual, não importa se o cenário para as práticas é a casa. Elas podem se concretizar nas ruas, num beco escuro, ou em uma praia deserta. Estar distante daqueles para quem é preciso manter o status de macho, homem provedor e bem sucedido é indispensável para se poder flexibilizar a heterossexualidade. Os limites da casa, lugar do aconchego e valores familiares, necessitam ser respeitados. O lar é o local da sexualidade doméstica. Por outro lado, a rua da grande cidade, mesmo com a emancipação e a chegada da mulher ao mercado produtivo, continua a ser um domínio muito mais associado ao masculino. É o lugar do trabalho, também habitado por tipos considerados mais marginais como prostitutas, gays, boêmios, malandros. A rua é o território da vivência da liberdade, do perigo e também dos prazeres considerados dissidentes. As obras de Freyre (1992), Da Matta (1978, 1985) e Parker (1991) demonstram o poder da oposição rua versus casa na organização da vida diária dos brasileiros. Salvas raras exceções, os colaboradores da pesquisa acreditam que o contexto secreto do banheirão em que se pode ser anônimo em meio ao público é um dos poucos lugares da permissividade, da fantasia, do sexo menos domesticado e de exercício de um comportamento sexual que se distancia do ideal de masculinidade hegemônica. Até entre alguns que se autodenominam gays, a premissa de que a casa é o lugar do sexo limpinho e familiar e a rua está destinada ao sexo considerado sujo e selvagem prevalece. Ouvi de dois ex-namorados que conheci quando fazia pegação

57 57 no sanitário da Estação da Lapa, adeptos da prática de Fisting 40 e de Chuva Dourada 41 antes do início do relacionamento, que esse tipo de coisa não se faz com o namorado, pois se perde o respeito. A fala dos dois pareceu-me reforçar o velho discurso de que a única posição destinada aos conjugues é o papai e mamãe. Como vimos no capítulo anterior, a rua das grandes cidades potencializa encontros eróticos entre homens há séculos no Brasil. A seguir, com base em trechos de relatos etnográficos, procuraremos entender os fatores que funcionam como condicionantes para que esses homens, auto-identificados como heterossexuais, sejam atores de práticas que podem colocar em risco as suas condutas e reputações sexuais e destruir a imagem de homem de verdade e, ao mesmo tempo, ajudam a manter essa imagem perante os círculos profissionais e familiares. Anonimato do Centro Cena 1: Em conversa informal, em uma tarde na plataforma de serviços da Estação da Lapa, um empresário, negro, 40 anos, casado e que constantemente caça, entre um intervalo e outro, nos banheiros e escadas de emergência dos Shoppings Piedade, Center Lapa e da Estação da Lapa, enquanto faz compras para seu estabelecimento comercial na Avenida Sete de Setembro e na Rua Carlos Gomes, diz Eu não curto fazer pegação em praias 42 como o Jardim de Alah, na Pituba, e a Pedra do Sal, em Itapuã. Se me pegarem saindo de lá não terei álibi e vão dizer É viado, estava fazendo pegação. Caso seja surpreendido por um conhecido num dos sanitários daqui do Centro, disfarço e a desculpa é que estava mijando. Cena 2: Dois homens interagiam na escada de emergência do Center Lapa. Ambos aparentam entre 30 e 35 anos. Eles faziam sexo oral, beijavam-se e masturbavam-se mutuamente. Um deles era negro, magro, trajava camiseta listrada, 40 Fisting (do inglês. Fist - punho) Prática sexual que consiste em inserir o punho no ânus ou na vagina. É a exploração manual do reto e do "trato digestivo" ou da vagina como uma proposta de busca do prazer. 41 Ato de desfrutar da urina do parceiro. Os adeptos geralmente gostam de sentir a urina sobre a pele ou ingerir o líquido. A prática também é conhecida como golden shower (Estados Unidos) e watersports (Reino Unido) 42 Salvador é uma cidade litorânea, não existe aqui uma tradição de visitação a Parques como acontece em São Paulo. Apesar de já ter ouvido inúmeros relatos de Cruising de homens com práticas homoeróticas no Parque da Cidade (situado entre o Itaigara e o bairro de Santa Cruz), a prática da pegação ao ar livre acontece mesmo em praias como a do Jardim de Alah e da Pedra do Sal.

58 58 bermuda cargo e chinelos. O outro era branco para os padrões soteropolitanos, usava os cabelos alisados e tingidos de preto, tinha piercing na língua, trajava calça jeans skinning 43, camisa pólo cor de rosa, calçava um sapatênis e carregava um jaleco branco e um caderno. Em meio a troca de carícias, eles ejaculam. Fico sozinho na escada e resolvo retornar ao sanitário da Estação da Lapa. A pegação está correndo solta. Encosto no mictório dos fundos, onde vários homens se masturbam. Um deles, trajando bermuda preta e camiseta regata listrada e calçando um tênis estilo Jogging masturbava-se de olhando para o meu pênis que estava semi-hereto. O homem negro que anteriormente encontrei interagindo sexualmente na escada do Center Lapa observava, se aproximou de mim e, mexendo a cabeça e gesticulando discretamente, convidou-me a deixar o sanitário. Do lado de fora, ele pergunta se aceito ir até o edifício onde ele trabalhou por dois anos. Ele explica que o prédio, localizado nas imediações do Relógio de São Pedro, na Avenida Sete de Setembro, é cheio de consultórios médicos e está fechado a partir do 6º andar e confessa que sempre leva homens que encontra na Lapa para o 7º andar. Sigo com ele até o local. Tomamos o elevador que só vai até o 5º andar, subimos dois vãos de escada. O 7 andar sofre com infiltrações e alagamentos. O local é insalubre. Nas escada, ponho meu pênis para fora. Ele coloca-o na boca e em seguida pede para ser penetrado, mas o ato não se concretiza por falta de camisinha. Deixamos o edifício juntos. Ele pediu para que eu esqueça o que aconteceu, confessa-me que é heterossexual e tem uma companheira com quem mora no bairro de Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador e completa dizendo tudo que rolou morre aqui. Conto para ele que soube que nas ruínas de uma fábrica abandonada em Plataforma acontece muita pegação. Você freqüenta: Ele diz que não. No bairro onde eu moro é sujeira. Todo mundo me conhece. Eu só faço quando vou ao Centro. Hoje mesmo saí de casa para fazer um óculos aqui, pois tenho astigmatismo. Nos dois relatos de campo apresentados acima, os banheiros, escadas de emergência e prédios do Centro de Salvador proporcionam a esses dois homens casados e chefes de família o anonimato para exercer uma sexualidade considerada suja e que 43 Skinny é o modo como se é cortada a Calça Jeans, o corte é bem justo a perna tanto na coxa quanto na panturrilha, com o comprimento um pouco maior que o normal pode-se franzi-la um pouco no calcanhar, e se caso for um homem deve-se franzir também no joelho para que a calça não fique muito esticada com efeito de Leggin e a transformando em uma calça feminina.

59 59 poderia destruir suas reputações perante familiares, vizinhos e parceiros nos negócios. Mesmo que venham a ser surpreendidos por pessoas de um desses círculos, os fatos de urinar no intervalo das compras ou se deslocar para confeccionar óculos especiais para um determinado problema de visão constituem-se em álibis para eles, que, pelo visto, encontrariam dificuldades para explicar suas presenças durante a noite numa praia rotulada como um lugar de pegação gay ou nas ruínas de uma fábrica abandonada. Por essa razão, os banheiros da Estação da Lapa, dos Shoppings Center Lapa e Piedade são os lugares preferidos para que esses homens saiam à caça. É preciso explicitar que com o crescimento de Salvador novos centros vão surgindo e locais como as Estações Mussurunga e Pirajá vão se configurando como espaço de errância e desejância, mas muitos dos colaboradores dessa pesquisa sinalizaram que a proximidade de suas casas, a circulação de vizinhos e parentes são empecilhos para que se sintam à vontade para fazer pegação nesses lugares e, por isso, preferem a possibilidade do anonimato do Centro. As notícias veiculados nos meios de comunicação soteropolitanos e a minha própria vivência em espaços de pegação me fizeram acreditar na existência de uma vigilância mais truculenta à prática do banheirão em novos centros de convergência da periferia como as Estações Pirajá e Mussurunga e no Centro de Abastecimento de Paripe. Esse é um fator que também inibe a participação desses homens na pegação nos banheiros desses locais. No final da tarde da segunda-feira 23/07/2012, saí de casa em direção ao Centro de Abastecimento de Paripe para fazer compras. No trajeto, encontro ocasionalmente, um dos colaboradores da pesquisa. Marcos tem 28 anos, é evangélico, casado, pai de três filhos e trabalha em uma rede de lojas de eletrodomésticos. Cumprimentamos-nos, e logo em seguida ele me pergunta Tem ido lá (em referência a Estação da Lapa)? Eu respondi que não estava mais fazendo trabalho de campo, pois agora escrevia a dissertação. Ele, que antes trabalhava na filial no Shopping Piedade, disse ter sido transferido para a loja de Paripe. Eu o parabenizei pensando na transferência como uma ação benéfica para o comerciário, pois trabalharia perto de casa e não levaria uma hora para se deslocar. Ele afirmou ter detestado a medida, por agora ficar longe dos banheiros de pegação do Centro. Argumentei que a pegação era bastante forte nos banheiros do Centro de Abastecimento de Paripe e o rapaz retrucou Mas aqui no bairro é foda. Todo mundo conhece a gente. E a segurança é muito violenta. Esse horário

60 60 mesmo tem um baixinho escroto da porra, mete a porrada na galera e não deixa ninguém fazer nada. A noite já havia caído, encerramos o papo e fui com certa pressa para o banheiro do Centro de Abastecimento. Chegando lá me deparei com dois homens negros que se masturbavam no mictório. Eles estavam distantes um do outro e olhavam-se. Para não levantar suspeitas, peguei logo no meu pênis por cima da bermuda, alisei e mostrei para eles, que entenderam o código e não interromperam a interação. Eu parei em frente à pia e fingia lavar a mão enquanto observava, mas não demorou muito e fomos surpreendidos por uma dupla de seguranças patrimoniais que adentrou o sanitário gritando sai daí rebanho de viado. Em meio a uma sequência de gritos e palavrões, um deles apontou uma arma na cabeça de um dos rapazes. Os dois adeptos da pegação deixaram o sanitário apressadamente. Eu continuei fingindo lavar as mãos e tive que passar pelos dois seguranças que pararam na porta fazendo uma espécie de um corredor. Um deles apontava a arma para mim. No dia 09/09/2011, o Presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), Marcelo Cerqueira, encaminhou uma carta à Corregedoria da Polícia Militar do Estado da Bahia, solicitando a apuração do assassinato de um homem de 32 anos no sanitário da Estação Mussurunga 44. De acordo com o documento protocolado por Cerqueira, após receber denúncia de passageiros de que um grupo de homens fazia uma orgia no banheiro do local, um policial militar de serviço no terminal, por volta das 20h do domingo 04/09/11, teria atirado no abdômen de um dos homens adeptos da pegação, que chegou a ser socorrido por uma viatura da PM, mas não resistiu e morreu a caminho do hospital. 44 De acordo com informações do portal da TRANSALVADOR, a Estação Mussurunga foi inaugurada em 21 de novembro de 2001 e fica localizada na Avenida Luiz Viana Filho (Paralela), na entrada do bairro de Mussurunga. O terminal, que funciona 24 horas, possui uma área física coberta de m2 e verde paisagística de m2. A estrutura conta com dois sanitários para os passageiros e um exclusivo para rodoviários e funcionários, um estacionamento privativo e 25 telefones públicos, sendo um deles exclusivo para deficientes auditivos. Estão instalados no local, salas de administração e fiscalização, um módulo da Polícia Militar, duas guaritas, além de postos do Juizado de Menores (provisoriamente desativado), da Coordenação de Informação e Atendimento à Comunidade (CIAC), do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (SETPS) e do Grupo Especial de Repressão a Roubo de Coletivos da PM (GERC). Uma lanchonete, farmácia, agência do Banco Popular funcionam no local para atender os 30 mil usuários que embarcam e desembarcam diariamente na Estação Mussurunga. Trinta e uma linhas urbanas saem do terminal, são 115 ônibus circulando por hora, com uma frota de 144 veículos por dia.

61 61 Dias antes, no final da manhã do dia 31/08/2011, eu fazia observação participante na comunidade BSB Bofes Suburbanos da Bahia, do site de relacionamentos Orkut, quando fui surpreendido pelas comemorações de usuários daquela comunidade virtual. Eles festejavam com frases como Toda porrada para quem faz pegação em banheiros é pouco!, a chamada de uma das matérias do programa popularesco Que Venha ao Povo da TV Aratu, afiliada do SBT na Bahia, tinha como tema o espancamento de um Babalorixá adepto da pegação no sanitário público da Estação Pirajá 45. Na reportagem, o Babalorixá, negro relatou ter sido espancado nas dependências do banheiro por quatro Guardas Municipais que em seguida o fizeram sair nu no meio da Estação. Ele negou ter praticado a pegação e disse apenas estar utilizando o sanitário em companhia de um amigo, quando foi surpreendido pelos agentes que perguntaram se eram viados e, diante da resposta afirmativa, partiram para a agressão. Ainda na reportagem, ambulantes da Estação Pirajá afirmam que sanitário público é um ponto de encontro de homossexuais. O Silêncio Cena 1: No diálogo que tive como o segurança do Shopping ele conta-me que todo segurança faz. E já fez com três colegas no vestiário do Shopping Piedade e que o que é feito entre eles não vira boato, pois todos são casados. Ele também relata que na semana anterior, fez sexo com um policial colega de trabalho da esposa. Eu estava bebendo com ele, minha mulher e a dele na casa dele, no dia de Santo Antônio e percebi que ele olhava para minhas pernas diferente. Ficou tarde e acabamos dormindo na casa dele. Transamos a noite toda enquanto nossas esposas dormiam. Ele me chupou e eu chupei ele, comeu o meu cu e eu comi o dele. Foi massa. No outro dia fomos embora e fingimos que nada tinha acontecido. 45 De acordo com informações do portal da TRANSALVADOR, a Estação Pirajá foi inaugurada em 25 de novembro de 1994 e fica localizada Rua da Idonésia, s/nº - Campinas de Pirajá, nas proximidades da BR-324. O terminal, que funciona 24 horas, possui uma área física de m2. A estrutura conta com quatro sanitários e 20 telefones público, sendo que dois são destinados a portadores de deficiência visual e a cadeirantes. Estão instalados no local, salas de administração e fiscalização, um módulo da Polícia Militar, duas guaritas, além de postos do Juizado de Menores, da Coordenação de Informação e Atendimento à Comunidade (CIAC). Uma lanchonete, farmácia, casa lotérica, agência do Banco Popular, três terminais de auto-atendimento dos principais bancos funcionam na estação, que ainda conta 88 vendedores ambulantes cadastrados na prefeitura trabalhando. Diariamente, 130 mil pessoas embarcam e desembarcam nas três plataformas do terminal, por onde circulam 279 ônibus.

62 62 Para Figari (2008, p. 116), [...] La esperiencia del silêncio es una de las más atávicas, pero de las más fértiles, en materia de posibilidades de novedades semánticas que devengan en posteriores posibilidades linguísticas. Durante séculos, a experiência do silêncio foi fundamental para o exercício da sexualidade entre iguais no ocidente. A famosa expressão de Oscar Wilde O amor que não ousa dizer o nome denota o modo oculto que as relações entre homossexuais masculinos eram vividas. Neste caso, dois homens unidos pelos laços de amizade e sob o álibi da embriaguez alcoólica encontram uma brecha para um comportamento jamais permitido dentro do que ficou convencionalmente marcado para um macho nos limites do sistema de gênero brasileiro. Nessa circunstância silenciosa, na qual é permitido esquecer as práticas sexuais após a relação e fingir que a lógica da masculinidade hegemônica não foi rasurada, é possível para um homem de verdade extrapolar esses limites e se deixar ser penetrado por outro. A Sacanagem Cena 1: Um vendedor de uma casa de material elétrico, de 27 anos, que também se autodenomina heterossexual e confessou que, apesar de não ser gay, se apaixonou por um homem lindo e maravilhoso com quem interagiu sexualmente em um sanitário público da Estação Rodoviária. Quando perguntado se gostava de ser passivo respondeu que na sacanagem rola tudo, sendo com carinho rola tudo. Ele reiterou que encara sua performance sexual como tesão porque eu não me comporto como um gay, eu não me vejo como um gay, na verdade. Então, para mim é sexo, veio. E viva a sacanagem. Quando questionado se a família sabe dessa sua preferência sexual ele diz: Minha família, velho, não, não sabe não. Na verdade é uma coisa minha. Na verdade é sexo também e ainda completou contando que pretende casar e ter filhos. (ENTREVISTA FUNCIONÁRIO CASA DE MATERIAL ELÉTRICO ESTAÇÃO DA LAPA - 10/10/2011) Cena 2: Já se aproximava das 19 horas de uma quarta-feira do mês de Julho. Eu me masturbava junto a outros quatro homens no mictório da frente do Sanitário masculino do piso de serviços da Estação Lapa. Outros homens fingiam lavar as mão ou pentear os cabelos em frente às pias e espelhos e enquanto isso apalpavam o pênis

63 63 dentro das calças e de vez em quando colocavam para fora em parte ou na totalidade, escondendo rapidamente quando estavam prestes a serem surpreendidos por algum ser indesejado que não partilhava do desejo de fazer pegação e isso a gente percebia no olhar. De repente entrou André, e logo olhou para mim e mordeu os lábios me convocando para uma conversa fora do banheiro. Instantes depois o encontrei sentado à balaustrada, que fica em frente ao sanitário. Naquele horário, o barulho era ensurdecedor na Estação. Uma mulher que vendia chips para telefones celulares gritava alto anunciando seus produtos, o burburinho era grande na fila de compra de créditos para o Salvador Card. Eu encostei-me à balaustrada, olhei para ele e passei a mão no pênis semi-ereto. Meu gesto foi o suficiente para que André parasse ao meu lado e perguntasse se eu estava malhando (eu trajava short e camiseta de fitness e um tênis de jogging). Respondi para ele que iria para a academia na Ladeira do Camelô. Em seguida, ele disse que também precisava malhar para perder a barriga. De forma bastante objetiva e sem fazer voltas, perguntei se ele era ativo ou passivo no mesmo tempo e com a mesma objetividade obtive como resposta. Na sacanagem eu faço tudo, dar que eu não dou 46. Eu insisto e digo que sou viciado em comer um cuzinho e ele diz que com jeito tudo rola em quatro paredes, dependendo da porra na hora você mete a cabecinha, a putaria vence. Questiono se ele é viado e ele afirma sou casado, moro junto com uma mulher há 16 anos, tenho um filho de 13 anos e sempre curti a putaria. Se eu gostar do cara, faço direto essa porra. Na hora da putaria a gente faz tudo, eu não gosto de dar porque dói, mas a depender do tesão, se tiver uma xilocaína pro cara meter a cabecinha, é gostoso, mas se não tiver eu faço a putaria, deixo gozar na boca, tudo. Pergunto se a mulher dele desconfia e ele responde exaltando sua performance sexual: É só chegar em casa e dar pica a mulher que ela fica satisfeita e não desconfia. Se eu dormir com você vai ver que eu aguento foder a noite toda sem parar e meu pau não baixa não, gozo várias vezes. (André, 39 anos, casado, funcionário de um sindicato no Centro de Salvador) 46 É bom ressaltar que as palavras ativo/passivo, heterossexual/homossexual/bissexual são nomenclaturas consideradas clínicas para a maioria da população brasileira. A massa não se identifica com esses termos e desconhece os significados. Recentemente um vídeo gravado nas ruas de uma cidade da Paraíba demonstra que a maioria das pessoas desconhecia o significado da palavra heterossexual. Disponível: em: <http://www.youtube.com/watch?v=gpeseczrxqk&feature=related>. Acesso em: em: 02 jul

64 64 Segundo Parker, [...] O conceito de sacanagem liga noções de agressão e hostilidade, brincadeira e diversão, excitação sexual e prática erótica num único complexo simbólico. Usada de forma positiva ou negativa, indicando injustiça e violência, brincadeira, gozação, obscenidades e ofensas sexuais, materiais eróticos e pornográficos e práticas sexuais específicas, sacanagem significa desobediência a regras de decoro regras que devem controlar o fluxo da vida diária. Nos seus significados, corresponde a formas de transgressão ou rebelião simbólica rompimento das restrições que governam as relações sociais normais. Essa transgressão é mais claramente manifestada no sentido de fazer tudo que normalmente seria proibido. Pensando nas ações sexuais, a ideia de fazer tudo está no coração do que a grande maioria dos brasileiros define como boa sacanagem. (PARKER, 1991, p. 159, grifo nosso) Os exemplos etnográficos e a citação do texto de Richard Parker monstram como a sacanagem é a licença para que os homens adeptos da prática do banheirão extrapolem o que se convencionou permitido em uma relação sexual normativa. Nesse contexto, caem as regras do convívio social diário ascético. Os maridos, pais, filhos homens normais que no dia-a-dia se submetem a censura social, para a realização das fantasias homoeróticas, na cena quase recôndita do banheirão, encontram a licença na sacanagem, na qual vale tudo porque todo mundo faz. Essa possibilidade intempestiva de interação sexual coloca em tensão aquilo que Michel Foucault chamou, quando discutiu os usos dos prazeres, de práticas de si práticas construídas sobre si para a construção de um sujeito moral de si, em nome de um código moral vigente (FOUCAULT, 1984). Dada a perenidade do vínculo sexual, os sujeito que socialmente se afirmam machos de verdade atendendo às determinações da hipótese do determinismo biológico, mas também, sob a condição do sigilo e por meio da sacanagem, são capazes de fazer tudo. Esse jogo possui regras instáveis, nos quais os sujeitos imbricados, ao passo que se limitam pelos códigos morais hegemônicos vigentes, transformam-no a partir da produção de novas interpretações de si por meio de suas práticas. É assim, por exemplo, que o participante que se auto-identifica como heterossexual, no pragmatismo daquele contexto, sente-se à vontade para afirmar: na sacanagem eu faço tudo, dar que eu não dou. De fato, a posição passiva, a menos prestigiada pelo fato de ser a que mais aproxima o homem da figura feminina, é a que mais ameaçaria a heterossexualidade do Participante, fato que explica a advertência dar que eu não dou. Mas, até isso, foi

65 65 negociado quando, em tom provocador e incisivo, afirmei: sou viciado em comer um cuzinho, ao que ele respondeu: com jeito tudo rola em quatro paredes, dependendo da porra na hora você mete a cabecinha, a putaria vence. É precisamente neste contexto episódico, justificado pela fugacidade e brevidade do consórcio afetivo, dentro de quatro paredes que a putaria vence. O participante reelabora o discurso apagando-se da cena estrategicamente: em lugar do eu que figurava em na sacanagem eu faço de tudo, agora aparece, paradoxalmente, a putaria assujeitadora do eu, protagonizará a relação sexual em que passivo agora inominável é penetrado. A questão dentro e fora das quatro paredes parece desafiar a estrutura cotidiana narrada em ambiente familiar. Tais concepções também são observadas por Parker, para quem [a]s normalmente nítidas distinções entre interno e externo, entre privado e público, de repente se dissolvem e as estruturas da vida diária são reviradas, relativizadas e rearranjadas. Nesses momentos, de acordo com essa ideologia, qualquer coisa pode acontecer. Tudo é possível [...]. O conceito de tudo é fundamental. É central com sua correspondente mistura de tentação e perigo, ao que os brasileiros definem como sacanagem (PARKER,1991, p. 157). O tudo fundamental apontado por Parker, em 1991, ainda é audível pelos itinerários de práticas dissidentes de Salvador. Prova disso é a fala de um participante, também heterossexual, que, quando perguntado se gostava de ser passivo respondeu: na sacanagem rola tudo, sendo com carinho rola tudo. A sacanagem à brasileira parece sustar o discurso acerca das questões relativas à identidade sexual ou, ao menos, torná-lo uma questão periférica das conversas entre o dentro e o fora das quatro paredes. Para tencionar ainda mais a questão, perguntei ao participante como ele se encarava no que tange à identidade sexual. Não sem embaraço, ele respondeu que era apenas tesão, e justificou porque: eu não me comporto como um gay, eu não me vejo como um gay, na verdade. Então, para mim é sexo, veio. E viva a sacanagem!. 2.4 DESCARTO AFEMINADOS : ENTRE O CIBERESPAÇO E A RUA As mudanças na cena da pegação não são apenas provenientes das transformações urbanísticas sofridas pelas metrópoles e da privatização do circuito de

66 66 sexo. Com a emergência dos meios de comunicação, e mais precisamente o surgimento da Rede Mundial de Computadores (Internet), na década de 90 do século XX, um novo espaço público é criado e desponta como local de socialização para o público LGBT. Duarte e Nussbaumer (2001) consideram que o ciberespaço possibilita a gays e lésbicas a criação de lugares de encontro e interação social. No início do século XXI, os comunicólogos atentavam para o potencial do universo virtual em estabelecer laços para uma sociabilidade cada vez mais difícil de ser alcançada no espaço público das grandes cidades contemporâneas. Listas, sites, portais e chats direcionados ao público gay multiplicam-se de forma veloz na Internet, mas em 2004, o site de relacionamento Orkut é criado, e logo em seguida se torna febre entre os brasileiros. Com isso, diversas comunidades gays, lésbicas e simpatizantes, em que são discutidos temas que versam desde direitos humanos a encontros homoeróticos, despontam no Orkut. Atualmente, a rede social que perde espaço para o site de relacionamentos Facebook, ainda continua sendo popular no país, com mais de 32 milhões de usuários cadastrados. Como já pontuei no capítulo anterior, as discussões de internautas nos fóruns das comunidades do Orkut sobre interações homoeróticas em Salvador colaboraram na construção de uma topografia de locais de pegação na cidade. Tais comunidades apresentaram uma diversidade de discussões sobre a prática em locais públicos e, por muitas vezes, possibilitam a realização de marcação de encontros entre usuários em sanitários públicos da cidade. A descrição das comunidades em suas páginas principais é reveladora das representações e discursos sobre a prática da pegação e seus locais na capital baiana. O anonimato e a quebra de vínculo com o meio gay é o atrativo para os membros da comunidade Pegação com sigilo-salvador :

67 67 Figura 1: Pegação com sigilo Salvador DESCRIÇÃO DA COMUNIDADE PEGAÇÃO COM SIGILO - SALVADOR Nossa comunidade é pra galera que não pode ou não quer frequentar locais GLS, mas está afim de uma pegação real e com sigilo. É um espaço para nos conhecermos, trocarmos idéias, informações, tirarmos nossas dúvidas e principalmente marcarmos uma real. É para aquele cara (bi, gay, simpatizante, curioso, safado...) que está doido para rolar uma real e que nínguem pode desconfiar. Putaria e Discrição em Salvador / Bahia!!!!. (PEGAÇÃO COM SIGILO-SALVADOR. Disponível em: <http://www.orkut.com.br/main#community?cmm= >. Acesso em 10 mai. 2011). Os classificados do sexo que figuram na porta das cabines dos banheiros, através de grafitos, como documentou Barbosa (1986), passaram também a acontecer no fórum dessas comunidades. Em um dos fóruns de discussão da comunidade Clube do Banheiro SSA um dos participantes apela em busca de parceiro no tópico QUERO CHUPAR : Figura 2: Post Clube do Banheiro SSA

68 68 TRANSCRIÇÃO DO POST DE QUERO FAZER TUDO SOU PASSIVO, DISCRETO E AMO MAMAR UMA PICA, NÃO TENHO PRECONCEITO DE COR E NEM IDADE, APENAS PRECISA SER LIMPO, NÃO TENHO LOCAL, MAS SE QUISEREM POSSO IR AO BANHEIRO EXTRA RÓTULA E ATACADÃO RÓTULA QUE É TRANQUILO QUEM TIVER AFIM, ESTOU ON LINE NO MSN OU ME MANDA UM , MORO NO BAIRRO DO PAU MIÚDO. TENHO 25 ANOS, MORENO CLARO, CORPO NORMAL. OBS: NÃO VOU VIAJAR NO SÃO JOÃO! E TENHO FOTOS NO MSN (CLUBE DO BANHEIRO SSA. Disponível em: +CHUPAR. Acesso em: 20 mai. 2010) Os textos produzidos nelas são extremamente importantes para pensar a produção da pegação em Salvador. Com base na leitura de textos acadêmicos, em incursão na cena do banheirão e nos relatos de usuários do Orkut elaborei a seguinte lista sobre o Circuito de Pegação Homoerótica em Salvador: a) Banheiros o circuito do banheirão inclui os banheiros da Estação da Lapa, Center Lapa, Shopping Piedade, Fundação Politécnica, Cine Glauber Rocha, Shopping Iguatemi, Salvador Shopping, Estação de transbordo do Iguatemi, Terminal Rodoviário de Salvador, Edifício Empresarial Iguatemi, Edifício Capemi, Shopping Sumaré, Edifício Salvador Trade Center, Hiper Bom Preço do Iguatemi, Catedral da Fé da Igreja Universal (Iguatemi), Hipermercado Makro (Avenida Tancredo Neves), Shopping Itaigara, Imbuí Plaza Shopping, Extra Rótula, Extra Paralela, Extra Vasco da Gama, Shopping Barra, Vitória Center, Bom

69 69 Preço do Chame-chame, Shopping Ponto Alto (São Rafael), Centro de Abastecimento de Paripe e Feira de São Joaquim; b) Parques Parque da Cidade (Itaigara); c) Praias Jardim de Alah (Paredão e Autorama), Praia dos Artistas (Boca do Rio), Fundos do antigo Aeroclube Plaza Show, Pântano (nas imediações do antigo Casquinha de Siri), Pedra do Sal (Itapuã), Ponte do Sesc Piatã, Praia de Tubarão (Paripe), Farol da Barra e Cristo (Barra- Ondina); d) Praças Campo Grande, Praça Castro Alves; Além de ajudar a traçar uma topografia da cena da pegação na Capital Baiana, os fóruns nas comunidades do Orkut esboçam discursos sobre a prática de sexo impessoal em lugares públicos em Salvador. Neles estão expressos, medos, anseios, desejos, rejeições, cuidados e preocupações desses homens com desejo homoerótico. Em fórum da comunidade Clube do Banheiro SSA, os participantes fazem considerações sobre frequentadores, funcionamento, condições de higiene e segurança dos banheiros do Terminal Rodoviário de Salvador:

70 70 Figura 3: Pegação no Orkut Nós tópicos postados pelos usuários da rede social, é visível a vinculação do desejo homoerótico a valores ditados pelo estilo de vida gay baseado em seriados americanos como Dantes Cover e The Lair 47 e nas publicações para o público 47 Séries gays norte-americanas com personagens vampiros, quase uma versão homossexual da série de filmes crepúsculo.

71 71 homossexual masculino do Brasil com a Revista Junior em que todos os personagens são brancos, de classe média, consomem grifes e trabalham o corpo em academias de musculação. No mesmo fórum sobre o banheiro da Estação Rodoviária, um dos participantes reclama dessa ditadura: O problema é que todos só procuram os gatos, os malhados, os de corpos definidos e eles sabem disso.... É importante explicitar que num espaço como o Orkut os corpos são ressignificados e ganham uma nova construção virtual. Essas comunidades virtuais que versam sobre sexualidades não-convencionais são compostas em sua maioria por usuários com perfis fakes muitas vezes apelidados por eles como Orkut sujo, já que muitos desses usuários possuem perfis oficias para se relacionar com amigos, colegas de trabalho ou estudo e familiares. Esse é um espaço no qual pode-se ser o que se quer. Segundo Parreiras (2008) os fakes adotam diferentes procedimentos na escolha de seus avatares, e a principal característica é construírem uma imagem totalmente diferente daquela que apresentam no off-line. Logo, a maioria dos perfis das comunidades observadas apresenta fotos de homens, másculos, musculosos e próximos ao ideal barbie. Tal observação pode ser encontrada na descrição do perfil de um usuário do site disponivel.com 48, cujos desejos e compreensão de si projetam-no na configuração mais hegemônica dos desejos homo-orientados, a saber: 48 Os portais disponível.com e manhunt.net são os mais utilizados na Grande Salvador para encontros de parceiros para práticas homoeróticas. Durante a noite e nos finais de semanas, as referidas páginas chegam a registrar mais de 60 mil usuários online.

72 72 Figura 4: Perfil Disponível.com TRANSCRIÇÃO DO BOX DA FIGURA GERAL: Eu sou homem Querendo conhecer homem Para amizade, /chat, apenas sexo, sexo grupal, com no mínimo 20 até 43 anos. Sou um cara normal. Branco. Às vezes queimado de sol. Másculo (descarto afeminados, nada contra, somente não curto mesmo). SOBRE MIM: Sou somente ATIVO, mas curto muito beijar e todas as preliminares. Gosto de tudo o que a vida tem de bom a oferecer. Curto muito os verdadeiros amigos. PROCURO POR: Procuro caras discretos, de preferência versáteis, mas que curtam ser passivos. Com jeito, voz, cabeça e comportamento de homem. Que não sejam do meio gay nem afeminados, pois como já disse acima, apesar de não ter nada contra, não curto mesmo. Sigilo e discrição são imprescindíveis. (ANÚNCIO DO PERFIL BROTHER SANGUE BOM EM SITE DE RELACIONAMENTO GAY. Disponível: Em: 10/05/2011 grifo nosso) Nas exigências expressas no anúncio acima, o autor reafirma os ideais de masculinidade hegemônica vigentes no sistema de gênero brasileiro, privilegiando e normatizando a valorização e exaltação do macho, branco, jovem, viril e fora do meio em detrimento dos que podem ser identificados como gays, afeminados e indiscretos. O texto explicita que o individuo pode até ser passivo contanto que carregue características aproximadas de um ideal heteronormativo, sem comportamentos que remetam aos afeminados freqüentadores do meio gay.

73 73 A expressão descarto afeminados, que nomeia esta seção, é bastante utilizada por usuários de sites de anúncios de procura de parceiros sexuais ou amorosos como Manhunt e Disponível, salas de bate-papo e sítios de relacionamento como o Orkut e Facebook. Junto com termos como descarto gordo e prefiro plantados e foras do meio, ela dimensiona os corpos privilegiados e também os segregados na Web. Em estudo proveniente de incursão etnográfica em salas de bate-papo gay direcionadas ao público gay de São Paulo, Miskolci (2009) identificou um considerável número de usuários que se classificavam como macho e brother com intuito claro de fazer oposição àqueles que são identificados ou se assumem homossexuais (nesse caso, necessariamente passivo e/ou afeminado). Dos encontros combinados no ciberespaço, os internautas partem para um encontro avaliativo a partir dos contatos pessoais ( , telefone, programas de chat como MSN ou Skype). Miskolci relata uma situação bastante similar a que acontece nas redes em Salvador, a saber: O encontro face a face costuma ser de avaliação recíproca e segue quesitos como conformação a imagens dominantes de masculinidade. Muitos rapazes relatam contatos prévios por telefone para avaliar o tom de voz e conversa, ou seja, se o outro fala como macho, brother (o que é valorizado) ou se fala mole ou mia (termos pejorativos que associam o outro ao efeminamento e, sobretudo, à autodenunciação como gay). O conjunto procurado no parceiro soma a aparência física atraente, voz grave, conversa que expressa valores comuns, mas quase sempre tem como moldura a possibilidade de construir uma relação em segredo. (MISKOLCI, 2009, p. 181). Tal configuração de sujeitos também chega à errância do banheiro, embora não seja com o volume de exigências e expectativas que a internet, ao menos em teoria, demanda. Todavia, a relação entre machos e afeminados também parece se manter de maneira bastante hierarquizada. Tudo isso pode ser visto em outra narrativa feita por um internauta na comunidade Clube da Punheta Bahia, que relata, com um olhar bastante estigmatizador, a própria incursão no sanitário da Estação da Lapa. Gente, o que é aquilo, estava passando pela estação da lapa, para poder pegar o bus, eu estava apertado e nao queria voltar para o shopping para poder fazer minha necessidade, passei pelo banheiro, sabendoo q la rolava esses tipo de coisas, mas nao sabia q era daqele jeito, pessoas fazendo sexo oral na frente de todo mundo, tinha gente q entrava para as cabines para fazer sexo, e o pior é q o cara q toma conta do banheiro vendo tudo e dando risada, tinha tb varias bixinhas efeminadas no meio, coisa mas ridicula, sem falar do banheiro nojento

74 74 q é,, nao sei se alguém aki ja entrou nesse banheiro, a vontade q me deu foi de vomitar, uma sencação horrível eu sentir na hora quando vi aquela cena, sem falar nas doenças pos por ali passam mlhares de pessoas todos os dias com varios tipos de doença. A galera esquecem q hj em dia com os tgratamentos q existem a aids e outros tipos de DST nao tem mas caras. Antes vc via aquela pessoa toda acabada e falava ela estar com AIDS hj não vc ver caras malhados aparentemente esbanjando saúde mas so q estar com aids ou outra dst. Pessoal vamos nos policiar, pois o gay é vistoo como um meio por onde as dst se espalham. (post o usuário do Orkut da comunidade Clube da Punheta Bahia acesso em 21/07/2011) Na Cena do banheirão da Lapa e adjacências, os participantes da pegação também buscavam se relacionar com homens não-afeminados, sem afetações, machos e sem trejeitos. Logo, tornava-se mais valorizado sexualmente aquele que construía sua imagem com base em uma indumentária considerada discreta. Os caras plantados eram aqueles que exibiam virilidade e masculinidade com seus corpos sarados e, em uma cidade litorânea como Salvador, trajavam peças da moda Surf wear ou skate, que tradicionalmente compõem o guarda-roupa do moleque, malandro, jovem, viril e ativo. A meu ver foi curioso perceber que o corpo construído dentro dos padrões da masculinidade hegemônica havia sido eleito o predileto tanto pelos que se autodenominavam ativos (penetradores) quantos pelos passivos (penetrados). Essa constatação derrubou por terra aquela associação que ligava automaticamente passividade a feminilidade e atividade a virilidade masculina. Dentro do banheirão exige-se do passivo uma atitude de macho hegemônico. Nesse contexto, a virilidade masculina figura como a moeda de troca mais valorosa na relação entre homens. O excludente e crudelíssimo descarto afeminados ganha eco no discurso e na prática dos adeptos dessa modalidade erótica considerada dissidente e abjeta dentro do sistema heteronormativo vigente. Essa concepção fica clara na fala que capto de um dialogo entre dois jovens que conversam próximo a escada da última plataforma da Estação da Lapa: È um cara gostoso, malhado e macho, discreto e não dá pinta e adora sentar numa pica. (Estação da Lapa, tarde de 21/06/11) Em entrevista estruturada, na qual explicito a minha condição de adepto da pegação e pesquisador, um dos participantes, comerciário, negro, 27 anos e que se autodenomina heterossexual, ao ser questionado sobre com qual tipo de homem não se relacionaria sexualmente respondeu instantaneamente: O afeminado, velho. Não sobe

75 75 de jeito nenhum, velho. Não dá, não rola. Porque eu gosto da atração de homem com homem. É uma pegada diferente, é... Só eu sei viu. Em outra entrevista nos mesmos moldes, Candy, 27 anos, branco para os padrões soteropolitanos, estudante universitário e vendedor de uma loja de artigos para fazendas, que se autodenomina cem por cento homossexual, pois acredita que o termo tem mais poder político que palavras como gay e viado - busca nos banheiros de pegação satisfazer somente seus instintos sexuais, ser olhado, desejado e tocado e pensa que o par ideal não pode estar na cena do banheirão. Ele me contou no livro de regras do quero para mim não estão inclusas pessoas que freqüentam esse tipo de cenário. Aqui eu passo o meu tempo até chegar alguém que me faça não sentir mais vontade de freqüentar lugares como esse, alguém que me complete. Na estação da Lapa ele diz procurar caras com pegada máscula de homem e descarta bichas e tios queimados que não agüentam ver uma rola. Os discursos dos dois entrevistados sustentam a premissa de que, como em outros locais de sociabilidade homoerótica, na cena do banheirão da Lapa, em que a maioria dos participantes são negros ou mestiços, estudantes, trabalhadores e moradores do Subúrbio Ferroviário, da Periferia e de cidades da Região Metropolitana de Salvador, os privilegiados e mais cobiçados são os mais jovens, que se aproximam dos padrões de beleza televisivos, másculos, com corpos malhados e bem-dotados. É importante ressaltar que essas preferências não são fixas e imutáveis. Durante o campo, presenciei algumas vezes uma bicha com trejeitos afeminados, cabelos longos com tranças usadas cotidianamente pelas mulheres negras, trajando bermuda ciclista florida, camiseta curta e aparentado cerca de 45 anos, tornarse o objeto de desejo de muitos homens que pregavam o ódio aos afeminados, após deixar à mostra o pênis grande e grosso no mictório. Essas cenas, que se repetiram por três vezes, confirmaram a fala de um participante negro, homossexual assumido, de 25 anos, desempregado, corpo sarado e enquadrado nos padrões heteronormativos, que disse em uma conversa informal: para uma bicha afeminada ser aceita e desejada, ela precisa ter pau grande. Aí todos caem matando. Observei que um dos contextos de exceção, no qual é possível fechar, desmunhecar, barbarizar, fazer churria e dar pinta é uma roda de conversa que se forma durante a noite, próximo à última escada que dá acesso a plataforma A do Terminal. As conversas versam sobre temas como: quem é bonito, gostoso e desejado,

76 76 quais são os viados passivos, queimados, arrombados e também sobre experiências sexuais bem sucedidas e prazerosas. Para mim, foi perceptível que todos mudam a postura e procuram endurecer diante do mictório ou da escada na hora da pegação. Nesse momento, dar bandeira é digno de repúdio como veremos no relato a seguir: O malhado diz que não vai mais continuar, pois a escada está muita arriscada. Ele conta que, só durante a tarde, foi surpreendido no local por seguranças que o mandaram sair de lá por três vezes. Muitos deles são agressivos, xingam e humilham e têm o prazer de provocar constrangimento na gente em público, no meio do shopping, gritando vá fazer sua viadagem em outro lugar seu viado descarado. Eles só não me batem porque eu não demonstro medo enfrento mesmo. Um dia, um disse que era para eu descer pela saída da administração e eu respondi que saía por onde eu quisesse, mas [n]esses viados moles eles batem mesmo. Sinto na fala dele rejeição a afeminados, que é confirmada por um comentário de seu parceiro após a passagem de um gay efeminado (de cabelo grande e maquiagem no rosto, magro, trajando uma calça jeans com lycra e mini blusa amarela, umbigo com pircing à mostra) pela escada. É esse tipo de gente que atrapalha e queima a galera, disse. As bichas afeminadas é que levantam suspeitas na escada porque dão na pinta e chamam a atenção da segurança. (TRECHO DO DIÁRIO DE CAMPO, ESCADA DE EMERGÊNCIA DO SHOPPING CENTER LAPA, tarde de 21/06/11) Na hierarquia dos corpos da pegação da Estação da Lapa, mesmo em contexto de homens que exercem uma sexualidade considerada dissidente em relação aos padrões heteronormativos, existem corpos que são considerados privilegiados. Os homens másculos, viris, atléticos e ativos são os mais desejados. Já aqueles que se distanciam desse ideal, os afeminados, gordos e passivos, que se aproximam da figura feminina, são preteridos em relação aos machos e viris. Dessa forma, até nesse contexto de abjeção existe uma escala de valoração em que o passivo e afeminado ocupa o posto menos privilegiado. Os gordos e afeminados são os corpos que pesam (BUTLER, 2010), também, no limite discursivo do sexo, nos contextos de pegação homoerótica.

77 77 3 UM NEGÃO DESSE... VIADO! 49 : RAÇA, GÊNERO, SEXUALIDADES E TENSÕES NA PEGAÇÃO DA ESTAÇÃO DA LAPA O Mapa da População Preta & Parda no Brasil 50, construído a partir de números do Censo do IBGE de 2010, constatou que Salvador é a cidade com maior número de negros 51 do país. Segundo o levantamento, um quantitativo de 743, 7 mil habitantes se declarou preto. Outro dado de extrema relevância trazido pelo Censo de 2010 é o de que na Capital da Bahia a discrepância de rendimento entre pretos e brancos é maior do que em outras capitais brasileiras, os negros aqui recebem 3,2 vezes menos que os brancos. Em outras cidades do mesmo porte como Recife e Belo Horizonte a defasagem de renda dos negros em relação aos brancos é respectivamente de 3,0 e 2,9 vezes. Ao levar em conta os dados nacionais, os brancos ganham em média R$ 1.538, quase o dobro dos negros que em média recebem R$ 834. De acordo com a mesma pesquisa, o déficit educacional entre negros e brancos no Brasil também é gritante. A pesar de ter ocorrido uma aumento no número de alfabetizados em todo o país para todas as categorias de cor e raça, a taxa de analfabetismo entre pessoas a partir dos 15 anos é de 9,6%, mas quando a análise é realizada levando em conta as diversas etnias que povoam o nosso país, os números são bastante diversificados. O grupo dos pretos tem taxa de analfabetismo de 14,4%; dentre a população que se autodenominou parda, o percentual de analfabetos é de 13,0%. Esses números indicam uma taxa de analfabetismo entre pretos e pardos quase três vezes maior que a dos brancos que é de 5,9%. Mesmo com a política de Cotas para afro-descendentes em algumas das universidades públicas brasileiras, o último Censo do IBGE apontou que a maioria dos estudantes matriculados no ensino superior ainda é branca. Dentre os jovens brasileiros entre 15 e 24, que estavam inscritos em cursos de graduação, 31,1% eram brancos, 13,4% eram pardos e 12,8% eram pretos. Esses indicadores sócio-econômicos são indispensáveis para entender a dinâmica do meu objeto de pesquisa (a pegação entre homens no sanitário público da Estação e adjacências), porque, sem medo de exageros, é a Lapa a imensa maioria de 49 Expressão cotidianamente utilizada por moradores da periferia e do subúrbio de Salvador para manifestar indignação ou espanto ao saber que um homem negro e viril é homossexual 50 Dados disponíveis em: < Acesso em: 29 mar O termo negro engloba pretos e pardos.

78 78 usuários é negra. Apesar de não haver dados estatísticos sobre a cor dos usuários da Estação, meu olhar de pesquisador participante não pôde deixar escapar essa flagrante constatação. Isso ficou muito evidente para mim numa tarde de sábado em que, ao adentrar ao sanitário da Lapa, deparei-me com cinco homens negros masturbando-se mutuamente no mictório dos fundos. Tais cenas são bastante comuns na Lapa, local bastante inóspito e com precária infra-estrutura, fatos que, não raro, são atribuíveis ao descaso com a população negra e de baixa renda. Esse fator econômico também entra nas avaliações dos adeptos da pegação: há muitos relatos de que na Lapa só há gente feia, mal vestida, que só há ladrões identificados por roupas de surfwear do tipo Cyclone e que a Lapa é um local dantesco. Ajuda-me a compreender essa situação uma cena que testemunhei na escada de emergência do Shopping Center Lapa, nas proximidades da Estação. Essa escada, por ser procurada e de circulação bastante intensa, passou a ter acesso controlado pela segurança do Shopping. Bem na porta de acesso afixaram uma placa onde se lê: Escada de Emergência: acesso controlado pelo Departamento de Segurança. Um exemplo dessa cena na escada foi a experiência por que passei em abril de 2011 quando, ao descer a escada, deparei-me com dois jovens de no máximo 30 anos que interagiam eroticamente das mais diversas formas. Juntei-me a eles e, para a nossa surpresa, o segurança que fazia incursões na escada coagiu a nossa interação com palavrões, gritos e xingamentos e fez com que nos dispersássemos, o que não nos inibiu de todo. Minutos depois, voltamos a nos encontrar no mesmo local e um dos rapazes sugeriu que fôssemos à Lapa por lá ter menos vigilância hostil. Sem mesmo o rapaz terminar a formulação da proposta, o terceiro interrompeu-lhe com sentenças sumárias sobre o local: Na Lapa não vou não! Não gosto daquele lugar... é sujo, cheio de sacizeiro e ladrão!. Essa não é uma opinião pontual, restrita a esse jovem. Muitos praticantes do sexo público têm a mesma opinião e, ao observar a comunidade Clube do Banheiro SSA, verifico que é possível constatar um foro privilegiado de banheiros associados às zonas mais nobres da cidade. A relação parece ser diretamente proporcional, embora

79 79 não de modo determinista: quanto mais nobre é a região mais bonitas 52 seriam as pessoas que lá estão; quanto mais pobre e utilizada pela periferia mais feias as pessoas. O post de um dos integrantes da comunidade aponta para o fato de como essa cena da pegação é pensada pelos adeptos através das redes sociais. Nesse comentário, Garotão Bahia traça um itinerário que percorreu para aferir a qualidade e a veracidade da pegação nos banheiros comentados da comunidade, a saber: Figura 5: Clube do Banheiro SSA TRANSCRIÇÃO DO POST DE GAROTÃO BAHIA MITOS E FATOS SOBRE OS BANHEIROS DE SSA GALERA, Este sábado dei uma vlta pelos banheiros da cidade e te difo o que é verdade ou mentira sobre eles. Vamos iniciar o ROTEIRO: Banheiro do Bompreço Rio Vermelho lá é bem sujo e aparece caras querendo sim mas são bizarros muito feios. Banheiro do Shopping Rio Vermelho lá é bem tranquilo, ambiente limpo e dava pra rolar uma transa tranquila ali ams nao aparece ninguém. Banheiro do Bompreço do Shop.Barra lá é certeza encontrar macho querendo mas a galera nem disfarça ali o local fica meio visado aparecem caras bonitos outros nem tanto. 52 A expressão gente bonita - massivamente utilizada pelos grandes blocos de carnaval de Salvador para vender seus produtos (abadas, ingressos para shows e etc) - é sinônimo de branquitude. Para mim, uma imagem marcante dos anos 90 é o comercial de TV do Eva, que geralmente ia ao ar, logo após o Carnaval. Tenho em mente o texto do locutor "Eva o metro quadrado mais bonito da avenida" e a sequência de imagens em câmera lenta de longas madeixas loiras sacudindo de um lado para o outro. Aquilo representava para mim uma das maiores expressões do racismo velado brasileiro. Eu me sentia agredido.

Transcriça o da Entrevista

Transcriça o da Entrevista Transcriça o da Entrevista Entrevistadora: Valéria de Assumpção Silva Entrevistada: Ex praticante Clarice Local: Núcleo de Arte Grécia Data: 08.10.2013 Horário: 14h Duração da entrevista: 1h COR PRETA

Leia mais

I - RELATÓRIO DO PROCESSADOR *

I - RELATÓRIO DO PROCESSADOR * PSICODRAMA DA ÉTICA Local no. 107 - Adm. Regional do Ipiranga Diretora: Débora Oliveira Diogo Público: Servidor Coordenadora: Marisa Greeb São Paulo 21/03/2001 I - RELATÓRIO DO PROCESSADOR * Local...:

Leia mais

ENTRE FERAS CAPÍTULO 16 NOVELA DE: RÔMULO GUILHERME ESCRITA POR: RÔMULO GUILHERME

ENTRE FERAS CAPÍTULO 16 NOVELA DE: RÔMULO GUILHERME ESCRITA POR: RÔMULO GUILHERME ENTRE FERAS CAPÍTULO 16 NOVELA DE: RÔMULO GUILHERME ESCRITA POR: RÔMULO GUILHERME CENA 1. HOSPITAL. QUARTO DE. INTERIOR. NOITE Fernanda está dormindo. Seus pulsos estão enfaixados. Uma enfermeira entra,

Leia mais

O QUE OS ALUNOS DIZEM SOBRE O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: VOZES E VISÕES

O QUE OS ALUNOS DIZEM SOBRE O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: VOZES E VISÕES O QUE OS ALUNOS DIZEM SOBRE O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: VOZES E VISÕES Aline Patrícia da Silva (Departamento de Letras - UFRN) Camila Maria Gomes (Departamento de Letras - UFRN) Orientadora: Profª Dra.

Leia mais

Qual o Sentido do Natal?

Qual o Sentido do Natal? Qual o Sentido do Natal? Por Sulamita Ricardo Personagens: José- Maria- Rei1- Rei2- Rei3- Pastor 1- Pastor 2- Pastor 3-1ª Cena Uma música de natal toca Os personagens entram. Primeiro entram José e Maria

Leia mais

RECUPERAÇÃO DE IMAGEM

RECUPERAÇÃO DE IMAGEM RECUPERAÇÃO DE IMAGEM Quero que saibam que os dias que se seguiram não foram fáceis para mim. Porém, quando tornei a sair consciente, expus ao professor tudo o que estava acontecendo comigo, e como eu

Leia mais

Como escrever um estudo de caso que é um estudo de caso? Um estudo so é um quebra-cabeça que tem de ser resolvido. A primeira coisa a

Como escrever um estudo de caso que é um estudo de caso? Um estudo so é um quebra-cabeça que tem de ser resolvido. A primeira coisa a Página 1 1 Como escrever um Estudo de Caso O que é um estudo de caso? Um estudo de caso é um quebra-cabeça que tem de ser resolvido. A primeira coisa a lembre-se de escrever um estudo de caso é que o caso

Leia mais

JOSÉ DE SOUZA CASTRO 1

JOSÉ DE SOUZA CASTRO 1 1 JOSÉ DE SOUZA CASTRO 1 ENTREGADOR DE CARGAS 32 ANOS DE TRABALHO Transportadora Fácil Idade: 53 anos, nascido em Quixadá, Ceará Esposa: Raimunda Cruz de Castro Filhos: Marcílio, Liana e Luciana Durante

Leia mais

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA GRAVIDEZ: A EXPERIÊNCIA DA MATERNIDADE EM INSTITUIÇÃO DADOS SÓCIO-DEMOGRÁFICOS. Idade na admissão.

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA GRAVIDEZ: A EXPERIÊNCIA DA MATERNIDADE EM INSTITUIÇÃO DADOS SÓCIO-DEMOGRÁFICOS. Idade na admissão. REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA GRAVIDEZ: A EXPERIÊNCIA DA MATERNIDADE EM INSTITUIÇÃO Código Entrevista: 2 Data: 18/10/2010 Hora: 16h00 Duração: 23:43 Local: Casa de Santa Isabel DADOS SÓCIO-DEMOGRÁFICOS Idade

Leia mais

O QUE MAIS ESTRESSA O CARIOCA? FEVEREIRO

O QUE MAIS ESTRESSA O CARIOCA? FEVEREIRO Enquete Algumas reportagens e matérias dão conta que o Brasil é o segundo país mais estressado do mundo e o trabalho é apontado como uma das principais causas desse mal. Porém, nem só de trabalho vive

Leia mais

Salvador/BA - Todo mundo quebrado: Elevador Lacerda para e usuários usam ônibus ou o próprio fôlego

Salvador/BA - Todo mundo quebrado: Elevador Lacerda para e usuários usam ônibus ou o próprio fôlego Salvador/BA - Todo mundo quebrado: Elevador Lacerda para e usuários usam ônibus ou o próprio fôlego As cidades alta e baixa, antes separadas apenas por R$ 0,15 e 22 segundos de travessia, estão mais distantes

Leia mais

Dicas para investir em Imóveis

Dicas para investir em Imóveis Dicas para investir em Imóveis Aqui exploraremos dicas de como investir quando investir e porque investir em imóveis. Hoje estamos vivendo numa crise política, alta taxa de desemprego, dólar nas alturas,

Leia mais

UMA PIZZA CHAMADA DESEJO. por. Rodrigo Ferrari. Versão final 02/09/2011

UMA PIZZA CHAMADA DESEJO. por. Rodrigo Ferrari. Versão final 02/09/2011 UMA PIZZA CHAMADA DESEJO por Rodrigo Ferrari Versão final 02/09/2011 rodrigoferrari@gmail.com (21)9697.0419 Iluminados, no fundo do palco, BLANCHE e o. O Médico veste um jaleco branco, estetoscópio, óculos

Leia mais

Quem tem medo da Fada Azul?

Quem tem medo da Fada Azul? Quem tem medo da Fada Azul? Lino de Albergaria Quem tem medo da Fada Azul? Ilustrações de Andréa Vilela 1ª Edição POD Petrópolis KBR 2015 Edição de Texto Noga Sklar Ilustrações Andréa Vilela Capa KBR

Leia mais

Profissão: Estudantes de Jornalismo

Profissão: Estudantes de Jornalismo Profissão: Estudantes de Jornalismo Gus Vieira O jornalista tem uma função social bem clara: disponibilizar para a sociedade informação ética, de qualidade e democrática, atendendo ao interesse público.

Leia mais

Entrevista Noemi Rodrigues (Associação dos Pescadores de Guaíba) e Mário Norberto, pescador. Por que de ter uma associação específica de pescadores?

Entrevista Noemi Rodrigues (Associação dos Pescadores de Guaíba) e Mário Norberto, pescador. Por que de ter uma associação específica de pescadores? Entrevista Noemi Rodrigues (Associação dos Pescadores de Guaíba) e Mário Norberto, pescador. Por que de ter uma associação específica de pescadores? Noemi: É a velha história, uma andorinha não faz verão,

Leia mais

www.jyotimaflak.com Glücks- Akademie mit JyotiMa Flak Academia da felizidade com JyotiMa Flak

www.jyotimaflak.com Glücks- Akademie mit JyotiMa Flak Academia da felizidade com JyotiMa Flak www.jyotimaflak.com Glücks- Akademie mit JyotiMa Flak Academia da felizidade com JyotiMa Flak Entrevista com Ezequiel Quem é você? Meu nome é Ezequiel, sou natural do Rio de Janeiro, tenho 38 anos, fui

Leia mais

O mar de Copacabana estava estranhamente calmo, ao contrário

O mar de Copacabana estava estranhamente calmo, ao contrário epílogo O mar de Copacabana estava estranhamente calmo, ao contrário do rebuliço que batia em seu peito. Quase um ano havia se passado. O verão começava novamente hoje, ao pôr do sol, mas Line sabia que,

Leia mais

PROJETO PROFISSÕES. Entrevista com DJ

PROJETO PROFISSÕES. Entrevista com DJ Entrevista com DJ Meu nome é Raul Aguilera, minha profissão é disc-jóquei, ou DJ, como é mais conhecida. Quando comecei a tocar, em festinhas da escola e em casa, essas festas eram chamadas de "brincadeiras

Leia mais

Sinopse I. Idosos Institucionalizados

Sinopse I. Idosos Institucionalizados II 1 Indicadores Entrevistados Sinopse I. Idosos Institucionalizados Privação Até agora temos vivido, a partir de agora não sei Inclui médico, enfermeiro, e tudo o que for preciso de higiene somos nós

Leia mais

14 segredos que você jamais deve contar a ele

14 segredos que você jamais deve contar a ele Link da matéria : http://www.dicasdemulher.com.br/segredos-que-voce-jamais-deve-contar-aele/ DICAS DE MULHER DICAS DE COMPORTAMENTO 14 segredos que você jamais deve contar a ele Algumas lembranças e comentários

Leia mais

Unidade 2: A família de Deus cresce José perdoa

Unidade 2: A família de Deus cresce José perdoa Olhando as peças Histórias de Deus:Gênesis-Apocalipse 3 a 6 anos Unidade 2: A família de Deus cresce José perdoa História Bíblica: Gênesis 41-47:12 A história de José continua com ele saindo da prisão

Leia mais

Rica. Eu quero ser... Especial ???????? Luquet. Um guia para encontrar a rota da prosperidade. Apoio: por Mara. Elas&Lucros

Rica. Eu quero ser... Especial ???????? Luquet. Um guia para encontrar a rota da prosperidade. Apoio: por Mara. Elas&Lucros ???????? Apoio: Rica Eu quero ser... Um guia para encontrar a rota da prosperidade por Mara Luquet 81 Era uma vez... Era uma vez uma princesa, dessas que passeiam pelos campos e bosques e são muito bonitas

Leia mais

SEGURANÇA PESSOAL ÁREAS DE ALTO RISCO. Dicas para não se tornar uma vítima da VIOLÊNCIA URBANA

SEGURANÇA PESSOAL ÁREAS DE ALTO RISCO. Dicas para não se tornar uma vítima da VIOLÊNCIA URBANA SEGURANÇA PESSOAL EM ÁREAS DE ALTO RISCO Dicas para não se tornar uma vítima da VIOLÊNCIA URBANA A segurança e o bem-estar de todos por um Guaporé melhor a cada dia. MUNICÍPIO DE GUAPORÉ Av. Silvio Sanson,

Leia mais

História Para as Crianças. A menina que caçoou

História Para as Crianças. A menina que caçoou História Para as Crianças A menina que caçoou Bom dia crianças, feliz sábado! Uma vez, do outro lado do mundo, em um lugar chamado Austrália vivia uma menina. Ela não era tão alta como algumas meninas

Leia mais

Desafio para a família

Desafio para a família Desafio para a família Família é ideia de Deus, geradora de personalidade, melhor lugar para a formação do caráter, da ética, da moral e da espiritualidade. O sonho de Deus para a família é que seja um

Leia mais

ATIVISMO E SALA DE AULA: O ENTRE - LUGAR

ATIVISMO E SALA DE AULA: O ENTRE - LUGAR ATIVISMO E SALA DE AULA: O ENTRE - LUGAR Margarete de Carvalho Santos 1 Bárbara Elcimar dos Reis Alves 2 Lesbibahia é uma articulação de lésbicas e mulheres bissexuais que inicia a atuação de forma especifica

Leia mais

Corpos em cena na formação crítica docente. Rosane Rocha Pessoa Universidade Federal de Goiás

Corpos em cena na formação crítica docente. Rosane Rocha Pessoa Universidade Federal de Goiás Corpos em cena na formação crítica docente Rosane Rocha Pessoa Universidade Federal de Goiás 1 Nosso trabalho na perspectiva crítica Objetivo: problematizar questões sociais e relações desiguais de poder

Leia mais

Existe espaço para os covers mostrarem seus trabalhos? As pessoas dão oportunidades?

Existe espaço para os covers mostrarem seus trabalhos? As pessoas dão oportunidades? A Estação Pilh@ também traz uma entrevista com Rodrigo Teaser, cover do Michael Jackson reconhecido pela Sony Music. A seguir, você encontra os ingredientes da longa história marcada por grandes shows,

Leia mais

Atividades Lição 5 ESCOLA É LUGAR DE APRENDER

Atividades Lição 5 ESCOLA É LUGAR DE APRENDER Atividades Lição 5 NOME: N º : CLASSE: ESCOLA É LUGAR DE APRENDER 1. CANTE A MÚSICA, IDENTIFICANDO AS PALAVRAS. A PALAVRA PIRULITO APARECE DUAS VEZES. ONDE ESTÃO? PINTE-AS.. PIRULITO QUE BATE BATE PIRULITO

Leia mais

Para gostar de pensar

Para gostar de pensar Rosângela Trajano Para gostar de pensar Volume III - 3º ano Para gostar de pensar (Filosofia para crianças) Volume III 3º ano Para gostar de pensar Filosofia para crianças Volume III 3º ano Projeto editorial

Leia mais

Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, após encontro com a Senadora Ingrid Betancourt

Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, após encontro com a Senadora Ingrid Betancourt Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, após encontro com a Senadora Ingrid Betancourt São Paulo-SP, 05 de dezembro de 2008 Presidente: A minha presença aqui

Leia mais

A última relação sexual

A última relação sexual PARTE G QUESTIONÁRIO AUTO-PREENCHIDO (V1 - M) As próximas perguntas são sobre a sua vida sexual. É muito importante que responda, pois só assim poderemos ter informação sobre os hábitos sexuais da população

Leia mais

SEXUALIDADE: DESATANDO OS NÓS NA ADOLESCÊNCIA

SEXUALIDADE: DESATANDO OS NÓS NA ADOLESCÊNCIA SEXUALIDADE: DESATANDO OS NÓS NA ADOLESCÊNCIA Por Marcos Ribeiro* Um pouco dessa história começa por volta dos 10/12 anos, quando meninos e meninas começam a sofrer as primeiras transformações físicas,

Leia mais

Sal, Pimenta, Alho e Noz Moscada.

Sal, Pimenta, Alho e Noz Moscada. Sal, Pimenta, Alho e Noz Moscada. Cláudia Barral (A sala é bastante comum, apenas um detalhe a difere de outras salas de apartamentos que se costuma ver ordinariamente: a presença de uma câmera de vídeo

Leia mais

Categorias Subcategorias Unidades de registo. Situação. Sai da escola e ia para casa da minha mãe (F1) Experiência de assalto

Categorias Subcategorias Unidades de registo. Situação. Sai da escola e ia para casa da minha mãe (F1) Experiência de assalto Categorias Subcategorias Unidades de registo Experiência de assalto Situação Sai da escola e ia para casa da minha mãe (F1) Estava a ir para a escola (F2) Estava a sair da escola e quando cheguei à porta

Leia mais

O LAVA JATO MACABRO. Por JULIANO FIGUEIREDO DA SILVA

O LAVA JATO MACABRO. Por JULIANO FIGUEIREDO DA SILVA O LAVA JATO MACABRO Por JULIANO FIGUEIREDO DA SILVA Rua alameda dom Pedro II n 718 Venda da cruz São Gonçalo. e-mail:jfigueiredo759@gmail.com TEL: (21)92303033 EXT.LAGE DA CASA.DIA Renam está sentado na

Leia mais

MALDITO. de Kelly Furlanetto Soares. Peça escritadurante a Oficina Regular do Núcleo de Dramaturgia SESI PR.Teatro Guaíra, no ano de 2012.

MALDITO. de Kelly Furlanetto Soares. Peça escritadurante a Oficina Regular do Núcleo de Dramaturgia SESI PR.Teatro Guaíra, no ano de 2012. MALDITO de Kelly Furlanetto Soares Peça escritadurante a Oficina Regular do Núcleo de Dramaturgia SESI PR.Teatro Guaíra, no ano de 2012. 1 Em uma praça ao lado de uma universidade está sentado um pai a

Leia mais

Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no hotel Skt. Petri

Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no hotel Skt. Petri Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no hotel Skt. Petri Copenhague-Dinamarca, 01 de outubro de 2009 Bem, primeiro dizer a vocês da alegria de poder estar

Leia mais

12:00 Palestra: Jesus confia nos Jovens -Por isso entrega sua mãe - Telmo

12:00 Palestra: Jesus confia nos Jovens -Por isso entrega sua mãe - Telmo 2:00 Palestra: Jesus confia nos Jovens -Por isso entrega sua mãe - Telmo Amados de Deus, a paz de Jesus... Orei e pensei muito para que Jesus me usasse para poder neste dia iniciar esta pregação com a

Leia mais

Superando Seus Limites

Superando Seus Limites Superando Seus Limites Como Explorar seu Potencial para ter mais Resultados Minicurso Parte VI A fonte do sucesso ou fracasso: Valores e Crenças (continuação) Página 2 de 16 PARTE 5.2 Crenças e regras!

Leia mais

12/02/2010. Presidência da República Secretaria de Imprensa Discurso do Presidente da República

12/02/2010. Presidência da República Secretaria de Imprensa Discurso do Presidente da República , Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de inauguração da Escola Municipal Jornalista Jaime Câmara e alusiva à visita às unidades habitacionais do PAC - Pró-Moradia no Jardim do Cerrado e Jardim Mundo

Leia mais

CAPA. Transporte público,

CAPA. Transporte público, Transporte público, insatisfação c O Idec testou os ônibus e o metrô de Belo Horizonte e de São Paulo e constatou demora, superlotação e outros problemas que desrespeitam os direitos do usuário Shutterstock/Montagem

Leia mais

JPEG JOVENS EM PEQUENO GRUPO

JPEG JOVENS EM PEQUENO GRUPO ORIENTAÇÕES BÁSICAS JPEG JOVENS EM PEQUENO GRUPO JPEG é Jovens em Pequenos Grupos. A nova identidade dos pequenos grupos para jovens. NECESSIDADE DE ORGANIZAÇÃO DA IGREJA PEQUENOS GRUPOS Pequenos grupos

Leia mais

Unidade 4: Obedeça ao Senhor Neemias e o muro

Unidade 4: Obedeça ao Senhor Neemias e o muro Histórias do Velho Testamento 3 a 6 anos Histórias de Deus:Gênesis-Apocalipse Unidade 4: Obedeça ao Senhor Neemias e o muro O Velho Testamento está cheio de histórias que Deus nos deu, espantosas e verdadeiras.

Leia mais

30/09/2008. Entrevista do Presidente da República

30/09/2008. Entrevista do Presidente da República Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em conjunto com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, com perguntas respondidas pelo presidente Lula Manaus-AM,

Leia mais

Lideranças do movimento Moinhos Vive relembram luta dos bairros de Porto Alegre (RS) contra especulação imobiliária

Lideranças do movimento Moinhos Vive relembram luta dos bairros de Porto Alegre (RS) contra especulação imobiliária Lideranças do movimento Moinhos Vive relembram luta dos bairros de Porto Alegre (RS) contra especulação imobiliária Casarões da Luciana de Abreu estão há 11 anos em disputa na Justiça Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Leia mais

Prefeito de São Bernardo do Campo: Hoje tem um show no Cedesc, às 18 horas (incompreensível).

Prefeito de São Bernardo do Campo: Hoje tem um show no Cedesc, às 18 horas (incompreensível). , Luiz Inácio Lula da Silva, durante a inauguração da República Terapêutica e do Consultório de Rua para Dependentes Químicos e outras ações relacionadas ao Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack São

Leia mais

"ATIROU PARA MATAR" Um roteiro de. Nuno Balducci (6º TRATAMENTO)

ATIROU PARA MATAR Um roteiro de. Nuno Balducci (6º TRATAMENTO) "ATIROU PARA MATAR" Um roteiro de Nuno Balducci (6º TRATAMENTO) Copyright 2013 de Nuno Balducci Todos os direitos reservados. balducci.vu@gmail.com (82) 96669831 1 INT. DIA. LANCHONETE CHINESA Uma GAROTA

Leia mais

Geração Graças Peça: Os Cofrinhos

Geração Graças Peça: Os Cofrinhos Geração Graças Peça: Os Cofrinhos Autora: Tell Aragão Personagens: Voz - não aparece mendigo/pessoa Nervosa/Ladrão faz os três personagens Menina 1 Menina 2 Voz: Era uma vez, duas irmãs que ganharam dois

Leia mais

O NASCIMENTO DO SALVADOR

O NASCIMENTO DO SALVADOR Mensagem pregada pelo Pr Luciano R. Peterlevitz no culto de natal na Igreja Batista Novo Coração, em 20 de dezembro de 2015. Evangelho de Lucas 2.8-20: 8 Havia pastores que estavam nos campos próximos

Leia mais

Percursos da pesquisa de campo: as rodas de conversas e a caracterização dos jovens e seus contextos

Percursos da pesquisa de campo: as rodas de conversas e a caracterização dos jovens e seus contextos 44 5. Percursos da pesquisa de campo: as rodas de conversas e a caracterização dos jovens e seus contextos As rodas de conversa tiveram como proposta convidar os participantes a debater o tema da violência

Leia mais

Presidência da República Casa Civil Secretaria de Administração Diretoria de Gestão de Pessoas Coordenação Geral de Documentação e Informação

Presidência da República Casa Civil Secretaria de Administração Diretoria de Gestão de Pessoas Coordenação Geral de Documentação e Informação Presidência da República Casa Civil Secretaria de Administração Diretoria de Gestão de Pessoas Coordenação Geral de Documentação e Informação Coordenação de Biblioteca 14 Discurso: em encontro com professores

Leia mais

Lição 10 Batismo Mergulhando em Jesus

Lição 10 Batismo Mergulhando em Jesus Ensino - Ensino 11 - Anos 11 Anos Lição 10 Batismo Mergulhando em Jesus História Bíblica: Mateus 3:13 a 17; Marcos 1:9 a 11; Lucas 3:21 a 22 João Batista estava no rio Jordão batizando as pessoas que queriam

Leia mais

DESAFIOS CRIATIVOS E FASCINANTES Aula de Filosofia: busca de valores humanos

DESAFIOS CRIATIVOS E FASCINANTES Aula de Filosofia: busca de valores humanos DESAFIOS CRIATIVOS E FASCINANTES Aula de Filosofia: busca de valores humanos Glorinha Aguiar glorinhaaguiar@uol.com.br Eu queria testar a metodologia criativa com alunos que eu não conhecesse. Teria de

Leia mais

LIÇÃO 8 MANSIDÃO: Agir com mansidão com todos

LIÇÃO 8 MANSIDÃO: Agir com mansidão com todos Lição 3: Alegria LIÇÃO 8 MANSIDÃO: Agir com mansidão com todos RESUMO BÍBLICO Gálatas 5:23; Gálatas 6:1; 2 Timóteo 2:25; Tito 3; 1 Pedro 3:16 Como seres humanos estamos sempre à mercê de situações sobre

Leia mais

A Cura de Naamã - O Comandante do Exército da Síria

A Cura de Naamã - O Comandante do Exército da Síria A Cura de Naamã - O Comandante do Exército da Síria Samaria: Era a Capital do Reino de Israel O Reino do Norte, era formado pelas 10 tribos de Israel, 10 filhos de Jacó. Samaria ficava a 67 KM de Jerusalém,

Leia mais

EDUCAÇÃO ALGÉBRICA, DIÁLOGOS E APRENDIZAGEM: UM RELATO DO TRABALHO COM UMA PROPOSTA DIDÁTICA 1

EDUCAÇÃO ALGÉBRICA, DIÁLOGOS E APRENDIZAGEM: UM RELATO DO TRABALHO COM UMA PROPOSTA DIDÁTICA 1 EDUCAÇÃO ALGÉBRICA, DIÁLOGOS E APRENDIZAGEM: UM RELATO DO TRABALHO COM UMA PROPOSTA DIDÁTICA 1 Claudemir Monteiro Lima Secretária de Educação do Estado de São Paulo claudemirmonteiro@terra.com.br João

Leia mais

O passageiro. 1.Edição. Edição do Autor

O passageiro. 1.Edição. Edição do Autor 1 1.Edição Edição do Autor 2012 2 3 Jonas de Paula Introdução Esse conto relata um mal entendido que poderia acontecer com qualquer pessoa em qualquer lugar, tem haver com a questão da globalização e seu

Leia mais

P/1 Seu Ivo, eu queria que o senhor começasse falando seu nome completo, onde o senhor nasceu e a data do seu nascimento.

P/1 Seu Ivo, eu queria que o senhor começasse falando seu nome completo, onde o senhor nasceu e a data do seu nascimento. museudapessoa.net P/1 Seu Ivo, eu queria que o senhor começasse falando seu nome completo, onde o senhor nasceu e a data do seu nascimento. R Eu nasci em Piúma, em primeiro lugar meu nome é Ivo, nasci

Leia mais

Conhece os teus Direitos. A caminho da tua Casa de Acolhimento. Guia de Acolhimento para Jovens dos 12 aos 18 anos

Conhece os teus Direitos. A caminho da tua Casa de Acolhimento. Guia de Acolhimento para Jovens dos 12 aos 18 anos Conhece os teus Direitos A caminho da tua Casa de Acolhimento Guia de Acolhimento para Jovens dos 12 aos 18 anos Dados Pessoais Nome: Apelido: Morada: Localidade: Código Postal - Telefone: Telemóvel: E

Leia mais

Contexto. Rosana Jorge Monteiro Magni

Contexto. Rosana Jorge Monteiro Magni Título MUDANÇAS DE CONCEPÇÕES SOBRE O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE GEOMETRIA EM UM CURSO DE ATUALIZAÇÃO PARA PROFESSORES DE MATEMÁTICA DA EDUCAÇÃO BÁSICA Doutoranda da Universidade Anhangura/ Uniban

Leia mais

FACETAS DA MULHER BRASILEIRA: VISÃO DAS BRASILEIRAS SOBRE A IMAGEM DA MULHER NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

FACETAS DA MULHER BRASILEIRA: VISÃO DAS BRASILEIRAS SOBRE A IMAGEM DA MULHER NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO FACETAS DA MULHER BRASILEIRA: VISÃO DAS BRASILEIRAS SOBRE A IMAGEM DA MULHER NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Fevereiro 2016 A MULHER NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO O que mais incomoda no discurso/posição que a mulher

Leia mais

O céu. Aquela semana tinha sido uma trabalheira! www.interaulaclube.com.br

O céu. Aquela semana tinha sido uma trabalheira! www.interaulaclube.com.br A U A UL LA O céu Atenção Aquela semana tinha sido uma trabalheira! Na gráfica em que Júlio ganhava a vida como encadernador, as coisas iam bem e nunca faltava serviço. Ele gostava do trabalho, mas ficava

Leia mais

Quem Desiste num momento de crise é porque realmente é um fraco!

Quem Desiste num momento de crise é porque realmente é um fraco! Paixão do Povo de Cristo x Paixão de Cristo Texto Base: provérbios 24.10 na Linguagem de Hoje: Quem é fraco numa crise, é realmente fraco. Na Bíblia A Mensagem : Quem Desiste num momento de crise é porque

Leia mais

Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de inauguração do Centro de Especialidades Odontológicas de Campo Limpo

Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de inauguração do Centro de Especialidades Odontológicas de Campo Limpo , Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de inauguração do Centro de Especialidades Odontológicas de Campo Limpo São Paulo-SP, 20 de outubro de 2004 Meus queridos companheiros e minhas queridas companheiras

Leia mais

Relato de experiência do Projeto A Paz que tenho em Casa desenvolvido no Centro de Referência de Assistência Social CRAS Vila Rosa Palmeira/PR

Relato de experiência do Projeto A Paz que tenho em Casa desenvolvido no Centro de Referência de Assistência Social CRAS Vila Rosa Palmeira/PR 12. CONEX Apresentação Oral Resumo Expandido 1 ÁREA TEMÁTICA: (marque uma das opções) ( ) COMUNICAÇÃO ( ) CULTURA ( ) DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA ( X ) EDUCAÇÃO ( ) MEIO AMBIENTE ( ) SAÚDE ( ) TRABALHO

Leia mais

PROFISSIONAIS DO SEXO UMA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA DO ESTIGMA DA PROSTITUIÇÃO. Vanessa Petró* 1. Introdução. Comportamento Desviante e Estigma

PROFISSIONAIS DO SEXO UMA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA DO ESTIGMA DA PROSTITUIÇÃO. Vanessa Petró* 1. Introdução. Comportamento Desviante e Estigma PROFISSIONAIS DO SEXO UMA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA DO ESTIGMA DA PROSTITUIÇÃO Vanessa Petró* 1 Introdução O presente artigo tem o intuito de desenvolver algumas idéias acerca de comportamentos desviantes

Leia mais

Lista de Diálogo - Cine Camelô

Lista de Diálogo - Cine Camelô Lista de Diálogo - Cine Camelô Oi amor... tudo bem? Você falou que vinha. É, eu tô aqui esperando. Ah tá, mas você vai vir? Então tá bom vou esperar aqui. Tá bom? Que surpresa boa. Oh mano. Aguá! Bolha!

Leia mais

O Pedido. Escrito e dirigido por João Nunes

O Pedido. Escrito e dirigido por João Nunes O Pedido Escrito e dirigido por João Nunes O Pedido FADE IN: INT. CASA DE BANHO - DIA Um homem fala para a câmara. É, 28 anos, magro e mortiço. Queres casar comigo? Não fica satisfeito com o resultado.

Leia mais

RELENDO A HISTÓRIA AO LER HISTÓRIAS

RELENDO A HISTÓRIA AO LER HISTÓRIAS RELENDO A HISTÓRIA AO LER HISTÓRIAS BRASÍLIA ECHARDT VIEIRA (CENTRO DE ATIVIDADES COMUNITÁRIAS DE SÃO JOÃO DE MERITI - CAC). Resumo Na Baixada Fluminense, uma professora que não está atuando no magistério,

Leia mais

Os dois foram entrando e ROSE foi contando mais um pouco da história e EDUARDO anotando tudo no caderno.

Os dois foram entrando e ROSE foi contando mais um pouco da história e EDUARDO anotando tudo no caderno. Meu lugar,minha história. Cena 01- Exterior- Na rua /Dia Eduardo desce do ônibus com sua mala. Vai em direção a Rose que está parada. Olá, meu nome é Rose sou a guia o ajudara no seu projeto de história.

Leia mais

A OFERTA DE UM REI (I Crônicas 29:1-9). 5 - Quem, pois, está disposto a encher a sua mão, para oferecer hoje voluntariamente ao SENHOR?

A OFERTA DE UM REI (I Crônicas 29:1-9). 5 - Quem, pois, está disposto a encher a sua mão, para oferecer hoje voluntariamente ao SENHOR? A OFERTA DE UM REI (I Crônicas 29:1-9). 5 - Quem, pois, está disposto a encher a sua mão, para oferecer hoje voluntariamente ao SENHOR? Esse texto é um dos mais preciosos sobre Davi. Ao fim de sua vida,

Leia mais

Roteiro para curta-metragem. Aparecida dos Santos Gomes 6º ano Escola Municipalizada Paineira NÃO ERA ASSIM

Roteiro para curta-metragem. Aparecida dos Santos Gomes 6º ano Escola Municipalizada Paineira NÃO ERA ASSIM Roteiro para curta-metragem Aparecida dos Santos Gomes 6º ano Escola Municipalizada Paineira NÃO ERA ASSIM SINOPSE José é viciado em drogas tornando sua mãe infeliz. O vício torna José violento, até que

Leia mais

Unidade 04: Obedeça ao Senhor Josué obedece, o muro cai

Unidade 04: Obedeça ao Senhor Josué obedece, o muro cai Histórias do Velho Testamento Histórias de Deus:Gênesis-Apocalipse 3 a 6 anos Unidade 04: Obedeça ao Senhor Josué obedece, o muro cai O velho testamento está cheio de histórias que Deus nos deu, espantosas

Leia mais

Metodologias de Pesquisa Qualitativa

Metodologias de Pesquisa Qualitativa Metodologias de Pesquisa Qualitativa Pesquisa Qualitativa Subjetividade e interpretação do avaliador/pesquisador Entender um problema em profundidade. Não usa estatísticas e generalizações. Trabalha com

Leia mais

Ensino Religioso e Neutralidade Religiosa: conciliação sem favoritismo

Ensino Religioso e Neutralidade Religiosa: conciliação sem favoritismo Ensino Religioso e Neutralidade Religiosa: conciliação sem favoritismo Paulo Ricardo Rocha Caproni (2014) Contém nota pedagógica A identidade religiosa do povo brasileiro é multifacetada, fruto de influências

Leia mais

Estimulando expectativas de futuro em adolescentes através de jogos dramáticos

Estimulando expectativas de futuro em adolescentes através de jogos dramáticos Estimulando expectativas de futuro em adolescentes através de jogos dramáticos CHARLIZE NAIANA GRIEBLER EVANDIR BUENO BARASUOL Sociedade Educacional Três de Maio Três de Maio, Rio Grande do Sul, Brasil

Leia mais

FICHA SOCIAL Nº 136 INFORMANTE

FICHA SOCIAL Nº 136 INFORMANTE FICHA SOCIAL Nº 136 INFORMANTE : P.C. SEXO: Masculino IDADE: 15 anos Faixa I ESCOLARIZAÇÃO: 5 a 8 anos (6ª série) LOCALIDADE: Alto da Penha (Zona Urbana) DOCUMENTADORA: Maria do Socorro Inácio TRANSCRITORA:

Leia mais

- Você sabe que vai ter que falar comigo em algum momento, não sabe?

- Você sabe que vai ter que falar comigo em algum momento, não sabe? Trecho do romance Caleidoscópio Capítulo cinco. 05 de novembro de 2012. - Você sabe que vai ter que falar comigo em algum momento, não sabe? Caçulinha olha para mim e precisa fazer muita força para isso,

Leia mais

** O texto aqui reproduzido é de propriedade do MUD - Museu da Dança e não pode ser copiado ou reproduzido sem a autorização prévia.

** O texto aqui reproduzido é de propriedade do MUD - Museu da Dança e não pode ser copiado ou reproduzido sem a autorização prévia. * Este texto corresponde à visão da autora Marcia Dib e todas as informações aqui contidas são de inteira responsabilidade da autora. ** O texto aqui reproduzido é de propriedade do MUD - Museu da Dança

Leia mais

Leitura e Mediação Pedagógica

Leitura e Mediação Pedagógica Protocolo Colaborador: 12 Leitura e Mediação Pedagógica G. Pesquisador: Rosineide Magalhães de Sousa Corinthians(2) x Palestra(1)#Rosineide\cor_pal.jpg.jpg# Transcrição 80) P: Então Gabriel... eu vou pedir

Leia mais

Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de lançamento do Programa Nacional de Saúde Bucal

Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de lançamento do Programa Nacional de Saúde Bucal , Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de lançamento do Programa Nacional de Saúde Bucal Sobral-CE, 17 de março de 2004 Meu caro governador do estado do Ceará, Lúcio Alcântara, Meu caro companheiro

Leia mais

POR QUE O MEU É DIFERENTE DO DELE?

POR QUE O MEU É DIFERENTE DO DELE? POR QUE O MEU É DIFERENTE DO DELE? Rafael chegou em casa um tanto cabisbaixo... Na verdade, estava muito pensativo. No dia anterior tinha ido dormir na casa de Pedro, seu grande amigo, e ficou com a cabeça

Leia mais

LAUDO TÉCNICO. Respostas entre asteriscos indicam que o assunto perturba o depoente.

LAUDO TÉCNICO. Respostas entre asteriscos indicam que o assunto perturba o depoente. Porto Alegre, 21 de julho de 2010. LAUDO TÉCNICO No dia de hoje através de um áudio extraído da entrevista de Fernanda Gomes de Castro para o programa Mais Você de 21/07/2010, foi realizada uma analise

Leia mais

UMA ESPOSA PARA ISAQUE Lição 12

UMA ESPOSA PARA ISAQUE Lição 12 UMA ESPOSA PARA ISAQUE Lição 12 1 1. Objetivos: Ensinar que Eliézer orou pela direção de Deus a favor de Isaque. Ensinar a importância de pedir diariamente a ajuda de Deus. 2. Lição Bíblica: Gênesis 2

Leia mais

PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSA DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA (PIBID): UMA AVALIAÇÃO DA ESCOLA SOBRE SUAS CONTRIBUIÇÕES

PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSA DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA (PIBID): UMA AVALIAÇÃO DA ESCOLA SOBRE SUAS CONTRIBUIÇÕES PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSA DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA (PIBID): UMA AVALIAÇÃO DA ESCOLA SOBRE SUAS CONTRIBUIÇÕES Silva.A.A.S. Acadêmica do curso de Pedagogia (UVA), Bolsista do PIBID. Resumo: O trabalho

Leia mais

UNIVERSIDADE SAGRADO CORAÇÃO USC

UNIVERSIDADE SAGRADO CORAÇÃO USC UNIVERSIDADE SAGRADO CORAÇÃO USC KARINA VIEIRA SOUZA ALVES SANT ANA REPORTAGEM: A VIDA NAS RUAS DE BOTUCATU BAURU 2012 A vida nas ruas de Botucatu A Praça da Igreja Sagrado Coração de Jesus, na Rua Major

Leia mais

INQ Já alguma vez se sentiu discriminado por ser filho de pais portugueses?

INQ Já alguma vez se sentiu discriminado por ser filho de pais portugueses? Transcrição da entrevista: Informante: nº15 Célula: 5 Data da gravação: Agosto de 2009 Geração: 2ª Idade: 35 Sexo: Masculino Tempo de gravação: 10.24 minutos INQ Já alguma vez se sentiu discriminado por

Leia mais

Pregação proferida pelo pastor João em 03/02/2011. Próxima pregação - Efésios 4:1-16 - A unidade do corpo de Cristo.

Pregação proferida pelo pastor João em 03/02/2011. Próxima pregação - Efésios 4:1-16 - A unidade do corpo de Cristo. 1 Pregação proferida pelo pastor João em 03/02/2011. Próxima pregação - Efésios 4:1-16 - A unidade do corpo de Cristo. Amados Irmãos no nosso Senhor Jesus Cristo: É devido à atuação intima do Espírito

Leia mais

A SENSITIVA E A MULHER MACACO

A SENSITIVA E A MULHER MACACO A SENSITIVA E A MULHER MACACO Esquetes cômicos de Luís Alberto de Abreu CENA ÚNICA A AÇÃO SE PASSA NO INTERIOR DE UM ÔNIBUS. ENTRA UM APRESEN- TADOR. Silêncio. Um momento de silêncio por favor. Essa é

Leia mais

09/09/2004. Discurso do Presidente da República

09/09/2004. Discurso do Presidente da República , Luiz Inácio Lula da Silva, na solenidade de recepção da delegação brasileira que participou das Olimpíadas de Atenas Palácio do Planalto, 09 de setembro de 2004 Meu caro Grael, Meu querido René Simões,

Leia mais

Redação do Site Inovação Tecnológica - 28/08/2009. Humanos aprimorados versus humanos comuns

Redação do Site Inovação Tecnológica - 28/08/2009. Humanos aprimorados versus humanos comuns VOCÊ ESTÁ PREPARADO PARA CONVIVER COM OS HUMANOS APRIMORADOS? http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=voce-esta-preparado-conviver-humanosaprimorados&id=010850090828 Redação do

Leia mais

COMUNIDADE TRANSFORMADORA UM OLHAR PARA FRENTE

COMUNIDADE TRANSFORMADORA UM OLHAR PARA FRENTE 23 3 COMUNIDADE TRANSFORMADORA UM OLHAR PARA FRENTE Por que você deve dar este estudo Nas duas semanas anteriores, conversamos sobre dois aspectos de nossa missão comunitária que envolve: (a) olhar para

Leia mais

Projeto. Pedagógico QUEM MEXEU NA MINHA FLORESTA?

Projeto. Pedagógico QUEM MEXEU NA MINHA FLORESTA? Projeto Pedagógico QUEM MEXEU NA MINHA FLORESTA? 1 Projeto Pedagógico Por Beatriz Tavares de Souza* Apresentação O livro tem como tema o meio ambiente em que mostra o homem e a destruição da natureza,

Leia mais

QUANDO OS SUJEITOS ENUNCIAM ESPAÇOS DE AÇÃO: TOMADAS DE POSIÇÃO DE HIP HOP, ECOSOL E ESCOLAS

QUANDO OS SUJEITOS ENUNCIAM ESPAÇOS DE AÇÃO: TOMADAS DE POSIÇÃO DE HIP HOP, ECOSOL E ESCOLAS QUANDO OS SUJEITOS ENUNCIAM ESPAÇOS DE AÇÃO: TOMADAS DE POSIÇÃO DE HIP HOP, ECOSOL E ESCOLAS Leandro R. Pinheiro - UFRGS FAPERGS Dos anos 1970 aos 1990, visualizamos mudanças no cenário de ação sociopolítica

Leia mais

Abordagem Psiquiátrica de Casos Clínicos 2012.2. Casos e Revisão. Professor: Marcus André Vieira

Abordagem Psiquiátrica de Casos Clínicos 2012.2. Casos e Revisão. Professor: Marcus André Vieira Abordagem Psiquiátrica de Casos Clínicos 2012.2 Casos e Revisão Professor: Marcus André Vieira Primeiro caso Conta que, no trabalho, por exemplo, em cada setor que andava, pegava papéis no chão, abria

Leia mais