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1 Senhor Presidente Senhores Membros da Mesa Senhoras Deputadas, Senhores Deputados Vivemos um momento decisivo para o futuro da educação no Brasil. Três acontecimentos importantes confluíram para produzir este momento. Primeiro, o FUNDEB; segundo, os resultados do SAEB e do ENEM; terceiro, o anúncio pelo Presidente Lula de que lançará, em breve, o pacote da educação. De fato, no final de 2006, o Congresso Nacional aprovou a Emenda Constitucional que cria o FUNDEB Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, regulamentado logo em seguida pelo Presidente da República, através da Medida Provisória n o 339 de 28 de dezembro de 2006, e atualmente tramitando nesta Casa. Coincidentemente, em janeiro, foram divulgados os resultados do SAEB Sistema de Avaliação da Educação Básica (de fato, direcionado para o ensino fundamental) e do ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, apontando para uma queda no desempenho das escolas públicas e particulares de todo o país, nos últimos dez anos, embora tenhamos muitas escolas com excelente nível, como é o caso do Instituto Dom Barreto, em Teresina, no meu querido Piauí, classificada em primeiro lugar para o ensino médio. Aproveito, aliás, a oportunidade para mais uma vez parabenizar o Instituto Dom Barreto, que visitei recentemente, em companhia do Governador Wellington Dias e do deputado federal Nazareno Fonteles. E para fazer alguns esclarecimentos, inclusive para combater visões preconceituosas estampadas em alguns jornais do Sudeste com circulação nacional, estranhando que uma escola do Piauí, logo do Piauí, fosse a primeira colocada. É bom saber que já faz alguns anos que o Dom Barreto se coloca entre as dez primeiras escolas do Brasil, no ENEM. Que em outras competições nacionais e internacionais, como Olimpíadas de Matemática, Química e Física, alunos daquela escola têm obtido excelente **

2 classificação, ficando, por exemplo, entre os três primeiros lugares na fase internacional dessas olimpíadas, realizada na Holanda e nas Filipinas. Nesse contexto, as medidas a serem anunciadas pelo Presidente Lula ou são uma resposta ao desafio lançado pelas avaliações divulgadas ou não cumprirão o seu papel. Ainda temos problemas de universalização das oportunidades de estudo, mas soou a hora da qualidade. Sem um salto qualitativo na educação não se sustenta nenhum programa de desenvolvimento com distribuição de renda. Sem um salto qualitativo na educação não ocuparemos um lugar pró-ativo no mundo globalizado que a revolução da telemática está criando. È hora de ação concreta, de compromisso, senão permaneceremos em nossa velha retórica liberal e bacharelesca sobre enaltecer a importância da educação ou na cantoria tecnocrática de louvor à Coréia e outros países, muitas vezes insensível às dimensões sociais e culturais da educação. Senhor Presidente, Senhores Deputados Nesse mesmo espírito é que devemos fazer o debate sobre a medida provisória do FUNDEB, nas Comissões e no Plenário desta Câmara Federal. O FUNDEB tem suas especificidades, mas deve ser visto como parte de uma estratégia mais ampla de universalização do acesso e de elevação do padrão de qualidade da educação básica. Vale ressaltar, de início, o que o FUNDEB representa de avanço. Se o FUNDEF contribuiu para a universalização do ensino fundamental, o FUNDEB vem atender à nova aspiração da sociedade brasileira que quer ver seus filhos tendo a oportunidade de, por um lado, prosseguir seus estudos no ensino médio, ou por outro lado, de começar mais cedo sua vida escolar na préescola ou mesmo na creche. Em segundo lugar, FUNDEB, assim como o FUNDEF, continua um fundo constituído basicamente por recursos dos estados e municípios; mas a participação da União aumenta significativamente no FUNDEB, sobretudo porque este Congresso aperfeiçoou o projeto original, garantindo que, a partir de quarto **

3 ano, a União contribuirá para o fundo com, no mínimo, dez por cento do total dos recursos alocados pelos estados e municípios. Enfim, a criação de uma Junta de Acompanhamento tripartipe, com representantes do MEC, do CONSED Conselho dos Secretários Estaduais de Educação e da UNDIME União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação é um avanço a registrar. Uma prerrogativa que, no âmbito do FUNDEF, era reservada ao Presidente da República, agora é transferida para um fórum representativo, com poderes para negociar adequações e flexibilizações que se fizerem necessários na macro-gestão do fundo. Mas, algumas insuficiências do FUNDEB precisam ser apontadas, bem como algumas distorções que ele herda do FUNDEF. Para este debate é que quero contribuir. E gostaria de fazê-lo de uma perspectiva mais ampla. Do contrário, os conflitos distributivos inerentes ao FUNDEB virarão guerras santas ou, no mínimo, alimentarão polêmicas de viés corporativista. A distribuição de recursos entre os níveis e modalidades de ensino (creche, pré-escola, ensino fundamental, ensino médio, educação profissional, educação especial, educação indígena e EJA), bem como a atribuição de encargos à União, aos estados e municípios e a repartição de recursos entre estes dois últimos deve ser analisada à luz da melhoria do padrão de qualidade da educação pública e da equalização de oportunidades para todos os brasileiros, nas diferentes regiões do país e de todas as camadas sociais, sobretudo as mais pobres. Duas questões preliminares precisam, então ser levantadas: 1 a ) como atingir um patamar satisfatório de alocação de recursos para a educação? 2 a ) como queremos estruturar nosso sistema de ensino, definindo as competências e o regime de colaboração entre os entes da federação? Quanto a primeira questão, devemos de início lembrar as vinculações constitucionais da receita para a educação, de 18% para a União e 25% para os estados e municípios, para alguns 30% por decisão estadual ou municipal. Serão esses recursos suficientes? Certamente não, uma vez que eles não chegam aos **

4 5% a 7% do PIB, padrões internacionalmente reconhecidos como necessários para se garantir uma boa educação. Já na discussão do Plano Nacional de Educação (Lei sancionada no início de 2001), esse debate foi feito e a definição de um percentual do PIB como meta para gastos com a educação foi vetada. Chegamos a uma situação orçamentária levados mais pelas circunstâncias e por algumas decisões políticas equivocadas, do que por opções de política pública, democraticamente definidas. A União gastou com a educação R$ 23,9 bilhões. Ora, além do alto peso da dívida pública R$ 240 bilhões, a União gastou mais com saúde R$ 44,31 bilhões, com o déficit da Previdência R$ 48,5 bilhões, com assistência social R$ 65,5 bilhões, aí incluídos a aposentadoria de trabalhadores rurais, a bolsa família, o seguro desemprego, outros benefícios sociais. Queremos manter esse perfil de distribuição dos recursos orçamentários? Precisamos criar condições de poder transferir recursos de encargos da dívida, de déficits e de políticas compensatórias (que por sua natureza deveriam ser temporárias) para a educação. Ou fazemos isso, ou a União não cumprirá a função a ela atribuída pelo artigo 211 da Constituição Federal: A União... exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios. Sem uma opção clara de ampliar em pelo menos 50% os recursos da União para a educação não teremos o dinheiro suficiente apara fazer um bom FUNDEB e o pacote da educação a ser anunciado não fará a revolução educacional que Lula pregou em uma campanha por um segundo mandato e que o povo, esperançoso, lhe conferiu. Quanto à segunda questão sobre o sistema de ensino que queremos, definindo as competências e o regime de colaboração entre os entes da federação- devemos começar também relembrando alguns pontos definidos na Constituição e na LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. No capítulo II do Título VIII da Constituição, definimos os princípios estruturantes de nosso sistema de ensino. No artigo 208, ao se explicitar como se **

5 efetiva o dever do Estado com a educação, de fato se definem os vários níveis e modalidades de ensino, hierarquizando-os: ensino fundamental obrigatório e gratuito, inclusive na modalidade EJA, competência dos estados e dos municípios (art 211); ensino médio progressivamente universal e gratuito, competência prioritária dos estados (art 211); educação especial; creche e pré-escola. A novidade constitucional foi a inclusão da creche no sistema educacional, estabelecendo inclusive prazo no ADCT para sua incorporação aos sistemas de ensino, embora no artigo 7, inciso XXV, a Constituição ainda use a expressão assistência gratuita aos filhos e dependentes em creches e pré-escolas como um dos direitos dos trabalhadores. Essa referência constitucional não pode passar despercebida. E aqui já adianto um posicionamento meu: a manutenção das creches deve ser partilhada com as políticas de saúde e assistência social. É bom lembrar também o artigo 23, parágrafo único da Constituição Federal: leis complementares fixarão normas para a cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional. A própria lei do FUNDEB ou talvez lei complementar específica, uma vez que a LDB em lei ordinária, deve fixar normas que definam melhor as competências dos entes federados em matéria de educação para evitar uma guerra por aluno e para que estados e municípios comecem a perceber a cooperação tributária mútua como colaboração e não como perda. Na verdade, temos uma questão nem sempre explicitada a resolver. Há consenso em que os municípios assumam a educação infantil e os estados o ensino médio. A própria medida provisória do FUNDEB reforça essa idéia ao vincular a distribuição de recursos para esses níveis de ensino apenas para os entes federados que os têm como prioridade (artigo 211 da CF). Chegou a hora de transformarmos prioridade em exclusividade só os municípios oferecem educação infantil e só os estados oferecem ensino médio. Até porque, progressivamente, devemos tornar o ensino médio obrigatório e a própria educação infantil (pelo menos, a pré-escola). Essa é a consequência, a médio prazo, do FUNDEB. **

6 Questão mais complexa é a do ensino fundamental, cuja universalização era o objetivo do FUNDEF, hoje o único nível obrigatório, e como tal competência dos estados e dos municípios. Ora, o FUNDEF não só universalizou o ensino fundamental; ele estimulou sua municipalização. Alguns estados, como o Ceará e o Pará chegaram a assumir a municipalização como uma política pública explícita. Outros como nós no Piauí não alimentaram a competição; pelo contrário, transferiram o ensino fundamental rural para os municípios e fazem a permuta do uso diurno de salas das escolas estaduais pelos os municípios com o uso noturno de salas de escolas municipais pelo estado. Os números são claro. Em 1996, antes do FUNDEF, no Brasil como um todo, a rede municipal detinha apenas 37,8 da matrícula do ensino fundamental público; hoje, a rede municipal soma alunos (53,7) e a rede estadual apenas alunos (46,3). Os casos extremos são o Ceará, onde a rede municipal tem 87,2% das matrículas do ensino fundamental e São Paulo, onde a municipalização do ensino fundamental já chegou 42,9%; no Piauí, meu estado, a rede municipal representa 77,4%. Nesse ritmo, os municípios terão quase 90% da matrícula do ensino fundamental ao final dos 14 anos do FUNDEB, em 31 de dezembro de É isso o que queremos? É o melhor para o Brasil termos como competência do município 14 dos 17 anos que constituem a educação básica da creche ao ensino médio? Essa divisão administrativa de trabalho tem influência sobre a universalização e qualidade do ensino? Precisamos explicitar essa questão, senão não teremos referências mais seguras para o debate da repartição de recursos entre estados e municípios, para as bases e os limites da transferência de recursos entre os entes federados. É justo que a União contribua com o FUNDEB até o limite de 10% do montante do Fundo e que não haja limites para a transferência para os municípios de recursos estaduais colocados no fundo? Ora, os dois entes têm as mesmas obrigações constitucionais de assistência técnica e financeira. Concretamente, hoje, nas projeções do FUNDEB para o primeiro ano, o estado do Ceará transferirá aos municípios 63% dos recursos que ele coloca no **

7 fundo, o Piauí 49,7%; São Paulo transfere apenas 16,7%. Essas questões não podem ser respondidas no círculo fechado do FUNDEB. As questões levantadas pelo FUNDEB devem ser discutidas à luz da melhoria do ensino, de um padrão mínimo de qualidade, do papel equalizador dos estados internamente em seu território e da União nacionalmente; e ainda da justiça fiscal e social, considerando a capacidade fiscal de cada ente federado e sua situação sócioeconômica, com base no IDH, por exemplo. Senhor Presidente, Senhores Deputados Há muitas questões específicas, de caráter técnico, fiscal ou político envolvidas no FUNDEB. Vou discuti-las mais demoradamente na Comissão de Educação. Hoje, neste Plenário, me propus a levantar questões políticas mais gerais e, a meu ver, até preliminares ao FUNDEB. Gostaria de encerrar, contudo, chamando a atenção para uma questão crucial. O FUNDEF fez uma equalização intra estadual entre as redes estadual e municipal. Mas, manteve-se a desigualdade inter-estadual. O valor por aluno do Piauí é de R$ 720,00 reais por ano; em São Paulo é de R$ 1.500,00. Não bastasse essa grande diferença, intra FUNDEF e que se manterá no FUNDEB, o salário-educação contribui ainda mais para a desigualdade educacional. Enquanto São Paulo recebe R 1,7 bilhão de reais, representando um valor de R$ 318,00 por aluno, o Piauí recebe R$ 3.712,000,00, representando R$ 26,89 reais por aluno. A educação é um fator de democratização de oportunidades, de redução das desigualdades sociais. Qualidade sim, com justiça! Esse é o caminho do FUNDEB, esse é o caminho das medidas que o Presidente vai anunciar. Era o que eu tinha a dizer, Senhor Presidente. **

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