A CONCRETIZAÇÃO DA RESERVA LEGAL VIA DE AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPOSTA EM FACE DE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS DE PROPRIEDADE DO PODER PÚBLICO

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1 A CONCRETIZAÇÃO DA RESERVA LEGAL VIA DE AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPOSTA EM FACE DE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS DE PROPRIEDADE DO PODER PÚBLICO Alexandre de Matos Guedes Promotor de Justiça do Estado de Mato Grosso É possível juridicamente, via de ação pública, se compelir instituições financeiras de propriedade do Poder Público a não realizar quaisquer empréstimos ou financiamentos a proprietários rurais que não tenham cumprido a sua obrigação legal de proceder à averbação da reserva legal florestal nas matrículas imobiliárias onde seus prédios estão inscritos. 1. Introdução É fato que a obrigação dos proprietários rurais em proceder a averbação das reservas legais florestais em seus respectivos prédios, prevista nos artigos 16 e 44 do Código Florestal vem sendo sistematicamente ignorada por esses detentores de domínio imobiliário, que não se preocupam, em sua esmagadora maioria, em cumprir o dever que lhes foi imposto pela norma citada, causando assim, senão um real, pelo menos um potencial, risco às áreas florestais que deveriam ser preservadas para a interesse da coletividade. Esta obrigação legal a ser cumprida pelos proprietários rurais cujos imóveis se enquadram nas especificações dos artigos 16 e 44 do Código Florestal não é cumprida em virtude da inexistência de sanção direta e imediata contra os faltosos, decorrente da omissão do texto legal nesse sentido. Assim sendo, pela falta de instrumentos expressos para obrigar os detentores de domínio imobiliário rural, a reserva legal permanece, na maior parte das vezes, e para todos os efeitos práticos, como letra morta. É certo que é possível a proposição de ações judiciais, principalmente pelo Ministério Público, contra os proprietários faltosos, com toda a probabilidade de êxito. Ocorre, no entanto, que essas ações, por sua própria natureza, são individuais e se deve, em cada uma delas, provar a omissão do detentor de domínio, dentro de uma instrução judicial normal. A dificuldade é que quando se encara essa questão do ponto de vista global, o que se nota é que essas ações individuais não resolvem o problema, principalmente nos Estados da Federação onde existe uma grande extensão territorial explorada por meio de agropecuária, com um imenso número de propriedades rurais (e de proprietários) a serem fiscalizados e processados, circunstâncias essas que, uma vez juntadas com um aparelho judiciário e ministerial de diminutas proporções, com comarcas de enormes extensões territoriais, principalmente as de 1ª entrância, onde o Juiz e o Promotor (quando as vagas estão providas, o que nem sempre acontece) tem de cuidar de todos os assuntos (crime, família, feitos cíveis em geral, menores, etc.) sobra muito pouca possibilidade de se tratar eficazmente do problema da reserva legal que é sistematicamente inobservada. Não há, simplesmente, tempo para se fiscalizar o efetivo cumprimento dos artigos 16 e 44 do Código Florestal. Por outro lado, mesmo que houvesse tempo e estrutura para se fazer, principalmente por parte do Ministério Público, a fiscalização do cumprimento dos dispositivos mencionados, com a proposição das medidas judiciais cabíveis contra os proprietários omissos, é certo que o grande número destes implicaria, consequentemente, em um grande número de ações individuais (por vezes até na casa das centenas) as quais, uma vez interpostas, acabariam por lotar os Fóruns e Escrivanias, onde se juntariam à vala comum de todos os processos que, por falta de estrutura e pessoal do aparelho judiciário, não teriam uma tramitação célere, e, portanto, não se chegaria a qualquer solução para a questão da reserva florestal, que estaria do mesmo tamanho de antes da propositura das ações. Mesmo a possibilidade de se firmar termos de ajustamento com os proprietários rurais faltosos se torna problemática, principalmente nos Estados mais periféricos e onde se concentram as reservas florestais a serem protegidas em virtude, como já se disse, da falta de pessoal suficiente, pelo Ministério Público, para se dedicar com a eficácia necessária para a questão, e também do fato de que nesses lugares ainda não se firmou uma cultura judicial rápida e previsível o suficiente para convencer psicologicamente os proprietários a cumprirem lei que

2 2 fere seus interesses econômicos básicos, sendo que estes preferem utilizar a lentidão judicial sistêmica em seu benefício o que nos leva às dificuldades mencionadas no parágrafos anteriores. Urge, portanto, encontrar meios de, através de ações judiciais coletivas, no caso ações civis públicas, compelir estes proprietários, ainda que por vias indiretas, a pessoalmente proceder a averbação da reserva legal prevista no Código Florestal, pois este é o único meio para que se possa dar tratamento eficiente ao problema, garantindo-se assim, a efetiva solução da questão e a obtenção dos meios necessários para a defesa de um meio ambiente equilibrado, direito de todos, segundo os termos da Constituição Federal. As observações acima elencadas são fruto de minha observação pessoal como Promotor de Justiça no Estado de Mato Grosso, no exercício de minhas antigas funções como Curador do Meio Ambiente em diversas Comarcas daquela unidade federativa, sendo que as conclusões a que se chegou para a solução do verdadeiro nó górdio que tal questão representa se encontram a seguir expostas, sendo certo que as mesmas serviram como base para Ação Civil Pública por mim e por outro Promotor de Justiça, Dr. Domingos Sávio de Barros Arruda, proposta na Comarca de Cuiabá-MT. 2.Do procedimento de instituições financeiras de propriedade do Poder Público em relação ao financiamento de proprietários rurais Como é de conhecimento público e notório, o Poder Público Federal, principalmente através do Banco do Brasil S/A e de outros instituições, como o Banco da Amazônia, por exemplo, é o agente financiador por excelência da atividade agropecuária neste país, utilizandose para tanto, dos recursos dessas referidas instituições bancárias e de recursos que pertencem diretamente á União Federal (que esses Banco administram) que para exercer tal atividade de fomento das atividades agropastoris deste país. São em suma, estes bancos que decidem quando, onde e a quem as verbas de financiamento agrícola serão emprestadas. Ocorre que essas instituições financeiras, ao conceder os financiamentos pleiteados pelos produtores agrícolas, o faz SEM ATENTAR PARA OS DEVERES IMPOSTOS PELO ordenamento jurídico pátrio AOS ADMINISTRADORES DE RECURSOS PÚBLICOS, concentrando-se apenas e tão-somente nos aspectos comerciais do empréstimo e olvidando a sua função de agente estatal, mediante a qual deveria observar o interesse público primário, cumprindo, entre outros, o seu dever de assegurar o direito dos cidadãos em usufruir de um meio ambiente ecologicamente equilibrado, garantia constitucional esculpida no artigo 225 da Carta Magna. Mais especificamente, ao conceder financiamento a agricultores sem exigir previamente a prova de que estes procedam a averbação da reserva legal florestal em suas propriedades rurais nas respectivas matrículas imobiliárias nas hipóteses exigidas por lei, esta instituições financeiras estão VOLUNTARIAMENTE DESCUMPRINDO SEUS DEVERES OBJETIVOS e deste modo prosseguem compactuando com uma situação de descumprimento do ordenamento jurídico deste país, infringindo assim, a sua obrigação, enquanto agente do Poder Público, em proceder de acordo com o princípio da legalidade, da moralidade, da finalidade e da eficiência, basilares em nosso direito. O que a realidade demonstra é o fato de essas instituições financeiras encarregadas de conceder crédito público agrícola estão sistematicamente procedendo a financiamentos e refinanciamentos a proprietários rurais que descumprem as suas obrigações legais de averbar a reserva legal ambiental, não sendo exigido dos vários tomadores de recursos para atividades agropastoris, como seria de rigor a comprovação de que os mesmos estão (ou que pretendam estar) em dia com as suas obrigações legais previstas nos artigos 16 e 44 do Código Florestal. 3. Da natureza dessas instituições financeiras de propriedade do Poder Estatal, enquanto agentes públicos Em primeiro lugar, deve-se fixar qual exatamente é a natureza dessas instituições financeiras de propriedade do Poder Público, ora em debate, das quais o Banco do Brasil é paradigma, em relação aos ditames do nosso ordenamento jurídico. O Banco do Brasil se constitui em nosso ordenamento, ineludivelmente, um agente paraestatal na modalidade de sociedade de economia mista. Neste sentido informa ODETE MEDAUAR, in Direito Administrativo Moderno, ed. Revista dos Tribunais, 1ª ed., 1996, p. 101: Dentre as

3 sociedades de economia mista, podem ser arroladas, em âmbito federal: Banco do Brasil, Petrobrás, PETROBRÁS, Rede Ferroviária Federal, (...) (Palavra em destaque constante do original trecho sublinhado nosso) A definição jurídica do que seja sociedade de economia mista e as implicações da inclusão do Réu nesta categoria encontram assento na lição de HELY LOPES MEIRELLES (atualizado por Eurico de Andrade Azevedo, Délcio Balestero Aleixo e José Emmanuel Burle Filho), in Direito Administrativo Brasileiro, Malheiros Editores, 23ª ed., 1998, que vai a seguir transcrita: As sociedades de economia mista são pessoas jurídicas de Direito Privado, com participação do Poder Público e de particulares no seu capital e na sua administração, para a realização de atividade econômica ou serviço de interesse coletivo outorgado ou delegado pelo Estado. Revestem a forma das empresas particulares, admitem lucro e regem-se pelas normas as sociedades mercantis, com as adaptações impostas pelas leis que autorizarem sua criação e funcionamento. São espécie do gênero paraestatal, porque dependem do Estado para a sua criação, e ao lado do Estado e sob seu controle desempenham atribuições de interesse público que lhes forem cometidas. Integram a administração indireta como instrumentos de descentralização de serviços (em sentido amplo: serviços, obras, atividades) que antes competiam ao Poder Público. (Palavras em destaque conforme o original) Deve-se considerar, portanto, que essas instituições financeiras se constituem em agentes que exercem atividade de interesse público, e nessa qualidade, portanto, estão sujeitas aos ditames do artigo 37 da Constituição Federal, o que vale dizer que ele está jungidos aos prefalados princípios da legalidade, moralidade, etc. A partir daí, o que se tem é que as instituições bancárias em pauta, embora sejam pessoas de direito privado, e portanto detentoras de seus próprios interesses, estão inseridas dentro da necessidade de observância do interesse público em geral, o qual deve pautar os seus procedimentos, não podendo portanto agir como uma instituição financeira normal, que só visa o seu lucro. A respeito de como o interesse público deve prevalecer sobre os interesses particulares do agente público, preleciona CELSO ANTÔNIO BANDEIRA DE MELLO, in Curso de Direito Administrativo, Malheiros Editores, 6ª ed., 1995, ps. 46/47: Interesse público ou primário é o pertinente à sociedade como um todo e só ele pode ser validamente objetivado, pois este é o interesse que a lei consagra e entrega à compita do Estado como representante do corpo social. Interesse secundário é aquele que atina tão-só ao aparelho estatal enquanto entidade personalizada e que por isso mesmo pode lhe ser referido e nele encarnar-se pelo simples fato de ser pessoa. (...) Com efeito, por exercerem função os sujeitos da Administração Pública têm que buscar o atendimento do interesse alheio, qual seja, o da coletividade, e não o interesse de seu próprio organismo, Qua tale considerado e muito menos os dos agentes estatais. (Palavra em destaque consoante o original trecho sublinhado nosso) Muito bem! A partir do momento em que se caracterizam essas instituições bancárias como uma modalidade de agente público que tem de atender ao interesse público globalmente considerado em superposição aos seus interesses particulares, É IMPERATIVO concentrar-se o aspecto do interesse público primário que motivou o ingresso da presente ação civil pública, qual seja, a defesa do meio ambiente. O artigo 225 da Constituição Federal é bastante claro ao afirmar como sendo interesse do Poder Público como um todo a defesa do ecossistema, sendo que a existência de um meio ambiente equilibrado, mais do que uma obrigação estatal, se constitui em uma garantia de cada cidadão. A partir do momento em que se determina que o Poder Público tem o dever de defender o meio ambiente e que os agentes financeiros em pauta fazem parte do Poder Público, temos, como conclusão necessária desse raciocínio, que cabe ao Banco do Brasil e aos seus congêneres defender o ecossistema, objetivo esse que deve permear o dia-a-dia de suas atividades, inclusive as QUE SE DIRIGEM A OFERTA DE RECURSOS DESTINADOS A FINANCIAMENTO OU REFINANCIAMENTOS AGRÍCOLAS. A partir do momento em que essas instituições bancárias financiam, mediante a utilização de seus recursos próprios e de recursos do Poder Público, a exploração agrícola de imóveis rurais por proprietários que não cumprem as suas obrigações legais concernentes à 3

4 4 averbação da reserva florestal (dever jurídico que será melhor esmiuçado mais adiante) fica evidente que na verdade esses Bancos estão contribuindo para a manutenção de um quadro de desrespeito à lei e para o continuado prejuízo ao meio ambiente que a falta da reserva florestal acarreta. O que se observa na prática cotidiana comercial de tais instituições financeiras é que existe a preocupação de obter, antes da concessão dos empréstimos, uma série de garantias e de documentos de ordem comercial (constituição de hipoteca do imóvel, prova de quitação do Imposto Territorial Rural, por exemplo), mas não garantia do cumprimento de obrigações legais concernentes à proteção ambiental. É de se dizer que em muitos casos, principalmente em atividades agroindustriais mais extensas, com evidente potencial poluidor, esses agentes financeiros tem até exigido o cumprimento de normas ambientais e até a realização de estudos de impacto ambiental. Entretanto, esses cuidados não se estendem aos financiamentos agrícolas comuns, que são concedidos e repactuados de forma sistemática e regular sem que se exija, ao menos, a averbação da reserva legal florestal, na medida em que se considera que esses empreendimentos comuns não possuam potencial poluidor, o que, como se sabe, não corresponde exatamente à realidade. Essa política de financiamento equivocada do Réu, em não exigir o cumprimento das normas ambientais a TODOS os candidatos a financiamento agrícola, mas apenas em determinadas situações especiais, acaba por acarretar, como vimos, um grave desserviço ao interesse público, porque acaba por cobrir de benesses estatais pessoas que comprovadamente não vem cumprindo as suas obrigações jurídicas atinentes à preservação de um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Portanto, é obrigação dessas instituições financeiras adotar, no cotidiano de suas atividades, uma política de asseguramento do ecossistema, providenciando para que em TODAS as suas operações de financiamento agrícola e não apenas em alguns casos sejam exigidos dos tomadores do empréstimo a comprovação de que estão em dia com as suas responsabilidades ambientais. 4. Da caracterização da obrigação jurídica de averbar a reserva florestal em prédio rural Uma vez fixada a natureza e os fins dessas instituições financeiras encarregadas do fomento agrícola, no que concerne à defesa do ecossistema, deve-se a partir deste momento, caracterizar a obrigação jurídica do titular do domínio em proceder à averbação certa e definida da reserva legal florestal na matrícula predial rural que integra o seu patrimônio. A necessidade de averbação de reserva legal, como se sabe, se encontra insculpida no Código Florestal, em seus artigos 16 e 44. Embora os dispositivos acima citados não prevejam a sanção para o descumprimento da obrigação de averbar, é certo que o dever jurídico de proceder a tal ato existe e não pode ser ignorado. Na verdade, deve-se considerar ainda que a reserva florestal existe independentemente da averbação, pois a sua criação decorre diretamente da lei mencionada. Se existe a obrigação legal de proceder à averbação da reserva legal ambiental à margem da matrícula predial rural, nos imóveis especificados nos dispositivos legais em tela conclui-se, obrigatoriamente, que todos os registros imobiliários referentes a áreas rurais cujos proprietários não procederam à lavratura do referido ato registral ENCONTRAM-SE IRREGULARES PARA TODOS OS FINS JURÍDICOS. A partir do momento em que as matrículas imobiliárias em tela, cujas averbações de reserva legal florestal não foram feitas, encontram-se irregulares, é forçoso reconhecer, ainda, que a concessão de financiamentos aos seus proprietários, posterior à vigência do dispositivo legal acima mencionado, significa na verdade uma perpetuação da ilicitude contida nas matrículas em epígrafe, faltando as instituições financeiras de propriedade do Poder Público ao seu dever de velar pela legalidade e moralidade, na qualidade de agente estatal quando autoriza empréstimos nessas condições. Deve-se dizer neste momento que a obrigação de averbar a reserva florestal legal, além de decorrer diretamente da lei acima mencionada, independe de qualquer regulamentação, como demonstra a jurisprudência de nossos Tribunais, representada pelo acórdão a seguir transcrito: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE MS Ano do Processo: 96 Número do Processo: Data de Julgamento: 12/03/96 Decisão: POR MAIORIA

5 Ramo do Direito: CÍVEL Ementa: APELACÃO CÍVEL. DUVIDA INVERSA. TRANSFERENCIA DE DOMINIO DE IMÓVEL RURAL. RESERVA LEGAL. INTELIGENCIA DO PARÁGRAFO 2. DO ART. 16 DA LEI N DESNECESSIDADE DE REGULAMENTACÃO. RECURSO IMPROVIDO. O conteúdo do parágrafo 2. do artigo 16 da Lei que alterou disposições do Código Florestal e que exige a previa averbação de 20% da área do imóvel rural, que se pretende transferir o domínio, e de imediata aplicabilidade, sendo de todo desnecessária qualquer regulamentação posterior, impondo-se a reserva legal de qualquer forma de vegetação natural, independentemente da atividade a ser nele explorada. A jurisprudência acima faz referência ao artigo 16 do Código Florestal, que é similar ao artigo 44 do mesmo diploma legal acima mencionado, sendo, portanto que a lição ali posta serve para qualquer das regiões de nosso país. Uma vez estabelecida a obrigação legal do proprietário de imóvel rural configurado nos ditames do artigo 44 do Código Florestal em averbar a reserva legal florestal, e no dever que as instituições financeiras em pauta em não realizar qualquer financiamento a esses detentores de domínio enquanto não regularizarem tal situação, devemos dizer que não basta, para os fins colimados pelo nosso ordenamento jurídico, uma averbação genérica da reserva legal, onde se encontre descrita de forma singela a reserva de uma parcela da superfície da propriedade em questão para fins de reserva florestal, mas não diz quais os limites e confrontações da área restringida dentro do prédio em referência. A fim de se cumprir e se fazer respeitar, sem subterfúgios, as normas acima mencionadas do Código Florestal e o próprio interesse público, se faz necessário que a averbação da reserva florestal seja realizada de forma específica e determinada, mencionando o ato notarial o tamanho da área reservada, bem como os seus limites e confrontações dentro do imóvel específico, etc. Deve-se dizer que tal especificação da área reservada no ato averbatório se presta aos mais diversos fins. Em primeiro lugar, o detalhamento da reserva florestal é necessária, a fim de que esta possa efetivamente existir no mundo material, pois, sem o detalhamento de onde ela se encontra, o próprio dono do imóvel não poderá tomar as providências necessárias para a sua demarcação e preservação, sem o que não poderá realizar um planejamento regular da exploração econômica de seu prédio. Além disso, a demarcação da reserva florestal é indispensável para que os agentes estatais possam fiscalizar, sem margem a arbítrios de qualquer espécie, a efetiva existência da área restrita. Obviamente, se área reservada não estiver devidamente demarcada e especificada, as autoridades públicas competentes ficarão impedidas de exercer o dever de fiscalização do cumprimento da lei em epígrafe, frustrando-se assim os objetivos da norma em exame. Verificase, portanto, que até mesmo uma eventual averbação de certa porção indeterminada de propriedade rural representa, tanto como a própria falta de averbação, uma verdadeira burla ao texto legal, razão pela qual não pode ser tolerado tal expediente pelas instituições bancárias em pauta quando forem aferir as exigências prévias e o próprio exame das condições de pertinência da concessão de financiamento ao candidato ao empréstimo. Ademais, a especificação da área averbada para fins de reserva florestal é exigência dos próprios princípios atinentes aos registros públicos, que só são verdadeiramente regulares e aceitáveis se forem claros e determinados, não deixando margem a dúvidas que interfiram na certeza e segurança de que devem gozar os assentos notariais. Neste sentido, temos a lição de MARIA HELENA DINIZ, in Sistemas de Registros de Imóveis, 1992, ed. Saraiva, ps. 11/12: O registro imobiliário seria o poder legal de agentes do ofício público, para efetuar todas as operações relativas a bens imóveis e a direitos a eles condizentes, promovendo atos de escrituração, assegurando aos requerentes a aquisição e exercício do direito de propriedade e a instituição de ônus reais de fruição, garantia ou de aquisição. Com isso, o assentamento dá proteção especial à propriedade imobiliária, por fornecer meios probatórios fidedignos de situação do imóvel, sob o ponto de vista da respectiva titularidade e dos ônus reais que o gravam, e por revestir-se de publicidade, que lhe é inerente, tornando os dados registrados conhecidos de terceiros. 5

6 6 O registro de imóveis seria o fiel repositório de informações, contendo todos os dados alusivos à propriedade imobiliária, por acompanhar a vida dos direitos reais sobre os bens de raiz. Sua função seria a de especificar o imóvel registrado e os demais direitos reais que sobre ele recaírem. Por isso, nesta obra., procuraremos estudar o registro como ato primordial da aquisição da propriedade imobiliária. (Trechos sublinhados nossos). Outra finalidade pela qual as instituições financeiras em pauta devem impor a averbação certa e específica da área da reserva florestal no imóvel em epígrafe vincula-se à preservação dos direitos de terceiros interessados em comprar determinado prédio rural, os quais tem o interesse de saber precisamente quais as restrições de caráter legal/administrativo que pesam sobre a propriedade, a fim de poder aquilatar o preço ou mesmo a conveniência do negócio. Portanto, fica evidente que os bancos em pauta, de propriedade do Poder Público, tem todo o dever de exigir dos candidatos a qualquer tipo de financiamento agrícola o cumprimento da obrigação de averbar a reserva legal de suas propriedades que estiverem enquadradas dentro das prescrições dos artigos 16 e 44 do Código Florestal, não podendo os proprietários dessas áreas se esquivar de tal exigência, eis que a mesma visa simplesmente à comprovação de uma obrigação expressamente prevista pelo ordenamento. 5. Da ação civil pública necessária para se combater a omissão das instituições bancárias de financiamento agrícola controladas pelo Poder Público. A partir do momento em que se admite que realmente existe o poder-dever dos agentes financeiros controlados pelo Poder Público em não conceder quaisquer empréstimos ou financiamentos a titulares de domínio rural cujas matrículas imobiliárias, onde estão inscritos seus prédios, deveriam ter por lei averbada a reserva legal, mas que simplesmente ignoram essa exigência legal, deve-se encarar o problema de como fazer esses bancos passarem a cumprir as suas obrigações juridicamente estabelecidas, pois é certo que na prática eles continuam a realizar esses atos que vão na contramão dos princípios que regulam, não apenas a sua atividade, mas a própria atividade estatal. Seria possível a realização de termos de ajustamento com os bancos e, caso estes se negassem a adotar o posicionamento que legalmente se espera deles, nos termos acima exposto, seria cabível a propositura de ação civil pública, com fulcro no artigo 1º, incisos I e IV, da Lei Nº 7.347/85, sendo que essa ação teria a pretensão de obter do Poder Judiciário o estabelecimento de uma obrigação de não-fazer, condenando-se essas instituições financeiras recalcitrantes a se abster, definitivamente, de conceder financiamentos a proprietários de imóveis rurais cujas características se enquadrem nas hipóteses previstas nos artigos 16 e 44 do Código Florestal, e que não tenham inserido nas suas matrículas imobiliárias respectivas a averbação, no registro de imóveis competente, da reserva legal florestal em termos certos e definidos quanto ao seu tamanho, limites e confrontações, devendo essa abstenção perdurar até que os referido titulares de domínio rural cumpram com as suas obrigações de proceder à averbação em pauta, que deverá ser feita de forma detalhada e definida, a fim de se cumprir o seu escopo legal. Conclusões 1. É possível juridicamente a proposição de ação civil pública onde se pretenda que as instituições bancárias, de propriedade do Poder Público, que tenham funções de exercer financiamento agrícola, se abstenham de praticar quaisquer atos de financiamento ou refinanciamento a titulares de domínio imobiliários cujas matrículas estejam, por suas próprias características, sujeitas à averbação da reserva legal, de acordo com o disposto nos artigos 16 e 44 do Código Florestal e onde não se tenha procedido às referidas averbações, obrigatórias por lei. 2. Esse dever de abstenção de fornecimento de financiamento e refinanciamentos a proprietários rurais inadimplentes com as suas obrigações ambientais se fundamenta juridicamente no princípio da prevalência do interesse público sobre o particular, sendo que esses bancos controlados pelo Poder Estatal devem agir sempre na defesa do primeiro em detrimento do último, cumprindo a sua obrigação jurídica expressa no artigo 225 da Constituição Federal, de fazer garantir uma meio ambiente ecologicamente equilibrado para todos; 3. Que essas instituições financeiras devem exigir, antes de qualquer empréstimo ou refinanciamento, não apenas a averbação da reserva legal, quando esta for obrigatória, mas também que a referida reserva seja especificada na matrícula, mencionado-se a sua área, os seus

7 limites e confrontações, etc., pois a averbação de reserva legal desacompanhada de qualquer especificação não atende aos fins colimados pelos artigos 16 e 44 do Código Florestal, eqüivalendo, para todos os efeitos práticos, na própria inexistência da averbação em pauta. 7

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