Retrato do potencial energético do Brasil Brazil Energy and Power: conferência internacional chega ao Rio de Janeiro

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1 Entrevista Emilio La Rovere e as expectativas com a COP-19 Revista da Câmara de Comércio Americana para o Brasil Desde 1921 nº282 jul/ago 2013 Especial Retrato do potencial energético do Brasil Brazil Energy and Power: conferência internacional chega ao Rio de Janeiro Brasil Urgente Marco da mineração Radar Recof e a indústria naval Perfil Bolsa Verde do Rio Análise O valor dos ativos intangíveis

2 Perspectiva Inovadora Infraestrutura: um dos maiores e mais complexos desafios do século 21. Estima-se que serão necessários USD 40 trilhões de investimento até 2030 para sustentar o crescimento global. Nossos profissionais do Global Infrastructure, no Brasil e ao redor do mundo, assessoram governos, empresas privadas e investidores em todo o ciclo de vida dos projetos da estratégia e financiamento à entrega e operacionalização. kpmg.com/br infrastructure

3 editorial 06 Em Foco Notícias sobre as empresas associadas e a agenda de eventos da AmCham Rio Em um momento em que o Rio de Janeiro vive uma fase única para o setor de energia, com a injeção de ânimo à indústria de óleo e gás por conta da retomada das rodadas de licitações, a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro trouxe para a cidade a sua consagrada conferência internacional Brazil Energy and Power. Após dez edições realizadas em Houston (EUA), a incursão sobre o tema teve como norte as perspectivas, as promessas e os desafios da indústria na capital brasileira da energia. Fizemos cobertura especial e completa sobre os quatro painéis do evento nesta edição da Brazilian Business além de óleo e gás, tratamos de abordagens inéditas, como o custo da energia, o gás convencional e não convencional e as energias renováveis na matriz energética brasileira. Este é um momento também definitivo para as discussões em torno da proposta de um novo Marco Regulatório da Mineração, que foi encaminhado ao Congresso e espera por votação. Por entender a relevância e amplitude dos impactos das mudanças propostas para várias indústrias, apresentamos um artigo expondo as nuances do texto e suas possíveis reverberações. Outro tema evidente de atenção no cenário mundial é a eleição do embaixador Roberto Azevêdo, que esteve com empresários no Rio em almoço realizado pela AmCham Rio e pelo Sistema Firjan, no começo de agosto, para expor suas propostas e perspectivas como novo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), um mês antes de assumir o cargo. A cobertura completa você acompanha aqui. Conselho editorial Henrique Rzezinski João César Lima Rafael Lourenço Rafael Sampaio da Motta Roberto Prisco Paraíso Ramos Robson Goulart Barreto Editora-chefe e jornalista responsável Andréa Blum (MTB RJ) Colaboraram nesta edição: Fábio Matxado (edição de arte), Gabriel Portugal, Pedro Kirilos (fotos), Luciana Maria Sanches (revisão), Cláudio Rodrigues, Giselle Saporito, Marcello Sigwalt (texto) Canal do leitor Os artigos assinados são de total responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores e a da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro Publicidade Felipe Tavares A tiragem desta edição, de mil exemplares, é comprovada por Ernst & Young Terco Impressão: Walprint Entrevista O coordenador do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas da Coppe/UFRJ, Emilio La Rovere, e a COP-19 Brasil Urgente O novo Marco Regulatório da Mineração e as consequências para o mercado nacional Ponto de Vista Os entraves na infraestrutura aos olhos da gerente de Llorente & Cuenca Brasil Anatrícia Borges Perfil A Bolsa Verde do Rio, inovação em mercado de ativos sustentáveis Radar Como a indústria naval pode se beneficiar do Regime Aduaneiro Especial de Entreposto Industrial sob Controle Informatizado Coluna Rio Fórum Permanente de Desenvolvimento Estratégico do Rio da Alerj comemora uma década de debates Especial Brazil Energy and Power: conferência internacional chega ao Rio de Janeiro com importantes perspectivas e debates para o setor E como não poderia deixar de ser, artigos, reportagens, entrevistas e análises sobre temas estruturais ao Estado do Rio e centrais às empresas que compõem esta entidade, como logística e infraestrutura, sustentabilidade, entretenimento, entre outros, também norteiam o conteúdo a seguir. Boa leitura! Uma publicação da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro Praça Pio X, 15, 5º andar Rio de Janeiro RJ Tel.: (21) Fax: (21) Leia a revista também pelo site amchamrio.com Diálogos Os possíveis avanços para o País com as trocas de experiências e parcerias com o estado da Georgia (EUA) Análise A securitização de ativos de propriedade intelectual, por Bruno B. Simões Corrêa, sócio de Fiad, Leite & Simões Corrêa Advogados From the USA O plano anunciado por Barack Obama para reduzir as emissões de carbono roberto ramos, presidente da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro Caso não esteja recebendo o seu exemplar ou queira atualizar seus dados, entre em contato com Giuliana Sirena: (21) ou 42 Amcham News A cobertura completa dos eventos realizados pela AmCham Rio

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5 em foco comitês amcham rio Cases de inovação O Comitê de Marketing apresentou, durante as reuniões de julho e agosto, dois projetos de empreendedores que criaram suas empresas a partir de propostas inovadoras. O fundador da Qranio, Samir Iásbeck, falou sobre o processo de criação da startup, que teve origem na elaboração de um jogo, já comercializado para uma grande operadora de telefonia, feito para promover o conhecimento com diversão e dar prêmios, envolvendo ainda outras empresas no processo. A outra experiência compartilhada foi a do CEO da MJV, Maurício Vianna, que mostrou como o método do design thinking auxilia as empresas a serem mais criativas e a interpretar e transformar os desejos e anseios de seus clientes, aprimorando o produto final e, consequentemente, fidelizando o cliente e se consolidando no mercado. Desenvolvimento local O Comitê de Responsabilidade Social Empresarial recebeu no seu encontro de julho a gerente de Projetos da Coordenação de Recursos Naturais e Estudos Ambientais do IBGE, Denise Kronemberger, que apresentou as diretrizes necessárias para a implantação de ações de desenvolvimento local em comunidades e abordou as dificuldades e os caminhos possíveis para a atuação das empresas. Denise falou sobre o papel das companhias na elaboração de estudos, diagnósticos, monitoramento e estratégias do processo de desenvolvimento local. O tema é considerado prioritário pelo comitê, que, neste ano, pretende investir em ações relacionadas ao assunto. Bolsa Verde do Rio O diretor executivo da BVRio (Bolsa Verde do Rio de Janeiro), Maurício Moura Costa, participou da reunião do Comitê de Meio Ambiente, em agosto, e explicou aos membros como funciona a plataforma eletrônica de negociação, que atua como uma bolsa de valores ambientais sem fins lucrativos. O objetivo da BVRio é criar um mercado de ativos ambientais para promover a economia verde no Brasil. A ferramenta é destinada aos setores público e empresarial e negocia ativos referentes à recuperação de áreas florestais, ao tratamento de resíduos, à logística reversa, à emissão de gases ou efluentes, entre outros. Centro Nacional de Resseguros O Comitê de Seguros, Resseguros e Previdência, presidido por Luiz Felippe Wancelotti, teve seu primeiro encontro do ano no fim de agosto, quando recebeu a gerente de Negócios da agência Rio Negócios, Carla Falcão, para apresentar aos membros o projeto do Centro Nacional de Resseguros. Inspirado na experiência inglesa, o centro será instalado em um prédio já em construção pelo Opportunity, no Centro do Rio, e deve ser inaugurado em janeiro de A ideia é reunir em um só espaço empresas do setor, seguradoras, resseguradoras e corretoras. A Jones Lang LaSalle atuará como coordenadora de desenvolvimento e comercialização do empreendimento. O projeto de criação de um polo para o mercado de resseguros é um dos temas de interesse do comitê, que nos próximos meses também pretende debater assuntos relacionados a gargalos de mão de obra, legislação, gerenciamento de risco e fraude, entre outros. Gestores administrativos Um grupo de gestores administrativos de escritórios de advocacia focados em trocar experiências e melhorar o ambiente de trabalho dessas empresas começou a se reunir, em março, na Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio). Os encontros vêm sendo realizados bimestralmente e abordam questões como pesquisas de cargos e salários, fornecedores de produtos e serviços, retenção de talentos e incentivos para os funcionários. No mês de julho, o subcomitê recebeu a visita da professora da FGV Damáris Novo, que falou sobre liderança, os diferentes tipos de gestão e indicou os caminhos para um bom relacionamento com os funcionários. Leia mais em Amid slowing growth and social unrest, Brazil must find new drivers of economic success. Will the government s recent promises of reform, fiscal responsibility and investment bring lasting progress and competitiveness to Brazil? Join Economist editors, international business leaders and Brazil s government officials for a high-level discussion about the current business landscape and Brazil s social and economic future. SPEAKERS INCLUDE Joaquim Barbosa Chief Justice Brazil David Marcus President PayPal Antonio Anastasia Governor Minas Gerais A compelling, diverse and fast buffet of Brazilian critical issues. Angela Pimenta, partner PATRI Políticas Públicas Rodrigo Galindo Chief executive Kroton Educacional Agenda 2013 AmCham Rio 24/9 a 22/10 Curso de inglês para Óleo e Gás When using the code EMPEMPAC AmCham Rio guests get a $400 discount. SETEMBRO 10, 17 e 24/9 Curso Gestão operacional na importação e exportação 18/9 Evento Desenvolvimento Local: Aspectos Sociais, Econômicos e Ambientais 19/9 Cerimônia de premiação do 9º Prêmio Brasil Ambiental 26/9 III Fórum de Comércio Internacional OUTUBRO 03/10 Fashion Law: os avanços e desafios do chamado Direito da Moda no Brasil Novembro 28/11 Prêmio de Inovação Tecnológica da AmCham Rio Platinum sponsors econ.st/amcham13 Gold Sponsor Supporting PR agency 6_Edição 282_jul/ago 2013

6 entrevista sustentabilidade Emilio La Rovere O coordenador do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (CentroClima) da Coppe/UFRJ, Emilio La Rovere Impasses climáticos O desafio de encontrar na Polônia um caminho para deter o aquecimento global Por Cláudio Rodrigues 8_Edição 282_jul/ago 2013 Encontrar a equação para evitar as mudanças climáticas não é uma tarefa fácil. As emissões de gases do efeito estufa continuam crescendo, e diferentes interesses comerciais e diplomáticos impedem a criação de um acordo capaz de controlar o aquecimento global. A próxima rodada de negociações será em Varsóvia, na Polônia, entre os dias 11 e 22 de novembro deste ano, durante a 19ª Conferência do Clima (COP-19). Na mesa, estará o desafio de criar os mecanismos capazes de superar os impasses envolvendo quase 200 países até 2015, quando deverão estar definidas as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa que passarão a vigorar em Para entender melhor o que deverá ser aprovado na COP-19, a revista da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio), Brazilian Business, entrevistou o cientista Emilio La Rovere, especialista que faz parte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Professor titular da Coppe/UFRJ, ele é coordenador do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (CentroClima) da universidade. De acordo com La Rovere, o encontro na Polônia precisará dar passos importantes para que seja possível a criação de um acordo climático até o prazo estabelecido, 2015, quando a Conferência do Clima deverá ser realizada em Paris, na França. Leia a seguir os trechos da entrevista com o professor sobre a expectativa em torno do encontro e os possíveis desdobramentos para o futuro. Divulgação Coppe/UFRJ Brazilian Business: O que pode sair de importante dessa reunião? É possível que seja criado algum acordo relevante? Emilio La Rovere: Ainda não se espera que um acordo seja concluído neste ano, nem no ano que vem. O prazo estabelecido é até Tradicionalmente, na Conferência do Clima, dadas as regras de consenso de todas as convenções da ONU, infelizmente, os acordos feitos geralmente são atingidos só no apagar das luzes. Foi assim em Kyoto, negociado em E, pelo que temos visto nas reuniões preparatórias, que acontecem a cada três meses em Bonn, na Alemanha, ainda não se desenha nenhum consenso. Entretanto, estão surgindo novas ideias. O maior impulso deverá vir, desta vez, das duas maiores potências, Estados Unidos e China. BB: Quais são os indícios de uma mudança de postura desses dois países, que têm as maiores emissões de gases de efeito estufa do planeta? ER: A China anunciou um grande plano para combater a poluição local. A poluição do ar em Pequim é crítica. Esse movimento ensejou uma resposta dos Estados Unidos um dia depois: o governo Obama escolheu simbolicamente a escada da Universidade de Georgetown, em que vários presidentes americanos fizeram anúncios históricos, para anunciar um plano de combate à mudança do clima. O maior impulso deverá vir, desta vez, das duas maiores potências, Estados Unidos e China BB: E o Brasil, pode ter algum protagonismo, ou não? ER: O Brasil teve um desempenho muito importante no combate ao desmatamento, reduzindo muito as emissões. Assim, praticamente assegura, caso seja mantido esse desempenho, o cumprimento dos objetivos voluntários com que o Brasil se comprometeu na Conferência de Copenhague, em Neste sentido, estamos numa boa situação, dependendo das próximas estatísticas de desmatamento, que devem vir com algum aumento neste ano. Mas, comparado com uma queda forte que vem acontecendo desde 2005, mais ou menos, a gente pode dizer que as metas com que o Brasil se comprometeu devem ser cumpridas. BB: O Estado do Rio de Janeiro abriga uma indústria intensa de carbono, como a produção de petróleo e a siderurgia. Esses novos acordos climáticos podem ter impactos nestas atividades econômicas? ER: Isso vai acontecer, provavelmente um pouco mais à frente. O Brasil, e acho que isso também já se sabia em Copenhague, tinha essa oportunidade de reduzir emissões da sua economia sem sacrificar muito o crescimento econômico: bastava conter o desmatamento, o que, na verdade, não afeta tanto assim a economia nacional. Até 2020, deveremos contar com essa zona de conforto. Bastará fazer o dever de casa na Amazônia para que as nossas emissões estejam dentro do que a gente se comprometeu. Entretanto, a rodada de negociações de Paris, em 2015, vai estabelecer o passo seguinte. Ou seja, os objetivos para depois de 2020, até 2025, ou Não há ainda um prazo definido, para que ano seriam traçadas as metas, se serão voluntárias ou, digamos, obrigatórias. Enfim, isso ainda está sendo negociado. Falando de reduções de emissões de 2020 a 2030, o Brasil estará numa situação mais parecida com a da economia industrializada de hoje nos países avançados. Neste caso, as metas de redução de emissões dependem essencialmente do combate a combustíveis fósseis. O governo publicou uma estimativa de emissões referentes a 2010 na qual os lançamentos atmosféricos do setor de energia da indústria, dos transportes, das residências e do comércio já superam os do desmatamento, que estão caindo drasticamente. 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7 entrevista emilio la rovere sustentabilidade BB: Quando o Brasil deverá publicar o próximo inventário de emissões? ER: Ele deverá ser apresentado na Conferência do Clima de No ano que vem, o País apresentará suas contas atualizadas em um número oficial. E isso ainda está sendo feito, inclusive com a participação do nosso núcleo da Coppe/UFRJ, que está fazendo cálculos acerca das emissões relacionadas à energia, que agora é o setor mais importante. Fala-se muito sobre o que deve ocorrer com as indústrias. Há vários mecanismos em discussão: taxa de carbono, limites de emissões, certificados negociáveis, comércio de cotas de emissões etc. Isso está sendo estudado na academia e no governo, mas tendo em vista um horizonte após BB: Que tipo de mecanismo pode surgir? O senhor poderia dar exemplos? ER: Alguns Estados, como o Rio de Janeiro, já se movimentam. Os fluminenses criaram uma bolsa de ativos ambientais, a Bolsa Verde do Estado do Rio, no sentido de oferecer estímulo, incentivo e recompensa a boas práticas nesse campo. A medida não escolhe o caminho da restrição, da penalização, de impor a qualquer custo qualquer tipo de ônus. Isso costuma mobilizar a indústria, que, dentro de um ambiente positivo, investe em inovação tecnológica. A partir de um problema, surgem soluções ambientalmente adequadas. A produção continua podendo ser lucrativa e eficiente. Como a concorrência enfrenta as mesmas restrições, ocorre um novo campo de competitividade. Entretanto, acho que ainda estamos num período de ensaios. BB: Os desmatamentos ainda preocupam? ER: O governo não pode relaxar e precisa continuar fazendo o dever de casa na Amazônia, que também não é líquido e certo. A imprensa ainda mostra madeireiras entrando em áreas indígenas. Se bobear, basta a economia crescer um pouco mais para que surja uma estrada na Amazônia. Há uma dinâmica de expansão da fronteira agrícola que inevitavelmente vai também ensejar o desmatamento ilegal. Então, tem que estar muito alerta em coibir o desmatamento ilegal. Não basta promover ações de fiscalização. É preciso criar uma política em que manter a floresta de pé seja economicamente viável. O Brasil tinha essa oportunidade de reduzir emissões da sua economia sem sacrificar muito o crescimento econômico BB: Mas o que o senhor gostaria que a próxima COP decidisse? ER: Que alguns passos importantes fossem dados no sentido de criar um acordo global, sinalizando algumas definições de prazo e critérios para redução de emissões. A Europa já sinalizou várias vezes que poderia aumentar de 20% para 30% a redução de emissões. Falando de tecnologias de energia renovável, de eficiência energética, é preciso definir um financiamento, um investimento inicial. E este é o maior desafio. Nos últimos anos, a recessão econômica gerou um clima muito negativo. E foram aprovados os fundos para a Conferência do Clima, mas nenhum país industrializado pagou nenhum tostão. Então, é necessário contar com um cronograma, um aporte a um fundo primário, com cronograma para capitalização desses fundos. BB: Para as mudanças climáticas, não há diferença se a emissão ocorreu no Brasil ou em outra parte do mundo. Como um acordo global pode exigir metas nacionais de controle de lançamentos na atmosfera? ER: Com a globalização, não é tão importante dizer ah, o Brasil vai ter que respeitar o limite, a Argentina, o México também. O que importa é o seguinte: quem vai financiar a redução de emissões? Pode ser até no meu território, e se for por meio de um fluxo de investimento estrangeiro, ótimo para a minha economia. O problema é o custo da transição para a economia de baixo carbono. BB: Por que é importante cortar emissões e combater o aquecimento global? ER: Porque há o custo da inação, de você não cortar emissões e deixar o problema se avolumar. Não fazer nada é muito mais caro do que o custo de cortar emissões. Muitas vezes você pode dizer bom, a sociedade vai se sacrificar, pagar custos mais elevados, por que tudo isso?. Porque se não houver um perfil menor de emissões, a mudança climática aumenta muito rapidamente, e os impactos das mudanças climáticas trazem custos e perdas enormes de qualidade de vida. Muito maiores do que o sacrifício que a gente tem para diminuir um pouco as emissões. 10_Edição 282_jul/ago 2013

8 brasil urgente Marco Regulatório da Mineração: os riscos do desperdício de oportunidades O novo marco regulatório para a mineração pode atravancar o desenvolvimento de várias indústrias e retardar o crescimento da economia brasileira Rafael Lourenço_diretor-superintendente da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio) 12_Edição 282_jul/ago 2013 Produtos minerais se constituem num dos pilares da economia moderna, sendo essenciais para indústrias como a da construção civil, de máquinas, automobilística, aeroespacial, da construção naval, de material ferroviário, energia, computadores, alimentos e a fabricação de novos produtos, como TVs de tela plana, carros elétricos, tablets e smartphones. Apesar de classificados como de baixo valor agregado, a evidência empírica revela o oposto: o valor médio adicionado por trabalhador na extração de minério de ferro no período 1996/2009 superou em 28% o da produção de aço e em mais de duas vezes o da informática. A Vale, nossa maior mineradora, figura entre as dez entidades brasileiras com maior número de patentes registradas na última década. O crescimento das economias emergentes demanda quantidades crescentes de minérios e metais para a industrialização e urbanização, criando oportunidades para o Brasil, rico em recursos minerais e com tecnologia avançada em mineração. A atividade mineradora convive com elevados riscos e a necessidade de dispêndio considerável de capital e do planejamento de longo prazo. Tais aspectos recomendam um ambiente regulatório e fiscal compatível com esse longo horizonte de investimento. Os entraves produzidos pela complexa legislação ambiental e a intervenção de múltiplos órgãos governamentais deixaram o Brasil em desvantagem no minério de ferro. Enquanto a Austrália expandiu suas exportações em 227 milhões de toneladas, entre 2007 e 2012, as do Brasil cresceram em um quarto desse volume. De primeiro exportador mundial, em 2007, passamos para um distante segundo lugar. Apesar disso, não fossem as exportações de minério de ferro, o Brasil teria registrado déficit comercial de US$ 32,3 bilhões no triênio Os investimentos em mineração geram benefícios diretos para vários setores da economia brasileira, pois cerca de 90% das compras é feita no País. Contudo, o estabelecimento de um requisito mínimo de conteúdo local, presente na proposta do governo para um novo marco regulatório para a mineração (PL 5.807/2013) e inexistente nos principais países mineradores, poderá criar dificuldades para as empresas do setor e impor maiores custos para suas operações, impactando a produtividade, fator fundamental para o crescimento econômico. Outra componente da PL 5.807/2013 se refere à licitação de áreas para exploração, selecionadas por entidade estatal. A exigência é sem paralelo no mundo e poderá trazer implicações negativas sobre o investimento, ao elevar riscos e potencialmente reduzir retornos esperados. Da mesma forma, a fixação de prazos de concessão de lavra, como ocorre na PL 5.807/2013, não é ideal diante da natureza da atividade mineradora. O prazo médio entre a descoberta de uma jazida mineral e o início de produção é superior a dez anos. Somente parte das descobertas se transforma em operação: apenas 30% dos depósitos de cobre descobertos entre 1990 e 1994 em países desenvolvidos e no Chile se converteram em minas quase 20 anos depois. Ademais, operações de minas requerem significativos investimentos em manutenção, que naturalmente se reduziriam com a limitação do prazo para exploração. A mineração deixa claro legado para a sociedade: distribuição de energia, escolas, hospitais, infraestrutura urbana, portos e ferrovias que transportam outras cargas e passageiros, conectando regiões remotas aos centros urbanos, relevante num país que tem sérias limitações relacionadas à infraestrutura. O requisito mínimo de conteúdo local poderá criar dificuldades para as empresas do setor e impor maiores custos para suas operações, impactando a produtividade, fator fundamental para o crescimento econômico No tocante à participação do segmento de mineração em pesquisa e desenvolvimento, o Departamento Nacional de Proteção Mineral (DNPM) recebe média anual de 26 mil requerimentos de pesquisa, e só a Vale investiu neste quesito US$ 43 bilhões entre 2008 e As questões apontadas contidas na legislação ambiental e na PL 5.807/2013 representam desafios que poderiam resultar na retração do investimento no setor de mineração. Diante da perspectiva de mais de 2 bilhões de pessoas nas economias emergentes ascenderem à classe média nos próximos 20 anos, demandando construção de residências, infraestrutura e bens de consumo durável, será essencial que as novas regras fomentem um ambiente de negócios favorável para garantir ao País a plena utilização de suas vantagens competitivas. Edição 282 Brazilian Business_13

9 ponto de vista logística e infraestrutura Gestão contábil e empresarial baseada em transparência e confiança mútua. Accounting and business management based on transparency and mutual trust. O dilema na infraestrutura Os R$ 600 bilhões em caixa não são suficientes para o Brasil alavancar seus projetos de infraestrutura. É preciso mudar heranças culturais 26_Edição 14_Edição 275_mai/jun 282_jul/ago Em 2009, uma reportagem da revista inglesa The Economist apontava o Brasil como o país que decola (takes on). Após décadas de instabilidade econômica, o Brasil voltava a ser atrativo ao capital externo, em decorrência de um novo plano econômico que domou a inflação, deu maior autonomia ao Banco Central e engordou o Tesouro Nacional com os recursos da privatização de estatais. A essa perspectiva mundial, o Brasil, entre todos os Brics, ainda somava atributos importantes, como a ausência de conflitos étnicos e religiosos comparados aos da Índia, independência sobre os combustíveis fósseis, diferentemente da Rússia, e sua estabilidade democrática diante da poderosa China. Todos nós embarcamos nesse sonho. Quatro anos se passaram, e o País ainda permanece como a menina dos olhos para os grandes grupos globais, motivados a investir em uma economia emergente, sob um regime democrático estável, com grande potencial de consumo interno e abundância em recursos estratégicos para o futuro do planeta. No entanto, os atrasos e a burocracia na tomada de decisões importantes, cruciais à viabilização do seu desenvolvimento econômico, têm colocado o Brasil numa crise de reputação internacional sobre sua capacidade de execução e garantia para os novos investimentos. Anatrícia Borges gerente de Llorente & Cuenca Brasil Da euforia à decepção Inegavelmente, o Brasil nas últimas três décadas reverteu sua imagem de economia atrasada. Motivado pela onda de crescimento, tem um orçamento público de R$ 1,26 trilhão, a ser executado até 2017 na modernização de rodovias, portos, aeroportos, ferrovias, sistemas de transmissão de energia, com objetivo de elevar seu Produto Interno Bruto em 4% nos próximos anos e aumentar sua competitividade internacional. Envelopados no ousado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), criado pela era Lula e seguido, numa segunda etapa (PAC 2), por sua sucessora, Dilma Rousseff, para promover a retomada do planejamento e a execução de grandes obras de infraestrutura social, urbana, logística e energética. Os projetos brasileiros de infraestrutura, no entanto, têm sido vistos ultimamente como um real axioma pela comunidade empresarial internacional: o tempo da euforia à decepção é curto, impactado por licitações mal elaboradas, uma cultura política mais focada em inaugurar obras e não em executar projetos e regulações complexas. É um paradoxo para o Bric Brasil, com R$ 600 bilhões em caixa destinados aos investimentos em projetos de infraestrutura, que poderiam ajudar e impulsionar a economia global, se considerarmos uma Europa em crise e a lenta recuperação econômica americana. Mas o País não consegue operacionalizar empreendimentos, atingir o cumprimento de prazos e metas e, assim, manobrar a estibordo projetos como o do Trem de Alta Velocidade, finalizar a transposição do rio São Francisco ou levar adiante o Porto de Manaus, entre inúmeros outros que o Executivo brasileiro tem em sua pasta. Mesmo evidenciando essa imaturidade gerencial, própria de uma nação de apenas cinco séculos, o País se tornou parte de um sonho das grandes conglomerações empresariais, focadas em sua predestinação ao crescimento global. solidez Resultado: parcerias sólidas e excelência em produtividade. Result: solid partnerships and excellence in productivity. Rio de Janeiro Av. Rio Branco, 311, 4º e 10º andares Centro - Rio de Janeiro - RJ CEP: Tel solidity confiança reliability partnership parceria transparência transparency São Paulo Rua do Paraíso, 45, 4º andar Paraíso - São Paulo - SP CEP Tel Macaé Rua Teixeira de Gouveia, 989, Sala 302 Centro - Macaé - RJ CEP: Tel

10 ponto de vista logística e infraestrutura Rico em dicotomias Desde a colonização portuguesa, o Brasil sempre foi rico em dicotomias. Ora colônia de exploração, ora, por conveniência da Corte, colônia de povoamento. Ou seja, a ambiguidade nacional sempre foi historicamente cultural. E contra esse ranço de reputação ambígua da falta de eficiência na organização, apoiada pela célebre frase brasileira no final, tudo dá certo que gera muita insegurança ao mundo dos negócios o governo também tem esmerado esforços em mudar. O Executivo tem encontrado obstáculos na pluripartidarização política do País, nas diferentes legislações e regulações das unidades federativas, nos interesses políticos eleitorais e no inchaço dos orçamentos na execução de projetos. Somados, estes elementos ressuscitam uma sombra negativa sobre o Brasil, tachado por décadas de subdesenvolvido, pouco competente e improdutivo e que, por sua extensão continental, diversidade climática, pujança de recursos e mercado interno, poderia facilmente ser uma potência mundial. Os grandes projetos de infraestrutura brasileiros são estacionados no Congresso, os investidores estão ressabiados e a engrenagem da economia freada. Dependem de lobbies, muitas conversas e concessões de favores. Nos tempos atuais, a crise brasileira se deslocou de eixo. Não carece de bons projetos, mas sim de recursos mais humanos do que capitais. Em síntese, o problema não é mais só como obter a ganga, como nos idos momentos de dureza, mas em que ordem priorizar e viabilizá-la, e com que amigos experientes contar para aplicá-la eficazmente e alçar o Brasil ao sonhado patamar de primeiro mundo. Como no jornalismo, a comparação é um método fácil para assimilação, e um bom exemplo é o da família que, repentinamente, cresce em sua condição social e econômica. Agora, com facilidade de recursos, o dilema passa a ser como não perder seu status quo sem ferir heranças e valores seculares, para não criar mais conflitos entre seus parentes. No afã pelos atributos da modernidade e pela sede da equivalência às grandes potências, ser ou não ser um país desenvolvido, e o que é sê-lo hoje no século 21, eis a questão para o Brasil. 16_Edição 282_jul/ago 2013 Os atrasos e a burocracia na tomada de decisões importantes têm colocado o Brasil numa crise de reputação internacional sobre sua capacidade de execução e garantia para os novos investimentos Comunicação não faz milagre A gestão da imagem do País nos últimos anos pode ser considerada uma das mais eficientes e eficazes. O plano estratégico da marca Brasil vendeu bem o País no cenário internacional, respaldado por dois ex-presidentes com perfis distintos, carismáticos interlocutores que lideraram um processo de abertura político-econômica, convencendo, com suas qualidades pessoais e políticas públicas, que o Brasil era um país próspero, seguro e colchão promissor de investimentos para o crescimento da sociedade global. Ninguém questiona que nós brasileiros somos bons em comunicação! Contar histórias também sempre foi um dos nossos valores, seja como coadjuvantes na corte ou nas esteiras das senzalas. Temos por hábito convencer muitas vezes pelo nosso carisma e entusiasmo, em detrimento da razão. A real questão está na linha tênue de que a comunicação, para qualquer tipo de organização, é apenas um poderoso recurso estratégico, que contribui ao êxito, mas não opera milagres. Na sociedade moderna, pode construir mitos, mas se não houver um bom produto, serviço, eficiência ou eficácia, os mitos ruem, ou por si mesmos se destroem. E os sonhos vão embora. Os números do orçamento público do Governo Federal brasileiro ainda são espetaculares e atrativos e fazem sonhar empreendedores globais. Contabilizam projetos de 10 mil quilômetros de ferrovias, 5 mil de estradas duplicadas, plataformas de petróleo para o pré-sal; sem falar no maior programa de concessões realizado pelo Governo Federal, que, em setembro, prevê licitar R$ 242 bilhões. Tirá-los do papel exige parcimônia, eficiência, parcerias competentes e uma boa dose de experiência para transformá-los em obras que realmente alcem o Brasil ao desenvolvimento econômico sustentável nos próximos anos. O sucesso que alcançamos é resultado das nossas escolhas. E escolhemos o Brasil. Seremos a maior produtora privada de petróleo e gás do país em 2014, quatro anos após iniciar a produção no pré-sal. Foram mais de 5 bilhões de dólares investidos no Brasil e ainda serão mais 3 bilhões de dólares anuais nos próximos cinco anos. E não para por aí. Adquirimos, como operadores, dez blocos na Bacia de Barreirinhas*, reforçando o compromisso com o país. Investiremos de 1,5 a 2 bilhões de dólares até 2025 em tecnologia e inovação, trabalhando com universidades e parceiros brasileiros. Promovemos a educação científica no ensino público, e contribuímos para a formação de mão de obra qualificada. A BG Brasil investe para crescer junto com o país, suas pessoas e recursos. * Barreirinhas localiza-se na margem equatorial brasileira, abrangendo parte da costa do estado do Maranhão e a plataforma adjacente.

11 perfil Bolsa Verde do Rio quer se tornar referência na negociação de créditos relacionados ao meio ambiente Por Cláudio Rodrigues É lei. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, criada em 2010 e em implantação até agosto do ano que vem, estabelece as responsabilidades para a retirada dos produtos vendidos, seja reciclagem ou destinação final ambientalmente adequada em aterros sanitários. Na vida prática, por um lado, surgem problemas logísticos grandes para as organizações; por outro, coletar produtos de valor das ruas e dos lixões do Brasil faz parte do dia a dia de mais de 800 mil catadores. Entre uma ponta e outra, a BVRio (a Bolsa Verde do Rio de Janeiro) desenvolve mecanismos de mercado para que as companhias cumpram as regras ambientais e as cooperativas de catadores tenham melhores condições de trabalho. As exigências legais em relação ao lixo são apenas um exemplo entre tantas outras da legislação ambiental brasileira, que estabelece uma série de obrigações tanto para empresas quanto para pessoas. Reciclagem, preservação de áreas de florestas (as chamadas reservas legais) e metas de redução de emissões também fazem parte dessa lista, cuja tendência é aumentar. A exemplo das bolsas tradicionais, os ativos e os passivos são negociados no mercado. Porém, na BVRio, os créditos têm bases ambientais. Ou seja, as empresas podem cumprir suas cotas da Política Nacional de Resíduos Sólidos por meio de créditos, que são emitidos e ofertados pela BVTrade a plataforma eletrônica de negociação de ativos ambientais da bolsa. O objetivo da BVRio é criar mecanismos de mercado para facilitar o cumprimento de leis ambientais, disse Pedro Moura Costa, presidente executivo da organização. Para que esses mecanismos funcionem, no entanto, é necessário que o governo assegure a obrigatoriedade do cumprimento dessas leis, com seriedade e integridade. Desse modo, torna-se óbvio que o uso de mecanismos de mercado seja mais ágil e eficiente para aqueles que têm que se adequar a essas novas legislações. Lançada oficialmente em dezembro do ano passado, a BVRio tem como primeiro desafio difundir informação. E, ao mesmo tempo, mostrar ao mercado que os créditos negociados têm credibilidade, são auditáveis. Voltando ao exemplo dos resíduos sólidos, uma cooperativa de catadores lança no sistema da bolsa a quantidade de material que passou a ter destinação adequada. Este crédito pode ser comprado pelas indústrias que precisam comprovar a destinação correta de seus resíduos. 18_Edição 282_jul/ago 2013 sustentabilidade Os valores ambientais no mercado divulgação A BVRio desenvolve mecanismos de mercado para que as companhias cumpram as regras ambientais e as cooperativas de catadores tenham melhores condições de trabalho Pedro Moura Costa, presidente executivo da Bolsa Verde do Rio A negociação desses ativos ambientais na BVRio, porém, está apenas começando. Questionado sobre o tamanho desse mercado, Costa não forneceu números, porém alegou que espera ver um grande crescimento das negociações em pouco tempo: As obrigações criadas pela nova Lei Florestal ou a Política Nacional de Resíduos Sólidos podem apoiar mercados de dezenas de bilhões de reais em muito pouco tempo, dois a três anos. O mesmo pode acontecer com o mercado de créditos de carbono, se o Governo Federal criar o sistema de cotas de emissão de gases de efeito estufa. Para aumentar sua viabilidade, portanto, a BVRio depende menos de uma tomada de consciência verde e mais de legislações específicas que obriguem o setor produtivo a melhorar sua performance ambiental. Por isso que o presidente da Bolsa Verde classifica como principal atrativo a oferta de uma solução ágil e eficiente para o cumprimento de exigências legais, facilitando a vida da indústria com relação às diversas obrigações criadas para a proteção ambiental. Apesar de contar com o apoio dos governos estadual e municipal, a Bolsa Verde do Rio de Janeiro é uma associação sem fins lucrativos. Mais recentemente, a BVRio firmou parcerias com os Estados do Amazonas e Pará (Secretaria de Municípios Verdes). Há três categorias de associados: empresas, ONGs e pessoas físicas. Todos com representação no Conselho Deliberativo, que contará com representantes das três esferas do governo. Os focos iniciais da BVRio são as Cotas de Reserva Ambiental, criadas pela nova Lei Florestal, e a criação de um sistema de Créditos de Logística Reversa. E a ambição é se tornar uma referência internacional. Nosso modelo de mecanismos de mercado para cumprimento de leis ambientais pode ser exportado para outras partes do mundo. A BVRio já tem uma colaboração com a Bolsa de Carbono de Xangai e já foi contatada por alguns países da América Latina para ajudá-los a pensar em soluções como as que estão sendo promovidas pela bolsa, salientou Costa.

12 radar O Recof e a indústria naval 20_Edição 282_jul/ago 2013 A extensão do Regime Aduaneiro Especial de Entreposto Industrial sob Controle Informatizado pode beneficiar a indústria naval André de Souza Carvalho_ sócio de Veirano Advogados, e Paulo de Oliveira Carvalho_advogado associado de Veirano Advogados Segundo-Sargento Alexander Vieira/ Acervo fotográfico marinha do brasil A expansão das atividades de E&P (exploração e produção) offshore de petróleo e gás no País, associada aos requisitos de conteúdo local, vem permitindo à indústria naval brasileira participar mais da produção de embarcações (de apoio marítimo, plataformas do tipo FPSO etc.) destinadas ao setor petrolífero. De forma a minimizar seus custos tributários e fazer frente à concorrência internacional, e em linha com a política de conteúdo local, que tem como principal objetivo fomentar a produção nacional, a indústria naval brasileira há muito se vale do regime do drawback. Desde o renascimento da indústria naval brasileira, a partir do fim da década de 1990, vem havendo uma demanda por outros regimes aduaneiros que lhe permitam diminuir os custos tributários, sabidamente elevados. Destaca-se nesse contexto o regime do Entreposto Aduaneiro Industrial (EAI) da Instrução Normativa (IN) 513/05. O EAI foi instituído especificamente para desonerar os fabricantes nacionais de plataformas e seus módulos, tendo sido elaborado e aperfeiçoado a partir do regime do Entreposto Aduaneiro original regulamentado pela IN 241/02. Entretanto, os estaleiros e moduleiros vinham enfrentado dificuldades inesperadas para se habilitar no EAI, com as autoridades fiscais negando pedidos de habilitação ao regime pelos motivos mais diversos. Como exemplo, já foram indeferidos pedidos com base no questionável argumento de que plataformas de perfuração construídas em formato de embarcação (navios-sonda) não podem ser classificadas como plataformas para fins do Entreposto Aduaneiro Industrial. Tão questionável que as próprias autoridades argumentam que plataforma não é embarcação para fins de imposto de renda! Outra dificuldade encontrada especificamente por fabricantes de módulos no momento da habilitação ao regime (dificuldade esta de origem legislativa) consistia no requisito de operação do regime (i) na própria plataforma em construção ou conversão, (ii) em estaleiro naval, ou (iii) em outras instalações industriais localizadas à beira-mar. Como os moduleiros não os constroem na própria plataforma ou em estaleiro naval, somente poderiam se habilitar ao regime caso tivessem instalações à beiramar, o que nem sempre ocorre na prática. Ambos os obstáculos citados foram aparentemente superados pela Lei /13, que estendeu o regime para a produção de bens (e não somente plataformas) destinados a E&P, bem como suprimiu o requisito de que as instalações sejam à beira-mar. Tais alterações carecem ainda de devida regulamentação. Ao passo que a utilização do EAI vinha sendo obstada, outro regime aduaneiro, o Regime Aduaneiro Especial de Entreposto Industrial sob Controle Informatizado Recof, foi alterado em outubro de 2012 pela IN 1.291/12. Antes restrito a algumas indústrias (aeronáutica, automotiva, informática e de semicondutores), o Recof pode agora, desde que atendidos todos os seus requisitos, beneficiar qualquer segmento da indústria nacional, inclusive o naval. O Recof pode agora beneficiar qualquer segmento da indústria nacional, inclusive o naval Os benefícios fiscais do Recof se assemelham aos do EAI, com a suspensão da tributação federal incidente sobre as aquisições locais e importações de insumos. Por outro lado, o Recof oferece algumas vantagens em relação ao EAI, como (i) a possibilidade de co-habilitação de fornecedor local no regime, (ii) a necessidade de conjugação do Recof com o regime do Despacho Aduaneiro Expresso ( Linha Azul ), que automatiza o procedimento de importação de insumos, (iii) a possibilidade de armazenagem de insumos importados e produtos industrializados no Recof em porto seco, Centro Logístico e Industrial Aduaneiro Clia, ou em depósito fechado do próprio beneficiário, e (iv) a Autorização para Movimentação de Bens Submetidos ao Recof Ambra, que permite a remessa ao exterior de mercadoria admitida no regime para testes, demonstração, reparo, restauração ou agregação de partes, peças e componentes, sem extinção do regime. Outra vantagem consiste na maior liberdade de utilização dos bens importados em contratos simultâneos, que não é permitida no EAI por estar cada habilitação vinculada a um contrato específico. Entretanto, alguns requisitos do Recof, como a exigência de patrimônio líquido de R$ 25 milhões, o rígido controle informatizado das operações, o limite mínimo de, em regra, US$ 10 milhões em exportações por ano e mesmo o requisito de conjugação com a Linha Azul (por si só bastante oneroso) nos fazem crer que essa alternativa seja viável na prática não a todos os potenciais beneficiários do EAI, mas somente àqueles estaleiros integradores, que celebram os maiores contratos de construção e fornecimento das embarcações. Agora, além do drawback e do EAI, a indústria naval pode contar com o Recof, que, apesar de mais rígido sob o ponto de vista do controle e de requisitos mínimos, pode ser uma alternativa aos estaleiros que desejam mais agilidade e opções de movimentação de mercadorias admitidas no regime aliado a um maior controle das operações. Edição 282_Brazilian Business_21

13 O prédio da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro O legislativo do Estado do Rio de Janeiro e a sociedade civil fluminense A Alerj comemora dez anos de criação de um reduto para debater políticas de desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro Halley Pacheco de Oliveira Joel Korn_ex-presidente da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (1997/ /2004) Há dez anos, durante a gestão do deputado Jorge Picciani como presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), foi criado o Fórum Permanente de Desenvolvimento Estratégico do Rio de Janeiro Jornalista Roberto Marinho. A excelente iniciativa visava institucionalizar a interação entre as entidades representativas da sociedade civil e o meio acadêmico com o legislativo estadual, em um ambiente propício para o debate sobre ideias e propostas de ações voltadas ao desenvolvimento econômico e social do Estado do Rio de Janeiro. O fórum seria, portanto, uma fonte de subsídios para o diálogo em torno de ações que atendessem as demandas da população fluminense, contribuindo, dessa forma, com os parlamentares no processo de elaboração dos distintos projetos de leis. Consistente com sua missão e objetivos institucionais, a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio) foi uma aliada de primeira hora a essa excelente iniciativa e, como então presidente da instituição, tive o privilégio de participar das reuniões preparatórias que antecederam sua instalação. Ao lado das principais entidades empresariais do Rio de Janeiro, a AmCham Rio foi a primeira Câmara de Comércio Americana a aportar seu apoio, fortalecendo o relacionamento com o legislativo do Estado. Ao longo desses dez anos, contando com o comprometimento do novo presidente da Alerj, deputado Paulo Melo, o fórum se consolidou como referência para debates em torno de políticas públicas para o desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro, mobilizando a participação de autoridades dos distintos municípios e cumprindo com os princípios que nortearam sua criação. O fórum se tornou também uma plataforma para a apresentação de novas iniciativas do governo estadual, seminários e palestras. Suas sete câmaras setoriais, sob a coordenação da subdiretora-geral, Geiza Rocha, vem realizando um expressivo número de eventos no âmbito da indústria, do comércio, agronegócio, da infraestrutura e logística, sustentabilidade ambiental, educação, cultura, entre vários outros. Com mais de 30 entidades participantes, o fórum conta ainda com análises desenvolvidas no que tange a seus respectivos grupos de trabalho ou comitês temáticos. Entretanto, a relevância dos seus propósitos impõe desafios ainda mais significativos nos dias atuais. As recentes manifestações populares em todo o País refletem o sentimento de insatisfação da sociedade, frustrada com o descompasso entre as ações do poder público e dos políticos em geral e as demandas sociais. Esse contexto reforça, portanto, a importância de mobilizar ainda mais os integrantes do legislativo, executivo e judiciário estaduais, sempre com o objetivo de contribuir nas discussões voltadas ao desenvolvimento econômico do Estado do Rio de Janeiro e, sobretudo, ao progresso social, por meio do encaminhamento de políticas que permitam avanços significativos na qualidade dos serviços públicos, da saúde e da educação. O Fórum Permanente de Desenvolvimento Estratégico do Rio de Janeiro construiu uma trajetória de sucesso ao longo destes dez anos. Seu relevante papel, como indutor de um diálogo construtivo com todas as entidades representativas da sociedade fluminense, será ainda mais crítico a partir de agora. Unconventional wisdom is priceless. And it s yours for the asking when you meet with Halliburton s Technical Team. Wherever your unconventional reservoirs may be, Halliburton s technical teams are equipped to understand your challenges and discuss our proven technologies, proprietary workflows and integrated solutions. O fórum seria uma fonte de subsídios para o diálogo em torno de ações que atendessem as demandas da população fluminense Solving challenges. 22_Edição 282_jul/ago Halliburton. All rights reserved.

14 especial energia Brazil Energy and Power faz retrato da energia no País Após uma década em Houston, conferência internacional aproveita evidência do setor no Brasil e aporta no Rio de Janeiro Por Marcello Sigwalt, do Rio Fotos Pedro Kirilos O Brasil dispõe hoje de um amplo leque de fontes alternativas de energia para manter, em bases razoáveis, a segurança de sua matriz energética. Esta foi uma das principais conclusões da conferência internacional Brazil Energy and Power 11, realizada pela Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio), em parceria com a Brazil-Texas Chamber of Commerce, em 26 de agosto, no auditório do Windsor Palace Hotel, em Copacabana, Zona Sul do Rio. Com a participação de autoridades nacionais e norte-americanas da área de energia, além de especialistas de renome, o evento fez uma radiografia do cenário energético, brasileiro e internacional, e serviu como canal de informações atualizadas à sociedade civil e ao mercado sobre as características do setor e as tendências para o futuro, no médio e longo prazos. Uma situação de relativo conforto para o sistema elétrico no que toca à oferta de energia: é o que concluiu estudo apresentado pelo presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e membro do Conselho Nacional de Política Energética, Mauricio Tolmasquim, ao fazer um balanço dos leilões de reserva contratados pelo governo. O cenário projetado para 2021 prevê um crescimento populacional de 0,6%, bem abaixo da estimativa de aumento do PIB, de 4,8% patamar superior à média mundial prevista para a época para uma demanda anual de energia de 4,2% e uma capacidade instalada de 44,8 gigawatts. Com a participação de autoridades nacionais e norte-americanas da área de energia, o evento fez uma radiografia do cenário energético, brasileiro e internacional O diretor-vice-presidente da Energia do Rio S.A. e diretor da AmCham Rio, Luiz Carlos Costamilan, revelou que as companhias de petróleo adotam como parâmetro uma projeção de volume maior de gás a ser reinjetado e que, conforme ajustes de performance, isso levaria a um volume disponível, em 2020, da ordem de 170 milhões de metros cúbicos. É importante ter essa clareza. Saímos de um número muito baixo do pré-sal hoje, de alguns milhões de metros cúbicos, para cerca de 40 milhões de metros cúbicos, argumentou. O prestígio do BEP também pôde ser medido pela participação do subsecretário do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, Francisco Sánchez, que leu uma mensagem em tom otimista da parte do vicepresidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que destacou a importância de estreitar a parceria com o Brasil, seja na área energética, da educação ou do comércio, entre outras. Já a diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard, demonstrou otimismo em relação às perspectivas do gás natural e não convencional no País. Há dez anos, o Brasil já tinha o gás participando com 5% de sua matriz energética, participação que hoje é de 10%. E a importância do gás vem crescendo tão rapidamente que estamos aqui fazendo esse seminário. O evento teve patrocínio máster da Halliburton; patrocínio da Época Negócios e Wärtsilä; copatrocínio da Odebrecht Óleo e Gás e Tishman Speyer; copatrocínio aéreo oficial da American Airlines; apoio do Brazil-U.S. Business Council; apoio de mídia da Argus, Brasil Energia, Rio Negócios e TN Petróleo. Confira, a seguir, a íntegra da cobertura do BEP 11. O gerente do Programa de Envolvimento Técnico para Gás Não Convencional (Ugtep) do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Sean Ruthe; o diretor de Desenvolvimento de Negócios da Baker Hughes, Rodrigo Lopes Farias; o gerente de Desenvolvimento de Negócios no Brasil da Halliburton, Daniel Torres; o presidente da AmCham Rio, Roberto Ramos; a diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard 24_Edição 282_jul/ago 2013 Edição 282_Brazilian Business_25

15 especial energia Energia renovável deve garantir equilíbrio e segurança ao sistema elétrico Para garantir equilíbrio e segurança ao sistema elétrico, o Brasil terá de fazer um investimento estratégico consistente nos próximos anos, voltado à expansão da oferta de energias de origem termelétrica, renovável pequenas centrais hidrelétricas (pch), eólica, biomassa e solar assim como com relação ao gás natural. Essa avaliação foi consensual entre os especialistas que participaram do primeiro painel sobre os Desafios e metas do planejamento energético brasileiro, da conferência internacional Brazil Energy and Power 11, realizada pela Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio), em 26 de agosto, pela primeira vez na capital fluminense. Ao fazer um balanço dos leilões de energia de reserva contratados pelo governo, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e membro do Conselho Nacional de Política Energética, Mauricio Tolmasquim, projetou uma situação de relativo conforto no que se refere à oferta de energia em um cenário projetado para O exercício prevê um crescimento populacional de 0,6% ao ano, frente a um aumento do PIB de 4,8% ao ano taxa superior à média mundial e uma demanda anual de energia de 4,2%. Nesse contexto, a capacidade instalada seria de 44,8 gigawatts. Segundo ele, a hidrelétrica será a principal fonte responsável por esse resultado no período, com 29 gigawatts de capacidade, enquanto as fontes renováveis, como biomassa, pch e eólica, deverão responder por 19 gigawatts. Embora a eólica tenha registrado uma expansão mais expressiva, a perspectiva, com a realização de novos leilões, é que as pch e a biomassa também apresentem forte reação. painel I Tolmasquim revelou que o êxito do leilão de megawatts de energia eólica pra 2015, realizado em 23 de agosto, permitirá chegar até o fim deste ano com 10 mil megawatts de capacidade instalada dessa fonte energética, mediante o preço atrativo de R$ 100 o megawatt/hora. Teremos uma Belo Monte de eólica antes mesmo de a própria Belo Monte operar plenamente, comemorou. Segundo ele, a biomassa também já tem 10 mil megawatts contratados. Sua expectativa é de que, tanto as pch, quanto a biomassa devem entrar com força nos próximos leilões promovidos pelo governo, levando em conta um preço-teto atrativo de R$ 140 o megawatt/hora. Esse movimento ganhou força depois que o BNDES anunciou o lançamento de um pacote de financiamento para esses setores. O presidente da EPE entende que a energia solar deverá participar da matriz energética brasileira. É uma questão de tempo, porque o Brasil possui uma insolação melhor do que a da Europa. A expectativa é de que essa modalidade energética alcance gigawatts até É ainda uma visão conservadora, uma vez que a tendência é de expansão. Ele acrescentou que as energias térmica e nuclear também estão sendo contratadas para Sobre o etanol, Tolmasquim observou que o setor registrou uma queda monumental de produção, o que motivou o governo a abrir duas linhas de financiamento, uma para modernização dos canaviais e outra para estimular a formação de estoques. Em que pese o aumento da safra de cana e do etanol, há uma capacidade ociosa expressiva nas usinas. Uma grande interrogação: assim definiu Tolmasquim a questão da participação do gás natural, abundante no País, na matriz energética. Precisamos aferir a qualidade desse gás e sua viabilidade comercial, para então saber como ele vai interagir na matriz, definiu. No que toca ao consumo per capita de energia elétrica, ele avaliou que o País apresenta uma situação de enorme subdesenvolvimento energético. O consumo brasileiro está bem abaixo da média mundial, é a metade de Portugal, é menor do que o de Chile e Argentina. E vencer essa deficiência certamente é um grande desafio. Isso sem contar a demanda do transporte público e de saneamento básico. Teremos uma Belo Monte de eólica antes mesmo de a própria Belo Monte operar plenamente Mauricio Tolmasquim Ao fazer uma reflexão sobre a matriz energética brasileira, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços, Júlio Cesar Bueno, destacou três fatores fundamentais para compreensão do jogo desse mercado. A disponibilidade de energia, a economicidade e a sustentabilidade são parâmetros que dificilmente você reunirá ao mesmo tempo. Para ele, o petróleo e o preço dos combustíveis são questões decisivas para saber como ficará a matriz energética. Levando em conta que, em 2020, o País deverá ter uma produção diária de 5 milhões de barris de petróleo, para exportação ou consumo interno, é preciso definir, desde agora, se o combustível produzido aqui acompanhará o preço internacional, o que deverá impactar no valor interno do etanol, afirmou. O secretário acrescentou, ainda, que o Fórum dos Secretários de Energia defende a regionalização da energia elétrica. O assessor da presidência da Eletrobras Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães, chamou a atenção para a transição hidrotérmica, iniciada em 2000, quando a taxa de expansão da potência térmica passou a superar a do crescimento da produção hídrica. Isso também ocorreu, acrescentou, porque o volume de água dos reservatórios cresceu muito menos do que a potência hídrica instalada. Guimarães comentou que, no ano passado, o País enfrentou uma situação teoricamente pior do que no início da década, mas que acabou sendo amenizada pela disponibilidade de energia térmica, cuja oferta vem crescendo de forma expressiva ao longo dos últimos anos. Nesse período, passamos a contar, mensalmente, com uma geração de energia térmica de base na faixa de a megawatts médios, um volume superior à capacidade de geração das usinas nucleares de Angra I e II, cuja produção, no entanto, coloca o parque nuclear brasileiro no topo do ranking mundial de desempenho do setor nos últimos anos, afirmou. O assessor da presidência da Eletrobras Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães; o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços, Júlio Cesar Bueno; o diretor de Energia da Wärtsilä Brasil e membro do Comitê de Energia da AmCham Rio, Jorge Alcaide; o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Mauricio Tolmasquim A disponibilidade de energia, a economicidade e a sustentabilidade são parâmetros que dificilmente você reunirá ao mesmo tempo Júlio Bueno Guimarães lembrou ainda que o Plano Decenal de Energia (PDE) 2021, divulgado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), prevê um crescimento de 5% do armazenamento hídrico do SIN, o que significa que esses efeitos da transição hidrotérmica se acelerarão nos próximos dez anos. Com a perda crescente da capacidade de autorregulação, será necessário maior contribuição da energia térmica, tanto na base quanto na complementação. A previsão do Plano Nacional de Energia 2050 é de que as perspectivas de expansão hídrica são muito limitadas no longo prazo, cuja contribuição deverá estar esgotada no fim da década de Essa parcela de potencial viável a ser desenvolvido é da ordem de 150 a 180 gigawatts, dos quais 100 já foram efetivamente aproveitados, dentro de um potencial teórico de 260 gigawatts. Como as perspectivas de expansão hídrica são muito limitadas, Guimarães entende que o potencial aproveitável deveria se basear num mix de gás natural (condicionado aos custos do pré-sal), do carvão (mediante emprego de tecnologias de carvão limpo) e da energia nuclear (conforme sua aceitação pública). O painel contou com a moderação do diretor de Energia da Wärtsilä Brasil e membro do Comitê de Energia da AmCham Rio, Jorge Alcaide. 26_Edição 282_jul/ago 2013 Edição 282_Brazilian Business_27

16 especial energia painel II Brasil é exemplo único no mundo de matriz energética limpa Durante o painel voltado a Fontes renováveis de energia na matriz energética brasileira, o secretário de Desenvolvimento e Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Altino Ventura Filho, traçou um panorama da evolução energética no País nas últimas décadas. Segundo ele, na década de 1970, a situação brasileira era de grande dependência energética externa, pois o País importava 80% do petróleo que consumia, o qual ainda apresentou uma súbita elevação da cotação internacional, a chamada crise do petróleo. Tivemos que enfrentar uma situação muito difícil, a ponto de ter de pedir empréstimo externo, em moeda forte (dólar), para pagar petróleo. Nessa época, 50% de nossa matriz era petróleo, 27% era lenha, na área rural, então, era uma matriz sem qualquer sustentabilidade, agravada pelo desequilíbrio na balança comercial, contou. Isso mudou completamente, pois a matriz energética brasileira deixou de ser um problema para se tornar solução, graças a três medidas corajosas tomadas na década de A primeira delas foi a decisão da Eletrobras de continuar priorizando a construção das hidrelétricas, como Itaipu e Tucuruí. Ao mesmo tempo, a Petrobras partiu para buscar petróleo no mar, não existente em terra, e a última, a criação do Proálcool, um programa pioneiro no mundo, lembrou. O secretário do MME explicou que a situação hoje é inteiramente diferente para o Brasil. Ele exibiu um comparativo que apresenta as características que distinguem a matriz energética nacional da mundial. Enquanto os combustíveis fósseis participam com 81% da energia do mundo, restando apenas 14% para as energias renováveis, no País, os combustíveis fósseis respondem por 56% da matriz somente o carvão mineral é responsável por 42% desse total enquanto as renováveis participam com 44%, segundo dados de Somente o petróleo, revelou Ventura Filho, contribui com 39% da matriz brasileira, acima dos 32% da média, mas com tendência de redução, conforme está previsto no Plano Decenal de Energia (PDE). A segunda maior fonte energética do País, com 15,4% de participação na matriz, são os derivados da cana-de-açúcar, sobretudo o bagaço, que produz energia e calor, e o etanol. Essa alternativa é praticamente inexistente no exterior. Quando fazemos uma projeção para 2021, observamos que a tendência de nossa matriz energética é manter as características atuais de participação de fontes renováveis e de combustíveis fósseis. Trata-se de um cenário em que temos certa segurança do que vai acontecer, uma vez que grande parte das obras já está em fase de construção ou em fase de decisão, não deveremos ter mudanças substanciais, assinalou. O secretário concluiu afirmando que o Brasil tem o desafio de aumentar em 80 mil megawatts, nos próximos dez anos, sua oferta de energia de forma sustentável, o que exigirá investimentos muito elevados, pois os projetos são de alta capitalização, inclusive com impactos ambientais. Isso é necessário para que o País possa crescer de 4% a 4,5%, que é o crescimento estrutural que imaginamos para nossa economia. Nesse estudo, três fontes ganham destaque, a hidráulica (45%), a biomassa e a eólica, com 15% cada uma, totalizando 76% de expansão, inteiramente decorrente de fontes renováveis competitivas. O diretor-geral do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Jean-Paul Prates, apontou que a demanda reprimida de energia elétrica no Nordeste é mais acentuada do que no resto do País, embora a região apresente índices de crescimento do PIB até duas vezes superiores à média nacional. Ao mesmo tempo, ele identificou que a região tem um potencial eólico excepcional, o que motivou a realização recente do leilão de reserva de energia com eólicas que reuniu 377 projetos cadastrados e totalizou 9 gigawatts. Quando assumiu, em 2003, a Secretaria de Energia do Rio Grande do Norte, Prates contou que o Estado não produzia 1 megawatt sequer de energia. O diretor-geral do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Jean-Paul Prates; o secretário de Desenvolvimento e Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Altino Ventura Filho; a presidente do Comitê de Meio Ambiente da AmCham Rio e sócia de Veirano Advogados, Kárim Ozon; o presidente da Cluster Bioenergia, João Carlos de Souza Meirelles A matriz energética brasileira deixou de ser um problema para se tornar solução, graças a três medidas corajosas tomadas na década de 1970 Altino Ventura Filho A dependência do sistema da usina de Paulo Afonso era total. Éramos um ônus para a sociedade. Foi quando começamos a participar de leilões de energia termelétrica e eólica, a ponto de apresentar, em 2009, um cadastro de projetos eólicos relacionados como primeiro passo para atrair os investidores para o Estado, o que acabou culminando em mais de 2 mil megawatts viabilizados nos leilões e a liderança nacional nessa iniciativa, o que se mantém até hoje, contou. Mas para que essa posição fosse conquistada, alguns entraves tiveram de ser superados, desde problemas fundiários, como a falsificação de documentos, corrupção envolvendo autoridades e a celebração de acordos com órgãos ambientais e comunidades locais para implantação dos parques eólicos. A missão foi cumprida, pois tornamos o Estado autossuficiente energeticamente, ao consolidar sua própria potência instalada, hoje da ordem de 700 megawatts, dos quais dois terços já estão prontos para o consumo. A previsão é que, no ano que vem, tenhamos uma potência total de 4 gigawatts. Isso equivale a um Portugal ou uma Dinamarca, comparou. O presidente da Cluster Bioenergia empresa responsável pela implantação de um complexo gerador de etanol, de energia elétrica e de leveduras no Estado do Mato Grosso, João Carlos de Souza Meirelles, deu destaque à participação crescente da biomassa na matriz energética nacional, aliada à vocação do País para o aumento de produtividade no que chamou espaço vital, citando como exemplos a liderança mundial na produção de carne, frango e soja. Nos quatro meses de entressafra da cana-de-açúcar, grupos empresariais vão investir na produção de etanol a partir do sorgo e do milho. Se pudermos associar essa tecnologia, vamos maximizar a capacidade de produção da usina, previu. Outra iniciativa da Cluster Bioenergia é um projeto associado a um grupo internacional para aproveitamento do bagaço de cana visando a produção de etanol. Esse projeto inclui quatro usinas de cana-deaçúcar, com uma produção individual de 4,5 milhões de toneladas de cana e potência instalada de 90 megawatts, dos quais 30 megawatts para consumo e 60 megawatts para exportação. Instalada próxima a rodovias e linhas de alta tensão para facilitar a transferência da energia cada usina, explicou Meirelles, deverá produzir 430 milhões de litros de etanol por ano, ou seja, um montante anual de 1,720 bilhão de litros. Paralelamente, serão desenvolvidos estudos de melhoramento genético da cana, com vista à elevação da produtividade, além de pesquisas de enzimas para maximizar a produção do etanol, com apoio do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, em Campinas. A moderação do painel foi da presidente do Comitê de Meio Ambiente da AmCham Rio e sócia de Veirano Advogados, Kárim Ozon. Governo americano exalta parceria com o Brasil Estados Unidos e Brasil compartilham de muitos interesses comuns. Temos a vocação para a democracia, celebramos o multiculturalismo, e ambos os países são promotores da paz mundial, da segurança e da prosperidade. Além disso, nosso comércio bilateral já aumentou 170% nos últimos dez anos, e deverá continuar crescendo, mediante uma parceria que se expande a cada dia. Com essas palavras, o subsecretário do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, Francisco Sánchez, agradeceu, durante o Brazil Energy and Power 11 (BEP), a liderança exercida pelo presidente da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio), Roberto Ramos, e sua equipe, que tem feito muito pelo relacionamento entre nossos países. Na oportunidade, o subsecretário destacou a visita ao Brasil, há poucos dias, dos secretários de Energia e de Estado, respectivamente Ernest Moniz e John Kerry, com o objetivo de estreitar os laços com seus pares no governo brasileiro, em especial, nas áreas de educação e comércio. Em seguida, Sánchez leu uma mensagem transmitida pelo vice-presidente norte-americano, Joe Biden, especialmente para o evento. Biden esteve no Brasil no mês de maio, quando afirmou que Estados Unidos e Brasil entraram numa nova era de relacionamento. Estamos muito animados com a viagem da presidente Dilma Rousseff a Washington, em outubro, pois consideramos que uma visita oficial é a forma mais elevada de compromisso diplomático. Além disso, o gesto reflete os avanços de nossas relações bilaterais e o empenho de ambos os países de aprofundar esse relacionamento, escreveu. Sánchez mencionou, também, a importância da iniciativa da AmCham Rio que deu início ao BEP, abrindo discussões sobre temas relevantes, como a reforma dos vistos, aviação, educação, além de oferecer suporte para agilizar o acesso a questões fiscais relativas a acordos de comércio. Ao concluir, Sánchez destacou, ainda, o grande potencial de expansão da economia brasileira, após a descoberta dos campos de pré-sal, cujas reservas ele estimou em mais de 50 bilhões de barris de petróleo, o que traduz o grande potencial do País na área energética. 28_Edição 282_jul/ago 2013 Edição 282_Brazilian Business_29

17 especial energia painel III Programa de eficiência energética foca na redução de custos de produção Convidado pela segunda vez pela AmCham Rio a participar do BEP, o gerente do Departamento de Projetos de Eficiência Energética da Eletrobras, Fernando Perrone, compartilhou sua experiência de trabalhar na Eletrobras executora do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) na área de eficiência energética e redução de custos, ao iniciar o terceiro painel do evento, que versou sobre O Impacto do custo da energia na competitividade da indústria brasileira. Em sua participação, Perrone observou ter havido uma mudança estrutural nos preços da energia elétrica após a introdução da modicidade tarifária, que permitiu a antecipação na renovação das concessões de usinas e subestações, e mais recentemente, das distribuidoras. Ao analisar o custo associado ao uso da energia elétrica, ele deu foco à questão da eficiência energética em termos estruturantes, no sentido de aumentar a competitividade da indústria, não somente em nível local, mas em proporções globais, por meio da redução dos custos de produção. Segundo ele, estudo realizado pelo Procel apontou que as edificações residenciais, públicas e privadas com participação de 47% do consumo total do País superaram, pela primeira vez, a indústria, que não passou de 42%. Esses dois segmentos, edificações e indústria, praticamente somam 90% do consumo faturado de energia elétrica no País, calculou. Perrone acrescentou que em residências capazes de converter a insolação e a ventilação em energia é possível obter uma economia de 50% por 50 anos. Como o Brasil é dividido em oito zonas bioclimáticas, é fundamental tirar partido de sistemas construtivos, de materiais construtivos e dos recursos naturais dessas regiões. Pela primeira vez, o Plano Nacional de Energia estabeleceu, por meio da eficiência energética, a meta de atingir 106 terawatt/hora de consumo projetado para 2030, o equivalente à produção de Itaipu Binacional por um ano (100 terawatt/hora). Perrone contou que, a partir da estruturação de subprogramas setoriais, em 2003, a Eletrobras desenvolveu trabalho com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e as federações da indústria dos Estados, para o levantamento do potencial técnico de 13 setores da indústria (siderurgia, alimentos, bebidas, cimento, automotivo, entre outros), voltado à questão térmica. Esses programas, similares aos desenvolvidos pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, como também pelos estados americanos de Nova York e da Califórnia, são voltados à capacitação do pessoal do chão de fábrica, adoção de boas práticas e replicação de conhecimento, reforçou. Em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) do Rio Janeiro, a Eletrobras desenvolveu ações de eficiência energética desses segmentos produtivos, nas áreas de sustentabilidade e ecoeficiência. É um trabalho que vai servir de referência aos demais 26 Estados. A ideia vem sendo aplicada com êxito em olarias e padarias, atividades com grande demanda de energia, disse. Ele acrescentou que a certificação é um mecanismo fundamental para os consumidores, que já vem sendo aplicada às edificações brasileiras, mediante a utilização de etiquetas em eletrodomésticos, que também será aplicada, a partir de 2015, aos veículos. Voltando sua atenção para a questão do gás, o segundo painelista e diretor-vice-presidente da Energia do Rio S.A. e diretor da AmCham Rio, Luiz Carlos Costamilan, explicou que a estrutura de custos da cadeia de produção do gás natural no Brasil é muito diferente da americana. Ao montar uma planilha e um fluxo de caixa para o gás natural, vamos perceber que os preços de comercialização do gás natural são bem distintos dos praticados nos Estados Unidos, que têm uma estrutura de preços específica. Isso sem falar em aspectos de legislação, regulamentação e infraestrutura. Em sua exposição, Costamilan dividiu a questão do gás do Brasil entre o pré-sal, o LNG (gás natural liquefeito, em tradução livre) e aquele produzido pela Bolívia. Ao citar dados da ANP e do MME, ele revelou que, em 2012, o Brasil consumiu cerca de 75 milhões de metros cúbicos de gás por dia, a maior parte de origem nacional. Isso já é uma inversão, pois o gás boliviano, por muitos anos, representou de 60% a 70% do consumo interno. Atualmente, o gás brasileiro responde por 40, 41 milhões de metros cúbicos de gás por dia; 27 milhões são de origem boliviana e 7,5 milhões de gás natural liquefeito. O diretor-vice-presidente da Energia do Rio S.A. revelou que as companhias de petróleo adotam como parâmetro uma projeção de volume maior de gás a ser reinjetado e que, conforme ajustes de desempenho, levaria a um montante de 170 milhões de metros cúbicos em 2020, um crescimento com impacto importante na questão da competitividade do setor, estimou. O gerente do Departamento de Projetos de Eficiência Energética da Eletrobras, Fernando Perrone; o diretor-vice-presidente da Energia do Rio S.A., Luiz Carlos Costamilan; o cônsul-geral adjunto do Consulado- Geral do Brasil em Houston, Roberto Furian Ardenghy; o presidente do Conselho de Administração da Gas Energy S.A., Marco Aurélio Tavares Ainda sobre o gás boliviano, Costamilan acrescentou que o Brasil tem um contrato vigente até 2019 com o país andino. Esse contrato tem perspectiva de renovação, mas depende de outros fatores. Todos lembram do que aconteceu na Bolívia, quando se criou uma situação de baixo estímulo a novos investimentos. O terceiro elemento mencionado por ele é o LNG, que dispõe hoje de duas instalações de regaseificação. Uma terceira e quarta instalações serão construídas em Barra do Riacho (ES). No caso do shale gas, o diretor da AmCham Rio explicou que a oferta constitui um fator fundamental na formação de preço nos Estados Unidos e que, ao superar a demanda, permitiu a redução dos preços naquele país. Em relação ao gás natural brasileiro, Costamilan adverte: Se fosse empresário, faria as contas com muito cuidado e atenção, pois não basta transferir, de forma pura e simples, o modelo americano à situação brasileira. E não me refiro às questões geológicas, mas a custos e investimentos envolvidos. Numa projeção para 2030, o palestrante destaca que blocos do pré-sal já licitados, como o campo de Libra, já deverão estar em bom ritmo de produção, acrescentando que tal cenário não leva em conta nem a 11ª rodada, nem as seguintes. Na sua avaliação, a tendência é de que o volume de gás produzido atualmente, da ordem de 40 milhões de metros cúbicos por dia, reduza-se gradualmente, chegando a 20, 22 milhões de metros cúbicos por dia, daqui a sete anos. Deverá ser um gás caro, isso é muito importante, porque a maior parte desse gás ou é offshore (águas profundas), ou é gás natural liquefeito, ou é gás importado, estimou. Em outra análise do setor, o presidente do Conselho de Administração da Gas Energy S.A. e engenheiro químico com mais de 25 anos de experiência em petróleo, gás e petroquímica, Marco Aurélio Tavares, observou a existência de uma diferença brutal do petróleo em relação ao gás, que é a dificuldade deste de criar relações de longo prazo. Diverso de uma empresa de petróleo, que coloca o produto no navio sem ter a certeza do destino, o gás natural tem uma relação de 15, 20 anos. E essa cultura de longo prazo de renegociar contrato é uma confusão, admitiu. Por ser uma indústria muito nova no País, é natural que haja dificuldades, explicou, acrescentando ser necessário introduzir mecanismos de longo prazo, regulação e contratação. O gás natural é sempre a parte mais pobre dessa indústria do petróleo. A estrutura contratual montada no País tem a ver com o período pré-quebra do monopólio. A maior parte das relações de longo prazo é anterior a O acordo com a Bolívia é de 1996, e a Petrobras era a única empresa que podia importar, era monopolista, a única que podia comercializar esse gás, recordou. Tavares acrescentou que a estrutura contratual com as distribuidoras de gás foi criada após a Constituição de 1988, e os contratos do gás da Bolívia também são dessa época. Então, a gente tem uma estrutura contratual muito rígida, que continua ativa, mesmo depois da abertura do mercado de upstream [atividades de exploração, perfuração e produção de petróleo]. Vivemos nas áreas de refino e terminais com estruturas semelhantes. Ele comentou que mesmo que haja interesse de passar o gás em Suape, hoje, por gasoduto livre, isso é impossível porque ANP ainda não concluiu o processo de regulação. Ele estimou que, para qualquer atividade relacionada com o gás (armazenagem, liquefação e importação), um gasoduto leva de três a quatro anos para se estruturar. Como vamos enxergar esse mercado em 2025 que precisa de tanta coisa para se estruturar? Um dos ativadores desse processo é a oferta, a entrada de novos players, que tende a reduzir o preço, em virtude do aumento da oferta, avaliou. O presidente da Gas Energy disse que cerca de 60% da produção atualmente está nas mãos da Petrobras, e os 40% restantes com outros produtores. Outro elemento é a questão da competitividade, que é fundamental. Enquanto nos Estados Unidos, que detêm alta tecnologia e dominam todos os fatores de produção alinhados e energia barata, o megawatt custa US$ 50, no Brasil, ele custa US$ A tendência é de haver mais perdedores do que ganhadores nesse processo, alertou. Tavares apontou, ainda, que a China deverá atingir uma produção, até 2020, de 300 milhões de metros cúbicos de gás não convencional, com o suporte de grandes empresas internacionais. Essa maior competitividade internacional vai nos afetar, e temos de estar atentos, ou então vamos nos limitar a ser exportadores de petróleo. Para tornar a estrutura industrial brasileira mais competitiva, o presidente da Gas Energy defendeu, num ambiente regulatório, a desverticalização imediata de ativos de transporte e de distribuição pela Petrobras, com aplicação desses recursos no desenvolvimento do pré-sal. Tavares calculou que, somente em downstream e midstream ativos, a Petrobras tem ativos de R$ 20 bilhões, que podem contribuir para o desenvolvimento do País. Poderíamos criar cluster de consumo na costa brasileira para facilitar a chegada de novos produtores com esse gás que vai ser descoberto, propôs. O cônsul-geral adjunto do Consulado-Geral do Brasil em Houston, Roberto Furian Ardenghy, mediou o painel. 30_Edição 282_jul/ago 2013 Edição 282_Brazilian Business_31

18 especial energia painel IV Experiência com o shale gas muda matriz energética americana Abrindo o quarto e último painel Perspectivas para o desenvolvimento de gás convencional e não convencional, o gerente de Desenvolvimento de Negócios no Brasil da Halliburton, Daniel Torres, destacou a importância do shale gas, responsável por mudanças significativas na matriz energética da maior potência econômica do planeta, os Estados Unidos. Segundo o Panorama Internacional de Energia 2013 (International Energy Outlook 2013), divulgado no fim de julho, pela Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), o Brasil figura em décimo e último lugar na lista dos países com maior potencial de desenvolvimento de shale gas no mundo. Na lista de shale oil, que também inclui uma dezena de países, o Brasil não figura. No que diz respeito ao shale gas, a China lidera, seguida por Argentina, Argélia, Estados Unidos, Canadá, México, Austrália, África do Sul, Rússia e, finalmente, Brasil. A partir de 2004, o volume de trabalhos sobre o shale gas apresentou uma elevação expressiva, quando também o barnett shale (formação geológica localizada em Bend Arch-Fort Worth Basin, no estado americano do Texas) demonstrou sua viabilidade aos investidores. Esses estudos permitiriam, segundo ele, avanços tecnológicos, como a melhor caracterização dos reservatórios, por meio do processo de sísmica e microssísmica das fraturas, além da introdução da tecnologia de perfuração de poços horizontais (de maior produtividade do que pela tecnologia tradicional de poços verticais) e da adoção de melhoramentos de eficiência. Na avaliação de Torres, o mercado de shale gas demanda a criação de um ambiente de colaboração organizacional. Precisamos saber o tamanho de nossas reservas [de shale gas] para que seja possível formar o mercado consumidor no Brasil, com regras claras, para que o investidor saiba que vai ter gás daqui a 15 anos. As reservas de gás não convencional podem ser superiores às do gás convencional, revelou o diretor de Desenvolvimento de Negócios da Baker Hughes, Rodrigo Lopes Farias, ao ressalvar que essa conclusão se baseia em estimativas preliminares. Até 2030, acrescentou, a matriz fóssil deverá manter em 53% sua participação na matriz energética brasileira, enquanto o gás natural registrará, nesse período, 50% de incremento de oferta. 32_Edição 282_jul/ago 2013 Os reservatórios de gás convencional são de mais fácil desenvolvimento, mas apresentam menores volumes, em razão da qualidade inferior desses reservatórios no que toca à permeabilidade. É aí que entra um fator importante, que é a tecnologia, para desenvolver esses reservatórios, explicou. O desenvolvimento de um campo não convencional contempla, segundo ele, desde a fase de exploração, que abrange da análise sísmica, geofísica e do reservatório, a estimativas iniciais de reservas. Depois, vem a fase de exploração e investigação dos poços-piloto, além da elaboração do plano de desenvolvimento do campo, visando a redução dos custos de perfuração, aliada à aplicação de técnicas de completação e faturamento hidráulico para viabilizar a produção desse reservatório fechado. Na etapa de produção, é feito o monitoramento das fases concluídas, assim como o gerenciamento da água, com vista à sua reutilização no processo. Na fase de rejuvenescimento, os técnicos fazem uma análise para remediar (melhor aproveitamento) os poços subeconômicos, identificando candidatos ao refraturamento, de modo a fazer o adensamento da malha. A revolução do shale gas nos Estados Unidos não é um exagero, afirmou o gerente do Programa de Envolvimento Técnico para Gás Não Convencional (Ugtep) do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Sean Ruthe, ao lembrar que, há poucos anos, o país precisava importar 64% de gás natural para suprir suas necessidades. Hoje, nós nos tornamos exportadores de gás natural, após passar por um processo de regulação, acrescentou. O gerente do Programa de Envolvimento Técnico para Gás Não Convencional (Ugtep) do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Sean Ruthe; o diretor de Desenvolvimento de Negócios da Baker Hughes, Rodrigo Lopes Farias; o gerente de Desenvolvimento de Negócios no Brasil da Halliburton, Daniel Torres; o presidente da AmCham Rio, Roberto Ramos; a diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard Dentro de uma estratégia global para o shale gas, o governo americano, disse Ruthe, promoveu o compartilhamento entre o setor das melhores práticas e lições de aprendizado do ambiente de regulação, para o desenvolvimento desses recursos. Todo esse esforço levou em conta manter a estabilidade econômica e social do país, assim como uma ampla discussão sobre o tema com a sociedade civil, reguladores, acadêmicos, pesquisadores e cientistas, que ajudaram o governo a tomar decisões, afirmou o gerente do Departamento de Estado americano. Na sua avaliação, a natureza do gás não convencional é singular e bem distinta das outras modalidades dessa commodity. À medida que o suprimento foi se diversificando, aumentou a segurança energética, o quer foi bom para a economia, sem esquecer o foco na sustentabilidade. Entre os setores de interesse comum dos Estados Unidos e do Brasil, o representante do Departamento de Estado explicou que o gás não convencional é apenas um deles. Ainda sobre o tema regulação, Ruthe disse que cada estado americano tem suas próprias leis, enquanto o governo federal responde por áreas federais e isoladas no oeste do país. O moderador do painel e presidente da AmCham Rio, Roberto Ramos, aproveitou a oportunidade para discorrer sobre o tema. Com exceção dos depósitos identificados na Bacia do Rio Solimões (AM), ainda na bacia amazônica, da HRT, e da Petra Energia e OGX, no Maranhão, chegou-se a conclusão de que o gás que está disponível no Brasil está localizado em nossas fronteiras geográficas, seja na fronteira oeste, vindo da Bolívia, seja na fronteira atlântica, por meio do gás associado aos nossos campos de petróleo, além do gás oferecido pelas estações de regaseificação. A conclusão dele é de que o que falta ao Brasil é gás no interior, região em que teria de ser explorado o gás não convencional, localizado nas bacias sedimentares internas. A diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard, revelou que será realizada, em novembro, a 12ª rodada de licitações, aprovada pela presidente Dilma Rousseff, inclusive em áreas no interior. Ela comentou que há 15 anos era inimaginável perfurar um poço seco. Há dez anos, porém, o gás já participava de 5% da matriz energética brasileira, e hoje responde por 10%. Essa trajetória ascendente fez com que estivéssemos discutindo o tema nesse seminário. O gás está por toda a parte, rompendo na superfície, borbulhando em rios, do Norte ao Sul do País, mostrando a viabilidade de uma produção de gás natural em terra Magda Chambriard O Brasil produz, atualmente, 70 milhões de metros cúbicos por dia de gás. Desse total, distribuímos, além do Gasbol [Gasoduto Bolívia-Brasil], 40 milhões de metros cúbicos. Os outros 30 milhões são consumidos em plataformas, em reinjeção ou em refinarias da Petrobras. Ela acrescentou que o gás brasileiro está normalmente associado ao petróleo produzido pela Bacia de Campos (RJ), responsável por 80% da produção nacional. Dispomos de uma rede de gasodutos que faz a distribuição tanto do gás boliviano quanto do gás da Bacia de Campos (RJ), de Sul até o Nordeste do Brasil. É o que dispomos de malha de gás, explicou. Desde 2006, a ANP desenvolve estudos geológicos e geofísicos nas bacias sedimentares brasileiras, também chamadas de novas fronteiras, que permitiram concluir que o gás não associado está localizado em terra, ao contrário do petróleo, que se encontra no mar. A rodada de licitações de gás não especifica o tipo de gás, o que dá ao detentor da concessão o direito de explorar desde a superfície até o centro da terra, esclareceu. O gás está por toda a parte, rompendo na superfície, borbulhando em rios de forma tão intensa, do Norte ao Sul do País, mostrando a viabilidade de uma produção de gás natural em terra, afirmou Magda. Como exemplo, ela citou a licitação, realizada no ano passado, de áreas com potencial de produção na Bacia do Parnaíba, que tem mil km² de área e abrange todo o Estado do Maranhão e partes dos territórios do Tocantins e de Goiás. Nesta região, as empresas concessionárias, OGX e Petra Energia, decidiram construir uma térmica próxima ao campo de gás, que recebe energia e a transmite por uma linha de transmissão que passa por cima desse campo. É uma iniciativa que o governo incentiva, porque ocorreu numa área isolada e que produz hoje 4,5 milhões de metros cúbicos por dia de gás, completamente convencional e esse número vai crescer, previu. A partir da Lei do Gás, qualquer gasoduto a ser construído precisa ser licitado pela ANP, com exceção daqueles gasodutos já autorizados. Os gasodutos podem ser autorizados, caso haja interesse econômico reconhecido pelo governo. Se fizermos uma sobreposição do trajeto dos gasodutos ao desenho das grandes bacias sedimentares brasileiras, vamos ver que já começa a fazer sentido, em termos de transporte de gás, pois já temos gasodutos cruzando a principal bacia sedimentar brasileira, a do Paraná, cobrindo oito Estados. Temos, também, gasodutos próximos a Mato Grosso, com tendência de disponibilizar áreas na Bacia dos Parecis (MT), além de projetos nas bacias do São Francisco e do Parnaíba, revelou. Mas tudo isso vai fazer mais sentido ainda se pensarmos que é possível a construção de uma planta de geração termelétrica, que pode descarregar energia elétrica nas linhas de transmissão. Olhando o mapa, vamos ver que em todas as bacias contamos com rede de linhas de transmissão. Portanto, em todas as bacias é possível a geração de energia elétrica de origem térmica e a descarga na linha de transmissão, concluiu a diretora-geral da ANP. Edição 282_Brazilian Business_33

19 dialogues Ambassador Hermano Telles Ribeiro Consul General of Brazil in Atlanta Logistics and Infrastructure Brazil and Georgia: Possibilities of Cooperation in Logistics and Infrastructure When I began my diplomatic career, more than 30 years ago, Brazil was an underdeveloped or rather a developing nation, in the diplomatic parlance of the time. The country of the future, we used to say. It was a country facing the challenges of poverty, inequality and economic hardships. It was also under a military dictatorship. Today, I have the honor to represent a nation with a robust democratic system, a truly global player. At over $2.4 trillion, Brazil s GDP is roughly equal to that of the United Kingdom and doubles the GDP of Canada. Brazil also has seen 30 million citizens (the equivalent of the population of Venezuela) emerging from the E and D classes into the middle class, in the span of 10 years. Since the mid-90s, Brazil has sustained a coherent macroeconomic policy, based on economic stability and fiscal responsibility, combined with social investments to fight hunger and poverty. We got rid of chronic inflation, which had affected especially the poor population, who had no means to protect themselves from its dire effects on incomes. Considering these economic and social improvements, our population of almost 200 million inhabitants, and the fact that we will be hosting the World Soccer Cup in 2014 and Olympics in 2016, Brazil now requires huge investments to adapt itself to this new reality. The country also needs these investments for a rather strategic purpose: competition in the global economy of the XXI Century. Quando os negócios funcionam melhor, o mundo funciona melhor. Como construímos um mundo de negócios melhor? O mundo de seus negócios, seus clientes, sua carreira, sua família, sua comunidade? Inspirando confiança nos mercados de capitais. Trabalhando com governos e empresas para promover crescimento sustentável. Encorajando o desenvolvimento das pessoas que são e serão os visionários, os realizadores, os vencedores. Estes são os pilares do mundo que queremos ajudar a construir. Começando com o seu. ey.com/betterworkingworld #BetterWorkingWorld facebook EYBrasil twitter EY_Brasil linkedin ernstandyoung 34_Edição 282_jul/ago 2013 in a country where agribusiness represents 40% of exports, the revitalization of the port system has been long overdue TM Rio EYGM Limited. All Rights Reserved.

20 dialogues Logistics and Infrastructure Therefore, international partnerships in logistics and infrastructure should be considered from a strategic perspective, not a short term one. To sustain a growing economy and to compete internationally, our nation s ports need to be modernized and expanded. Brazil must also increase the capacity of its airports and invest in new railroads and highways. In this context, the United States and particularly the State of Georgia may present good examples and opportunities of partnerships in those areas. Brazil and the US have a longstanding partnership in the fields of trade and investments. Bilateral trade exceeded $59 billion in And there is clearly substantial room to grow. U.S. foreign direct investment (FDI) into Brazil grew from $5 billion in 2000 to $12 billion in 2012, while Brazilian FDI into the U.S. grew from $100 million in 2000 to $1.8 billion in The current U.S. and Brazilian administrations have substantially increased bilateral dialogue, including repeated presidentiallevel engagements. VP Biden has just made a very successful visit to Brazil and President Dilma Rousseff is preparing her visit to the U.S later this year. As regards Georgia-Brazil trade relations, it is worth noting that bilateral trade (around U$ 2 billion) has been steadily rising, making Brazil Georgia s 13th trading partner. Top exports from Georgia to Brazil include wood pulp, electrical machinery, chemical products and plastics. On the other hand, Georgia ranked 10th among U.S. states importing from Brazil. Top imports include textiles, wood, industrial machinery, iron and steel. Several Brazilian companies are located in Georgia, among them Gerdau, Weg, Embraco and Stefanini. The Atlanta International Airport and the Port of Savannah both excel in terms of efficiency and productivity. The fact that the new Airport International Terminal was delivered according to schedule, notwithstanding the economic crisis, is revealing. Atlanta has the busiest airport in the world, in terms of number of passengers. Likewise, Georgia Ports Authority is in the process of adapting Savannah, the 4th biggest port of the U.S., in order to expand capacity and to accommodate post-panamax ships. On the other hand, the Brazilian federal government has recently approved a new port legislation, which will regulate the modernization of ports infrastructure. In a country where agribusiness represents 40% of exports, the revitalization of the port system has been long overdue. For example: today, states in the north and the mid-west of the country, which produce over 50% of soybeans and corn, see only 14% of their production exported through ports located in the north and the northeast. And Brazil also needs to dramatically improve the time frame required to dispatch cargo, accessibility to ports and stockage capacity. Cooperation between Georgia and Brazil, in the fields of logistics, infrastructure and innovation has huge potential Authorities from the ports of Santos and Savannah have already been in contact in previous years. Moreover, the Brazilian Secretariat of Ports has recently established dialogue with the Georgia Ports Authority. In this context, it is possible that a mission from Savannah may visit Brazil this year. Last but not least, the Consulate established a partnership with the American Chamber of Commerce in Rio de Janeiro and the Brazilian American Chamber of Commerce-Southeast in view of the 2013 Georgia Logistic Summit. We are now planning to have a new partnership during the 2014 edition of the Summit, which will occur March 18-19th next year in Atlanta. In my view, cooperation between Georgia and Brazil, especially in the fields of logistics, infrastructure and innovation has huge potential. The Consulate of Brazil in Atlanta is ready to assist Brazilian and American companies so that we can make the best of these opportunities. 36_Edição 282_jul/ago 2013

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