EDELIZE RAQUEL BIEGER REPRODUÇÃO HUMANA ASSISTIDA A QUESTÃO DOS EMBRIÕES EXCEDENTES

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1 EDELIZE RAQUEL BIEGER REPRODUÇÃO HUMANA ASSISTIDA A QUESTÃO DOS EMBRIÕES EXCEDENTES Ijuí (RS) 2010

2 2 EDELIZE RAQUEL BIEGER REPRODUÇÃO HUMANA ASSISTIDA A QUESTÃO DOS EMBRIÕES EXCEDENTES Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia. UNIJUÍ Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. DEJ Departamento de Estudos Jurídicos. Orientador: MSc. João Delciomar Gatelli Ijuí (RS) 2010

3 Dedico este trabalho a todos que de uma forma ou outra me auxiliaram e apoiaram-me durante estes anos da minha caminhada acadêmica, em especial a minha tia Clarice por ter me acolhido e ajudado. 3

4 4 AGRADECIMENTOS A Deus, acima de tudo, pela vida, força para superar os obstáculos e coragem para vencer. A meus pais, Gilmar e Elise que mesmo distante sempre deram o máximo de si para se fazerem presentes e me apoiarem no que eu precisasse. A meu namorado Evandro pela paciência, compreensão, incentivo e principalmente pelo seu amor. A meu orientador João Delciomar Gatelli pela sua dedicação e disponibilidade. Ao professor Zeifert pelo incentivo e paciência. A todos aqueles que de uma ou outra forma colaboraram para que este trabalho fosse concretizado, minha muito obrigada.

5 5 Descobrir e inovar rumos na construção do direito é um desafio que deve se experimentar todos os dias, este é o hábito dos melhores juristas. Fernando Loschiavo Nery Teu dever é lutar pelo Direito, mas se um dia encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça. Eduardo Juan Couture A dignidade da pessoa humana não pode ser simplesmente reduzida à defesa de direitos pessoais tradicionais ou ser invocada para construção de uma teoria do núcleo da personalidade individual, ficando esquecida nos casos de direitos sociais e sendo ignorada quando se trate de garantir as bases da existência humana. Gomes Canotilho e Vital Moreira

6 6 RESUMO O presente trabalho de pesquisa monográfica faz uma breve exposição de como a Reprodução Assistida evoluiu desde os tempos mais remotos até o atual estágio da sociedade. Realiza o estudo das Técnicas de Reprodução Humana Assistida, verificando de quais resultam os embriões excedentes. Analisa leis e documentos que abordam o tema no país, bem como qual o tratamento dado por estas leis e documentos à problemática dos embriões excedentes, buscando verificar e compreender a efetividade de aplicação destas normas no tocante ao destino dado a grande quantidade de embriões resultantes da técnica de fertilização in vitro e que estão congelados nas clínicas de fertilização assistida. Assim retrata-se a problemática dos embriões excedentes fecundados in vitro frente à lacuna jurídica existente em nosso país. Nessa perspectiva, tece algumas considerações, a cerca da necessidade de uma legislação específica e mais evoluída para tratar do presente tema, uma vez que o trabalho envolve questões que não estão legalmente regulamentadas. Palavras-Chave: Reprodução Humana Assistida. Fertilização in vitro. Embriões Excedentes. Legislação.

7 7 ABSTRACT The present research monograph is a brief account of how assisted reproduction has evolved since the earliest times to the present state of society. Conducts the study of the Techniques of Assisted Human Reproduction, which result from checking the surplus embryos. Examines the laws and documents of the country, as well as which treatment given by these laws and documents to the problem of excess embryos, trying to verify and understand the effectiveness of applying these rules regarding the destination of the large number of embryos resulting from fertilization technique in vitro and are frozen in fertility clinics assisted. So picture the problem of excess embryos fertilized in vitro model of the legal vacuum exists in our country. From this perspective, it makes some considerations about the need for specific legislation and more evolved to address this issue, since the work involves matters that are not legally regulated. Legislation. Keywords: Assisted Human Reproduction. In vitro fertilization. Surplus embryos.

8 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO REPRODUÇÃO HUMANA ASSISTIDA Aspectos históricos Técnicas de reprodução assistida EMBRIÕES EXCEDENTES NA REPRODUÇÃO ASSISTIDA Resolução n /1992 do Conselho Federal de Medicina Lei n /1995 (Lei da Biotecnologia) Lei n /2002 (Código Civil Brasileiro) Projeto de Lei n. 90/ Lei n /2005 (Lei da Engenharia Genética)...48 CONCLUSÃO...52 REFERÊNCIAS...56

9 9 INTRODUÇÃO O presente tema é polêmico e atual, além de ser complexo e delicado, portanto, neste trabalho será analisada a questão dos embriões excedentes resultantes de determinadas Técnicas de Reprodução Humana Assistida que são utilizadas atualmente. A pesquisa será do tipo exploratória. No seu delineamento utilizará a coleta de dados em fontes bibliográficas disponíveis em meios físicos e na rede de computadores. Na sua realização será utilizado o método de abordagem hipotético-dedutivo. O problema a ser abordado é com relação à legislação brasileira, se ela realmente está acompanhando os avanços científicos no âmbito da Reprodução Humana Assistida quanto ao destino a ser dado à grande quantidade de embriões produzidos em laboratório e que não são utilizados pelas Técnicas de Reprodução Assistida. Assim, na busca de uma resposta ao problema inicial o presente trabalho monográfico foi desenvolvido em dois capítulos. O primeiro capítulo analisa a Reprodução Humana Assistida abordando alguns aspectos históricos e apontando quais as técnicas utilizadas por este tipo de reprodução, bem como as peculiaridades de cada uma. Procura-se demonstrar que através da evolução, a procriação deixou de ser um ato íntimo do casal, pois com a Reprodução Assistida os óvulos e espermatozóides passaram a ser tratados fora do corpo. O segundo capítulo trata dos embriões excedentes na legislação brasileira, apontando quais as legislações e documentos que tratam do tema e qual a respectiva solução, quando existente, que cada uma apresenta ao destino a ser dado à grande quantidade de embriões resultantes da técnica de fertilização in vitro que estão congelados nas clínicas de fertilização.

10 10 A Reprodução Assistida está inserida num contexto próprio das sociedades evoluídas e industrializadas, mobilizando de um lado a curiosidade pela busca de benefícios à humanidade e de outro a ganância cientifica, provocando um debate acirrado, sendo muitas vezes preconceituoso, pois interfere no processo de procriação natural do homem. Mas é no terreno jurídico que ela busca a solução para os inúmeros conflitos e contradições, desta forma cria para os estudiosos grandes desafios, pois desestabiliza o equilíbrio do direito que em muitas situações é precário. Como a ciência e a tecnologia andam com passos largos o direito necessariamente precisa acompanhar essas transformações, apoiando-se nos costumes, nos princípios gerais da moral e na jurisprudência. Ocorre que há um grande contraste entre a veloz evolução científica e a lentidão do direito. É claro que o progresso científico não pode ser impedido de acontecer, mas é preciso que se preserve a vida, a identidade e a dignidade humana como valor maior. Surge aqui uma incerteza com relação ao embrião humano, pois não há um consenso a respeito de serem considerados sujeitos de direitos, um ser em potencial, ou não. Sendo assim, diversas teorias procuram determinar sua natureza pessoal e jurídica. Por mais que não exista a proibição quanto à utilização da técnica de fertilização in vitro, as consequencias da destinação dos embriões excedentes criam problemas éticos, morais, religiosos e jurídicos que não podem ser deixados de lado. Por isso a importância da discussão do presente tema que procura demonstrar que os resultados da utilização da fertilização in vitro (FIV) necessitam de regulamentação, ou ao menos uma extensão de direitos procurando alcançar a segurança jurídica.

11 11 1 REPRODUÇÃO HUMANA ASSISTIDA Desde que o homem começou a tomar consciência do mundo e a interrogar-se a respeito de determinados fatos impeditivos da natureza, foi movido por um impulso de querer saber, de como fazer para atingir o objetivo tão desejado de procriar. Esse desejo levava, necessariamente, à vontade de descobrir os caminhos que possam conduzi-lo ao seu objetivo, à solução do seu problema. Isso se deve ao fato de que o desejo de filiação decorre da própria natureza do ser humano, sendo este o motivo pelo qual se busca a perpetuação da espécie através da ação de gerar filhos, desta forma a busca tem início na infância e continua praticamente até a velhice. Com relação a isso M. Soulé (1982 apud PERIN JUNIOR, 1998, p. 9) leciona que: O fantasma mais profundo da criança, qualquer que seja seu sexo é obter o poder de ter um filho, isto é, de possuir o poder do casal e, em todo caso, da mãe. Trata-se, pois, nem tanto de ter uma criança real, mas o de possuir o poder de gelá-la e, então, de se identificar à mãe na plenitude do seu absoluto. A partir deste clamor é que vão sendo desenvolvidas técnicas que ajudam, possibilitam às pessoas que têm problema de infertilidade ou esterilidade poder realizar o sonho da maternidade ou da paternidade em sua plenitude, possibilitando assim a auto-realização através da geração de um filho. Segundo Barbara Yuri Uemura (2003, p. 13): Milhões de casais no mundo são atingidos pela infertilidade. As estatísticas mostram que 20% dos casais em idade fértil experimentam dificuldades de gerar filhos. A infertilidade sempre foi uma grande preocupação para o homem desde a antigüidade, pois a esterilidade era vista como um fator degradante da sociedade, já que esta tinha como base da família o casal e seus filhos. Para João Delciomar Gatelli (2010, p. 5): Nessa conjuntura, verifica-se que as Técnicas de Reprodução Humana Assistida surgem na década de 70 com o avanço da ciência que buscava solucionar problemas de esterilidade para casais que, por determinada razão, não podiam ter filhos. Essas técnicas, com o passar dos anos, foram aperfeiçoando-se e a Reprodução Assistida tornou-se uma opção cada vez mais próxima das pessoas que necessitam da intervenção da ciência para gerar uma vida humana.

12 12 A lição de Nathalie Cervo Ahmad (2003, p. 53) é também bastante útil, pois para ela: A Reprodução Humana é muito mais notória no que diz respeito à impossibilidade de ter filhos, sobretudo, porque a transmissão de vida constitui a mais sublime capacidade humana, à medida que traz enormes mudanças sociais, psicológicas e até jurídicas na vida de quem procria. A ciência genética disponibiliza aos casais as Técnicas da Reprodução Assistida para alcançar a procriação quando esta não foi possível, devido a anomalias físicas ou por ineficácia dos métodos de tratamentos terapêuticos. Cristiano Costa e Marilena Correa (2007, p. 1) assim conceituam RA: Reprodução Assistida é um conjunto de técnicas, utilizadas por médicos especializados, que tem como principal objetivo tentar viabilizar a gestação em mulheres com dificuldades de engravidar. Muitas vezes essas dificuldades, até mesmo a infertilidade do casal ou um de seus membros, podem trazer sérios prejuízos ao relacionamento conjugal. No entendimento de Aimar Joppert Junior et al. (2008, p. 1) a Reprodução Humana Assistida é o conjunto de procedimentos no sentido de contribuir na resolução dos problemas da infertilidade humana. Isto com o intuito de facilitar a procriação devido a qualquer tipo de problema, responsável pela infertilidade tanto do homem como da mulher. Joppert Junior et al. (2008, p. 3), ensinam que a Reprodução Assistida pode adotar duas modalidades completamente distintas em aspectos morais, filosóficos, sociais, jurídicos e religiosos, quais sejam, a homóloga (ou intraconjugal) e a heteróloga (ou extraconjugal). Conforme o entendimento de Ecio Perin Junior (1998, p. 1): Esta ajuda pode ser representada pelo simples aconselhamento sobre o momento mais apropriado do ciclo menstrual para o casal manter relações sexuais, bem como pela utilização de técnicas laboratoriais altamente sofisticadas que permitam a fertilização de um óvulo por um único espermatozóide. Assim, podemos entender a Reprodução Assistida (RA) como sendo a intervenção do homem no processo de procriação natural, para possibilitar às pessoas que não conseguem ter filhos através do meio tradicional, ou seja, a união sexual entre o homem e a mulher, ou

13 13 quando outras técnicas terapêuticas não apresentaram os resultados esperados, possam realizar este desejo através dos avanços biotecnológicos. Eduardo de Oliveira Leite ([S.d.] apud PERIN JUNIOR, 1998, p.11) com relação a este assunto defende que: [...] não há egoísmo nenhum em querer ter seu próprio filho. Além disso, o ato de amor, apontado por alguns psicanalistas, quanto à adoção, ocorre igualmente - e, talvez, até em dose maior - nas Inseminações Artificiais, onde o casal renuncia integralmente sua privacidade no ato de procriação e aceita a participação de um terceiro estranho. Isso porque há um direito de procriar pelo que se observa a partir da leitura e análise da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que no âmbito jurídico disciplina o direito à igualdade e à dignidade da pessoa humana, prevendo nos seus artigos III, VII e XVI, 1 o direito de fundar uma família. Com relação a isso Ahmad (2003, p. 54) se posiciona no seguinte sentido: De acordo com as previsões legais, e tomando como base os princípios da legalidade e da anterioridade vigentes em nosso sistema jurídico, [...] a Reprodução Artificial é de fato uma atividade lícita, pois no nosso ordenamento tudo o que não é proibido, a princípio é permitido. Assim em não havendo uma proibição legal expressa e específica nem uma tipificação de crime, são validas as Técnicas de Reprodução Assistida na tentativa de solucionar a infertilidade humana. Desta forma, se as vias normais e tradicionais para procriação não forem eficazes podem as pessoas, através da evolução da ciência genética e da biotecnologia buscar esta satisfação através das Técnicas de Reprodução Assistida, uma vez que pelo que se sabe são permitidas. 1.1 Aspectos históricos Através do que se verifica na história sempre houve uma preocupação permanente com a questão da fertilidade e da fecundidade, sendo que a infertilidade foi e ainda é considerada algo que não é positivo, um motivo de exclusão e até mesmo de degradação no grupo tanto familiar como social. Conforme Perin Junior (1998, p. 2):

14 14 Desde as mais remotas épocas, a esterilidade foi considerada como um fator negativo, ora maldição atribuída à cólera dos antepassados, ora à influência das bruxas, ora aos desígnios divinos. A mulher estéril era encarada como ser maldito que precisava ser banido do convívio social. Para os judeus, a esterilidade era considerada como castigo de Deus. Em posição oposta, a fecundidade era olhada com intensa benevolência. A chegada dos filhos sempre foi vinculada às noções de fortuna, riqueza, prazer, alegria, fartura, privilégio e dádiva divina. Por outro lado, a possibilidade de fecundação fora o ato sexual foi pensada e imaginada desde os tempos mais remotos, pois na mitologia se verificam casos assim. Conforme apresentam Andrea Aldrovandi e Danielle Galvão de França (2002, p. 2, grifo das autoras): Ates filho de Nana, filha do Rei Sangário, que teria colhido uma amêndoa e colocado em seu ventre (Grécia); Kwanyin deusa que possibilitava a fecundidade das mulheres que lhe prestassem culto (China); Vanijiin deusa da fertilidade, mulheres que se dirigiam sozinhas a seu templo retornavam grávidas (Japão). Zeno Veloso (1997, p. 154, grifo do autor) também menciona um exemplo: Na bíblia ( Gênesis 16) conta-se que Sarah, mulher de Abraão, não lhe dava filhos, por ser estéril; porém, tinha uma serva egípcia, por nome Hagar. Disse Sarah a Abraão: Eis que o senhor me tem impedido de dar à luz filhos; toma, pois, a minha serva, e assim me edificarei com os filhos por meio dela. E Abraão anuiu ao conselho de Sarah. Possuiu a escrava, e ela concebeu. Da bíblia podemos ainda citar o caso de Maria mãe de Jesus. E no Brasil a conhecida lenda do boto, que engravida as mulheres que lhe dirigem o olhar. Nas épocas mais antigas procurava-se tratar a esterilidade, ou revertê-la através da utilização de chás, pedras preciosas entre outros métodos como as invocações religiosas, rituais e até mesmo flagelações. (PERIN JUNIOR, 1998, p. 2). Perin Junior (1998, p. 2), ainda observa com propriedade que Só no final do século XVI (em 1590) o estudo da esterilidade conjugal ganhou foros de cientificidade com a invenção do microscópio, por Leenwenhoek. Mas, com o passar do tempo esse sonho mítico passou a ser uma realidade possível através dos avanços tecnológicos, transformando aquele milagre do passado em fato que se considera de certa forma normal na atualidade.

15 15 A partir de um estudo histórico é possível verificar que foi na Idade Média que a idéia de Reprodução Assistida começou a ser descrita. Perin Junior (1998, p. 3, grifo do autor) aponta alguns dados históricos com relação ao desenvolvimento e evolução da Reprodução Assistida: Em meados do século XVIII, Ludwig Jacobi (alemão) fez tentativa de inseminação em peixes; em 1755, Lazzaro Spallanzani (biólogo italiano) obteve resultados positivos na fecundação de mamíferos; em 1799, John Hunter (médico e biólogo inglês) obteve êxito na fecundação por Inseminação Artificial em seres humanos; em 1884, Pancoast (médico inglês) fez a primeira inseminação heteróloga; em 1910, Elie Ivanof (Russo) foi responsável pela descoberta da conservação do sêmen fora do organismo, por resfriamento; em 1940, teriam surgido os primeiros bancos de sêmen nos EUA; em 1953, os geneticistas ingleses James B. Watson e Francis H. C. Crick descobriram a estrutura em hélice de DNA, descoberta que deu origem à Genética Molecular e é considerado o marco inicial da Engenharia Genética. Em 1980, foi criado o primeiro banco de embriões de seres humanos congelados, na Austrália. Em 7 de outubro de 1984, foi concebida Ana Paula Caldeira, Primeira brasileira fruto da fertilização in vitro. Conforme Sérgio Abdalla Semião (2000, p. 167, grifo nosso): O primeiro sucesso de fertilização in vitro de um óvulo humano se deu aos 25 de julho de 1978, com o nascimento de Louise Brown, em perfeito estado de saúde. Foi considerado o bebê do século e manchete de todos os jornais e revistas da época, em todo o mundo, que anunciavam o primeiro bebê de proveta. Após 1980 o nascimento dos bebês de proveta deixou de ser um caso extraordinário e ganhou foros de normalidade, à força da repetição. Mais de 20 clínicas espalhadas pelo mundo desenvolviam programas de fertilização. (PERIN JUNIOR, 1998, p. 3). Perin Junior (1998, p. 8) ainda acrescenta sua opinião no sentido de que: As novas técnicas, desenvolvidas nos últimos anos, representam uma verdadeira revolução, na medida em que permitem a procriação sem relação sexual, ao inverso da contracepção que permite a sexualidade sem procriação; a fecundação e o início do desenvolvimento do ser humano, fora do corpo da mulher, no laboratório; a possibilidade de transferir um embrião no útero de outra mulher que não forneceu o óvulo, e assim por diante. O Brasil também obteve êxito desta conquista, e desta forma tem procurado aperfeiçoar sempre mais as Técnicas de Reprodução Assistida.

16 16 Neste sentido Joppert Junior et al. (2008, p. 3) dizem que esse aperfeiçoamento vem sendo feito através do trabalho de cientistas daqui e também de intercâmbio com pesquisadores estrangeiros numa busca contínua e incansável pelo aperfeiçoamento. Com propriedade segue Joppert Junior et al. (2008, p. 3, grifo dos autores) no sentido de que: Isto nos valeu um quesito máximo por parte da Red Latinoamericana de Reproduccíon Asistida. Um fator que dá crédito à qualidade dos serviços prestados no Brasil, neste setor. Aldrovandi e França (2002, p. 2) com relação à esterilidade ensinam que: [...] hoje a esterilidade e a infertilidade são doenças devidamente registradas na Classificação Internacional de Doenças pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e, como tal, podem ser tratadas. Embora a Reprodução Assistida não ataque diretamente a doença (esterilidade ou infertilidade), [...] ela deve ser entendida como uma terapia. A Constituição federal de 1988 prescreve em seu Art. 226, 7º: Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. Com relação a isso Arnoldo Siqueira e Marcia Freitas (2008, p. 4) ensinam que: Dos 117 centros de RHA brasileiros, apenas seis Instituições oferecem o tratamento totalmente gratuito e três oferecem o serviço gratuitamente, mas com a medicação paga pelo casal. Há ainda um serviço público de infertilidade no Rio de Janeiro, que disponibiliza apenas os exames para diagnosticar a causa da infertilidade. Essa situação ainda se agrava quando se observa que além do insuficiente número de centros de RHA públicos para a demanda, 80% desses estão concentrados no Estado de São Paulo e distribuídos de maneira não equânime no próprio Estado e no País. Através de um estudo ou análise é possível verificar que o número de casais que procuram os centros ou clínicas de Reprodução Humana Assistida vem crescendo gradativamente, e espera-se que este número aumente ainda mais em locais aonde a técnica venha a ser oferecida gratuitamente.

17 Técnicas de reprodução assistida Primeiramente antes de nos debruçarmos sobre o estudo das Técnicas de Reprodução Humana Assistida, que atualmente compreende uma série de técnicas distintas é preciso conhecer e conceituar algumas estruturas que fazem parte desse processo, para que tenhamos uma maior compreensão do assunto. A partir de uma análise conjunta do Dicionário Aurélio (2010, grifo nosso) e do Pequeno Dicionário de Reprodução Assistida (2010, grifo nosso) podemos conceituar espermatozóides, óvulo e embrião da forma a seguir descrita. Os espermatozóides são os gâmetas, ou seja, as células sexuais reprodutoras masculinas. Estas células conseguem nadar livre e autonomamente, sendo formadas por uma cabeça, por uma cauda e por um flagelo. A cabeça contém a maior parte do volume do espermatozóide, isso porque, é nela que se encontra o núcleo da célula, enquanto o flagelo é o responsável pela sua mobilidade. O óvulo, também chamado de ovocélula é o gâmeta ou célula sexual reprodutora feminina, e é formada no ovário através do processo chamado de oogénese. O embrião pode ser conceituado como um organismo em seus primeiros estágios de desenvolvimento, compreendendo desde as primeiras divisões do zigoto até o nascimento, ou seja, o ser humano nas primeiras fases de desenvolvimento, isto é, do fim da segunda até o final da oitava semana, quando termina a morfogênese geral, e o pré-embrião é a denominação utilizada para o embrião humano nos primeiros 6 a 7 dias de desenvolvimento. Heloísa Helena Barbosa (2002, p. 2) faz uma diferenciação dos termos embrião e préembrião entendendo que: O embrião é a entidade em desenvolvimento a partir da implantação no útero, até oito semanas após a fecundação; a partir da nona semana começa a ser denominado feto, tendo essa denominação até nascer. Portanto, a rigor até os primeiros quatorze dias após a fertilização, temos o zigoto, denominado na legislação espanhola préembrião, designação que causa controvérsia por induzir uma diminuição da condição humana da entidade em desenvolvimento.

18 18 Uemura (2003, p , grifo da autora) acrescenta com propriedade essa sequencia na formação dos embriões e seu posterior desenvolvimento: O termo fecundação é destinado a designar a união dos núcleos das células reprodutoras masculinas (espermatozóides) e femininas (óvulos), também chamadas gâmetas, que se convertem em uma única célula: zigoto ou ovo. Em condições naturais, a fecundação tem lugar no aparelho genital feminino, mais precisamente nas Trompas de Falópio. Depois da fecundação, o zigoto desenvolve-se rapidamente e após cerca de 66 horas já está constituído por oito células e é denominado mórula ; ao mesmo tempo, ajudado por contrações das trompas, chega ao útero, onde vai implantar-se (nidação) e completar os nove meses de gravidez. Desta forma, para diminuir os problemas da infertilidade a medicina moderna propicia a utilização de várias Técnicas de Reprodução Humana Assistida, algumas destas técnicas já vêm sendo utilizadas a um bom período de tempo. Isso ocorre porque fatores de ordem biológica, médica ou psíquica podem impedir a união das células germinativas masculina e feminina, determinando muitas vezes, a esterilidade como também a incapacidade para procriar. As Técnicas de Reprodução Assistida mais simples e como visto utilizadas há mais tempo são as denominadas de Inseminação ou Fertilização Artificial (IA), em que a fecundação se dá dentro do corpo da mulher, esta técnica compreende a inseminação heteróloga (IAD) e a homóloga (IAC), esta poderá ser realizada post mortem, ou seja, após a morte do individuo que produziu o sêmen. Interessante definição nos traz a Justificação do Projeto de Lei 90 de 1999 (grifo nosso) ao mencionar que: Basicamente, as Técnicas de RA pertencem a duas modalidades: aquelas em que se introduz no aparelho reprodutor da mulher o esperma, genericamente denominadas Inseminação Artificial (IA), e a fertilização in vitro (FIV), na qual o óvulo e o esperma são juntados em um tubo de proveta e posteriormente se introduzem alguns embriões no aparelho reprodutor da futura mãe. A IA subdivide-se em inseminação intra-uterina (IIU), em que o esperma é colocado no útero, transferência intrafalopiana de gametas (IFTG), em que os espermatozóides são introduzidos nas trompas de falópio, e inseminação intraperitoneal (IIP). como: Mônica Sartori Scarparo (1991 apud VENOSA, 2009, p. 321) entende a inseminação [...] uma forma de fecundação artificial, pela qual se da a união do sêmen ao óvulo por meios não naturais. [...] A Inseminação Artificial também é conhecida como

19 19 concepção artificial, fertilização artificial, semeadura artificial, fecundação ou fertilização assistida. Para Perin Junior (1998, p. 6), Quando os espermatozóides apresentam alguma deficiência torna-se necessário tratá-los, [...] auxiliá-los a transpor etapas de seu percurso até o útero: é o caso da inseminação intraconjugal, ou homóloga, no colo ou na cavidade uterina. Silvio Rodrigues (2002, p. 341) de forma breve e esclarecida ensina que: [...] homóloga é a inseminação promovida com o material genético (sêmen e óvulo) dos próprios cônjuges; heteróloga é a fecundação realizada com material genético de pelo menos um terceiro, aproveitando ou não os gametas (sêmen ou óvulo) de um ou de outro cônjuge [...] Verificamos a diferença existente entre reprodução homologa e heteróloga, a diferença esta em que na primeira são usados os materiais genéticos dos próprios indivíduos interessados na reprodução, ou seja, óvulo e espermatozóide do próprio casal, enquanto na segunda há a intervenção de uma terceira pessoa, um doador que poderá ser anônimo ou não. Neste sentido Sílvio de Salvo Venosa (2009, p. 232) aponta que a inseminação homóloga será [...] utilizada em situações nas quais, apesar e ambos os cônjuges serem férteis, a fecundação não é possível por meio do ato sexual por várias etiologias (problemas endócrinos, impotência, vaginismo etc.). E a inseminação heteróloga terá então aplicação [...] principalmente nos casos de esterilidade do marido, incompatibilidade de fator Rh, moléstias graves transmissíveis pelo marido, etc. Com frequência, recorre-se aos chamados bancos de esperma, nos quais, em tese, os doadores não são e não devem ser conhecidos. Entende Ahmad (2003), que na reprodução heteróloga, admite-se a doação de ambos os gametas para a fecundação. Na inseminação homóloga post mortem a esposa ou companheira será inseminada com os gametas de seu marido, ou companheiro já falecido. (ALDROVANDI; FRANÇA, 2002, grifo nosso). Assim, entendemos que a Técnica de Inseminação Artificial será homóloga quando for realizada com o óvulo e o sêmen do próprio casal ou cônjuges, por outro lado, se o óvulo e/ou

20 20 o espermatozóide forem doados por uma terceira pessoa, neste caso a inseminação será heteróloga. E será inseminação artificial post mortem quando a mulher for inseminada com espermatozóide do marido ou cônjuge já falecido. Com relação à temática da Reprodução Assistida, Veloso (1997, p. 150, grifo do autor) ensina que: A Inseminação Artificial é o processo de Reprodução Humana pelo qual se introduz o sêmen no óvulo, podendo o encontro ser produzido diretamente no órgão genital feminino, ou a fecundação ser realizada em laboratório - in vitro -, colocando-se o embrião, posteriormente, no útero. Na Técnica de Transferência de Gametas para as Trompas (GIFT) segundo Joppert Junior et al. (2008, p. 9): [...] o processo de fertilização acontece no interior das trompas e não na estufa. Por meio da laparoscopia os óvulos são aspirados e colocados na trompa com os espermatozóides. Daí em diante o processo de fertilização segue seu caminho natural. Assim é necessário que pelo menos uma das trompas seja saudável [...] Como se verifica, nesta técnica ocorre a fertilização in vivo, conforme já demonstrado por Aldrovandi e França. Segundo Ahmad (2003, p. 61, grifo nosso), os gametas são injetados através de uma cânula, dentro da qual se encontram separados por uma bolha de ar para evitar que ocorra a fertilização na própria cânula, isto é, in vitro. Também ocorre a fertilização in vivo, ou seja, dentro do corpo da mulher, na técnica de Transferência Intratubárica de Óvulos (TOT). Conforme Ahmad (2003, p. 60) está técnica é utilizada: [...] geralmente, quando não existe comunicação entre os ovários e as Trompas de Falópio. Injeta-se diretamente o óvulo (quase maduro) com uma cânula na parte da Trompa onde pode ser fertilizado pelo espermatozóide. [...] Em alguns casos o esperma é colhido no decorrer de um ato conjugal normal dentro de um preservativo perfurado e uma parte do sêmen é introduzida junto com o óvulo nas Trompas de Falópio.

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