ESCOLA E SONHO E VAN GOGH E VIDA... OU, POR QUE AINDA VALE A PENA SONHAR COM A EDUCAÇÃO?

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1 ESCOLA E SONHO E VAN GOGH E VIDA... OU, POR QUE AINDA VALE A PENA SONHAR COM A EDUCAÇÃO? Carlos Eduardo Ferraço Marco Antonio Oliva Gomes DIALOGANDO COM UM SONHO DE KUROSAWA Escolhemos o sonho Corvos de Kurosawa por sua impactante beleza estética e pela força com que o silêncio de suas imagens-sonoras levou nossos pensamentos a imaginar-sonhar outras tantas possibilidades de escolas-vida. No sonho do cineasta, um homem, o próprio Kurosawa quando jovem, contempla quadros de Van Gogh em um museu, entre eles A ponte de Langlois e O campo de trigo com corvos. Entra neste quadro [A ponte de Langlois]. Atravessa a ponte e encontra o pintor num campo aberto. Van Gogh ao vê-lo pergunta por que ele não pinta: Por que não está pintando? Para mim esta cena é incrível. E continua a falar: Uma cena que parece pintura não dá pintura. Se olhar com atenção você verá que toda natureza tem sua beleza. Quando encontro esta beleza natural eu simplesmente me perco nela. Então, como num sonho, a cena se pinta sozinha. Eu consumo esta cena natural eu a devoro completamente. Quando termino, a imagem aparece completa diante de mim. Mas é difícil segurá-la aqui dentro. O jovem Kurosawa pergunta como ele consegue, como ele faz para segurar a cena e pintar, e Van Gogh responde que trabalha como um escravo: 143

2 Eu vou ao máximo, como uma locomotiva. Preciso me apressar, o tempo está acabando. Resta pouco tempo para pintar. Kurosawa aponta para o rosto de Van Gogh, pergunta se ele se feriu na orelha e o pintor, sem parar de desenhar, responde: Ontem eu tentava completar um autorretrato. Não conseguia acertar a orelha, então cortei a orelha e a joguei fora 1. A partir dessa conversa, Vincent segue em direção à luz do sol, o que leva nosso personagem a entrar, cada vez mais, nos quadros-cenários do filme em busca do famoso pintor, ora seguindo caminhos abertos por entre campos de flores e de trigos, ora arriscando-se em atalhos improvisados por entre árvores e pinceladas de tinta. Em sua incessante busca pelo pintor, o jovem-kurosawa-caminhante se mistura, confunde-se com um mundo-caótico-aleatório dos quadros de Van Gogh, alternando sua condição de foco da cena (quando o quadro do pintor é visto apenas pelos detalhes das pinceladas, isto é, pelas cenas fechadas nas pinceladas impressionistas de Vincent) e de detalhe (quando o quadro do pintor é o personagem central do filme, isto é, quando o jovem Kurosawa se torna uma pincelada, um detalhe no quadro-cena). Assim, durante todo o filme o jovem-kurosawa-caminhante é, ao mesmo tempo, sujeitofoco referência da cena e sujeito-detalhe da mesma. Sujeito-foco porque, estando no primeiro plano, a cena se desenrola a partir de seu caminhar, é ele quem nos guia pelas paisagens pintadas por Vincent. Sujeito-detalhe porque, à medida que a cena se abre, os pormenores das pinceladas vão sumindo e vai tomando forma uma imagem-tela mais ampla, que nos sugere uma harmonia estética na qual o então jovem-kurosawa-caminhante-foco deixa de ser a imagemcentro, passando à condição de fragmento da cena, tornando-se, agora, o jovem-kurosawacaminhante-detalhe. 1 <http://www.escrevercinema.com/kuorosawasonhos.htm>. 144

3 Esse jogo de alternância caos-estabilidade entre o jovem-kurosawa-caminhantefoco e o jovem-kurosawa-caminhante-detalhe só termina com sua saída dos mundostelas-de-vida (GOMES, 2012) do famoso pintor, quando então não é mais nem a sua condição inicial de jovem-kurosawa-contemplador-da-obra-de-arte, nem de jovemkurosawa-caminhante-foco-detalhe-em-busca-do-artista, mas de jovem-kurosawa-obrade-arte, transformado que está pela experiência vivida Van Gogh, desenho de Akira Kurosawa para o roteiro de Sonhos. Fonte: <http://www.escrevercinema.com/kuorosawasonhos.htm>. Nem sujeito, nem admirador, nem pincelada, nem foco, nem detalhe, mas tudo ao mesmo tempo na condição de multiplicidades e de sua vida-singularização como obra-de-arte, como experiência (LARROSA, 2004), que ao atualizar sua condição virtual de multiplicidades faz explodir as lógicas binárias do dentro-fora, sujeito-objeto, artista-obra, expectador-tela. Como falam Deleuze e Guattari (1995, p. 8), As multiplicidades são a própria realidade, e não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multiplicidades. O SONHO CORVOS DE KUROSAWA COMO POTÊNCIA PARA PENSAR A EDUCAÇÃO Por que o sonho-filme Corvos de Kurosawa nos moveu a pensar outras possibilidades de escolas-vida-educação? Por que arte, estética e vida estão, para nós, tão próximas da educação e da escola? Por que, apesar de solitário quase todo o tempo, o jovem-kurosawa-caminhante-foco-detalhe nos sensibilizou com sua busca silenciosa, aparentemente sem sentido, pelos caminhos-atalhos das telas de Van Gogh? 145

4 Busca em silêncio que, a princípio, não tinha outra intenção a não ser encontrar o famoso pintor, sentindo-se, assim, pertencente a sua arte-tela! Busca em silêncio que, com o passar do tempo, foi potencializando o caminhante-foco-detalhe a se misturar à intensidade das formas-cores-sons das pinturas e, com isso, experienciar sua condição de artista! Em muitos momentos de nossa condição-vida de educadores somos tomados pelas sensações que experienciamos assistindo ao filme-sonho Corvos de Kurosawa: de um professor-artista-caminhante-foco-detalhe que, por momentos, segue sua vida solitário e em silêncio nas escolas, em busca de algo que não sabe muito bem o que é, trilhando caminhos-atalhos que se abrem ao acaso, em meio ao caos vivido nos cotidianos, alternando sentimentos de visibilidade-anonimato-reconhecimento-descasosucesso-apatia-tristeza-indiferança..., que nos constituem sempre como multiplicidades, apesar de nossas buscas por estabilidade-identidade. Mas, por que, então, apesar de nossa condição de ilhas em busca de estabilidade em um mar de caos (NAJMANOVICH, 2001), continuamos a seguir pelas trilhascaminhos da tela-educação? Por que insistimos em nos misturar com suas formas-coressabores-sons-silêncios-texturas..., a ponto de sermos reduzidos, em alguns momentos, a uma pincelada na tela, forçando-nos a perguntar: como nos tornamos o que somos? Talvez, continuamos a seguir pelas trilhas-caminhos da tela-educação porque escola nos inspira arte, nos inspira vida! 146

5 Talvez porque nós pensamos escola-educação como texturas ruidosas que quebram e colam, que tecem rizomas de sentidos e histórias sem sentidos, na abertura de uma pintura-van-gogh-de-nós-mesmos, caçadores-de-nós-mesmos-multiplicidades (FERRAÇO, 2003), singularizações-de-artistas-caminhantes, em busca de nossos sonhos-educação-escola como professores-obras-de-arte-sujeitos-de-experiência, a cada dia vivendo situações cotidianas que nos afetam, ao mesmo tempo em que também afetamos outros, como aconteceu, a nosso ver, com o jovem-kurosawa ao entrar, percorrer e sair das telas-vida de Van Gogh. Vida-escola-tela que pulsa em cores-texturas-sons-cheiros que se formam, transformam e transbordam em sonhos como o de Kurosawa. Afinal, que é sonho? Que é realidade? Quais são nossos sonhos-realidade-vida em educação? É possível sonhar realidades em educação? É possível realizar sonhos em educação? Podemos falar em realidade-vida quando pensamos em educação? A que tipo de realidade estamos nos referindo? A uma realidade-verdade-última ou a uma realidade-vida-pulsante? O desejo de realidade [...] está relacionado com o desejo de vida, com a vontade de viver. E o desejo de viver está ligado ao sentimento de certa desvitalização da vida. Esse sentimento que nos faz dizer que esta vida não é vida, ou que a vida está em outra parte. Se temos vontade de viver, não é porque não estejamos vivos, e sim porque vivemos uma vida desvitalizada, uma vida a que lhe falta vida. E o que buscamos é algo assim, como a vida da vida, uma vida cheia de vida. O desejo, ou a vontade de realidade, tem relação, então, com a suspeita de que falta algo ao que nos é apresentado como real (LARROSA, 2008, p. 185). 147

6 Então, para nós, a questão de fundo e que precisa ser problematizada não tem a ver, necessariamente, com os nossos sonhos, mas com nossa busca obcecada pelo que chamamos de realidade-verdade-última em educação, muitas vezes expressas em falas como: Precisamos partir da realidade dos alunos ; É de suma importância conhecer a realidade das escolas ; A realidade de vida do professor necessita ser considerada ; A pesquisa em educação tem que buscar transformar a realidade. POR UMA EDUCAÇÃO COM MAIS REALIDADE-EXPERIÊNCIA E MENOS REALIDADE-VERDADE Em geral, esses discursos-práticas educacionais, muito comuns em diferentes contextos educacionais, expressam, quase sempre, tentativas de destruição dos sonhos em educação, uma vez que, Como se nos dissessem que, fora, o que existe é uma espécie de realidade sem realidade. E buscamos, portanto, algo como uma realidade da realidade, esse ingrediente, ou essa dimensão que faz com que algo ou alguém seja validado como real, que nos dê certa sensação de realidade. Do mesmo modo que reivindicamos que a vida esteja viva, reivindicamos também que a realidade seja real, que tenha validade, a força, a presença a intensidade e o brilho do real (LARROSA, 2008, p ). Importa, então, pensar em sonhos-realidade que, em cores como as de Van Gogh, pulsam nos atalhos-relevos das paisagens das escolas-vida as quais, subitamente, são cortadas por revoadas de corvos, significando que sonhos-voos-corvos são sempre possíveis em educação. 148

7 Que sempre podemos contar com a virtualidade das linhas de fuga, à espreita dos acontecimentos, que irrompem os platôs de uma vida-escola-viva-de-sonhos-realidade, que colorizam os planos que, sendo planos, transformam-se em elevações, depressões, curvas, saliêncios e atalhos. Campo de trigo com corvos Van Gogh É possível, então, sonhar realidades e realizar sonhos em educação. É possível porque sempre podemos contar com a virtualidade dos corvos de Vincent, preparados para nos surpreender nos cotidianos de nossas vidas-escola. Sempre haverá professoresalunos-corvos-multiplicidades que, como nosso personagem-obra-de-arte-sujeito-daexperiência do filme de Kurosawa, não se cansam de seguir-inventar os coloridos das trilhas, não se intimidam diante dos acasos e que, a cada dia, realizam outros sonhos. Alunos-professores-corvos-obra-de-arte-sujeito-da-experiência que vão seguindo suas vidas em meio às pinceladas de um quadro-escola, pintando as histórias de suas vidas, em toda uma vida afora, em toda uma vida adentro, dentro-fora de um quadrofilme de Van Gogh que, como um recorte-sonho-fragmento do possível, move nossos pensamentos, força-nos a seguir em frente com nossos sonhos-realidades, encharcados que estamos de escola-vida-sonhos. E isso só é possível se conseguirmos fazer vibrar o desejo que busca investigarconhecer-transformar a realidade permitindo-nos, vez ou outra, experienciar outros possíveis em educação, possíveis esses tecidos com alguns discursos das artes, de modo a potencializar sua dimensão estética, como estamos tentando fazer neste texto. 149

8 Com a palavra investigação, refiro-me a todas aquelas práticas e todos aqueles discursos a que se propõem o conhecimento e a transformação da realidade educativa, em qualquer um de seus âmbitos ou de suas dimensões. E o que me ocorre é que esses discursos raramente me surpreendem, ou me comovem, ou me arrebatam com o que antes chamava de a validade, a força, a presença, a intensidade e o brilho do real. (LARROSA, 2008, p. 186). O investigador-da-realidade-em-educação, tal qual um girassol, tende a se voltar para a sua luz alimentadora (a busca pela verdade) e, com a fúria de Vincent, pinta suas letras como ele pintou seus girassóis movido que está pela vontade de conhecer a realidade. O investigador-artista-obra-de-arte, inspirado em Van Gogh, dá-se conta da necessidade de fazer pulsar a realidade ao invés de tentar conhecê-la. Ousando um pouco mais, pensamos um investigador-semeador-vincent que, ao viver a possibilidade de se dissolver em seu campo, faz flutuar vivências-multiplicidades-sentimentos cotidianos, potencializando devires-cores-formas-texturas, sem a preocupação de conhecer, mas apenas viver a experiência. Como afirma Larrosa (2008, p. 186), O semeador Van Gogh Entretanto, de vez em quando, com a literatura, com as artes, com o cinema ou com a filosofia, essa validade, essa força, essa presença, essa intensidade e esse brilho do real me comovem ou me arrebatam. Como se o escritor, o artista, o cineasta ou o filósofo fossem capazes dessa relação com o real, uma relação em que o real está repleto de realidade. E talvez isso aconteça, justamente, porque nem o escritor, nem o artista, nem o cineasta, nem o filósofo estão preocupados com o que na investigação se chama de conhecimento do real, nem estão preocupados pelo que na investigação se chama transformação do real. 150

9 Concordando com Larrosa (2008), interessa-nos, em nossos sonhos de educação, problematizar nossas formas de ver, de dizer, de pensar e de sonhar o educativo. Isso para que outros modos de ver, dizer, pensar e sonhar educação nos force a encontrardesejar-inventar outras-novas realidades-experiências. A experiência não é outra coisa se não a nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Uma relação em que algo nos passa, nos acontece. Então, o desejo de realidade está ligado à experiência, no sentido de que o real só acontece se experimentado: o real é o que nos passa, nos acontece na experiência [...].O desejo de realidade não é muito diferente do desejo de experiência [...]. O sujeito da experiência é um sujeito ex-posto, ou seja, receptivo, aberto, sensível e vulnerável. Além de ser também um sujeito que não constrói objetos, mas que se deixa afetar por acontecimento. O desejo de realidade seria, então, um desejo de acontecimento (LARROSA, 2008, p ). REFERÊNCIAS DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. Capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, FERRAÇO, Carlos Eduardo. Eu, caçador de mim. In: GARCIA, Regina Leite. (Org.). Método: pesquisa com o cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A, p GOMES, Marco Antonio Oliva. Devires em cor Movimentos de vida pintados em cenas cotidianas das escolas f. Tese (Doutorado em Educação) Programa de Pós- Graduação em Educação, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória,

10 LARROSA, Jorge. Desejo de realidade Experiência e alteridade na investigação educativa. In: BORBA, Siomara; KOHAN, Walter. (Org.). Filosofia, aprendizagem, experiência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, Experiência e paixão. In: LARROSA, Jorge. Linguagem e educação depois de Babel. Belo Horizonte: Autêntica Editora, NAJMANOVICH, Denise. O sujeito encarnado: questões para pesquisa no/do cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A,

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