ACAMPAMENTOS TRANSDISCIPLINARES: HOMENS É QUE SÓIS, NÃO MÁQUINAS

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1 ACAMPAMENTOS TRANSDISCIPLINARES: HOMENS É QUE SÓIS, NÃO MÁQUINAS Profª Ms. Luciane Schulz PPGEd/CCSA /UFRN Relato de um Projeto Ecopedagógico de Acampamento, com adolescentes do Ensino Médio/Técnico de Joinville/SC no período de novembro de 2004 a novembro de O objetivo geral foi favorecer o sentipensar autônomo dos adolescentes com relação a cooperação e a responsabilidade ecossistêmica. As ações receberam as contribuições dos estudos da Ecopedagogia de Gadotti, da Pedagogia da Transgressão de Espírito Santo e nos 4 Pilares da Educação de Delors. Nossa análise interpretativa se fundamenta no Pensamento Ecossistêmico indicado por Morin e Moraes, na Autopoiese de Maturana e Varela, e nos estudos da BACOR/PPGEd/UFRN. As vivências afetaram o sentimento de cooperação entre todos e de co-responsabilidade pela biodiversidade. Os resultados indicam um saber ser e um saber viver cooperativo no cuidar de si e do meio. Palavras chave: Ecopedagogia - Identidade terrena - Transdisciplinariedade - Pensamento ecossistêmico

2 2 O presente trabalho trata de um Projeto Ecopedagógico: Acampamentos Transdiciplinares: Homens é que sóis, não máquinas, desenvolvido no ano de 2008, no Colégio Tupy, Instituição da Rede Privada de Joinville/SC. O mesmo é um recorte desse grande projeto transdisciplinar que envolveu 650 adolescentes do 3º. ano do Ensino Médio/Técnico no período de novembro de 2004 a novembro de Nesse relato daremos ênfase a uma experiência com 48 adolescentes de 16 a 17 anos, na qual focalizamos especialmente o Saber IV Ensinar a identidade terrena, pois o consideramos chave nas ações educacionais do Projeto em questão. O trabalho tem a Ecopedagogia de Gadotti (2010), a Pedagogia da Transgressão de Espírito Santo (1996) e os 4 Pilares da Educação de Delors (2005) como base das ações educativas, pois transcende do sentido ecológico, emergindo da premissa de que a qualidade de vida está interligada com o saber viver e conviver nas relações que mantemos conosco, com os outros e a natureza. Elegemos como aporte teórico o pensamento ecossistêmico de Edgar Morin e indicado por Cândida Moraes, no qual concebe o jovem como parte integrante e coresponsável da biodiversidade circundante e sua aprendizagem, como um processo encarnado (MATURANA & VARELA, 2001, 1997) ao longo de sua vida nesse contexto. Também fundamentamos nos estudos da corporeidade de Cavalcanti (2008) que ao se inspirar na metáfora da Teia de Aranha, agrega um caráter transdisciplinar e ecossistêmico da Corporeidade. A Teoria da Autopoiese (MATURANA e VARELA, 1997) ao se conectar com os conhecimentos da corporeidade, fazem surgir a concepção da ludicidade como sistema autopoiético. Dessa forma, destacam-se para esse projeto as propriedades da autoconectividade através da interação e da implicabilidade do ser consigo mesmo para poder se conectar como personalidade que cria com o meio; da autoterritorialidade, que por sua vez, é a propriedade humana de ocorrer em espaço-tempo autodelimitado, que constitui o campo de jogo para concretizar desejos vivenciais de criação; da autofruição, que configura o estado vivencial de prazer e alegria como meta a ser alcançada pelo sujeito. (CAVALCANTI, 2008) O projeto surgiu de nossa preocupação com o modelo educacional tecnicista do colégio, que concebia o desenvolvimento humano, na visão da cultura do capital, contemplando apenas do desenvolvimento cognitivo. O Colégio Tupy faz parte do perímetro industrial de Joinville/SC, foi fundado em 1959 para atender a demanda qualificada técnica, da Tupy Fundições,

3 3 posteriormente atendendo os educandos da comunidade. O Colégio desenvolveu ao longo desses anos, uma cultura interna de imensa competição entre os estudantes na busca das melhores colocações no mercado de trabalho. Assim a falta de solidariedade, de cooperação e de respeito era comum entre os estudantes. Como professora de Biologia no colégio em 2004, ciente que na educação integral, deve existir a preocupação com o pensamento ecológico, nos deparávamos com realidades estanques, que não valorizavam e desconheciam a importância de se comungar os diferentes saberes. Ao planejar as atividades da disciplina, sempre refletia: Como o estudo da biologia poderia contribuir para o para o sentipensar autônomo dos alunos com relação cooperação de todos com a biodiversidade circundante? Como promover práticas educativas que não contemplassem apenas o desenvolvimento cognitivo, mas acima de tudo a evolução da consciência e o aperfeiçoamento do espírito, educando para a vida, para o aprender/conviver como sujeito co-construtor do seu meio como defende (MORAES, 2003)? Na época, através de contato com o Instituto Paulo Freire de São Paulo, muitas reflexões foram fomentadas principalmente sobre a prática educativo-progressiva em favor da autonomia do ser dos educandos. Além do mais, acreditava que ao possibilitar momentos de experiencialidade junto a natureza, através das mudanças dos espaços tradicionais de aprendizagem (ESPÍRITO SANTO, 1996), estaria promovendo a aprendizagem para o estar aqui no planeta (MORIN, 2000) assim como a construção do conhecimento transdisciplinar (MORAES, 2008). Ao ter no cotidiano escolar companheiros maravilhosos, trocamos muitas experiências e conhecimentos. Ouvimos as inquietações de estudantes e um grupo em especial, do curso de Automação Tecnológica, que cansados das aulas tecnicistas, clamavam por aulas vivas, em que o brincar e o fluir permeassem o processo educacional, contribuindo com a construção de um mundo mais cooperativo. Diante dessas provocações, viu-se a necessidade de criar um projeto que contemplasse essas questões discorridas, usando para isso a linguagem da natureza. Decidimos desenvolver um Projeto Ecopedagógico, chamado Acampamentos Transdisciplinares: Homens é que sóis, não máquinas, tendo como objetivo geral: favorecer a autoformação fomentando o processo de sentipensar autônomo e lúdico dos adolescentes com relação à cooperação e a responsabilidade ecossistêmica. Os objetivos específicos foram os seguintes:

4 4 1. Ampliar o autoconhecimento de si como co-responsável de seu meio; 2. Desenvolver sua auto-organização conceitual e atitudinal, refletindo o viver/conviver como cidadão participante; 3. Promover a autoterritorialidade, numa perspectiva de autopertencimento com o meio. Em conjunto com os professores, organizamos os conteúdos curriculares de forma entrelaçada com o foco principal: a ecoformação dos jovens e sua identidade planetária. Assim, articulamos com os 4 pilares (DELORS, 2005) os seguintes conteúdos: 1. Auto-organização conceitual de sua cidadania, como agente de transformação social no viver/conviver cooperativo em prol de sua comunidade. 2. Autoconsciência de sua responsabilidade nos estilos de vida auto-sustentáveis como integrante da biodiversidade circundante; 3. Autoterritorialidade, por meio de atividades que promovesse o sentimento de pertencimento com o meio. Por se tratar de jovens cheios de energia, buscamos criar metodologias que nos conduzissem a atingir os objetivos, afinal o acampamento seria em dois dias, num local da região de Joinville/SC, com infraestrutura de camping e inserido dentro de uma área de Mata Atlântica. Uma reunião de sensibilização no colégio era realizada para apresentarmos o projeto com os objetivos, o local, as atividades, o material necessário. Discutíamos as normas, distribuindo as responsabilidades de cada um ao longo do acampamento. Eram sorteados cinco grupos aleatoriamente, promovendo a socialização entre todos, tendo um professor como orientador para cada grupo. As refeições seriam preparadas, seguindo um cardápio pelos grupos em sistema de rodízio, assim como a organização da cozinha. Participariam de dinâmicas de grupo, atividades lúdicas e desportivas ao ar livre e do lual com roda de violão ao redor da fogueira, onde haveria a entrega de mensagem/surpresa dos pais e amigos para os estudantes. Apreciariam uma palestra com o Presidente da Associação de Maricultores da Vila da Glória, sobre a maricultura, ou seja, o cultivo de ostras e mariscos, seus benefícios sócio/econômicos para a comunidade e os impactos com a ação antrópica; Fariam trilhas diurnas na Mata Atlântica, com banhos de cachoeira e trilhas noturnas, se encontrando com a própria vida em cumplicidade e sintonia com a vida dos outros.

5 5 Estampariam através da serigrafia uma camiseta com a logomarca do projeto criado pelos estudantes e fariam o registro fotográfico dos momentos e paisagens que mais o tocaram no Acampamento para posterior exposição fotográfica e palestra no colégio. As ações dos jovens durante as atividades no acampamento manifestaram autosatisfação plena, orgulho em compartilhar os saberes em forma de vivências, evidenciando-se o saber-ser no planeta. Outras competências que também percebemos: a cooperação e co-participação, sentimento de empatia entre os participantes. Maturana e Varela (2001) nos permitem entender que esses processos autopoiéticos dos jovens manifestaram a inteireza humana singular de cada uma, na busca do saber-conviver e no saber-conhecer em sintonia solidária com o outro, como enfatiza Delors (2005). Essa empatia também era refletida aos professores que acompanhavam o processo. Avaliamos continuamente o projeto, buscando os ajustes necessários e após os acampamentos, observávamos florescer o espírito de companheirismo entre os participantes no meio escolar, com o desejo de se oportunizarem ecovivências nos momentos de lazer e agora com os novos amigos. Dentre os conceitos apontados por Morin (2000) e suas relações com o projeto apresentado, destacamos alguns dos macroconceitos que Moraes (2008) enfatiza como implícitos no pensamento ecossistêmico. São eles: autoeco-organização, complexidade, autonomia e emergência. A autoeco-organização traduz o autorrefazimento de cada jovem nas suas ações e produções revelam seus processos mentais e emocionais, suas relações no contexto em que vive, a singularidade auto-organizadora como ser co-construtor do meio. Os modos como aprendem, emergem desses processos reflexivos internos, na dinâmica dos seus entrelaçamentos com o meio. Suas ações e conceitos manifestam sua corporeidade, seus saberes encarnados, dentro das possibilidades e limites de sua estrutura autoorganizadora (MORAES, 2003). A educação nesse contexto tem papel fundamental, pois ao valorizar o percurso autobiográfico de cada um, da sua subjetividade, traduz escolhas e desejos que refletem na sua autonomia. A religação dos saberes é fundamental para a configuração de uma educação numa perspectiva transdiciplinar, poderemos reconstruir o complexo conhecimento ecológico e suas relações com o pessoal, o comunitário, o natural, o cósmico e o

6 6 espiritual. Dessa maneira, a educação precisa resgatar a humanidade dos seres humanos, para poder contribuir para uma verdadeira cidadania planetária. Assim sendo, acreditamos que a educação ecopedagógica firmada a partir desses princípios, pode promover a autoeco-organização incessante dos estudantes, em prol de um aprender/conviver para a vida e para a paz, afinal, Homens é que sóis, não máquinas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAPRA, Fritjof. Alfabetização Ecológica - A educação das crianças para um mundo sustentável. São Paulo: Cultrix, CAVALCANTI, Katia Brandão. Corporeidade, Sensibilidade e Transdisciplinaridade: o desafio ludopoiético como obra de arte da vida. Palestra proferida no III Congresso Internacional Transdisciplinaridade, Complexidade e Ecoformação, Brasília, DELORS, Jacques (Coord.). Os quatro pilares da educação. In: Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar do. Pedagogia da Transgressão: um caminho para o autoconhecimento. Campinas: Papirus, 1996, p 17. GADOTTI, Moacir. A Ecopedagogia como pedagogia apropriada ao processo da Carta da Terra..http://www.ufmt.br/revista/arquivo/rev21/moacir_gadotti.htm Acesso em junho de 25 de MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. A árvore do conhecimento. As bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, De máquinas a seres vivos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997 MORAES. Maria Cândida Educar na biologia do amor e da solidariedade Petrópolis, RJ: Editora Vozes, Sentipensar: Fundamentos e estratégias para reencantar a educação. Petrópolis: Vozes, Ecologia dos saberes: complexidade, transdisciplinaridade e educação. Novos fundamentos para iluminar novas práticas educacionais. São Paulo: amatakarana/whh Willis Harman House, MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do futuro. Tradução: Catarina Eleonora F. da Silva; Jeanne Sawaya. 2. ed. São Paulo: Cortez, A Religação dos Saberes. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 3ª. ed., 2002.

7 . O método 5: a humanidade da humanidade. Tradução Juremir Machado da Silva. 4ª edição, Porto Alegre: Sulina,

8 8 ACAMPAMENTOS TRANSDISCIPLINARES: HOMENS É QUE SÓIS, NÃO MÁQUINAS Ms. Luciane Schulz PPGEd/CCSA /UFRN INTRODUÇÃO Relato de uma experiência do Projeto Ecopedagógico de Acampamento, com adolescentes do Ensino Médio/Técnico de Joinville/SC. As ações receberam as contribuições dos estudos da Ecopedagogia de Gadotti, da Pedagogia da Transgressão de Espírito Santo e nos 4 Pilares da Educação de Delors. Nossa análise interpretativa se fundamentou no Pensamento Ecossistêmico indicado por Morin e Moraes, na Autopoiese de Maturana e Varela e nos estudos da BACOR/PPGEd/UFRN. CONTEXTO DO PROJETO Período: novembro de 2004 a dezembro de Local: Colégio Tupy Joinville/SC, fundado em 1959 para atender a demanda qualificada técnica, da Tupy Fundições, desenvolvendo ao longo desses anos, uma cultura interna de imensa competição entre os estudantes na busca das melhores colocações no mercado de trabalho. Assim a falta de solidariedade, de cooperação e de respeito era comum entre os estudantes. Público Alvo: 48 adolescentes crianças de 16 a 17 anos (Fig.1) ESTRATÉGIAS UTILIZADAS - Reunião de sensibilização; - Divisão de equipes; - Preparo das refeições(fig.4); - Dinâmicas e atividades lúdicas e desportivas; - Palestra maricultura(fig.5); - Trilhas diurnas e noturnas (fig.6); - Banhos de mar e cachoeira; - Serigrafia(fig.7); - Apresentação no retorno. Fig.4 Preparo alimentos Fig. 5 Aula de maricultura Fig. 6 Trihas Fig. 7 - Serigrafia Fig. 1 Adolescentes participantes do Ecoprojeto Saber: focalizamos especialmente o Saber IV Ensinar a identidade terrena, pois o consideramos chave nas ações educacionais do Projeto em questão. Objetivo geral: favorecer a autoformação fomentando o processo de sentipensar autônomo e lúdico dos adolescentes com relação a cooperação e a responsabilidade ecossistêmica. Objetivos específicos: 1.Ampliar o autoconhecimento de si como co-responsável de seu meio; 2.Desenvolver sua auto-organização conceitual e atitudinal, refletindo o viver/conviver como cidadão participante; 3.Promover a autoterritorialidade, numa perspectiva de autopertencimento com o meio. CONTEÚDOS CURRICULARES 1.Autoterritorialidade, por meio de atividades que promovesse o sentimento de pertencimento com o meio.(fig2) 2.Auto-organização conceitual de sua cidadania, como agente de transformação social no viver/conviver cooperativo em prol de sua comunidade (fig.3). 3. Autoconsciência de sua responsabilidade nos estilos de vida auto-sustentáveis como integrante da biodiversidade circundante; Fig. 2 autoterritorialidade Fig.3 saber ser saber conviver AVALIAÇÃO Avaliamos continuamente o projeto, buscando os ajustes necessários e após os acampamentos, observávamos florescer o espírito de companheirismo entre os participantes no meio escolar, com o desejo de se oportunizarem ecovivências nos momentos de lazer e agora com os novos amigos. CONSIDERAÇÕES SOBRE OS SETE SABERES - autoeco-organização, - complexidade, - autonomia e emergência. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAVALCANTI, Katia Brandão. Corporeidade, Sensibilidade e Transdisciplinaridade: o desafio ludopoiético como obra de arte da vida. Palestra proferida no III Congresso Internacional Transdisciplinaridade, Complexidade e Ecoformação, Brasília, DELORS, Jacques (Coord.). Os quatro pilares da educação. In: Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortezo, ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar do. Pedagogia da Transgressão: um caminho para o autoconhecimento. Campinas: Papirus, 1996, p 17. GADOTTI, Moacir. A Ecopedagogia como pedagogia apropriada ao processo da Carta da Terra..http://www.ufmt.br/revista/arquivo/rev21/moacir_gadotti.htm Acesso em junho de 25 de MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. A árvore do conhecimento. As bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, MORAES. Maria Cândida. Ecologia dos saberes: complexidade, transdisciplinaridade e educação. Novos fundamentos para iluminar novas praticas educacionais. São Paulo: amatakarana/whh Willis Harman House, MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do futuro. Tradução: Catarina Eleonora F. da Silva; Jeanne Sawaya. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

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