Resenha sobre o capítulo II Concepção e Organização da pesquisa do livro Metodologia da Pesquisa-ação

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1 Resenha sobre o capítulo II Concepção e Organização da pesquisa do livro Metodologia da Pesquisa-ação Felipe Schadt 1 O presente capítulo 2 é parte integrante do livro Metodologia da Pesquisa-ação, do professor Michel Jean Marie Thiollent. O livro se dispõe a discutir, definir e defender o conceito de pesquisa-ação, deixando para o capítulo - resenhado - a incumbência de propor um caminho metodológico que o pesquisador, a fim de se utilizar desse recurso em suas pesquisas, deva perseguir. O objetivo do capítulo é abordar uma série de itens referentes à organização e à concepção da pesquisa. Trata-se de apresentar um roteiro que, naturalmente, não deve ser visto como sendo exaustivo ou como o único possível. 3 Nesse roteiro, o autor vai seguir pelos seguintes itens, que são, segundo Thiollent, sequenciais e obedientes à uma ordem temporal: A fase exploratória; o tema de pesquisa; a colocação do problema; o lugar da teoria; hipóteses; seminário; campo de observação, amostragem e representatividade qualitativa; coleta de dados; aprendizagem; saber formal e saber informal; plano de ação e divulgação externa. Mesmo com essa sequência apresentada pelo professor, ela, sendo o mesmo, não significa um mapa a ser seguido passo a passo. Thiollent sugere que exista um ponto de partida e um ponto de chegada e que, dependendo de cada processo, a ordem das ações poderá sofrer mudanças decorrentes às circunstâncias. Fase Exploratória Como o próprio título sugere, é a fase em que o pesquisador busca explorar o campo de pesquisa, fazendo um levantamento dos problemas prioritários, os agentes envolvidos e um primeiro diagnóstico. A sequência é entender a disponibilidade do campo a ser pesquisado com a intervenção dos pesquisadores. Thiollent explica: Trata-se de detectar apoios e resistências, convergências e divergências, posições otimistas e céticas, etc. Com o balanço destes aspectos, o estudo de viabilidade permite aos pesquisadores tomarem a decisão e aceitarem o 1 Jornalista formado pela Faculdade Campo Limpo Paulista, com especialização em História, Sociedade e Cultura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor de Técnicas em Rádio e TV no curso de comunicação social da Faculdade Campo Limpo Paulista, coordenador do projeto O Jornaleiro, membro da Associação Brasileira de Pesquisadores de Educomunicação e aluno do curso de pós-graduação lato-sensu em Educomunicação pela Escola de Comunicação e artes da USP. 2 THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 1986, pp Ibid., p. 47.

2 desafio da pesquisa sem criar falsas expectativas. Além do mais, é necessário conceber o lançamento da pesquisa com a habilidade necessária para sua aceitação por parte dos interessados e, eventualmente, das instituições financiadoras. Uma vez resolvidos esses problemas - o que nem sempre é fácil - a pesquisa poderá começar. 4 O autor chama a atenção para a questão do diagnóstico. Segundo ele é preciso tomar cuidado com esse termo que, embora muito utilizado em pesquisa-ação, tem origens em campos sociais que sugerem que a metodologia do diagnóstico sempre focaliza no que falta. Para tentar esclarecer, Thiollent dialoga com os autores Sales, Ferro e Carvalho - autores do artigo Metodologia deaprendizagem da participação e organização de pequenos produtores. 5 -, que entendem que o modo tradicional de diagnostica; exerce profundas distorções: o processo de conhecimento é reduz1do a uma coleta de dados na qual os produtores são meros informantes. O autor sugere que reequacionemos a metodologia do diagnóstico para considerar que os participantes e pesquisadores estabeleçam, conjuntamente, os principais objetivos do trabalho a ser realizado, através do levantamento de todas as informações iniciais. Os objetivos do trabalho, por sua vez, dizem respeito aos problemas considerados como prioritários, ao campo de observação, aos atores e ao tipo de ação que estarão focalizados no processo de investigação. 6 O Tema da Pesquisa Sem muito mistério, o tema de pesquisa sugere a designação de um problema prático que será abordado. O autor trabalha com o seguinte exemplo: Podemos imaginar uma pesquisa sobre ó tema: os acidentes de trabalho na indústria metalúrgica. Este tema é imediatamente associado ao problema pratico: como reduzir os acidentes? O tema pode ser definido em termos concretos como relacionado a um campo bem delimitado, por exemplo, acidentes com prensas na companhia X, ou, ao contrário, ser defm1do de modo mais conceitual: estrutura de riscos numa relação homem-máquina. 7 O autor apresenta duas maneiras de formular o problema de pesquisa. A primeira é a descritiva e a segunda é a normativa. Na pesquisa-ação agir é obrigatoriamente orientado em função de uma norma, que por sua vez diz respeito a uma melhoria que quer estabelecer, supondo um ideal em comparação ao que quer ser transformado. 4 THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 1986, p In: Cadernos CEDES, 12: Cortez-Cedes, THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 1986, p Idem.

3 Na pesquisa-ação, o caráter normativo das propostas é explicitamente reconhecido. As normas ou critérios das transformações imaginadas são progressivamente definidas. Na prática, as normas de ação dão lugar, algumas vezes, a negociações entre as diversas categorias de participantes. 8 Porém, na pesquisa-ação, Thiollent defende que a criação do tema de pesquisa deve ser feito a partir do conhecimento concebido pelos anseios do grupo pesquisado. Em geral o tema é escolhido em função de um certo tipo de compromisso entre a equipe de pesquisadores e os elementos ativos da situação a ser investigada. 9 Após a escolha do tema e dos problemas a serem pesquisados, o pesquisador deve rumar para o levantamento teórico e referencial que, por sua vez, lhe dará todo aporte necessário para lidar com a pesquisa. A Colocação dos Problemas O passo seguinte sugerido pelo autor é na delimitação dos problemas a serem pesquisados dentro de uma problemática pré-estabelecida na qual a pesquisa será desencadeada. Em outras palavras, encontrar uma problemática na qual o tema ganhe sentido. Em linhas gerais, uma problemática pode ser considerada como a colocação dos problemas que se pretende resolver dentro de um certo campo teórico e prático. 10 O Lugar da Teoria O texto segue explicando o importante papel que a teoria tem para a pesquisaação, mesmo que ela seja vista no campo científico como empirista da pesquisa social na qual poderia gerar algumas implicações teóricas. Thiollent entende que podemos considerar que o projeto de pesquisa-ação precisa ser articulado dentro de uma problemática com um quadro de referência teórica adaptado. 11 Logo o papel da teoria consiste em gerar ideias, hipóteses ou diretrizes para orientar a pesquisa e as interpretações. 12 Hipóteses O autor sugere no texto que, na pesquisa-ação, as hipóteses devem ser construídas no decorrer do processo de pesquisa onde vários fatores são colocados em conta, como o quadro teórico que elas estão baseadas, o quadro referencial cultural dos participantes, 8 THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 1986, p Ibid., p Ibid., p Ibid., p Idem.

4 os insights imprevisíveis que surgem durante a prática e/ou discussão coletiva sobre determinado problema etc. 13 Thiollent define hipóteses como suposições do pesquisador referente a possíveis soluções dos problemas colocados na pesquisa. A hipótese desempenha um importante papel na organização da pesquisa: a partir da sua formulação, o pesquisador identifica as informações necessárias, evita dispersão, focaliza determinados segmentos do campo de observação, seleciona os dados, etc. 14 Seminário O texto sugere a criação de uma seminário com os principais agentes envolvidos no processo para delimitar os rumos da pesquisa. O autor vai indicar oito tarefas do seminário, sendo elas: 1. Definir o tema e equacionar os problemas para os quais a pesquisa foi solicitada. 2. Elaborar a problemática na qual serão tratados os problemas e as correspondentes hipóteses de pesquisa. 3. Constituir os grupos de estudos e equipes de pesquisa. Coordenar suas atividades. 4. Centralizar as informações provenientes das diversas fontes e grupos. 5. Elaborar as interpretações. 6. Buscar soluções e definir diretrizes de ação. 7. Acompanhar e avaliar as ações. 8. Divulgar os resultados pelos canais apropriados. Campo de Observação, Amostragem e Representatividade Qualitativa O autor aponta uma discussão interessante quando o campo de observação e delimitado, em que o mesmo é muito grande. Isso porque essa decisão coloca em pauta a amostragem e a representatividade. Percebemos no texto uma certa controvérsia quando o assunto é a construção da amostra para a observação de uma parte representativa do conjunto da população considerada na pesquisa-ação, em que várias posições são expostas. A primeira exclui a pesquisa por amostra. Seus partidários consideram que, para exercer um efeito conscientizador e de mobilização em torno de uma 13 THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 1986, p Ibid., p. 56.

5 ação coletiva, a pesquisa deve abranger o conjunto da população que será consultada sob forma de questionários ou de discussões em grupos. 15 Mas vale lembrar que essa postura só é viável e pertinente quando o campo observável é pequeno e limitado, sendo impossível fazer isso, por exemplo, em uma cidade grande. Thiollent ainda reforça a ideia de que esse tipo de ação deve ser compatível à carga de trabalho dos pesquisadores. A segunda posição, por sua vez, recomenda o uso da amostragem: De acordo com a concepção da sondagem, a pesquisa é efetuada dentro de um pequeno número de unidades (pessoas ou outras) que é estatisticamente representativo do conjunto da população. A determinação do tamanho da amostra, o controle de sua representatividade e o cálculo da confiabilidade são realizados a partir de regras estatísticas. Na concepção da pesquisa-ação, este procedimento apresenta o inconveniente de não permitir efeitos de conscientização. As unidades são escolhidas aleatoriamente e são mantidas em isolamento. De fato, se acontecer alguma forma de conscientização entre os indivíduos de uma amostra, isto normalmente não incide sobre a população global. Os partidários da pesquisa-ação resolvem este problema por meio da difusão de informações: a grande maioria da população sabe que uma pesquisa é realizada por meio de informações em diversos canais de comunicação formais ou informais. As ações são também divulgadas e dão lugar a operações de popularização. 16 Por fim, uma terceira posição vai valorizar os critérios de representatividade qualitativa. O texto sugere que: Na prática da pesquisa social, a representatividade dos grupos investigados se dá por critérios quantitativos (amostragem estaticamente controlada) e por critérios qualitativos (interpretativa ou argumentativamente controlados). Mesmo em pesquisa convencional, ao planejarem amostras de pessoas a serem entrevistadas com alguma profundidade, os pesquisadores costumam recorrer às chamadas "amostras intencionais". Trata-se de um pequeno número de pessoas que são escolhidas intencionalmente em função da relevância que elas apresentam em relação a um determinado assunto. Este princípio é sistematicamente aplicado no caso da pesquisa-ação. Pessoas ou grupos são escolhidos em função de sua representatividade social dentro da situação considerada. 17 Coleta de Dados Nesse item, o autor sugere algumas técnicas de coleta de dados, como entrevistas coletivas, controle estatístico, aplicação de questionários, técnicas antropológicas - observação, diário de campo, etc. -, técnicas de grupo capazes de reproduzir situações do cotidiano dos agentes envolvidos, entre outras. Contudo, Thiollant explica que sejam quais forem as técnicas utilizadas, os grupos de observação compostos de pesquisadores e de participantes comuns procuram 15 THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 1986, p Ibid., p Ibid., p. 63

6 a informação que é julgada necessária para o andamento da pesquisa, respondendo a solicitações do seminário central. 18 Aprendizagem Segundo Thiollent, na pesquisa-ação uma capacidade de aprendizagem é associada ao processo de investigação. Isto pode ser pensado no contexto das pesquisas em educação, 19 pois nesse processo, os envolvidos sempre se utilizam da comunicação e da informação para gerar e orientar as ações do projeto. Esse item nos sugere que a pesquisa-ação gerará, no processo da pesquisa, um envolvimento dos agentes participantes - não entendidos como objetos de estudo, mas como participantes do estudo - na construção do conhecimento a ser referendado pelos pesquisadores. Essa troca gerará aprendizagem. Saber Formal/Saber Informal Nessa parte do texto, o autor tenta explicar a diferença entre o saber formal e o saber informal, além de suas interferências dentro da pesquisa, em que o primeiro se remete ao saber do, chamado pelo autor de, especialista (pesquisador) e o segundo está ligado ao saber do participante. Enquanto o primeiro tem o todo conhecimento científico que ele se dispôs a adquirir sobre o problema que sua pesquisa está debruçada, o segundo tem o conhecimento da vivência e experiência diante do mesmo problema. Thiollent sugere que haja um relacionamento harmonioso entre esses dois tipos de conhecimento. Essa busca pela harmonia pode se dar, segundo o texto, através de uma descrição dos problemas na ótica dos participantes. Essa descrição dará lugar a uma lista de temas. Da mesma forma, os pesquisadores farão a mesma descrição e a mesma lista de temas, criando sua própria temática. O autor explica que: A técnica da comparação das temáticas pode ser aplicada ao nível de pequenos grupos de estudos com participação de pesquisadores e membros da população considerada. Também é possível recorrer a questionários a serem aplicados a um maior número de pessoas, ou a uma amostra representativa. 20 Porém, o texto também ressalta, ao final desse item, que essa técnica de comparação de temáticas não poderá resolver todos os problemas referentes à relação 18 THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 1986, p Ibid., p Ibid., p. 69.

7 entre saber formal e informal. O autor deixa claro que essa técnica é apenas um ponto de partida que visa mapear esses dois universos em busca de uma incompreensão. Plano de Ação Talvez o item mais importante de um trabalho baseado em pesquisa-ação, o plano de ação se faz fundamental para a solidificação do procedimento metodológico. A elaboração de um plano de ação, segundo Thiollent, consiste em definir com precisão alguns aspectos: 1. Quem são os atores e unidades de intervenção? 2. Como se relacionam os atores e as instituições: convergência, atrito conflito aberto? 3. Quem toma as decisões? 4. Quais são os objetivos (ou metas) tangíveis da ação e os critérios de sua avaliação? 5. Como dar continuidade à ação apesar das dificuldades? 6. Como assegurar a participação da população e incorporar suas sugestões? 7. Como controlar o conjunto do processo e avaliar os resultados? É preciso entender que entender e se guiar por esse plano de ação nos possibilitou a compreensão de que toda a pesquisa gira em torno do agente atuante, cabendo aos pesquisadores a condição de assessor, mesmo que em alguns momentos - e esses momentos são possíveis de acontecerem - os pesquisadores precisem assumir algumas responsabilidades para o andamento do projeto. Divulgação Externa Por fim, o texto sugere que haja uma divulgação externa dos resultados da pesquisa, além, é claro, da divulgação interna aos agentes participantes, como uma maneira de mostrar o que resultou todo o trabalho realizado. Porém, segundo o autor, é importante que essa divulgação seja feita de comum acordo entre pesquisadores e participantes, além da pertinência dos canais e meios no qual ocorrerá a divulgação. Thiollent conclui que: parece-nos desejável haver um ritmo da informação entre os participantes que conversaram, participaram, investigaram, agiram, etc. Este retorno visa promover uma visão de conjunto. É difícil imaginar que um indivíduo que esteja participando do processo tenha espontaneamente acesso ao conjunto. Os canais de divulgação, sobretudo os informais, são aproveitados para fortalecer a tomada de consciência do conjunto da população interessada (não limitada aos participantes efetivos). A tomada de consciência se desenvolve

8 quando as pessoas descobrem que outras pessoas ou outros grupos vivem mais ou menos a mesma situação THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. 2ª Ed. São Paulo: Cortez, 1986, p. 72.

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