efeito de muitos impasses, tanto na metrópole paulistana como em muitas outras cidades brasileiras.

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1 1. Introdução Pretende-se fazer aqui, uma leitura da metrópole brasileira do início do século XXI, destacando a relação entre desigualdade social, segregação territorial e meio ambiente, tendo como pano de fundo a formação da própria sociedade marcada, inexoravelmente, pelo desenvolvimento do atraso (MARICATO, 2003:151). O processo de produção do espaço vem apresentando novas dinâmicas, muitas delas promovidas pela atual reestruturação do capitalismo, na qual as metrópoles se expandem territorialmente, assumem hegemonia maior e se hierarquizam globalmente. Essa realidade coloca novas questões sobre o processo de urbanização, sobre a relação entre o urbano e o regional e, principalmente, sobre como enfrentar o desafio de se buscar caminhos que permitam conduzir a uma gestão democrática das cidades. A relação mercado e exclusão social se mostra mais evidente nas regiões metropolitanas, sobremaneira nas áreas rejeitadas pelo mercado imobiliário ou públicas, onde a vigência de legislação de proteção e ausência de fiscalização define a desvalorização (MARICATO, 2003:154). No Brasil, um dos principais instrumentos de consolidação do planejamento é através das operações urbanas que nada mais são que um conjunto integrado de intervenções e medidas a ser coordenado pelo Poder Público, com a participação de recursos da iniciativa privada (DIÁRIO OFICIAL DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, 1991 apud. SOUZA, 2011: 275). Porém, a experiência mostra o quanto esse instrumento pode ser útil ao capital imobiliário, pois conforme Lúcio Kowarick (1993) afirmou, pela acumulação e a especulação andarem juntas, a localização da classe trabalhadora passou a seguir os fluxos dos interesses imobiliários, tendo só tardiamente o poder público se munido de instrumentos legais para tentar ordenar o uso e a ocupação do solo. Entretanto, muitas vezes os investimentos públicos vieram colocar-se a serviço da dinâmica da valorização-especulação do sistema imobiliário-construtor. Esse trabalho, tomando como estudo de caso a criação do Parque Linear do Tietê e seus desdobramentos, buscou compreender o chamado problema habitacional, causa e 10

2 efeito de muitos impasses, tanto na metrópole paulistana como em muitas outras cidades brasileiras. O parque Linear é uma medida compensatória em virtude dos danos ambientais causados pela ampliação da Marginal Tietê. No local onde se instalará o referido Parque está localizada a Várzea do Rio Tietê, onde residem aproximadamente famílias ameaçadas de despejo e desinformadas com relação ao destino de suas casas. Figura 1 Projeto do Parque Linear Fonte - Acessada em 26/03/1990 O acesso à moradia legal e à cidade exige a superação de obstáculos, sendo mais exatamente, a relação entre terra (urbanizada), financiamento, subsídios, Estado e mercado. Para Ermínia Maricato (2003), esse será o grande desafio da política urbana nas primeiras décadas do século XXI, ao lado do saneamento e do transporte de massa. (MARICATO, 2003:163). Apesar de as políticas urbanas e o planejamento no Brasil reconhecerem a problemática habitacional existente, sempre privilegiaram medidas de embelezamento urbanístico e a criação de infraestruturas que favorecessem a atuação do capital imobiliário, bem como privilegiasse uma minoria. O direito constitucional do acesso à moradia para todo cidadão, acaba tornando-se uma falácia, pois a lei vigente não é cumprida como deveria. 11

3 Desta forma, cabe analisar os impactos que os problemas sociais, a carência de infraestruturas, a densificação de áreas periféricas e inadequadas a ocupação, a segregação socioespacial e a degradação ambiental e de vida causam no espaço urbano para assim propor soluções. A partir do aprofundamento da reflexão em torno desses problemas na cidade e, considerando a lógica da produção do espaço urbano, a pesquisa aqui apresentada pretende averiguar as possibilidades das políticas públicas urbanas mudarem seu curso, voltando-se definitivamente para a promoção da melhoria da qualidade ambiental e de vida da população. 2. OBJETIVOS a. Objetivo geral: O presente trabalho tem como objetivo analisar as políticas urbanas e de habitação no país, discutindo a dualidade existente entre o planejamento urbano e as questões de moradia. E, para isso, tomaram-se como estudo de caso as recentes intervenções urbanas ocorridas na Região Metropolitana de São Paulo, principalmente o Parque Linear do Tietê. b. Objetivos específicos: Debater se o Parque Linear é uma medida compensatória eficaz à ampliação da Marginal Tietê; Analisar historicamente a Zona Leste de São Paulo; Questionar projetos que visem somente à sustentabilidade urbana; Discutir políticas públicas de urbanização que priorizem as condições sociais e ambientais, e não apenas os interesses econômicos; Apresentar propostas para uma reforma nas políticas urbanas brasileiras que viabilizem a solução dos problemas de uso e ocupação do solo e habitação. 12

4 3. JUSTIFICATIVA O governo brasileiro ao longo dos anos não formulou diretrizes que impedissem que o adensamento urbano ocorresse de forma caótica. A aprovação de projetos de ampliação de vias com grandes áreas impermeabilizadas, não levaram em consideração o impacto desses empreendimentos na macrodrenagem, provocando a sobrecarga do sistema hídrico. Assim, frequentemente, há necessidade de serem feitas canalizações, pontes, e medidas compensatórias como o Parque Linear, a fim de comportar os aumentos de vazão. Diante da problemática encontrada na área de estudo buscou-se uma visão mais imparcial e acadêmica da questão, um parecer que consiga conciliar as propostas do Estado com as necessidades dos moradores. Acreditando, que assim, esses problemas possam ser mais bem geridos pela administração pública, a presente pesquisa propôs-se a gerar conhecimentos para aplicação prática, que pudessem ser aproveitados e discutidos posteriormente. Nos últimos anos temos assistido a uma mudança de visão do poder público, através de novas formas de gestão, preocupadas com o discurso ambientalista, mas que ainda não conseguem solucionar ou amenizar a problemática social, uma vez que a segregação socioespacial permanece. O trabalho apresenta desta maneira, relevância tanto para as questões teórico-metodológicas nas áreas de Geografia Urbana e Planejamento Urbano, quanto práticas, uma vez que se analisando o Parque Linear Várzeas do Tietê e as comunidades atingidas pela sua criação, poder-se-á dar melhor suporte aos interesses políticos, sociais e ambientais que se evidenciam na área. Porém, antagonicamente, formas de planejamento do passado, marcadas por uma visão desenvolvimentista, de caráter rodoviarista, continuam sendo usadas como no caso da ampliação da Marginal Tietê em São Paulo. O discurso ambientalista do governo então, se trata muito mais de uma tentativa pouco eficiente para legitimar uma operação do que propriamente uma obra de real preocupação ambiental. Daí, a importância de se discutir essas mudanças atualmente. Portanto, se espera que as informações levantadas através desse estudo de caso, associadas aos demais dados obtidos, possam contribuir efetivamente para uma melhor gestão das áreas circundantes do Parque e desta forma, melhorar a qualidade de vida 13

5 não só da comunidade local, mas também de muitos habitantes da Região Metropolitana de São Paulo. 4. Metodologia A pesquisa apresenta uma abordagem qualitativa focada no Método Dialético, tendo como embasamento teórico a Geografia Crítica, que considera a cidade como produto e condição das relações sociais. Assim, o problema habitacional será fruto da desigualdade entre as classes e também a sua causa. A pesquisa constitui-se como um estudo de caso, caracterizado pelo estudo do Parque Linear e das comunidades atingidas devido a sua criação. Entretanto, os conhecimentos já disponíveis sobre o assunto são insuficientes para a explicação do fenômeno, levando à necessidade de se discutir a problemática contextualizada atualmente. O método de abordagem desse trabalho baseia-se na proposta de Henri Lefebvre, quem acredita que, o uso (o valor do uso) dos lugares, dos monumentos, das diferenças, escapa às exigências da troca, do valor de troca. É um grande jogo que se está realizando sob os nossos olhos, com episódios diversos cujo sentido nem sempre aparece. A satisfação de necessidades elementares não consegue matar a insatisfação dos desejos fundamentais (ou do desejo fundamental). Ao mesmo tempo em que lugar de encontros, convergência das comunicações e das informações, o urbano se torna aquilo que ele sempre foi: lugar do desejo, desequilíbrio permanente, sede da dissolução das normalidades e coações, momento do lúdico e do imprevisível. Este momento vai até a implosão-explosão das violências latentes sob as terríveis coações de uma racionalidade que se identifica com o absurdo. Desta situação nasce a contradição crítica: tendência para a destruição da cidade, tendência para a intensificação do urbano e da problemática urbana. (LEFEBVRE, 2006:79) 14

6 Esse estudo dividiu-se em quatro etapas, sendo: a FASE 1, a qual envolveu a obtenção de dados secundários advindos de levantamento bibliográfico (livros, teses, artigos de periódicos e material disponível na Internet), bem como aquisição de fotografias aéreas e mapas digitais para se conseguir um retrato pertinente da realidade em questão. Na FASE 2 buscando-se conseguir um retrato detalhado do que será o Parque Linear Várzeas do Tietê e seu entorno, realizou-se um trabalho de campo. Nele, as características geomorfológicas e hidrológicas da área ficaram mais bem compreendidas, assim como os aspectos sociais e políticos, abarcadas por meio de entrevistas. Na terceira etapa foi feita a análise dos dados levantados, os quais poderão subsidiar o planejamento e o uso adequado da região a partir da identificação das áreas vulneráveis e/ou adequadas à ocupação humana. Refletirão, também, a dinâmica ocupacional da área, evidenciando a composição de ambientes de maior criticidade. E, por fim, com a redação final, apresentaram-se os resultados e conclusões conseguidos nesse estudo. Todas essas etapas podem ser mais bem compreendidas no fluxograma a seguir: 15

7 FLUXOGRAMA DADOS SECUNDÁRIOS: FASE 1 LEVANTAMENTO DE DADOS BÁSICOS - Levantamento bibliográfico; - Levantamento cartográfico; - Utilização do Google Earth. VISITA A ÁREA DE CRIAÇÃO DO PARQUE: FASE 2 TRABALHO DE CAMPO - Conhecimento da realidade sociocultural e política; - Apreciação das características geomorfológicas e hidrológicas; - Análise da política urbana no Brasil; FASE 3 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS - Análise da dualidade existente entre planejamento e política habitacional; - Análise final dos prós e contras da criação do Parque, considerando-se vários aspectos. FASE 4 Redação Final 5. Revisão Bibliográfica a. As metrópoles globais As cidades globais se constituem espaços estratégicos para a crescente internacionalização dos fluxos de bens, serviços e informações, dando origem a uma rede mundial de metrópoles onde são geradas decisões financeiras e mercadológicas capazes de definir estratégias para os acontecimentos mundiais. 16

8 As metrópoles globais comandam o território pelas multinacionais instaladas nestas produzirem e coordenarem informações estratégicas, não encontradas tão facilmente e com a mesma densidade em outros lugares da rede de cidades. Assim, uma cidade como São Paulo tem seu papel hegemônico subordinado aos interesses das corporações globais, mas também contribui para implantar práticas e influenciar na formação socioespacial. A modernidade incompleta conhecida pelos países em desenvolvimento gera antagonismos imensos na vida social. Criam-se na metrópole múltiplos lugares diferenciados: aqueles do interesse hegemônico, junto às redes, com insistentes processos de modernização, chamados por Milton Santos de espaços luminosos, e os lugares dos pobres, intensivamente permeando os primeiros, denominados por Santos de espaços opacos. Ou seja, essas novas formas, características do final do século XX, são descritas por Roberto Schwarz como um aspecto da impossibilidade crescente para os países atrasados, de se incorporarem enquanto nações e de modo socialmente coeso ao progresso do capitalismo (FIX, 2007:159). E isso, faz com que o conceito de cidade global ganhe status de mito. Pois, conforme Mariana Fix afirmou, certas cidades semiperiféricas como São Paulo, que tem vocação para serem globais, na prática funcionam apenas como facilitadoras da penetração do capital estrangeiro nas suas várias formas (FIX, 2007: 166). Cria-se, assim, uma nova paisagem de poder e dinheiro que mobilizam Estado e capital privado nacional, os quais caminham no sentido de transformar a cidade em uma espécie de título financeiro (FIX, 2007: 168). b. Políticas de Planejamento Urbano e Habitacional O planejamento pode ser definido como: o processo de escolher um conjunto de ações consideradas as mais adequadas para conduzir a situação atual na direção dos objetivos desejados (SABOYA, 2008). Assim, se planejar é sinônimo de conduzir conscientemente, não existirá então alternativa ao planejamento. Ou planejamos, ou somos escravos da circunstância. Negar 17

9 o planejamento é negar a possibilidade de escolher o futuro, é aceita-lo seja ele qual for (MATUS, 1976 apud. SOUZA, 2011: 47). Desta forma, esse trabalho tem o propósito de analisar as políticas de planejamento urbano que estão ocorrendo recentemente no município de São Paulo, e, além disso, alertar para o fato de que os erros do passado continuam a se repetir e, somente com uma gestão democrática da cidade, o planejamento urbano poderá ser uma política socialmente justa. O processo de urbanização como produto da produção industrial, que é pautada na divisão de classes, tem como característica a existência de desigualdades entre a população, gerando exclusão social e problemas urbanos, como a especulação imobiliária e a segregação socioespacial. Nas cidades capitalistas a ocupação de determinadas áreas se pautará nos seus aspectos de atração ou repulsão para à população, sendo que as primeiras tem boa infraestrutura e a segunda não. Entretanto, somente a população com maior poder aquisitivo é capaz de escolher onde morar, pois as áreas melhor estruturadas estão atreladas aos altos preços impostos pelo mercado imobiliário. Portanto, as áreas relegadas ou inadequadas à habitação são ocupadas pelas classes trabalhadoras. O poder público, sendo um dos principais agentes urbanos, não atua de forma uniforme ao produzir a cidade. Pois, conforme se pode perceber, a estrutura urbana apresenta uma heterogeneidade em seus equipamentos, favorecendo a segregação socioespacial, bem como as políticas sociais, muitas vezes, não promovem melhorias à população menos abastada. Isso fica evidente nessa colocação de Santos (1994), quem avalia que: O poder público, entretanto, não age apenas de forma indireta. Ele também atua de forma direta na geração de problemas urbanos, ainda que prometendo resolvêlos (SANTOS apud COMITRE e ORTIZOGA, 2010:5). É possível entender a atuação do poder público como fomentador da segregação socioespacial na cidade, pois, A produção da cidade segregada, a privatização do espaço público e a frequente submissão dos governos aos interesses do grande capital têm levado à ocorrência de graves problemas socioespaciais, prejudicando sobremaneira os interesses dos cidadãos e levando-os à perda da qualidade de 18

10 vida (ORTIGOZA, 2009 apud COMITRE e ORTIZOGA, 2010:6). Antes das décadas de 1980 e 1990, a inserção social nas relações capitalistas era difícil e muito trabalhador excluído do mercado imobiliário privado buscou as ocupações irregulares, como os loteamentos clandestinos e as favelas, como forma de moradia. Trata-se do produtivo excluído, resultado da industrialização com baixos salários. [...] A produção do ambiente construído e, em especial o ambiente urbano, escancara a simbiose entre modernização e desenvolvimento do atraso. Padrões modernistas detalhados de construção e ocupação do solo convivem com a gigantesca cidade ilegal onde a contravenção é regra (MARICATO, 2003:153). Com a expansão das periferias urbanas, principalmente a partir dos anos 80, estas passaram a ter um caráter marcado por imensas regiões onde a pobreza é homogeneamente disseminada. A segregação ambiental é uma das faces mais importantes da desigualdade social e parte promotora da mesma. À dificuldade de acesso aos serviços e infraestrutura urbanos somam-se menos oportunidades. Segundo Pedro Demo, a caracterização da pobreza a partir de números obscurece o cerne político da pobreza. Ser pobre não é apenas não ter, mas, sobretudo ser impedido de ter, o que aponta muito mais para uma questão de ser do que de ter (Demo, 1993, p. 2 apud MARICATO, 2003:153). A tolerância que o Estado tem demonstrado em relação às ocupações ilegais de terra urbana é extremamente preocupante, pois têm trazido graves consequências as cidades, como se pode notar quando se analisa a significância do êxodo rural brasileiro, no qual muitos migrantes se instalaram ilegalmente. Aparentemente constata-se que é admitido o direito à ocupação, mas não o direito à cidade (MARICATO, 2003:157). A negligência do Governo em relação à ocupação ilegal de áreas de proteção ambiental ou públicas, por parte das camadas populares, não significa uma política de respeito aos carentes de moradia ou aos direitos humanos. A população que aí se instala não compromete apenas os recursos que são fundamentais a todos os moradores da 19

11 cidade, como é o caso dos mananciais de água. Mas ela se instala sem contar com qualquer serviço público ou obras de infraestrutura urbana. Em muitos casos, os problemas de drenagem, obstáculo à instalação de rede de água e esgotos torna inviável ou extremamente cara a urbanização futura (MARICATO, 2003:158). A ocupação ilegal é tolerada quando não interfere nos circuitos superiores do capitalismo. Porém, com o crescimento urbano, o Estado teve dificuldades de suprir a demanda e foi negligente quanto à ocupação anárquica do solo, marcado pela lógica do mercado fundiário, especulativo, discriminatório e desigual. (MARICATO, 1999 apud MARICATO, 2003:160). É inegável que há uma relação direta entre moradia pobre e degradação ambiental, porém isto não exclui o fato de que a produção imobiliária privada e o Estado, através da produção do ambiente construído, também causem danos ao meio ambiente. Todavia, o que vale destacar é que grande parte das áreas urbanas de proteção ambiental estão ameaçadas pela ocupação com uso habitacional pobre, por absoluta falta de alternativas, e que as consequências de tal processo atingem toda a cidade. (MARICATO, 2003:160). No entanto, é inquestionável que a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Cidade de 2000 modificaram as relações de poder fundiárias e imobiliárias urbanas. Porém, o verdadeiro nó da questão reside na aplicação desses instrumentos urbanísticos, que, muitas vezes, não é capaz de reestruturar o quadro da produção habitacional em áreas ilegais pela falta de alternativas políticas (MARICATO, 2003:162). O desenvolvimento urbano includente exige que se atue em dois eixos: urbanizar e legalizar a cidade informal conferindo-lhe melhor qualidade e o status de cidadania e produzir novas moradias para aqueles que, sem outras saídas e recursos técnicos ou financeiros, invadem terras para morar. Aparentemente, as ações governamentais começam a reconhecer o primeiro dos eixos descritos. A própria legislação recentemente aprovada abre mais caminho nesse sentido e menos no outro. A consolidação e melhoria da cidade ilegal e sem urbanização exige o contraponto da produção de novas moradias, do contrário estaremos consolidando a dinâmica da máquina de produzir favelas 20

12 com as políticas públicas correndo sempre atrás do prejuízo (MARICATO, 2003:163). i. Plano Diretor Os trabalhos que abordam o urbanismo em São Paulo, no período pós-1940 alegam a não efetividade dos planos, como de fato, somente em 1971 será aprovado o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado. Rolnik (1997) entende a ineficácia da legislação em regular a produção da cidade como a verdadeira fonte de seu sucesso político, financeiro e cultural num contexto urbano de concentração de riqueza e poder. A lei age, segundo a autora, como delimitadora de fronteiras de poder, conferindo significados e gerando noções de civilidade e cidadania, mesmo quando não é capaz de determinar a forma final da cidade (FELDMAN, 2005: 25). O Plano Diretor Estratégico é um instrumento global da política de desenvolvimento urbano no município de São Paulo e, por isso, determinante para todos os agentes públicos e privados que neste atuam. Dentre os principais princípios regidos pelo PDE pode-se destacar: a justiça social, o direito à Cidade e à moradia digna para todos, a priorização do transporte coletivo público, a preservação e recuperação do ambiente natural e a participação da população nos processos de decisão, planejamento e gestão. Assim, será possível elevar a qualidade de vida da população, particularmente no que se refere às condições habitacionais, à infraestrutura e aos serviços públicos, de forma a promover a inclusão social, reduzindo as desigualdades que atingem diferentes camadas da população e regiões da Cidade. Do ponto de vista da infraestrutura urbana e das habitações devem-se destacar importantes passagens e objetivos que estão sendo aparentemente esquecidos ou deixados de lado pelos administradores da cidade de São Paulo. Dentre eles: a melhoria da circulação e do transporte urbano proporcionando deslocamentos intra e interurbanos que atendam às necessidades da população, reduzindo assim, o tempo de deslocamento entre habitação e trabalho, e aumentando a acessibilidade e mobilidade da população de 21

13 baixa renda. Ou seja, o PDE propõe adequar o sistema viário, tornando-o mais abrangente e funcional, especialmente nas áreas de urbanização incompleta. Em relação às questões habitacionais o plano dá prioridade à regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por população de baixa renda visando sua integração, sempre respeitando o interesse público e o meio ambiente, bem como evitando que esses moradores de baixa renda sejam expulsos das áreas consolidadas da Cidade, providas de serviços e infraestrutura urbana. E, além disso, o escrito tenta coibir o surgimento de assentamentos irregulares, implantando um sistema eficaz de fiscalização. Nas áreas de intervenção urbana, onde ocorrem às chamadas Operações Urbanas, o PDE prioriza o atendimento habitacional às famílias de baixa renda, que venham a ser removidas em função das obras previstas no Programa de Intervenções, devendo preferencialmente, ser assentadas no perímetro dessas operações, nas proximidades ou, na impossibilidade destas opções, em outro local a ser estabelecido com a participação das famílias. Sem dúvida, os Planos Diretores constituem-se um grande avanço para efetivação das políticas públicas, entretanto o domínio deste instrumento é frágil, uma vez que o encadeamento proposta ação consequência, não é inteiramente previsível. Porém conforme Villaça já afirmou em seu texto As ilusões do Plano Diretor estes acabam por tornarem-se Planos de Gaveta, pois há um abismo que separa o discurso da prática da administração municipal e da desigualdade que caracteriza nossa realidade política e econômica. As ações governamentais acabam por serem muitas vezes influenciadas pelo capital privado e deixam de lado a participação da população diretamente envolvida, a qual muitas vezes, pertence a camadas mais necessitadas da população. Assim, o planejamento urbano no Brasil representado pelo Plano Diretor está a exigir uma revisão radical, devendo todos os seus pressupostos ser questionados. Mas, quando se fala em alterar as atuais limitações do planejamento implica-se, também, rediscutir modelos urbanísticos que respondam à nossa efetiva realidade e limitações institucionais, porque aspectos como a preservação da água de abastecimento e a funcionalidade da cidade dependem da somatória de ações, da totalidade e não de ações exemplares, porém pontuais (MARTINS, 2003). 22

14 Figura 2 Mapa contendo as áreas de intervenção Estatal no município de São Paulo. Fonte - Portal da Prefeitura de São Paulo Acessado em - 13/03/

15 ii. Zoneamento O zoneamento se mantem como principal instrumento de planejamento em São Paulo por abranger o conjunto da cidade e dividir o território urbano em zonas, nas quais se articulam diferentes parâmetros urbanísticos. Essa prática foi incorporada pela administração municipal a partir da criação do Departamento de Urbanismo, o qual tem influencia marcante de Anhaia de Mello e do urbanismo norte americano Da década de 1920 (FELDMAN, 2005). Enquanto os princípios do planejamento não ultrapassam o universo das ideias e representações, se inserindo no universo da historia da cidade ideal, o zoneamento remete a história da cidade real, à história de um processo em constante transformação, que se constrói socialmente, em função de interesses e atores concretos (FELDMAN, 2005). Um dos grandes críticos do urbanismo paulistano foi Lodi, quem defendeu a necessidade de atualização desse modelo urbanístico pautado em um urbanismo viário, que tem como ponto de partida as desapropriações para o alargamento de ruas. Este, segundo Lodi, advém de uma ideia errônea de progresso, pois apenas os planos viários nada resolvem, bem como alimentam a especulação imobiliária, na medida em que a ampliação das possibilidades de uso dos terrenos eleva seus valores. E, além disso, sempre defendeu a importância do desenvolvimento periférico (FELDMAN, 2005). Portanto, para a solução dos problemas urbanos é preciso dispor sobre a periferia: sem um trabalho periférico o melhoramento central tende a submergir. Se no centro ocorre um excessivo aproveitamento do solo urbano, que se manifesta em alturas excessivas, na periferia ocorre o loteamento indiscriminado pela transformação de terreno estéril em área urbana, sem reversão de capital em benfeitorias. Na periferia, a riqueza do terrenista se dá pela simples passagem de propriedade de terreno, comprado a baixo preço ao atacado, e vendido a valores astronômicos ao retalho. Para Lodi (1954:312), em ambos os casos, os gastos públicos são elevados e a comunidade prejudicada: O uso excessivo do solo cria problemas, o loteamento indiscriminado do terreno cria problemas, todos eles de solução difícil e onerosíssima, a depauperar as cidades e 24

16 enriquecer os particulares, poucos particulares (FELDMAN, 2005: 85). Atualmente, o PDE paulistano criou um novo instrumento jurídico de cunho urbanístico denominado de Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), o qual permite ações de regularização fundiária e urbanística junto aos assentamentos informais e como fomentador da produção de novas unidades habitacionais destinadas à população de baixa renda (CALDAS, 2009: 21). Então, esse se constitui como um avanço nas questões do zoneamento na cidade de São Paulo. iii. Segregação Socioespacial O processo de urbanização em São Paulo seguiu um padrão periférico de crescimento urbano, o qual consolidou as periferias, levando grande parte dos seus moradores à exclusão dos direitos sociais básicos, significando, na prática, um déficit de cidadania e governabilidade. Nestas regiões, concentram-se os maiores índices de precariedade habitacional e urbana: A rigor, os processos de segregação socioespacial na cidade estão estreitamente relacionados com a precarização do mercado de trabalho e o desemprego, que afetam mais que proporcionalmente as camadas mais pobres, menos escolarizadas e que tiveram menos meios de resistir àquilo que se pode denominar de diáspora da classe trabalhadora. Este processo, associado à dinâmica especulativa de valorização do solo urbano e aos sentidos do investimento do capital imobiliário, incide sobre as condições e opções de moradia da população, o que, desde os anos 80, leva à expansão demográfica crescente das periferias em contraposição como esvaziamento populacional nas áreas centrais (bem servidas por infraestrutura) e à redistribuição das camadas mais ricas da população para novas fronteiras de ocupação delineadas pelos sentidos do investimento do mercado imobiliário (especialmente o quadrante sudoeste) (HUGHES, 2004: 94). 25

17 Historicamente segregada, a cidade informal periférica enfrentou a dificuldade de acesso aos recursos do Estado, apesar da pujança das mobilizações e reivindicações dos movimentos sociais a partir do final dos anos 70. Os domicílios pertencentes a essa realidade estão muitas vezes situados em áreas de risco e geralmente apresentam elevados índices de coabitação. A segregação socioespacial tornou-se assim, uma marca recorrente na consolidação das periferias, pois as demandas das classes trabalhadoras, maioria vivente nessas regiões nunca estiveram entre as prioridades estatais, sendo relegadas a um segundo plano. Isso gerou uma estrutura urbana precária, com insuficientes equipamentos sociais e de infraestrutura, fruto de uma ocupação desordenada que acaba por comprometer a qualidade de vida, a mobilidade e o acesso da população aos serviços e ao mercado de trabalho. Pode-se dizer também que o Estado teve uma controvertida presença na vida dos moradores das periferias pautada por mecanismos de controle social e repressão. Tal reflexão permite contrapor o contrato social que rege as relações sociais na cidade formal e na cidade informal, periférica, sugerindo a recorrência de distinções e diferenciações nas possibilidades de fruição das prerrogativas do Estado de Direito (HUGHES, 2004: 95). Diante disso, o mito do desenvolvimento ganha força, pois reaparecem os questionamentos sobre a (im)possibilidade da modernidade, uma vez que as dinâmicas da globalização e do neoliberalismo propiciam a existência de diferentes poderes sociais. Segundo Boaventura de Souza Santos (1998), a crise do contrato social produziu o fascismo do apartheid social. Trata-se da segregação social dos excluídos, por meio de uma cartografia urbana dividida em zonas selvagens e civilizadas [...] As selvagens são as zonas do Estado de natureza hobbesiano. As civilizadas são as zonas do contrato social; vivem sob a constante ameaça das selvagens. Para se defender, tornam-se castelos neofeudais, enclaves fortificados que caracterizam as novas formas de segregação urbana. Nas zonas civilizadas, o Estado age democraticamente, como protetor, ainda que muitas vezes ineficaz ou não confiável. Nas selvagens, age fascistamente, como Estado predador, 26

18 sem nenhuma veleidade de observância, mesmo aparente, do Direito (HUGHES, 2004: 95). Desta forma, a cidade informal, caracterizada pelas periferias, e a cidade formal acabam por receberem tratamentos diferenciados quanto à presença de forças policiais e de segurança pública. Essa controvertida atuação do Estado, associada às crescentes manifestações de violência, refletem uma grave crise política, pois o próprio aparato estatal é também gerador de violência (OFICINA DE IDÉIAS, 2003 apud HUGHES, 2004). iv. Ecologia e Sustentabilidade Urbanas A gestão do meio ambiente urbano representa um desafio complexo para as sociedades contemporâneas, pois deve aliar a preservação dos recursos naturais e assegurar condições de vida digna a toda população. Os trabalhos sobre ecologia urbana e meio ambiente urbano se referem aos elementos biológicos do meio urbano, relacionando-os a problemática da saúde das pessoas e aos riscos naturais, bem como busca equacionar o problema da gestão ou administração da cidade quanto ao ordenamento e uso do solo. A partir da década de 1980, com os avanços político-institucionais, a questão urbana é integrada à questão social, e os problemas urbanos deixam de ser reconhecidos como integrantes da questão social e passam a ser explicados como decorrentes do suposto divórcio entre a cidade e os imperativos da ordem econômica global, e o saber e a ação urbanísticos são mobilizados para fazer coincidir a cidade com o mercado (RIBEIRO, 2001: 135 apud SILVA, 2002: 3). Assim, os princípios diretores têm um papel essencial para a implementação das políticas públicas, especialmente em se tratando de proteção ambiental e ordenamento do território, pois estes protegem valores e interesses diversos. Entre os princípios que orientam as políticas públicas no meio ambiente urbano encontram-se, por exemplo, o princípio da supremacia do interesse público na proteção do meio ambiente urbano 27

19 sobre os interesses privados e a garantia do direito a cidades sustentáveis para todos (SILVA, 2002). A expressão sustentabilidade remete ao conceito de gestão durável dos recursos ambientais no espaço e no tempo. A adoção de políticas públicas buscando a sustentabilidade urbana implica, portanto, repensar o modelo de desenvolvimento, das relações sociais e econômicas na cidade e o direito à cidade sustentável. Trata-se, portanto, de gestão sustentável do espaço urbano, tendo em vista estratégias de inclusão social que possibilitem o acesso à terra, à moradia e à infraestrutura urbana para as presentes e futuras gerações conforme previsto no Estatuto das Cidades. Os problemas intraurbanos que afetam a sustentabilidade, como a dificuldade de acesso à terra urbanizada, o déficit de moradias adequadas, a ineficiência dos serviços de saneamento ambiental, a baixa qualidade do transporte público, a poluição ambiental, o desemprego e a marginalização social, por outro lado, acabam propiciando as cidades certos sinais positivos de desenvolvimento como um maior dinamismo econômico e social. Porém, para que as cidades brasileiras do século XXI possam se tornar sustentáveis serão necessárias mudanças nos padrões insustentáveis de produção e consumo que resultam na degradação dos recursos naturais e econômicos do país, afetando as condições de vida dos habitantes citadinos. Além disso, melhorias no padrão de uso e ocupação do solo e fortalecimento da capacidade de planejamento e de gestão democrática da cidade, com efetiva participação da sociedade. Não apenas a regulamentação do uso e da ocupação do solo urbano deve contribuir para a melhoria das condições de vida da população, mas também a promoção do ordenamento do território deve buscar que a todos sejam asseguradas a equidade no acesso aos equipamentos e serviços públicos bem como aos recursos ambientais, a eficiência na prestação dos serviços e a qualidade ambiental. Nesse sentido, destaque-se o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), instrumento de ordenamento do território, que deve ser obrigatoriamente seguido na implantação de planos, obras e atividades públicas e privadas. Esse instrumento estabelece medidas e padrões de proteção ambiental destinados a assegurar a qualidade ambiental, dos recursos hídricos e do solo e a conservação da biodiversidade, garantindo o 28

20 desenvolvimento sustentável e a melhoria das condições de vida da população (SILVA, 2002: 11). Por fim, a maior parte da sociedade brasileira já se encontra instalada em cidades, demonstrando a necessidade da efetivação de políticas públicas em prol do meio ambiente urbano, e ao lado da ação governamental são as parcerias públicoprivadas que devem auxiliar no processo de gestão sustentável das urbes. c. Impactos ambientais: rios e cidades A valorização do meio ambiente dentro da esfera das ações sociais é, sem dúvida, uma variável relevante quando analisamos as mudanças recentes na estruturação urbana, pois, entre outros fatores, a questão ambiental passa a ser entendida como causa e efeito das decisões que orientam as transformações do tecido urbano. Uma vez que, os impactos ambientais promovidos pelas aglomerações urbanas são, ao mesmo tempo, produto e processo de transformações dinâmicas e reciprocas da natureza e da sociedade estruturada em classes sociais (GUERRA, 2011: 21). Desta forma, se por um lado temos a demanda crescente pela qualidade de vida urbana associada à proximidade dos espaços verdes, por outro lado temos um aumento na pressão sobre o consumo do espaço urbano. Pelo meio ambiente ser social e historicamente construído, através da interação contínua entre uma sociedade em movimento e um espaço físico que se modifica permanentemente, este pode ser considerado passivo e ativo, pois ao ser modificado, torna-se condição para novas mudanças, modificando, assim, a sociedade. (GUERRA, 2011: 23). Assim, somente através de pesquisa de acompanhamento sistemático voltada para a compreensão das estruturas e dos processos não planejados e de longa duração é que podem ser explicados os impactos. Para Elias (1997), somente com tais estudos é possível decidir se os planos de curto prazo com vistas a remediar os problemas sociais não irão fazer mais mal que bem no longo prazo (GUERRA, 2011:24). 29

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