COMUNICAÇÃO E TECNOLOGIA: O VÍDEO COMO VEÍCULO DE

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1 COMUNICAÇÃO E TECNOLOGIA: O VÍDEO COMO VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO RURAL. Cenira Almeida Sampaio Marta Rocha do Nascimento As tecnologias de comunicação sempre foram tidas como instrumentos facilitadores e eficazes de comunicação rural. A prática, no entanto, nos leva a questionar alguns pressupostos teóricos neste campo de comunicação. Este trabalho é um relato de recepção de vídeo que está sendo realizado junto aos trabalhadores rurais da Zona da Mata Sul em Pernambuco. As sociedades contemporâneas incluem-se hoje numa nova realidade cultural, como conseqüência imediata do desenvolvimento tecnológico, os veículos eletrônicos de comunicação, rompem barreiras impostas pela distância e penetram indistintamente às mais diversas regiões do planeta. Mais que em qualquer época, temos à nossa disposição, meios de eficiente contato com as mais distintas dimensões da realidade, isso nos permite ampliar Mestrandas do Curso de Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural - UFRPE.

2 profundamente o universo de nossos conhecimentos, ao mesmo tempo que altera a nossa vivência. A repercussão de um meio de comunicação decorre principalmente da natureza de sua linguagem. Isso nos leva a uma primeira classificação que separa os produtos impressos dos audiovisuais. Os meios impressos, têm seu alcance diretamente condicionado pela cultura letrada, encontrando no analfabetismo uma forte barreira. Para Sérgio Guimarães - A linguagem escrita reflete uma forma analítica de pensamento e o conduz linearmente. Inspira-se na linguagem oral, mas insiste em corrigí-la, em purificá-la. Compreende-se assim, que seja este o nível que maior resistência oferece à evolução lingüística. 1 Percebemos que os meios impressos provavelmente permitem uma retenção maior dos conteúdos de elaboração complexa. No entanto, a recepção dos meios audiovisuais não requer treinamento especial por parte dos receptores: A linguagem visual se realiza de forma intuitiva, direta, valendo-se de seu caráter análogo, parece-se com o real ao contrário dos arbitrários signos lingüísticos. 2 Esta característica dos meios audiovisuais poderia servir para explicar o seu êxito junto às camadas populares. 1 A esse respeito ver: FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Sobre educação: diálogos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Sobre educação: diálogos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 99.

3 Para alguns especialistas, que se interessam pela importância da técnica da mensagem e a comunicação institucional, o vídeo é um dos mais poderosos instrumentos de comunicação que a moderna tecnologia tem colocado à disposição. Segundo Toffler, o mundo que está emergindo rapidamente do choque de novos valores e tecnologias, novas relações geopolíticas, novos estilos de vida e novos modos de comunicação, exige idéias e analogias novas, novas classificações e novos conceitos 3, para ele as novas tecnologias, especialmente o vídeo, fragmentam o conceito de massa por permitirem uma comunicação para públicos delimitados, grupos específicos e interesses individuais. A informação da sociedade viria acompanhada de uma descentralização das informações, o que favoreceria a participação do indivíduo. 4 Em sua tese, Toffler defende que a desmassificação dos meios de comunicação desmassifica igualmente as nossas mentes. 5 Na opinião de Luiz Fernando Santoro, um dos mais importantes desafios para os estudiosos do tema atualmente é exatamente procurar compreender o funcionamento dessas tecnologias, inclusive tecnicamente, o uso que vem sendo 3 TOFFLER, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, p Ibid p Id.

4 dado pelas grandes empresas e pelo Estado, resgatando sua dimensão humana e efeitos (positivos ou não) na sociedade como um todo. Contudo ele enfatiza que o vídeo não deve ser estudado como um fenômeno isolado, pois faz parte de todo um aparato de produtos tecnológicos eletrônicos que, na década de 70, passaram a ser reunidos pelo nome genérico de novas tecnologias da comunicação. O vídeo passa então, a ser um componente da chamada revolução eletrônica e a ser valorizado como uma tecnologia voltada para grupos e indivíduos, por sua própria característica técnica. Para Luiz Fernando Santoro, diferentemente da televisão por cabo, do videotexto, dos satélites, o vídeo não depende da vontade política e de grandes recursos financeiros para ser instalado. 6 Sabe-se hoje que o vídeo não é apenas útil para treinamento ou para simples reprodução de fitas pré-gravadas para lazer. De múltiplas utilidades o vídeo já foi definitivamente adotado pela comunidade empresarial. No que diz respeito às culturas populares, o vídeo, tem sido bastante utilizado principalmente em grupos considerados analfabetos, por isso mesmo merece atenção especial no sentido de uma maior avaliação quanto ao seu uso e influência de suas mensagens como indicadores no sentido de modificar o comportamento ou modo de agir e pensar das populações rurais.

5 O vídeo é o meio de comunicação que mais se aproxima da realidade por ser capaz de guardar, dessa realidade, toda a dinâmica de seus movimentos, da cor, dos sons e ruídos, e traduzir os sentimentos de cada ser que nele se faz presente. É também, um veículo de amplas possibilidades na comunicação rural, visto que nesse espaço a comunicação é predominantemente oral, havendo ainda o fato de que as imagens atraem e mantêm a atenção melhor do que qualquer outro meio. Muitas são as instituições governamentais e não governamentais que apoiam e promovem projetos e programas para elevar a capacidade tecnológica e gerencial dos trabalhadores, tendo o vídeo como viabilizador desse processo. É o caso da Companhia Geral de Melhoramentos em Pernambuco, que em 1991 produziu um vídeo para elevar a produtividade de seus trabalhadores rurais. A Companhia Geral de Melhoramentos é composta pelas usinas Cucaú e Laranjeiras, que estão entre as maiores produtoras de açúcar em Pernambuco. Em 1991, a usina enfrentava uma queda na produtividade de seus trabalhadores, o que a levou a produzir um vídeo com 30 minutos de duração que foi dividido em 03 etapas: a institucional, que mostrava as atividades desenvolvidas pela Companhia durante os seus cem anos de atividades; salário, que tratava da questão da produtividade; técnicas de corte e plantio, que mostrava ao 6 Sobre isso ver: SANTORO, Luiz Fernando. A imagem nas mãos: o vídeo popular no Brasil. São Paulo:

6 trabalhador maneiras diferentes de cortar e plantar a cana, o que facilitaria o seu trabalho e aumentaria a sua produtividade. A intenção desse trabalho é avaliar a experiência do vídeo produzido pela Companhia Geral de Melhoramentos nos aspectos da compreensão que os trabalhadores rurais têm das imagens apresentadas e o uso que os mesmos fazem das mensagens veiculadas. Pesquisa Esta pesquisa corresponde a parte inicial de uma investigação que está sendo desenvolvida para avaliar o uso que os trabalhadores rurais, da Usina Cucaú, em Pernambuco, fazem da mensagem do vídeo. Neste primeiro momento, analisamos a compreensão que os trabalhadores têm das mensagens do vídeo, dentro de uma relação da sua cultura enquanto cultura popular com a cultura hegemônica, a que o vídeo produz. As análises serão feitas a partir da compreensão de que as culturas populares desenvolvem uma relação ambivalente com a cultura hegemônica. Ora elas acatam, ora rejeitam e ora refuncionalizam o uso das propostas hegemônicas no sentido de adaptá-las às suas necessidades cotidianas imediatas. 7 Nessa Summus Editorial, p Ver: CANCLINI, Nestor Garcia. Cultura transnacional y culturas populares. Petrópolis: Vozes, p

7 direção, a avaliação da compreensão da mensagem do vídeo será na perspectiva de que se trata de comunicação entre cultura hegemônica materializada pelo vídeo e cultura popular, materializada no discurso dos trabalhadores da Usina. Para a realização dessa pesquisa escolhemos uma amostra de 5% dos trabalhadores que em 1991 foram público-alvo do vídeo (200 trabalhadores) da Usina Cucaú, matriz da Companhia, na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Os trabalhadores escolhidos foram selecionados através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Formoso, Zona da Mata Sul de Pernambuco, uma vez que não se obteve esses dados da Companhia Geral de Melhoramentos em Pernambuco. A avaliação foi feita em duas etapas: na primeira, o vídeo foi exibido de uma única vez para os trabalhadores no auditório do Sindicato; na segunda etapa foi exibido por partes. Inicialmente, exibiu-se as imagens institucionais, depois a questão dos salários e por último a parte da técnica de corte e plantio da cana de açúcar. A técnica utilizada para a coleta dos dados foi a entrevista individual composta de duas questões básicas: a compreensão das imagens exibidas no vídeo; o uso que os trabalhadores vêm fazendo das mensagens contidas no vídeo, em relação a parte que trata das novas técnicas de corte e plantio de cana.

8 Avaliação A primeira dificuldade que enfrentamos foi a de conquistar a confiança dos trabalhadores que demonstram ter receios de responder às perguntas, acreditando que as mesmas seriam vistas pela Diretoria da Usina. Alguns trabalhadores chegaram a se negar, num primeiro momento, a responder. Outros concordaram, de início, porém indagaram várias vezes o objetivo das perguntas. Mesmo tendo conseguido convencê-los de que a pesquisa seria utilizada apenas academicamente, percebemos que as respostas estavam sempre mescladas pelo medo. Todos falavam que as respostas poderiam comprometer o seu emprego. Ao perguntarmos a respeito da compreensão do vídeo como um todo, os trabalhadores demonstraram ter entendido o significado das mensagens. Quando perguntamos a Ademário Ferreira, 26 anos, sobre a compreensão do vídeo, o mesmo mostrou ter familiaridade com as imagens, que apesar de não retratarem a realidade por ele vivida, não lhe era desconhecida. Nós não usamos luvas e botas como eles..., nós não trabalhamos assim porque não recebemos esses equipamentos da usina, se recebêssemos trabalharia do mesmo jeito. Seu Ademário afirma ainda saber que a luva e as botas evitariam

9 acidentes e melhorariam seu trabalho, demonstrando estar consciente da mensagem veiculada pelo vídeo, porém não tendo condições de agir como tal. Petrúcio Ferreira da Silva, 43 anos, diz que o trabalhador bem equipado evita acidentes e produz mais. Mas isso não acontece em Cucaú - falta o patrão dar, o que nós ganha não dá pra comprar, isso acontece lá, referindo-se a lá como se as imagens apresentadas fossem de outra usina. Para Inaldo Sobrinho da Silva, 35 anos, os trabalhadores apresentados no vídeo deviam ser melhor remunerados por isso utilizavam botas, luvas e chapéus e produziam mais. Lá, os trabalhador é mais recompensado que aqui. Falta o patrão dar recompensa a gente e pagar um salário normal. Percebe-se que mais uma vez o trabalhador tem consciência que deveria usar os equipamentos, produzir mais, porém, a usina não lhe oferece condições. Ao observar o vídeo, Seu Inaldo acredita que aquela situação acontece em outra usina que não é a sua. O vídeo mostra imagens de um trabalhador nordestino em São Paulo, que trabalha o dobro de horas e produz, conseqüentemente, mais que os empregados de Cucaú. Quanto a isso, Luiz Ramos Leite diz que em São Paulo se produz mais porque a diferença é grande; os terrenos não são acidentados, a cana cresce mais, é mais grossa e eles trabalham por peso. Seu Luiz demonstra ter consciência das diferenças geográficas que implicam no desenvolvimento de seu trabalho.

10 Mais uma vez, o que mediatiza todo o processo comunicacional é a percepção que os trabalhadores têm de sua realidade. Para Fernando Perez, 38 anos, o trabalhador em São Paulo é mais produtivo porque o trabalho lá é mais exigente, tudo fica muito bonito na filmagem, mas na hora de trabalhar não é assim, ele produz mais porque é mais massacrado, mais exigido, que nós. Essa pesquisa se refere a uma primeira etapa de uma investigação mais abrangente, que preliminarmente nos permite comprovar a validade do vídeo como veículo de Comunicação Rural. As mensagens veiculadas no vídeo são compreendidas por todos os trabalhadores, porém não são por si só suficientes para modificar os hábitos de trabalho desses, visto que temos que considerar as mediações desse grupo, percepção da má remuneração, percepção do não recebimento dos equipamentos pela usina, percepção que em São Paulo a realidade é diferente da vivida por eles em Pernambuco. Esses são fatores que embora fora do processo estritamente comunicacional são fundamentais ao sucesso da comunicação. Como diz Kaplun, os modernos meios de comunicação são condição necessária, mas não é fator suficiente para se atingir os objetivos desejados. 10 Apenas a compreensão das mensagens não basta. É preciso levar em consideração outros elementos mediadores das culturas populares, o cuidado,

11 por exemplo, para que essa comunicação venha ao encontro das necessidades cotidianas imediatas do trabalhador rural. Referências Bibliográficas: 1. CANCLINI, Nestor Garcia. Cultura transnacional y culturas populares - bases teórico-metodológicas para la investigacion. Petrópolis: Vozes, p FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Sobre educação: diálogos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p KAPLUN, Mário. A comunicação alternativa na América Latina. Petrópolis: Vozes, p SANTORO, Luiz Fernando. A imagem nas mãos: o vídeo popular no Brasil. São Paulo: Summus Editorial, p TOFFLER, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, p. 16.

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