NAS ENTRELINHAS DO CORPO DANÇANTE. Palavras-chave: Dança; História da Dança; Corpo; Funções da Dança.

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1 Monique Nayara Pantoja da Trindade* Daniela Bahia Santos** NAS ENTRELINHAS DO CORPO DANÇANTE RESUMO Antes do homem se manifestar por meio de uma linguagem oral, ele dançou. A dança através da linguagem gestual foi e continua sendo a expressão que se utiliza principalmente do corpo para se comunicar. Ao longo do tempo, o ser humano inseriu códigos, gestos específicos, com o qual foi resgatando e criando novas danças e ritmos. Partindo desses conhecimentos, este artigo buscou responder quais os motivos levam o corpo a dançar, sendo tomado como ponto de partida as experiências vividas com a dança dentro e fora da universidade, leituras e fichamentos de livros e artigos de autores que abordam o assunto. Este estudo objetivou desenvolver uma reflexão sobre a dança e suas relações com o corpo a partir de uma pesquisa bibliográfica, de natureza explicativa e abordagem fenomenológica, realizada nas Bibliotecas da Universidade do Estado do Pará- UEPA-Campus III e da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará- ETDUFPA, além de sites especializados em artigos científicos sobre a temática da pesquisa. Através da análise dos materiais explorados, constatou-se que a dança está presente em todo o processo de dinamização de uma civilização, tornando-se uma das principais manifestações em que o ser humano expressa sua espiritualidade, cultura, desejos ou divertimento. Palavras-chave: Dança; História da Dança; Corpo; Funções da Dança. INTRODUÇÃO A Dança é uma das manifestações mais antigas de expressão corporal existentes, desempenhando grande importância para as civilizações que através dela representavam seus anseios, sentimentos e esperanças, comunicando e expondo suas peculiaridades culturais. Com o passar dos séculos, os movimentos primitivos e expressivos foram sendo substituídos pela delicadeza do Ballet, seguidos pelos movimentos naturais defendidos pela Dança Moderna, chegando à contemporaneidade, dando uma definição mais artística ao ato de dançar. Assim, a dança vem construindo relações que aos poucos se tornam cada vez mais intensas e ligadas à vida cotidiana e não cotidiana do indivíduo. Na Educação Física, assim como jogos e lutas, a dança estuda a cultura e linguagem corporal partindo do principio básico, o movimento, além da corporeidade singular existente em cada corpo. Logo, a presente pesquisa bibliográfica, de natureza explicativa e abordagem fenomenológica, realizada nas Bibliotecas da Universidade do Estado do Pará-UEPA-Campus III e da Escola de Teatro e Dança * Aluna graduanda de Licenciatura em Educação Física pela Universidade do Estado do Pará - UEPA. ** Especialista em Pedagogia da Dança e Professora da disciplina Fundamentos e Métodos da Dança na Universidade do Estado do Pará - UEPA 1

2 da Universidade Federal do Pará-ETDUFPA, além de sites especializados em artigos científicos que abordassem a temática da pesquisa, vem por meio de observações e vivências pessoais na dança dentro e fora da universidade, reflexões teóricas e investigações corporais como aluna/intérprete-criadora, além de leituras e fichamentos das produções científicas escritas, livros e artigos publicados durante os anos de 1987 a 2010, identificar quais os motivos levam o corpo a dançar, objetivando desenvolver uma reflexão sobre a dança e suas relações com o corpo, contextualizando seu surgimento até a contemporaneidade e visando à contribuição literária do estudo como parte integrante dos saberes em formação artística, assim como o teatro, a música e arte/educação, a que todo cidadão tem direito. 1 BIOGRAFIA DA DANÇA. Em uma época primitiva, onde o habitat era de natureza predatória, o homem do período paleolítico inferior ( a.c.) lutava incessantemente pela sobrevivência, [...], [dirigindo em um dado momento] sua atenção para uma atividade imaterial e [tornando-se] artista (CAMINADA, 1999, p.22). Partindo dos movimentos corporais explosivos naturais naquele período, a dança interligada ao ritmo biológico nascia de uma vontade do homem de se comunicar, de expressar suas vontades e anseios para com o próximo, consigo próprio e para com o divino. Contudo, não seria qualquer movimento ou gesto considerado dança. Mesmo o homem primitivo devia ter consciência de que seus movimentos e gestos só obteriam um efeito mágico ou encantatório quando executados dentro de certas regras e medidas, não necessariamente regulares ou aparentes, mas que os tornavam um conjunto homogêneo e fluente no tempo. Quando tinham, enfim sua duração no tempo dividida em determinados intervalos, isto é, dentro de um ritmo, fator indispensável para que essa atividade se configure como dança (MENDES, 1987, p.5). Logo, o ritmo, seja ele biológico, circadiano, cotidiano ou sonoro, torna-se um acompanhante imprescindível para que qualquer gesto do corpo não seja considerado como dança. Mesmo, tendo poucos indícios na era incivilizada, foram encontradas algumas pinturas rupestres na África do Sul que apontaram cenas de dança, onde os partícipes se vestiram com a pele dos animais de maneira relativamente realista (BOURCIER, 2001), possivelmente em alguma manifestação em que acreditavam poder, a partir das indumentárias utilizadas absorverem certas características animalescas, tais como a coragem, a força, a valentia, que seriam 2

3 postas em prática de acordo com a necessidade da situação imposta ao indivíduo daquele período. A dança se fazia cada vez mais presente e parte integrante de todos os acontecimentos da vida do homem primitivo. Dançava-se para agradecer e pedir em forma de sacrifícios na adoração de possíveis deuses; antes do combate para pedir proteção; em comemoração às boas caças e colheitas; inclusive mortes; dentre outras. Dado então esse período, assiste-se a uma mudança no sentido da dança: da identificação com o espírito [...] passa-se a uma liturgia, a um culto de relação e não mais de participação [...] (BOURCIER, 2001, p.12). Na medida em que as civilizações foram se desenvolvendo, as configurações de novas danças iam surgindo e identidades específicas de cada povo ou sociedade se estabeleciam. Nesse momento da antiguidade, não se possuía tanto acervo gráfico sobre a dança em outras sociedades como há na civilização egípcia, que apresenta uma quantidade muito maior e certamente mais significativa, do que os demais povos do Oriente Próximo (CAMINADA, 1999, p.43). A dança no Egito inicialmente era praticada por mulheres com o caráter sagrado, associada a ritos de fertilidade, em que se cortejavam alguns deuses: Bes, Hathor, Osíris, Ísis e Horus, por exemplo. Além da homenagem aos deuses, a dança prosseguia em rituais mortuários, através de cortejos fúnebres, que conduziam o finado a sua vida pós-terrena (BOURCIER, 2001). Muitas outras danças, sempre relacionadas aos deuses egípcios, eram executadas. Por isso são chamadas de danças divinas ou sagradas. Para o deus Amon acontecia a procissão da barca sagrada, na qual bailarinos acrobatas apresentavam suas proezas. As danças apresentadas por ocasião das festas religiosas e dos funerais também eram consideradas sagradas. Nos funerais havia os mouou, personagens que surgiam muito de repente e vinham ao encontro do enterro, dançando em duplas. Os egípcios acreditavam que as movimentações desses dançarinos asseguravam ao morto a ascensão a uma nova vida (AUGUSTO, [s.d.], p.4). Para a civilização grega, assim como para os egípcios, não foi diferente a importância da dança onde, [...] Ritos religiosos, pan-helênicos ou locais, cerimônias cívicas, festas, educação das crianças, treinamento militar, vida cotidiana [...] (BOURCIER, 2001, p.19) faziam-se bastantes presentes. Na Grécia, assim como nas outras sociedades, a dança teve inicialmente um cunho religioso. Os gregos 3

4 [...] acreditavam no poder das danças mágicas, e o uso de máscaras nos rituais lhes dava ampla liberdade de ação. O politeísmo dos gregos lhes proporcionava, ainda, inúmeras ocasiões para dançar em honra de seus deuses (MENDES, 1987, p.12). Em honra aos deuses, em eventos fúnebres homenageando aos mortos, sempre em momentos importantes a dança se fez presente, inclusive nas questões que abordavam a educação na Grécia, aperfeiçoando a harmonia das formas e a disciplina, proporcionando dimensões corretas ao corpo e uma vida mais saudável, além de participar no exercício da reflexão estética e filosófica do cidadão grego. Sem dúvida, a riqueza da dança na Grécia foi inestimável, já que partiu do [...] conceito de dança como arte imitativa [o que influenciaria] futuramente as idéias européias, [...] [tornando] a arte da dança facilmente acessível a todos os cidadãos. Somente com o declínio da cultura grega é que a dança começou a perder respeitabilidade, passando a ser mero entretenimento e, finalmente, a ser executada só por escravas orientais (MENDES, 1987, p.14-15). Já Roma, constituída basicamente por guerreiros, ao contrário da Grécia, desprezava a dança, considerando-a incompatível com o espírito do povo conquistador (DINIZ, [s.d.], p.6), o que possivelmente acarretou no fato dela não ter sido tão importante como expressão artística quanto o teatro, a música e as artes plásticas foram e são até os dias de hoje para essa civilização. A dança romana de longe se deteve em enriquecer seus espetáculos com a imaginação, mantendo assim, a dança distante da sociedade intelectiva da época. E durante muitos anos da história, a dança manteve-se assim, atrás da coxia. Durante os primeiros séculos do cristianismo, a igreja permitiu a presença da dança em adoração a Deus em seus cultos, alegando que a própria possuía uma reminiscência na religiosidade. Contudo, outras formas de dança, como as populares comuns aquela época, foram, desde o século II, tenazmente combatidas pela Igreja por causa do seu visível conteúdo pagão, demasiadamente ligado às velhas religiões (MENDES, 1987, p.16). No período seguinte em que se estendeu a ampliação do cristianismo, pouco espaço teve a dança na vida dos cidadãos. Nesse tempo, considerado a Idade das Trevas, a dança sofreu severas intervenções da Igreja cristã. Com o corpo em maior evidência, a igreja encontrou nas danças consideradas pagãs, uma maneira de justificar seu banimento do convívio social, sendo somente permitidas as danças macabras e as litúrgicas. A primeira acreditava que se comunicaria com os mortos, 4

5 enquanto a segunda honraria e homenagearia a Deus, contudo, nunca deixou de ser suspeita para as autoridades eclesiásticas (BOURCIER, 2001, p.46). Foi nesse instante da história da dança, fosse ela primitiva ou sagrada, que a sociedade passou a transformá-la e vê-la em um único contexto: Do divertimento, dividida em duas correntes: a camponesa e a aristocrata, que se perpetuaram sendo a primeira, executada pela classe mais pobre, normalmente com a presença de ambos os sexos, em desenhos coreográficos circulares, e a segunda foi transformada em uma dança imitativa animal mais refinada. Em processo dinâmico bastante positivo, as danças populares transformaramse em danças medievais e renascentistas, chegando às cortes, dando início a um intenso movimento de renovação em muitos âmbitos da vida social e cultural, chamado de Renascimento [...] (AUGUSTO, [s.d.], p.6). Pequenas mudanças literárias, científicas e artísticas, já vinham acontecendo desde a Baixa Idade Média. Contudo, foi no período renascentista que a dança voltaria a florescer, fazendo surgir uma nova atitude em relação ao dualismo cristão e aos valores mundanos da vida e do corpo (DINIZ, [s.d.], p.7), o que propiciou a uma revolução que mudaria toda a visão que hoje temos dos signos da dança. A permanência das danças populares nesta época abriria caminho para sua codificação¹ pela nobreza, que a utilizaria com o propósito educacional e divertimento. Assim, de algo improvisado inicialmente, esses divertimentos adquiriam forma mais disciplinada, com suas dimensões reduzidas no tempo e no espaço, a fim de caberem num salão, não mais numa praça pública. Ao mesmo tempo impunha-se a necessidade de organizar e anotar os passos da dança, codificando-os e criando um repertorio de movimentos utilizáveis fora de algum contexto, mas servindo a qualquer um quando necessário (MENDES, 1987, p.23). Logo, os movimentos começaram a apresentar sofisticação, delicadeza, e até certo ponto técnicas, propiciando o início de uma nova era, o surgimento do ballet romântico. Este período da dança foi o que mais representou o romantismo exacerbado através de [...] histórias românticas [que] mostravam, em sua maioria, uma heroína triste, capaz de morrer ou enlouquecer por amor. O balé modificou-se, em busca desse novo mundo de sonhos. Os passos não serviam mais unicamente para a evolução da ação, mas estavam carregados de um conteúdo emocional profundo. O balé criava um mundo de ilusão, esboçava o ideal das concepções românticas. A fada, a feiticeira, o vampiro e outros seres imaginários eram seus personagens. O homem, considerado figura principal na dança do século XVIII, passa a ocupar um lugar subalterno no 5

6 princípio do século XIX. A mulher foi elevada a uma esfera sobre-humana e o homem deixou de ser herói e se limitou a elevar a mulher, quando necessário (AUGUSTO, [s.d.], p.9). Assim, o signo de dança encantada impregnou no ballet, sendo difundida desta forma, em muitos países não só da Europa, mas do mundo. Através da grande caminhada e persistência, o ballet ganhou status por meio da Rússia, mantendo-se como uma dança sofisticada, sendo apresentada em renomados teatros e espaços alternativos até os dias de hoje. Mas não somente de beleza e fantasia vive a dança. Depois de décadas reinando absoluto, o ballet encontra um opositor à altura. A dança moderna se propõe a voltar ao início básico da dança, quebrando com as regras, artifícios e temas fantásticos impostos durante muito tempo pelo ballet. Nesse período da história da dança, o que vai separar o clássico do moderno não é simplesmente a técnica, mas, também, o pensamento que norteou sua elaboração (AUGUSTO, [s.d.], p.12). A dança moderna surge da necessidade de expressar a liberdade do corpoespírito, em uma manifestação que o artista demonstra seus sentimentos de um modo mais orgânico e sentimental. Uma de suas maiores entusiastas e difusoras é Isadora Duncan, que se comprometeu em descobrir uma forma natural de movimento e de transformar a dança em uma forma séria de arte, expressando ideias, emoções e significados, para isso, deixou-se levar pela emoção, e em um ato de bravura se despiu das sapatilhas, dando o primeiro passo para uma dança livre, revigorante (VIDOTTO, 2008). Assim como Isadora, Rudolf Laban foi um nome bastante expressivo nos estudos que norteiam o corpo e a prática da dança moderna, explorando as possibilidades motoras do corpo humano, o dinamismo, o emprego do espaço e do ritmo corporal em movimentos. Partindo desses estudos, experimentações e investigações por parte de bailarinos e coreógrafos da época, muitas outras possibilidades de movimentação foram criadas, enriquecendo a história e ajudando na construção de mais uma forma de manifestação da dança. Em todos os períodos que se fez presente, sendo criada, recriada ou transformada, a dança abrangeu em termos de técnica e/ou historicidade o que foi possível. Desse modo, absorvendo a essência e peculiaridades humanas da sociedade e do momento vivido, a pós-modernidade, a dança contemporânea surge 6

7 da intenção de abordar temas, ações e relações do ser humano para com seu meio ambiente social, mostrando por meio do corpo, seus desgostos e enfermidades, o que há de bom e/ou de ruim dentro da pequena célula chamada sociedade que habita um corpo maior - a terra. A fome, a pobreza e as mazelas sociais são também outros temas abordados por esta dança que vem denunciar e/ou falar algo através do corpo e da arte. Depois de criar, separar, reinventar, unir todas as tendências e técnicas já existentes, a dança contemporânea vem protestar contra o que está estabelecido, contra o mundo tal como ele foi construído e, consequentemente, também contra o homem, tal como ele hoje se apresenta (CAMINADA, 1999, p.453). Logo, A evolução e progresso da Dança através da história não é aleatória. Obedece a padrões [...] ou [nasce] da necessidade latente do homem de expressar [o que sente] [...] através das formas mais diversas de dança (NANNI, 2008, p.1). Portanto, a dança que hoje é apreciada nos palcos ou festividades da cultura de um povo, passou por diversas experimentações e investigações no corpo do bailarino ou praticante ao longo de todos esses séculos, antes de se apresentar no formato que hoje é conhecida. Esse corpo que absorveu e ajudou na construção de todas as variações de dança, muitas vezes forçado a ser robusto ou magro, alto e esguio, sofreu durante esta jornada, contudo sem sua contribuição, tanto na história do homem quanto na do mundo, muitas pesquisas e indagações acerca do corpo não poderiam ter sido concretizadas. 2 DISSECANDO O CORPO. Na atualidade, a pesquisa acerca do corpo se abrangeu a tal ponto, que já não é mais analisado sob uma única ótica. As vertentes que o estudam vêm se diversificando cada vez mais. A cristandade da Idade Média, o mecanicismo da revolução industrial e a intensamente da contemporaneidade, são pensamentos distintos e áreas diversas que abordam o mesmo objeto de estudo: o corpo. Segundo Sant Anna (2004, p.3), Realizar uma história do corpo é um trabalho tão vasto e arriscado quanto aquele de escrever uma historia de vida. Mesmo se restringindo ao estudo do corpo humano, são incontáveis os caminhos e numerosas formas de abordagem: da medicina à arte, passando pela antropologia e pela moda, 7

8 há sempre novas maneiras de conhecer o corpo, assim como possibilidades inéditas de estranhá-los. Diferentes contextos e abordagens ao decorrer dos tempos nortearam este corpo que come, corre e sente. As considerações realizadas a respeito das abordagens seja antropológica, teológica ou filosófica, dentre outras mais, não se eximiram de um estudo e investigação aprofundada do corpo biológico. Nesse diagnóstico, o corpo pode ser compreendido como um grande sistema, sujeito a manipulações científicas (transplante de órgãos, implantação de marcapasso e testes com células-tronco, por exemplo). Na atualidade, esses enfoques são ainda bastante relevantes, porém, uma nova perspectiva é lançada sobre este corpo, que passa a ser analisado a partir de sua essência e suas particularidades individuais. A narrativa acerca das necessidades de sobrevivência do corpo não é apenas funcional, mas abrange questões sociais, culturais e históricas. O corpo acaba por se tornar o agente propulsor da condição da existência humana na terra. Historicamente, os enfoques de como o corpo seria visto, sentido e interpretado foram se diversificando. Na era pré-histórica, o conhecimento acerca desse tema pelos sujeitos que viviam neste período, nada mais era do que uma extensão, uma continuação do ambiente em que residiam no universo. Durante séculos, a sociedade deste período se utilizou da natureza que se tornou referência fundamental à vida humana. Através das próprias experiências, o indivíduo primitivo, ao adquirir alguma doença, por exemplo, recorria à terra ou às divindades/feitiçaria em busca da cura para sua indisposição, descobrindo e redimensionando para si o valor da natureza/divino. Na antiguidade, uma nova interpretação começa a ganhar força. A alma e corpo não podem coexistir em um único ser, acabando por supervalorizar o primeiro em detrimento do segundo. Platão afere fraquezas ao corpo e o torna instrumento de corrupção e decadência moral por estar este à mercê das paixões e desejos inadequados ao verdadeiro conhecimento (CARVALHO apud PLATÃO, [s.d.], p.1). E neste ambiente de tensões, o pensamento dicotômico entre corpo e alma se fez dominante, tornando qualquer questionamento sobre este assunto um tabu, fragmentando-o de vez da alma. O bem da alma estava acima dos desejos e prazeres da carne e, portanto, acima dos aspectos materiais. O corpo se tornou culpado, perverso e necessitado de purificação (ROSÁRIO apud PAIM, 2004, p.1). 8

9 Tal dicotomia se intensificou de forma decisiva com o pensamento de René Descartes ( ) que considerava o corpo, res extensa, pura exterioridade, matéria, uma máquina, enquanto que o pensamento, res cogitans, é a verdade indubitável, de natureza espiritual. Para ele: Deus fabricou nosso corpo como máquina e quis que ele funcionasse como instrumento universal, operando sempre da mesma maneira, segundo suas próprias leis (CARVALHO, [s.d.], p.1). Mesmo com um desprestígio acentuado, o corpo no período renascentista é redescoberto ganhando uma nova forma de ser compreendido, principalmente, no que diz respeito às artes, onde o corpo nu aparece como destaque por pintores como Michelângelo, Da Vinci, entre outros (SIEBERT, 1995; ROSÁRIO, 2004 apud PAIM, 2004, p.1). Mesmo com novas interpretações, este ainda era analisado de forma sintética, ou seja, ainda visto e generalizado como corpo/matéria, um corpo/objeto. O momento histórico seguinte buscou aprofundar-se nas questões que norteiam o estudo do corpo, deixando-o mais orgânico, perpassando por aprofundamentos filosóficos e principalmente antropológicos. Essas abordagens mais a influência deixada pela revolução industrial ajudaram o indivíduo a se conectar cada dia mais às técnicas científicas e à tecnologia. Segundo Rosário (apud PAIM, 2004, p.1), [...] junto com a industrialização, na metade do século XX, os meios de comunicação começaram a funcionar como propulsores da comunicação de massa. A reprodução do corpo não fica mais somente no âmbito da pintura, agora, ela, pode atingir um número elevado de indivíduos. O corpo pode ser reproduzido em série, através da fotografia, do cinema, da televisão, da internet, etc. O corpo envolto a tantos conhecimentos e a busca pelo progresso, iniciaram um processo de adaptação às novas exigências, imposições e principalmente informações da nova realidade que a atual sociedade estabelecia: o corpo/máquina do século XXI. O corpo que modifica e produz, também é transformado e de acordo com a informação que lhe é denotada adquire uma identidade. De acordo com Oliveira ([s.d.], p.6), [...] uma política de informação promove uma política de identidade para os corpos: em um mundo em que é obrigatório ser visto, o estabelecimento de padrões/estilos de corpo e de vida em uma engenharia da informação têm tido uma intenção de moralizar a carne : sem estrias, sem irregularidades, sem excessos. De uma liberação individual nos anos 60 teríamos hoje uma liberação biológica. 9

10 Com este boom da superexposição do homem, o século XXI é percebido como o período de uma crescente glorificação do corpo, sua exibição pública é cada vez maior, deixando transparecer o que antes era escondido e, aparentemente, mais controlado (PAIM, 2004, p.1). Na contemporaneidade, a interpretação do corpo tende a caminhar para questões mais estéticas, sociais e culturais. Logo, as diferentes transformações sofridas pelo corpo ao longo da história o marcam, mudando em muitos momentos a interpretação dada em cada época. Novas maneiras de pensar, refletir e interpretá-lo têm sido investigadas e analisadas, proporcionando novos estudos e discussões acerca de novos olhares a respeito deste tema pela sociedade. A exploração (no ambiente de trabalho; em casa; sexual), a mídia (principalmente televisiva e cibernética), a estética, a saúde, a morte, entre outros aspectos da contemporaneidade hoje são muito mais intensificados, marcando e resgatando aspectos da história tatuados neste corpo, que ainda não saciou sua sede por novas propostas de experimentações, acabando por encontrar nas artes, especificamente na dança, um meio de construção e revitalização desta herança histórica. 3 O E UM CORPO NA DANÇA: IN-NATURA, PECAMINOSO, ESTRATIFICADO E (DES)CONSTRUÍDO. O corpo em seus primórdios oscilava entre o feroz e o dócil, dependendo da situação e ambiente em que o homem se encontrava, mesmo assim possuía uma função de extrema importância dentro da sociedade incivilizada, principalmente na dança. Naquele tempo, os homens acreditavam ser parte de um universo maior do que o que habitavam, e por meio da dança, este corpo ritualístico veio agradecer, pedir, comunicar-se ou simplesmente se divertir. Através de movimentos que imitavam o balançar das folhas das árvores, das ondas dos rios, dos animais que temiam ou não, o corpo do ser primitivo, tido como selvagem, tentava transmitir uma mensagem, esta que era facilmente decodificada pelo seu semelhante, de forma a acompanhá-lo na referida manifestação. O corpo com propósito sagrado foi facilmente constatado em várias sociedades, principalmente na egípcia. O corpo feminino era muito mais visado, em termos de importância do que o masculino. Sacerdotisas inalavam incensos, 10

11 entravam em transe e iniciavam as danças em oferendas ao divino, em busca da comunicação com a força maior superior dos céus, emprestavam seus corpos para que o sagrado o tomasse para si e dissesse o que os reis, o alto poder na terra daquele período, gostariam de saber. Contudo, não somente de endeusamento o corpo na antiguidade se alimentou. Com a ajuda da alquimia, os espetáculos da época tornavam a participação do corpo ainda mais expressiva na dança, através do corpo equilibrista, que saltava, esticava-se, exibia-se e atuava nas pantomimas daquela época. Não se pode falar de corpo nas danças da antiguidade e não falar de Grécia e Roma. A primeira, logo percebeu sua importância, e tratou de educá-lo conjuntamente com a mente, pois acreditava na doutrina corpo são, mente sã. Inseriu a dança como maneira de tornar o homem um ser prefeito, polido. Fora a primeira sociedade que se utilizou do corpo através da dança e [dos] gestos para explicar as partes complicadas da história contada (SANTOS, 1997, p.9). Segundo Antunes (1994 apud SANTOS, 1997, p.9) a instrução e exercício da dança dentro da sociedade grega [...] eram maneiras privilegiadas de educar o cidadão e promover a harmonia entre o espírito e o corpo e, desta forma, alcançar o ideal da perfeição e da beleza. A dança neste período se mostrou benéfica em outros campos além da comunicação e diversão, sendo essencial na [...] educação, [estimulando] a harmonia das formas e [disciplina do] corpo. Os próprios guerreiros praticavam a dança, a fim de desenvolverem a agilidade física (SANTOS, 1997, p.9). Ao contrário da Grécia, a sociedade de Roma não se interessava tanto pela arte da dança. O corpo se fazia presente através do entretenimento, pantomimas juntamente com a música e combinada com acrobacias, contudo, acreditava-se que o corpo do homem romano fora feito para as lutas, para as ações bárbaras, fazendo com que a Igreja olhasse a dança e o corpo com maus olhos. Em uma Idade Média cheia de contradições, principalmente a que permeava a separação entre matéria e espírito, o corpo ganhou uma ressignificação. Antes visto como sagrado, agora teria outra visualização, o profano. Segundo Schmitt (1995 apud DAMBROS, 2008, p.1) no século VI, vários autores mencionam o uso do corpo a propósito dos vícios a gula em Pomerius, a fornicação (relacionamento sexual ilícito) em Cassiano e o orgulho em Gregório. 11

12 Com toda essa mudança de perspectiva do corpo, a dança que antes era executada no interior das Igrejas com a função de louvar, glorificar e atrair fiéis que necessitassem receber a educação na palavra de Deus, passou a ser renegada pela Igreja, no momento em que começou a perceber que os homens da época, ao verem as mulheres dançando em alguma comemoração ou em agradecimento a Deus, sentiam-se atraídos pela carne, quer dizer, pelo corpo feminino em seu sentido sexual, o desejo carnal. Rígido, disciplinado, que obedece sem questionar o certo e o errado, fino, elegante, este é o corpo construído e desejado no período pós-idade Média: A renascença. Ser educado era um pré-requisito para se encaixar na sociedade desta época. Plié e demi-plié foram umas das muitas técnicas pelas quais o corpo renascentista se sujeitava para ser perfeito. Enquanto no referido período a métrica dos passos exatos e corpos esteticamente belos eram imprescindíveis, a manifestação de dança seguinte viria regressar ao ambiente e forma mais natural e intimista do movimento. A dança moderna, através de bailarinos como Isadora Duncan, veio desconstruir o corpo já alongado e polido pelas regras rígidas do ballet e resgatar a dança primitiva, através da renovação do movimento que era encontrado nos fenômenos naturais, que se sobrepunham à utilização de qualquer artefato cênico na apresentação (SANTOS, 1997). Na Europa, Rodolf Laban [interessou-se] pelo movimento e pelo corpo em geral. O seu trabalho originou o alastramento da dança a várias dimensões: terapia, educação e lazer (SANTOS, 1997, p.11). Partindo dessa propagação dos diversos âmbitos que a dança conquistou, a modalidade que mais se destaca pela sua particularidade e semelhança com as outras danças é a dança contemporânea, a qual é [...] fruto da experiência do balé clássico, da dança moderna, da dança expressionista, de influências orientais e de modos recentes e urbanos de se movimentar, como o hip-hop e a street dance, a dança contemporânea é hoje uma construção estética consistente, embora difícil de conceituar (SIQUEIRA, 2006, p.107). A dança como uma das mais antigas expressões artísticas existentes no mundo se projeta como arte do movimento corporal, utilizando-se de múltiplos recursos, como por exemplo, a tecnologia e materiais cênicos, mas principalmente o corpo para materializar suas emoções, dores e seus propósitos. 12

13 O corpo contemporâneo vem abordar os mais variados aspectos, mazelas e verdades de uma sociedade, ou simplesmente falar de algo que pode ser relevante ou não para um público. A fluência [coreográfica] pode ser observada pela exploração de infinitas possibilidades de utilização do espaço, pela alternância e variação de movimentos técnicos e livres que se evidenciam de forma mais expressiva (GODOY apud CAMARGO, 2010, p.1). A liberdade corporal do bailarino é mais evidenciada e observada neste tipo de dança já que ele pode [...] ser simultaneamente [intérprete/criador e pesquisador] do movimento e não apenas submeter-se ao coreógrafo, estimulando a conjugação da criação com a atuação. Essa possibilidade é interessante porque quebra o esquema de perda de autonomia do bailarino sobre seu próprio corpo. Ao participar da criação e experimentação, está de algum modo, deixando de lado a postura daquele que apenas executa o que é exigido (CAMARGO, 2010, p.1). As experimentações que o corpo do bailarino na dança contemporânea realiza perpassam pelo: [...] corpo investigativo, capaz de explorar, improvisar, pesquisar gestos e movimentos de dança; corpo plural, capaz de transitar pela diversidade de técnicas, procedimentos criativos, conhecimentos de outras áreas e gêneros artísticos; corpo próprio, capaz de revelar sua singularidade (sua dança enquanto dança), aquilo que lhe é próprio, particular e o que se denomina corpo apropriado de sentido, capaz de apropriar-se do potencial de expressão, dos seus múltiplos sentidos (TERRA apud CAMARGO, 2010, p.1). Assim, o corpo que investiga, reflete, propõe, executa e imprime [...] suas marcas pessoais, culturais e sociais [no mundo] (BRASIL, 1998a; BARRETO, 2004 apud VIEIRA, [s.d.], p.1), socializa através da dança uma diversidade de informações e conhecimento adquiridos durante esta jornada histórica, provocando indagações e pensamentos a respeito do quê, para quem e por que se dança. 4 AFINAL, POR QUE DANÇAMOS? Os humanos sentem a necessidade de exteriorizar o que no momento estão sentindo, pensando. E a dança, por ser uma atividade bastante prazerosa, torna-se um meio canalizador de tensões, pelo qual o homem [...] pode expressar e transmitir aos outros a sua interpretação da realidade ou do imaginário (SANTOS, 1997, p.12), além de proporcionar diversão, felicidade, tranquilidade, entre outros sentimentos, fazendo com que o indivíduo interaja com o meio e consigo próprio. 13

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