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1 dança é fruto da necessidade de expressão da pessoa e se liga ao ue há de básico na natureza humana: sentimentos, desejos, realiades, sonhos, traumas, através das formas mais diversas. Quantas ezes a dança é utilizada para contar, ilustrar, representar e localiar a história de um povo, de uma civilização, de uma época? São ndubitáveis sua importância e significação. Falemos, porém, da linuagem da dança habilitando a pessoa com deficiência para a vida, dança como instrumento facilitador da percepção de que o indiíduo faz parte finalmente ou novamente de uma sociedade. ossa imaginação e lembrança logo se colocam atentas buscando reistros e suas formas. A imagem 6 7 quase imediata que nos vem à cabeça é

2 Dança Sobre Rodas rosangela bernabé* uma pessoa com sapatilhas realizando um salto ou pirueta espetacular. A dança é fruto da necessidade de expressão da pessoa e se liga ao que há de básico na natureza humana: sentimentos, desejos, rea lidades, sonhos, traumas, através das formas mais diversas. Quantas vezes a dança é utilizada para contar, ilustrar, representar e localizar a história de um povo, de uma civilização, de uma época? São indubitáveis sua importância e significação. Falemos, porém, da linguagem da dança habilitando a pessoa com deficiência para a vida, a dança como instrumento facilitador da percepção de que o indivíduo faz parte finalmente ou novamente de uma sociedade. Nossa imaginação e lembrança logo se colocam atentas buscando registros proposta paradoxal? A memória nos fala que um corpo contemplado de suas formas. A imagem quase imediata que nos vem à cabeça é uma pessoa com sapatilhas realizando um salto ou pirueta espetacular. Que boas novas podemos retirar do longo tempo de per manência do ser humano no mundo que experimenta? Aqui, podemos abrir espaço a uma breve reflexão sobre a imagem do corpo deficiente, a imagem que trazemos impressa na mente, buscando assim algumas referências que se ajustem à idéia inicial. Por um instante, fechemos os olhos e visualizemos uma pessoa deficiente, em sua Dança Sobre Rodas rosangela bernabé

3 cadeira de rodas, e em movimento. A imagem mais simples que se delineia é de alguém sentado e outra pessoa atrás empurrando. Podemos até vislumbrar uma cadeira motorizada, mas dificilmente imaginaremos essa pessoa rodopiando livre e levemente, descendo de sua cadeira, dançando No primeiro momento, o retorno à posição de pé se apresenta como solução ideal para quem não anda sobre as próprias pernas; a deficiência pode ser responsabilizada pela impossibilidade de fruição da pessoa. O movimento parece ser antagônico na presença de uma lesão e, talvez por isso, imaginar alguém em sua cadeira de rodas num palco, dançando, seja tão difícil. O trabalho com a dança e seus elementos vêem transformar a cena e a imagem que o estigma da deficiência imprimiu em muitas culturas pelo mundo afora. No Brasil, o último censo desenhou uma população de muito mais que os 10% anteriormente detectados como portadores de alguma deficiência. Ora, se uma lesão nos rouba o movimento músculo-articular do conjunto do nosso corpo, calculemos aqui o conjunto que anima o corpo dessa população. São barreiras invisíveis aos olhos menos atentos, mas fazem parte do todo resultante que somos, sentimos e experimentamos. A brasileira, pesquisadora e crítica de dança Helena Katz propõe que pensemos o corpo numa perspectiva co-evolutiva de troca de informação com o meio. Isto é, como resultado co-evolutivo da sua relação com o ambiente, o corpo é mídia, processo constante, dança é fruto da necessidade permanente de e expressão transitório da de pessoa acomodamento e se liga ao ao conceito de dança ue há de básico na natureza aqui levantado humana: inicialmente, sentimentos, avançamos desejos, realiades, sonhos, traumas, ceito, através subseqüente das formas e focalizado, mais diversas. de que Quantas a dança faz parte da imagem então em direção a um con- ezes a dança é utilizada corporal para contar, do povo ilustrar, brasileiro. representar Lembremo-nos e localiar a história de um povo, clore, de do uma gingado civilização, que parece de uma ser nossa época? marca São registrada e, até mes- do carnaval, do rico fol- ndubitáveis sua importância mo, da e miscigenação significação. que Falemos, caracteriza porém, nosso da linuagem da dança habilitando Já a que pessoa estamos com deficiência colocando para os olhos a vida, a serviço da imaginação, desenho corporal. dança como instrumento por paradoxal facilitador que da percepção seja, acrescentemos de que o indiíduo faz parte finalmente arquitetônicas ou novamente mais banais de que uma ainda sociedade. encontramos em todos os lu- a esses dados as barreiras ossa imaginação e lembrança gares: escadarias, logo se colocam portas atentas estreitas, buscando teatros com reistros acesso somente até a e suas formas. A imagem 8 9 quase imediata que nos vem à cabeça é

4 platéia e quase nunca ao palco e camarins. Como traduzir tudo isso? Montamos esse cenário para situar a dedução de que a paralisia emocional que se revela, é muito mais contundente do que a dificuldade de locomoção imposta por qualquer lesão. uma pessoa Acreditamos com sapatilhas e constatamos realizando que um essa salto linguagem ou pirueta está espetacular. repensada e transformada, aqui em nosso país, tanto através de sendo soluções quantitativas como qualitativas. Ao compreender a dança como um processo que inclui a pessoa deficiente no corpo social, estamos falando de uma abrangência interna e externa num ter ritório muito mais amplo do que aquele ocupado pelo corpo em uma cadeira de rodas e que, obviamente, varia de indivíduo para indivíduo. A dança e seus elementos ganham um caráter instrumental muito valioso, pois se tornam uma ponte de acesso à vida, cuja largura, altura, comprimento e condições serão determinados por quem nela transitar. Elementos como ritmo, coordenação, equilíbrio, dentre outros, fazem parte da vida e, portanto, são os elos de ligação com o que se deseja habilitar. A dança, como a propomos, é um processo que inclui princípios básicos que visam a estruturar o corpo de maneira que o indivíduo construa uma imagem inteira de seus ossos, músculos e articulações, e cuja identidade de movimento se faça através da utilização do potencial remanescente. Ou seja, aprender através das dificuldades invocadas pela lesão, com uma linguagem gestual recriada a partir da releitura do corpo diferente. Com ou sem atropelos, o corpo pode construir, organizar e transformar seus limites sem fronteiras. O passaporte para o movimento desejado é o próprio gesto já reconhecido, festejado e internalizado. O indivíduo pode, utilizando o espaço aberto pela leveza que a dança proporciona, convidar o corpo a rever os mitos, refazer seus caminhos próprios, íntimos, criar uma atmosfera apropriada para o encontro consigo mesmo, o que pode se dar ao mesmo tempo em que se retiram de cena traumas, complexos ou mitos impostos por informações imprecisas sobre o corpo. Em outras palavras, a pessoa pode reconhecer e substituir a fantasia que a amedronta no instante em que experimenta o movimento no chão, na cadeira, na velocidade de um giro Dança Sobre Rodas rosangela bernabé

5 ou no silêncio mágico criado entre um gesto e outro, breve que seja, até aquele entre um desequilíbrio e a recuperação do ritmo, numa frase musical. São instantes que trazem de volta o brilho do olhar e podem reinscrever trajetórias que dizem respeito tanto ao conceito de imobilidade imposto ao corpo diferente, quanto àquele que traduz sua forma de estar no mundo. Em 1988, ainda não havia experiência acadêmica registrada com o trabalho de dança em cadeira de rodas no Brasil. Haviam as atividades voltadas para o esporte de competição ou não, mas as pessoas que desejavam dançar e se sentiam de certa forma impedidas excluíam-se por si, continuando a freqüentar centros de reabilitação mesmo já tendo concluído o tempo para tal ou permaneciam em suas próprias casas. Hoje, os dados obtidos pela Confederação Brasileira de Dança em Cadeira de Rodas, cbdcr, registram mais de 60 grupos, incluindo os de dança artística e de salão. A dança é oferecida como mais uma opção de lazer em centros esportivos, associações e clubes de pessoas deficientes e já está nos currículos de formação das faculdades de educação física, fisioterapia, arteterapia, dentre outras. Um olhar retrospectivo de avaliação da evolução desses 15 anos de implantação do movimento da dança nos mostra corpos porque não dizer mais saudáveis, decididos, corajosos, expostos ao calor tropical, disponíveis ao movimento da vida, aos olhares de cima para baixo. Parece que a vocação dançante do povo brasileiro não se rendeu à paralisia de expressão que o estigma da pessoa da deficiência e se liga ao impõe: continuamos a dança é fruto da necessidade ue há de básico na natureza dançar. humana: Não são necessárias sentimentos, novas desejos, definições realiades, sonhos, traumas, corpo através diferente das formas combina mais com diversas. a magia Quantas da dança. para a dança, pois o ezes a dança é utilizada para O contar, resultado ilustrar, não é representar igual para todos. e localiar a história de um povo, ou mundial, de uma é civilização, o aprendizado de uma com época? a diferença, São a rica diversidade, as- Para a cultura brasileira ndubitáveis sua importância sim como e significação. as etnias existentes, Falemos, os porém, diferentes da linuagem da dança habilitando animais, a que pessoa existem com deficiência no Brasil e no para mundo. a vida, climas, costumes, cores, dança como instrumento facilitador É o exercício da percepção de descobrir que o indiíduo faz parte finalmente justamente ou a novamente diferença. Mais de uma do que sociedade. se apresentar para uma platéia, que nos faz semelhantes é ossa imaginação e lembrança é subir no logo palco se colocam da própria atentas vida. buscando reistros e suas formas. A imagem quase imediata que nos vem à cabeça é

6 Os depoimentos que se seguem poderão ratificar as con clusões sugeridas: A partir do meu contato com a dança, meu corpo tomou posse de movimentos pessoa que desconhecia com sapatilhas e sequer realizando imaginava um salto poder ou explorar. pirueta espetacu- Hoje, já uma lar. trago impressa em mim uma música que percorre silenciosa os meus gestos, que trás a dança que me faz dançar, a dança que me faz criar, a dança que me faz andar. Andar sobre minhas rodas, sobre o resgate da minha verticalidade, andar quando me aproprio do direito de ir e vir, de estar erguida sobre o meu desejo de mover a vida. Meu desejo de estar, de me fazer incluir, antes em mim e depois no mundo. Mas um mundo mais saudável, mais justo, menos segmentado, mais de todos do que de algumas partes. A dança faz parte de um processo de mudança, de transformação, que trata da inclusão naturalmente, delicadamente, como na verdade deveria ser nosso gesto para o outro, para o mundo. beth caetano, bailarina tetraplégica. Tenho 20 anos, sou paraplégica há 16 e danço há 14 anos. A dança entrou na minha vida, inicialmente apenas como a realização de um desejo de menina que aos 6 anos teve vontade de ser bailarina, sem planos futuros ou maiores pretensões. Só que junto às aulas onde contava pequenas histórias com meu corpo, marcava os ritmos e fazia pequenas combinações de movimentos, foi surgindo algo muito maior e nem sempre tão perceptível, que ressoou em toda a minha vida. No meu caso, essas mudanças serviram, não para me inserir no social, pois nunca me senti excluída, mas para me lembrar constantemente que continuava na sociedade, só que de forma diferente, sentada em minha cadeira de rodas, que me levaria a todos os lugares e me possibilitaria fazer o que quisesse. Também tive ganhos em relação ao meu corpo (mais equilíbrio, flexibilidade, auto conhecimento, maior domínio, movimentos mais amplos, mais agilidade com a cadeira que é parte integrante deste novo corpo). E como não é possível separar o pessoal do social, essas Dança Sobre Rodas rosangela bernabé

7 transformações não foram isoladas, ecoaram, por exemplo, em minha disponibilidade emocional diante de situações difíceis de lidar e me ajudam a me posicionar, demonstrando para todos através das minhas atitudes que uma pessoa com uma deficiência tão aparente também estuda, pode trabalhar e se divertir. Cada vez mais, tenho certeza de que a dança continua me trazendo benefícios, alguns mais explícitos, outros menos. Mas isso, eu entendo como uma troca, na qual entrego meu corpo à dança e ela me retribui sendo uma das responsáveis pela minha felicidade. renata carvalho, estudante de Psicologia. dança é fruto da necessidade de expressão da pessoa e se liga ao ue há de básico na natureza humana: sentimentos, desejos, realiades, sonhos, traumas, através das formas mais diversas. Quantas ezes a dança é utilizada para contar, ilustrar, representar e localiar a história de um povo, de uma civilização, de uma época? São ndubitáveis sua importância e significação. Falemos, porém, da linuagem da dança habilitando a pessoa com deficiência para a vida, dança como instrumento facilitador da percepção de que o indiíduo faz parte finalmente ou novamente de uma sociedade. ossa imaginação e lembrança logo se colocam atentas buscando reistros e suas formas. A imagem 12 13quase imediata que nos vem à cabeça é

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