TEIXEIRA, R. C. F. UNIMONTES CIENTÍFICA. Montes Claros, v.5, n.1, jan./jun. 2003

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1 A passagem do direito ao trabalho para a empregabilidade : privatização do espaço público através das políticas sociais de emprego na contemporaneidade The transition from the right to work to the empregabilidade : privatization of the public place through the social policies of employment in the contemporary world Regina Célia Fernandes Teixeira * Resumo: Nosso estudo focaliza a estreita associação entre política de emprego e formação profissional, fortalecida em programas governamentais, diretivas sindicais e empresariais, a partir da década de oitenta, e que realça a emergência de um novo fenômeno: a dimensão educacional das atuais políticas de emprego. No âmbito das políticas públicas de emprego, o governo atribui à qualificação profissional o objetivo de promover condições para que os trabalhadores possam fazer face à centralidade do conhecimento e, desse modo, encontrar seu próprio trabalho. É o que se convencionou chamar de empregabilidade. No conceito de empregabilidade está implícita a tendência em eximir o Estado do seu dever em relação ao direito do cidadão ao trabalho, de caráter público e político, e repassar tal dever aos indivíduos, desse modo, uma questão privada, pessoal. Palavras-chave: Formação profissional, políticas de emprego, transformações no mundo do trabalho, cidadania. Abstract: This study focus on the close connection between the policy of employment and professional qualification, strengthened in governmental programs, union and business directives, from the eighth decade on, which highlights the emergency of a new phenomenon: the educational dimension of the current policies of employment. In the scope of the public policies of employment, the government attributes to professional qualification the objective of promoting conditions in which workers can face the centrality of knowledge and thus to find their own job. That is the idea of empregabilidade. It is implicit in its concept the tendency to exempt the State from its obligations in relation to the citizen s right to work, of a public and political nature, and pass such obligations to the individuals, thus a private and personal issue. Key words: professional qualification, policies of employment, transformations in the labor world, citizenship * Mestre em Educação/UFMG Universidade Federal de Minas Gerais. Professora Adjunta da UNIMONTES Universidade Estadual de Montes Claros. 1

2 Introdução As mudanças advindas da reestruturação técnica e organizacional do setor produtivo têm atingido sobremaneira o mercado de trabalho, apresentando novas exigências para o trabalhador, dentre as quais poderíamos mencionar o desenvolvimento de competências cognitivas, da capacidade de comunicação e o domínio de conhecimentos científicos e tecnológicos. O amplo processo de transformações que hoje caracteriza o mundo do trabalho tem contribuído para redefinir o perfil profissional dos trabalhadores e, assim, tem exercido fortes impactos sobre o campo educacional, traduzindo-se em novas diretrizes para a formação profissional, em consonância com requisitos que passaram a ser exigidos dos trabalhadores. Durante a década de noventa, observamos um movimento de mudanças nas políticas públicas, adotadas no país, no sentido de apresentar soluções para o desemprego estrutural, um dos mais graves problemas deste final de século, destacando-se o investimento em educação, formação e qualificação profissional dos trabalhadores, com clara responsabilidade atribuída à educação, que passou a ser enfatizada como redentora dos problemas econômicos e sociais do país. Nesse sentido, a formação dos trabalhadores tem sido encaminhada através de políticas formuladas pelo Ministério do Trabalho (MTb) e pelo Ministério da Educação (MEC). Este último interveio no processo de discussão e elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n.º 9.394/96, e o Ministério do Trabalho, através da Secretaria de Formação e Desenvolvimento Profissional (SEFOR), tem reforçado políticas de formação do trabalhador, particularmente através de recursos fornecidos pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), hoje um dos principais mecanismos para subsidiar programas de requalificação da força de trabalho no Brasil. No início de 1998, o MEC apresentou o Plano Nacional de Educação (PNE), no qual a educação profissional é tratada como educação tecnológica e formação profissional, atribuindo a esta última o papel de requalificar os trabalhadores para o mercado de trabalho. No caso dos jovens, a formação profissional é vista como sua preparação para o mercado de trabalho; já no caso dos adultos, como readaptação ao mercado. No entanto, no Brasil, faltam informações mais precisas sobre a oferta de formação para o trabalho e, principalmente, para os programas de geração de emprego e renda, pois são 2

3 vários os programas oferecidos pelo governo, através do Ministério da Educação e também pelo Ministério do Trabalho. As políticas voltadas especialmente para a formação profissional foram regulamentadas pela Lei n.º de 30 de junho de 1994, que criou o Plano Nacional de Formação Profissional (PLANFOR), embora este plano só tenha se consolidado a partir de Os recursos do FAT representam, hoje, a base de sustentação de tais políticas, envolvendo um montante que chega a 1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Considerando o PLANFOR parte integrante do Sistema Público de Trabalho e Renda, o governo atribuiu-lhe os objetivos de articular a Rede Nacional de Educação Profissional, estimular o aumento gradativo do atendimento aos trabalhadores e promover a renovação do conceito de educação profissional. Assim, tem como propósito, conforme documentos divulgados pela SEFOR, atuar junto à gestão da execução de programas de educação profissional, de acordo com as exigências apresentadas pelo mercado de trabalho, realizando estudos, análises e orientações, coordenando e supervisionando atividades relacionadas à formação e ao desenvolvimento de profissionais para o mercado de trabalho e articulando o campo da educação profissional. Sua meta seria a de contribuir para a qualificação ou requalificação, a cada ano, de 20% da População Economicamente Ativa (PEA) do país (MTb-SEFOR, FAT/CODEFAT, <http:www.mte.gov.br>). Em 1995, foi instituído o Programa de Geração de Emprego e Renda (PROGER), com o objetivo de estimular a geração de emprego e renda mediante a concessão de linhas especiais de crédito para pequenas e microempresas, cooperativas e formas associativas de produção próprias da economia informal, setores com pouco ou nenhum acesso ao sistema financeiro. Tal política seria implementada a partir de recursos do FAT, obtidos através de critérios definidos pelas Comissões Municipais de Emprego. Além de fornecer financiamento para pequenos setores da atividade produtiva, o programa prevê também a capacitação gerencial do beneficiário, o acompanhamento de suas atividades econômicas e a assistência técnica à sua iniciativa empresarial. A SEFOR parte do pressuposto de que o processo de reestruturação produtiva pelo qual passa o setor produtivo no Brasil significa a superação do paradigma taylorista/fordista pelo da automação flexível, trazendo conseqüências para a qualificação e educação da força de trabalho. Atribuindo à educação um papel redentor, a referida Secretaria sustenta 3

4 que é o seu desenvolvimento e expansão que propiciarão condições para criar postos de trabalho, cada vez mais qualificados. A mudança de paradigma produtivo, de acordo com o PLANFOR, também acarretou as transformações do modelo de formação profissional que, antes fundamentado no treinamento estreito para postos de trabalho, é voltado à produção de competências, demandando dos trabalhadores o desenvolvimento de capacidades cognitivas complexas, em particular as relativas a todas as formas de comunicação, ao domínio de diferentes linguagens e ao desenvolvimento do raciocínio lógico-formal (Kuenzer, 2002). Trata-se, agora, de ampliar os horizontes da formação profissional, estimulando ações educativas que garantam a elevação do nível de escolarização básica da PEA. Através de uma política de negociações entre governo, empresários e trabalhadores, a SEFOR vem coordenando o PLANFOR, que conta com uma soma incalculável de recursos públicos, provenientes do FAT. Os efeitos que as ações do PLANFOR poderiam alcançar sobre a sociedade foram amplamente divulgados pelo governo e, assim, passaram a envolver também a participação de universidades, públicas e privadas, tanto na execução quanto na avaliação de suas atividades. Duas são as dimensões que podemos destacar nas ações do PLANFOR. De um lado, sua abrangência, opulência de recursos e envolvimento da sociedade civil; de outro, a execução da educação profissional, materializando-se como modalidade educacional 1, que vem se manifestando de forma predominante e crescente em espaços alternativos ao tradicionalmente escolar. No âmbito das políticas públicas, a nova institucionalidade proposta pelo PLANFOR e o envolvimento da sociedade civil, através de acordos entre governo, empresários e trabalhadores, apresentam, do nosso ponto de vista, um ineditismo por parte do governo, seja na apresentação de sua agenda para a nova institucionalidade da educação profissional no país, seja como nova referência para a história da formação profissional dos trabalhadores brasileiros. A estratégia governamental para a educação profissional, apoiando-se na utilização dos recursos do FAT, tem como justificativa contribuir para democratizar as relações entre Estado e sociedade civil. Consideramos que as políticas de qualificação profissional que emergem no bojo desse programa precisam ser compreendidas no contexto da atual 4

5 reforma do Estado brasileiro, pois tais políticas nascem com essa reforma e incorporam os inúmeros problemas que a personaliza. Embora a defesa da não intervenção do Estado seja uma retórica renitente da ideologia neoliberal, é no campo das políticas sociais, especificamente daquelas voltadas para o trabalho, que se observa um alto grau de intervenção do Estado capitalista. Exatamente no momento de refluxo das demandas populares, as políticas sociais sobressaem no cenário brasileiro. Um dos pontos importantes da reforma estrutural do Estado brasileiro é a redefinição do seu papel, sob os paradigmas da desregulamentação, flexibilização e privatização. Essa é a concepção que, recuperando parcialmente velhos princípios do liberalismo clássico sobre o funcionamento do mercado, passa a orientar as políticas públicas. É nesse contexto e dentro desses limites que se inscrevem as reformas educacionais em curso no Brasil. Para explicar as relações entre as políticas públicas de formação profissional e as atuais transformações ocorridas no mundo do trabalho, procuramos analisar as mudanças recentes no mundo produtivo, bem como os argumentos apresentados pelo governo para justificar programas de formação profissional, particularmente a tese segundo a qual a baixa qualificação da força de trabalho é fator de atraso ou de impedimento do desenvolvimento do país. Mudanças no mundo do trabalho: políticas para formação profissional No novo contexto de mudanças do país, entidades sindicais, governo e empresários vêm apresentando diretivas para as políticas de emprego que estabelecem uma estreita associação entre política de emprego e formação profissional. Tratando-se de um fenômeno que não se registra, com tal ênfase, em épocas precedentes no Brasil, o vínculo entre políticas de emprego e formação profissional chamou-nos a atenção, particularmente porque os programas de geração de emprego e renda, que foram apresentados nos anos noventa, realçam, de modo particular, a dimensão educacional, especialmente a educação profissional. E o que designamos por dimensão educacional das políticas públicas de emprego? Que importância identificamos nessa dimensão? A educação ganha centralidade no debate sobre o problema do emprego no Brasil com a reestruturação do capitalismo, que trouxe enormes transformações para o mundo social e 5

6 produtivo, modificando também as relações entre Estado e sociedade civil. Até a década de oitenta, o modelo de acumulação industrial do país apoiava-se na existência de uma força de trabalho desqualificada, barata e descartável. O revolucionamento das dimensões técnica e administrativa da organização do trabalho, que vem se operando em nível mundial desde os anos setenta, chegando ao Brasil por volta de oitenta, produziu grandes modificações em todos os aspectos da sociedade, particularmente no mundo do trabalho. O trabalhador da indústria foi solicitado a deixar de ser um mero executor de tarefas parcializadas e a participar mais ativamente do conjunto da produção, organizando-se em ilhas de trabalhadores (e tantos outros modos de administração chamados japoneses ) e lidando com os resultados da introdução da microeletrônica na atividade fabril. Ligada a essa nova forma de trabalho, amplamente conhecida como a transição do fordismo ao pós- fordismo, emerge a questão da centralidade do conhecimento. Tal centralidade não está circunscrita à organização industrial, mas se espalha por toda a sociedade, no mesmo momento em que a informática vai invadindo todos os cantos do planeta e exigindo, cada vez mais, novos conhecimentos para operar os mais variados aparatos que se interpõem à vida diária de cidadãos e cidadãs. Os novos conhecimentos exigidos dos trabalhadores, portanto, dão forma ao que se tem chamado de centralidade do conhecimento na sociedade moderna. Passam a influir na definição (ou redefinição) dos processos de qualificação profissional e, assim, dos requisitos para a inserção dos indivíduos na nova dinâmica da atividade produtiva, calcada no pós- fordismo. Neste quadro, procuramos analisar também o que chamamos de gestão política de tal problema, expressa no que se convencionou chamar de empregabilidade. Que relações procuramos estabelecer entre centralidade do conhecimento e empregabilidade? No momento em que as mudanças técnicas e organizacionais passaram a ser introduzidas no mundo do trabalho, forjando um novo paradigma produtivo, surgiram múltiplos problemas, dentre os quais uma crise generalizada de emprego, em todo o mundo ocidental. Isso também se deu em meio a uma redefinição das relações entre o Estado e a sociedade civil, que representou, dentre outros aspectos, o afastamento do Estado da área social. Assim, muitas questões que eram atribuídas à competência do Estado, tais como o trabalho, saúde e mesmo a educação, passaram a ser entregues às forças do mercado. 6

7 É nesse contexto que aparece o conceito de empregabilidade. Ele opera uma conversão na idéia de direito ao trabalho, velha conquista da cidadania no âmbito das lutas democrático-burguesas, que implicava também, em contrapartida, a noção de dever do Estado. No conceito de empregabilidade está implícita a tendência em eximir o Estado do seu dever em relação ao direito do cidadão ao trabalho, de caráter público e político, e repassar tal dever aos indivíduos, considerados isoladamente, tornando esse dever, deste modo, uma questão privada, pessoal. Assim, a empregabilidade significa o dever de cada indivíduo (que desaparece como cidadão, já que, no conceito de cidadania, há a dimensão do coletivo, do público) de encontrar seu próprio trabalho no mercado capitalista. A passagem do direito ao trabalho para a empregabilidade, favorecida pela ideologia da mercantilização e privatização do espaço público, encontra seu melhor sustentáculo no novo paradigma produtivo, a reforçar a importância da qualificação profissional, redefinida como competência. Para lutar por seu lugar no mercado de trabalho, no qual a educação ganhou centralidade, torna-se imprescindível aos indivíduos adquirir competências, através da educação profissional. Foi esse o caminho que nos permitiu entender como se formam os vínculos entre centralidade do conhecimento e empregabilidade, para depois esclarecer os seus laços com a dimensão educacional dos programas de geração de emprego e renda no Brasil. Para o mercado neoliberal, a gestão por competência implica dispor de trabalhadores flexíveis para lidar com as mudanças no processo produtivo, portanto sujeitos à transferência de função. Para tanto, a polivalência adquirida através de uma formação profissional contínua de suas competências é que garantiria a condição de empregabilidade (Séron apud Deluiz, 2001). Assim, os conhecimentos e habilidades devem ter uma utilidade prática e imediata, ou seja, o trabalhador instrumentalizado para atender às necessidades do processo produtivo (Deluiz, 1997, p ). Hirata (1997) mostra que, para garantir a empregabilidade num mercado de trabalho mutável, é preciso desenvolver habilidades cognitivas, reflexivas. Tais habilidades se traduzem em competências, compreendidas como uma capacidade do tipo particular, adquirida mediante o esforço pessoal. No entanto, a redução da oferta de trabalho e 7

8 também das possibilidades de exercer a empregabilidade, devido às crises das condições de produção capitalista, contribui para agravar as tendências de exclusão social dos menos aptos. Apresentando uma metáfora para expressar a situação dos trabalhadores frente ao atual mercado de trabalho, Pochmann (2001) se reporta à dança das cadeiras. Na dança das cadeiras, brincadeira infantil, quando a música pára, há mais pessoas em pé do que cadeiras disponíveis para se sentar. Uns ficam de fora, enquanto outros conseguem manter seus postos de trabalho. Poucos, cada vez menos, conseguem subir na pirâmide social ou pelo menos conseguem um trabalho como garantia de seus direitos, condição de sobrevivência e dignidade humana. Já na formulação de Paoli (1998), em um mercado no qual mais de um terço dos trabalhadores estão destituído das proteções legais mínimas, as estratégias do capital passam não só por legalizar essa destituição dos direitos, já exercida neste imenso mercado informal e embutida em vários setores de produção, como passam pela tentativa de estendê-la de fato para toda a força de trabalho (apud Telles, 1996, p. 113). A metamorfose operada através do conceito de empregabilidade, que converte o direito ao trabalho, direito de cidadania, em dever de encontrar trabalho e/ou nele se manter, como uma responsabilidade individual, realiza um deslocamento do social ao particular. É para esse deslocamento que Castel (1998) chama a atenção quando afirma que, num contexto de globalização da economia, que também se expressa no mercado de trabalho, a exigência de flexibilização é instaurada sem a mediação dos direitos coletivos tal é o processo através do qual a individualização se instaura. Segundo o referido autor, a flexibilização das formas de trabalho, que marca a década de noventa, é a mais variada possível. Existem desde contratos de trabalho por tempo determinado até aqueles interino e de tempo parcial. As situações intermediárias entre emprego e não-emprego também constituem objeto de novas formas de contratualização: contratos de volta ao emprego, contratos emprego-solidariedade, contratos de reinserção em alternâncias etc. Estas últimas modalidades de contrato, diz o autor, põem em evidência, de modo significativo, a ambigüidade dos processos de individualização do direito social e das proteções trabalhistas. Para o autor, frente à promoção do 8

9 individualismo, operada pelas políticas neoliberais, o próprio direito social se particulariza, se individualiza. Neste quadro, subordinados à conotação de uma deficiência de dificuldades particulares, de natureza pessoal, os trabalhadores se tornam reféns dos seus direitos e, para ser assistido, é necessário reconhecer e manifestar os sinais de incapacidade, uma deficiência em relação ao posto de trabalho comprometendo sua dimensão cidadã (Ibidem). Ainda segundo Castel (1998), com o aumento do individualismo de massa, a cobrança individual dos trabalhadores é exercício de anticidadania, e esse tratamento não convém a um cidadão pleno. Por tudo isso, o direito do trabalho vive um momento de transição num caminho de múltiplas incertezas, tantas quantas as que resultam das transformações tecnológicas, sociais, econômicas, políticas e históricas, o que contribui para transformar o início do século num período de dúvidas e incertezas. Como dizíamos, se até os anos oitenta a força de trabalho no Brasil não dependia de uma qualificação profissional para se inserir no mercado, a partir de então, com a introdução do novo paradigma produtivo, esse problema foi afrontado. De um lado, pelos condicionantes das novas formas de organização técnica e administrativa do trabalho e, de outro, pelo que estamos chamando de gestão política do problema da centralidade do conhecimento no novo paradigma produtivo. Essas duas dimensões se associam no âmbito das políticas de geração de emprego e renda, formuladas pelo governo na década de noventa, expressando também, de forma tupiniquim, a passagem do direito ao trabalho à empregabilidade. Na Europa, o direito ao trabalho existiu concretamente, convertendo-se na política do pleno emprego, como no caso da Alemanha, em que o papel do Estado era fundamental. O novo paradigma produtivo desorganizou essas relações entre Estado e políticas de emprego, produzindo maciças quantidades de desempregados. No Brasil, não chegou a existir uma situação de pleno emprego. O novo paradigma produtivo acentuou a clássica questão do desemprego no país que, entretanto, passou a ser associada ao problema da desqualificação da força de trabalho. Interpretando tal desqualificação como incompatível com a centralidade do conhecimento na sociedade moderna, emergem os programas de geração de empregos e renda, estabelecendo vínculos entre empregabilidade e educação, nos moldes da formação profissional. 9

10 Desse modo, a noção de empregabilidade representa, ao nosso ver, o deslocamento do dever do Estado com o direito de cidadania ao trabalho para a idéia do dever do indivíduo em encontrar o seu próprio trabalho. Levando em conta essa referência, como se explicaria uma política governamental voltada para a geração de emprego e renda, que propõe geração de empregos, do ponto de vista político e público, mas fundada numa perspectiva privada do emprego (a empregabilidade)? O eixo que liga essas contraditórias dimensões da política de geração de empregos é, ao nosso ver, o que estamos chamando de dimensão educacional das políticas de emprego. Através de múltiplas ofertas de formação profissional, subsidiadas com o próprio dinheiro dos trabalhadores, o governo fomenta instrumentos para que os trabalhadores, como indivíduos, cuidem de sua própria competência e encontrem o seu trabalho. A adesão dos trabalhadores a essa estratégia, por sua vez, é obtida pelo governo através da participação do movimento sindical nas decisões sobre os programas de qualificação profissional. A abundância de recursos captados pelas instituições que ministram cursos de formação profissional, dentre elas os sindicatos, tem funcionado como um atrativo que contribui para selar a concordância do movimento sindical com princípios do neoliberalismo que estão na base das políticas formuladas pelo PLANFOR como, por exemplo, o da empregabilidade. A participação do movimento sindical nas decisões sobre a transferência de recursos públicos para políticas de formação profissional acaba se revelando como um mecanismo de obtenção do consentimento dos trabalhadores a políticas inspiradas em ideologias que não lhes são favoráveis e, assim, contribuindo para neutralizar a sua oposição e a sua crítica a diretrizes governamentais que são contrárias aos seus interesses. Desse modo, é obtido o consentimento social à passagem tupiniquim do direito ao trabalho para a empregabilidade. Opera-se, em outras palavras, a privatização da dimensão pública e estatal da questão do emprego. Das análises que relacionam as estratégias para compreensão do vínculo do Estado e as políticas públicas sociais na atual esfera do neoliberalismo, depreendemos a possibilidade das políticas sociais apresentar como característica a subordinação do político ao econômico e o entendimento do abandono, degradação, omissão e concessão do público, expressando, em grandes linhas, um contexto onde o papel reservado ao Estado reduz e 10

11 passa a exercer o papel de regulador e/ou administrador das desigualdades sociais, através de atuações emergenciais e pragmáticas. Ao disseminar que o grande responsável por não arranjar emprego é o próprio trabalhador o qual não dispõe de competências requisitadas pelo mercado de trabalho, o teor das atuais políticas públicas de emprego, além de obscurecer as verdadeiras causas políticas e econômicas da exclusão social de uma parte considerável da população, impõe um processo de competição e de individualismo (Paiva, 1995; Gentili, 1997; Deluiz, 1996). A empregabilidade, ao nosso ver, expressa o afastamento do Estado das questões sociais, o qual tende a tratar o emprego não mais como problema social e, sim, como responsabilidade dos trabalhadores, o que favorece o aprofundamento de mecanismos de exclusão existentes na sociedade capitalista. No âmbito das políticas neoliberais, a empregabilidade é definida como sendo a passagem de uma situação de desemprego para a de emprego, ou seja, é formalizada como a probabilidade de saída do desemprego, ou capacidade de obter um emprego. Talvez uma das definições que melhor expresse o conceito de empregalidade difundido pelo Estado neoliberal seja: No novo contexto, a política de emprego tem procurado dar prioridade à empregalidade, ou seja, a melhoria das condições de cada cidadão para buscar, obter ou produzir uma ocupação que lhe garanta renda suficiente para sua manutenção e de sua família (Guimarães, 1998, p. 259). A adoção do critério da empregabilidade, pelas políticas de emprego e renda atuais, acentua fortemente formas de obtenção de renda por iniciativa dos próprios trabalhadores. O sucesso ou insucesso na obtenção de trabalho seria resultado de atributos pessoais dos indivíduos para enfrentar o quadro das mudanças que marcam, na atualidade, o setor produtivo. Neste quadro, Aguilar (2000) afirma que a ofensiva neoliberal direciona sua ênfase e prioridades com os pressupostos condizentes com a regulação flexível. Seus principais referenciais de ação dizem respeito à privatização, descentralização, localização e programas sociais de urgência. Um Estado que não concorre com o mercado nem impede a concorrência e que permite o exercício da liberdade que o capitalismo apregoa, traz como conseqüência o seu afastamento das garantias dos direitos de cidadania conquistados, retratado nas palavras de Borón (1989), como a morte pública do Estado, revertendo o 11

12 quadro do keynesianismo, o qual, nas últimas décadas, passou a ser apontado pelos neoliberais como foco de uma era de desperdícios, de altos impostos inibidores do investimento, de desestímulo ao trabalho e outras mazelas (apud Aguilar, 2000). Para autores como Castel (1998), Frigotto (1999) e Aguilar (2000), o processo de redefinição do papel do Estado, num momento de crise econômica, tem um pressuposto ideológico básico: o da afirmação de que todos os problemas e malefícios econômicos, sociais e políticos do país decorrem da presença do Estado no setor de produção para o mercado. Todas as soluções e todos os benefícios econômicos, sociais e políticos procedem, segundo os referidos autores, da presença das empresas privadas no setor de produção. O mercado, na perspectiva neoliberal, é portador de racionalidade sócio-política e agente principal do bem-estar da república. Ora, isto significa, de acordo com Aguilar (2000), que a reforma do Estado não prevê apenas a saída do Estado do setor de produção para o mercado, mas também do setor de serviços públicos, pois a reforma estabelece uma identificação imediata entre intervenção estatal reguladora da economia e direitos sociais. A configuração do Estado capitalista no interior de todo este complexo processo, aqui minimamente citado, nos mostra a dimensão do afastamento do Estado das questões sociais. Muitas questões, segundo Telles (1996), passam a ser entregues às forças de mercado que, de acordo com seus ditames, a obtenção e manutenção do emprego passam a ser mérito e responsabilidade individual, configurando-se uma nova política estatal, direcionando e reforçando a educação como meio privilegiado para a empregabilidade da força de trabalho. Conforme argumenta Telles (ibidem), as conquistas sociais alcançadas no período keynesiano estão sendo devastadas pela avalanche neoliberal no mundo inteiro. Para a autora, a destituição dos direitos significa a erosão das mediações políticas entre o mundo do trabalho e as esferas públicas. Na lógica neoliberal, ocorre a afirmação da liberdade individual e a apologia das virtudes práticas do mercado livre e o lugar dos serviços públicos é preconizado pela política de privatização. As políticas públicas de emprego que emergem do contexto neoliberal expressam o pressuposto da empregabilidade diante da grave crise do desemprego que atinge toda a sociedade capitalista. São perspectivas calcadas, de acordo com Azeredo (1998), no determinismo tecnológico que tem, predominantemente, direcionado as análises e práticas 12

13 voltadas para o enfrentamento da chamada crise do Estado e seus desdobramentos, em especial a questão do emprego/desemprego (Ibidem). De acordo com Hirata (1998), o Estado, ao entender a empregabilidade não apenas como a capacidade de obter um emprego mas, sobretudo, de se manter em um mercado flexível, declara que o grande responsável por não arranjar um emprego é o próprio trabalhador, que deverá reconhecer a importância de dispor do maior arsenal possível de competências para adquirir um emprego. Frente ao fenômeno do desemprego, conseqüência da difusão do novo modelo de organização técnico produtivo e do acirramento da competição intercapitalista, o Estado neoliberal, segundo Pochmann (2001), apresenta estratégia e/ou mecanismos governamentais através de programas de ações educativas e geração de emprego e renda, com vistas e perspectiva de garantia da empregabilidade da classe trabalhadora. Para Teixeira (1998, p ), os neoliberais vão retomar a tese clássica de que o mercado é a única instituição capaz de coordenar racionalmente quaisquer problemas sociais, sejam eles de natureza puramente econômica ou política. O desemprego, problema coletivo e social, é tratado pelas atuais políticas ativas de geração de emprego e renda, como o PROGER/PLANFOR, uma vez que estas são orientadas para qualificar profissionalmente os trabalhadores e, assim, delegar-lhes responsabilidade pelo seu próprio emprego, através da busca de sua empregabilidade. A título de conclusão O caminho percorrido neste trabalho sinaliza a função ideológica e política do conceito de empregabilidade que, no processo de formação profissional, apregoa o individual e o Estado fica sujeito a atender demandas que têm como objetivo final estabelecer um certo equilíbrio no mercado de trabalho, de forma que a formação do trabalhador seja de responsabilidade estatal, atribuindo ao trabalhador a responsabilidade pelo seu trabalho. O acesso ou não ao emprego aparece como dependendo da estrita vontade individual de formação, quando se sabe que fatores de ordem macroeconômica contribuem decisivamente para essa situação individual. Nesse caminho de construção pública em resposta ao privado, esses programas operam a transferência simultânea da responsabilidade do emprego para a esfera do privado, ou seja, 13

14 a obrigação por estar desempregado e de ter que individualmente resolver essa situação desfavorável. Sendo assim, ser competente e gerar seu próprio emprego e renda ou inserção no mercado de trabalho é uma questão particular. Quanto à delegação de responsabilidade ao trabalhador, pela sua condição de desempregado, presente nas políticas públicas de educação e emprego em curso, a educação profissional reitera a lógica da racionalidade financeira que toma o mercado como foco e não os direitos de cidadania, como fundamento para as propostas de formação profissional, justificando assim o descompromisso do governo com a insanável dívida social que o país acumulou com os trabalhadores e excluídos. Nessa perspectiva, as formas de obtenção de renda são fortemente acentuadas e vinculadas à educação, mantendo-se a idéia de que a responsabilidade de encontrar ou não um trabalho é do indivíduo. Assim, o sucesso ou insucesso na obtenção de trabalho seria resultado de atributos pessoais dos indivíduos, para enfrentar o quadro das mudanças produtivas que marcam os tempos atuais, enfrentando obstáculos para retomar a atividade, no caso dos desempregados. E, como se explicaria uma política governamental como a do PROGER que propõe geração de empregos, do ponto de vista político e público, mas que está fundada numa perspectiva privada do emprego? Ao afirmar que a empregabilidade representa melhoria das condições de cada cidadão de obter seu emprego, não estariam as políticas de emprego, tais como o PROGER e o PLANFOR, apresentando como algo positivo o que pode representar um retrocesso nas conquistas históricas da cidadania? No momento em que as mudanças técnicas e organizacionais passaram a ser introduzidas no mundo do trabalho, forjando um novo paradigma produtivo, surgiram múltiplos problemas, dentre os quais uma crise generalizada de emprego, em todo o mundo ocidental. Isso também se deu em meio a uma redefinição das relações entre o Estado e a sociedade civil, que representou, dentre outros aspectos, o afastamento do Estado da área social. Assim, muitas questões que eram atribuídas à competência do Estado, tais como o trabalho, saúde e mesmo a educação, passaram a ser entregues às forças do mercado. É nesse quadro que aparece o conceito de empregabilidade. Ele opera uma conversão na idéia de direito ao trabalho, velha conquista da cidadania no âmbito das lutas democrático-burguesas, que implicava também, em contrapartida, a noção de dever do Estado. A passagem do direito ao trabalho para a empregabilidade, favorecida pela ideologia da mercantilização e privatização do espaço público, encontra seu melhor 14

15 sustentáculo no novo paradigma produtivo, a reforçar a importância da qualificação profissional, redefinida pela pedagogia da competência. Discutimos o sinal dos tempos representado pelas contradições, ambigüidades e possibilidades que tal noção apresenta. Neste quadro, reiteramos que a educação, ao longo de toda a vida, é mais que um direito. É conseqüência de uma cidadania ativa e uma condição para participação plena na sociedade. O reconhecimento do direito à educação, ao trabalho e ao direito de aprender durante toda a vida é mais que uma necessidade; é o direito que garante dignidade para desenvolver e praticar capacidades e competências individuais e coletivas. Portanto, é tarefa urgente ultrapassar o reino das aparências para estabelecer as verdadeiras relações que conferem uma nova materialidade ao discurso da pedagogia das competências e da empregabilidade. Referências bibliográficas CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, COVRE, M. L. M. O que é cidadania? São Paulo: Brasiliense, DEDECCA, C. D. Emprego e qualificação no Brasil dos anos 90. In: OLIVEIRA, M. A. (Org.). Reforma do Estado e políticas de emprego no Brasil. Campinas (SP): GDF, UNICAMP. IE, 1998a. DELUIZ, N. Formação do trabalhador: produtividade e cidadania. Rio de Janeiro: Shape, DRAIBE, Sônia; HENRIQUE, W. Welfare State, crise e gestão da crise: um balanço da literatura internacional. Revista brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, n. 6, v. 3, p , fev FALEIROS, Vicente. O que é política social? São Paulo: Brasiliense, FIORI, José Luís. Em busca do dissenso perdido: ensaios críticos sobre a festejada crise do Estado. Rio de Janeiro: Insight, FOGAÇA, A. Modernização industrial: um desafio ao sistema educacional brasileiro. In: PINO, A. et al. A educação e os trabalhadores. São Paulo: scritta; DNTE/CUT, 1992, p FRIGOTTO, G. Educação e a crise do capitalismo real. São Paulo: Cortez, GENTILI, Pablo. (org) Neoliberalismo, qualidade total e educação. Rio de Janeiro: Vozes,

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