2 REVISÃO DE LITERATURA. 2.1 História da dança

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1 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.1 História da dança A dança é a mais antiga das artes criadas pelo homem. Nas pinturas das cavernas préhistóricas, podemos ver a tentativa dos primeiros artistas de mostrar o homem primitivo dançando instintivamente, usando seus movimentos e gestos para agradar vitórias, celebrar alguma festa, enfim, o homem dançava em cada manifestação de vida. A dança, como arte de divertir, surgiu com o teatro grego que incluía o canto e a pantomima nos seus espetáculos dançados: os gregos foram os primeiros a usar a dança e os gestos para explicar as partes complicadas da história contada. Os antigos romanos, combinavam música e dança com acrobacias e números de circo para ilustrar fábulas populares. Não só na Grécia e em Roma, mas também no Egito antigo a dança foi desde muito cedo a maneira de celebrar os deuses, de divertir o povo e a partir desse ritual se desenvolveram os elementos básicos para arte teatral atual. O ballet- clássico é o desenvolvimento e a transformação dessa dança primitiva, que baseava-se no instinto, para uma dança formada de passos diferentes, de ligações, de gestos de figuras previamente elaborados para um ou mais participantes. A história do ballet começou há 500 anos atrás na Itália. Nessa época os nobres italianos divertiam seus ilustres visitantes com espetáculos de poesia, música, mímica e dança. Esses divertimentos apresentados pelos cortesãos eram famosos por seus ricos trajes e cenários muitas vezes desenhados por artista célebre como Leonardo da Vinci. O primeiro ballet registrado aconteceu em 1489, comemorando o casamento do Duque de Milão com Isabel de Árgon. Os ballets da corte possuíam graciosos movimentos de cabeça, braços e tronco e pequenos e delicados movimentos de pernas e pés, estes dificultados pelo vestuário feito com material e ornamentos pesados. Era importante que os membros da corte dançassem bem e, por isso, surgiram os professores de dança que viajavam por vários lugares ensinando danças para todas as ocasiões como: casamento, vitórias em guerra, alianças políticas, etc. Quando a italiana Catarina de Medicis casou com o rei Henrique II e se tornou rainha da França, introduziu esse tipo de espetáculo na corte francesa, com grande sucesso.

2 19 O mais belo e famoso espetáculo oferecido na corte desses reis foi o "Ballet Cômico da Rainha", em 1581, para celebrar o casamento da irmã de Catarina. Esse ballet durava de 5 a 6 horas e fez com que rainha fosse invejada por todas as outras casas reais européias, além de ter uma grande influência na formação de outros conjuntos de dança em todo o mundo. O ballet tornou-se uma regularidade na corte francesa que cada vez mais o aprimorava em ocasiões especiais, combinando dança com música, canções e poesia e atinge ao auge de sua popularidade quase 100 anos mais tarde através do rei Luiz XIV. Luiz XIV, rei com 5 anos de idade, amava a dança tronou-se um grande bailarino e com 12 anos dançou, pela primeira vez, no ballet da corte. A partir daí tomou parte em vários outros ballets aparecendo como um deus ou alguma outra figura poderosa. Seu título " REI DO SOL", vem do triunfante espetáculo que durou mais de 12 horas. Este rei fundou em 1661, a Academia Real de Ballet e a Academia real de Música e 8 anos mais tarde, a escola Nacional de Ballet. O professor Pierre Beauchamp, foi quem criou as cinco posições dos pés, que se tornaram a base de todo aprendizado acadêmico do Ballet clássico. A dança se tornou mais que um passatempo da corte, se tronou uma profissão e os espetáculos de ballet foram transferidos dos salões para teatros. Em princípios, todos os bailarinos eram homens, que também faziam os papéis femininos, mas no fim do século XVII, a Escola de Dança passou a formar bailarinas mulheres, que ganharam logo importância, apesar de terem seus movimentos ainda limitados pelos complicados figurinos. Uma das mais famosas bailarinas foi Marie Camargo, que causou sensação por encurtar sua saia, calçar sapatos leves e assim poder saltar e mostrar os passos executados. Com o desenvolvimento da técnica da dança e dos espetáculos profissionais, houve necessidade do ballet encontrar, por ele próprio, uma forma expressiva, verdadeira, ou seja dar um significado os movimento da dança. Assim no final do século XVIII, um movimento liderado por Jean-Georges Noverre, inaugurou o "Ballet de Ação", isto é, a dança passou a ter uma narrativa, que apresentava um enredo e personagens reais, modificando totalmente a forma do Ballet de até então. O Romantismo do século XIX transformou todas as artes, inclusive o ballet, que inaugurou um novo estilo romântico onde aparecem figuras exóticas e etéreas se contrapondo aos heróis e heroínas, personagens reais apresentados nos ballets anteriores. O período Romântico na Dança, após algum tempo, empobreceu-se na Europa, ocasionando o declínio do ballet. Isso porém, não aconteceu na Rússia, graças ao entusiástico patrocínio do Czar.

3 20 As companhias do ballet Imperial em Moscou e São Petersburgo (hoje Leningrado), foram reconhecidas por suas soberbas produções e muitos bailarinos e coreógrafos franceses foram trabalhar com eles. O francês, Mauris Petipa, fez uma viagem à Rússia em 1847, pretendendo um passeio rápido, mas também tornou-se coreógrafo chefe e ficou lá para sempre. Sob sua influência, o centro mundial da dança transferiu-se de Paris para São Petersburgo. Na sua longa história, o ballet tomou muitas direções diferentes e, por ser uma arte muita viva, ainda continua em mudando. Mas, apesar das novas danças e das tendências, futuras existe e existirá sempre um palco e uma grande audiência para os trabalhos tradicionais e imortais. Dançar é definido como uma manifestação instintiva do ser humano. Antes de polir a pedra e construir abrigos, os homens já se movimentavam ritmicamente para se aquecer e comunicar.. Considerado a mais antiga das artes, a dança é também a única que dispensa materiais e ferramentas. Ela só depende do corpo e da vitalidade humana para cumprir sua função enquanto instrumento de afirmação dos sentimentos e experiências subjetivas do homem. Segundo certas correntes da antropologia, as primeiras danças humanas eram individuais e se relacionavam à conquista amorosa. As danças coletivas também aparecem na origem da civilização e sua função associava-se à adoração das forças superiores ou dos espíritos para obter êxito em expedições guerreiras ou de caça ou ainda para solicitar bom tempo e chuva. O desenvolvimento da sensibilidade artística determinou a configuração da dança como manifestação estética. No antigo Egito, 20 séculos antes da era cristã, já se realizavam as chamadas danças astroteológicas em homenagem ao deus Osíris. O caráter religioso foi comum às danças clássicas dos povos asiáticos. Na Grécia clássica, a dança era freqüentemente vinculada aos jogos, em especial aos olímpicos. Com o Renascimento, a dança teatral, virtualmente extinta em séculos anteriores, reapareceu com força nos cenários cortesãos e palacianos. Uma das danças cortesãs de execução mais complexa foi o minueto, depois foi a valsa, considerada dança cortesã por excelência, e com ela se iniciou a passagem da dança em grupo ao baile de pares. A configuração de um gênero de dança circunscrito ao âmbito teatral determinou o estabelecimento de uma disciplina artística que, em primeira instância, ocasionou o desenvolvimento do ballet e, mais tarde, criou um universo dentro do qual se deu desenvolveram gêneros como os executados no music hall, como o sapateado e o swing.

4 21 Na Antigüidade a dança revestia duas formas: dança sacra (que fazia parte das cerimônias religiosas - Hebreus) e dança profana. Entre os Gregos foi particularmente cultivada a púrica (dança guerreira doa Lacedemónios) a fálica (Báquica) e a jônica (dança voluptuosa). Em Roma, a dança era considerada um espetáculo e apenas se reservava aos profissionais. A partir do Renascimento a dança tomou um grande desenvolvimento com a Sarabanda, a Pavana, a Corrente, a Gavota, o Minuete, etc. No século XIX apareceram a Contradança (que se transformou na quadrilha), a Valsa, a Polca, a Mazurca, o Scottish, o Pas-de-quatre, etc. No século passado surgiu o Boston, só destronado pelas danças exóticas (Cake-Walk, Maxine, One Step, Fox-Trot, e Tango). Desde a antigüidade, a humanidade já tinha na expressão corporal, através da dança, uma forma de se comunicar. Encontramos influências culturais dos países onde são dançados e de onde são originários os ritmos. Cada cultura transporta seu conteúdo as mais diferentes áreas, dentre estas, as danças absorvem grande parte desta transferência, pois sempre foi de grande importância nas sociedades através dos tempos, seja como uma forma de expressão artística, como objeto de culto aos Deuses ou como simples entretenimento. No entanto em tempos mais remotos o sentido da dança tinha um caráter místico, pois era muito difundida em ritos religiosos e raramente era dançada em festas comemorativas. O Renascimento cultural dos séculos XV / XVI trouxe diversas mudanças no campo das artes, cultura, política, dentre outras. Dentro deste contexto, a dança também sofreu profundas alterações que já vinham se arrastando através dos anos. Nesta época a dança começou a ter um sentido social, isto é, agora era dançada em festas pela nobreza apenas como entretenimento e como recreação. Desde então a dança social foi se transformando e aos poucos tornou-se acessível às camadas menos privilegiadas da sociedade que já desenvolviam outro tipo de dança: as danças populares, que inevitavelmente, com estas alterações de comportamento foram se unindo às danças sociais, dando origem assim a uma nova vertente da música, dançada por casais, que mais tarde seria denominada Danças de Salão. Dança, em sentido geral, é a arte de mover o corpo segundo uma certa relação entre tempo e espaço, estabelecida graças a um ritmo e a uma composição coreográfica. 2.2 A dança no projeto E.P.I. Aprender a conviver, aprender a ser As danças trabalhadas no projeto, podem ser classificados em dois grandes grupos: Danças folclóricas e Danças populares. Desenvolvidas sob o método da improvisação e da dança criativa.

5 22 Alguns exemplos dos vários tipos de dança: Ballet, Bolero, Break-dance, Capoeira, Can Can, Cha-Cha-Cha, Contemporânea, Disco, Flamenco, Foxtrot, Funk, Jazz, Mambo, Merengue, Moderna, Polka, Rumba, Salsa, Samba, Swing, Tango, Twist, Valsa. Buscou- se através da história, resgatar as funções sociais assumidas pela dança, até caracterizá- la como um instrumento educacional, para entendermos a sua importância como forma de expressão e socialização da cultura africana. É preciso entender um pouco da cultura negra para entender a razão de seus movimentos. No complexo sistema de crenças Africanas, existem os deuses que possuem títulos e funções diferentes. Segundo BRAGA (1998 in OURIQUES 2005), os orixás, além de possuírem seus toques rítmicos e cânticos, possuem também suas danças próprias. Para alguns musicólogos, a concepção africana do ritmo é bem mais complexa do que a européia, observando- se ainda melhor capacidade rítmica do negro ao empregar, simultaneamente, várias marcações de tempo. (CARDOSO, 1982 citado por ROSA, 2004) Para OURIQUES (2005), a prática da dança Afro abrange variados segmentos corporais, cabeça, tronco, braços e pernas, acrescidos de agilidade e muita sensualidade. Acompanha uma expressão rítmica marcada pela vibração dos instrumentos de percussão onde a expressão corporal conduz, naturalmente, à expressão vocal. A dança Afro é uma atividade física que fornece muitos elementos: o canto, a poesia e apropria identificação cultural para a educação do movimento, especialmente para crianças, além dos componentes da função motora como: coordenação, ritmo, equilíbrio desenvolvendo a percepção corporal da criança e ampliando suas possibilidades de movimento. (...) No âmbito social é notável a aplicação da dança no resgate da cultura africana, ou qualquer outra cultura que se deseja resgatar especialmente em trabalhos sociais de cunho étnico que buscam através da dança e de outras práticas corporais, a inclusão de crianças e adolescentes, em sua maioria afro- descendentes representando um passo importante para o jovem reconhecer e valorizar as raízes históricas e, ao mesmo tempo identificar- se como parte integrante de um processo histórico cultural em constante transformação. Considerando que a escola é uma instituição de ensino formal, porém com a função de sistematizar, socializar e universalizar o conhecimento acerca do real, e de que a dança faz parte deste conhecimento, poderíamos concluir que a dança afro- brasileira contextualizada em nosso histórico cultural é um tema- conteúdo a ser tratado dentro das escolas.

6 23 Há ainda alguns estilos de dança, como as folclóricas e de salão, que são uma forma de dança social que se desenvolveu como parte dos costumes e tradições de um povo e são transmitidas de geração em geração. Muitas danças exigem pares, outras são executadas em roda, às vezes se colocam em fileiras. Embora as danças folclóricas sejam preservadas pela repetição, vão mudando com o tempo, mas os passos básicos e a música assemelhem-se ao estilo original. Todos os países têm algum tipo de dança folclórica e a maioria pertence apenas a sua nação, como por exemplo: a tarantela, italiana, o drmes, croata ou o krakowiak, polonês e o frevo brasileiro. Algumas são executadas em ocasiões especiais, como a polca de Natal sueca, a hayivka, dança da Páscoa ucraniana, a hochzeitstanz, dança austríaca de casamento e o reisado brasileiro, que festeja a véspera do dia de Reis. No projeto foram trabalhas as origens de cada criança, como descendência e antepassados, e então discutidos, pesquisados e trabalhados. Todo material provém de pesquisas em livros e na Internet, realizadas pelas próprias crianças durante o projeto em questão. A literatura existente sobre o folclore coreográfico brasileiro é, em sua quase totalidade, obra de não especialistas em dança. Em geral as obras que a integram se constituem de música e de letras mas não descrevem as danças. No Brasil, cerca de 500 danças diferentes foram assinaladas, desde os rincões gaúchos às selvas amazônicas. Diversificam-se, como as demais danças primitivas e folclóricas, em: movimentos com o carpe em harmonia ou em desarmonia, como samba e candomblé, respectivamente; tema - abstratas (frevo) ou de imagem (danças dramáticas); forma - coletivas (maracatu), individuais (pais-de-santo), de pares (tiranas). As danças brasileiras, como a raça brasileira, provêm das mesmas matrizes: européia, africana e leves influências indígenas. Em algumas já não se notam claramente as origens étnicas, como no frevo, a dança mais rica e original do Brasil. a) Região Sul: Entre as mais antigas, contam-se as tiranas, de origem nitidamente espanhola, pertencem à categoria das danças de par e de galanteio, como as andaluzas. Tirana-dos-farrapos, tirana-grande, tiranas-de-dois, tirana-tremida. A chula é uma dança solista masculina, de desafio, acompanhada por canto, em 2/4. O balaio é uma dança em 2/4, cantada, com a síncope característica das danças filiadas ao lundu.

7 24 A chimarrita, de origem portuguesa. O tatu, dança sapateada em grupos de pares, e acompanhada de canto. A meia-canha tem música de polca e é comum na fronteira uruguaia e argentina. O anu é dança de coreografia rica, compondo-se de uma parte rápida, incluindo palmas à moda espanhola. O schottish, ou xote, de duas damas é uma das muitas variantes da dança alemã, dançada por um homem e duas mulheres. O pezinho é portuquesa quase pura, trazida provavelmente pelos imigrantes açorianos. O caranguejo é dança portuguesa, cantada, de pares, em 2/4, comum na zona do litoral sulino. b) Leste do Brasil: Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Influência africana que se ramifica em todo o país. O batuque profano. O candomblé (Bahia) ou macumba religiosa, xangôs (Pernambuco, Alagoas e Paraíba), tambor-de-mina (Maranhão), babaçuque (Pará). O samba (umbigada - palavra africana) dos morros cariocas, da Bahia e de São Paulo, proveniente do Congo ou Angola. O samba de roda, no Rio de Janeiro, das famosas escolas de samba. O samba baiano. O jogo de capoeira, praticado no Rio de Janeiro e especialmente na Bahia. c) Região Nordeste: O frevo (Pernambuco). O baião, ligada ao épico dos cangaceiros. O bumba-meu-boi ou boi-surubi. As cheganças (marujos, barca, fandango), pertencentes a categoria de danças dramáticas. Os ranchos, são peculiares à Bahia. Dos caboclinhos ou cabocolinhos, reminiscências ameríndias. Os congos, o maracatu. A dança de São Gonçalo, de origem lusitana. Ainda durante o projeto foram desenvolvidas atividades com Danças Nacionais e Populares de diversos países, como por exemplo: Espanha - Fandango, Bolero, Jota, Seguidilha, Flamenco Itália. Tarantela, Furlana

8 25 Polónia - Mazurca e Polca Portugal - Vira, Verde-Gaio, Malhão, Fandango Ribatejano, Pauliteiros de Miranda do Douro, Gota, Chula, Corridinho. 2.3 Dança Criativa e Improvisação Para FERRARI (1994), ser humano dança por uma necessidade interior, muito mais próxima do campo espiritual do que do físico; seus movimentos constituem, em definitivo, formas de expressar os sentimentos: desejos, alegrias, pesares, gratidões, respeito, temor, poder. Em nossa proposta de pesquisa prevemos, como parte dos processos de composição coreográfica, um ensino de dança onde o professor torne-se não o impositor de técnicas e conceitos, mas o fomentador das experiências, o guia que orienta seus alunos para uma descoberta pessoal de suas faculdades. Acredita- se que a Dança- Educação hoje defende um ensino mais criativo dos conteúdos técnicos de dança, incentivando a comunicação não- verbal pela exploração da carga expressiva e espontânea de cada movimento, vindo a permitir uma identificação de seu conteúdo artístico que proporcione um contato mais efetivo e intimista com a arte de dançar, de se expressar criativamente pelo movimento. A Dança na escola contempla uma nova proposta de ensino que abrange fundamentos da Dança- Educação e da Dança Educativa Moderna. Diferentemente das tradicionais e já conhecidas técnicas, a Dança aplicada ao conteúdo escolar não pretende formar bailarinos; antes disso, consiste em proporcionar ao aluno um contato mais efetivo e intimista com a possibilidade de se expressar criativamente através do movimento. Essa proposta se resume na busca de uma prática pedagógica mais coerente com a realidade escolar, onde a Dança preparará o corpo dos alunos a fim de que se exercitem de acordo com suas necessidades, desenvolvendo a destreza, a agilidade e a autonomia, estimulando os movimentos espontâneos e a precisão do gesto, sendo indispensável para isso agir para que os alunos compreendam o que fazem e por que o fazem, pois o movimento expressivo é, antes de tudo, um movimento consciente. Nesse sentido, a Dança se liberta de um academicismo que a torna inacessível à maioria das pessoas, mostrando que não se resume apenas ao aprendizado de técnicas e estilos (tais como ballet, jazz, etc.), pois que abrange um contexto mais elevado do que simples classificações como estas.

9 26 Para FERRARI (1994) Dança na escola não é a arte do espetáculo, é educação através da arte; por isso mesmo se traduz em alguns preceitos que seguramente são essenciais para o seu desenvolvimento: a (re)descoberta do movimento como expressão criativa e participativa nos importantes momentos da vida (construção da auto-estima, da consciência e harmonia corporais), vivendo o corpo de uma maneira mais satisfatória e gostando de se expressar através dele; a defesa em favor da Dança - e da Arte -, já a partir da infância, como um despertar para a responsabilidade dos seres em relação ao próprio corpo, à procura de um melhor modo de viver; o dançar brincando, com liberdade e prazer, sem o aprisionamento em códigos formais, mas através da prática de um ensino diferenciado: um aprendizado com fundamentação técnica mais criativa dos conteúdos de uma aula de dança. É fundamental que a Dança na escola se realize através de um professor que não seja o impositor de técnicas e conceitos, mas o fomentador das experiências, o guia que orienta os alunos para uma descoberta pessoal de suas habilidades. Através da Dança, então, o aluno poderá recobrar a confiança no ser humano que é; pleno e capaz, devolver-se-lhe-á a capacidade de se movimentar criativamente, pois é a Dança uma das expressões que suscita o sentido de ser. Sentido de ser este que implica não só na compreensão psicológica da vivência corporal mas, também, numa experiência física que se torna ponto de referência para o qual se pode retornar espontaneamente, a qualquer momento que se deseje fazê-lo. Isto permitirá que o aluno se torne mas receptivo às solicitações exteriores. Seja para acolhê-las ou para delas se defender, tanto melhor será sua resposta. Quando o intelecto se torna o único ponto de referência e valorização, estabelece-se uma ruptura profunda(...), perde-se toda a capacidade de espontaneidade." (FERRARI, 1994). A educação básica necessariamente passa pela prática das Artes; especificamente a Dança busca proporcionar ao aluno o desenvolvimento de uma visão mais crítica do mundo, que não se resume apenas ao campo do intelecto; ao contrário, envolve o ser humano de uma maneira integralizada, tal como foi concebido, contribuindo de maneira decisiva para a formação de cidadãos mais críticos e participativos da sociedade em que vivem. (FERRARI, 1994). E nisso se resume a busca de todos nós: o bem- viver. Fundamentando nossa prática a partir dos estudos sobre o movimento e seus aspectos coreológicos apresentados por Rudolf Laban e sua seguidora, Valerie Preston-Dunlop.

10 27 A prática se estabeleceu em aulas baseadas na técnica de Dança Criativa, onde a premissa metodológica é sempre o gestual individual de cada participante, ou seja, através de seu próprio vocabulário de movimentos único, particular e individual os objetivos de cada proposta são atingidos. Na Dança Criativa há uma preocupação com a correta utilização dos elementos básicos na composição do método de ensino, ou seja, como os elementos da dança devem ser explorados dentro de uma estrutura clara, sempre com a proposta de ser alegre, envolvente e estimulante para o verdadeiro crescimento artístico e pessoal dos participantes. Assim sendo, os alunos atingem, a cada aula, a sedimentação prática dos conteúdos propostos pela Coreologia e desta maneira, aumentaram sensivelmente (quantitativa e qualitativamente) o seu repertório pessoal. Um repertório pessoal que advém de muitos e significativos olhares sobre o mundo, pois muitos são os motivos que levam o ser humano a realizar/executar seus movimentos, sejam eles práticos, funcionais ou expressivos. O que as teorias de Laban e da Dança Criativa nos mostram exatamente é o diferencial no movimento humano entre o fazer e o dançar: sempre se apresentam de forma única, posto que dançar, por não se tratar de um fazer necessário a sobrevivência humana (como os movimentos práticos e funcionais o são), acaba sempre por espelhar traços da personalidade e das vontades de quem o faz: é o seu olhar sobre o mundo. Se dançamos pela necessidade/vontade única de uma expressão/comunicação pessoal/coletiva, mergulhamos em movimentos que nos podem trazer vivências únicas e significativas em nossa experiência de vida. Vários teóricos e bailarinos já declararam que a vivência corporal da dança permite ao seu praticante o reconhecimento de seu potencial físico-mental-espiritual, tornando-o mais sensível ao mundo que o envolve. Quanto melhor o seu conhecimento enquanto ser humano completo/integral, tanto melhor será sua resposta ao mundo em que se situa. Se é a dança fruto da criação corporal do ser humano, se é ela capaz de promover em quem a pratica o seu melhor desenvolvimento enquanto ser humano, seria realmente possível confirmar afirmações como estas através de praticantes de dança que são apenas repetidores de movimentos de outrem?! Não seria oportuno promover a participação destes "dançarinosoperários", oferecendo-os, finalmente, a oportunidade de co-agir a dança? Uma definição para Dança Criativa... não sei se as palavras bastam, não essas que saem da boca, talvez aquelas que nem precisamos dizer, aquelas que estão no olhar, no ar, na beleza das coisas simples. Bem, se eu tentar achar lá no fundo de mim mesma, talvez eu encontre, não uma definição científica, mas uma de imenso valor para meu coração.

11 28 Na verdade a Dança Criativa vai além de um estilo, considero como um estilo de viver, de bem viver. É como se fosse um lugar, um lugar onde não há restrições, todos podem entrar e ter os mesmos direitos; a alegria, os sorrisos, a espontaneidade e o carinho são constantes; há regras sim, mas todas criadas por todos e para todos; onde tudo isso não depende de uma pessoa ou duas talvez, mas da imprescindível e inigualável beleza de cada um, objetivando criar e manter o sonho comum e nesse lugar as pessoas são tão felizes, mas tão felizes que DANÇAM para extravasar tamanha alegria. Segundo SARAIVA- KUNZ (1994), dança tem sido apontada pelos mais diversos autores como uma das ações que correspondem ou atendem aos impulsos e necessidades mais vitais do homem. Entre esses autores situam- se filósofos, pedagógicos, professores e técnicos da dança como Roger Garaudy, Rudolf Laban, Morgada Cunha e Bárbara Haselbach. A revelia da importância que tais autores atribuem ao ensino da dança no processo educativo do homem, a educação formal tem negligenciado essa disciplina e ou conteúdo. Se considerarmos, como Dieckert (apud HASELBACH, 1989) que o homem é o ponto central da educação física, e não a forma e o produto, procurar- se-á resgatar o sentido do ensino da dança na educação global do homem. Ou esse sentido na sua educação estética, segundo os princípios da arte- educação. Trata-se aqui, também, do desenvolvimento de uma consciência estética, tão importante pela capacidade crítica que proporciona. Esta capacidade leva à não submissão aos valores e sentidos socialmente impostos, mas a selecioná- los e recriá-los segundo a nossa situação existencial (DUARTE JR., 1991). Béjart (apud GARAUDY, 1984) apresenta a dança como um meio de conhecimento introspectivo e do mundo exterior e, como conhecimento, esse e outros autores encontram na dança, principalmente, a linguagem contra a educação repressiva e frustrante (ver GARAUDY, 1984 e LABAN, 1990). Para isso, temos que buscar forma de trabalho viáveis na escola é, nesse sentido, a Improvisação é um dos caminhos de desenvolvimento da personalidade, na medida em que seus estímulos proporcionam codeterminação e responsabilidade próprias aos indivíduos. A improvisação é, então, uma opção de CONTÉUDO e MÉTODO para o ensino da Educação Física escolar, pois serve não só ao ensino da dança, como aos demais conteúdos. Os objetivos mais variados da E.F. podem ser preenchidos através da Improvisação e da Expressão corporal. Nesse sentido, a proposta da Improvisação é uma síntese do que pedagogos e técnicos da dança tem apresentado como viável para um aprendizado possível a todos,

12 29 independentemente de talentos e habilidades específicas. Essa síntese é parcial, momentânea e passível de erros de interpretação, na medida em que a produção do conhecimento é constante e precisamos reelaborá- lo a partir da realidade vivida. Utilizando-se a Improvisação como conteúdo não se pode estabelecer com certeza de que se chegará à dança propriamente dita. Ou seja, a dança como produção artística (considerando- se que esta pode acontecer independentemente de uma capacitação profissional). Isto acontece porque a Improvisação desvia- se dos rígidos processos de aprendizagem, puramente técnicos que a dança, tal qual o esporte comporta. Nesse caminho os indivíduos poderão descobrir- se com outros interesses no campo das vivências corporais. Possivelmente, isto já seria um resultado (esta descoberta) das práticas iniciadas em Improvisação. No entanto, considerando- se a possibilidade que existe de convertermos uma ação corporal em dança (por exemplo: o ato de coçar utilizado como representação e não como resposta à uma necessidade funcional de acalmar uma coceira), podemos reconhecer que a dança encerra a possibilidade de dar corpo à imagens, fantasias, pensamentos e sentimentos... (STOKOE/ HARF, 1987, p.17) e é uma criação pessoal, possível a todos. No tocante aos objetivos da aprendizagem, estes são tão genéricos e variados (ver HASELBACH, 1989 e SALZER, 1982) que é quase impossível não se atingir alguns deles, através da Improvisação. Nesta tem-se, também, o desenvolvimento de atividades, tais como se realizam em outras práticas, como as desportivas e de lazer, que comportam muitos dos objetivos, que têm aqui, quiçá, um melhor meio de serem atendidos. Enquanto método, a Improvisação permitirá, no mínimo, que os indivíduos criem formas de se movimentar (na verdade, novas combinações) ou resgatem em outro espaço, sob outro estímulo, as formas do se movimentar próprio e do cotidiano, dando- lhes outra dimensão através da reflexão e validação pedagógica das possibilidades individuais. Assim, na iniciação à metodologia da dança podemos fazer uma introdução às possibilidades de utilização da Expressão Corporal e da Improvisação, como formas que encaminhem à dança, sem ficarmos presos aos aspectos técnicas desta. Estes aspectos, contudo, têm a ver com a intenção e possibilidade de expressão e são possíveis de serem incluídos na Improvisação. Isto deve ser analisado quando da sistematização dos conteúdos da dança a serem incluídos no planejamento. Enquanto conteúdo, a improvisação se assemelha à expressão corporal, e esta é uma disciplina que serve de suporte técnico ao ensino da dança. Nesse sentido, as possibilidades metodológicas de ambos os conteúdos/ disciplinas (expressão corporal e improvisação) são as mesmas.

13 30 Ambas podem ser definidas como...uma linguagem através da qual o ser humano expressa sensações, emoções, sentimentos e pensamentos com seu corpo, integrando- o, assim, às suas outras linguagens expressivas como a fala, o desenho e a escrita ( STOKOE/ HARF, 1987, p.17). nesse sentido, a dança através da Improvisação é um importante veículo de aprendizagem, pois proporciona a abstração dos significados que o símbolo permite, não reduzindo- se a um adestramento de movimentos. DUARTE JR (1991, 0.24) lembra- nos que somente o homem constrói símbolos. Enquanto espaço (institucional/ informal) destinado ao Ensino, essas disciplinas oferecem oportunidades de descoberta, no âmbito da arte do movimento (Laban), de que se pode fazer muitas outras coisas, que não só aquelas já institucionalizadas e padronizadas pelo comportamento sócio- político- cultural e/ou pelas práticas pedagógicas tradicionais. Nesse espaço, o ser humano expressa- se, com ou sem instrumentos e elementos alheios a ele e estabelece relações consigo mesmo e com os outros indivíduos. Desde este primeiro momento, não se foge de uma visão instrumental desse tipo de trabalho, já que serve à que o indivíduo seja seu próprio instrumento. Ou seja, o indivíduo é: ao mesmo tempo, o instrumento que possibilita as transformações do todo o meio sócio- cultural sendo parte deste, também. Para SALZER (1982, p.18) é a expressão pelo corpo na vida cotidiana, que incide sobre a relação dual e a relação em grupo. Se entendermos por expressão toda emissão consciente ou não de sinais e mensagens e por comunicação tudo que faz com que qualquer sinal ou mensagem emitido por alguém seja recebido por outro (SALZER, 1982, p.19), podemos reivindicar, que na expressão corporal está intrínseca a compreensão, atributo do ser humano. Compreendendo- se algo existe uma possibilidade de tomada de consciência e de formação quanto a parte que também se acha tão presente quanto a linguagem oral e escrita nas relações. (SALZER, 1982, p.18) A Improvisação, segundo a literatura (HASELBACH, 1989; MAHLER, 1989) é um conteúdo de trabalho, no âmbito da arte do movimento. Temos nos referido à ela como método, pelas formas de trabalho que oferece, mais convenientes para a iniciação das crianças, jovens e adultos ao mundo da dança. No sentido genérico, improvisar significa realizar algo não planejado: este não é o sentido da Improvisação, neste contexto. Enquanto conteúdo da dança, improvisar significa dar forma espontânea aos movimentos, a partir de condições específicas, antecipadas para esse fim, ou decorrentes de um momento anterior da aula e/ou da ação.

14 31 Significa, ainda, problematizar essas condições extraindo delas conhecimentos sóciocognitivos- motores, capazes de nos proporcionar a resolução de tarefas de movimentos individuais e grupais. Isso será de suma importância na perspectiva de educação críticoemancipatória que tem- se adotado e na qual a educação escolar é um dos espaço sem que se deve trabalhar com vistas à humanização do homem e transformação da sociedade. 2.4 Expressão Corporal Para FIAMONCINI (2004), expressão corporal é a base do desenvolvimento dos sentidos, da percepção, da motricidade e da integração das áreas físicas, psíquicas e sociais de cada pessoa. A comunicação, sensibilidade e criatividade estão dentro dos objetivos mais importantes de sua prática (STOKOE & HARF, 1987)). A expressão corporal é multifacetada: engloba sensibilidade e a conscientização de nós mesmos tanto para nossas posturas, atitudes, gestos e ações cotidianas como para nossas necessidades de exprimir- comunicar- criar- compartilhar e interagir na sociedade em que vivemos (STOKOE e HARF, 1987). Sem o corpo o homem não existe como tal; valorizamos o corpo à medida que contemplamos o ser humano enquanto entidade que deve desenvolver- se como uma estrutura integrada em movimentos, e questionamos a progressiva dicotomização que nossa sociedade tende a fomentar entre nossas áreas psíquica e corporal. Características da Expressão Corporal, segundo FIAMONCINI (2004); - Tem como característica primordial desenvolver a sensibilidade, imaginação, criatividade e a comunicação humanas; - Linguagem por meio do qual o indivíduo pode sentir- se, perceber- se, conhecer- se e manifestar- se; - Aprendizado em si mesmo, que o indivíduo sente, o que quer dizer e como que dize- lo; - Possibilidade de transformação e ao aproveitamento de sua própria espontaneidade e criatividade; - Estilo pessoal de cada indivíduo, manifestando através de seus movimentos, posições e atitudes; - É o aprofundamento de si mesmo, com finalidade de comunicar- se;

15 32 - Manifesta- se em 4 níveis (a pessoa em relação a si mesma; a pessoa em relação a outras pessoas; a pessoa em relação a outros seres vivos; e a pessoa em relação aos objetos). Objetivos da Expressão Corporal, ainda segundo FIAMONCINI (2004) - Desenvolver a sensibilidade, sensopercepção, criatividade, instinto investigador, capacidade de aprendizagem e comunicação; - Enriquecer a imaginação; - Libertar os afetos; - Adquirir segurança e confiança em si mesmo; - Desenvolver o essencial de cada indivíduo, uma consciência e conduta social, atitude aberta, reflexiva, crítica e transformadora. A expressão corporal está integrada ao conceito de dança. A dança é uma resposta corporal a determinadas motivações. Toda ação funcional (coçar, jogar, agarrar, pisar, saltar, deslizar, etc.), pode se transformar em dança, quando se muda o objetivo, agrega uma organização temporal- espacial- energética. Organização temporal (regula as variações de velocidade do movimento); organização espacial (regula as variações do porte e da forma do movimento e do lugar onde se realiza); organização energética (regula as variações da força com que se efetua). FIAMONCINI (2004) afirma que a dança tem características expressivas próprias, pois não seria necessário dançar se pudéssemos expressar o mesmo sentido, intenção ou ímpeto expresso na dança através da fala, pintura e escrita, etc. A dança é transcendência do ser individual, segmentada para ser na totalidade, como um modo de romper, mesmo que momentaneamente, com a movimentação automatizada, funcional e solitária da vida diária (QUIROZ, 2001 citado por FIAMONCINI, 2004). Ao ingressar na escola a criança já traz consigo um conhecimento amplo a respeito de seu corpo, muitas vezes não despertado. O professor, deverá saber aproveitar esses conhecimentos e a partir deles, promover novos conhecimentos mais complexos. A criança de 1 oº grau, necessita de experiências que possibilitem o aprimoramento de sua criatividade e interpretatividade, atividades que favoreçam a sensação de alegria (aspecto lúdico), que a partir daí, possa retratar e canalizar o seu humor, seu temperamento, através da liberdade de movimento, livre expressão e desenvolvimento de outras dimensões contidas no inconsciente (VERDERI, 2000). A educação tem sido questionada por dar ênfase à aprendizagem mecânica ou de memorização e por não estimular uma forma autônoma de pensar e de agir. Desde o ponto de vista pedagógico, o sistema educativo deveria se preocupar em oferecer experiências que

16 33 promovessem o desenvolvimento da criatividade em todas as áreas de expressão, como forma de construção de conhecimento e de aprendizagem significativa. A educação física no contexto escolar, aborda três vertentes: o lúdico, educacional ou de rendimento; abarcando diferentes formas de expressão corporal: a ginástica, o desporto e a dança. Gestos e movimentos são expressão humana e esta é tudo aquilo que exceder o movimento puramente mecânica. Essa compreensão de movimento, expressão e dança incorpora esta última à Educação Física, tendo- a como uma forma de estimulação das crianças e jovens para a expressão corporal; aguçando sua criatividade através de movimentos livres e próprios, educando através do movimento- gesto- expressivo para a criação de novas possibilidades de movimentos que não só articulam o corpo enquanto instrumento de dança, mas propiciam o cultivo ou culto da corporeidade humana (SOARES et alli, 1999). A dança na escola, associada à Educação Física, deverá ter um papel fundamental enquanto atividade pedagógica e despertar no alunado uma relação concreta sujeito- mundo. 2.5 Dança na Escola Pela primeira vez na história do Brasil a dança faz parte dos parâmetros nacionais da educação. Em nossos dias cada vez mais toma-se consciência da importância da dança como forma de expressão do ser humano. A dança hoje é percebida por seu valor em si, muito mais do que um passatempo, um divertimento ou um ornamento. Na educação, ela deve estar voltada para o desenvolvimento global da criança e do adolescente e vai favorecer todo tipo de aprendizado que eles necessitam. Uma criança que na pré- escola teve a oportunidade de participar de aulas de dança, certamente, terá mais facilidade para ser alfabetizada, por exemplo. A dança educativa revela a alegria de se descobrir através da exploração do próprio corpo e das qualidades de movimento. Uma vez entendido a riqueza das possibilidades de movimento de uma pessoa, ficou impossível reduzir o ensino da dança para a repetição de alguns passos e gestos. Foi preciso um novo enfoque para dar conta das variações quase infinitas deles. Em vez de estudar cada movimento particular, o aluno compreende e pratica seus princípios. Tradicionalmente, a dança é algo para ser apresentado e visto. No mundo contemporâneo, entretanto, esta barreira entre o artista e o público está sendo quebrada. O desafio agora é estabelecer um diálogo mais próximo também entre a arte e a educação em uma mesma atividade, isto visa proporcionar vivências de dança que articulem a criação

17 34 pessoal e coletiva de movimentos, a apreciação e o conhecimento da dança de modo a integrar a razão e o sensível, o individual e o coletivo, a arte e a educação. Através da utilização de uma metodologia específica, busca-se o alcance de qualidades físicas e psíquicas próprias da infância e da adolescência. Mesmo com essa obrigatoriedade legal, é fácil observar que nas poucas escolas em que há dança, esta é desenvolvida como atividade extracurricular. A desqualificação dos profissionais que ministram as aulas de dança fez com que a Arte/Dança fosse escolarizada com um caráter alienado e excessiva valorização do fazer artístico mecânico e pré- determinado, ora na questão de práticas espontâneas, sem fundamentação teórica, e, ou na técnica de todo conteúdo da educação artística. (MARQUES 2001, p.53) Contrapondo com o "padrão" existente da dança, MARQUES (2001) aponta que a arte deveria ter o seguinte slogan: "arte como conhecimento" e não como técnica e, ou arte como expressão, embora estes três tipos de arte possuam importância, porém em locais diferenciados. Nesta linha de raciocínio BARBOSA (1996) defende a excelência de um "processo de alfabetização" da dança. Ou seja, para este autor, a dança na escola deve dar ênfase à leitura das palavras e gestos, ações, imagens, necessidades, desejos, expectativas de nós mesmos e do mundo em que vivemos. "Esta decodificação precisa ser associada ao julgamento da qualidade do que está sendo visto aqui e agora em relação ao passado, pois ler julgar a qualidade imagens produzidas por artistas ou do mundo cotidiano que nos cerca faz parte de entendermos e sermos mais crítico em relação a nossa herança cultural (BARBOSA 1996, p. 34)". De forma resumida, o autor coloca que o objetivo das aulas de dança, e de artes em geral, na escola deve o de transformar os alunos em "melhores pensadores" da arte. A proposta de MARQUES (2001) e BARBOSA (1996) a respeito de um novo modelo para a dança está muito próxima ao debate estabelecido por Paulo Freire a mais de vinte anos, quando defendeu a Educação como prática da liberdade. Em sua obra, FREIRE (1983) discute e nega a condição de ensino no qual de um lado professor está repetindo interminavelmente lições e exercícios, e de outro lado, um aluno passivo, o qual ao estar no ambiente escolar está submetido ao "conhecimento" do docente. MARQUES explicando como deve-se entender o processo de aprendizagem em FREIRE coloca que: Uma das propostas de Freire para o trabalho educacional comprometido com a realidade social estaria baseado no tema gerador dos educando.

18 35 O tema gerador deve como o próprio nome diz, gerar conhecimentos sistematizado, estabelecer espaços para um diálogo constante que, através dos conteúdos escolares, contribuam para a compreensão do próprio tema. (MARQUES 2001, p.41) Pensamos em uma sala de aula onde a proposta do professor é co-participada pelos alunos, pelas sugestões dos alunos e a proposta dos alunos é viabilizada pelo professor. E na qual a ação começa a fluir de ambas as partes, e não só a relação professor-aluno ou aluno professor, mas também na relação aluno-aluno. Como observamos, a tendência pedagoga freiriana, a qual também é uma das mais reconhecidas mundialmente, critica severamente o modelo até aqui colocado e utilizado no ensino da dança na escola. Não obstante a isso, pesquisadores da área da Dança, como MARQUES, BARBOSA, PERNANBUCO, entre outros também não estão satisfeitos com a situação atual; e arduamente propõe novos modelos para a dança escolar. A grande dificuldade então é entender o porquê a dança é desenvolvida de forma equivocada na escola, se os principais pesquisadores relutam contra este sistema? Esta pergunta que aparentemente é difícil de ser resolvida acaba sendo facilmente argumentada. Se observarmos o início deste texto, colocamos que a dança tem sido desenvolvida em muitas poucas escolas, e que na maior parte destas não são profissionais qualificados que trabalham com a dança. É justamente essa a resposta para nosso questionamento, a falha está na presença de pessoas não gabaritadas com a dança desenvolvendo esta disciplina. Enfim, a dança na escola vive um momento em que só será reconhecida e respeitada se os profissionais que nela são formados, mostrarem seu trabalho, exigindo sua posição no mercado e nele mostrando o real conhecimento da dança. Ao analisar a vida de qualquer civilização desde as mais remotas até os dias atuais, verifica-se como expressões culturais, atividades como: jogos, desportos e dança. Para manifestar suas emoções e exteriorizá-las, o homem recorreu ao movimento, ao gesto, que de acordo com FAHLBUSCH (1990, p.15), "é a dança" em sua forma mais elementar. A dança e a sociedade estão sempre imbricadas. Não há como falar da dança sem percorrer a grandeza de sua trajetória ao longo dos anos, nem deixar de falar do homem, da sua corporeidade e necessidades. OLIVEIRA (2001, p.14) menciona que: "Uma das atividades físicas mais significativas para o homem antigo foi a dança. Utilizada como forma de exibir suas qualidades físicas e de expressar os seus sentimentos, era praticada por todos os povos, desde o paleolítico superior ( a.c.)."

19 36 De acordo com o autor, a dança tanto tinha características lúdicas como ritualísticas, em que havia manifestações de alegria pela caça e pesca ou dramatizações pelos nascimentos e funerais. NANNI (2003, p.7) confirma isto quando cita que: "As danças, em todas as épocas da história e/ou espaço geográfico, para todos os povos é representação de suas manifestações, de seus 'estados de espírito', permeios de emoções, de expressão e comunicação do ser e de suas características culturais." Portanto, o conhecimento de si mesmo e da dança passa pela necessidade de conhecer sua própria história e manifestações culturais de seu povo. Neste sentido a dança sempre visou o mesmo fim: a vida, a saúde, a religião, a morte, a fertilidade, o vigor físico e sexual, também permeando os caminhos terapêuticos e educacionais, estabelecendo assim, uma diversidade interessante para esta manifestação. É fundamental para este homem, que partiu de nômade a sedentário, ainda oprimido pelo tempo e espaço, pelas situações cotidianas, vislumbrar-se com uma dança que possa ser democrática, rompendo com a idéia de que a dança "é privilégio de alguns" (GARIBA, 2002, p.2); e, de que é necessário uma técnica específica. Entende-se que o mais importante é ser capaz de compreender a dança como "um modo de vida, de existir" (GARAUDY, 1984, p.7) Essa compreensão do movimento através da dança pode estar associada ao universo pedagógico da Educação Física, pois a dança além de atividade física é, de acordo com FERRARI (2003, p.1), " educação", sendo indispensável para que o indivíduo entenda o que e porquê fazer o movimento, pois o movimento expressivo antes de tudo deve ser consciente. Ao fazer alusão ao movimento consciente, OLIVEIRA (2001, p.96) aponta que: "É importante que as pessoas se movimentem tendo consciência de todos os gestos. Precisam estar pensando e sentindo o que realizam. É necessário que tenham a 'sensação de si mesmos', proporcionada pelo nosso sentido cinestésico (...), normalmente desprezado. Caso contrário, estaremos diante da 'deseducação física'. " Desta forma, esta consciência situa o homem como um ser no mundo e esta interação de acordo com NANNI (1998, p.8), é "imprescindível para que o ser humano se torne sujeito de sua práxis no desvelar a sua realidade histórica, através de sua corporeidade." Buscar uma prática pedagógica através da dança mais coerente consiste em possibilitar ao indivíduo expressar-se criativamente, sem exclusões, tornando esta linguagem corporal transformadora e não reprodutora. Neste contexto, se tem a visão de que é a partir do processo criativo, desenvolvido pela dança na escola, que o indivíduo se emancipa, " (...) a criatividade possibilita a independência a liberdade do ser pela autonomia e emancipação." A dança então

20 37 pode ser uma ferramenta preciosa para o indivíduo lidar com suas necessidades, desejos, expectativas e também servir como instrumento para seu desenvolvimento individual e social. De acordo com OSSONA (1988), atualmente existe uma melhor compreensão a respeito dos valores formativos e criativos da dança, que levam a uma ampliação das ações corporais. No Brasil e no mundo a dança vem ganhando cada vez mais espaço pelos benefícios comprovados que de acordo com GARIBA (2002), vão desde a melhora da auto-estima, passando pelo combate ao estresse, depressão, até o enriquecimento das relações interpessoais. É importante, contudo, que a prática da dança com objetivos educacionais tenha início na escola, como pode se verificar em STEINHILBER (2000, p.8) : "Uma criança que participa de aulas de dança (...) se adapta melhor aos colegas e encontra mais facilidade no processo de alfabetização." Nesta perspectiva, PEREIRA et alli (2001, p.61) coloca que: "(...) a dança é um conteúdo fundamental a ser trabalhado na escola: com ela, pode-se levar os alunos a conhecerem a si próprios e/com os outros; a explorarem o mundo da emoção e da imaginação; a criarem; a explorarem novos sentidos, movimentos livres (...). Verifica-se assim, as infinitas possibilidades de trabalho do/para o aluno com sua corporeidade por meio dessa atividade." CUNHA (1992, p.13) também ressalta a importância do processo de escolarização da dança: "Acreditamos que somente a escola, através do emprego de um trabalho consciente de dança, terá condições de fazer emergir e formar um indivíduo com conhecimento de suas verdadeiras possibilidades corporais- expressivas." VARGAS (2003, p.13) completa que a atividade da dança na escola "(...) engloba a sensibilização e conscientização dos alunos tanto para suas posturas, atitudes, gestos e ações cotidianas como para as necessidades de expressar, comunicar, criar, compartilhar e interatuar na sociedade." Assim, fomentar a educação através da dança escolar não se resume em buscar sua execução em "festinhas comemorativas" (VERDERI 2000, p.33); tampouco oferecer a idéia de que "dançar se aprende dançando" (MARQUES 2003, p.19). Para esta autora o estudo e a compreensão da dança corporal e intelectualmente falando, "vão muito além do ato de dançar." Uma arte não só para ser contemplada e admirada a distância, mas para ser aprendida, compreendida, experimentada e explorada, numa tentativa de levar o indivíduo a vivenciar o corpo em todas suas dimensões, através da relação consigo mesmo, com os outros e o mundo.

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