SUJEITOS DESNORTEADOS: EM BUSCA DA FELICIDADE? 1 Vera Lopes Besset 2

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1 SUJEITOS DESNORTEADOS: EM BUSCA DA FELICIDADE? 1 Vera Lopes Besset 2 Introdução Nossa proposta de intervenção se relaciona às pesquisas em andamento no âmbito do Grupo de Pesquisa UFRJ/CNPq CLINP (Clínica Psicanalítica), voltadas para a investigação das particularidades das condições de nossa prática clínica, tendo em vista a configuração cultural própria à época. Nela, constatam-se mudanças tanto na roupagem dos sintomas quanto nas demandas que os sujeitos apresentam ao buscar um analista. Essas mudanças representam desafios para a clínica psicanalítica. Imersos no sem sentido, descrentes, os sujeitos apresentam-se, com freqüência, desnorteados. Frente ao mal-estar na cultura buscam ainda, tal como Freud assinalou em 1930, a felicidade. Mesmo sob as feições de um gozo, prazer sem limites prometido pelos objetos de consumo, incluindo-se aí os outros, nas novas formas de laço. Nesse contexto, onde o tempo urge, a produtividade é exigida, satisfação garantida ou seu dinheiro de volta, interessa-nos debater sobre os recursos da clínica psicanalítica, que se vale apenas de palavras, como lembrou Lacan em 1958 (1966), para avançar no tratamento da inibição, da angústia e do sintoma. Sendo assim, nos perguntamos: haveria uma subjetividade própria à nossa época? De todo modo, vemos-nos às voltas com uma subjetividade tributária de uma cultura ordenada pelo discurso capitalista, avesso às coisas do amor e à particularidade do desejo. Mas, se é a partir do amor de transferência, transferência positiva, que a experiência analítica pode ser instaurada, não é difícil entender que a psicanálise caminha na contramão da lógica que marca a cultura atual. Ao mesmo tempo, há que se levar em conta as 1 Trabalho a ser apresentado na Mesa Redonda URGÊNCIA E CLÍNICA DO SUJEITO, coordenada por Angélica Bastos; relativo à pesquisa em andamento Sintoma, Fala e Interpretação: alcance e limites da ação analítica, com apoio do CNPq. 2 Doutora em Psicologia (Paris V); Professora da Pós-Graduação em Psicologia-IP-UFRJ; Pesquisador da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental (AUPPF); Coordenadora do Grupo de Pesquisa Clínica Psicanalítica /UFRJ-CNPq (CLINP); Pesquisadora do NIPIAC-IP-UFRJ; Membro da EBP- ECF e da AMP. Editora Responsável de Arquivos Brasileiros de Psicologia (IP/UFRJ). Endereço: Travessa Euricles de Matos, 28; Laranjeiras; Rio de Janeiro, E.RJ.

2 modificações das relações do sujeito com o saber. Pois, é a partir do inconsciente como suposição, suposição de saber ancorada em uma crença, que o psicanalista pode, em seu fazer, operar. O sujeito contemporâneo: um desnorteado? Na modernidade, os princípios constitutivos fundamentais seriam o individualismo, o mercado e a escalada técnico-científica (Lipovetsky, 2004). A globalização e a sociedade de consumo aceleram o processo de radicalização desses princípios, o que leva Lipovetsky a nomear nossa época de hipermoderna. Tanto ele quanto Bauman (2004) destacam a fluidez, a flexibilidade e o movimento que a caracterizam. Nela, os ideais que orientavam e funcionavam como balizas para o psiquismo encontram-se pluralizados e fragmentados. Alguns autores (Forbes, 2006), afirmam que, a partir disso, as pessoas ficaram perdidas quanto ao seu valor, sem os referenciais que antes serviam de orientação na construção de suas identidades. Miller (2005) vai mais longe e nos diz que estamos desbussolados desde que criamos bússolas. Para este autor, esse processo teve início quando a agricultura cedeu o lugar dominante na sociedade à indústria. Enquanto a agricultura norteava, a civilização se baseava na natureza e em seus ciclos invariáveis. Com a indústria, os artifícios se multiplicaram e essas garantias foram sendo varridas. O que passa a reinar nesse momento é a produção industrial. Com o incremento da cultura de consumo, do comércio mundial e da diminuição das fronteiras relativas aos negócios, o que é colocado em primeiro plano é a dimensão das cifras, do dinheiro. Tudo tem um preço e deve ser previamente avaliado e comparado, visando o controle e a média. Os especialistas buscam, a partir da técnica, uma avaliação que indique o que se apresenta como mais freqüente, propondo uma generalização e um padrão. Assim, até mesmo os indivíduos, seus comportamentos e suas escolhas, encontramse inseridos na faixa mediana da previsibilidade, do universal. O espaço para a singularidade, em suma, para o desejo, para o sujeito, para o que se apresenta como diferente, desviante fica bastante reduzido e mostra-se como ameaça ao controle (Miller; Milner, 2006).

3 Observa-se o enfraquecimento ou eliminação das hierarquias, representadas principalmente pelas instituições tradicionais Estado, família, Igreja, a exacerbação do individualismo e da atenuação da fronteira entre o público e o privado. Como efeito, encontramos uma falta de limites e uma liberdade excessiva que provoca ansiedade e medo nas pessoas. O que é considerado proibido está cada vez mais escasso e o que orienta as relações entre sujeitos não mais se baseia na lei, mas nos contratos. Vigora aquilo que estiver previamente estabelecido no acordo firmado entre as partes. Essa flexibilidade aumenta a liberdade dos sujeitos que se apresentam mais angustiados e desamparados (Miller; Milner, 2006). Isso porque a liberdade em seus modos de vida demanda criação e responsabilidade por parte de cada sujeito, que não encontra ancoragem ou apoio em alguma lei que diga o que pode ou não ser feito. O sujeito se vê cada vez mais senhor de sua existência e encontra-se mais desamparado sem uma proteção coletiva ou das instituições. Ele está entregue a si mesmo, o que o torna mais frágil. Diante da responsabilidade de assumir o que deseja, o sujeito recua. Notamos esse fato no aumento do consumo de medicamentos, de diagnósticos como depressão, transtornos de ansiedade e na busca em estar inserido em um rótulo que justifique as escolhas e atitudes. Discorrendo sobre nossa época, Bauman (2004) apresenta os laços humanos como volúveis, flexíveis e temporários. Isto, em função de uma (nova) lógica de consumo: o uso e descarte dos bens. No lugar da acumulação, o que é visado é a substituição, apoiada na idéia de que haverá um objeto...o próximo, o ainda a ser inventado, que vai trazer plena satisfação. Assim, enquadradas na categoria de objetos de consumo, as pessoas passam a se conectar e desconectar umas com as outras de acordo com a satisfação ou o desprazer que o relacionamento possa vir a provocar. Desse modo, os sujeitos estão em busca constante do prazer passageiro com satisfação instantânea, contando com as novidades produzidas pela ciência e pelos avanços tecnológicos. Priorizam-se os resultados rápidos, eficazes, soluções cujos efeitos sejam comprovados e recomendados por especialistas. A senhora é especialista em psicologia infantil? pergunta uma mãe interessada em consultar uma analista para investigar um possível abuso sexual sofrido pela filha mais nova. O que se verifica é que as pessoas buscam especialistas com a esperança de uma solução ao problema que trazem, sem que seja necessário abrir mão de nada. Sendo assim, o pedido está referido a um alívio, uma

4 receita, que permita que a pessoa não perca nada, nem que tenha que lidar com agruras e desconfortos. Sobre isso, Recalcati nos diz: De fato, na época contemporânea, o discurso do capitalista (promoção do sujeito-gadget como solução da falta a ser que habita o sujeito) e o da ciência (promoção do saber especialista como solução pragmática do problema da verdade) realizam uma expulsão-anulação do sujeito do inconsciente. (2004, p.1) Em Mal-estar na Cultura, Freud (1930/1986) afirma que todo homem busca a felicidade e que esse é um programa impossível de ser realizado. A felicidade, diz, só se encontra na passagem, de um estado a outro, e não na duração. Nessa ocasião, nos apresenta três fontes do sofrimento: do nosso corpo próprio, do mundo externo e do relacionamento com outros homens. considera essa última fonte de sofrimento como a mais penosa de todas. Mas, de todo modo, o mal-estar que é inerente a todo sujeito. Essa contribuição freudiana nos remete ao panorama contemporâneo, onde a busca a pelo prazer e as tentativas de eliminação do sofrimento estão em evidência. Isso se reflete em dificuldades nos laços sociais, no engajamento em lidar com o outro. Como Freud já alertava em 1930, as saídas pela via do consumo, das drogas, são paliativas e não resolvem o problema do sofrimento humano. Algo escapa e retorna, e por mais que seja oferecido pelo mercado um objeto com a promessa de satisfação, assim que adquirido, um outro objeto será desejado. Um novo produto surgirá com a mesma promessa de satisfação garantida... Atualmente, aqueles que procuram atendimento psi apresentam-se, muitas vezes, munidos de um saber de tipo universal, que ao mesmo tempo os classifica e os coloca no anonimato (Recalcati, 2005). Colocando-se em posição de consumidores, em acorde com o espírito da época, demandam tratamentos específicos, supostamente adequados às diversas síndromes ou transtornos dos quais sofrem. O que a clínica nos mostra, em suma, é uma subjetividade marcada por um vazio de identidade e uma errância dos modos de gozo. Em direção a uma infelicidade comum... Frente aos desafios da atualidade, marcando sua presença na cidade, não seria pela via de uma recuperação da autoridade que a psicanálise poderia responder. Em tempo de queda dos ideais, é da autoridade conferida pelo amor, amor de transferência, que a

5 psicanálise pode se valer, inclusive em formas de intervenção que não se querem terapêuticas. Falar a um outro se apresenta, no contexto da transferência, um convite para refletir e uma ocasião de mudança subjetiva. Especialmente se quem escuta não se autoriza em saber, previamente, sobre aquele que fala. Acolher uma fala para que ela se torne questão para quem a enuncia, eis a especificidade da proposta da psicanálise. Trata-se de uma escuta que não preenche de sentido o enunciado que se formula, abrindo espaço para que uma enunciação possa advir. Essa peculiaridade marca qualquer intervenção que tome por referência teórica a psicanálise. Para tanto, é necessário considerar que o psicanalista, assim como a psicanálise, define-se não de um lugar geográfico, um setting, mas de um discurso. Freqüentemente, ao se apresentar a um analista, os sujeitos o fazem a partir de um diagnóstico. Se não, demandam um que lhes sirva de etiqueta. Assim, têm um ponto em comum: mostram-se completa ou parcialmente desorientados. Remetem-nos à descrição dos sujeitos contemporâneos tal como proposta por J.-A. Miller (2005), sujeitos desinibidos e, ao mesmo tempo, desbussolados, desamparados. Desorientação que teria se iniciado, segundo ele, com o abalo e a dissolução da moral civilizada, com a contribuição da psicanálise, é certo. Isso, porque a moral civilizada, como Freud a chamava, fornecia uma bússola, inibia. Sem essa bússola para nortearem-se, os sujeitos endereçam-nos a demanda de um saber (técnico) que possa guiar-lhes, dizendo-lhes o que fazer, aonde ir. Entretanto, não se trata propriamente de uma demanda de saber que se construiria para cada um. Interessa-lhes um saber fornecido pelo Outro, o especialista. Tal como um objeto que se adquire no mercado dos bens de consumo, uma solução prêt-à-porter. A psicanálise privilegia o particular do sofrimento do sujeito, mostrando-se avessa a uma solução para-todos, que desresponsabiliza os sujeitos por seu gozo. Mas, o sintoma que permite à psicanálise operar é o sintoma portador de um sentido, sentido a decifrar. Os sintomas contemporâneos, ao invés de interpelarem os sujeitos, apresentando-se como enigmas, funcionam como respostas, nomeações oriundas do Outro da ciência pânico, déficit de atenção, fobia, entre outros- ao vazio identificatório que os caracteriza. São signos da não-relação sexual e fazem valer, predominantemente, sua vertente de satisfação pulsional. Frente a esse valor de gozo do sintoma, o desafio que se apresenta ao psicanalista é fazer valer o seu valor de sentido.

6 A oferta de fala permite ao sujeito supor um sentido onde antes apenas reinava o sem-sentido. Supor um sentido a seu sintoma faz ex-sistir um Outro a quem endereçar uma pergunta, forjada a partir de sua queixa. Desse modo, em alguns casos, o analista pode fazer surgir no gozo delineado pela repetição sintomática, a pergunta: Por que insisto em algo que me faz sofrer? Que prazer é esse que me angustia? Em outros, é possível ajudar o sujeito a construir um saber fazer para fazer face à uma angústia avassaladora, um gozo sem limites. Ainda aqui, é a fala que serve de instrumento ao psicanalista para dirigir o tratamento no terreno da transferência. A partir dela, tentamos fazer existir o inconsciente como saber, o que permite a instauração do dispositivo. Para tanto, é necessário o amor, pois uma psicanálise demanda amar seu inconsciente, como afirma Lacan no final de seu Seminário sobre os Nomes do Pai (2005). Amar seu inconsciente seria a única maneira de estabelecer uma relação entre S1 e S2. Ou seja, é a condição para fazer existir a relação simbólica. A transferência, nesse caso, seria o pivô do sujeito suposto saber. Difícil estratégia clínica, pois requer a ancoragem em uma douta ignorância. Do lado do analista, acreditar no saber sem enfatuação, ou seja, sem se identificar com a posição daquele que sabe, seria a via privilegiada para que a suposição de saber possa se instaurar do lado do sujeito (Miller, 2005a). Tarefa difícil, mas necessária para a construção de um semblante que possa fazer face ao real, ao que não tem nome. Em cada caso, há uma construção de saber a fazer, dentro da proposta de tratamento possível para o sofrimento desses sujeitos desnorteados. Proposta que responderia ao convite de Freud de levar o sujeito, não em direção à felicidade, mas de substituição de sua infelicidade neurótica por uma infelicidade comum... REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN, Z. Amor líquido-sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., FREUD, S..El Malestar en la cultura (1930 [1929]). Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XXI. Buenos Aires: Amorrortu, 1986,

7 FORBES, F. Prefácio. In: MILLER, J.-A., MILNER, J.C. Você quer mesmo ser avaliado? Entrevistas sobre uma máquina de impostura. S. Paulo: Manole, LACAN, J. La direction de la cure et les principes de son pouvoir. (Rapport du Colloque de Royaumont Juillet 1958). Écrits. Paris : Seuil, 1966, p Nomes do Pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., LIPOVETSKY, G. Os tempos hipermodernos. S. Paulo: Ed. Barcarolla, MILLER, J.-A. De la naturaleza de los semblantes. B. Aires: Paidós, 2005a.. Uma fantasia. Opção Lacaniana. N. 42. S.P: EBP, 2005b, p , MILNER, J.C. Você quer mesmo ser avaliado? Entrevistas sobre uma máquina de impostura. S. Paulo: Manole, RECALCATI, M. A questão preliminar na época do Outro que não existe. Latusa Digital. n. 7, junho de 2004/ ano 1..Lignes pour une clinique des monosymptômes. La Cause Freudienne. N ,

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