ICTR 2004 CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM RESÍDUOS E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Costão do Santinho Florianópolis Santa Catarina

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1 ICTR 2004 CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM RESÍDUOS E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Costão do Santinho Florianópolis Santa Catarina PROGRAMA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - MIOSÓTIS Daniella Mac-Dowell Leite de Castro Renata Ferraz de Toledo Maria Cecilia Focesi Pelicioni PRÓXIMA Realização: ICTR Instituto de Ciência e Tecnologia em Resíduos e Desenvolvimento Sustentável NISAM - USP Núcleo de Informações em Saúde Ambiental da USP

2 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL MIOSÓTIS Daniella Mac-Dowell Leite de Castro 1 Renata Ferraz de Toledo 2 Maria Cecilia Focesi Pelicioni 3 Resumo O Programa de Educação Ambiental Miosótis partiu do interesse da própria coordenação do Núcleo Socioeducativo Miosótis em desenvolver atividades relacionadas às problemáticas socioambientais, com educandos e educadores, visando a melhoria da qualidade de vida e da qualidade ambiental durante o ano letivo de Desta forma, o programa foi estruturado, inicialmente, em encontros durante todo o ano letivo, as terças-feiras pela manhã, com um grupo composto por 8 alunos de 13 a 14 anos, selecionados pelo próprio Núcleo Socioeducativo Miosótis, de acordo com a própria vontade dos alunos em participar do programa, e uma educadora, além das duas coordenadoras do programa. Na primeira terça-feira de cada mês, as coordenadoras desenvolvem atividades com o grupo, estipulando tarefas que deverão ser realizadas nas 3 terças-feiras s, com o acompanhamento da educadora, sendo o resultado destas, apresentado pelo grupo às coordenadoras no encontro seguinte. O objetivo é estimular o interesse dos participantes em levantar os problemas socioambientais que os cercam, indicando possíveis meios para a busca de soluções pelo próprio grupo, tendo como resultado final, no término do ano letivo, uma proposta concreta de intervenção. Assim, a intervenção educativa poderá ser desenvolvida na escola, ou na própria comunidade, como, por exemplo, por meio de campanhas, criação de informativo ou jornal, participação em rádio comunitária (se possível), dentre outros, devendo o próprio grupo, com o auxílio da coordenação do programa, identificar os recursos (humanos, materiais, etc.) necessários e como consegui-los. Dessa maneira, pretende-se incentivar a continuidade do projeto pelo próprio grupo, indicando instrumentos que este possa utilizar na busca da melhoria de sua qualidade de vida. Palavras-chave: Educação Ambiental, Meio Ambiente, Participação. 1 Advogada, Especialista em Direito Ambiental e Mestranda na Área de Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. 2 Bióloga, Especialista em Educação Ambiental, Mestre e Doutoranda em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. 3 Assistente Social, Mestre e Doutora em Saúde Pública. Professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo

3 Apresentação O Núcleo Socioeducativo Miosótis O Núcleo Socioeducativo Miosótis promove o desenvolvimento de crianças e adolescente em condições de vulnerabilidade social do Jardim Aeroporto, região Sul de São Paulo, atendendo moradores das favelas da Rua Ipiranga, Radar, Rua Jorge Duprat, Hélio Lobo e Rocinha, localizadas no entorno do Aeroporto Internacional de Congonhas. Estas crianças e adolescentes vêem de famílias de baixa renda, na sua maioria desestruturadas e em risco social, sendo que, para freqüentar o Miosótis a criança ou o adolescente deve estar cursando a escola formal e pertencer à faixa etária entre 06 anos a 14 anos e 11 meses. São oferecidos espaços de educação complementar, recreação e esporte, onde, no período de 05 horas, de segunda a sexta-feira, ocorrem oficinas de música, percussão, capoeira, computação, artes, cidadania e qualidade de vida, reforço e apoio escolar. Além disso, o Miosótis desenvolve trabalhos para ampliar a relação com a comunidade e com as famílias dos educandos, através de eventos, reuniões, oficinas de geração de renda e ocupação, que pretendem despertar a solidariedade pró-ativa e constituir espaços onde a existência humana possa ser fortalecida, a partir do respeito às singularidades e do resgate da verdadeira cidadania. Assim, o Programa de Educação Ambiental Miosótis iniciou-se a partir do interesse da coordenação do Núcleo Socioeducativo Miosótis em desenvolver atividades relacionadas às problemáticas socioambientais, com educandos e educadores, durante o ano letivo de Introdução O Programa de Educação Ambiental foi desenvolvido com base em alguns conceitos, que serão aqui apresentados, por serem fundamentais à compreensão do trabalho. Em relação ao conceito de meio ambiente, de acordo com REIGOTA (2002, p. 14), é o o lugar determinado ou percebido, onde os elementos naturais e sociais estão em relações dinâmicas e em interação. Essas relações implicam processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e sociais de transformação do meio natural e construído. Segundo COIMBRA (2002, p. 18), meio ambiente é o conjunto amplo de fatores e processos de realidades complexas em que os indivíduos e as comunidades estão imersos. O ambiente rodeia de forma permanente e cambiante os seres vivos e não vivos que o compõem, notadamente o Homem. 1599

4 Embora diferentes autores apresentem alguma variação na definição de tal expressão, alguns pontos em comum levam a literatura contemporânea a observar o meio ambiente como tudo que está à nossa volta, formado por componentes bióticos e abióticos, inserindo o homem nesse contexto, caracterizado por seu dinamismo e movimento. O meio ambiente abrange, portanto, não só a natureza intocada e seus aspectos físicos, químicos e biológicos, mas também o homem e todo o resultado de suas ações antrópicas, como por exemplo o ambiente construído, a paisagem e a produção histórico-cultural. Já o conceito de educação ambiental, conforme PHILIPPI JR e PELICIONI (2000), pode ser entendido como um processo político, de ensino-aprendizagem para o exercício pleno da cidadania, que visa formar um cidadão consciente, crítico, competente e proativo, ou seja, que intervenha no meio em que vive, lutando não só por seus interesses particulares, mas também por interesses públicos, para melhorar a qualidade de vida de todos, buscando a criação de uma sociedade sustentável onde toda a forma de vida é respeitada e onde todos os aspectos que constituem o ambiente onde vive são considerados. Este conceito abraça, portanto, não só a formação como também a capacitação humana para uma intervenção efetiva. Educar significa criar condições para o desenvolvimento potencial do ser humano, possibilitando a motivação do indivíduo de forma que este aprenda a viver em sociedade de maneira desejável. A educação ambiental nunca é neutra e é parte de uma educação crítica que sempre provoca mudanças, mesmo que inconscientes, mudanças estas internas, que partem de dentro para fora do indivíduo, que, ao se transformar, transforma seu entorno. A educação ambiental passa, portanto, tanto pela área cognitiva do indivíduo, pois implica na obtenção do conhecimento correto para lidar com as questões ambientais, quanto pela área afetiva, a partir da crença naquele conhecimento como verdade, valorizando-o de forma a se ter uma atitude positiva, e pela área psicomotora, por este adquirir competência e habilidade para agir, realizando práticas ou ações corretas e compatíveis com seu novo saber. Objetivo Capacitação de educadores e educandos, do Núcleo Socioeducativo Miosótis, na área ambiental, buscando uma efetiva intervenção na comunidade. Metodologia O programa foi estruturado em encontros durante todo o ano letivo, as terças-feiras pela manhã, com um grupo composto por uma educadora e 8 alunos, de 13 a 14 anos, selecionados pelas coordenadoras do Núcleo Socioeducativo Miosótis, de acordo com a própria vontade dos alunos em participar do programa, além das duas coordenadoras 1600

5 do programa. Na primeira terça-feira de cada mês, as coordenadoras do Programa desenvolvem atividades com o grupo, estipulando tarefas que deverão ser realizadas nas demais terças-feiras do mês, com o acompanhamento da educadora, sendo o resultado destas atividades apresentado pelo grupo às coordenadoras no encontro do mês seguinte. Foi elaborado cronograma de atividades (Tabela 1), visando capacitar os educandos para levantar dados por meio de roteiros de entrevista, identificando os principais problemas ambientais vivenciados pelos próprios educandos, em sua escola ou comunidade, para posteriormente optarem por um programa que os próprios educandos deveriam desenvolver para efetiva intervenção na sociedade. Além disso, durante todo o ano letivo, foram desenvolvidas aulas e atividades de forma a sedimentar uma base teórica, conceitos e práticas ambientais, em busca da melhoria da qualidade de vida. Tabela 1 Cronograma de Atividades Ano Letivo de 2004 DATA HORÁRIO ATIVIDADE 27/01/04 08:00-11:00 Reunião dos educadores 03/02/04 08:00-11:00 1 o. Encontro: Dinâmica de Integração Diagnóstico: Importância e Elaboração Preparação de Roteiro de Entrevista Atividade: Realizar as Entrevistas (com alunos, professores e comunidade) 02/03/04 08:00-11:00 2 o. Encontro: Métodos de Análise dos Resultados Atividade: Analisar os Resultados 06/04/04 08:00-11:00 3 o. Encontro: Apresentação dos Resultados Introdução à Educação Ambiental Atividade: Pensar, discutir e preparar propostas para os resultados apresentados 04/05/04 08:00-11:00 4 o. Encontro: Apresentar as propostas Educação Ambiental na prática: Programa de Intervenção Atividade: Criar esboço do programa de intervenção 01/06/04 08:00-11:00 5 o. Encontro: Resíduos Sólidos Atividade: Elaborar painel sobre o tema 03/08/04 08:00-11:00 6 o. Encontro: Água e Esgoto Atividade: Montagem de apresentação teatral sobre o tema 14/09/04 08:00-11:00 7 o. Encontro: Saúde e Higiene Atividade: Fiscais e agentes da Saúde: um Exercício 05/10/04 08:00-11:00 8 o. Encontro: Segurança Doméstica Atividade: Elaboração do Trabalho de Conclusão do Programa 09/11/04 08:00-11:00 9 o. Encontro: Apresentação do Programa de Educação Ambiental desenvolvido pelo próprio grupo 1601

6 Os próprios educandos passaram, então, a definir quais as perguntas do roteiro de entrevista e quantos indivíduos cada educando deveria entrevistar. Nesta fase, não houve o estabelecimento de amostra representativa ou preocupação com bases estatísticas, pois o objetivo era apresentar técnicas de entrevista e de tabulação de dados, como forma de se estabelecer um diagnóstico dos problemas ambientais. Após a aplicação do roteiro de entrevista em 73 indivíduos, dentre pessoas da escola e da comunidade, os educandos passaram a tabular os resultados, por categorias, escrevendo as respostas e o número de ocorrência de cada uma em um cartaz de papel pardo. Desta forma, definiu-se que os maiores problemas ambientais vivenciados por sua comunidade eram: lixo, poluição (poluição dos rios, poluição sonora e poluição do ar) e doenças, conforme visualizado na Figura 1. Figura 1 Tabulação de Dados de Entrevista por Categoria Após a definição dos problemas ambientais enfrentados pela comunidade onde os educandos estão inseridos, foi definido qual seria o Programa de Educação Ambiental desenvolvido pelos próprios educandos, de forma a intervir na sociedade. Foi escolhido pelo grupo a elaboração de filmes de curta duração, em fitas VHS, para serem passadas aos alunos das escolas formais, onde estudam. Os filmes durariam de 15 a 30 minutos e tratariam dos problemas ambientais levantados (lixo, poluição das águas, etc.), mostrando suas causas, conseqüências e o que cada um pode fazer para contribuir para a melhoria ambiental. Os educandos participaram, então, de visita técnica aos estúdios da TV Jundiaí (Figura 2), onde puderam observar as etapas para elaboração de um filme, verificando o equipamento necessário. Foi elaborando programa piloto, tratando do conceito de meio ambiente e do problema do lixo. Embora os educandos contassem com toda a liberdade para desenvolver o projeto da forma como preferissem, com entrevistas, apresentações, cenários, etc., as coordenadoras acompanharam todo o processo, buscando incentivar questionamentos e trazer conceitos e práticas ambientalmente corretas. 1602

7 Figura 2 Visita Técnica aos Estúdios da TV Jundiaí Resultados Após a implantação do Programa de Educação Ambiental Miosótis foram verificados alguns resultados, em razão das mudanças percebidas nos integrantes do grupo: Maior abrangência da percepção do ambiente, a partir do desenvolvimento do próprio conceito de meio ambiente; Reconhecimento das causas e conseqüências dos problemas ambientais, verificando de forma holística e identificando inter-relações dentre os diversos aspectos que constituem o meio ambiente; Surgimento de iniciativas advindas do próprio grupo, desde a proposição de atividades até a melhoria de uma atividade proposta pelas coordenadoras; Melhoria de postura e atitude dos educandos ao expressar sua opinião ao grupo; Crescimento na participação dos educandos nos debates; Apresentação, por parte dos educandos, de situações, em casa ou na escola, onde eles propuseram a terceiros formas de agir buscando minimizar desperdícios e impactos ambientais negativos. Conclusão Algumas conclusões podem ser observadas após quase um ano de implantação do Programa. Em primeiro lugar, a adesão voluntária dos alunos, que optaram por participar do Programa, contribuiu para o comprometimento dos mesmos nas atividades propostas. Além disso, embora o Programa tenha sido coordenado por educadoras que conduziam as aulas e atividades, este foi inteiramente desenvolvido pelos próprios educandos, já que todo o grupo era sempre questionado sobre como as atividades deveriam se desenvolver, sendo constantemente demandadas suas opiniões e sugestões, buscando criar um Programa de forma democrática e participativa, onde nenhum modelo fora imposto pela coordenação, mas sim criado por todos os membros do grupo. A participação é fundamental para a criação de cidadãos críticos, reflexivos e 1603

8 questionadores, além de ser necessária para se dar continuidade ao Programa por vontade dos próprios educandos. O maior conhecimento dos problemas ambientais e a percepção de suas causas e conseqüências também contribuíram para a busca de soluções, traduzidas em ações cotidianas de melhoria ambiental relacionadas, principalmente, a minimização de resíduos, cuidados com a saúde e higiene e ao uso racional de água e energia. Tal conhecimento foi proporcionado por meio de uma equipe multidisciplinar de profissionais (advogados, engenheiros, biólogos, etc.) convidados pelas coordenadoras para, durante cada encontro, tratar sobre saneamento, resíduos, saúde e higiene, segurança doméstica, dentre outros assuntos, de forma a ampliar a visão dos educandos sobre os aspectos ambientais. Por fim, foram percebidas mudanças no comportamento dos educandos, como maior respeito ao colega que expressa sua opinião, melhor atitude e postura ao expressar suas próprias sugestões, melhoria na forma de colocar suas idéias e na dicção. Tais melhorias podem ter a influencia da confiança criada pela união do grupo, mas vem se refletindo na postura dos educandos com terceiros, em situações onde eles identificaram problemas ambientais e propuseram melhores comportamentos e ações, de forma a preservar os recursos naturais. Bibliografia Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; Coimbra JAA. O outro lado do meio ambiente. Campinas: Millennium; Dias GF. Educação ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Gaia; Minayo MC de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec; Morin E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Brasília, DF: UNESCO; Pelicioni AF. Educação ambiental: limites e possibilidades de uma ação transformadora. São Paulo; [Tese de Doutorado Faculdade de Saúde Pública da USP]. Philippi Jr A, Pelicioni MCF (eds). Educação ambiental: desenvolvimento de cursos e projetos. São Paulo: Signus; Philippi Jr A, Pelicioni MCF (eds). Educação ambiental e sustentabilidade. São Paulo: Manole; Reigota M. Meio ambiente e representação social. 5ª Ed. São Paulo: Cortez;

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