AS REPÚBLICAS DA REPÚBLICA HISTÓRIA, CULTURA POLÍTICA E REPUBLICANISMO

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1 AS REPÚBLICAS DA REPÚBLICA HISTÓRIA, CULTURA POLÍTICA E REPUBLICANISMO Maria Alice Dias de Albergaria Samara Dissertação de Doutoramento em História Contemporânea Institucional e Política de Portugal

2 MAIO, 2010 ii

3 Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em História Contemporânea Institucional e Política de Portugal, realizada sob a orientação científica de Prof. Doutor António Reis Apoio financeiro da FCT e do FSE no âmbito do III Quadro Comunitário de Apoio. iii

4 À Leonor, sempre e por tudo. iv

5 AGRADECIMENTOS Sem aqueles que me acompanharam nos últimos anos tinha sido muito difícil, para não dizer impossível, acabar esta tese. Em primeiro lugar, quero agradecer ao meu orientador, professor Doutor António Reis, pelos seus conselhos e comentários e pela sua generosa disponibilidade. Quero agradecer ainda ao Tiago Baptista, pela leitura atenta e crítica, bem como pela infinita paciência com que me acompanhou durante este período; à minha mãe pelo auxílio constante em todos os momentos da minha vida; à Raquel Henriques, à Júlia Leitão de Barros e à Rosa Alface pelo apoio, pela ajuda e pela amizade; ao Pedro Pinto, por nunca se esquecer de mim nas suas viagens aos alfarrabistas; ao Luís Farinha, pelos nossos diálogos republicanos; e à Ana Sofia Pinto, pela ajuda. v

6 RESUMO AS REPÚBLICAS DA REPÚBLICA HISTÓRIA, CULTURA POLÍTICA E REPUBLICANISMO MARIA ALICE DIAS DE ALBERGARIA SAMARA PALAVRAS-CHAVE: História de Portugal, Cultura Política, Republicanismo Esta dissertação de doutoramento analisa a Primeira República enquanto construção política e na óptica da cultura política, articulando três momentos essenciais: a República imaginada antes do 5 de Outubro de 1910; a República no poder e a forma como foi gerida a diversidade política, nomeadamente a facção revolucionária; e por último a queda da República. O fio condutor deste trabalho é a ideia de que o movimento republicano foi mais do que o Partido Republicano Português ainda assim formado por diferentes sensibilidades sendo uma galáxia de organizações e uma polifonia, um movimento a várias vozes. Esta característica particular de um campo e de uma conjuntura política é essencial para a compreensão do princípio e do fim da Primeira República, regime que tem um papel central no imaginário político do século XX português. Não se pretendeu apresentar o objecto de estudo de forma monolítica, mas tratar as várias ideias do que devia ser, do que era e do que foi a República para os diversos agentes. Neste sentido, o trabalho começa por perceber como é que a República foi imaginada e em que contexto, como se articulava a galáxia republicana, dando atenção às convergências tecidas com outros movimentos. Assumindo que se vivia num período no qual as massas procuravam ter voz pública e política, analisámos as relações dos republicanos com o povo. O Partido Republico Português foi analisado, de modo a surpreender a sua dinâmica interna, bem como a forma como as classes populares foram arregimentadas. Interessou-nos estudar as diferentes formas de sociabilidade, para demonstrar como a capacidade de pensar a política se difundia na sociedade. Fazer passar a mensagem era central para o movimento e, assim, estudámos as diferentes formas de propaganda republicana e a constituição da imagem dos seus inimigos. Depois do 5 de Outubro de 1910, interessou-nos perceber como é que se construíram os significados e como é que as bases do regime foram lançadas, defendendo que estas construções políticas nos permitem a compreensão da dinâmica do regime. A conclusão equaciona a questão do velho e do novo no regime republicano, ou as diferentes formas de o entender, que motivaram as actuações políticas de diferentes agentes. Desconstruindo imagens simplistas da República criadas, sobretudo durante o Estado Novo, defendemos que o republicanismo, mau grado a ausência do sufrágio universal, deve ser entendido como uma etapa de um processo de democratização da sociedade portuguesa. vi

7 ABSTRACT THE REPUBLICS OF THE REPUBLIC HISTORY, POLITICAL CULTURE AND REPUBLICANISM MARIA ALICE DIAS DE ALBERGARIA SAMARA KEYWORDS: History of Portugal, Political Culture, Republicanism This dissertation analyses the Portuguese First Republic as a political construction and from the viewpoint of political culture, focusing on three essential moments: the imagined Republic before October 5 th, 1910; the Republic in power and the way political divergences were handled, especially the revolutionary faction; and, finally, the fall of the Republic. The central idea in this dissertation is that the republican movement was more than just the Portuguese Republican Party itself also informed by different sensibilities being more like a galaxy of organizations and a polyphony, a movement with several voices. This particular feature is essential to the understanding of the beginning and end of the First Republic, a regime that occupies a central position in the political imaginary of the Portuguese 20 th century. The objective is not to present the study object monolithically, but rather to address the different ideas about what the Republic should have been, and eventually came to be. Therefore, this dissertation starts by trying to understand how and in which context the Republic was imagined, and how this articulated itself to the republican galaxy, paying special attention to the convergences with other movements. Assuming this was a period in which the masses aimed for a public and political voice, we analyzed the relationship between the republicans and the people. The Portuguese Republican Party was analyzed in order to understand its internal dynamics, as well as how the popular classes were attracted. We were also interested in studying different social contexts to argue how the ability to think politics had permeated Portuguese society. To deliver the message was essential for the movement and, therefore, we studied the different strategies employed by republican propaganda, and also how it represented its enemies. After October 5 th, 1910, we were interested in understanding how meaning and the foundations of the regime were built, arguing that these political constructions allow us to better grasp the regime s dynamics. The final chapter considers the importance of the old and the new in the republican regime (or the different ways to understand both concepts), in the motivation of the political actions of different agents. Deconstructing the simplistic images that were created about the Republic especially during the New State we argue that in spite of the absence of universal suffrage, republicanism should be understood as a step in the democratization process of Portuguese society. vii

8 ÍNDICE DAS IMAGENS Imagem 1: Giuseppe Pellizza da Volpedo, Il Quarto Stato (O Quarto Estado), Imagem 2: Monumento às vítimas do 31 de Janeiro...16 Imagem 3: Caricatura de Teófilo Braga, por Alfredo Cândido, Imagem 4: Caricatura de Manuel de Arriaga, por Alfredo Cândido, Imagem 5: Caricatura de António José de Almeida, por Alfredo Cândido, Imagem 6: Caricatura de Bernardino Machado, por Alfredo Cândido, Imagem 7: Exposição de Pintura, Imagem 8: Caricatura de Afonso Costa, por Alfredo Cândido, Imagem 9: Associação de Socorros Mútuos Rodrigues de Freitas Imagem 10: Quiosque dos libertários no Rossio, Imagem 11: Cartilha do Povo Imagem 12: Cartilha do Zé Povinho Imagem 13: Comícios em Lisboa, Porto, Seixal, Sacavém e Barcarena, Imagem 14: Comícios, Imagem 15: Comício em Lisboa contra o juízo de instrução criminal, Imagem 16: D. Carlos às costas do Zé Povinho, caricatura, Imagem 17: Missão de Piedade. El-Rei no Hospital da Estrela. ( ), Imagem 18: Como se governa Portugal, Imagem 19: Caricatura de D. Manuel II, por Alfredo Cândido Imagem 20: Abster-se de votar é crime de lesa-pátria Imagem 21: A Câmara Municipal de Lisboa, Imagem 22: José Veloso Salgado, O Sufrágio, Imagem 23: Crianças a bordo do vapor com destino à Trafaria, Imagem 24: Crianças a banhos na Trafaria, Imagem 25: Crianças na praia, Imagem 26: Grupo revolucionário, Imagem 27: As urnas que encerram os corpos do doutor Miguel Bombarda e almirante Cândido dos Reis colocadas nos Paços do Concelho, viii

9 Imagem 28: Homenagem fúnebre ao Almirante Cândido dos Reis e a Miguel Bombarda nos Paços do Concelho, Imagem 29: Funeral do Almirante Cândido dos Reis e de Miguel Bombarda, Imagem 30: Funeral do Almirante Cândido dos Reis e de Miguel Bombarda, Loja Maçónica, Imagem 31: Funeral de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, Imagem 32: Funeral de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, Praça do Comércio, Imagem 33: A Rotunda à chegada do funeral de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, Imagem 34: Funeral de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, Rotunda, Imagem 35: Povo armado a guardar a bandeira republicana, Imagem 36: Revolucionários Civis, Imagem 37: Revolucionários Civis, Imagem 38: Bando de populares dirigidos por militares e que se bateu pela Republica, Imagem 39: O Banco de Portugal guardado pelas forças de marinha e pelo povo armado, Imagem 40: Eusébio Leão, à varanda dos Paços do Concelho, depois de proclamada a República, aconselha moderação nos ânimos populares, Imagem 41: O mensurador das cadeias de Lisboa tomando as medidas a um dos padres da companhia de Jesus, Imagem 42: O primeiro exercício do batalhão de voluntários da Sé na parada do regimento de Infantaria 5, Imagem 43: O "povo" republicano, Imagem 44: Um trecho do Museu onde se vêem bandeiras portuguesa que serviram nas cerimónias republicanas com as coroas ( ), Imagem 45: Uma das poltronas do Paço das Necessidades atingida pelos bombardeamentos, Imagem 46: Sala da Marinha, Imagem 47: Sala do Exército, Imagem 48: Sala do Exército. Algumas granadas da artilharia revolucionária, Imagem 49: Capa da Ilustração Portuguesa com dois revolucionários a fazerem bombas, Imagem 50: Sala do Povo. Exposição de modelos de bombas, Imagem 51: Sala do Povo, Imagem 52: Sala do Povo, Imagem 53: Sala do Regicídio, Imagem 54: Sala do Regicídio, detalhe, ix

10 Imagem 55: Busto do ex-conselheiro José Luciano de Castro, que foi levado da casa dos navegantes para a Rotunda pelos revolucionários, Imagem 56: Sala João Chagas, Imagem 57: Sala João Chagas, Imagem 58: Sala João Chagas, Imagem 59: Membros do Governo Provisório visitando o acampamento da Rotunda, Imagem 60: Ornamentações na entrada da Avenida das Cortes, x

11 ÍNDICE INTRODUÇÃO... 1 CAPÍTULO 1: A REPÚBLICA IMAGINADA O país do movimento republicano A ideia de crise e de regeneração História e Memória Comemorar o passado para ganhar o presente CAPÍTULO 2: A GALÁXIA REPUBLICANA Pensar a(s) república(s) e o republicanismo A galáxia republicana As mulheres A questão social Convergências Os republicanos e o povo Ser republicano num país monárquico Percursos Ser um político republicano: da voz à polifonia Teófilo Braga António José de Almeida Bernardino Machado Afonso Costa Magalhães Lima Nomes maiores do republicanismo O Partido Republicano Português Organização interna O programa do Partido Republicano Português xi

12 2.7. A Carbonária, ou a arregimentação das classes populares Rituais e símbolos A relação com o Partido Republicano Português O republicanismo popular, acção directa e a propaganda pelo facto Os republicanos perante o regicídio Os radicais Os Congressos Republicanos Os congressos de Setúbal e do Porto CAPÍTULO 3: SOCIABILIDADE POLÍTICA Os centros republicanos: lugares privilegiados de sociabilidade política A escola no centro republicano Os centros republicanos na Grande Lisboa Espaços de sociabilidade política para além do centro republicano A geografia política de Lisboa Os jornais Os cafés Outros espaços Os centros republicanos e a luta para além de Lisboa A Carbonária para além de Lisboa CAPÍTULO 4: FAZER PASSAR A MENSAGEM: A PROPAGANDA REPUBLICANA O mundo da escrita O jornal, o folheto e a folha avulsa As editoras Os publicistas e as cartilhas Romances e folhetins A luta pela palavra xii

13 Os comícios: a cidadela, a fortaleza e o castelo A propaganda para lá da política: o lazer e o consumo A filantropia e os grémios excursionistas O teatro A festa e a música O consumo e o quotidiano na difusão da mensagem CAPÍTULO 5: OS INIMIGOS DO REPUBLICANISMO: CONTRA O QUÊ E CONTRA QUEM SE LUTAVA Os reis e a dinastia de Bragança A monarquia como fonte da crise D. Carlos I D. Manuel II e D. Amélia Os partidos e o político monárquico Do lado monárquico As Bastilhas do regime A repressão monárquica O jesuíta, a seita negra e a Igreja Católica: velhos inimigos CAPÍTULO 6: FAZER A REPÚBLICA As coligações As eleições As campanhas eleitorais A Câmara Municipal de Lisboa O Sufrágio A administração de Lisboa A via revolucionária CAPÍTULO 7: A REPÚBLICA NO PODER: PARA A FELICIDADE DA PÁTRIA O 5 de Outubro xiii

14 7.2. A implantação da república para além de Lisboa Construir significados Funerais verdes e vermelhos A luta pela construção da memória Revolucionários civis e beneméritos da Pátria A idealização do revolucionário A rua republicana Os revolucionários civis A admissão dos revolucionários civis na administração estatal As sentinelas vigilantes da República Museu da Revolução e o manuelino revolucionário CAPÍTULO 8: CONSTRUIR A REPÚBLICA O Governo Provisório A Assembleia Constituinte A questão social A constituição A arquitectura constitucional CAPÍTULO 9: O PRINCÍPIO E O FIM: ENSAIO DE CONCLUSÃO Do velho e do novo no movimento republicano O princípio e o fim A crise A depreciação da política e da Primeira República Revolução e contra-revolução A questão da democratização FONTES E BIBLIOGRAFIA xiv

15 INTRODUÇÃO History is the subject of a structure whose site is not homogenous, empty time, but time filled by the presence of the now. Walter Benjamin, On the Concept of History A assumpção central que marca este trabalho é que qualquer análise, estudo ou dissertação é marcada pelo tempo e pelo lugar de onde é pensada e escrita. Assim, há um momento zero em que o problema é formulado. Esta construção é feita num contexto específico e significativo. Um problema definido de uma forma diferente do que classicamente se fez pode conduzir a um outro tipo de explicação, a outra forma de analisar os documentos disponíveis e, porventura, a diferentes conclusões. 1 O momento em que se concebe a formulação de um problema pode influenciar a maneira como se vêm a desenhar as próprias conclusões do mesmo estudo. Procurando, no campo do que designa por história política, estudar a Primeira República, o Agora que olha para o Outrora sentiu a necessidade de encontrar as diferentes imagens do que era a República e o movimento republicano, num contexto em que se começa a questionar algumas das premissas que eram tidas como certas e seguras acerca daqueles. Num momento de questionamento, apresenta-se uma tentativa de reflexão, um outro olhar. Há, ainda, a preocupação de procurar um novo entendimento de como se pode levar a cabo a tarefa de realizar um trabalho dentro da designação genérica e fatalmente vaga de história política mas que não se cinja a um relato mais ou menos circunstanciado dos acontecimentos. Não se pretende perder de vista os acontecimentos. Mas não se lhes quer dar hegemonia dentro da economia do trabalho. Para este trabalho interessam as diferentes versões do que foram os principais acontecimentos do republicanismo. Para determinar a sua importância, recorremos aos escritos coevos, procurando perceber como se pensava a história do movimento republicano. Não sendo a narração dos acontecimentos políticos, a busca de inteligibilidade da conjuntura do republicanismo, enquanto movimento e enquanto poder, centra-se no processo, nos discursos e nas representações políticas. Assim sendo, o escopo deste trabalho é a procura de compreensão de modos de construção de diferentes discursos 1 TILLY, Charles, The Analysis of a Counter-Revolution, History and Theory, vol. 3, n.º 1, 1963:

16 sobre um objecto, reconhecendo que este dificilmente pode deixar de ser entendido como isso mesmo: uma construção. Esta tese tem como fio condutor a ideia de que o movimento republicano foi mais do que o Partido Republicano Português ainda assim formado por diferentes sensibilidades sendo uma galáxia de organizações e uma polifonia, um movimento a várias vozes. E que esta característica particular de um campo e de uma conjuntura política é essencial para a compreensão do princípio e do fim da República. Estudar o republicanismo tem uma imensa vantagem e é, de certa maneira, um imenso privilégio. Os republicanos foram, eles próprios, produtores do sentido da sua história e do seu tempo. Ou seja, estes homens e estas mulheres ainda que em muito menor grau, detentores das necessárias ferramentas críticas, deixaram-nos, por mão própria, a sua voz. Ao contrário de outros objectos de estudo, os republicanos constituíram-se em sujeitos e não ouvimos as suas vozes só através da mediação de outros. São eles próprios que nos interpelam a mais de um século de distância. Assim, os escritos republicanos, nas suas variadas formas, estão marcados pela presença do seu presente. Os republicanos quiseram construir o seu lugar na memória e na história. Neste sentido, a sua modernidade também se relaciona com a forma como olharam para a história e se transformaram em sujeitos de um processo mais vasto. 2

17 CAPÍTULO 1 A REPÚBLICA IMAGINADA 1.1. O país do movimento republicano Para pensarmos o republicanismo torna-se essencial analisar o último quartel do século XIX, a conjuntura do seu nascimento oficial, traçando as coordenadas centrais deste período, privilegiando a questão social, a política e a de cultura política. A face mais reconhecível tornada mais visível pela história política do republicanismo é o Partido Republicano Português (PRP), que nasceu em 1876, um ano depois do Partido Socialista (e, grosso modo, na mesma conjuntura do Partido Progressista). Que país era este que assistiu à criação destes dois partidos? Portugal era ainda essencialmente rural, pouco desenvolvido, com altas percentagens de analfabetismo, sobretudo entre as mulheres e fora dos centros urbanos. O pano de fundo, pintado a traços largos, era o da crise económica dos anos 90 do século XIX, a par de uma onda crescente de reivindicações sociais. Em 1903 iniciou-se uma onda de greves legalmente proibidas que se manteve até à proclamação da República em Na periferia da Europa, esta não era, contudo, uma sociedade imóvel e os ventos de mudança começavam, lentamente, a fazer-se sentir. Produtos do desenvolvimento económico do último quartel do século XIX, a industrialização, a urbanização e a terciarização, com as alterações sociais delas decorrentes, trouxeram para a arena política novos actores, do trabalhador industrial à pequena e média burguesia urbana. Com novos actores na arena política, duas questões começaram a impor-se no espaço público de discussão, a saber, a questão política e a questão social. Antes de as analisar, urge pensar a questão da res publica. É exactamente o alargamento da consciência da necessidade de vários grupos e agentes discutirem as questões públicas que acarretou as principais transformações no campo da cultura política. Até aos inícios do século XIX em Portugal, a coisa pública ainda estava ligada a privilégios e a direitos adquiridos. 2 Veja-se CABRAL, Manuel Villaverde, Portugal na Alvorada do Século XX, Lisboa, A Regra do Jogo,

18 Em 1822, as desgraças públicas começam a estar relacionadas com o desprezo dos direitos dos cidadãos. Associava-se a necessidade de garantir os direitos de cada um e o bem comum de todos os portugueses. A lei deveria ser igual para todos, ou seja, acabando com a multiplicidade de situações particulares. A cidade política estava barricada, porque impedia o acesso da maioria dos indivíduos que se estavam a transformar em agentes políticos, sobretudo quando pensamos no início do século XX, já que ( ) entre 1878 e 1895, Portugal desfrutara de uma das mais democráticas leis eleitorais da Europa. 3 O regime constitucional monárquico, depois deste período de abertura, iniciou um movimento de restrição do seu corpo eleitoral. Em Agosto de 1901 foi publicado um decreto eleitoral que rapidamente ganhou o nome de ignóbil porcaria. O país era dividido em grandes círculos plurinominais, com as cidades de Lisboa e Porto desenhadas de forma que os votos urbanos fossem anulados pelos rurais. Além disso, o decreto suprimia as comissões de recenseamento, relativamente independentes, por comissões de funcionários públicos. A reforma destinava-se, sem margem para dúvidas, a impedir uma aliança em Lisboa entre franquistas e republicanos. 4 No início do século XX, quem fazia as eleições ganhavaas. E os republicanos estavam de fora deste mecanismo que trancava o acesso ao parlamento de grupos e partidos indesejáveis. No entanto, e recorrendo ainda a Maria Filomena Mónica, esta situação deve ser analisada de acordo com a época vivida: É verdade que, no Portugal oitocentista, ninguém imaginava serem os resultados eleitorais a determinar a sorte de um governo. É verdade que a urna não se destinava tanto a mudar o Executivo quanto a legitimar a escolha do rei. 5 O republicanismo contestava, exactamente, tanto a legitimidade do rei como peça fundamental do sistema (embora o monarca não decidisse sem o recurso a determinados políticos, sendo de referir a importância do Conselho de Estado), como o próprio sistema. Em 1900, ao contrário de Portugal, a maior parte dos Estados europeus estabelecera o sufrágio universal (masculino) ou algo aproximado, apesar de continuarem a existir muitas dúvidas em torno da questão da concessão e do voto das massas. Ainda antes da implantação da República em 1910, podemos fazer referência ao caso da Suécia, da 3 MÓNICA, Maria Filomena, As reformas eleitorais no constitucionalismo monárquico, , Análise Social, vol. XXI (5º), n.º 139, 1996, pág Ibidem, pág Ibidem, pág

19 Áustria (1907) e da Turquia (1908) 6. O voto dos trabalhadores britânicos foi concedido através dos Reform Acts de 1867 e O caciquismo, um dos pilares do regime político, era uma forma durante um período eficaz de gerir os fluxos de poder e de favores, associando quem desejava ser eleito a um influente e aos votos que este arrebanhava. Mas os novos agentes e grupos sociais que queriam fazer política ou estavam fora desta cadeia de troca de favores, ou queriam instaurar uma nova forma de fazer política. Imagem 1: Giuseppe Pellizza da Volpedo, Il Quarto Stato (O Quarto Estado), 1901, óleo s/tela, Milão, Galeria de Arte Moderna. Giuseppe Pellizza da Volpedo pintou, na passagem do século XIX para o XX, um quadro intitulado Il Quarto Stato (O Quarto Estado). Em primeiro plano vemos dois homens e uma mulher com uma criança. Por detrás destas figuras vemos uma multidão quase infinita de trabalhadores. Mais do que uma cena, o quadro representa uma imagem da vida social e política da época, com o povo a avançar, inexorável, para a arena política. Podíamos, de igual modo, dizer que se trata da emergência das massas na vida política. A arte foi, de alguma forma, o sinal e o prenúncio do que foi este século XX, a era do povo, da multidão e das massas. A entrada em cena do quarto estado, através do início da sua consciencialização, modificou as regras do jogo político. Os grupos sociais excluídos da ordem liberal oligárquica vigente começaram a lutar pelos seus direitos, a contestar o sistema e a pensar em alternativas que lhe chegavam do estrangeiro, nomeadamente da Europa, onde a produção teórica e crítica neste campo era significativa. Desde a primeira metade 6 THOMSON, David (ed.), The New Cambridge Modern History, vol. XII, The Era of Violence, Cambridge, Cambridge University Press, ADELMAN, Paul, The rise of the labour party , Londres e Nova Iorque, Longman, 1996, pág. x. 5

20 do século XIX que pensadores e filósofos se debruçavam sobre a questão social. Mas o olhar sobre as condições de vida e de trabalho do quarto estado começara a ser feito por aqueles que sentiam a pertença a essa mesma condição. O anarquismo, o socialismo e o sindicalismo revolucionário proporcionavam as bases teóricas e o caminho prático para as alternativas à sociedade da belle époque. Esta revelava-se, para uma parte da população, como uma era de prosperidade e de segurança, mas, para outros, mais sombria. Esta época continha no seu seio os próprios sinais da crise. A imprensa operária e as editoras abriam o caminho à divulgação deste ideário, a par do trabalho em reuniões, associações e comícios. Não que todos os trabalhadores conhecessem com profundidade as diferentes teorias; Eric Hobsbawm 8 chamou já a atenção para esta situação. No entanto, ainda que em versão vulgata, as ideias novas começavam a circular e, tão importante quanto estas, a esperança de uma sociedade melhor. De entre aqueles munidos com as necessárias ferramentas críticas para pensar a política e a coisa pública estava uma aristocracia operária que partilhou, aliás, o campo do combate com os republicanos na luta contra a monarquia. Depois do 5 de Outubro de 1910, as relações tornaram-se mais complexas, não convergentes e conflituais. Um dos efeitos da terciarização, com o aumento dos trabalhadores nos serviços e no comércio, foi a ascensão e a multiplicação dos trabalhadores de colarinho branco. Isto permitiu a diferenciação entre a classe média e os trabalhadores da indústria. Sociologicamente, foram dois grupos distintos tendo, por isso, expectativas relativamente diferentes, ainda que fazendo parte de um vasto caudal que queria tomar o seu lugar na cidade política novecentista. A classe comercial, os caixeiros de Lisboa, o mundo dos lojistas, tiveram uma importância significativa, já que eram considerados como um dos esteios do movimento republicano 9. Do mesmo modo, os profissionais liberais (advogados, médicos) têm um peso importante na caracterização do republicanismo. Muitos deles defendiam a ideia do valor do mérito permitindo quer a mobilidade social ascendente, quer o direito a ter um papel activo na cidadania política. Existia uma última fronteira política que os republicanos só vagamente tentaram aflorar 8 HOBSBAWM, Eric, Revolutionaries, Londres, Abacus, ALVES, Daniel, Lisboa em 1908: um mundo de pequenas lojas. In Lisboa e a República. Actas do Colóquio Nacional, Lisboa, CML-DMC,

21 que era o imenso mundo dos trabalhadores rurais. Para Fernando Rosas, esta foi, aliás, uma das grandes fraquezas do movimento republicano 10. São estas novas forças políticas e sociais, que se viam excluídas do acesso ao campo do poder num Estado liberal, elitista e oligárquico, que foram as protagonistas de uma luta entre o velho e o novo o mesmo é dizer entre a elite tradicional e as novas classes médias urbanas ao lado de trabalhadores, sobretudo os industriais. A indústria portuguesa, minoritária no panorama económico nacional, continha diferentes realidades, desde a pequena oficina, mais comum, até à grande unidade fabril, mais rara. De igual modo, e reflectindo a miríade de situações existentes, a classe operária era variada e heterogénea. De natureza diferenciada, esta indústria e os seus trabalhadores estavam geograficamente concentrados, sobretudo nas zonas da grande Lisboa 11 e no Porto. As condições de vida destes trabalhadores eram diversificadas, mas muitos encontravam condições de trabalho quase desumanas e habitavam bairros miseráveis, como os pátios alfacinhas e as ilhas do Porto. A questão social estava na ordem do dia desde, pelo menos, os últimos anos do século XIX. Vários escritores, publicistas, jornalistas e políticos de diferentes quadrantes mostram-se sensíveis e reflectiram sobre estes problemas. A todos parecia claro que a questão social era de grande actualidade e que marcava a sua época. João Grave deixou-nos uma lúgubre imagem da vida dos operários numa ilha portuense no romance Os Famintos, um dos exemplos de obras que pretendiam levantar os principais problemas da vida dos mais desfavorecidos, na senda do trabalho de E. Zola, numa linha (...) segundo a qual o romance devia funcionar como um exercício de sociologia prática (...) 12. Essa também foi uma preocupação de Raul Brandão que programara a publicação de uma obra intitulada Os Operários 13. Podemos ainda fazer referência, no campo do romance naturalista, a Malheiro Dias, Teixeira de Queiroz ou Abel Botelho. Entre 1899 e 1904, a literatura portuguesa é, aliás, prolífera na ficcionalização do miserabilismo operário nos meios urbanos, no quadro de uma 10 ROSAS, Fernando, Pensamento e Acção Política. Portugal Século XX ( ), Lisboa, Editorial Notícias, Bento Carqueja, utilizando o censo geral da população de 1900, apreciando o desenvolvimento da indústria nacional através de um dado indirecto a população operária escreveu que consagram a sua actividade à indústria indivíduos, dos quais em Lisboa. Veja-se CARQUEJA, Bento, O capitalismo moderno e as suas origens em Portugal, Porto, Livraria Chardron, VIÇOSO, Vítor, A Literatura Portuguesa ( ) e a Crise Finissecular. In MATOS, Sérgio Campos (coord.), Crises em Portugal nos Séculos XIX e XX, Lisboa, Centro de História da Universidade de Coimbra, Veja-se BRANDÃO, Raul, Os Operários, fixação do texto, introdução e notas por Túlio Ramires Ferro, Lisboa, Biblioteca Nacional,

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