AMANDA CRISTINA GOMES VIEGAS LÚCIO FLÁVIO, UM PASSAGEIRO DA AGONIA? IMAGENS E ETHÉ DE UM SUJEITO BIOGRAFADO

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1 19 AMANDA CRISTINA GOMES VIEGAS LÚCIO FLÁVIO, UM PASSAGEIRO DA AGONIA? IMAGENS E ETHÉ DE UM SUJEITO BIOGRAFADO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA DEPARTAMENTO DE LETRAS, ARTES E CULTURA 2013

2 29 AMANDA CRISTINA GOMES VIEGAS LÚCIO FLÁVIO, UM PASSAGEIRO DA AGONIA? IMAGENS E ETHÉ DE UM SUJEITO BIOGRAFADO Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Letras da Universidade Federal de São João del- Rei, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Letras. Área de Concentração: Teoria Literária e Crítica da Cultura Linha de Pesquisa: Discurso e Representação Social Orientadora: Profa. Dra. Dylia Lysardo-Dias UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI 2013

3 39 Banca Examinadora: Profa. Dra. Dylia Lysardo-Dias - UFSJ Orientadora Prof. Dr. William Augusto Menezes - UFOP Titular Profa. Dra. Suely da Fonseca Quintana - UFSJ Titular Prof. Dr. Cláudio Márcio do Carmo Coordenador do Programa de Mestrado em Letras São João del-rei, 30 de julho de 2013

4 Aos meus pais, Benedito e Sílvia, por não medirem esforços para que eu chegasse até aqui. 49

5 59 AGRADECIMENTOS À Profª. Drª. Dylia Lysardo-Dias, pela orientação baseada em confiança e compreensão. Sou grata pelos seus valiosos ensinamentos e conselhos para minha formação acadêmica. Aos amigos da turma do discurso de 2011 e 2012, especialmente Vitor, Sabrina, Fernanda, Carla, Tatiana e Eliane, pelos momentos felizes e dramáticos que passamos pela caminhada. À minha família: meus pais, meus irmãos (Sérgio, Sávio e Alessandra), minha sobrinha (Bruna), pelo incentivo a continuar meus estudos e por sempre acreditarem que eu seria capaz. Ao Teófilo, pelo companheirismo, pelas palavras de incentivo e pela compreensão da minha ausência nesses dois anos de estudo. Aos amigos de longa data, pelo incentivo e carinho e principalmente por escutarem minhas lamentações nos momentos difíceis. À amiga Ronessa, pela ajuda com a tradução do abstract e pelas palavras animadoras em meio às dificuldades enfrentadas nos estudos. Ao Programa de Mestrado em Letras da UFSJ, pela convivência com professores com os quais aprendi imensamente. À agência de fomento CAPES, pelo apoio financeiro.

6 69 RESUMO Este trabalho tem como objetivo identificar e analisar as imagens e os ethé de Lúcio Flávio, um dos bandidos mais procurados pela polícia carioca da década de 1970, na obra Lúcio Flávio: o passageiro da agonia no intuito de verificar como a qualificação passageiro da agonia é construída pelo perfil apresentado pelos múltiplos enunciadores que se articulam nessa narrativa de cunho biográfico. Foram utilizados como categorias de análise os modos de organização (i) descritivo, através dos procedimentos de nomeação e qualificação, e (ii) narrativo, através do componente actancial, propostos por Patrick Charaudeau (2009). O estudo dos ethé privilegiou sua dimensão discursiva, com base nas proposições de Ruth Amossy (2005) e Dominique Maingueneau (2004, 2005, 2006). A pesquisa mostrou que a trajetória de vida e as características atribuídas a Lúcio Flávio pelas diferentes vozes presentes na obra apontam para um criminoso singular, que foge do estereótipo do bandido comum, e cujos momentos finais de vida são marcados pela previsível e inevitável derrocada. PALAVRAS-CHAVE: Biografia Imagem Ethé

7 79 ABSTRACT The aim of this paper is to identify and analyze the images and the ethe of Lúcio Flávio, one of the most wanted criminals by the police of Rio de Janeiro, in the 1970s, in the book 'Lúcio Flávio: o passageiro da agonia', in order to verify how the qualification as 'passageiro da agonia' is constructed by the profile presented by multiple enunciators that articulate themselves in this biographical narrative. It was used as categories of analysis the methods of organization (i) descriptive, through the appointment procedures and qualifications, and (ii) narrative through the component actantial proposed by Patrick Charaudeau (2009). The study of the ethe favored its discursive dimension, based on proposals from Amossy Ruth (2005) and Dominique Maingueneau (2004, 2005). The research has shown that his trajectory of life and the characteristics attributed to him by the different voices present in this book suggests a singular criminal who does not match with the stereotype of the common criminals and whose final moments of life were marked by predictable and inevitable downfall. KEYWORDS: Biography - Pictures - Ethe

8 89 SUMÁRIO INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1: ESCRITAS BIOGRÁFICAS 1.1 Apresentação e características da escrita biográfica Lúcio Flávio: o passageiro da agonia Aspectos e características das escritas biográficas e da biografia de Lúcio Flávio A vida de Lúcio Flávio em meio à conturbada década de Algumas considerações CAPÍTULO 2: VOZES QUE NARRAM: DIALOGISMO E POLIFONIA EM LÚCIO FLÁVIO: O PASSAGEIRO DA AGONIA 2.1 Aspectos enunciativos: dialogismo e polifonia Análise de aspectos enunciativos na biografia de Lúcio Flávio José Louzeiro como fonte enunciativa A questão do interdiscurso: o livro, o filme e as entrevistas de José Louzeiro Algumas considerações CAPÍTULO 3: AS IMAGENS DE LÚCIO FLÁVIO 3.1 Discurso e imagens Imagens a partir da descrição Imagens a partir da narração Algumas considerações CAPÍTULO 4: OS ETHE DE LÚCIO FLÁVIO 4.1 A noção de ethos Análise dos ethé em Lúcio Flávio: o passageiro da agonia Algumas considerações CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS ANEXOS

9 99 INTRODUÇÃO No início da década de 1970 no Brasil, uma época conturbada pela ditadura militar, uma figura que desafiava a lei era alvo constante da mídia: Lúcio Flávio Vilar Lírio. Um dos pioneiros em assaltos a bancos no país, Lúcio Flávio roubou vários deles, cometeu alguns assassinatos e fugiu mais de 20 vezes da prisão. Em uma de suas fugas, ele saiu pela porta da frente, como afirma o jornalista José Louzeiro, em entrevista ao blog Estranho Encontro 1. Lúcio Flávio negociava com policiais e, muitas vezes, pagava pela sua liberdade, concedendo propina às autoridades. Esses fatos nos levam a crer que ele não era um bandido qualquer. Com sua inteligência a serviço do crime, como citou Louzeiro na entrevista, Lúcio Flávio protagonizava assaltos espetaculares e isso o destacava no mundo do crime carioca naquela época. Por conta da sua vida ativa no crime, ele era um dos bandidos mais procurados do país. Na entrevista citada, José Louzeiro afirma que Lúcio Flávio era vaidoso e megalômano: ele avisou ao repórter que estava cobrindo plantão no jornal O Globo, mediante um telefonema na madrugada, que iria assaltar uma agência bancária na Urca na manhã seguinte. Louzeiro foi ao local e disse que o assalto foi fenomenal. O repórter disse também que havia prometido a Lúcio Flávio escrever sua história. Em 1975, após a morte de Lúcio Flávio, José Louzeiro publicou um livro com a história desse criminoso. A obra intitulada Lúcio Flávio: o passageiro da agonia 2, que mais tarde gerou um filme 3, lançado em 1977, com o mesmo nome e com sucesso de bilheteria, foi uma das primeiras a ser escrita no gênero romancereportagem, gênero em voga na época nos Estados Unidos. O romance-reportagem, ou livro-reportagem, é um gênero que mescla a realidade e a literariedade segundo Vilas Boas (2002). Trata-se de uma prática jornalística e literária capaz de acolher com relativa folga a seguinte hipótese: biografias têm enfoque humano pela via da escrita impressa, mas algumas possuem 1 Dados colhidos de uma entrevista de José Louzeiro no blog Estranho Encontro. Disponível em: <http://estranhoencontro.blogspot.com.br/2006/05/biografia-entrevista-jos-louzeiro.html>. Acesso em: 3 jun LOUZEIRO, 1990 (edição utilizada como objeto de análise neste trabalho.) 3 Lúcio Flávio: o passageiro da agonia. Direção Hector Babenco. 118 min. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=emrfrjq_ewe>. Acesso em: 20 jun

10 109 elementos jornalísticos, como o compromisso com os fatos (passado) e com a clareza (acessibilidade). A história de Lúcio Flávio foi narrada em terceira pessoa, mas por um narrador-onisciente, ou seja, um narrador que se coloca como aquele que tudo sabe da consciência dos personagens, inclusive do protagonista da história. Na biografia de Lúcio Flávio, são vários os enunciadores, porque é reproduzida a (suposta) fala dos vários personagens: Lúcio Flávio, alguns de seus familiares, amigos, policiais e outros bandidos. Pela pluralidade de vozes presentes na história, consideramos a obra como uma biografia explicitamente polifônica. Tendo em vista essa configuração, este trabalho tem como objetivo identificar e analisar as imagens construídas pela obra de um sujeito polêmico do mundo do crime da década de 1970 que teve sua história contada na literatura e no cinema. Nosso interesse pela obra surgiu a partir da singularidade de apresentar várias vozes que caracterizam Lúcio Flávio: a voz do biógrafo é apresentada pelo viés de outros personagens e a voz do biografado é forjada por diálogos supostamente de autoria de Lúcio Flávio. Ao mesmo tempo em que a narrativa apresenta diversas vozes, estas convergem a um mesmo enunciador, pois a história é contada pelo prisma de José Louzeiro. A partir desse jogo de vozes, quais imagens elas constroem de Lúcio Flávio? Como Lúcio Flávio é descrito pelos sujeitos que assumem a enunciação? Como seus ethé são configurados a partir do que supostamente Lúcio Flávio pensa e fala sobre si? Por se tratar de uma obra de cunho biográfico, o trabalho de identificar e analisar as imagens e os ethé de Lúcio Flávio se torna pertinente para o estudo da vida dessa figura ímpar dos anos Mediante o procedimento de análise de descrição e narração é que chegamos às imagens e aos ethé do personagem Lúcio Flávio. Como aporte teórico, utilizamos, para a realização desta pesquisa, autores que se dedicam às teorias sobre biografias, como Philippe Lejeune (2008), que é um dos precursores nos estudos sobre escritas biográficas com sua obra o Pacto Autobiográfico. Também nos valemos das contribuições de Leonor Arfuch (2010) com O espaço biográfico e Sérgio Vilas Boas (2002, 2008), que aborda as biografias jornalísticas e a tensão entre o real e o imaginário, citando inclusive o livroreportagem, gênero ao qual a obra estudada nesta pesquisa foi classificada em seu

11 119 prefácio escrito por Ildásio Tavares 4. Mozahir Bruck (2009) é um autor que também aborda a relação entre o real e o imaginário nas biografias, além da relação com a literatura. Já Pierre Bourdieu (1996), no texto A ilusão biográfica, fala sobre a criação de uma história de vida, de um ideal que acaba sendo uma ilusão ao se escrever uma biografia. Para a abordagem das imagens de Lúcio Flávio, apresentamos primeiramente a concepção de discurso proposta por Eni Orlandi (1994) e Patrick Charaudeau (2009). Em seguida, abordamos a relação entre discurso e imagens segundo proposições de Cristia Miranda (2007). Para a análise das imagens, utilizamos o modo de organização descritivo e o modo de organização narrativo, no interior da Teoria Semiolinguística, propostos por Charaudeau (2009). A descrição cria representações a partir do ser, ou seja, a partir das qualificações atribuídas ao sujeito. A narração, por sua vez, cria representações a partir do fazer, ou seja, a partir das ações do sujeito. Em relação ao ethos, inicialmente fizemos uma abordagem histórica iniciada com Aristóteles (2011), passando por Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca (2005), que abordam o ethos no âmbito da retórica. Quanto ao ethos no campo discursivo, utilizamos Ruth Amossy (2005), que considera o ethos no âmbito da Análise do Discurso sem deixar de lado a definição de Aristóteles em relação a essa prova discursiva. Outro autor com o qual trabalhamos nessa mesma linha é Dominique Maingueneau (2004, 2005), que relaciona o ethos à enunciação. Para ele, o ethos é parte constitutiva da cena de enunciação, sendo tão importante quanto o vocabulário, por exemplo. Em termos metodológicos, realizamos uma caracterização das escritas biográficas para situar a obra em análise e, em seguida, a contextualização histórica do Brasil na década de 1970 de forma a relacionar os acontecimentos do país nessa década à história de Lúcio Flávio. Abordamos teoricamente aspectos enunciativos como o dialogismo, a polifonia e o interdiscurso e fizemos um estudo desses aspectos na obra analisada. 4 Texto intitulado Romance-reportagem, de autoria de Ildásio Tavares, publicado originalmente no Jornal de Letras em junho de 1976 e como prefácio da obra analisada nesta pesquisa: Louzeiro (1990).

12 129 Em relação às imagens, primeiramente, as inserimos no campo das representações e, em seguida, realizamos a análise das imagens de Lúcio Flávio utilizando os modos de organização descritivo e narrativo propostos por Charaudeau (2009). O estudo das imagens na biografia foi realizado a partir da identificação dos diferentes componentes que fazem parte da descrição e da narração, como a nomeação, a qualificação e o componente actancial. Em relação aos ethé, que consideramos como imagens de si, a análise foi feita a partir da voz do personagem Lúcio Flávio, utilizando como categoria de análise a qualificação proveniente do modo de organização descritivo proposto pelo teórico citado. Finalmente, a análise de ambos os aspectos, imagens e ethé, permitiu concluir que Lúcio Flávio é caracterizado somente pela sua voz como um passageiro da agonia. Essa caracterização pode ser depreendida pelo fato de que as autoqualificações representam Lúcio Flávio como um bandido que tinha as rédeas dos seus atos, mas que foi perdendo essas rédeas na sucessão dos acontecimentos. Citamos: a desconfiança que tinha dos seus amigos, a traição que sofreu pelos policiais com os quais negociava, o sentimento de ter feito seus pais sofrerem e a não-concretização do seu desejo de viver como gostaria ao lado da mulher que amava e do filho. Ele considerava estar preso em uma roda que não parava de girar. Logo, ele era um passageiro, por ser conduzido e por não poder conduzir sua própria vida. Conduzido a um caminho de angústia e sofrimento por não poder decidir qualquer coisa sobre sua vida e por não poder mudar essa situação.

13 139 CAPÍTULO 1: ESCRITAS BIOGRÁFICAS O objetivo deste capítulo é apresentar a obra que utilizamos como nosso objeto de estudo, o livro Lúcio Flávio: o passageiro da agonia, e inseri-lo no âmbito das escritas biográficas abordando os elementos composicionais de uma biografia. Baseamo-nos, sobretudo, em Lejeune (2008), Arfuch (2010), Vilas Boas (2002, 2008), Bruck (2009) e Bourdieu (2006). Além disso, elaboramos uma contextualização da época da vida do biografado a partir de um breve enfoque de fatos históricos ocorridos na década de 1970 no Brasil. 1.1 Apresentação e características da escrita biográfica Lúcio Flávio: o passageiro da agonia A vida de um homem pode muito bem surgir através da narrativa de um outro (LEJEUNE, 2008, p. 121). A fala ou a escrita do modelo pode ser coletada e montada por um terceiro. É dessa forma que pode nascer uma biografia ou uma escrita de cunho biográfico, como a obra analisada nesta pesquisa. O livro Lúcio Flávio, o passageiro da agonia possui 20 capítulos, além do prefácio, escrito por um crítico, e do posfácio, provavelmente elaborado pela editora, apresentando brevemente o autor José Louzeiro. A edição aqui analisada é a de 1990 publicada pela editora Círculo do Livro, em São Paulo. A primeira edição foi publicada em Louzeiro, em entrevista concedida ao blog Estranho Encontro, afirmou ter escrito o livro após a morte de Lúcio Flávio, que ocorreu em Louzeiro disse na entrevista que Lúcio Flávio ligou para o jornal em que o repórter trabalhava avisando sobre um assalto que ele iria fazer no dia seguinte, oferecendo a Louzeiro a notícia em primeira mão. Perguntado pela autora do blog se o projeto de escrever o livro tinha sido combinado entre Louzeiro e Lúcio Flávio, Louzeiro respondeu: Eu prometi que escreveria um livro sobre ele. No filme está assim: Vocês podem acabar comigo, mas não acabam com a minha história. Estou contando para um jornalista. O jornalista era eu. Fui para São Paulo, fiquei na Folha de São Paulo uns anos e, depois, quando eu voltei para o Rio em 75, ele tinha sido assassinado. Aí eu resolvi, em cima da história dele, escrever um livro (Trecho da entrevista de José Louzeiro disponível no blog Estranho Encontro).

14 149 A narração da vida de Lúcio Flávio é feita em terceira pessoa e o narrador não participa da história, ou seja, ele é onisciente e conhecedor dos pensamentos de alguns personagens, principalmente dos pensamentos de Lúcio Flávio. A obra, de cunho biográfico, é classificada como um romance-reportagem em seu prefácio, escrito pelo crítico Ildásio Tavares em um texto originalmente publicado no Jornal das Letras em junho de 1976, intitulado Romance-reportagem. Tavares (1990) afirma que: Realizou Louzeiro, a meu ver, uma pequena obra-prima do gênero. Desde a maneira como a temática é abordada, à fidelidade da linguagem e a desabrida coragem que teve de nos revelar, sem toques eufemísticos, uma realidade que continua a se processar em nossos dias. (p. 12). O livro-reportagem, como modalidade de comunicação jornalística, tem espaço próprio na indústria cultural e pode ser posicionado como a literatura da realidade (LIMA, 2004). O gênero romance-reportagem teve origem nos Estados Unidos, segundo Tavares (apud LOUZEIRO, 1990), e quando surgiu houve uma divisão de opinião dos críticos em relação a ele: muitos elogiavam e outros atacavam. Entretanto, os livros eram um sucesso de vendas. Para Tavares (apud LOUZEIRO, 1990), Louzeiro é repórter e ficcionista ao mesmo tempo, pois soube pegar um personagem real, decompô-lo e criar um novo personagem exteriormente semelhante a Lúcio Flávio (p. 12). O livro-reportagem, para Vilas Boas (2002), mescla a realidade e a literariedade. Ele é uma prática jornalística e literária capaz de acolher a seguinte hipótese: biografias têm enfoque humano pela via da escrita impressa, mas algumas possuem elementos jornalísticos, como o compromisso com os fatos (passado) e com a clareza (acessibilidade). Segundo Vilas Boas (2002), o objeto macro da narrativa biográfica é gerar conhecimento sobre o passado de alguém ou de alguma coisa. Entretanto, a biografia não consegue conter a totalidade dos acontecimentos testemunhados, em dado momento ou em determinado lugar, mas somente alguns aspectos escolhidos. Os biógrafos precisam manter um diálogo interminável entre presente e passado. Uma biografia não pode ser escrita a menos que o biógrafo estabeleça algum tipo de

15 159 contato com a mente do biografado e a sua. Trata-se de uma relação de reciprocidade. O autor define a narrativa jornalística não-periódica, ou livro-reportagem, como o relato de um conjunto de acontecimentos com sequência e andamento lógicos. Alguns episódios narrados no livro, como assaltos e fugas da prisão, bem como a figura de Lúcio Flávio, foram relatados por veículos midiáticos contemporâneos, como o site Cyber Polícia, que conta a história de outros bandidos famosos, e pelos blogs e sites 5, nos quais encontramos entrevistas do autor do livro José Louzeiro. A revista Veja 6 (edição 496), publicada na época do lançamento do filme, dedicou uma matéria de capa intitulada Lúcio Flávio A vida real no cinema. A reportagem primeiramente conta um pouco sobre a vida de Lúcio Flávio e a sua relação com o Esquadrão da Morte para então abordar o filme Lúcio Flávio: o passageiro da agonia, por meio dos relatos do diretor Hector Babenco, do roteirista José Louzeiro (autor do livro homônimo) e do protagonista que interpretou Lúcio Flávio, o ator Reginaldo Faria. A reportagem também relata a revolta da família de Lúcio Flávio com a história retratada no filme, além do sucesso de bilheteria que o filme foi em São Paulo e em mais quatro estados brasileiros que a revista não cita quais são. O diretor e o roteirista aguardavam apreensivos pela exibição no Rio de Janeiro, pois eles não imaginavam a reação do público na cidade onde se passa a maior parte do filme. Em depoimento dado à revista Veja (edição 496), o autor, José Louzeiro, disse que foi necessário pedir autorização ao governo para lançar o filme, homônimo do livro, no país. A exibição do filme foi permitida desde que não aparecessem cenas com policiais fardados e viaturas policiais. Como a história do filme é muito parecida com a do livro, o esquema de corrupção aparece em algumas cenas em 5 Site Cyber Polícia História da Polícia Operacional Investigativa. Disponível em: <http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/crime-e-criminosos/ bandidos/ bandidos nacionais /121- lucio-flavio>. Acesso em: 4 jun Entrevista com o autor José Louzeiro no blog Estranho Encontro. Disponível em: <http://estranhoencontro.blogspot.com.br/2006/05/biografia-entrevista-jos-louzeiro.html>. Acesso em: 3 jun Página do escritor José Louzeiro. Disponível em: <http://www.louzeiro.com.br/index.html>. Acesso em: 3 jun Veja. São Paulo: Abril, ed. 496, 8 mar Disponível em: <http://veja.abril.com.br/acervodigital/>. Acesso em: 3 jun

16 169 que Lúcio Flávio se relacionava com alguns policiais planejando assaltos e algumas fugas da prisão. Em relação à história do livro, Tavares (apud LOUZEIRO, 1990) afirma a existência de dois mundos que se chocam: o mundo dos marginais e o mundo dos policiais. Entretanto, não há mocinhos ou bandidos segundo o crítico. Este descreve Lúcio Flávio como um personagem duro, cruel e inescrupuloso, mas na medida de um código de valores desenvolvido a partir da necessidade de sobreviver numa selva. No posfácio intitulado O autor e sua obra, texto provavelmente elaborado pela editora, há a afirmação de que o livro deu início ao gênero romance-reportagem no Brasil, recriando situações de impacto político e social: Em Lúcio Flávio: o passageiro da agonia (1975), José Louzeiro dava início ao romance-reportagem, recriando situações de impacto policial ou político (p. 245). Há ainda, no posfácio, uma pequena biografia do autor e menção a seus outros livros. Também foi mencionado que a história contada no livro foi adaptada para o cinema, sendo o próprio Louzeiro o roteirista e Hector Babenco o diretor. A vida de Louzeiro e algumas das obras que escreveu serão mais detalhadas no capítulo dois deste trabalho. 1.2 Aspectos e características das escritas biográficas e da biografia de Lúcio Flávio Lejeune (2008), uma das referências nos estudos biográficos, considera que a biografia e a autobiografia, em oposição a todas as formas de ficção, são textos referenciais: exatamente como o discurso científico ou histórico, eles se propõem a fornecer informações a respeito de uma realidade externa ao texto e a se submeter, portanto, a uma prova de verificação. Seu objetivo não é a simples verossimilhança, mas a semelhança com o verdadeiro; não o efeito de real, mas a imagem do real. Dessa forma, esses textos referenciais comportam o que ele chama de pacto referencial. Segundo Lejeune (2008), na biografia, o autor e o narrador estão por vezes ligados por uma relação de identidade. Essa relação pode permanecer implícita ou indeterminada, ou ser explicitada, por exemplo, em um prefácio. Pode ser também

17 179 que nenhuma relação de identidade seja estabelecida entre o autor e o narrador. Na edição aqui analisada de Lúcio Flávio: o passageiro da agonia, essa identidade não é explicitada pelo autor do livro, mas sim por um crítico literário que esclarece que a história se trata de um romance-reportagem. O título do prefácio Romancereportagem já situa o leitor que a obra está inserida nesse gênero. O autor do prefácio, Tavares (apud LOUZEIRO, 1990), explica a controvérsia que existe em torno desse gênero nos Estados Unidos e afirma que Louzeiro escreveu uma pequena obra-prima no gênero: Grande tem sido a controvérsia nos Estados Unidos em torno do gênero romance-reportagem, que foi iniciado pelo já consagrado romancista Truman Capote, com seu best seller A sangue frio, onde narra assassinatos que de fato ocorreram nos Estados Unidos. Outros autores seguiram a trilha aberta por Capote [...]. Veio a acontecer uma curiosa ambivalência. Por um lado, os livros vendiam horrores e tinham apoio de alguns críticos. Por outro lado, eram atacados pelos críticos que ainda estão à espera da great novel que não acreditavam poder ser realizada desta forma (p. 9). Realizou Louzeiro, a meu ver, uma pequena obra-prima do gênero. Desde a maneira como a temática é abordada, à fidelidade da linguagem e a desabrida coragem que teve de nos revelar, sem toques eufemísticos, uma realidade que continua a se processar em nossos dias (p. 12). A relação do personagem (no texto) com o modelo (referente extratextual) é uma relação de identidade, porém trata-se, sobretudo, de uma relação de semelhança (LEJEUNE, 2008). No caso do sujeito do enunciado, a relação de identidade não tem o mesmo valor que para o sujeito da enunciação: ela é simplesmente um dado do enunciado que está no mesmo plano que os outros, não vale como prova e precisa ela própria ser provada pela semelhança. Segundo o autor, o que opõe a biografia à autobiografia é a hierarquização das relações de semelhança e identidade: na biografia, é a semelhança que deve fundamentar a identidade; na autobiografia, é a identidade que fundamenta a semelhança. A identidade é o ponto de partida real da autobiografia; a semelhança, o impossível horizonte da biografia (p. 39). A leitura, segundo Lejeune (2008), depende do nome próprio e do uso que se faz dele no texto e no título do livro publicado. O nome, na medida em que figura no título do livro, programa certo tipo de leitura: ele suscita a curiosidade biográfica e o

18 189 investimento imaginário na existência de um outro. Todos conhecem o slogan subjacente a qualquer literatura vivida : verdadeiro como a vida, belo como um romance. O nome próprio utilizado como título anuncia a modalidade da obra e como deve ser lida. Ele coloca em primeiro plano o interesse pela forma individual e concreta de uma vida, como afirma Lejeune (2008). Foi justamente o nome que figura como título da obra que é nosso objeto de análise que nos chamou atenção para estudá-la. O nome próprio, Lúcio Flávio, e seu complemento, o passageiro da agonia, nos fazem pensar em como o criminoso Lúcio Flávio teria sua imagem representada ao longo da narrativa desse livro, já que, em outras fontes que consultamos, como entrevistas do autor, sites e artigos que falam sobre Lúcio Flávio, ele era visto como um criminoso valente, que desafiava a lei, além de ser uma figura que fugia dos estereótipos de bandido daquela época: ele vinha de uma família de classe média, era considerado bonito pela mídia por possuir cabelos claros e olhos verdes, e também era visto como uma pessoa muito inteligente, já que planejava assaltos mirabolantes a bancos e fugas espetaculares. Como então poderia ser um passageiro da agonia? O nome próprio e seu complemento o passageiro da agonia que compõem o título do livro figuram em nosso trabalho como elementos importantes conforme veremos mais adiante na análise. Arfuch (2010) possui uma visão um pouco diferente da de Lejeune (2008) em relação à biografia. Para ela, o que realmente importa no gênero biográfico não é precisamente o conteúdo do relato por si mesmo, mas as estratégias ficcionais que o biógrafo utiliza. O auge das biografias costuma oferecer frequentemente entradas pouco reconhecíveis entre ficção, obra documental, romance histórico, caso psicanalítico ou fofoca, segundo a autora. No que diz respeito ao biográfico, na medida em que os fatos da vida de alguém exigem uma historicidade do acontecido, questiona-se, segundo Arfuch (2010), em qual direção a balança se inclinará: para a ficção ou para a historicidade? Os gêneros canônicos, segundo a autora, jogarão um jogo duplo, ao mesmo tempo história e ficção, entendida essa última menos como invenção do que como obra literária, integrando-se ao conjunto de uma obra de autor e operando simultaneamente como testemunho, arquivo, documento, tanto para uma história individual quanto de época, pois a história particular de um sujeito pode vir acompanhada de fatos que retratam certa época e lugar, retratam a sociedade.

19 199 Nesse ponto, Arfuch (2010) menciona dois espaços possíveis na biografia: o público e o privado. A fronteira entre esses dois espaços não é bem delimitada, pois eles se entrecruzam numa e noutra direção: não só o íntimo/privado sairia de seu caminho invadindo territórios alheios, mas também o público não alcançaria o tempo todo o estatuto da visibilidade; antes, poderia recuar, de maneira insondável, sob a mesma luz da superexposição. Toda biografia ou relato de experiência, para Arfuch (2010), é, num ponto, coletivo, expressão de uma época, de um grupo, de uma geração, de uma classe, de uma narrativa comum de identidade. É essa qualidade coletiva, como marca impressa na singularidade, que torna relevantes as histórias de vida tanto nas formas literárias tradicionais quanto nas midiáticas e nas ciências sociais. Dessa maneira, a autora afirma que biográfico excede em muito uma história pessoal. Concordamos com Arfuch (2010): segundo ela, o biográfico excede a história pessoal ao afirmarmos que a narrativa de vida do Lúcio Flávio não se trata somente de contar a história desse homem, mas também de relatar a existência de uma organização criminosa, como o Esquadrão da Morte, que envolvia autoridades policiais. A narrativa leva ao conhecimento dos leitores a existência da corrupção existente entre os homens da lei, aqueles que faziam valer a lei para os civis utilizando formas cruéis, como a tortura e a morte daqueles que não se conformavam em ser passivos diante da situação política do Brasil. Além disso, esse grupo praticava o extermínio de bandidos considerados perigosos como Lúcio Flávio. Podemos afirmar, assim, que o livro do repórter investigativo José Louzeiro possui, além do caráter biográfico, um caráter de denúncia. A biografia, segundo Arfuch (2010), é um gênero que se move entre o testemunho, o romance, o relato histórico, o ajuste a uma cronologia, a invenção do tempo narrativo, a interpretação minuciosa de documentos e a figuração de espaços reservados. Sua valoração como gênero não deixa de ser controversa, pois muitas vezes pensa-se na biografia como uma escrita que é obrigada a respeitar a sucessão das etapas da vida, a buscar causalidades, a outorgar sentidos e a justificar nexos esclarecedores entre vida e obra (ARFUCH, 2010). Para a Arfuch (2010), A excessiva publicação de biografias em nossos dias mostra tanto sua resistência ao tempo e aos estereótipos do gênero quanto a

20 209 busca de novos posicionamentos críticos a respeito de seu inegável trabalho ficcional: mostra também o favor sustentado do público, que busca nelas esse algo a mais que ilumine o contexto vital da figura de algum modo conhecida (p. 139). Entretanto, há também exercícios de escrita que, sem abandonarem o modelo de narração da vida de um personagem existente, se afastam da fidelidade histórica para dar lugar a novos híbridos em nosso cenário atual, o auge de narrações romanceadas em torno de personagens históricos bem conhecidos, sem a pretensão de veracidade. Esse é o caso da história de Lúcio Flávio: um homem bastante conhecido na época da publicação da obra, que conta fatos de sua vida mesclando realidade e ficção. Como a biografia sempre está inserida em um contexto de espaço e de tempo, concordamos com Arfuch (2010) que esse gênero envolve a relação do sujeito com seu contexto imediato, aquele que permite se situar no (auto)reconhecimento: a família, a linhagem, a cultura, a nacionalidade. Nenhum retrato de um sujeito consegue se desprender da moldura de uma época e, nesse sentido, a biografia fala também de uma comunidade. Ao ler Lúcio Flávio: o passageiro da agonia, podemos levar em consideração todo o contexto em que o personagem está inserido: um criminoso proveniente da classe média mineira, morador do Rio de Janeiro, que violava o sistema da segurança da polícia da década de 1970 com suas várias fugas das prisões e seu envolvimento com a polícia corrupta daquela época. A narrativa da vida do Lúcio Flávio remete, portanto, às circunstâncias sociais e culturais da década de 1970 no Brasil no que diz respeito a ações de criminosos que estavam ligados a organizações corruptas da época, como era o caso do Lúcio Flávio e dos policiais que faziam parte do Esquadrão da Morte. Mais do que a história particular de um bandido, a obra é um relato da esfera de crimes que vigoravam em determinada época em nosso país. A partir de um horizonte analítico, é possível apreender a circulação narrativa das vidas, comuns e singulares, discernir semelhanças e especificidades, à luz de uma concepção dos gêneros discursivos em acordo com isso segundo Arfuch (2010). Espaço onde algumas formas são naturalmente incluídas, por tradição ou inovação, e outras tornam duvidosa a aplicação mesma do atributo biográfico, traçando assim uma fronteira sempre provisória. Mas é a insistência, e até a

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