A POLUIÇÃO DO AR NA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO: IMPACTOS À SAÚDE HUMANA

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1 A POLUIÇÃO DO AR NA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO: IMPACTOS À SAÚDE HUMANA Ana Carolina Rodrigues Teixeira 1, Luiz Felipe Silva 1, Vanessa S. Barreto Carvalho 1 ¹Instituto de Recursos Naturais Universidade Federal de Itajubá RESUMO: A poluição do ar é um problema relevante de saúde pública. Nesse contexto, este estudo tem como objetivo avaliar a relação entre determinados indicadores de saúde da população que vive na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e a concentração de material particulado (PM 10 ) registrada entre 1998 e A metodologia utilizada foi proposta por Ostro (2004). Os resultados revelaram altos números de mortalidade associados a doenças respiratórias, câncer de pulmão e doenças cardiovasculares que podem ter sido causadas pela poluição atmosférica no período estudado. ABSTRACT: Air pollution is an important public health problem. In this context, this study aims to evaluate the relationship between certain indicators of population health in the Metropolitan Area of Rio de Janeiro and the concentration of particulate matter (PM 10 ) registered between 1998 and The methodology used was proposed by Ostro (2004). The results showed high numbers of mortality due to respiratory diseases, lung cancer and cardiovascular disease that may have been caused by air pollution during the study period. 1. INTRODUÇÃO A poluição atmosférica é um tema de grande relevância para a área de saúde pública e ambiental, principalmente, em grandes centros urbanos como é o caso da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ). As principais fontes de emissão responsáveis pelo agravo da poluição do ar nesta região são, principalmente, veículos automotores, responsáveis por 77% do total das emissões de poluentes atmosféricos, e as indústrias, responsáveis por 33% (INEA, 2008). Em 1990, a Resolução CONAMA nº 003 definiu os padrões de qualidade do ar no Brasil (ainda em vigor), estabelecendo as concentrações de poluentes atmosféricos que, quando ultrapassadas, poderão afetar a saúde e o bem-estar da população, bem como ocasionar danos à flora e à fauna, aos materiais e ao meio ambiente em geral. Além disso, foi definido que o monitoramento da qualidade do ar é de responsabilidade dos Estados, cabendo a eles indicar as autoridades responsáveis pela declaração dos diversos níveis de poluentes. O monitoramento do ar na RMRJ teve início no final da década de 70 do século passado. Desde então, altos índices de concentração de poluentes, principalmente, de material particulado vêm sendo registrados (CARVALHO et al., 2002). No que se refere à saúde humana, o material particulado é capaz de

2 aumentar a mortalidade geral, podendo adsorver e levá-lo para as partes mais profundas do aparelho respiratório. Na presença de dióxido de enxofre, aumenta a incidência e a severidade de doenças respiratórias (CAVALCANTI apud PIRES, 2005). Nesse contexto, o presente estudo propõe-se a encontrar uma relação entre as altas concentrações de material particulado inalável (PM10) registradas entre 1998 e 2008 e a ocorrência de doenças respiratórias na RMRJ através do cálculo do risco relativo (RR) e da carga ambiental da doença (CAD). 2. MATERIAIS E MÉTODOS Foi realizado um estudo ecológico com a metodologia desenvolvida pela a Organização Mundial da Saúde, a OMS (OSTRO, 2004), onde a análise é feita sob um grupo de indivíduos. Quando não há dados disponíveis acerca de cada indivíduo separadamente, somente dados definidos através de unidades geográficas (bairros, cidades, regiões e/ou países) são utilizados. A análise é baseada na comparação dos indicadores de exposição e doença entre as unidades. Dessa forma, investigou-se a associação entre a concentração de PM 10 e PM 2,5 (estimado a partir das concentrações de PM 10 ) e as doenças respiratórias, cardiovasculares e câncer de pulmão. Foram utilizados dados de PM 10 monitorados a cada seis dias durante um período de 11 anos (1998 a 2008) das seguintes estações: Nilópolis, Sumaré, Bonsucesso, Botafogo, Centro Manual, Copacabana, Duque de Caxias, Jacarepaguá, Maracanã, Niterói, Nova Iguaçu, São Cristóvão, São Gonçalo e São João de Meriti. A partir destes foram realizadas comparações ao Padrão Nacional de Qualidade do Ar (PNQA). A média aritmética anual também foi calculada para cada estação disponível, lembrando que esse procedimento foi realizado apenas nas estações e nos anos que apresentavam no mínimo 75% de dados válidos. Os dados de PM 2,5 foram estimados seguindo metodologia proposta por Ostro B (2004). A partir disso foi possível calcular o risco relativo (RR) e a carga ambiental da doença (CAD). Os efeitos à saúde recomendados e as funções de risco para o cálculo da Carga Ambiental da Doença (CAD) estão explicitados na Tabela 1. Resultado e métrica da exposição Todas as causas de mortalidade e exposição a PM 10 no curto prazo Mortalidade respiratória e exposição a curto prazo a PM 10 Mortalidade cardiopulmonar e exposição em longo prazo a PM 2,5 Câncer de pulmão e exposição a longo prazo a PM 2,5 Tabela 1: Efeitos e funções de risco relativo para o cálculo de CAD. Fonte: Adaptado de Ostro (2004). Risco Relativo (RR) RR=exp[βX-X0] RR=exp[βX-X0] RR=X+1(X0+1)β RR=X+1(X0+1)β Coeficiente Beta sugerido (95% IC) Subgrupo 0,0008 (0,0006-0,0010) c Todas as idades 0,00166 (0, ,0030) Idade < 5 anos 0,15515 (0,0562-0,2541) Idade < 30 anos 0,23218 (0, ,37873) Idade > 30 anos

3 O método, segundo Ostro (2004) apresenta-se na seguinte ordem: avaliação da exposição ambiental, determinação da dimensão da população exposta, incidência de efeitos à saúde e funções concentração-resposta. Para o cálculo da CAD é necessário, primeiramente, o cálculo da Fração Atribuível (FA) a partir do RR, como pode ser observado na Equação 1. E, por fim, através dos dados de FA, é possível calcular o número de casos de mortalidade (E=CAD), como mostra a Equação 2. A CAD é calculada pela multiplicação da FA, incidência populacional do dado efeito à saúde (B) e população exposta para o efeito à saúde (P). Equação 1: FA=(RR-1)/RR Equação 2: E=FA B P 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO Através da análise dos dados de PM 10 obtidos nas estações de monitoramento da RMRJ foi possível observar que nesta região a concentração do poluente é extremamente alta e viola o PNQA nas maiorias das estações estudadas. Em relação ao padrão de 24h, o qual o limite estabelecido pelo PNQA é de 150 µg/m³, apenas quatro estações não apresentaram violações (Sumaré, Centro Manual, Copacabana e Maracanã). Todas as outras violaram o PNQA, sendo que a maioria destas ocorreu no período de 1998 a Nova Iguaçu foi a que apresentou 81 violações, o maior número observado no período de 10 anos, seguida de São João de Meriti com 77 violações. Um argumento válido para essas altas concentrações pode ser a grande quantidade de indústrias localizadas na Baixada Fluminense, somado a influência direta de diversas vias de tráfego intenso localizadas na região. De acordo com os dados de concentração de PM 10 foi possível calcular a média aritmética anual para cada estação e verificar se houve violação ao PNQA, no qual o valor limite é de 50 µg/m³. Entretanto, para os valores médios anuais obtidos nas estações que se localizam dentro da cidade do Rio de Janeiro foi feita a mediana para cada ano, o que pode gerar dados mascarados. Esse procedimento foi adotado porque é necessário apenas um valor de PM 10 para a cidade do Rio de Janeiro para calcular a carga ambiental da doença e como os valores apresentam uma grande variação, o uso da mediana ao invés da média pode gerar menos vieses e diminuir a influência de outliers. Além disso, foram utilizados os dados das estações que apresentavam apenas 75% ou mais de dados consistentes, sendo que os outros foram descartados. Dessa forma, houve uma diminuição da amostra. As médias aritméticas anuais calculadas foram utilizadas para o cálculo do RR, fração atribuível e CAD. Todos resultados de RR encontrados foram maiores do que 1 revelando que as pessoas expostas às concentrações altas de PM 10 estão mais sujeitas a terem doenças no trato respiratório do que aquelas expostas à concentrações de fundo (10 µg/m³ para PM 10 e 5 µg/m³ para PM 2,5 ). Além disso, em regiões como Duque de Caxias e Nova Iguaçu, apresentaram RR maiores que 1,77 para a incidência de câncer de pulmão. As estações que apresentaram menores RR foram Nilópolis e Niterói. Em geral, ao longo dos anos, houve diminuição do RR para as doenças

4 respiratórias, cardiovasculares e câncer de pulmão devido aos valores de PM10 que foram minimizados ao longo dos anos. Em relação à CAD, foram observadas 21 mortes em Nova Iguaçu em 1998, sendo este o maior número encontrado se comparado às outras estações. Entretanto, esse número diminuiu ao longo dos anos, sendo encontrado um valor de 4 mortes em Na RMRJ também foram observados valores de 13 mortes em 1998, reduzindo-se para oito mortes em Nas outras estações há pouca variação durante o tempo estudado concentrando valores entre uma e quatro mortes por ano. Já no que diz respeito às doenças cardiopulmonares, o número de mortes por ano é bem alto, com destaque para a RMRJ, onde foram reveladas mais de 9000 mortes em 1998 e 8080 em Por fim, a CAD em relação ao câncer de pulmão, os maiores valores também foram para a RMRJ. Esses resultados podem ter sido causados devido à grande população que ocupa a RMRJ, já que os valores de RR não se mostram discrepantes se comparados às outras estações. Os menores valores de CAD para câncer de pulmão foram encontrados no município de Nilópolis, provavelmente pela menor população e menor RR. Em Niterói também ocorre a mesma situação de Nilópolis, porém os valores são um pouco mais altos devido a maior população. A Figura 1 contém os mapas 1, 2, 3 e 4 que ilustram a intensidade da menor CAD para a maior em cada um dos municípios da RMRJ onde foram feitas as medições, sendo que: (1) Número de mortes por todas as causas; (2) Número de mortes por doenças cardiopulmonares; (3) Número de mortes por doenças respiratórias; e (4) Número de mortes por câncer de pulmão. Figura 1: Mapas que ilustram a intensidade de CAD nos municípios da RMRJ estudados. 4. CONCLUSÕES Através do estudo desenvolvido foi possível perceber a relação existente entre a concentração de PM 10 na atmosfera e a mortalidade por doenças respiratórias, cardiopulmonares e câncer de pulmão. A principal limitação do estudo ecológico foi de utilizar valores médios, podendo desvalorizar alguns aspectos relevantes referentes aos subgrupos da população estudada. Além

5 disso, outro fator para a contribuição do surgimento de vieses foi a medição apenas de PM 10, excluindo outros poluentes que poderiam contribuir para a baixa qualidade do ar. Entretanto, o número estimado de mortes, que poderiam ser evitadas, acompanhou as variações de PM 10 ao longo do período analisado, validando o estudo proposto. 5. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo auxílio financeiro, ao DATASUS e ao INEA pela cessão dos dados utilizados neste trabalho. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRAGA, A. L. F.; PEREIRA, L. A. A.; PROCÓPIO, M.; ANDRÉ, P. A.; SALDIVA, P. H. N. Associação entre poluição atmosférica e doenças respiratórias e cardiovasculares na cidade de Itabira, Minas Gerais, Brasil. Cad Saúde Publica; 23(supl.4): S570-S578, CARVALHO, V. S. B., WALDHEIM, P. V., MAIA, L. F. P. G. Avaliação das parcelas de inaláveis no material particulado coletado pela FEEMA na Bacia Aérea III da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. In: Congresso Brasileiro de Meteorologia, XII, 2002, Foz do Iguaçu. Anais do XII Congresso Brasileiro de Meteorologia. Foz do Iguaçu: INSTITUTO ESTADUAL DO AMBIENTE (INEA), Relatório Anual da Qualidade do ar de OSTRO, B. Outdoor air pollution: Assessing the environmental burden of disease at national and local levels. Geneva, World Health Organization, 2004 (WHO Environmental Burden of Disease, No.5) PIRES, D. O.. Inventário de emissões atmosféricas de fontes estacionárias e sua contribuição para a poluição do ar na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado apresentada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.

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