CORRELAÇÃO ENTRE CONSUMIDORES DE DROGAS LICITAS E ILICITAS EM UM CAPS II

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1 929 CORRELAÇÃO ENTRE CONSUMIDORES DE DROGAS LICITAS E ILICITAS EM UM CAPS II Ana Paula Fernandes de Lima Demarcina Weinheimer Jussara Terres Larissa Medeiros Tarlise Jardim Vanessa Campos Camila Jacques RESUMO O presente artigo trata de uma pesquisa epidemiológica realizada em CAPS II, na cidade de Guaíba, onde se buscou identificar as correlações entre o consumo de drogas lícitas e ilícitas nos atendimentos. Buscou-se traçar um paralelo entre as questões sociais, econômicas e de gênero que são determinantes para o consumo de drogas neste município. Guaíba não possui um CAPS AD (que atende pacientes usuários de drogas), mas, no entanto, os pacientes que procuram o CAPS com essa demanda, são atendidos. Esse fato dificultou a coleta de dados, sendo a amostra considerada insuficiente. No entanto, percebeu-se que homens representam uma maior procura, e a maioria dos pacientes possuem algum trabalho. E na questão de gênero, as mulheres aparecem fazendo maior uso de drogas. Palavras-chave: pesquisa epidemiológica; CAPS; dependência química. INTRODUÇÃO Uma pesquisa epidemiológica busca estudar os eventos relacionados com a saúde da população, buscando dar explicações sobre causas e fatores de risco. No caso das drogas é necessário se traçar um perfil dos usuários/dependentes para que estratégias possam ser criadas para um melhor atendimento. As drogas lícitas (que tem seu uso permitido), como álcool, cigarro, medicamentos, e as ilícitas (que tem seu uso proibido) como o crack, cocaína, tem exigido estratégias de enfrentamento por parte da sociedade e governo. Este por sua vez, criou políticas para a promoção, prevenção e atenção a saúde mental. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) atendem as demandas de saúde mental e é dividido em especialidades Acadêmicos da disciplina de Saúde e Bioética do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil. Professora substituta do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil e orientadora deste trabalho.

2 930 como o que trata usuários de álcool e drogas (CAPS AD). Este artigo apresenta uma pesquisa realizada no CAPS II da cidade de Guaíba, buscando traçar um perfil de seus usuários. METODOLOGIA DA PESQUISA A pesquisa foi realizada em duas etapas: Pesquisa bibliográfica relacionada com estudos sobre o álcool/drogas e os gêneros, consultas através de materiais disponibilizados no CAPS da cidade, como prontuários e listagem de acolhidas realizadas nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2010 e janeiro de Na seleção dos dados foram levados em consideração alguns critérios como o sexo, faixa etária, se exerce atividade remunerada, se utiliza drogas lícitas ou ilícitas, podendo assim caracterizar o usuário deste serviço. Os dados utilizados na pesquisa foram extraídos de uma listagem de solicitação de atendimentos e comparados com os prontuários dos pacientes que foram atendidos após essa solicitação no período de outubro de 2010 à janeiro de No período interessante à pesquisa, 88 pessoas, entre homens e mulheres, procuraram atendimento no CAPS II/Guaíba. Destes, somente 14 tinham prontuários de atendimento nos meses citados. Portanto, nossa amostra resumiu-se aos 14 prontuários de pacientes, sendo entre homens e mulheres, e, assim, não é significativa, não permitindo generalização dos resultados. Encontramos algumas dificuldades na coleta de dados, pois este CAPS não era um CAPS AD (álcool/drogas), o qual é destinado para dependentes químicos. O município, apesar de apresentar uma grande demanda, não tem indicação para CAPS AD, pois a sua população é inferior ao solicitado pelo Ministério da Saúde. Os estudos epidemiológicos mais abrangentes do uso de álcool na população geral foram os realizados pelo CEBRID Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. Galduroz e colaboradores (2000), esses pesquisaram as 24 maiores cidades do Estado de São Paulo, num total de entrevistas, estimando que 6,6% da população estava dependente do álcool. Dois anos depois, a mesma população foi pesquisada novamente e constatou-se um aumento estatisticamente significativo para 9,4% de dependentes. Outro amplo estudo domiciliar englobou as 107 cidades com mais de 200 mil habitantes correspondendo a habitantes, ou seja, 27,7% do total do Brasil. A amostra

3 931 totalizou entrevistados. Os principais resultados sobre o álcool na população total foi de 68,7%. Essa proporção se mantém mais ou menos estável para as diferentes faixas etárias, lembrando que, entre 12 e 17 anos, 48,3% dos entrevistados já usaram bebidas alcoólicas. A prevalência da dependência de álcool foi de 11,2%, sendo de 17,1% para o sexo masculino e 5,7% para o feminino. Segundo dados do CEBRID a taxa de dependência foi mais alta nas regiões Norte e Nordeste, com porcentagens acima dos 16%. Fato mais preocupante é a constatação de que, no Brasil, 5,2% dos adolescentes (12 a 17 anos de idade) eram dependentes do álcool. Nessas mesmas regiões, essa porcentagem ficou próxima dos 9%. 1 Estudos apontam para a associação entre o uso de certas drogas, a idade do consumidor e o ambiente em que vive, ou seja, fatores outros que não os efeitos específicos que as drogas possam ter. Com relação ao consumo de drogas, principalmente o crack, existem poucos estudos epidemiológicos, por ser um psicoativo considerado recente para a sociedade. 2 Segundo estudo realizado na cidade de São Paulo em 1989, o perfil dos usuários de crack era descrito como homens, jovens, de baixa escolaridade e sem vínculos empregatícios formais. Neste estudo percebeu-se que era raro às vezes em que os usuários consumiam a droga apenas uma vez. Segundo Nappo e colaboradores (2008) o pensamento dos usuários foca-se no consumo de crack de forma que sono, alimentação, afeto, senso de responsabilidade e sobrevivência perdem o significado. ³ No mesmo artigo, observa-se que a urgência pela droga e na falta de condições para adquiri-las, o usuário participa de atividades ilícitas como tráfico, roubo ou assaltos. Muitas mulheres acabam trocando sexo por crack ou dinheiro, colocando-se na linha de risco para contrair infecções sexualmente transmissíveis além do HIV. Consideradas em conjunto, tais atitudes têm interferido negativamente sobre a saúde e funcionamento social do usuário de crack de forma a marginalizá-lo, tanto no contexto micro (como nas redes de uso) quanto macrossocial (comunidades e sistemas de serviço) (NAPPO,2008). Nos Estados Unidos, os autores apontam um diferencial no consumo da droga. Segundo eles, lá tem se identificado a existência do uso controlado do 1 JCF, Galduroz & R., Caetano. Epidemiologia do Uso do Álcool. Rev. Bras. Psiquiatria. 2004; 26 (Supl l): Yamaguchi K, Kandel DB. Patterns of Drugs Use from Adolescence to Young Adulthood: II ¾ Sequences of Progression. Am J Public Health. 1984; 74:

4 932 crack, tendo características um consumo a longo prazo, não diário e mais racional, através de estratégias de autocontrole. Em nosso país este princípio ainda não foi detectado, O uso de crack persiste em território brasileiro, apesar dos graves problemas que causa a quem consome, como marginalidade, criminalidade e efeitos físicos e psíquicos devastadores. Desta forma, suspeita-se que a cultura de uso tenha sofrido mudanças desde sua primeira descrição, realizada na cidade de São Paulo, há 11 anos. 3 A assistência a usuários de álcool e drogas deve ser oferecida em todos os níveis de atenção, privilegiando os cuidados em dispositivos extra-hospitalares, como os Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPS AD), devendo também estar inserida na atuação do Programa de Saúde da Família, programa de Agentes Comunitários de Saúde, e da Rede Básica de Saúde. 4 De acordo com a listagem acessada para este trabalho, dos 84 pacientes que solicitaram atendimento neste período, foram encontrados apenas 14 pacientes em prontuário que foram acolhidos e entraram em tratamento. RESULTADOS DA AMOSTRA De acordo com a acolhida dos dados, a amostra é considerada insuficiente para o universo de atendimentos do CAPS. Observou-se impossível determinar uma amostra para a pesquisa, visto a divergência dos dados obtidos tanto no livro de acolhida de dependência química (DP) quanto dos prontuários disponibilizados para consulta. Nos critérios estabelecidos para a base de dados, muitos pacientes constavam no referido livro, no entanto, não possuíam prontuário de atendimento, o que mostra que muitos poderiam ter buscado um atendimento em determinado período, mas quando foram efetivamente contatados para a acolhida, não responderam ou não compareceram no local para atendimento. Das informações relevantes, apenas 14 pessoas do universo de 220 atendimentos disponibilizados mensalmente no local puderam ser contabilizados dentro dos critérios 3 OLIVEIRA, Lúcio Garcia de; NAPPO, Solange Aparecida. Caracterização da Cultura de Crack na Cidade de São Paulo: padrão de uso controlado. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 42, n Ministério da Saúde, Política no Ministério da Saúde para a atenção integral a usuários de álcool e outras drogas.

5 933 estabelecidos. Talvez muito mais pessoas tenham procurado auxilio no local, mas de acordo com os procedimentos deste posto o primeiro atendimento sequer é feito, visto que não existem profissionais suficientes para um atendimento mais amplo. Conforme indica o gráfico 1, dos pacientes acolhidos no período da pesquisa, 79% são homens, já as mulheres consistem em 21%. Gráfico 1- Pacientes acolhidos no CAPS Com relação aos tipos de droga, como demonstra o gráfico 2, no sexo masculino o álcool é amplamente consumido, já no gráfico 3 demonstra que o sexo feminino é predominante no consumo de drogas. No sexo masculino o consumo em 80% é compartilhado entre o álcool e crack. Gráfico 2- Consumo de álcool Gráfico 3- Consumo de drogas

6 934 Com relação à atividade econômica, conforme gráfico 4, 64% dos pacientes exercem atividade remunerada Gráfico 4- Pacientes em situação de trabalho O consumo por faixa etária tem exatamente o mesmo percentual (gráfico 5). Gráfico 5- Faixa etária CONSIDERAÇÕES FINAIS O município trabalha de várias formas, de acordo com a Política Nacional de Álcool e Drogas, através de campanhas educativas e preventivas conscientizando a população sobre os riscos do uso dessas substancias nos indivíduos, nas famílias e na sociedade como um todo. Esse trabalho é principalmente realizado nas escolas e nos bairros da cidade. No entanto, percebe-se a necessidade de poder conhecer melhor o perfil dos usuários de drogas, para que campanhas específicas sejam criadas. A dependência das drogas é um problema que acomete a sociedade e afeta a todos de várias maneiras. Muitos consumidores não chegam sequer a procurar os serviços de saúde. Outros procuram, mas não permanecem pois não se sentem acolhidos nas suas necessidades. Não só o usuário deve ser alcançado, mas seus familiares também, para que se possam criar estratégias de vinculo onde todos estejam ligados procurando assim, gerar a promoção e a proteção da saúde.

7 935 No Rio Grande do Sul, estado em que vive-se como no restante a epidemia do crack, existem 61 CAPSI, CAPSII, CAPSIII e CAPSI. Já o CAPS ad, no estado são cinco. O número parece pequeno, mas dentre os estados brasileiros, somos o segundo, perdendo para São Paulo que possui 24. A disparidade é grande, sendo necessário que sejam revistas as políticas que criam critérios para que haja a expansão da rede especializada em saúde mental/álcool e drogas. Guaíba, por exemplo, apesar de atender os casos, não pode ter um CAPS ad devido a sua população ser menor que a exigida pela lei. Acreditamos que mais pesquisas devem ser realizadas, pois o tema é extremamente importante e por isso que é necessária uma melhoria no processo de preenchimento dos dados epidemiológicos, pois é a partir dessas informações que outras pesquisas futuras poderão indicar novos caminhos para a prevenção de tratamento de pacientes dependentes do uso de substâncias psicoativas.

8 936 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS Epidemiologia do uso do alcool / Galduroz JCF & Caetano R. Rev Bras Psiquiatr 2004;26(Supl I):3-6. Acesso em: 14 de jun h Ministério da Saúde, Politica no Ministério da Saúde para a atenção integral a usuários de alcool e outras drogas. Acesso em 8 de jun h. YAMAGUCHI K, Kandel DB. Patterns of drug use from adolescence to young adulthood: II ¾ sequences of progression. Am J Public Health 1984;74: se=medline&exprsearch= &indexsearch=ui&lang=i. Acesso em 10 jun :00. OLIVEIRA, Lúcio Garcia de; NAPPO, Solange Aparecida. Caracterização da cultura de crack na cidade de São Paulo: padrão de uso controlado. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 42, n. 4, ago Disponível em: Acessos em 13 jun :45.

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