A presença dos japoneses no Piauí. Anderson Michel de Sousa Miura Áurea da Paz Pinheiro

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1 1 A presença dos japoneses no Piauí Anderson Michel de Sousa Miura Áurea da Paz Pinheiro O tema deste artigo é a migração japonesa no Piauí, com destaque para as sobrevivências e rupturas na contemporaneidade de elementos da cultura japonesa, marcada pelos enraizamentos-assimilações e desenraizamentos-rupturas. Assim, esta investigação tem como centro a vida cotidiana dos japoneses no Piauí. Enfatizando as peculiaridades da cultura dessa gente, aspectos como: relações familiares, alimentação, vestuário, celebrações, inserção no mundo do trabalho, etc. A discussão sobre o lugar social dos nipônicos e de seus descendentes na sociedade brasileira é uma questão central nos estudos de imigração e migração japonesa. Tanto os imigrantes quanto os Nikkeis passaram a desempenhar um papel ativo na construção de uma multifacetada identidade nipo-brasileira, que seria constituída e contestada de muitas maneiras. Estudar a migração japonesa para o Piauí, e o estabelecimento desses núcleos familiares, baseia-se, principalmente, na compreensão dos processos de enraizamento e desenraizamento cultural dos referidos grupos. A relevância deste estudo se justifica pela preservação e conservação de um rico patrimônio cultural, presente na história e na memória desses migrantes, bem como, na influência, na contemporaneidade, de sua cultura no Piauí, que é percebido nos hábitos alimentares, na propagação da língua, no vestuário, nas artes maciais, pela cultura do anime e mangá, etc. O trabalho consiste no estudo da cultura dos migrantes japoneses e seus descendentes, analisando os aspectos socioculturais destes no Piauí, desde a sua chegada à contemporaneidade. Observando os traços marcantes dos processos de enraizamento e desenraizamento que foram fundamentais para a formação de suas identidades. Buscaremos responder: quais as motivações da imigração de japoneses para as regiões Norte e Nordeste do Brasil, e para o Piauí em particular? Quem eram esses Graduando em História, UFPI. Bolsista de Iniciação Científica CNPq/UFPI, sob a orientação da prof. Áurea da Paz Pinheiro. Membro do Grupo de Pesquisa: Memória, Ensino e Patrimônio Cultural- CNPq/UFPI. Doutora em História. Programa de Pós-Graduação em História. Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e líder do Grupo de Pesquisa Memória, Ensino e Patrimônio Cultural- CNPq/UFPI.

2 2 japoneses? Em que condições vieram? Quais os hábitos, costumes, vivências e experiências desses Nikkeis [vestuário, língua, alimentação]? Quais os aspectos de suas crenças e celebrações? Quais as sobrevivências na contemporaneidade de elementos de sua cultura? Estudar a migração japonesa no Piauí, os processos de desenraizamento e enraizamento cultural, de vivências e experiências desses imigrantes é a proposta desta investigação. O enraizamento e desenraizamento configuram-se como o encontro e desencontro do ser do que lhe é transmitido de geração em geração, saberes e fazeres que lhe faça pertencer ou desligar-se de um grupo social. O enraizamento seria a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana e uma das mais difíceis de definir. O indivíduo existe enquanto membro de uma coletividade, imerso em redes de sociabilidades que lhe permite conservar vivas tradições ancestrais (WEIL, 1979). A presença de japoneses e seus descendentes em território piauiense nos informam como imigrantes e nikkeis construíram uma multifacetada identidade nipobrasileira. Alguns insistiam que o português fosse a língua de comunicação tanto externa quanto interna, outros defendiam, de forma ardorosa, a manutenção fiel de costumes, como a manutenção de sociedades secretas ligadas ao culto ao Imperador. Essas diferenças mascaravam o desejo comum de encontrar, dentro da nação brasileira, um espaço que incluísse a identidade Nikkei. Caso consideremos a memória como uma presentificação do ausente, trabalho sobre lembranças passadas, marcadas por experiências vividas no passado e atualizadas no presente, podemos afirmar que a cultura é atualizada constantemente. Nessa linha de raciocínio, é possível afirmar que a cultura japonesa em território brasileiro e piauiense passou por atualizações, ressignificações, bricolagens, hibridizações (BURKE, 2003). Halbwachs afirma que: Nunca estamos sós, assim a memória tem marcas de subjetividade, ao mesmo tempo em que é constituída, é trabalhada pela experiência do grupo social, lugar onde as memórias são produzidas e partilhadas. (HALBWACHS, 1990). Entender essas relações de pertencimento de um mesmo grupo e as relações entrecruzadas entre eles e diversos outros grupos sociais de Teresina a partir de 1950 é o ponto de partida para este trabalho.

3 3 O ato de imigrar é um processo seletivo e diferenciado, interligado com as transformações sociais e estruturais da sociedade das áreas de origem e receptora de imigrantes. Desse modo, o imigrante não representa uma amostra aleatória da população de origem, sendo também diferenciado nas áreas receptoras. As pessoas com características distintas reagem de forma diversa às condições positivas ou negativas presentes no local de origem ou no local de destino. As imagens elaboradas no Brasil sobre os imigrantes estão ligadas ao contato com outros grupos que aqui chegaram e como foram recepcionados em uma cultura de marcas ocidentais. O Japão já foi considerado a Inglaterra da Ásia, o perigo amarelo, durante a Segunda Guerra Mundial, e o modelo do novo progresso capitalista. O imigrante japonês e seus descendentes no Brasil sofreram as consequências positivas ou negativas dessa oscilação de imagens e representações. A produção historiográfica que estuda a imigração japonesa busca um eixo diferenciado do que se pretende construir nesta investigação. A maioria das produções evidencia o processo migratório no seu princípio, entendendo que os imigrantes estiveram na linha de frente da introdução, na cultura brasileira de dois traços ou comportamentos dos mais relevantes. O primeiro, relacionado à superação da barreira contra o trabalho braçal/manual, heranças dos quase 400 anos de escravidão. O imigrante que chegou ao Brasil como mão-de-obra assalariada participou do processo que permitiu convencer as pessoas de que deveriam vender sua força de trabalho, domesticar o tempo ao ritmo da indústria; o imigrante teria acentuado a versão do trabalhador nacional como preguiçoso e incapaz, discurso partilhado pela elite nacional. A capacidade de trabalho do imigrante e seu sucesso reforçam a crença da suposta preguiça dos brasileiros; a segunda estaria ligada à importante contribuição do imigrante em produzir uma superação de barreiras contra as atividades comerciais. Os imigrantes trouxeram regras familiares, que encontraram ampla acolhida no Brasil, se aceitarmos como princípio estruturante da sociedade brasileira o familismo, o paternalismo e o clientelismo, segundo as formulações de Gilberto Freyre (1979). O mundo cultural da maioria dos imigrantes- mediterrâneos, asiáticos, camponeses, pobres, não se diferenciava muito do que encontraram em território brasileiro. A cultura dos imigrantes longe de entrar em choque com a cultura brasileira, a ela se agregou, há que se observar que essa nova face da sociedade brasileira não alterou o

4 4 preconceito nacional contra negros e mestiços, nem mesmo a mestiçagem em curso na sociedade brasileira. Durante o século XX, e, principalmente na era Vargas, desenvolveu-se uma ideologia que privilegiava a assimilação e a mestiçagem. Desejava-se criar um tipo brasileiro- mestiço embranquecido pela presença do imigrante latino. Assim, aceitou-se a presença do estrangeiro na medida em que havia a perspectiva dele deixar de ser estrangeiro e poder se tornar, em poucas gerações, brasileiro. Essa história constitui um importante componente da cultura brasileira contemporânea, como se percebe com os brasileiros que emigram para os Estados Unidos, ou mesmo com os brasileiros descendentes de japoneses que voltam ao Japão. Agora, em tempos de globalização e de busca de raízes étnicas, muitos desejam que o Brasil deixe de se pensar como uma nação mestiça para ser considerada como multirracial, seguindo o exemplo norte-americano. O que torna a releitura da experiência da imigração fundamental. O trabalho com os álbuns de família e demais documentos pertencentes ao acervo das famílias Miura e Takeshita; documentos oficiais das embaixadas brasileira e japonesa e a história oral nos permitem usar categorias conceituais como memória, identidade, cultura, dentre outras. O trabalho com a memória nos permite entender os silêncios e questionar as fontes. Nesse sentido, realizamos leituras e discussões que nos aproximam das relações complexas entre história, memória e cultura. Uma das fontes que privilegiamos foram as fotografias, os álbuns de famílias. As fotografias nos revelam aspectos do passado, utopias, celebrações, costumes, tradições mantidas ou ressignificadas ao longo do tempo, o desejo de registrar momentos significativos, não esquecer, conservar aspectos real, a prova viva. Real este que a fotografia como duplo do real, um fragmento do passado que ficou cristalizado pelas lentes da câmera (SILVA, 2008). O fascínio que ela exerce sobre o homem está vinculado ao seu desejo de controle sobre o tempo e sobre o mundo. É necessário compreender a fotografia como fonte, como discurso, como representação, como possibilidade de desvelar os silêncios presentes no inconsciente de seus observadores. A discussão de Le Goff sobre documento/monumento nos permite tomar o álbum de família como um documento/monumento. Utilizando-se de seu sentido simbólico, material e funcional, pois, a função das fotografias no álbum de família era a de registrar

5 5 os acontecimentos, evitando o esquecimento, clara, portanto a sua função de reatualização da memória. Ao usarmos a fotografia como fonte, devemos considerar uma distância temporal de seu período de produção e a experiência de quem a produziu e as intenções de quem as observam no presente. A fotografia permite a reatualização, a presentificação do ausente, o trabalho da memória, nos permite adentrar em um mundo de infinitas sensações e sentimentos adormecidos pelo tempo que passou, mas que se renovam pelo ato de ver o instante, o lugar onde o tempo foi fixado. REFERÊNCIAS BURKE, Peter. Hibridismo cultural. Rio Grande do Sul: Unisinos, 2003 FERREIRA, Luciana de Moura. História, Memória e Imagens: perspectivas metodológicas. In: Memórias entrecruzadas: experiências de pesquisa. Gisafran Nazareno Mota Jucá (organizador). Fortaleza: Ed UECE, HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, LE GOFF, Jacques. Memória. In: História e Memória. Campinas: Ed. Unicamp, 1994, p LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: História e Memória. Campinas: Ed. UNICAMP, 1994, p LESSER, Jeff. A negociação de identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. São Paulo: Editora UNESP, MOURA, Hélio A. A migração nordestina em período recente- 1981/ Cadernos de Estudos Sociais. Recife: Massangana, vol. 15, n 1, jan,-jun NORA, Pierre. Entre Memória e História: A problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo, OLIVEIRA, M. Lucia Lippi. O Brasil dos imigrantes. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed p 59. WEIL, Simone. A condição operária e outros estudos. In: BOSI, Ecléa (org). Coletânea de escritos de Simone Weil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

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