A PRÁTICA PROFISSIONAL NO ÂMBITO DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL: UM ENFOQUE NOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS.

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1 A PRÁTICA PROFISSIONAL NO ÂMBITO DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL: UM ENFOQUE NOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS. CLáudia Mônica dos Santos RESUMO: Esse estudo tem por objetivo conhecer como a prática profissional vem sendo dimensionada nas escolas de serviço social, a partir da nova proposta curricular em vigor, dando ênfase a um dos elementos constitutivos da prática profissional, qual seja, o instrumental técnico-operativo. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica e empírica. Aqui, estará sendo apresentado os resultados parciais obtidos no primeiro momento deste, qual seja: O Estado da Arte das Produções de Serviço Social que versam sobre a temática instrumentos e técnicas. JUSTIFICATIVA Através de contatos com os campos de estágios e com os assistentes sociais que atuam na área da infância e da juventude temos observado dois tipos de preocupações, uma mais acentuada na academia e outra no meio profissional, não significando, com isso, que sejam exclusivos de cada segmento. A academia chama a atenção para o perigo de o ensino da prática ser reduzido ao como fazer, podendo reforçar a concepção tecnicista e instrumentalista de nossa herança intelectual e cultural. Para os profissionais da intervenção, há uma grande lacuna entre o que aprendem na universidade e a realidade de seus espaços sócio-ocupacionais. Freqüentemente queixam-se das dificuldades que sentem no momento de materializar, em ações, os conteúdos obtidos na academia, isto é, de uma suposta distância entre teoria e prática, denunciando um academicismo na formação profissional. Mostram grande preocupação com os procedimentos corretos de aplicação do instrumental técnico-operativo, que não consideram explicitados o suficiente. Isso não significa que desejem somente modelos - atentando que isso seja verdade para muitos -, mas também, que não conseguem apreender em sua formação acadêmica as relações

2 que a teoria pode estabelecer com os momentos singulares de intervenção. As inquietações indicadas aqui me impulsionam, dessa forma, a investigar a formação profissional do assistente social no que se refere ao ensino de sua prática profissional, tendo como referência a proposta para a formação profissional em vigor desde 1996, uma vez que pensar a intervenção é fundamental numa profissão cuja natureza é, justamente, interventiva. Onde os cursos de Serviço Social situam o ensino da prática profissional"? Como os instrumentos e técnicas vêm sendo abordados? PROCEDIMENTOS DE INVESTIGAÇÃO Esta pesquisa está constituída de dois momentos, a saber: 1 - Estado da arte das produções bibliográficas existentes sobre o tema. 2 - Pesquisa empírica, de natureza qualitativa, junto às escolas de serviço social que pertencem à regional ABEPSS/LESTE, cujo currículo já contemple as novas diretrizes indicadas no documento Proposta básica para o projeto de formação curricular. OBJETIVOS Geral: 1- Conhecer como a formação profissional, a partir das novas diretrizes curriculares, vem contemplando o ensino da prática profissional. 2- Contribuir com o processo de avaliação das novas diretrizes curriculares em implantação nas unidades de ensino da ABEPSS/Leste. Específicos: 2 Identificar onde a formação profissional situa os instrumentos e técnicas, uma vez que esses são elementos contitutivos da prática profissional. 3 Tornar a discussão sobre instrumentos e técnicas mais compreensível à categoria profissional. RESULTADOS OBTIDOS

3 Os resultados transcritos aqui, referem-se ao primeiro momento da pesquisa, ou seja, ao Estado da Arte das Produções bibliográficas do Serviço Social. Este teve por objetivos: 1 - focalizar o debate contemporâneo sobre a dimensão técnico-operativa do serviço social, elegendo a questão dos instrumentos e técnicas da intervenção como objeto de análise. 2 - conhecer como a categoria - academia e profissionais da intervenção - vem pensando e tratando essa temática. Delimitamos nossa consulta bibliográfica às produções do serviço social compreendidas no período que vai de 1995 até Essa opção deve-se ao fato de ser esse o período de discussão, aprovação e início da implementação das novas diretrizes curriculares dos cursos de serviço social, bem como por ser apontado em alguns estudos como um período marcado pelo avanço na discussão sobre a temática aqui tratada. Na definição das obras a serem pesquisadas decidimos pelas seguintes: ANAIS dos Congressos Brasileiros de Assistentes Sociais (CBAS), ANAIS dos Encontros Nacionais de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ENPESS), Revista Serviço Social e Sociedade, Revista Temporalis, Cadernos ABESS, dissertações de mestrado e teses de doutorado das unidades de ensino, públicas e privadas, que possuem cursos de Pós-graduação no Brasil. Selecionamos artigos cujo objeto de estudo e pesquisa centrava-se nas particularidades dos instrumentos e técnicas do Serviço Social, buscando respeitar os diferentes focos de abordagens e direções. Portanto, produções que mencionavam o tema, mas não o tornavam como questão central, não se configuraram objeto desse estudo, assim como produções que não se adequavam aos critérios estabelecidos de data de publicação e tipo de produção. Encontramos, portanto, um total de treze produções que correspondem ao nosso interesse, num universo, porém, de apenas sete autores. Das leituras realizadas, priorizamos dois aspectos que consideramos relevantes na apreensão desse debate, a saber: o referencial teórico que o orienta e algumas

4 variantes que são confluentes nos autores e que mereceram destaque de nossa parte. Dessa forma, a partir das matrizes teóricas apontadas pelos diversos autores, explicitaremos as determinações que constituem esse tema. Sem reduzir a amplitude dos conteúdos presentes, nem ignorar as diferenças de visões mesmo nos grupos que detêm um mesmo referencial teórico, podemos sintetizar duas concepções presentes nas exposições. Uma que, a nosso ver, reforça a posição historicamente hegemônica no serviço social até meados de apesar de se constituir de novos elementos - e outra que vai de encontro a essa concepção, fazendo a crítica. O debate pautado na racionalidade crítico-dialética Esse grupo se caracteriza por trazer para o debate uma reflexão que critica a hipertrofia da lógica instrumental que marcou essa profissão. Fundamenta-se na direção marxiana e o faz tendo como referência Marx e Lukács. Concebe instrumentos e técnicas como partes constitutivas do instrumental de intervenção, entendendo por instrumental um conjunto articulado entre instrumentos e técnicas que formam uma unidade orgânica indissociável e que articulados a outros elementos efetivam a ação profissional. A técnica é vista como criação, correspondendo a um conjunto próprio de determinada cultura e formação sóciopolítico-econômica. Ela é utilizada para a criação e construção do instrumento, para seu manejo e para o desenvolvimento da ação, ou seja, relaciona-se às maneiras pelas quais conduzimos nossas ações ou objetivamos nossas intencionalidades. Já os instrumentos são considerados como os potencializadores das intencionalidades teórico-políticas para a efetivação da ação. São recursos utilizados para a viabilização das técnicas. Ao desenvolverem o tema, alguns autores remetem à historiografia do serviço social, marcando nos diferentes projetos profissionais a concepção de instrumentos e técnicas subjacentes a eles. Assim, indicam as racionalidades que vêm permeando as ações profissionais do serviço social e afirmam uma concepção que se contrapõe a elas. Os autores resgatam as concepções operativas do serviço social e o repertório

5 tradicional de instrumentos e técnicas que foram legitimados historicamente nas práticas da profissão ou nos projetos profissionais. Também valorizam os elementos importantes de nossa tradição cultural e intelectual, indicando novos instrumentos e técnicas, construídos a partir das novas demandas postas à categoria, de acordo com a conjuntura sócio-política e econômica. Com isso, salientam o caráter histórico desses elementos constitutivos e constituintes da intervenção. Outro elemento destacado por nós refere-se à consideração dos instrumentos e técnicas como mediação da prática profissional. Os autores indicam os instrumentos e técnicas como mediação da prática, mas não esclarecem, ou não se detém nesta categoria. Essa postura nos impede, aqui, de avançarmos nessa discussão, entretanto registramos a importância de se rever essa categoria para melhor explicitá-la. Parece-nos que as produções pesquisadas concentram-se em três posições: 1-Mediação como categoria instrumental, ou seja, através dela constrói-se alguma coisa operada pelo assistente social, ocorrendo sua materialização. O próprio Serviço Social passa a ser considerado como mediação. 2. Mediação como correlação entre instrumentais técnico-operativos e o método em Marx. Corre-se aqui o risco de este ser considerado um modelo a ser seguido. Os níveis de abrangência da realidade - singular, particular, universal -, tendem a transformar-se em etapas a serem atingidas de forma evolutiva e linear. 3. Mediação como uma categoria ontológica e reflexiva que permite à razão construir categorias para auxiliar a compreensão e ações profissionais, portanto já existente na realidade, necessitando de ser apreendida pelo sujeito cognoscente. Outro aspecto relevante nesse debate refere-se à delimitação que fazem entre instrumentos e técnicas utilizados nas atividades de produção e reprodução das relações sociais e instrumentos e técnicas utilizados nos trabalhos que produzem mercadorias, ou seja, que delimitam a diferença entre atividades teleológicas primárias e atividades teleológicas secundárias.segundo alguns autores, para a efetivação de sua prática, o serviço social lança mão de um instrumental técnico-operativo. Esse instrumental se constitui de um conjunto de instrumentos e técnicas. Entretanto, esses instrumentos e técnicas divergem dos utilizados na esfera da produção material. Isso se

6 dá porque o serviço social é uma prática humana que pretende a transformação de outras atitudes humanas, incidindo sobre as consciências, ou seja, a atividade profissional do serviço social encontra-se na esfera das posições teleológicas secundárias. Destaca-se, também, nas reflexões sobre instrumentos e técnicas a questão da unidade entre as dimensões da intervenção profissional: teórico-metodológica, éticopolítica e técnico-operativa. O debate pautado nas racionalidades formal-abstrata e instrumentalista Esse grupo, minoritário, no que se refere ao número de produções sobre a temática ora em estudo, se caracteriza por resgatar - mesmo que travejada de roupagens diferentes - a herança cultural e intelectual conservadora, de cariz positivista, que sustentou hegemonicamente o referencial teórico-metodológico e político da profissão desde suas origens até, aproximadamente, a década de Elencamos, a seguir alguns aspectos comuns às produções que determinam o debate sobre instrumentos e técnicas direcionado por essas racionalidades. 1. Os instrumentos são entendidos como um caminho para se alcançar determinado fim, de forma linear e evolutiva. São tratados como elementos que têm fim em si mesmos, portanto, neutros, abstratos, a-históricos e não como produto dos homens na satisfação de suas necessidades. 2. Ações centradas numa abordagem individual, em que as seqüelas da questão social são consideradas como problemas dos indivíduos, cabendo portanto uma ação que objetive mudanças de atitudes e de comportamento dos indivíduos que estão em disfunção. Os instrumentos e técnicas são utilizados com o objetivo único de favorecer essas mudanças, tendo em vista o controle social. 3. Há uma preocupação unilateral com a eficácia e a eficiência das ações. Para tanto, o uso adequado dos instrumentos e técnicas faz-se necessário. Instrumentos e técnicas são abordados, apenas, como um conjunto de procedimentos e habilidades. A preocupação com a cientificidade da técnica na obtenção da qualidade das informações é enfatizada, de forma imediatista, ou seja, sem reconhecer as mediações constitutivas da intervenção profissional.

7 4. A dimensão técnico-operativa é reduzida a instrumentos e técnicas e é descolada das demais dimensões da intervenção profissional do serviço social. Essa fragmentação vem ao encontro da concepção de neutralidade no trato dos instrumentos e técnicas. Destaques Observamos que todos os autores indicam a relevância de se abordar esta temática, entretanto alguns ressaltam que a questão do instrumento e da técnica não é inibidora ou potencializadora da intervenção profissional e que não é o uso de instrumentos e técnicas que levam à eficiência e à eficácia da intervenção profissional, pois eles não funcionam a partir de um caminho a ser seguido, chegando a um determinado fim. Ao lidar com consciências humanas e não com objetos concretos, os resultados são modificados, também, pelas diferentes subjetividades presentes. Estas são fundamentais para os resultados pretendidos, mais do que o simples emprego de técnicas. Para alguns a questão da instrumentalidade antecede este debate. Outra questão que destacamos foi a preocupação dos autores com o ensino da técnica, centrando a reflexão na formação profissional e sugerindo ser esta uma das pontas do novelo. A dimensão do exercício profissional é tratada em sua estreita relação com a dimensão da formação profissional, ou seja, o saber fazer imbricado ao ensino do saber-fazer e vice-versa. Alguns autores afirmam que a crítica à visão tecnicista, realizada com a direção de intenção de ruptura, inibiu algumas pretensões de discussão sobre os instrumentos e técnicas. Isso fez prevalecer os aspectos teórico-metodológicos e ético-políticos na formação profissional, em detrimento do debate sobre a dimensão técnico-operativa, que passou a ser considerada parte de um debate reducionista, com soluções imediatistas. O inverso também é apontado como um problema na formação profissional, ou seja, a ânsia de profissionais e alunos por modelos prontos oferecidos por outros métodos que fazem parte de nosso acervo intelectual e cultural, considerando estar aí a chave para um fazer profissional competente. Nesse caso, há uma hipertrofia da

8 dimensão técnico-operativa em detrimento das demais dimensões da prática profissional. Alguns autores afirmam que os instrumentos e técnicas utilizados pelo serviço social não são específicos desta profissão, não são um processo de criação exclusivo do serviço social, buscamos o acervo de outras profissões e ciências. Enfim, são apontadas algumas limitações no estudo dessa temática: os profissionais costumam requisitar modelos prontos; há o desconhecimento do método dialético; há fragilidades na literatura existente sobre o tema; o salto do aspecto operativo da profissão não acompanhou o salto teórico e político; instrumentos e técnicas utilizados pelo serviço social não serem específicos dessa profissão, apossando-se do acervo de outras profissões. Somam-se a tudo isso as subjetividades inerentes aos profissionais. BIBLIOGRAFIA IAMAMOTO, Marilda V. Renovação e Conservadorismo no Serviço Social -

9 Ensaios Críticos. Cortez , Carvalho, R. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil. S. Paulo/Lima: Cortez/CELATS, NETTO, José Paulo. Ditadura e Serviço Social. Cortez. S. Paulo, Capitalismo Monopolista e Serviço Social. Cortez. S. Pulo, PONTES, R. Nobre. Mediação e Serviço Social. S. Paulo: Cortez/Unama, SILVA E SILVA, M. Ozanira da. O Serviço Social e o Popular: resgate teórico -metodológico do projeto profissional de ruptura. Cortez. S. Paulo, TRINDADE, R. L. Prédes. Desvendando o Significado do Instrumental Técnicooperativo na Prática Profissional do Serviço Social. Tese de Doutorado ESS/UFRJ, 1999.

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