Festa do Divino, de Planaltina Reinvenção de uma tradição

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1 Brasil Festa do Divino, de Planaltina Reinvenção de uma tradição Introdução O Distrito Federal, território de 5.814km2, foi nos anos 50 destinado à construção de Brasília, nova capital da República Federativa do Brasil. Incorporou à sua jurisdição cidades que pertenciam ao estado de Goiás. Arraigadas a estruturas rurais e isoladas até da capital estadual, Goiânia, as cidades lidaram repentinamente com o progresso urbano imposto pela construção de Brasília. Concebida nos parâmetros da arquitetura modernista para ser centro administrativo do Estado brasileiro, a nova capital dirige-se para o progresso e para uma sociedade construída em moldes europeus com conotações de desenvolvimento. A negação dos princípios artísticos e históricos que a precederam, somada à intenção política do desbravamento e à idéia da modernização, deixou nas populações preexistentes do Distrito Federal (DF) a imagem de que a ocupação urbana da região começa com a construção da cidade, nos anos 60. Ainda não amplamente estudada, sua força como pólo irradiador de religião, educação e justiça para as estruturas rurais das localidades que a partir de sua

2 Festa do Divino, de Planaltina. Reivenção de uma tradição delimitação foram incorporadas à sua área é sentida não só nas construções de pequenas moradias que imitam as linhas arrojadas de ministérios e palácios do Plano Piloto 1, mas em todo um imaginário criado pelo desejo de ser moderno como a capital. Ao se buscar a imagem de desenvolvimento e progresso para a sede do governo, relegou-se a memória das cidades como se a história da região fosse escrita a partir da construção de Brasília. A visão contemporânea que prevalece na metrópole de assimilação capitalista redefine o mapa simbólico da região. A festa Esta comunicação faz a etnografia de uma festa tradicional de Planaltina, município a 40km do Plano Piloto. Atrelada à agropecuária e aos latifúndios, tenta apagar seu passado e construir nova identidade, espelhando-se numa realidade desenvolvimentista que a fragmenta socialmente. O primeiro contato pesquisadora x fenômeno deu-se em maio de 1999, quando se planejava que um grupo de estudantes de Música observasse a procissão de encerramento da Festa do Divino, em Planaltina. Tendo como ápice Pentecostes (data religiosa comemorada sete semanas após o domingo de Páscoa), as homenagens ao Divino Espírito Santo são bastante populares na região centro-oeste. Estabelecida no séc.xiv pela rainha Isabel, de Portugal, como época de devoção, a comemoração chegou ao Brasil no séc.xvi (Cascudo, 1954), sendo logo inserida no calendário religioso da Colônia. É a festa de um imperador (criança ou adulto), sua corte de auxiliares e os homenageados que dão suporte econômico ao evento. Em nome do imperador, duas folias saem para anunciar a festa (Reily, 1995). Uma vai a cavalo, com grupos de homens que percorrem fazendas e arredores pedindo auxílio para a comemoração. Herdeiros de antigas irmandades religiosas que tinham no Espírito Santo o padroeiro, cavaleiros, músicos e cantores carregam a 1 Plano Piloto: território onde se construiu Brasília, semelhante ao desenho de uma aeronave. 2

3 bandeira-símbolo do Divino. Durante semanas, até o dia de Pentecostes, são recepcionados por toda a parte. A outra folia vai a pé, em procissão pelas ruas. Depois de uma missa, ponto alto das comemorações, o cortejo -à frente o imperador e seus auxiliares- segue visitando casas. Em atitudes de generosidade e submissão ao Espírito Santo, os donos das casas lhes oferecem farta refeição matinal. Para completar a festa, as duas folias se juntam num grande banquete, engrandecido pelas doações recolhidas nas peregrinações. A festividade tradicional apresenta diferentes momentos, em vários dias. Em Planaltina, porém, alguns caíram em desuso, restando a base. A Festa do Divino naquela cidade, como em muitas do Brasil, é um festival de abundância, oportunidade em que o povo expõe e consome os produtos do seu trabalho. É preciso que haja fogos, muita comida, procissão, leilões de prendas etc. Na religiosidade popular, o Espírito Santo é sabedoria, guia, leme e fio condutor da vida, além de mistério. É força benéfica e simbólica da fertilidade. A bandeira vermelha com uma pomba branca, um de seus ícones mais conhecidos, é o centro do cerimonial. É beijada e venerada. Visita as casas e somente pode sair delas por onde entrou. Por devoção ao Divino Espírito Santo são feitos muitos gastos; exagera-se na alegria de dar, receber ou retribuir. É também uma festa predominantemente masculina. As mulheres fazem as comidas, nas casas. Os homens vão à rua como foliões. Observe-se quão sugestiva é a figura do imperador, que prescinde de uma imperatriz. A reafirmação anual de seu império, a submissão à igreja e o apagar de seus vestígios transferindo a outro o poder podem ser vistos como alusão à continuidade da vida que se eterniza pela procriação dos que sobrevivem à morte (Etzel,1995: 81). Além disso, a música. É preciso haver música. Uma festa sem música não tem vida! No trabalho de observação percebeu-se como e quando cada gênero musical era executado e como se relacionava com o conjunto da festa. De madrugada, os fogos começavam a ecoar. Às 6h da manhã a procissão já se organizara no pátio de um colégio. Hinos e canções lentas executadas pela banda de música davam sentido ao cortejo que seguia também lentamente pelas ruas do centro histórico em direção à igreja de São Sebastião, a mais antiga da cidade. Oficiou-se uma missa com a participação de 3 Actas del III Congreso Latinoamericano de la Asociación Internacional para el Estudio de la Música Popular

4 Festa do Divino, de Planaltina. Reivenção de uma tradição todos. Interessante notar que os componentes da banda acomodaram-se para assistir à missa, deixando a função musical da cerimônia para um conjunto de duas guitarras, teclado, duas moças que faziam o vocal e o padre, que iniciava todas as músicas e as cantava junto com elas. Um repertório musical diferenciado passou a ser executado. Canções de conteúdo religioso com ritmos à moda dos anos 60 e 70, sucesso do ie-iê-iê entre os jovens 2. Depois os presentes saíram em peregrinação, à frente o imperador e a bandeira do Divino, que entrava abençoando as casas e os doentes, enquanto lhes serviam um café com produtos da terra. A banda de música colocou-se entre o séquito do imperador e o povo, retomando seu papel de liderança no cortejo. Um terceiro tipo de repertório dominou musicalmente o momento: marchas, valsas, dobrados e maxixes, tradicionalmente executado por este tipo de conjunto. Na peregrinação, à proporção que o cortejo se distanciava do centro histórico, a banda era substituída por outro instrumental, um trio elétrico 3. Em cima do caminhão de som estavam o padre (agora sem batina) e as moças que haviam cantado na missa. Suas atitudes assemelhavam-se às dos modernos ídolos da canção religiosa no Brasil, com coreografias e exortações 4. Além de tentarem equilibrar-se no carro de som, padre e moças diziam mensagens de regozijo que eram repetidas pelas pessoas e cantavam canções religiosas semelhantes às românticas ou ao gospel. Às 13h a procissão chegou à praça da igreja matriz e encontrou-se com o cortejo dos cavaleiros que vieram do campo e haviam participado das peregrinações nas fazendas. Vestidos à moda dos cowboys americanos, galopavam pelas ruas como que se anunciando. 2 Reinterpretação do gênero de rock feito pelos Beatles, e que tem no cantor Roberto Carlos seu representante mais significativo. 3 Trio Elétrico é a designação do instrumental típico do carnaval da Bahia. Montados em cima de um caminhão equipado com possantes caixas de som, percorrem as ruas seguidos pelos foliões. A possibilidade de ampliação do som destes equipamentos foi depois imitada por políticos, agencias de propaganda e hoje pelas igrejas para chamar os fiéis. 4 A igreja católica no Brasil vem também adotando a mesma extratégia das igrejas evangélicas com relação a sua liturgia; shows utilizando gêneros pop com letras religiosas, cultos performáticos e até compra de canais de televisão. 4

5 A catedral era grande e moderna. Ficava no meio de uma grande praça que estava cheia de barracas enfeitadas, onde aconteceu o tradicional banquete. Com o descanso da banda e a parada do carro de som, apareceram as duplas caipiras profissionais que têm público nas redondezas, para animar um churrasco que se estendeu pela noite. Analisando o ritual, pode-se dizer que é cumprido para garantir a participação de todos. A arena de sua ação espalha-se pela cidade com as folias, a procissão e a missa ao ar livre, o café da manhã generoso e o banquete. Um olhar mais avisado detecta que a participação tem diferentes níveis. À proporção que se observam os detalhes, as interações descortinam a verdade. Somente algumas dezenas de pessoas têm acesso às residências. Os donos da casa, o imperador e seu séquito e os convidados especiais são preferenciais. Mesmo que as comidas circulem entre os que não tiveram acesso ao altar do Divino, armado no interior das casas com mesas postas, os menos conhecidos ficam num outro círculo de vivência; do lado de fora, à espera das guloseimas servidas em bandejas, menos fartamente. Existe outro círculo de participação na festa mais afastado do imperador, obviamente marginal em relação ao centro político e eclesiástico do evento. Eles vêm apenas para se alimentar e trazem sacos plásticos para guardar e levar para casa o que conseguem. O imperador não pode ser um qualquer. A escolha sensata revela alguém de poder aquisitivo e influência política, pois é ele quem "banca as despesas". E quanto mais dinheiro der, maior será o sucesso da festa. Na prática isto se traduz em muita disputa política entre os indicados para ocupar o cargo. Afinal a cidade recebe anualmente uma verba destinada à organização do evento. Na ocasião, além de pertencer a uma das famílias tradicionais o imperador é integrante de um clube de serviço local. Os estilos musicais da festa, os diferentes conjuntos que se exibiram intrigaram os observadores. Independentemente dos motivos práticos que estivessem por trás de tanta diversidade 5, os repertórios pareciam bricolagem de diferentes épocas e gêneros 5 O descanso dos grupos musicais, por exemplo. 5 Actas del III Congreso Latinoamericano de la Asociación Internacional para el Estudio de la Música Popular

6 Festa do Divino, de Planaltina. Reivenção de uma tradição musicais. A história da formação da cidade, sua inserção no Distrito Federal e sua condição de cidade-satélite 6 pode esclarecer muita coisa. A cidade Planaltina e outras localidades mineiras e do sul goiano viveram o apogeu no séc.xviii. Inserem-se no contexto brasileiro pós-mineração, que tem bases na agricultura e na pecuária, como elementos estruturadores da economia; e na doação de lotes de terra (sesmarias) pela coroa portuguesa, para incentivar a formação de povoamentos. Originalmente, Planaltina apresentava configuração rural constituída de pequenas propriedades, gado e agricultura de subsistência. Pela tradição, seu núcleo formador data de 1790, quando se fixou à beira de um riacho um ferreiro descendente de bandeirantes, vindo de uma mina nos arredores e perito em consertar e manusear armas. Daí a região vir a ser denominada Mestre D'Armas 7. Interessante a saga do início de seu núcleo urbano, estruturado na construção de uma igreja. Em 1811, assolados por uma epidemia, os fazendeiros fizeram promessa de doar terras para se construir uma capela devotada a São Sebastião, em troca do restabelecimento da saúde de seus habitantes. Mestre D'Armas, depois chamada Planaltina, esteve sob jurisdição de outros distritos, passando à categoria de município em Os primeiros registros de conformação urbana datam de 1892, com a visita da comissão responsável pela demarcação da área onde seria implantada Brasília 9. No séc.xix, as fazendas de gado nos arredores do pequeno núcleo em torno da igreja faziam da exportação do charque e do beneficiamento do couro as principais fontes de renda. A tradição oral conta que em 1926 a população voltou a ser ameaçada. 6 Cidade-satélite: formada a partir da construção de Brasília. 7 Existe nos arredores da cidade um marco e uma escola com este nome. 8 Até 1859 a localidade pertencia a Luziânia, quando se elevou à categoria de distrito. Em 1891 torna-se vila e adquire independência. 9 A Comissão Cruls utilizou Planaltina como apoio para as pesquisas; hospedou-se onde hoje é a sede do Museu Histórico. 6

7 Quarenta dias de chuva fecharam as empresas de curtume e charque e geraram desemprego. A maioria dos habitantes se deslocou novamente para o campo. A cidade entrou então num período de "letargia". Nem mesmo a construção da capital de Goiás (Goiânia) trouxe reflexos de desenvolvimento. Cidades mais próximas desempenharam melhor o papel de base para o abastecimento de infra-estrutura de saúde e educação para as populações que ali se fixavam. As precárias estradas que se dirigiam à nova capital sequer passavam por Planaltina, contribuindo para a imagem de um lugar perdido no planalto, sem ligações com o progresso. Em meio à década de 50, a cidade é lembrada. Na delimitação feita pelo governo federal, do quadrilátero que abrigaria o novo Distrito Federal, Planaltina estava incluída 10. Mas este fato só teve mesmo conseqüências administrativas. A construção de Brasília trouxera poucas mudanças. Na primeira década pós-inauguração da capital, os incentivos dirigiam-se somente para as cidades que cresciam mais perto do Plano Piloto. As de herança goiana permaneciam recolhidas em suas estruturas oligárquicas, e quase nenhum investimento foi realizado até que o fluxo migratório da expectativa de emprego que a nova capital gerava fez surgir inúmeros agrupamentos humanos marginalizados que passaram a constituir problema econômico e social. A transformação de Planaltina em região administrativa do DF conduziu à necessidade de expansão do seu núcleo inicial. Em 1966 foi elaborado um plano de urbanização que orientou seu crescimento, adequando-a à condição de cidade-satélite de Brasília. Tinha como objetivo conceber uma nova vila modernizada para atender às exigências dos tempos. Apesar de seguir a arquitetura modernista, o plano protegia o núcleo original com casas de adobe, estrutura de madeira e telha de cerâmica. Apresentando condições de desenvolvimento independentes, a Planaltina de herança 10 Em 1945, retomada a idéia da construção da capital federal no interior do país, a cidade hospedou uma nova comissão (Poli Coelho), que confirmou a localização determinada pela Comissão Cruls. Em 1955 delimitou-se o terreno do DF, que abrangeria quase toda Planaltina. A parte de Goiás é conhecida como Brasilinha. 7 Actas del III Congreso Latinoamericano de la Asociación Internacional para el Estudio de la Música Popular

8 Festa do Divino, de Planaltina. Reivenção de uma tradição goiana agregava a si o tecido urbano moderno, com áreas diferenciadas destinadas a comércio, residências e a um centro de vivência como coração da cidade. Na prática, a união entre o tecido urbano de herança goiana e a nova proposta representam desagregação social e desvalorização da cultura preexistente à construção da capital, causando a segregação de seu núcleo antigo e criando a idéia de que representa vestígios de um passado que a população quer esquecer. No plano diretor de 1966 há distinção entre raízes goianas e a nova cultura das cidades que se propunha seguir, construindo-lhes a memória com base nas referências históricas pós-brasília. Isto se traduz na segregação dos setores: de um lado, umas poucas famílias que tendem manter suas tradições como símbolo de seu poder; de outro, as tentativas de modernização e crescimento do novo setor nos modelos da classe média da capital. Os habitantes da parte nova de Planaltina, com distantes ligações culturais e cronológicas com a antiga, associam antigo a passado, sem significados de identidade. O desconhecimento da riqueza material e espiritual da Planaltina antiga reflete a negação da história do centro-oeste como relevante em termos nacionais. Segundo depoimentos, na época, mesmo contra os desejos dos moradores do centro histórico, as Festas do Divino desapareceram. Diz-se, por falta de interesse da população ou ausência de apoio. Possivelmente, detalhes da antiga comemoração estão esquecidos ou foram retirados da festa atual, só retomada após a eleição direta para governador do DF (período ), que trouxe de volta a oligarquia goiana ao poder. Na festa de Planaltina, chamava a atenção a quantidade de camisetas e bonés com as cores do Divino (vermelho e branco), mas com propagandas de famílias ou políticos locais. Como se outras intenções fossem acrescentadas à festa, legitimando os propósitos de um representante das famílias pelo uso de propaganda em festas populares. Tal recurso tem sido usado por lideranças políticas do Brasil, nas últimas décadas. As cidades ao redor da capital federal não são exceção. A nova administração de Brasília adota também a política de atração das populações de outras regiões do país, provocando o adensamento urbano desorganizado. Planaltina viu mais uma vez aumentar sua população e serem criados bairros populares e 8

9 grupos humanos excluídos de participação social 11. No setor tradicional, uma população com raízes goianas que não reconhece as manifestações da Planaltina candanga 12. Só seu passado colonial reflete a herança goiana e constitui patrimônio da comunidade. A idéia de preservação tem gerado sentimentos de hostilidade nas novas áreas construídas. Naquela manhã, notava-se que à procissão que chegava na praça da Igreja mais antiga, juntavam-se mais dois grupos que esperavam-na em duas ruas perpendiculares. Soube-se depois que tratava-se dos fiéis moradores dos dois setores mais modernos e que esperavam o momento de juntarem-se ao cortejo. Assim ficou claro que o setor tradicional mantinha a hegemonia da festa naquele ano. Conclusão A Festa do Divino, de Planaltina, envolve elementos religiosos e seculares que se combinam. Reune trabalhadores rurais dispersos em espaço urbano oposto ao de seu cotidiano. Comparada a outras similares, como à de Pirenópolis-Goiás e às do interior de São Paulo, estudadas por Reily (1992), é menos exuberante. Muito da exuberância pode ter desaparecido na temporária estagnação. Caracteristicamente, porém, pretende reconciliar a cidade com seu contraditório sistema de valores. É também a síntese de momentos relevantes da história goiana, tendo como centro a revivência de uma época considerada de ouro, mas confirma que a ocupação urbana do DF e a nova história planaltinense começa com a construção de Brasília, criando o estigma do atraso nas outras cidades. Revela o que a população tenta esquecer, e aquela seria a ocasião para juntar-se e criar uma imagem poderosa de solidariedade entre os habitantes. A procissão, que começa no centro velho e desloca-se para a praça moderna, é uma metáfora de sua história. O Espírito Santo é guia, leme e fio condutor da vida, mesmo quando a modernidade transfere valores, símbolos e poderes de uma esfera 11 Planaltina tem hoje o maior índice de violência do DF. 12 Candango é o termo que designa os primeiros operários da construção civil de Brasília. Depois passou a designar os nascidos no Distrito Federal. 9 Actas del III Congreso Latinoamericano de la Asociación Internacional para el Estudio de la Música Popular

10 Festa do Divino, de Planaltina. Reivenção de uma tradição religiosa para outros códigos e linguagens. Ali, cada parte da história e de cada grupo de pessoas se festejava. As famílias representantes das oligarquias locais sentem-se orgulhosas da retomada do poder e se mostram na frente da procissão, engrandecendo a corte, o imperador e a banda de música; corporação que reforça a presença do poder. A multiplicidade de gêneros musicais é prova de como a população articula sua imagem de cidade. A música executada na missa é sugestiva, a mesma que circulava nas igrejas brasileiras nos fins das décadas de 60 e 70, quando o Concílio Vaticano II se reuniu sob a liderança de João XXIII e propôs uma reforma da liturgia católica. Comprovando a grande distância entre povo e igreja, a reunião propõe a participação de fiéis laicos na liturgia. As missas passam a ser ministradas na língua vernácula e a serem momentos de reflexão crítica de problemas sociais, num resgate dos preceitos originais do cristianismo. A modernização da igreja incluía a música liturgica, que deveria aproximar-se mais das músicas populares. Não se deve esquecer que foi nessa época em que iê-iê-iê dominou o mercado brasileiro. Data da mesma época, a primeira missa em português, que teve música de fundo ao estilo Jovem guarda. Tudo se deu logo após a inauguração de Brasília, quando Planaltina recebia fluxos de modernidade de um plano diretor que regulava espaços e promovia qualidade de vida para sua classe média. Relevante mencionar a transformação de detalhes do evento em função do alcance dos programas de música e dança country na TV. A folia a cavalo, que tem cavaleiros com camisas quadriculadas, calças jeans, botas, lenço e chapéu americano e um trio elétrico que mistura novas formas de religiosidade popular com a música axé. O incremento das comunicações que circulam além dos limites culturais desmantela as velhas formas de marginalização e dominação e cria formas de democratização e multiplicidade cultural. O banquete é prêmio das festividades, é satisfação das necessidades abundantemente saciadas. 10

11 Referências Brandão, Carlos Rodrigues Memória do Sagrado, Ed. Paulinas, S. Paulo A Cultura na Rua, Papirus Editora, Rio. Cascudo, C Dicionário do folclore brasileiro, Edições de Ouro, Rio de Janeiro. Etzel, Eduardo Divino-simbolismo no folclore e na arte popular, Kosmos Editora, Rio de Janeiro. Martins, Ana Maria Aragão e outros Ruas de Planaltina. Inventário do patrimônio cultural de Planaltina, Governo do Distrito Federal. Silva, Jonas Correia da Planaltina -suas bandas de música e seus compositores, Monografia apresentada no Curso de Especialização em Música da UnB. Teixeira, Sérgio Alves O recado das festas, MEC, INF. Turner, Victor Dramas, Fields and Metaphors, Cornell University Press. Reily, Suzel A "Political Implications of Musical Performance", en The World of Music, 37 (2). 11 Actas del III Congreso Latinoamericano de la Asociación Internacional para el Estudio de la Música Popular

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