Proposta para a utilização da raça ovina Campaniça

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1 Proposta para a utilização da raça ovina Campaniça Claudino A. P. Matos Carlos M. V. Bettencourt Centro de Experimentação do Baixo Alentejo (CEBA) Herdade da Abóbada Vila Nova de S. Bento Resumo A erosão provocada nos recursos genéticos locais por parte de genótipos exóticos, tem sido nas últimas décadas, a causa principal da diminuição drástica de efectivos de algumas raças ovinas do Alentejo. Tal é o caso da raça Campaniça, uma população ovina que é explorada nas regiões mais marginais do sul do Alentejo e cujos efectivos decresceram de aproximadamente 160 mil animais (arrolamento geral de gados de 1955) para cerca de 2500 fêmeas adultas na actualidade (efectivo inscrito no Registo Zootécnico da Raça). A utilização de raças de animais domésticos locais que, dadas as suas potencialidades produtivas e reprodutivas, exigem menos do ambiente comparativamente a raças exóticas, constituem ainda em alguns casos, meios de subsistência importantes para as populações rurais que as exploram. Além disso, há a considerar ainda a elevada qualidade dos produtos a que dão origem e o papel importante que desempenham através da sua contribuição para o equilíbrio ecológico da região e como garante da fixação das populações no meio rural. A erradicação de tais genótipos provocaria a perda insubstituível de um património genético que poderá vir a ser necessário às gerações futuras. Como tal, é urgente iniciar projectos orientados para a preservação da variabilidade genética das raças locais de animais domésticos cujos efectivos tenham sofrido acentuados declíneos nos últimos anos e sejam considerados em perigo de extinção de acordo com as normas estabelecidas pela Comissão das Comunidades Europeias e pela Federação Europeia de Zootecnia. A proposta que se apresenta envolve a colaboração de várias instituições estatais com o apoio da Associação de Criadores de Ovinos do Sul, cujos objectivos são os seguintes: 1) Iniciar um programa de conservação "in vivo" para manutenção da variabilidade genética a longo prazo na população ovina Campaniça; 2) Estabelecer um programa de conservação criogénica (sémen e embriões) para este genótipo e 3) Caracterizar fenotípica e genéticamente a raça ovina Campaniça. Julga-se que com esta proposta é possível salvaguardar as características actuais da população ovina Campaniça, uma acção que, nos tempos mais recentes, tem vindo a ser reclamada por técnicos e criadores da região. A caracterização global da raça em termos fenotípicos e genéticos no momento actual é outra acção indispensável para a sua correcta utilização futura. Introdução A raça ovina Campaniça, que segundo Mason (1967) dominava outrora na Província do Algarve (Distrito de Faro) e a Sul do Distrito de Beja, terá sido gradualmente substituída pelo Churro Algarvio e pelo Merino, encontrando-se actualmente acantonada numa àrea restrita situada a Sudoeste de Beja conhecida como o "Campo Branco". Esta substituição progressiva conduziu a uma redução drástica dos efectivos desta raça de cerca de 160 mil animais em 1955 (arrolamento geral de gados de 1955, Frazão, 1959) para cerca de 2500 fêmeas adultas na

2 actualidade e apenas 5 criadores (efectivo inscrito no Registo Zootécnico da Raça, Conduto, 1995). Originariamente, a raça Campaniça apresentava as variedades branca e preta, constituindo esta última cerca de 10% do efectivo total no arrolamento de 1955 e que actualmente se encontra extinta. Actualmente, existe uma política de subsídios aos criadores cujo objectivo é incentivar a exploração de genótipos locais de animais domésticos que estejam em vias de extinção como é o caso da raça ovina Campaniça. Existem vários argumentos subjacentes a esta política mas o objectivo imediato é evitar a irradicação de genótipos locais e promover a manutenção e, se possível, o aumento dos respectivos efectivos. Simultâneamente, através de programas de conservação genética pretende-se manter a variabilidade actualmente existente com vista à sua utilização futura. Consequentemente, e dada a situação actual e muito particular da raça ovina Campaniça, julgamos que a sua correcta utilização passa por um aproveitamento eficiente duma política de certo modo favorável à exploração de genótipos classificados em vias de extinção. Os objectivos desta comunicação são os seguintes: 1) Descrever a metodologia a utilizar em programas de conservação "in vivo" e criogénica tendo em vista a manutenção da variabilidade genética a longo prazo na população ovina Campaniça e 2) Caracterizar fenotípica e geneticamente a raça ovina Campaniça. Apreciação de alguns Parâmetros Característicos da Raça Campaniça Antes propriamente de apresentar a proposta para a utilização actual da raça Campaniça, julgamos que será útil proceder a uma apreciação de alguns parâmetros que a definem assim como a evolução que têm sofrido ao longo do tempo. As características lanares, nomeadamente o tipo de lã e o peso do velo, constituem talvez os critérios que melhor definem a raça Campaniça. Frazão (1959), num trabalho bastante compreensivo acerca da raça Campaniça escreve o seguinte: " A sua lã bem característica, de «tipo cruzado» e extraordinariamente altosa, não tem similitude alguma com a do Merino, e muito menos com a do Churro". Numa outra passagem do mesmo trabalho, este autor acrecenta ainda a respeito da lã " De «tipo cruzado», mostra uma finura grande, pois o seu diâmetro médio é de 25,5m, o que a faz incluir na classe das «Primas Merinas» da classificação seguida ". Para termos uma ideia da evolução sofrida no tipo de lã em ovinos da raça Campaniça recorremos a dados recolhidos em duas explorações em épocas distintas e que se apresentam no Quadro 1. Quadro 1. Evolução do tipo de lã de ovinos da raça Campaniça Tipo de Lã Exploração Ano Nº Animais Merina Prima Cruzada J. Rogado (Pias) % 37.7 % 47.8 % Vale Formoso (Mértola) % 41.1 % 20.5 %

3 Os resultados apresentados no Quadro 1, apesar de dizerem respeito apenas a duas explorações, parecem indicar uma evolução no sentido duma maior preponderância de lãs dos tipos Merino e Prima em detrimento de lãs tipo Cruzado, características da população ovina Campaniça. Este evolução parece não ser surpreendente, em virtude do "amerinamento" (Pereira, 1951) que a população ovina Campaniça sofreu ao longo dos tempos e das acções de melhoramento levadas a cabo pelos serviços oficiais com o intuito de obter um maior grau de finura da lã (Frazão, 1959). Relativamente à evolução do peso do velos, apresentamos no Quadro 2, alguns resultados por nós obtidos recentemente e que serão contrastados com outros colhidos no final da década de 50 e que constam da bibliografia. Quadro 2. Evolução do peso dos velos (kg) em de ovinos da raça Campaniça Exploração / Autor Ano Nº Animais Média ± Desvio Padrão Coeficiente Variação (%) J. Rogado (Pias) ± Várias / Frazão, ± Vale Formoso (Mértola) ± Abóbada (Serpa) ± Efectivamente, estes resultados indicam que num período de 35 anos não se terá verificado um aumento significativo do peso médio do velo. No entanto, e apesar do número reduzido de animais que foram observados, parece existir actualmente uma maior heterogeneidade no peso dos velos como demonstram os coeficientes de variação. A evolução do peso vivo adulto da população Campaniça é, em nossa opinião, outro caracter que interessa analisar (Quadro 3). Os pesos vivos dos rebanhos de Vale Formoso e Abóbada foram recolhidos por nós na altura da cobrição de Primavera. Apesar de não dispormos de informação acerca da época do ano em que foram recolhidos os pesos nas outras explorações, somos levados a admitir que o peso adulto da raça Campaniça terá aumentado cerca de 10 kg nos últimos 35 anos, opinião corroborada também por outros técnicos e criadores da região. A evolução verificada no peso adulto também não é de todo surpreendente. Certamente que a "merinização" do Campaniço juntamente com algumas acções de melhoramento terão contribuído para esta evolução. Existem ainda outros factores que parcialmente poderão explicar a evolução do peso adulto, dos quais distinguimos melhorias substanciais do maneio alimentar e sanitário ao longo das últimas décadas. No entanto, é interessante constatar que o coeficiente de variação se tem mantido apesar da evolução observada no peso adulto.

4 Quadro 3. Evolução do peso vivo (kg) em de ovinos da raça Campaniça Exploração / Autor Ano Nº Animais Média ± Desvio Padrão Coeficiente Variação (%) J. Rogado (Pias) ± Várias / Frazão, ± Vale Formoso (Mértola) ± Abóbada (Serpa) ± Da análise sumária de alguns parâmetros característicos da raça Campaniça parece concluir-se que, apesar da evolução observada, pelo menos fenotipicamente a variabilidade se tem mantido. Deste modo, e dado que o objectivo principal da conservação é salvaguardar a variabilidade genética exibida por uma determinada população com vista à sua utilização futura, julgamos que é imprescindível desencadear um conjunto de acções na raça Campaniça visando a sua conservação dado o risco de extinção em que actualmente se encontra. Metodologia para a Conservação Genética da Raça A metodologia a adoptar baseia-se essencialmente nas recomendações internacionais para a conservação dos recursos genéticos animais preconizadas pela Federação Europeia de Zootecnia (FEZ) e Food and Agriculture Organization (FAO) (Hodges, 1992). 1) Conservação "in vivo" (i) Tamanho da população Para a conservação "in vivo" pretende-se atingir um tamanho efectivo da população de pelo menos 50 a que corresponde um incremento da taxa de consanguinidade média de 1% por geração. Serão usadas aproximadamente 300 fêmeas e 15 machos (tamanho efectivo = 57) de modo a garantir o tamanho efectivo recomendado. Procurar-se-á na medida do possível obter machos não aparentados entre si que serão recrutados da população total por indicação do secretário técnico da raça. (ii) Divisão da população em grupos O efectivo de raça Campaniça envolvido neste programa de conservação será dividido em 15 grupos de 20 a 25 fêmeas cada. Com o objectivo de garantir a sobrevivência dos núcleos a hipotéticos riscos de natureza sanitária, procurar-se-ão manter os mesmos em localizações diferentes. Assim, os animais serão mantidos também em duas localizações distintas (Herdade da Abóbada e Vale Formoso). A constituição dos diferentes grupos de

5 fêmeas será efectuada de acordo com a informação sobre "pedigrees", quando disponível, ou alternativamente com base na origem dos animais que constituem os efectivos actuais. (iii) Utilização dum sistema de cobrição rotacional Juntamente com a subdivisão da população em grupos, que serão mantidos independentemente, e no sentido de controlar o aumento da taxa de consanguinidade, utilizarse-á um sistema de cobrição rotativo segundo o qual machos de um determinado grupo serão acasalados com fêmeas de todos os outros grupos. Sempre que necessário recorrer-se-á ao uso da inseminação artificial utilizando sémen fresco, mormente naquelas situações em que fôr necessário recorrer ao recrutamento de reprodutores masculinos pertencentes a criadores particulares. (iv) Intervalo de gerações Um objectivo essencial é manter um número constante de animais por grupo. É desejável também que animais das várias idades estejam igualmente representados em cada grupo. O aumento do intervalo de gerações também deverá ser considerado. A taxa de substituição anual das fêmeas será de 25% sendo estas escolhidas ao acaso de entre as filhas de ovelhas de idade superior a 4 anos. Este esquema de conservação requer um controlo e recolha de informação sobre registos de paternidades com vista à definição de estratégias sobre acasalamentos. 2) Conservação Criogénica Em termos de conservação criogénica os limites mínimos recomendados são os seguintes: Sémen de 25 machos não aparentados entre si com 200 doses/macho. Embriões em 20 a 50 fêmeas não aparentadas entre si com 20 embriões/fêmea. A conservação de sémen e embriões pressupõe a identificação e recrutamento de machos e fêmeas, preferencialmente de criadores particulares, uma vez que se admite que os mesmos não estejam aparentados com os que serão utilizados na conservação "in vivo". Esta acção tem o duplo objectivo de envolver e sensibilizar os criadores para o programa de conservação genética. O secretário técnico da raça Campaniça terá uma função bastante importante na identificação quer de criadores disponíveis, quer dos animais a eleger para a conservação criogénica. 3) Caracterização Fenotípica e Genética Para a caracterização fenotípica e genética utilizar-se-ão os registos recolhidos desde 1984 no Centro de Experimentação do Baixo Alentejo (Herdades da Abóba e Vale Formoso) e mais recentemente pela associação de criadores da raça (Associação de Criadores de Ovinos do Sul). Para análise e tratamento estatístico dos dados com vista à determinação de

6 parâmetros fenotípicos e genéticos da raça Campaniça, utilizar-se-á a análise de variância e a metodologia dos modelos mistos. Conclusões A raça ovina Campaniça corre sérios riscos de extinção. A avaliação da evolução de alguns parâmetros característicos desta população demonstra que, apesar da reduzida dimensão dos efectivos, esta ainda exibe variabilidade fenotípica considerável. Julgamos que a utilização actual desta raça passa pelo desenvolvimento imediato dum programa de conservação genética e pela caracterização global em termos fenotípicos e genéticos. A proposta apresentada está planificada para um período de 3 anos e conta com a participação activa de criadores da raça e técnicos da região. Se fôr levada a bom termo, acreditamos que a preservação deste genótipo estará salvaguardada. Referências Conduto, R. (1995). A Ovelha Campaniça. 1 as. Jornadas da Ovelha Campaniça e da Cabra Serpentina. Serpa, 26 a 28 de Outubro. Frazão, T. L. (1959). Ovinos Campaniços. In: Boletim Pecuário, Ano XLVIII, Sociedade Astória, Lda. Hodges, J. (1992). EAAP News. Livestock Production Science, 32: Mason, I. L. (1967). Sheep Breeds of the Mediterranean. Commonwealth Agricultural Bureaux, FAO. Edinburgh, Scotland. Pereira, M. L. T. (1951). Subsídios para o Estudo do Arietinos da Àrea da Intendência Pecuária de Serpa. Separata dos Trabalhos do II Congresso Internacional Veterinário de Zootecnia. Sociedade Veterinária de Zootecnia. Madrid.

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