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4 4 Organizadores: Paulo César Boni Juliana de Oliveira Teixeira Editores de fotografia: Paulo César Boni Juliana de Oliveira Teixeira Editores de texto: Paulo César Boni Juliana de Oliveira Teixeira Revisão: Paulo César Boni Juliana de Oliveira Teixeira Normalização: Laudicena de Fátima Ribeiro / CRB 9/108 Capa e programação visual: Heliane Miyuki Miazaki Catalogação elaborada pela Divisão de Processos Técnicos do Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Ficha catalográfica H832 Hotéis históricos do Norte do Paraná / organizadores Paulo César Boni e Juliana de Oliveira Teixeira. Londrina : Midiograf, p. : il. ; 21cm. (Fragmentos da história do Norte do Paraná em textos e imagens) ISBN: Hotéis históricos - Londrina. 2. Norte do Paraná - Hotéis - História. I. Boni, Paulo César. II. Teixeira, Juliana de Oliveira. Elaborada por: Terezinha Batista de Souza - Bibliotecária CDU:

5 5 Agradecimentos Agradecemos a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a produção deste livro, especialmente às funcionárias do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss que, mais uma vez e como sempre, nos atenderam com simpatia e disposição; aos historiadores, jornalistas e fotógrafos convidados a participar deste projeto, por acreditarem na proposta e contribuírem para sua viabilização; às fontes consultadas para acrescer informações e dirimir dúvidas, normalmente descendentes dos pioneiros do ramo de atividade hoteleira no norte do Paraná e aos colegas Widson Schwartz, jornalista, fonte permanente de consulta e responsável pelas orelhas do livro; Laudicena de Fátima Ribeiro, bibliotecária responsável pela revisão das normas da ABNT;Terezinha Batista de Souza, bibliotecária e professora aposentada da UEL, que nos auxiliou na elaboração da ficha catalográfica; e Heliane Miyuki Miazaki, responsável pela arte da capa e pela programação visual da publicação.

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7 7 Dedicatória Dedicamos este livro a todos que, em tempos difíceis, ajudaram a construir e a transformar a história do norte do Paraná, e aos que, nos tempos atuais, se esforçam para recuperá-la e preservá-la.

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9 9 Sumário Textos introdutórios: Hotéis: infraestrutura imprescindível para alavancar o desenvolvimento do norte do Paraná Paulo César Boni Encontrando o outro: uma breve história mundial das hospedarias Levy Henrique Bittencourt Neto Hotéis Históricos de Londrina: Hotel Luxemburgo: primeiro hotel comercial de Londrina Mário Jorge de Oliveira Tavares Hotel Triunfo: a hospitalidade da família Campana virou hospedaria Natália de Fátima Rodrigues e Paulo César Boni Hotel Cravinho: um reduto da colônia japonesa Ulisses Sawczuk Hotel dos Viajantes: uma mina de ouro para a história londrinense Vitor Hiromitsu Ferreira Oshiro Hotel Berlim: o moderno e o tradicional se contrastam na década de Juliana de Oliveira Teixeira Hotel Londrina / Coroados: um hotel de luxo para receber os investidores Luis Antonio Palma Hangai e Paulo César Boni

10 10 Hotel Tókio: a simplicidade se hospeda na capital mundial do café Rosane Mioto dos Santos Hotel Sahão: a loucura do velho Salim Gabriel Felipe Oberle e Paulo César Boni Monções: o hotel da capital do café André Dantas Hotéis Históricos de Rolândia: Fotografia e Memória: 77 anos da história do Hotel Rolândia contada em imagens Cássia Maria Popolin e Rosana Reineri Unfried Hotéis Históricos de Apucarana: Hotéis e pensões em Apucarana: uma relação de confiança entre hóspedes e proprietários Heron Heloy Costa Hotéis Históricos de Maringá: Turismo de negócios: a primazia hoteleira de Maringá Fábio Dias de Souza, Luiz Carlos Bulla Junior e Miguel Fernando Perez Silva

11 11 Hotéis: infraestrutura imprescindível para alavancar o desenvolvimento do norte do Paraná Paulo César Boni * No segundo semestre de 2009, propus aos estudantes da Oficina de Jornalismo Impresso do quarto ano do curso de Comunicação Social Habilitação Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina, pesquisarmos sobre os hotéis históricos de Londrina. Proposta aceita, eu e os estudantes convidamos a pessoa que mais escreveu sobre os hotéis (e provavelmente sobre a história da cidade e região) de Londrina, o jornalista Widson Schwartz, para uma reunião conosco no Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Por que no museu? Simples. Porque, além de ser um porto seguro para pesquisas históricas, acreditávamos que o assunto lhe era de peculiar interesse. Lá fomos nós, professor, estudantes, Widson Schwartz, diretora e funcionárias (da biblioteca e do setor de documentação iconográfica) do museu para a reunião que deflagraria o início de uma imensa e intensa jornada de pesquisa para recuperar e confirmar dados sobre a instalação dos primeiros hotéis e pensões de Londrina. Mais tarde, em razão de orientações * Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do grupo de pesquisa Comunicação e História do CNPq. Bolsista produtividade da Fundação Araucária.

12 12 de Iniciação Científica 1, Trabalhos de Conclusão de Curso 2 e Dissertações de Mestrado 3, a pesquisa ganhou âmbito regional e se estendeu por outras cidades do norte do Paraná, como pode ser constatado neste livro. Widson Schwartz gentilmente nos emprestou o acervo de suas reportagens publicadas em ambos os jornais da cidade Folha de Londrina e Jornal de Londrina e o museu nos disponibilizou fotografias, recortes de jornais e revistas sobre os hotéis de Londrina. Mãos à obra! Lá fomos nós pesquisar sobre hotéis e pensões históricas. Além do museu, pesquisamos na Sala Londrina da Biblioteca Pública Municipal, no CDPH Centro de Documentação e Pesquisa Histórica, no Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Londrina e na internet. Além disso, procurávamos localizar os ex-proprietários (ou seus descendentes) desses hotéis e pensões para entrevistálos e, quem sabe, em um lance de sorte, conseguir algumas fotografias inéditas das famílias e seus empreendimentos comerciais. E demos essa sorte! Conseguimos localizar antigos proprietários e entrevistá-los (de 2009 para cá, infelizmente, alguns entrevistados já faleceram). Na falta destes, conseguimos encontrar descendentes que nos atenderam com a maior boa vontade. Em alguns casos, além de não encontrarmos ninguém, também não encontramos subsídios bibliográficos suficientes para sustentar a pesquisa. Com isso, alguns hotéis foram descartados da pesquisa, pois não conseguiríamos dados suficientes para justificar um capítulo de livro (desde o início, em 2009, a ideia era produzir um livro com os resultados da pesquisa). Em outros casos, como a quantidade de dados era muito pequena, optamos por publicar as informações coletadas de forma reduzida no livro Memórias fotográficas: a fotografia e fragmentos da história de Londrina, publicado em Foi o caso do Hotel Campestre, Hotel Germânia, Hotel Paulista e Hotel Avenida. 1 Iniciação Científica é uma forma oficial de introduzir jovens estudantes de graduação ao universo da pesquisa acadêmica. Normalmente, o estudante prepara e desenvolve um projeto de Iniciação Científica que, não raro, é um viés, um subprojeto do projeto de pesquisa do professor orientador. 2 Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) é uma exigência legal para que o estudante conclua o curso de graduação ou a pós-graduação Lato sensu, em nível de especialização. Nesse caso, os TCCs referem-se à graduação em Comunicação Social Habilitação Jornalismo e à especialização em Fotografia, ambos da Universidade Estadual de Londrina (UEL). 3 Dissertação é a exigência legal para que o estudante conclua a pós-graduação Stricto sensu, em nível de mestrado. Nesse caso, as dissertações referem-se ao Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

13 Também entendíamos que seria interessante contar um pouco da história das hospedarias, pensões e hotéis no mundo para contextualizar o leitor. Para tanto, um de nossos estudantes (hoje cursando doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC/SP), Levy Henrique Bittencourt Neto, ficou encarregado de produzir esse material. Trata-se do texto que abre este livro: Encontrando o outro: uma breve história mundial das hospedarias. Neste texto, ele comenta que a história das hospedarias está intimamente ligada à história das civilizações. Relata desde os caravanserai, postos de hospedagem à margem das rotas de comércio, que ofereciam pouso, banho, descanso e trocas de animais aos viajantes; passando pelas tabernas, que ofereciam banho, pouso e serviços de prostitutas aos fregueses em trânsito; até a chegada dos hotéis no Brasil. O primeiro hotel, com as características dos hotéis atuais, a ser construído no Brasil foi o Hotel Pharoux, que também foi o primeiro a ser fotografado. A introdução da fotografia no Brasil se deu em janeiro de 1840, quando o padre Louis Comte, de passagem pelo Rio de Janeiro, registrou cinco imagens da cidade, entre elas a do Pharoux. Foi no próprio hotel que ele exibiu suas fotografias (na época chamadas de daguerreótipos) e, entre os ilustres convidados para a exibição estava D. Pedro II, então com 14 anos. Ele se apaixonou pela nova arte e, de imediato, encomendou um daguerreótipo que, vindo da França, chegou-lhe às mãos em abril de D. Pedro II é considerado o primeiro fotógrafo brasileiro. Sempre cultuou a arte e, depois de deposto do poder e exilado, doou, em 1891, sua coleção de mais de 70 documentos iconográficos (atlas, mapas, pinturas e mais de 25 mil fotografias) para a Biblioteca Nacional. Obrigado, D. Pedro II, por sua lucidez e generosidade! Na sequência deste texto de contextualização, optamos por apresentar os hotéis por cidade e em ordem cronológica de inauguração. Portanto, começamos por Londrina, cujo primeiro hotel, o Campestre, construído em madeira pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) para alojar seus funcionários e hospedar os compradores de terras, foi inaugurado em janeiro de Seu primeiro hóspede registrado, no dia 6 de janeiro de 1930, foi George Craig Smith, o chefe da caravana dos desbravadores, que chegou a Londrina em 21 de agosto de Não obtivemos informações suficientes para transformar o Hotel Campestre em um capítulo do livro, mas ele é citado no texto Hotel 13

14 14 Luxemburgo: primeiro hotel comercial de Londrina, produzido por Mário Jorge de Oliveira Tavares, fotógrafo convidado a contribuir com este livro. Inaugurado em 1932, o Hotel Luxemburgo precisou mudar de nome, depois da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, para Hotel América. Uma lei federal proibia o uso de nomes de origem alemã, italiana e japonesa países componentes do Eixo, inimigos dos Aliados, que o Brasil passou a apoiar no conflito. O mesmo aconteceu com o Hotel Germânia, inaugurado em 1933 por Carlos Rottmann, que também teve que mudar seu nome. O estabelecimento, localizado na esquina das atuais Avenida Celso Garcia Cid e Rua Mato Grosso, passou a se chamar Grande Hotel. Em 1957, o casal Franz e Alzira Hesselmann voltou à direção do Hotel América (ex-luxemburgo) e rebatizou-o de Franz Hotel. Em 2000, seu nome foi novamente alterado, desta feita para Hotel Aliança. Em 2010, o imóvel foi adquirido por Augusto Mariano Filho, que decidiu manter o hotel em funcionamento, mas voltou a chamá-lo de Franz Hotel. Ou seja, este foi o hotel que mais mudou de nome em Londrina. Confira todas essas mudanças e muito mais informações no texto de Mário Jorge. Na sequência, obedecendo a cronologia de inauguração dos hotéis, vem o texto Hotel Triunfo: a hospitalidade da família Campana virou hospedaria, produzido por mim e pela estudante Natália de Fátima Rodrigues. O título diz bem o que aconteceu: a família Campana, sempre hospitaleira, percebeu um nicho mercadológico e decidiu transformar a camaradagem em serviços, ou seja, fundou, em 1934, a Pensão Triumpho, precursora do Hotel Triunfo. Foi gratificante produzir esse texto, pois tivemos a oportunidade de entrevistar dois remanescentes dos bons tempos do Triunfo, o Sr. Vitelbino Campana e a Sra. Aida Daici Campana. O Hotel Cravinho é o próximo de nossa lista. Ele foi construído entre o final dos anos 30 e o começo da década de 40, por um proprietário cujo nome se perdeu com o passar dos anos. No entanto, ganhou notoriedade a partir de meados dos anos 40, quando foi adquirido pelo japonês Mokutaro Morikawa que o administrou, com a esposa Mura e os filhos do casal, por muitos anos, tornando o hotel uma espécie de reduto da colônia japonesa. O estabelecimento só saiu das mãos da família Morikawa em 1978, quando Kiyoshi (filho de Mokutaro) vendeu-o para Reinaldo Mathias Ferreira. Ulisses Sawczuk, responsável pela pesquisa, e pelo texto Hotel Cravinho: um reduto da colônia japonesa,

15 teve a sorte de encontrar e entrevistar a Sra. Kimiko Morikawa, viúva de Kiyoshi e nora de Mokutaro, que trabalhou no hotel por quase três décadas. O texto seguinte Hotel dos Viajantes: uma mina de ouro para a história londrinense é emblemático, pois recupera e revela dados da história de um hotel que se tornou um marco na história de Londrina, um exemplo de sucesso nos tempos áureos do café. Vitor Oshiro pesquisou fragmentos da história do Hotel dos Viajantes, que ficava na Avenida São Paulo, em frente à Praça Rocha Pombo, local privilegiadíssimo para a exploração desse ramo de atividade. O hotel foi construído em 1938 e demolido no apagar das luzes de Sua demolição foi uma perda irreparável para a memória de Londrina, tanto que a Folha de Londrina a noticiou, em 14 de janeiro de 1996, com a manchete História abaixo. O moderno e o tradicional se contrastam na década de 40 foi o subtítulo escolhido por Juliana de Oliveira Teixeira para o Hotel Berlim, o maior da cidade na década de 40, que ocupava praticamente todo um quarteirão e tinha um corredor com 115 metros de comprimento. O Berlim ficava na esquina da Rua Benjamin Constant com a Avenida Rio de Janeiro e foi demolido em 2011 para dar lugar a uma loja de departamentos. Por que o contraste entre o moderno e o tradicional? O hotel adquiriu as mais modernas tecnologias para lavar e secar roupas existentes na década de 40; sua lavanderia tornou-se referência em toda a região. Por outro lado, o tratamento pessoal dispensado aos hóspedes era uma tradição dos hotéis desse período na região. E mais: o Berlim promovia, veladamente, rinhas de galo, um esporte cultural à época. Nas décadas de 40 e 50, além da febre do café e outros produtos agrícolas, com menor intensidade Londrina vivia um bom momento na construção civil e se deliciava com a efervescência do comércio, que abastecia toda a região. Já era uma cidade polo, prestes a ser batizada de capital mundial do café, e um médico potiguar, o Dr. Newton Leopoldo da Câmara, se dizia inconformado com a simplicidade dos hotéis que a cidade dispunha para receber os investidores que para cá vinham em busca de novos negócios. Diante do cenário de oportunidades e de seu inconformismo, decidiu construir um hotel de qualidade, com boas acomodações, atendimento personalizado e bons serviços. Assim, em 1945, começou a construção do Hotel Londrina que, quando inaugurado, foi considerado o mais luxuoso da região. Eu e o estudante Luis Antonio Palma Hangai pesquisamos sua história e produzimos o texto Hotel Londrina / Coroados: 15

16 16 um hotel de luxo para receber os investidores. Em 1962, amplamente reformado e com a fachada totalmente remodelada, ele virou Hotel Coroados. Conseguimos falar com a viúva do Dr. Newton Câmara, dona Vera de Almeida Cárdia e com pessoas que lá se hospedaram nas décadas de 50 e 60. A estudante Rosane Mioto dos Santos pesquisou um dos mais simples hotéis londrinenses das décadas de 50 e 60, o Tókio. O hotel era simples, mas, em contrapartida, estava instalado nos três últimos dos 13 andares de um dos mais majestosos e imponentes edifícios da cidade naquelas décadas, como pode ser observado nas fotografias aéreas de Londrina publicadas no texto Hotel Tókio: a simplicidade se hospeda na capital mundial do café. O Tókio, pela localização (esquina da Rua Sergipe com a Avenida Rio de Janeiro), facilidade de acesso e preços baixos sempre se caracterizou como um hotel de viajantes. Ele oferecia o melhor serviço de PABX (central telefônica) da cidade, o que agradava muito os vendedores que lá se hospedavam. O hotel fechou as portas no final de 1993, mas o edifício permanece no mesmo lugar. Já não é mais tão imponente, mas é uma testemunha importante do desenvolvimento de Londrina. Em 29 de novembro de 1952, Londrina assistiria, surpresa e incrédula, à inauguração de um dos mais luxuosos estabelecimentos hoteleiros do Brasil: o Hotel São Jorge, construído por um investidor visionário, para alguns, e louco, para a maioria: Salim Sahão. Obstinado, lutou contra tudo e contra todos para construir um hotel que hospedou celebridades, como o cantor Roberto Carlos; e autoridades, como dois presidentes da República: Café Filho e Juscelino Kubitschek. A cidade não oferecia os serviços básicos que o hotel precisaria para funcionar, como rede de esgoto e energia elétrica. Salim não se fez de rogado: comprou geradores para garantir a eletricidade sem interrupções e caminhões tanques para fazer a coleta de dejetos, que despejava na área rural como adubo. O São Jorge teve seu nome alterado para Gávea Palace Hotel e, por último, em 1992, para Sahão Palace Hotel, quando um dos filho de Salim assumiu sua administração. O Sahão fechou as portas em 8 de agosto de 2002, há menos de três meses de completar 50 anos de existência. Confira estas e outras informações no texto Hotel Sahão: a loucura do velho Salim, que divido com meu ex-orientando de iniciação científica Gabriel Felipe Oberle, hoje seminarista no Paraguai.

17 Meses depois da inauguração do Hotel São Jorge, ali, bem próximo dele, seria concluída a construção do Monções Hotel, inaugurado dia 9 de maio de 1953, na Avenida Paraná, entre a Avenida Rio de Janeiro e a Rua Minas Gerais, ao lado do Cine Ouro Verde. O estudante André Dantas, no texto Monções: o hotel da capital do café, apurou que ele era o preferido dos grandes cafeicultores, que costumavam negociar suas safras no salão do hotel. Outra característica de saudosa lembrança na mente dos entrevistados era a caipirinha preparada no bar do estabelecimento, considerada a melhor caipirinha de Londrina. O Monções também era o hotel preferido pelas delegações esportivas que vinham jogar em Londrina. Na década de 70, inclusive, alguns jogadores do Londrina Esporte Clube moraram lá. A construção do Calçadão, na década de 70, impedindo o acesso de carros, feriu mortalmente sua sobrevivência econômica. A modernização da cidade e a chegada de grandes redes de hotéis foram o golpe de misericórdia: o Monções fechou suas portas na data mais triste possível: 24 de dezembro de 1983, véspera de Natal. De Londrina, direto para Rolândia. A professora Cássia Maria Popolin e a estudante Rosana Reineri Unfried (minhas ex e atual orientandas, respectivamente) pesquisaram a história do hotel que determinou a data de aniversário da cidade, o Hotel Rolândia. Esse estabelecimento hoteleiro, pertencente a Eugênio Victor Larionoff, funcionário da Companhia de Terras Norte do Paraná, foi a primeira edificação de Rolândia e o início de sua construção deu-se dia 29 de junho de Tudo isso está devidamente explicado no texto Fotografia e Memória: 75 anos da história do Hotel Rolândia contada em imagens. Em 1984, quando o Hotel Rolândia completou 50 anos, uma comissão de vereadores propôs a alteração da data do aniversário de Rolândia de 27 de novembro para 29 de junho, dia do início da construção do hotel. Proposta aprovada, a Câmara de Vereadores convidou Eugênio Victor Larionoff para participar das comemorações alusivas ao 50º aniversário da cidade e receber o título de Cidadão Honorário de Rolândia. Ele não só veio de São Paulo, onde residia, para receber a homenagem, como presenteou a cidade com um diário manuscrito contando sobre a construção do hotel e o desenvolvimento da cidade. Este diário, hoje, faz parte do acervo do Museu Histórico de Rolândia. Desde então (1984), o aniversário da cidade é comemorado no exato dia em que se 17

18 18 martelou o primeiro prego na construção do Hotel Rolândia, em 29 de junho de Contudo, fica difícil prever se esta data continuará sendo comemorada como a do aniversário da cidade, pois o hotel foi posto abaixo em Ao lado do Hotel Rolândia, de Eugênio Victor Larionoff, foi construído o Hotel Estrela, pertencente a outro funcionário da CTNP, Luiz Estrella. Em Londrina, o Hotel Germânia foi construído por Carlos Rotmann, também funcionário da colonizadora inglesa. Havia um termo no código de conduta que proibia seus funcionários de explorar negócios comerciais em sua área de ação. Contudo, nesses casos, excepcionalmente, foram-lhes concedidas permissões, pois a própria CTNP via os hotéis como infraestrutura imprescindível para o desenvolvimento do norte do Paraná. Porém, a mesma CTNP que enxergava os hotéis como infraestrutura imprescindível para o desenvolvimento da região, negligenciou Apucarana. Lá, ela relutou em construir um hotel. O motivo? Praticamente no meio de onde é hoje a cidade, suas terras faziam divisa com a Fazenda Três Bocas, de propriedade do ex-prefeito nomeado de Londrina (e pioneiro de Apucarana) Joaquim Vicente de Castro. A colonizadora sabia que se construísse um hotel no lugarejo estaria também, direta e indiretamente, contribuindo para o desenvolvimento da fazenda concorrente. Por isso, atrasou deliberadamente o desenvolvimento de Apucarana. Pura politicagem! Em razão dessa rusga política, a CTNP abriu a estrada de Arapongas a Mandaguari (que à época chamava-se Lovat), passando pela Caixa de São Pedro (hoje, Distrito de Apucarana), onde estavam seus interesses, deixando Apucarana sem vias de comunicação. Hoje, quem vai de carro de Londrina para Maringá, pegando o contorno que começa pouco antes de Arapongas e termina logo após Marialva, passa em frente ao Distrito de São Pedro, que fica relativamente afastado de Apucarana. Independente dessas pendengas, o estudante Heron Heloy Costa pesquisou as primeiras pensões e hotéis da cidade e os apresenta no texto Hotéis e pensões em Apucarana: uma relação de confiança entre hóspedes e proprietários. Heron teve a sorte de encontrar e entrevistar duas senhoras que viveram e trabalharam no ramo hoteleiro no início de Apucarana. Dona Vanda Flores, hoje proprietária de uma floricultura, cujo pai foi proprietário da Pensão São José, uma das primeiras do lugarejo, e dona Luísa Raduy, cuja família pioneira em Apucarana foi proprietária de dois importantes hotéis: o Central e o

19 América. O texto pesquisou e apresenta apenas a história do Hotel Central. A relação de confiança alardeada no título refere-se ao fato de as pessoas chegarem ao lugar em busca de trabalho e, em um primeiro momento, não terem dinheiro para pagar a pensão. Os proprietários faziam fiado até o hóspede arranjar emprego e ter condições de pagar a hospedagem. E mais. As duas entrevistadas disseram que, diante do cenário de dificuldades e adversidades, era comum a troca de favores entre os estabelecimentos do mesmo ramo. Bons tempos... Por fim, os professores de fotografia Fábio Dias de Souza e Luiz Carlos Bulla Junior e o criador do Projeto Maringá Histórica, Miguel Fernandes Perez Silva todos residentes e atuantes em Maringá apresentam a história das pensões e hotéis históricos da cidade no texto Turismo de negócios: a primazia hoteleira em Maringá. Turismo de negócios nas décadas de 40 e 50? Os autores explicam que, ao contrário do que aconteceu em outras regiões do Paraná, Maringá foi planejada sob conceitos modernistas à época de sua constituição. Por essa característica, e por receber agricultores, empresários e investidores, o ramo hoteleiro de Maringá sempre esteve mais voltado aos negócios. Contudo, a partir de 1955, com a inauguração do Grande Hotel Maringá um empreendimento luxuosíssimo para a época, projetado também para atender as demandas da crescente e exigente sociedade maringaense, no tocante à realização de festas e banquetes, além dos negócios a hotelaria da cidade passou a servir o turismo em sua essência mais pura. Projetado pelo arquiteto José Augusto Bellucci e construído pela Construtora de Imóveis de São Paulo, de propriedade de Cássio Costa Vidigal, o estabelecimento, além de hospedar turistas, tornou-se um ponto turístico de Maringá, tamanha era sua beleza e suntuosidade. Por sorte, o hotel continua em pé, no centro da cidade, entre a Prefeitura Municipal e a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Glória. Para finalizar, é importante ressaltar que este livro é resultado de mais de três anos de exaustivas pesquisas bibliográficas e documentais, muitos contatos com historiadores e colaboradores de várias cidades, e muito trabalho. Seu objetivo foi recuperar dados sobre os hotéis históricos norte paranaenses e disponibilizar os resultados à sociedade, para que essa possa conhecer, pesquisar, escrever ou reescrever a história do norte do Paraná. 19

20 20 Ele é a soma de uma série de empreendimentos educacionais: os resultados da Oficina de Jornalismo Impresso, ministrada no curso de Comunicação Social Habilitação Jornalismo da UEL, em 2009; de fragmentos resultantes de dois projetos de pesquisa por mim desenvolvidos na Universidade Estadual de Londrina: Fragmentos da História do Norte do Paraná (décadas de 30 a 60) em textos e imagens, recém-encerrado, e Gatilho da Memória: o uso da fotografia para a recuperação histórica do Norte do Paraná nas décadas de 1930 a 1960, ainda em andamento; de três projetos de iniciação científica, sob minha orientação; e da boa vontade de pessoas convidadas a participar deste livro, como Mário Jorge de Oliveira Tavares, Fábio Dias de Souza, Luiz Carlos Bulla Junior e Miguel Fernandes Perez Silva. Aos colaboradores convidados e a todos meus alunos, ex-alunos, orientandos de iniciação científica, de trabalhos de conclusão de curso de graduação, de monografias da Especialização em Fotografia e de dissertações do Mestrado em Comunicação da UEL, meus mais sinceros agradecimentos. Foi um prazer trabalhar com vocês. Espero revê-los em outras jornadas. Novas empreitadas, aliás, estão saindo da fase de planejamento para a de execução. Este livro é o segundo da série Fragmentos da História do Norte do Paraná, criada pelo Mestrado em Comunicação da UEL. O primeiro foi Certidões de nascimento da história: o surgimento de municípios no eixo Londrina Maringá. Os próximos serão sobre os fotógrafos pioneiros e as igrejas do norte do Paraná. Portanto, caros colaboradores, alunos e ex-alunos preparem-se, pois temos muito trabalho pela frente. Agradecimento especialíssimo à Juliana de Oliveira Teixeira, com quem tive a sorte e o prazer de dividir os trabalhos de edição dos textos, e a honra de compartilhar a autoria na organização deste livro. Antes disso, ela foi minha orientanda de iniciação científica na graduação e na pesquisa para a dissertação no Mestrado em Comunicação; agora, prepara-se para o doutoramento em História na Unesp Universidade Estadual Paulista de Assis (SP). Juliana está se tornando uma historiadora ímpar, de invejável consistência teórica e de exemplar capacidade de resposta às demandas de pesquisa. Boa leitura. Prof. Dr. Paulo César Boni Coordenador do projeto

21 21 Encontrando o outro: uma breve história mundial das hospedarias Levy Henrique Bittencourt Neto * A história dos povos está atravessada pela viagem, como realidade ou como metáfora, compreendendo tribos e clãs, nações e nacionalidades, colônias e impérios trabalham e retrabalham a viagem, seja como modo de descobrir o outro, seja como modo de descobrir o eu. [...] Sempre há viajantes, caminhantes, viandantes, negociantes, traficantes, conquistadores, descobridores, turistas, missionários, peregrinos, pesquisadores ou fugitivos atravessando fronteiras, buscando o desconhecido, desvendando o exótico, inventando o outro, recriando o eu. (SERRANO apud MAGALHÃES, 2002, p.31). Hotéis, hospedarias, estalagens, albergues há alguma diferença entre essas palavras? Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2004, p.1554), hotel é um estabelecimento que provê alojamento e, habitualmente, refeições, entretenimentos e outros serviços para o público. Hospedaria é o local que oferece hospitalidade, especialmente mediante pagamento. Hospedaria também pode ser sinônimo de estalagem e albergue. Todos esses termos têm em comum o ato de receber hóspedes, de forma remunerada ou não. Seja no século II, ou em um hotel luxuoso do século XXI, os lugares de hospitalidade são lugares abertos ao outro. (BAPTISTA, 2008, p.6). E é isso que qualquer * Graduado em Comunicação Social Habilitação Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Doutorando em Comunicação e Semiótica pela mesma instituição.

22 22 hotel faz, recebe de braços abertos o estrangeiro, o comerciante, o profissional liberal, o político, o turista. Os primórdios humanos A história das hospedarias está intimamente ligada à história das civilizações. Quando o homem construiu as primeiras cidades, também ali nasceram, provavelmente, as primeiras hospedarias. Antes mesmo da urbe se tornar a residência fixa de alguns grupos, ela era, inicialmente, um lugar de encontro para onde, periodicamente, as pessoas voltavam: o imã precede o recipiente, e essa faculdade de atrair os não-residentes para o intercurso e o estímulo espiritual, não menos do que para o comércio, continua sendo um dos critérios essenciais da cidade. (MUMFORD, 1982, p.16). É difícil dizer com precisão quando e onde surgiu a primeira urbe, pois as origens da cidade são obscuras, enterrada ou irrecuperavelmente apagada uma grande parte de seu passado [...]. [Mas] No alvorecer da História, a cidade já é uma forma amadurecida. (MUMFORD, 1982, p.9). Em outras palavras, muito antes de inventarmos a escrita, que marca o surgimento da história, já havíamos inventado a urbe. Segundo Benevolo (2003, p.10), há aproximadamente anos, [...] nas planícies aluviais do Oriente Próximo, algumas aldeias se transformaram em cidades; os produtores de alimentos são persuadidos ou obrigados a produzir um excedente a fim de manter uma população de especialistas: artesãos, mercadores, guerreiros e sacerdotes, que residem num estabelecimento mais complexo, a cidade, e daí controlam o campo. O surgimento da urbe força a especialização de seus habitantes em determinadas funções. É claro que antes dela já existiam guerreiros, sacerdotes, mercadores e artesãos mas essas funções estavam, até então, dispersas e desorganizadas. Essa nova ordem urbana resultou, de acordo com Mumford (1982, p.16), em um aumento das capacidades humanas em todas as direções. Com isso, a cidade efetuou uma mobilização de potencial humano, um domínio

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