Impactos ambientais do turismo e modificações na paisagem: um estudo de caso em cidades pantaneiras

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1 Impactos ambientais do turismo e modificações na paisagem: um estudo de caso em cidades pantaneiras Carla Moura de Paulo Gestora Ambiental, Mestra e Doutoranda em Ciência Ambiental PROCAM/USP Resumo Jodival Maurício da Costa Geógrafo, Mestre em Geografia e Doutorando em Ciência Ambiental PROCAM/USP O presente artigo discorre sobre aspectos modificadores da paisagem relacionados com a atividade turística no Pantanal brasileiro. Foram levantados possíveis impactos ambientais ocasionados pelo turismo em quatro municípios pantaneiros: Aquidauana e Corumbá no Estado de Mato Grosso do Sul, e Poconé e Cáceres no Estado de Mato Grosso. Além disso, foram analisadas as condições de saneamento básico de cada município com o intuito de identificar as condições para suportar um aumento da demanda destes serviços por conta da visitação. Introdução O turismo possui grande importância como atividade explorada do território para geração de renda em diferentes níveis (local, regional e nacional), e seu rápido crescimento indica a necessidade de estudos que analisem os impactos ambientais e as modificações que proporciona no meio natural. A atividade é considerada ambígua por ser capaz de proteger o meio utilizado (que passa a ser entendido como fonte de renda), ao mesmo tempo em que o degrada e causa impactos socioambientais negativos. Considera-se que tais impactos são causados por dois principais motivos. O primeiro é o estabelecimento de infraestrutura para atendimento ao turista, muitas das quais são implantadas em áreas selvagens e/ou isoladas e acabam por desequilibrar o meio em que se instalam (CRUZ, 2003). O segundo é a falta de infraestrutura de saneamento básico para atendimento da própria população, a qual sofrerá uma sobrecarga devido ao aumento de usuários. É preciso, também, considerar o lado positivo da atividade, como a geração de renda e um provável estímulo à proteção ambiental (YÁZIGI, 2002). Porém, o presente trabalho analisa as modificações da paisagem e os possíveis impactos ambientais negativos causados pela atividade e irá discorrer em tal vertente. Assim, estudou-se o complexo pantaneiro, que vem sofrendo com esta questão desde a década de 90 (PCBAP, 1997). Conforme analisa Ab Saber (2006) novos personagens foram introduzidos em um cenário de conflitos nocivos no complexo Pantaneiro, entre eles grupos especuladores do turismo que lançam empreendimentos de portes diversos e

2 atividades que, por vezes, acabam se favorecendo da propaganda de um turismo ecológico que não ocorre na prática. Com o intuito de representar uma série histórica, foram analisadas as mudanças ocorridas entre períodos de crescimento da atividade , 2000 e em quatro cidades pantaneiras no Brasil: Aquidauana e Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e Poconé e Cáceres no Mato Grosso. Teve-se como procedimentos básicos a identificação das características gerais das cidades selecionadas, a verificação dos impactos ambientais decorrentes do turismo e a análise da geração destes impactos no ambiente local. A metodologia se baseou em análises bibliográficas, documental e de planos e programas governamentais, com o intuito de auxiliar na escolha das cidades estudadas e identificar a dinâmica territorial das mesmas. A situação da área de estudo foi levantada por meio de dados estatísticos, coletados no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística () onde foram obtidas as condições de saneamento de cada município. Foram realizados trabalhos de campo e aplicação de entrevistas pré-estruturadas com atores chaves locais nas cidades selecionadas. Por fim, foram utilizadas fotografias, obtidas em campo, como registro de situações de impactos negativos. Resultados O trabalho analisou as modificações territoriais e possíveis impactos ambientais estimulados pelo turismo entre os anos de 1990, 2000 e Tal período foi selecionado por representar o início do crescimento da atividade no local. Inicialmente levantou-se as condições que os municípios possuem para atender as demandas básicas de saneamento de sua população, por acreditar que os locais que não conseguem satisfazê-las sofrerão um impacto maior com o aumento da população em períodos de temporada turística. A tabela abaixo demonstra os resultados obtidos pelo em conjunto com informações levantadas em campo.

3 Tabela 1 Condições de saneamento básico dos municípios estudados Saneamento básico Coleta de esgoto Tratamento de esgoto Tratamento de água Coleta seletiva Aterro sanitário Disposição de resíduos no solo Aquidauana Corumbá Poconé Cáceres Não (presença de fossas em pousadas rurais) (presença de fossas em pousadas rurais) Não Não encontrado Não encontrado Não encontrado Presença de ETE, porém sem uso e em estado de abandono Não encontrado Não encontrado Atendimento parcial com água tratada População com receio de consumir (para fins diversos) a água da torneira Não encontrado Não encontrado Não Não Não Não Presença informal de catadores Não identificado Presença informal de catadores Não encontrado Não encontrado Não encontrado Presença informal de catadores Não encontrado Inexistente Inexistente Inexistente Inexistente Aquidauana: identifica-se falta de estrutura municipal de saneamento básico para atendimento da população residente, pois não possui boas condições de tratamento de esgoto e disposição de resíduos. Portanto um possível aumento na demanda destes serviços, ocasionada pelo turismo, poderá gerar impactos negativos na qualidade ambiental. Corumbá: o município possui predominância de aspectos negativos para esgoto e resíduos, tendo apenas o abastecimento de água como positivo. Destaca-se uma preocupação neste caso, pois recebe grande quantidade de turistas ao longo do ano, aumentando ainda mais em épocas de carnaval e festas regionais. Poconé: diversos fatores negativos, destacando-se a distribuição de água tratada, pois parte da população, apesar de abastecida, não é atendida com o tratamento adequado. A pesquisa de campo identificou receio dos moradores de uma possível ocorrência de metais contaminantes na

4 água das torneiras. Destaca-se que Poconé recebe grande quantidade de turistas em suas pousadas, o que torna a questão ainda mais crítica, sendo inadmissível que não distribua água de qualidade para seus residentes. Cáceres: segue o padrão dos anteriores pela falta tratamento de esgoto e não existência de aterro sanitário para destinação dos resíduos. Fatores preocupantes por receber grande quantidade de turistas ao longo do ano e, principalmente, no festival de pesca. Nota-se que os quatro municípios estudados possuem problemas relacionados com saneamento básico, sendo necessário resolvê-los antes de estimular o aumento de visitantes, visando diminuir os riscos de perda da qualidade ambiental local. Este fato é importante, já que foi identificado um padrão de crescimento das atividades turísticas em todos os municípios analisados, a partir de Para avaliar possíveis ocorrências de impactos ambientais e de fatores modificadores da paisagem, alguns aspectos, apresentados abaixo, foram analisados, onde: X = identificado; X-- = ocorrência parcial; e -- = não identificado ou não ocorrente. Aberturas de novas vias Asfaltamento de vias já existentes Aumento no número de hotéis/pousadas Aquidauana Corumbá Poconé Cáceres X X X X X - X X X X Redução de áreas verdes no entorno de empreendimentos turísticos Conversão de X -- X -- atividade geradora de renda (ex. fazendas de pecuária transformadas em pousadas) Presença de despejos de efluentes in natura nos corpos d água pelos empreendimentos turísticos Atividades turísticas X X X X que se relacionam com a fauna local Atração de animais selvagens X -- X -- Domesticação de X -- animais selvagens

5 Para maior entendimento da tabela apresentada se faz necessário uma análise de alguns aspectos diferenciados ou que mais se destacam nos municípios. Aquidauana: foram identificados quatro hotéis construídos na área urbana após a década de 1990, destacando a inauguração, em 2010, de um hotel nas margens do Rio Aquidauana. As duas pousadas rurais entrevistadas também iniciaram suas atividades no período considerado pelo presente trabalho. Corumbá: neste município foram entrevistados sete principais hotéis localizados na área urbana, sendo a maioria (quatro) construída entre 1990 e As hospedagens rurais do perímetro periurbano delimitado para análise e, por isso, não foram consideradas. Assim, não foi identificado o aspecto de conversão da principal atividade econômica, pois pousadas urbanas raramente exerceram outro papel no passado. Poconé: doze pousadas foram estudadas neste município, sendo que a maior parte (dez) está localizada na área periurbana (Transpantaneira MT 060), e apenas duas na área urbana. A maioria das hospedagens iniciaram suas atividades no setor turístico a partir de 1990, sendo duas após o ano 2000, seis na década de 90 e somente quatro entre os anos de 1970 e Uma atenção especial deve ser atribuída para este município devido à ocorrência do asfaltamento de vias para melhorar a infraestrutura do turismo. O local recebeu investimentos do setor privado e do governo estadual para asfaltar a Rodovia MT-370 que passa por trechos urbanos, periurbanos e rurais. A ligação direta desta obra com o setor turístico se exprime nos convênios firmados entre o SESC Pantanal e a Secretaria de Infraestrutura do Estado de Mato Grosso (SINFRA). É importante destacar que esta obra alterou 42 km 2 da paisagem pantaneira, aterrando corixos e modificando ecossistemas locais. Ressalta-se também a ameaça do asfalto para a vida silvestre, por proporcionar um aumento na velocidade dos veículos e consequentemente uma elevação no risco de mortalidade da fauna por atropelamento. Outro fator peculiar neste município foram os casos de domesticação animal identificados em algumas pousadas ao longo da Rodovia Transpantaneira. Esta ação ocorre através da oferta de alimentos aos animais silvestres, com o intuito de amansá-los e mantê-los nos arredores das pousadas como atração diferencial ofertada aos visitantes, fatos que serão analisados com maior profundidade posteriormente. Cáceres: assim como em Corumbá, neste município foram feitas entrevistas apenas com as hospedagens localizadas na área urbana e, por isso, não foram encontrados casos de conversão da atividade econômica. Porém, as pousadas urbanas estudadas iniciaram suas atividades no período referente aos últimos 30 anos, o que indica o aumento da atividade turística no tempo considerado.

6 É notório que, apesar de algumas diferenças, muitos aspectos são comuns aos quatro municípios, os quais são analisados abaixo: - Despejos de efluentes in natura nos corpos d água por pousadas e hotéis: nenhum município apresentou o aspecto considerado, porém não foi identificada a existência destes despejos in locco, mas sim por entrevistas com funcionários e administradores. - Relação das atividades turísticas vendidas com o meio natural: existe uma padronização dos passeios turísticos oferecidos para os visitantes, sendo que a maioria das atividades se relaciona direta ou indiretamente com a paisagem natural e/ou com seus animais silvestres. Citam-se os possíveis impactos dos passeios mais comuns: Pesca em barco a motor: relacionado com o afugentamento da fauna devido ao barulho e movimentação da água e com uma provável poluição hídrica ocasionada pelo óleo do motor e possíveis derramamentos de combustível; Trilha: não foram encontrados estudos sobre a capacidade de suporte de nenhuma das trilhas feitas pelas hospedagens, e todas foram escolhidas de acordo com a paisagem mais atraente para os visitantes. Isto significa um risco de impactos negativos para a fauna local através de uma possível destruição de seus hábitats ou nichos necessários para a sobrevivência de algumas espécies. Outro problema identificado é a alimentação dos animais por parte dos visitantes, e a falta de uma fiscalização efetiva dos funcionários para impedir estas ações. Grande parte dos turistas entrevistados afirmou oferecer alimentos para os animais silvestres, com o intuito de aproximá-los e tocá-los. Fator este que acaba por contribuir com a domesticação destes animais, analisada posteriormente com maiores detalhes; Cavalgada: esta atividade também não conta com estudos ambientais das trilhas realizadas, o que favorece possíveis impactos relacionados com a destruição de nichos de hábitats de algumas espécies; Safári diurno e noturno: a atividade contribui para a ocorrência de distúrbios no comportamento animal, devido a forte presença humana em áreas selvagens, e também levanta o risco de domesticação; Focagem noturna de animais: contribui com o stress dos animais e com a modificação de hábitos de algumas espécies noturnas, devido a forte iluminação lançada, principalmente, em seus ninhos. - Atração da fauna por agentes do turismo: com o intuito de propiciar atrativos diferenciados aos visitantes, algumas hospedagens acabam atraindo a fauna através da oferta de alimentos, conforme mostrado nas fotos abaixo. Esta prática facilita a domesticação de animais silvestres, mesmo que não propositalmente, por torná-los acostumados com a presença humana e constante visitação.

7 A foto abaixo, obtida no ano de 2009 durante a visita de um grupo de aproximadamente quinze pessoas em uma fazenda utilizada pelo Hotel Pantanal, demonstra o filhote de um veado-mateiro permitindo que os visitantes o acariciassem. Este fato revela que o animal está habituado com a presença humana e representa uma ameaça para muitas espécies, por torná-las presas fáceis de caçadores, ou mesmo contribuindo para o desequilíbrio ecológico. Figura 1: Visitantes acariciando um veado-mateiro em uma fazenda de turismo localizada na Transpantaneira no município de Poconé Fonte: Foto da autora, 2009 Outro caso representativo de domesticação animal é registrado na fotografia abaixo. Nesta ocasião um jacaré se encontra nas áreas de uma pousada no município de Poconé e atende aos chamados do funcionário do local, sendo este um dos grandes atrativos aos visitantes. É claro o comportamento atípico do animal, que se mostra acostumado com a situação, apesar de ser uma espécie selvagem. Revelou-se em entrevista que depois do chamado o animal costumava ser alimentado, porém esta prática foi abandonada após proibição do IBAMA. Figura 2: Jacaré na Pousada das Araras, em Poconé, que atende aos chamados pelo nome de Chico aos chamados do funcionário

8 Em visitas de campo também foram identificados casos de atração da fauna para áreas de hotéis e pousadas que podem ser verificados nas fotografias abaixo. Apesar das entrevistas declararem a não realização desta ação foi possível registrar a diferença na quantidade de animais presentes na alta temporada (julho de 2010) em relação aos animais presentes na alta temporada (março de 2010), em um mesmo local. Figura 3: foto de jacarés na área do Hotel Pantanal em Poconé, no período de alta temporada (julho/2009) Figura 4: foto de área densamente ocupada por jacarés no período de alta temporada, sem a presença dos animais na época de baixa temporada (maio/2010)

9 Figura 5: foto do Cárcara e do Tuiuiu: presenças constantes no Hotel Pantanal, em Poconé, no período de alta temporada Figura 6: foto do Hotel Pantanal em Poconé obtida em período de alta temporada (julho/2009) Figura 7: foto do Hotel Pantanal em Poconé obtida em período de baixa temporada (maio/2010)

10 Conclusões, reflexões e propostas ao debate Após quase trinta anos de consolidação, o turismo no Pantanal ainda se encontra sem o devido planejamento para reduzir seus possíveis impactos. A atividade é desenvolvida aproveitando o nicho de mercado do ecoturismo, porém foram encontradas poucas práticas de planejamento e proteção ambiental. A maioria das ações não possuem características capazes de contribuir com a conservação ambiental e não sofrem nenhum tipo de fiscalização para enquadrá-las em um padrão específico do ecoturismo. Nota-se que os impactos mais alarmantes estão relacionados com as transformações na paisagem - como o asfaltamento - e com a atração e domesticação da fauna silvestre. Destaca-se a falta de infraestrutura para atendimento dos serviços de saneamento básico da população, o que significa que todos os municípios terão problemas neste aspecto com o aumento da demanda estimulada pelo turismo. Assim, precisam primeiramente atender os serviços básicos de coleta e tratamento de esgoto, coleta e disposição adequada dos resíduos sólidos, e distribuição de água tratada em todo o seu território. Uma possível solução para minimizar ou evitar alguns impactos seria o estabelecimento de uma taxa ambiental a ser cobrada dos visitantes. A quantia arrecadada seria destinada para investimentos em saneamento básico e programas de proteção ambiental. Entretanto, esta é uma ideia que ainda deve ser elaborada e debatida. Referências bibliográficas AB'SABER a, A. N. Brasil: paisagens de exceção. O Litoral e o Pantanal Mato-Grossense. Patrimônios básicos. Cotia: Ateliê Editorial, CI Conservation International. Pantanal. Belo Horizonte, 2003.

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