A NATUREZA JURÍDICA E A CONSTITUCIONALIDADE DA CONTRIBUIÇÃO PARA O CUSTEIO DO SERVIÇO DE ILUMINAÇÃO PÚBLICA. 2

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1 2 A NATUREZA JURÍDICA E A CONSTITUCIONALIDADE DA CONTRIBUIÇÃO PARA O CUSTEIO DO SERVIÇO DE ILUMINAÇÃO PÚBLICA. 2 Germana Assunção Trindade 3 RESUMO Este trabalho foi desenvolvido através de pesquisa exploratória e bibliográfica com a finalidade de se identificar a natureza jurídica da contribuição para custeio do serviço de iluminação pública - CIP, bem como se aferir se esta contribuição é inconstitucional. Após a análise das informações referentes às características da CIP e das peculiaridades das espécies de tributos existente, chegou-se a conclusão que a CIP é uma contribuição ímpar, posto que suas características não se enquadram totalmente em nenhuma das espécies de tributos existente, porém é a CIP totalmente constitucional, pois a emenda n 39, que a criou, não violou nenhuma das limitações impostas ao Poder Derivado. PALAVRAS-CHAVE: Contribuição para o custeio do serviço de iluminação pública. CIP. Constitucionalidade. Natureza Jurídica. 1 INTRODUÇÃO Após reiteradas decisões do Supremo Tribunal Federal declarando a inconstitucionalidade da taxa de iluminação pública, instituída por diversos municípios, 2 Artigo Científico apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso, na especialização em Direito Público, do Centro de Ensino Unificado de Teresina-CEUT, que teve como orientador o Prof. MS. Giuliano Menezes Campos. 3 Advogada com atuação preponderante na área do direito empresarial, com pós-graduação em curso de preparação para a magistratura promovido pela Escola Superior de Magistratura do Estado do Piauí.

2 3 alterou-se a constituição federal com o intuito de contornar a decisão do Supremo e tornar possível a cobrança deste tributo pelos Municípios e Distrito Federal. Assim, nasceu através da emenda constitucional nº 39, que inseriu o artigo 149-A na Constituição, a contribuição para o custeio do serviço de iluminação pública. Para melhor visualização transcreve-se o artigo constitucional citado: Art. 149-A. Os Municípios e Distrito Federal poderão instituir contribuição, na forma das respectivas leis, para o custeio do serviço de iluminação pública, observado o disposto no art. 150, I e III. Parágrafo único. É facultada a cobrança da contribuição a que se refere o caput, na fatura de consumo de energia elétrica. 4 (grifo nosso) Assim, se analisará a contribuição para custeio do serviço de iluminação pública buscando responder qual a natureza jurídica deste tributo, e se é esta contribuição constitucional ou não. Nesta busca, estudar-se-á as características da contribuição para o custeio do serviço de iluminação pública - CIP, fazendo um comparativo entre estas e as peculiaridades das diversas espécies de tributos. Examinar-se-á as limitações impostas ao poder derivado, no intuito de se aferir a constitucionalidade ou não da contribuição para o custeio do serviço de iluminação pública. Com esta finalidade, foi desenvolvida uma pesquisa bibliográfica, na qual se fez uma análise mais direta dos assuntos pesquisados. 4 BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988.

3 4 Chegou-se as informações referentes ao tema através da consulta de obras de caráter geral inquirida e pela explicação do problema a partir de informações teóricas publicadas. Colheu-se informações a cerca da contribuição para o custeio do serviço de iluminação pública e de suas características, tendo a pesquisa bibliográfica propiciado o exame do tema, não com a profundidade desejada em virtude de escassez de obras que abordem o mesmo, mas levando a conclusões importantes. 2 CIP: IMPOSTO, TAXA, CONTRIBUIÇÃO DE MELHORIA, EMPRÉSTIMO COMPULSÓRIO OU CONTRIBUIÇÃO. Para a Constituição as espécies de tributo são: Imposto, Taxa, Contribuição de Melhoria, Empréstimo Compulsório e as Contribuições. Partindo desta afirmação tentar-se-á estabelecer a natureza jurídica da CIP. Segundo o artigo 4 do CTN: A natureza jurídica específica do tributo é determinada pelo fato gerador da respectiva obrigação, sendo irrelevantes para qualifica-la: I - a denominação e demais características formais adotadas pela lei; II - a destinação legal do produto de sua arrecadação. O CTN em seu art. 16 declara que imposto é o tributo cuja obrigação tem por fato gerador uma situação independente de qualquer atividade estatal específica, relativa ao contribuinte. O imposto é um tributo não vinculado, enquanto que a CIP depende da prestação do serviço de iluminação pública, não podendo ser contribuinte as pessoas que moram em localidades em que não haja luz elétrica, ou melhor, iluminação pública. Ressalte-se, também que enquanto o produto arrecadado pela CIP tem destinação específica (o custeio do serviço de iluminação pública), o produto arrecadado por imposto não tem destinação específica, sendo esta uma diferença entre

4 5 contribuição e imposto. Sendo assim a CIP não tem natureza jurídica de imposto. Por fim o artigo 154, inciso I, da CF declara que a União poderá instituir novos impostos, mediante lei complementar, desde que não sejam cumulativos, e nem tenham fato gerador ou base de cálculo próprios dos discriminados na Carta Magna; e a CIP, no entanto, poderá ter a mesma base de cálculo de qualquer dos impostos municipais (quem determinará será a lei municipal reguladora desta contribuição). Para ser taxa a CIP teria ou que decorrer do poder de polícia, ou ser referente a um serviço público divisível e específico; e o serviço de iluminação pública é um serviço destinado à coletividade toda, prestado uti universi e não uti singuli. Também não poderá ter natureza de contribuição de melhoria, pois a mesma deve decorrer de obras públicas. Ao invés de instituir esta nova contribuição, o mais correto seria o Estado cobrar contribuição de melhoria sempre que implantasse o serviço de iluminação pública. Por certo não tem natureza de empréstimo compulsório, tendo em vista que o mesmo só poderá ser instituído para atender a despesas extraordinárias decorrentes de calamidade pública, de guerra ou sua iminência; ou no caso de investimento público de caráter urgente e de relevante interesse nacional. o que será analisado adiante. Deste modo resta somente a possibilidade de ser a CIP uma contribuição, 3 CIP, CONTRIBUIÇÃO OU NÃO? Como se sabe, a contribuição é um tributo vinculado à atuação do estado. Quer dizer, as contribuições são normativamente qualificadas como tributos cuja

5 6 validação constitucional está diretamente atrelada aos objetivos buscados por uma atuação estatal no âmbito social 5, como ensina Roberto Wagner Lima NOGUEIRA. Hugo de Brito MACHADO, em seu curso de direito tributário, ensina que "a identificação de quem seja sujeito passivo das contribuições sociais, como em princípio ocorre com qualquer tributo, depende do exame da hipótese de incidência de cada uma delas" 6, e NOGUEIRA (2003) citando Geraldo ATALIBA, complementando aquele professor, diz que os sujeitos passivos das contribuições são pessoas cuja situação jurídica tenha relação direta, ou indireta, com um despesa especial, a elas respeitantes, ou alguém que receba da ação estatal um reflexo que possa ser qualificado especial 7 (grifo nosso). Neste caso, os contribuintes da contribuição para o custeio do serviço de iluminação pública é toda a população do município, pois tal serviço é destinado à coletividade em sua totalidade. Há quem defenda que as pessoas cegas não se beneficiariam diretamente deste serviço; porém a iluminação pública vai além da capacidade de clarear uma área, posto que serve, entre outras coisas, também para coibir a criminalidade. Neste sentido é o entendimento do STF, conforme Acórdãos transcritos abaixo: Ilegalidade da taxa, dado que o serviço de iluminação pública é um serviço destinado à coletividade toda, prestado uti universi e não uti singuli (AI Agr/RS, Acórdão da 2ª Turma do STF, votação unânime, com julgamento em 25/05/99)(grifo nosso). Tributo de exação inviável, posto ter por fato gerador serviço inespecífico, não mensurável, indivisível e insusceptível de ser referido a determinado contribuinte, a ser custeado por meio do 5 NOGUEIRA, Roberto Wagner Lima. Pensando a CIP Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública. Jus Navigandi, Teresina, a 7, n. 64, abr Disponível em: Acesso em: 17 mai MACHADO, Hugo de Brito: Curso de Direito Tributário,15ªed., Malheiros Editores, São Paulo, 1999, p ATALIBA, Gerald apud NOGUEIRA, op. cit., 2003.

6 7 produto da arrecadação dos impostos gerais. Recurso não conhecido, com declaração de inconstitucionalidade dos dispositivos sob epígrafe, que instituíram a taxa no município (RE /RJ, Acórdão do Tribnal Pleno do STF, votação unânime, com julgamento em 10/03/99)(grifo nosso). De acordo com Kiyoshi HARADA, por não ter beneficiário específico da atuação estatal, o tributo instituído, com nome de contribuição ou de taxa, só pode ser entendido como imposto Sendo assim, quanto aos beneficiários a CIP se assemelha aos impostos posto não ter beneficiários específicos. No tocante a base de cálculo de uma contribuição, o melhor seria que mensurasse a causa provocante da ação estatal por um grupo especial de sujeitos passivos; mas nada impede que uma contribuição tenha a mesma base de cálculo de um imposto, pois o que a constituição veda é a existência de dois impostos com a mesma base de cálculo ou fato gerador (bi-tributação). Neste ponto a CIP tem a característica de uma contribuição. Por outro lado, as contribuições são tributos caracterizados pelo destino de sua arrecadação. Corrobora com esta afirmação o professor Hiyoshi HARADA ao dizer que "como bem assinala jurisprudência da suprema Corte; a destinação legal do produto de sua arrecadação é apenas um dos traços marcantes da contribuição, que, repita-se, tem destinação intrínseca (pressupõe beneficiários específicos da atuação do Estado) em contraposição, a impostos, que tem destinação extrínseca" 9. Dessa forma a CIP enquadra-se como contribuição já que o produto final da contribuição instituída pelos Municípios e o Distrito Federal será remetido à iluminação pública. Assim resta evidente que a CIP não possui todos os elementos necessários para a configuração de uma contribuição, por não possuir beneficiário 8 HARADA, Kiyoshi. Contribuição para o custeio da iluminação pública. Jus Navigandi, Teresina, a. 7, n. 65, mai Disponível em: Acesso em: 17 mai Id., ibid., 2003.

7 8 específico; como também, por o custeio do serviço de iluminação pública não ser uma despesa especial provocada por um grupo específico de pessoas; e sim uma despesa provocada por toda a coletividade. Deste modo, a contribuição para o custeio do serviço de iluminação pública será uma contribuição ímpar, pois não se enquadra em sua totalidade em nenhuma das espécies de tributo. 4 É A CIP UM TRIBUTO INCONSTITUCIONAL? A presença de características que tornam a CIP um tributo singular faz com que alguns doutrinadores aleguem ser a mesma inconstitucional, já que ela não se enquadra em nenhuma das espécies previstas pela Carta Magna. É cediço que a Constituição Federal de 1988 somente pode ser modificada pelo poder constituinte derivado reformador, que se manifesta através de emendas constitucionais (art. 59, I, e 60 da Cf/88) 10. Destarte ter a CIP características singulares, não se pode olvidar que a CIP foi criada por uma emenda constitucional, ou seja, pelo poder derivado reformador. Assim só poderia ser considerada inconstitucional se a emenda n. 39, que a instituiu, tivesse violado as limitações ao poder reformador; posto que ao contrário do poder constituinte originário que é ilimitado e incondicionado; o poder constituinte derivado, por decorrer de uma regra jurídica de autenticidade constitucional, conhece limitações constitucionais expressas e implícitas e é passível de controle de constitucionalidade, ou seja, o poder constituinte derivado é subordinado e condicionado. 10 LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 8ª ed. São Paulo: Editora Método, 2005.

8 9 Desta forma, toda Constituição encerra determinadas matérias implícita ou explicitamente dispostas em seu bojo que não podem ser modificadas pelo poder constituinte derivado reformador. em: expressas e implícitas. As limitações a que se sujeita o poder derivado podem ser classificadas As limitações expressas 11 se subdividem em: a)restrições materiais (cláusulas pétreas Cf/88, art. 60, 4 - que proíbem a deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I- a forma federativa de Estado, II- o voto direto, secreto universal e periódico, III- a separação dos Poderes, e IV- os direitos e garantias individuais), b) restrições circunstanciais (Cf/88 em seu art. 60, 1, proíbe que seja a Constituição modificada na vigência de estado de sítio, defesa, ou intervenção federal) e restrições formais (referentes ao processo legislativo CF, art. 60, I, II e III, 2,3 e 5 ). Já as limitações implícitas referem-se a impossibilidade de supressão das limitações expressas e alteração do poder constituinte derivado reformador 12. Do acima exposto, percebe-se que a somente se poderia questionar a constitucionalidade da emenda n 39 com relação a cláusula pétrea referente aos direitos e garantias individuais. Ocorre que não há como se alegar que a emenda n 39 ao criar a CIP tributo tenha violado a cláusula pétrea referente aos direitos e garantias individuais, pois é cediço o fato de não ter o individuo direito a não criação de uma nova contribuição ou de uma nova espécie tributária, tendo em vista que somente é direito individual a restrição contida no inciso I, do art. 154, da CF, abaixo transcrito: MORAIS, Alexandre de. Direito Constitucional. 12ª ed. São Paulo: Atlas, MORAIS, Alexandre de. Direito Constitucional. 12ª ed. São Paulo: Atlas, 2002.

9 10 Art A União poderá instituir: I mediante lei complementar, impostos não previstos no artigo anterior, desde que sejam não-cumulativos e não tenham fato gerador ou base de cálculo próprios dos discriminados nesta Constituição. 13 (grifo nosso) Desta forma, resta claro não ter a emenda n. 39 infringido nenhuma das limitações expressas, nem tão pouco violou as limitações implícitas. 5 CONCLUSÃO Diante do acima exposto chega-se a conclusão que a contribuição para o custeio do serviço de iluminação pública deve ser considerada uma contribuição ímpar, pois, como demonstrado, possui características singulares, exemplo disto é a falta de beneficiário específico. Deste modo, tem-se com a CIP uma nova espécie de contribuição, no entanto é a mesma totalmente constitucional, posto que a emenda n 39 não violou nenhuma das limitações impostas ao Poder Derivado. ABSTRACT Ahead of above displayed it is arrived conclusion that the contribution for the expenditure of the service of public illumination must be considered an uneven contribution, therefore, as demonstrated, it possess singular characteristics, example of that is the lack of specific beneficiary. In this way, a new species of contribution is had with the CIP, however it is same the total constitutional one, rank that emendation n 39 did not violate none of the limitations imposed to the Derived Power. 13 BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988.

10 11 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Código Tributário Nacional. Organizador Kiyoshi Harada; coordenadora Dulce Eugênia de Oliveira. 5ª ed. São Paulo: Rideel, BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, HARADA, Kiyoshi. Contribuição para o custeio da iluminação pública. Jus Navigandi, Teresina, a. 7, n. 65, mai Disponível em: Acesso em: 17 mai MACHADO, Hugo de Brito. Curso de Direito Tributário.15ªed., São Paulo: Malheiros Editores, MAIA, T. Lisieux. Metodologia Básica. Fortaleza: Universidade de Fortaleza, MORAIS, Alexandre de. Direito Constitucional. 12ª ed. São Paulo: Atlas, LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 8ª ed. São Paulo: Editora Método, NOGUEIRA, Roberto Wagner Lima. Pensando a CIP Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública. Jus Navigandi, Teresina, a 7, n. 64, abr Disponível em: Acesso em: 17 mai

11 12 SILVA, Réia Silvia Rios Magalhães, XIMENES, José Augusto Paz. A Monografia na prática do graduando: como elaborar um trabalho de conclusão de curso tcc, Teresina: CEUT, 2002.

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