MANUAL DO PROFESSOR EMÍLIA AMARAL MAURO FERREIRA RICARDO LEITE SEVERINO ANTÔNIO HINO NACIONAL

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1 Ouviram do Ipiranga as margens plácidas De um povo heroico o brado retumbante, E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos, Brilhou no céu da Pátria nesse instante. Deitado eternamente em berço esplêndido, Ao som do mar e à luz do céu profundo, Fulguras, ó Brasil, florão da América, Iluminado ao sol do Novo Mundo! Se o penhor dessa igualdade Conseguimos conquistar com braço forte, Em teu seio, ó Liberdade, Desafia o nosso peito a própria morte! Do que a terra mais garrida Teus risonhos, lindos campos têm mais flores; Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida no teu seio mais amores. Ó Pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve! Ó Pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve! Brasil, um sonho intenso, um raio vívido De amor e de esperança à terra desce, Se em teu formoso céu, risonho e límpido, A imagem do Cruzeiro resplandece. Brasil, de amor eterno seja símbolo O lábaro que ostentas estrelado, E diga o verde-louro desta flâmula - Paz no futuro e glória no passado. Gigante pela própria natureza, És belo, és forte, impávido colosso, E o teu futuro espelha essa grandeza. Mas, se ergues da justiça a clava forte, Verás que um filho teu não foge à luta, Nem teme, quem te adora, a própria morte. Terra adorada, Entre outras mil, És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Terra adorada, Entre outras mil, És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil! ISBN COMPONENTE CURRICULAR LÍNGUA PORTUGUESA ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR Letra: Joaquim Osório Duque Estrada Música: Francisco Manuel da Silva LÍNGUA PORTUGUESA ENSINO MÉDIO HINO NACIONAL MANUAL DO PROFESSOR EMÍLIA AMARAL MAURO FERREIRA RICARDO LEITE SEVERINO ANTÔNIO

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3 COMPONENTE CURRICULAR LÍNGUA PORTUGUESA ENSINO MÉDIO MANUAL DO PROFESSOR EMÍLIA AMARAL Doutora em Educação e Mestre em Letras (área: Teoria Literária) pela Unicamp. Professora do Ensino Médio e do Ensino Superior e consultora nas áreas de literatura, leitura e produção de textos há mais de 20 anos. MAURO FERREIRA DO PATROCÍNIO Especialização em Metodologia de Ensino pela Unicamp. Professor do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e de cursos pré-vestibulares durante 22 anos. Dedica-se à realização de palestras para professores e à criação de obras didáticas. RICARDO SILVA LEITE Mestre em Letras (área: Teoria Literária) pela Unicamp. Professor do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e de cursos pré-vestibulares há mais de 30 anos. SEVERINO ANTÔNIO MOREIRA BARBOSA Doutor em Educação (área: Filosofia e História da Educação) pela Unicamp. Professor do Ensino Médio e do Ensino Superior há 40 anos e autor de vários livros. 2.ª edição São Paulo

4 NOVAS PALAVRAS Copyright Emília Amaral, Mauro Ferreira do Patrocínio, Ricardo Silva Leite, Severino Antônio Moreira Barbosa, 2013 Todos os direitos reservados à EDITORA FTD S.A. Matriz: Rua Rui Barbosa, 156 Bela Vista São Paulo SP CEP Tel. (0-XX-11) Caixa Postal CEP da Caixa Postal Internet: Diretora editorial Silmara Sapiense Vespasiano Editora Juliane Matsubara Barroso Editora adjunta Angela C. Di Cesare M. Marques Editoras assistentes Caroline Soudant Lilian Ribeiro de Oliveira Roberta Vaiano Assistentes de produção Ana Paula Iazzetto Lilia Pires Assistente editorial Gislene Aparecida Benedito Supervisora de preparação e revisão de textos Sandra Lia Farah Preparadora Veridiana Maenaka Revisores Carina de Luca Daniella Haidar Pacifico Desirée Araújo S. Aguiar Francisca M. Lourenço Giseli Aparecida Gobbo Júlia Siqueira e Mello Juliana Cristine Folli Simões Juliana Rochetto Costa Lilian Vismari Carvalho Maiara Andréa Alves Pedro Henrique Fandi Coordenador de produção editorial Caio Leandro Rios Editora de arte Tania Ferreira de Abreu Projeto gráfico Andréia Crema Tania Ferreira de Abreu Capa Tania Ferreira de Abreu Foto de capa Digital Vision/Getty Images Iconografia Supervisora Célia Rosa Pesquisadoras Graciela Naliati Etoile Shaw Odete Ernestina Pereira Editoração eletrônica Diagramação Claudia da Silva Herbert Tsuji da Silva Sonia Maria Alencar Tratamento de imagens Ana Isabela Pithan Maraschin Eziquiel Racheti Vânia Aparecida Maia de Oliveira Gerente executivo do parque gráfico Reginaldo Soares Damasceno Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Novas palavras : 3 ọ ano / Emília Amaral... [et al.]. 2. ed. São Paulo : FTD, Outros autores : Mauro Ferreira do Patrocínio, Ricardo Silva Leite, Severino Antônio Moreira Barbosa Componente curricular: Língua portuguesa ISBN (aluno) ISBN (professor) 1. Português (Ensino médio) I. Amaral, Emília. II. Patrocínio, Mauro Ferreira do. III. Leite, Ricardo Silva. IV. Barbosa, Severino Antônio Moreira CDD Índices para catálogo sistemático: 1. Português : Ensino médio

5 Sumário Literatura 1 O Pré-Modernismo no Brasil...9 Primeira leitura: Como imagino o Municipal amanhã João do Rio... 9 Um pouco de História O Brasil do início do século XX Principais características do Pré-Modernismo no Brasil Principais escritores e obras do Pré-Modernismo brasileiro Augusto dos Anjos Leitura: Versos íntimos Augusto dos Anjos Euclides da Cunha Monteiro Lobato Lima Barreto Leitura: Texto 1 Urupês Monteiro Lobato Texto 2 Os sertões (fragmento) Euclides da Cunha Texto 3 Triste fim de Policarpo Quaresma (fragmento) Lima Barreto E mais Resumindo o que você estudou Atividades As vanguardas artísticas europeias e o Modernismo no Brasil...26 Primeira leitura: Correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira Um pouco de História Da Belle Époque às guerras mundiais As vanguardas artísticas europeias Leitura: Ode triunfal Álvaro de Campos Leitura: Estudo n ọ 6 Murilo Mendes Leitura: Ode ao burguês Mário de Andrade E mais Resumindo o que você estudou Atividades Semana de Arte Moderna...41 Primeira leitura: Tarsila Maria Adelaide Amaral Um pouco de História As primeiras décadas do século XX o país a caminho da modernidade Leitura: Texto 1 Relâmpago Cassiano Ricardo Texto 2 Poema tirado de uma notícia de jornal Manuel Bandeira Texto 3 Relicário Oswald de Andrade E mais Resumindo o que você estudou Atividades A primeira geração modernista brasileira...55 Primeira leitura: Texto 1 Macunaíma [o filme de Joaquim Pedro de Andrade] Orlando L. Fassoni Texto 2 Joaquim Pedro de Andrade reinventa Oswald José Geraldo Couto A primeira geração modernista ( ) As subcorrentes da primeira geração modernista As propostas modernistas de Mário de Andrade Leitura: Prefácio interessantíssimo Mário de Andrade As propostas modernistas de Oswald de Andrade Leitura: Manifesto da Poesia Pau-Brasil (fragmento) Oswald de Andrade Manifesto Antropófago Oswald de Andrade Principais escritores e obras da primeira geração modernista Mário de Andrade Leitura: Macunaíma (fragmento) Mário de Andrade E mais Oswald de Andrade Leitura: Texto 1 A carta de Pero Vaz de Caminha (fragmento) Texto 2 Macunaíma Mário de Andrade Manuel Bandeira Leitura: Poética Manuel Bandeira Resumindo o que você estudou Atividades O Modernismo em Portugal e a poesia de Fernando Pessoa...76 Primeira leitura: Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro Um pouco de História O Modernismo em Portugal As três gerações do Modernismo português Características literárias da geração Orpheu Fernando Pessoa, o criador de poetas, o multiplicador de eus Álvaro de Campos, o poeta das sensações do homem moderno Leitura: Lisbon revisited Álvaro de Campos Ricardo Reis, o poeta neoclássico Leitura: Ode Ricardo Reis Alberto Caeiro, o poeta-pastor Leitura: O guardador de rebanhos Alberto Caeiro...82 Fernando Pessoa ortônimo: o poeta-filósofo, que conjuga lucidez e vidência Leitura: Mar portuguez Fernando Pessoa E mais Resumindo o que você estudou Atividades... 89

6 6 A segunda geração modernista brasileira: poesia...91 Primeira leitura: O fim da poesia? Nelson Ascher E mais Um pouco de História A segunda geração modernista brasileira ( ) Leitura: Poema de sete faces Drummond Principais escritores e obras da segunda geração modernista brasileira (poesia) Vinicius de Moraes, o poeta de Eros Leitura: Poema dos olhos da amada (fragmento) Vinicius de Moraes Cecília Meireles, a poeta de essências delicadas e sutis Leitura: Reinvenção (fragmento) Cecília Meireles Murilo Mendes, o poeta surrealista Leitura: Pré-História Murilo Mendes Jorge de Lima, o poeta-profeta Leitura: Anunciação e encontro de Mira-Celi Jorge de Lima Carlos Drummond de Andrade, o poeta da escavação do real Leitura: Texto 1 Política literária Drummond Texto 2 Nosso tempo (fragmento) Drummond Resumindo o que você estudou Atividades A segunda geração modernista brasileira: prosa Primeira leitura: Paulo Emílio entrevista Leon Hirszman A prosa neorrealista no Brasil Principais escritores e obras do Neorrealismo brasileiro José Lins do Rego e o ciclo da cana-de-açúcar Leitura: Fogo morto (fragmento) José Lins do Rego Graciliano Ramos Leitura: Texto 1 Vidas secas (fragmento) Graciliano Ramos Texto 2 São Bernardo (fragmento) Graciliano Ramos E mais Resumindo o que você estudou Atividades A terceira geração modernista brasileira Primeira leitura: O homem provisório Geraldo Alencar Um pouco de História Características literárias da terceira geração modernista brasileira Principais escritores e obras da terceira geração modernista Guimarães Rosa Leitura: Grande sertão: veredas (fragmentos) Guimarães Rosa Clarice Lispector Leitura: A hora da estrela (fragmento) Clarice Lispector João Cabral de Melo Neto Leitura: Morte e vida severina (fragmento) João Cabral de Melo Neto E mais Resumindo o que você estudou Atividades Tendências contemporâneas da literatura de expressão portuguesa Primeira leitura: O ensaísta envergonhado José Castello O carpinteiro da frase Paulo Polzonoff Jr Um pouco de História Características literárias das tendências contemporâneas da literatura portuguesa (do Modernismo à atualidade) Leitura: Texto 1 Nome de Guerra (fragmento) Almada Negreiros Texto 2 O homem disfarçado (fragmento) Fernando Namora Principais tendências da literatura contemporânea portuguesa A prosa neorrealista Principais autores e obras do Neorrealismo português Do Neorrealismo ao novo romance português Leitura: Levantado do chão (fragmento) José Saramago Os escritores que tematizaram a Guerra Colonial Literatura contemporânea portuguesa: poesia Leitura: Texto 1 As palavras (fragmento) Eugénio de Andrade Texto 2 Musa (fragmento) Sophia de Mello Breyner Andresen As literaturas africanas de expressão portuguesa Leitura: Terra sonâmbula (fragmento) Mia Couto E mais Resumindo o que você estudou Atividades Tendências contemporâneas da literatura brasileira Primeira leitura: Contistas do fim do mundo Nelson de Oliveira Um pouco de História Características literárias das tendências contemporâneas da literatura brasileira Leitura: Texto 1 Mar azul Ferreira Gullar Texto 2 Não há vagas Ferreira Gullar E mais Poesia da década de 1980 à atualidade Leitura: Texto 1 Nação de pária Nelson Ascher Texto 2 Mundo mudo Donizete Galvão Prosa: entre 1956 e Prosa: da década de 1980 à atualidade Leitura: Socorrinho Marcelino Freire

7 Teatro: o renascimento do gênero Leitura: Auto da Compadecida (fragmento) Ariano Suassuna Resumindo o que você estudou Atividades Gramática 1 Período composto por subordinação Orações subordinadas substantivas Período composto por subordinação Oração principal e oração subordinada Orações subordinadas substantivas Conceito Classificação das subordinadas substantivas As orações substantivas nos textos Resumindo o que você estudou Atividades Da teoria à prática Agora é sua vez Orações subordinadas adjetivas Orações subordinadas adjetivas Conceito Características das orações subordinadas adjetivas Classificação das subordinadas adjetivas As orações adjetivas nos textos Resumindo o que você estudou Atividades Da teoria à prática Agora é sua vez Orações subordinadas adverbiais Orações subordinadas adverbiais Conceito Classificação das subordinadas adverbiais As orações adverbiais nos textos Resumindo o que você estudou Atividades Da teoria à prática Agora é sua vez Período composto por coordenação Período composto por coordenação e subordinação Período composto por coordenação Conceito de oração coordenada Tipos de orações coordenadas Classificação das coordenadas sindéticas As orações coordenadas nos textos Período composto por coordenação e subordinação Resumindo o que você estudou Atividades Da teoria à prática Agora é sua vez E mais Concordância nominal Concordância nominal Regra geral Concordância do objeto com vários substantivos Outros casos de concordância nominal Resumindo o que você estudou Atividades Da teoria à prática Agora é sua vez E mais Concordância verbal Principais regras de concordância verbal Concordância do verbo com o sujeito simples Resumindo o que você estudou Atividades Concordância do verbo com o sujeito composto Resumindo o que você estudou Atividades Concordância do verbo ser Emprego dos verbos impessoais Resumindo o que você estudou Atividades Da teoria à prática Agora é sua vez E mais Regência verbal Crase Regência verbal Pré-requisitos para o estudo da regência verbal A regência verbal e a adequação à situação de uso Regência de alguns verbos Resumindo o que você estudou Atividades Resumindo o que você estudou Atividades Crase Conceito Ocorrências de crase Resumindo o que você estudou Atividades Da teoria à prática Agora é sua vez E mais Colocação pronominal Os pronomes pessoais: retos e oblíquos Posicionamento dos oblíquos átonos nos enunciados

8 Orientações práticas A eufonia na colocação pronominal Colocação pronominal na variedade padrão Próclise Mesóclise Ênclise Posições dos pronomes átonos nas locuções verbais Resumindo o que você estudou Atividades Da teoria à prática Agora é sua vez Redação e leitura 1 O mundo dissertativo Os elementos fundamentais do texto dissertativo A dissertação clássica Atividades E mais Resumindo o que você estudou Critérios de avaliação e reelaboração Dissertar e descrever: a delimitação do tema Atividades Os períodos interrogativos O uso de elementos descritivos E mais Como delimitar o tema Atividades E mais Resumindo o que você estudou Critérios de avaliação e reelaboração Dissertar e narrar: assumindo um ponto de vista..331 Atividades E mais Assumindo um ponto de vista Atividades Resumindo o que você estudou Critérios de avaliação e reelaboração Professor, a descrição de cada ícone encontra-se nas Orientações do livro digital. 4 A argumentação causal A importância dos exemplos E mais Atividades A argumentação causal o(s) porquê(s) Atividades A importância dos exemplos Atividades A carta argumentativa Atividade Resumindo o que você estudou Critérios de avaliação e reelaboração A estrutura do texto dissertativo Atividades A dissertação clássica: introdução, desenvolvimento, conclusão E mais Atividades Resumindo o que você estudou Critérios de avaliação e reelaboração Estratégias lógico-expositivas Estratégias expositivas Atividades E mais Resumindo o que você estudou Critérios de avaliação e reelaboração Revisão geral Capítulo 1 O mundo dissertativo Capítulo 2 Dissertar e descrever: a delimitação do tema Capítulo 3 Dissertar e narrar: assumindo um ponto de vista Capítulo 4 A argumentação causal A importância dos exemplos Capítulo 5 A estrutura do texto dissertativo Capítulo 6 Estratégias lógico-expositivas Últimas palavras Referências Para aprender mais Lista de siglas Ícones de material digital complementar. Acione cada um deles no livro digital para ter acesso. + Vídeo/áudio Texto Imagens enriquecidas Objetos educacionais

9 Literatura Photodisc/Getty Images

10 QUADRO GERAL DAS LITERATURAS PORTUGUESA E BRASILEIRA LITERATURA PORTUGUESA Era Medieval Era Clássica Era Romântica Trovadorismo Humanismo Renascimento Barroco Neoclassicismo Romantismo Realismo Naturalismo Simbolismo Modernismo s XII a XIV XV XVI s XVII/XVIII XVIII XIX XIX XIX XX Cancioneiros Poesia trovadoresca (cantigas) Cancioneiro Geral Fernão Lopes Gil Vicente Sá de Miranda Camões Cultismo Conceptismo Pe. Antônio Vieira Arcádia Lusitana Nova Arcádia Bocage Almeida Garrett Alexandre Herculano Camilo Castelo Branco Júlio Dinis Questão Coimbrã Antero de Quental Eça de Queirós Eugênio de Castro Antônio Nobre Camilo Pessanha Revista Orpheu Fernando Pessoa Revista Presença LITERATURA BRASILEIRA Era Colonial Era Nacional Quinhentismo Barroco Neoclassicismo Romantismo Realismo Naturalismo Simbolismo Pré-Modernismo Modernismo XVI s XVII/XVIII XVIII XIX XIX XIX XX XX Descobrimento Literatura informativa Literatura catequética José de Anchieta Bahia Gregório de Matos Minas Gerais Cláudio Manuel da Costa Tomás Antônio Gonzaga Basílio da Gama Santa Rita Durão Independência Gonçalves Dias Álvares de Azevedo Castro Alves Joaquim Manuel de Macedo José de Alencar Machado de Assis Aluísio Azevedo Raul Pompeia Parnasianismo Olavo Bilac Cruz e Sousa Alphonsus de Guimaraens Augusto dos Anjos Euclides da Cunha Lima Barreto Monteiro Lobato Graça Aranha Semana de 22 Mário e Oswald de Andrade Geração de 30 Geração de 45 Guimarães Rosa Clarice Lispector 8

11 Professor, a atividade da seção E mais... da p. 21 requer preparação antecipada. A L I T E Coleção particular R A Primeira leitura + R 1 O Pré-Modernismo no Brasil U lo T c ap ítu Teatro Municipal de São Paulo, década de Como imagino o Municipal amanhã O povo paulista inaugura amanhã o seu grande teatro. Os teatros, que ao mesmo tempo sejam grandes e admiráveis, não são muito abundantes no mundo. Ao contrário. Contam-se a dedo, e os que, às vezes, têm uma enorme fama de arte e de tradição, como o Covent Garden e o San Carlos de Nápoles, são coisas apenas dignas de um piedoso respeito ao passado. São Paulo é orgulhoso. Orgulhoso excessivamente. Esse orgulho fundamental na raça lhe tem servido de muito: deu-lhe a convicção da própria força, a consciência da personalidade e a consciência geográfica, o que vem a ser a posse de si mesmo e a posse do terreno onde pisa; fez-lhe no Brasil, enfim, a característica de um país verdadeiramente constituído e de um povo de verdade, quando nós somos, de fato, uma mistura de várias raças ainda muito por caldear Coleção particular Folha de rosto do programa oficial da inauguração do Teatro Municipal de São Paulo, O Pré-Modernismo no Brasil 9

12 Por isso São Paulo é bem o Civilizador. É o Civilizador historicamente. O paulista bandeirante ensinou a desbravar o sertão e mostrou o caminho da riqueza e descobriu, através das florestas, os diamantes de Minas e as esmeraldas do Peru. O paulista estadista ensinou o Brasil a ler, foi José Bonifácio. O paulista agricultor realizou a corrente imigratória, muito antes da abolição. O paulista livre pensador fez a propaganda republicana. E eu estou que, realizando a riqueza econômica, tendo por base a agricultura, resolvendo todos os problemas sociais muito antes da União, o paulista foi também do nosso país o primeiro que viajou e, consequentemente, o que ensinou o caminho da Europa ao brasileiro, pouco andarilho outrora. Daí vem, decerto, esse justo orgulho. Fale-se de instrução ou fale-se de higiene, fale-se de polícia ou de proteção agrícola eles dão o exemplo. Mais do que o contato da Civilização um instinto verdadeiramente espantoso fê-lo saber sentir a arte, o imprevisto, o novo e o belo. [...] [...] Há oito dias só ouço falar no Municipal, nos gastos que o Municipal motiva, no que será a noite de amanhã, enquanto o povo, aquele que certamente não comparecerá senão da rua, para e admira o belo monumento [...]. Com certa facilidade é possível imaginar-se o que será a noite de gala, a maravilha dos vestuários, o ambiente de beleza e de luxo, entre tecidos caros e joias finas, entre lhamas de ouro e colos cujo encanto se aviva nos tríplices fios de pérolas vivas em chamas de diamante e esmeraldas. [...] São Paulo era há trinta anos uma cidade colonial. Mas, como a Veneza dos Doges teve os seus arquitetos [...], São Paulo teve a sorte de sentir no seu meio o homem tríplice que forma o arquiteto: o cientista, o trabalhador e o artista. Esse homem é Ramos de Azevedo. [...] A vida seria uma coluna sem capitel se não fosse a criação artística, que é o fim de todas as almas sensíveis e de todos os cérebros com ideias. São Paulo sabe bem reconhecer os valores individuais. É por isso que eu imagino a noite de amanhã, no Municipal, ao fim do último acorde do hino, como a própria apoteose de São Paulo ao seu ilustre filho, ao grande arquiteto Ramos de Azevedo. Valério Vieira, c Pinacoteca Municipal, São Paulo RIO, João do. Como imagino o Municipal amanhã. In: SCHAPOCHNIK, Nelson (Org.). João do Rio: um dândi na Cafelândia. São Paulo: Boitempo, p A palavra no texto caldear ligar, unir, fundir, misturar lhama tecido brilhoso capitel parte superior, ornamental, de uma coluna Covent Garden sala de concertos situada em Londres, Inglaterra San Carlos teatro situado em Nápoles, Itália Fachada do Teatro Municipal, pintura de Valério Vieira, c

13 Releitura 1. Embora tematize o progresso, descrevendo o processo de urbanização das cidades no início do século XX, o texto deixa transparecer algumas ideias em voga sobretudo no século XIX, que foram essenciais para movimentos literários anteriores, como o Realismo e o Naturalismo. Localize nos três primeiros parágrafos algumas dessas ideias, relacionando-as àquelas correntes de pensamento: Positivismo, Evolucionismo, Determinismo. Resposta pessoal. Sugestão: Os conceitos de raça e de civilização (em oposição ao termo barbárie ) remetem ao cientificismo (de base positivista e determinista) vigente no século XIX. 2. No segundo parágrafo, João do Rio expõe alguns exemplos que lhe servem para afirmar que o povo paulista tinha mesmo motivos para ter orgulho de si. Quais fatos históricos o autor usa como argumentos? 3. A metonímia é uma figura de linguagem bastante presente na composição desse texto, como se vê em o paulista bandeirante. Cite exemplos de sua utilização, procurando explicar os efeitos de sentido que produz. O uso de expressões metonímicas, como o paulista estadista, colos encantadores etc., realça a visão 4. O autor sugere que o fato noticiado será recebido de forma diferente por pessoas que fazem parte de classes sociais distintas. Em que parágrafos essa diferença social aparece de forma mais explícita? No quarto e no quinto parágrafos: primeiro, o autor refere-se ao povo, o qual certamente não Justifique sua resposta. 5. Ao final, o texto configura-se como uma homenagem ao responsável pelo projeto do prédio público a ser inaugurado. a) Que prédio é esse e quem é seu idealizador? O Teatro Municipal de São Paulo, criado pelo arquiteto Ramos de Azevedo. b) Que conceito ou imagem do artista e de seu papel na sociedade o autor apresenta nos quatro Imagem idealista, romântica, do artista como portador do antes mencionado instinto de parágrafos finais do texto? Comentário Na crônica lida, São Paulo já desponta como ícone do progresso e da urbanização cosmopolita, antecipando a imagem que se consolidaria com o movimento modernista, a partir dos anos No entanto, a perspectiva do cronista, ainda, é a do século anterior: o ambiente, o momento histórico, a herança a determinar que as coisas sejam como são, não havendo exatamente uma leitura crítica do passado, uma revisão da História, mas a idealização do artista, visto mais como um vidente do que como um reformador. O texto ilustra, assim, um momento de transição, no qual novas forças começam a se configurar, sem que necessariamente tenham sido superadas as marcas do passado. Metonímia utilização de um termo para substituir outro, graças a uma relação de contiguidade ou vizinhança que liga os significados de ambos: a parte pelo todo, o efeito pela causa, o abstrato pelo concreto, o continente pelo conteúdo, o atributo pelo ser etc. O movimento de descobertas do interior do país, levado a cabo pelos bandeirantes; as mudanças na educação trazidas por José Bonifácio; a imigração e a emigração; a ideia de República. idealizada sobre os paulistas presente no texto, já que os adjetivos utilizados apresentam valor positivo. comparecerá senão da rua, do lado de fora; em seguida, à classe alta, que ficará do lado de dentro, envolvida em seu ambiente de luxo e ostentação. sentir a arte, o imprevisto, o novo e o belo ; ser privilegiado, de alma sensível e cheio de ideias, criador que completa e ornamenta o espírito civilizador. Guilherme Gaensly. c Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo L I T E R A T U R A Rua 15 de Novembro, São Paulo. O Pré-Modernismo no Brasil 11

14 Um pouco de História O Brasil do início do século XX Participantes da Guerra do Contestado. O Brasil do início do século XX mantém basicamente a mentalidade do final do século XIX: pós- -republicana, positivista e liberal. Entretanto, um quadro político tenso põe em risco o poder das oligarquias civis, provenientes dos setores rurais. Uma burguesia industrial nascente, ligada à produção e exportação do café no eixo Rio-São Paulo-Minas, começa a ascender. A urbanização e a imigração, decorrentes do crescimento industrial, trazem à cena ideologias progressistas que conflitam com o tradicionalismo agrário do país. As pressões de outros segmentos da população interessados numa mudança política por exemplo, os profissionais liberais, a pequena classe média, alguns setores militares, o proletariado manifestam-se por meio de movimentos como a Revolta contra a Vacina Obrigatória (Rio de Janeiro, 1904), a Revolta da Chibata (Rio de Janeiro, 1910) e as duas greves gerais de operários (São Paulo, 1917 e 1919). No meio rural, por sua vez, as tensões se expressam na proliferação de grupos de cangaceiros e em movimentos messiânicos relacionados a eventos de grande repercussão política, como a Guerra de Canudos (Bahia, ), a Revolta do Contestado (Santa Catarina, ) e o Levante de Juazeiro (Ceará, ), que teve o Padre Cícero como um dos protagonistas. Em suma, parece haver dois Brasis em confronto ao longo da Primeira República: aquele agrário, tradicionalista e conservador, que detém o poder, e este que anuncia a virada do século um país industrial, urbano, em busca da modernização. Em termos culturais predomina, como veremos, a chamada literatura sorriso da sociedade. Navegar é preciso As sugestões a seguir, além de aprofundarem os conhecimentos sobre a época estudada, trazem informações importantes para a discussão proposta na seção E mais... sobre as profundas disparidades econômicas e sociais encontradas no Brasil. 1. Policarpo Quaresma: herói do Brasil (direção de Paulo Thiago, Brasil, 1988). Baseado na obra de Lima Barreto, o filme conta a história do major Policarpo Quaresma, um visionário que ama o Brasil e luta para que seja tão grandioso quanto acredita que pode ser. Nacionalista e sonhador, sua luta se inicia no Congresso, onde propõe que o tupi-guarani seja adotado como idioma oficial do país. 2. Sobreviventes: filhos da Guerra de Canudos (direção de Paulo Fontenelle, Brasil, 2007). Este documentário resgata a Guerra de Canudos, por meio das histórias contadas pelos descendentes de pessoas que sobreviveram ao combate, e mostra a vida no interior do Nordeste mais de cem anos depois desse episódio. 3. Linha de passe (direção de Walter Salles e Daniela Thomas, Brasil, 2008). O filme mostra a história de quatro irmãos criados, na periferia de São Paulo, unicamente pela mãe, empregada doméstica. Eles precisam lutar por seus sonhos. Reginaldo é um jovem que procura seu pai obsessivamente. Dario sonha em ser jogador de futebol. Dinho dedica-se à religião. Dênis enfrenta dificuldades para se sustentar, principalmente por ser pai involuntário de um menino. Claro Gustavo Jansson. c Coleção particular 12

15 Principais características do Pré-Modernismo no Brasil O Pré-Modernismo, na literatura brasileira, compreende o período cultural que vai dos primeiros anos do século XX até 1922, quando ocorreu a Semana de Arte Moderna, marco que assinala o início do Modernismo no país. O Pré-Modernismo não constitui uma escola literária, mas um momento de transição entre a tradição literária do século XIX e sua ruptura radical, proporcionada pelo advento do Modernismo. São considerados pré-modernistas alguns escritores cujas obras destoam de nossa produção literária do início do século. Esta refletia uma mentalidade artística ainda ligada ao século XIX, e na qual os ecos do Realismo-Naturalismo na prosa e do Parnasianismo-Simbolismo na poesia não contribuíam para criações significativas. Em vez disso, tínhamos uma literatura superficial, servilmente submissa a modelos europeus já superados, alienada das questões nacionais. Tal produção foi significativamente caracterizada por um de seus representantes, Afrânio Peixoto, como literatura sorriso da sociedade. Em oposição a este cenário dominante, convencional e conservador, os escritores denominados pré- -modernistas anunciam a Modernidade. Augusto Malta Coleção particular L I T E R A T U R A Moças em um dos bares da Exposição Comemorativa da Abertura dos Portos às Nações Amigas, Rio de Janeiro, Principais escritores e obras do Pré-Modernismo brasileiro Na poesia, o principal representante do Pré-Modernismo no Brasil é Augusto dos Anjos, com poemas que desafiam classificações rígidas e inserem em nosso contexto cultural algumas características universalmente modernas. Na prosa, destacam-se três escritores, que se debruçaram sobre a realidade do país, produzindo obras críticas e questionadoras. Vamos conhecê-los, relacionando cada nome à sua obra mais conhecida: Euclides da Cunha, com Os sertões (1902); Lima Barreto, com Triste fim de Policarpo Quaresma (1915); e Monteiro Lobato, com Urupês (1918). Inclui-se também entre os autores pré-modernistas Graça Aranha, com Canaã, obra sobre a imigração alemã no Espírito Santo, publicada em O Pré-Modernismo no Brasil 13

16 14 Embora de menor importância literária, Graça Aranha desempenhou expressivo papel como intelectual do movimento modernista, tendo participado ativamente da Semana de Arte Moderna, como veremos no capítulo 3. Com abordagens e estilos próprios, específicos, tais prosadores se aproximam por anunciarem a grande temática que ocupará nossa primeira geração modernista: a redescoberta dos valores brasileiros, expressa por um nacionalismo que muitas vezes retoma a vertente regionalista da literatura brasileira de modo crítico, polêmico, problematizador. Augusto dos Anjos Eu (1912) O público e a crítica da época, habituados à elegância parnasiana, consideraram grosseiro e de mau gosto o livro de Augusto dos Anjos. Alguns de seus poemas são vistos como os mais estranhos de toda a literatura brasileira, por vários motivos. Dentre eles, ressaltamos o vocabulário pouco comum, repleto de palavras com forte carga cientificista; a multiplicidade de influências literárias, que dificulta ou mesmo impossibilita sua classificação estilística; e, principalmente, o desespero radical com que transforma o fim de todas as ilusões românticas em tema recorrente, bem como a fatalidade da morte e o apodrecimento inexorável do corpo, a visão do cosmos em seu processo irreversível de demolição de valores e sonhos humanos. Trata-se, no entanto, de uma das obras mais lidas entre os brasileiros. Leitura Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos ( ) Augusto dos Anjos nasceu e viveu até os 24 anos na Paraíba, no Engenho Pau d Arco, que a família foi obrigada a vender em razão da crise que atingiu a lavoura açucareira nordestina nos primeiros anos da República. Foi professor de literatura a vida toda, divulgando poemas em jornais até a publicação de sua única obra: Eu (1912). Faleceu em Leopoldina, Minas Gerais, com 30 anos, em consequência de uma pneumonia. Versos íntimos Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão esta pantera Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Morro do Rio de Janeiro, c Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija! A palavra no texto quimera utopia, sonho, fantasia ANJOS, Augusto dos. Versos íntimos. In: BUENO, Alexei (Org.). Augusto dos Anjos: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. p Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro Capa do livro Eu, de Augusto dos Anjos. Augusto Malta Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro

17 1. Resposta pessoal. Sugestão: o título soa irônico por sugerir um poema de cunho subjetivo, romântico, sentimental, que, na verdade, tem conteúdo agressivo, desolador e se aproxima do grotesco. 4.b) Por meio da surpresa, da ironia e da provocação, o sujeito lírico procura quebrar a expectativa do leitor, como se o aconselhasse a se preparar para ler a afirmação cruel sobre o ser humano que vem a seguir. 5. [...] véspera do escarro, / Apedreja essa mão vil [...] / Escarra nessa boca [...] tais expressões não poderiam ser consideradas poéticas no contexto do Parnasianismo, pois esse estilo literário se caracteriza pelo uso de um vocabulário erudito, com palavras elegantes e amenas. Releitura 1. O que há de irônico no título Versos íntimos, comparando-o com o conteúdo do poema? 2. Do ponto de vista formal, o texto se caracteriza como um soneto clássico. Justifique essa afirmação, considerando o esquema métrico e o esquema rímico nele presentes. Os versos são decassílabos e as rimas são regulares (ABBA; BAAB; CCD; EED). 3. Desde a primeira estrofe, percebe-se que o sujeito lírico relaciona a vida social do homem à vida dos animais selvagens, por meio de imagens que lembram o estilo naturalista, em seu determinismo cientificista e em seu materialismo. Que palavras da segunda estrofe melhor confirmam esta afirmação? Lama, terra miserável e fera. 4. Os versos que iniciam a segunda e terceira estrofes apresentam um tom de conselho ou ordem, que é reiterado no desfecho do poema. a) Que característica permite associar o conselho ou ordem da segunda estrofe ao Naturalismo? O determinismo. b) Repare que o conselho ou ordem da terceira estrofe introduz no poema, de forma inesperada, um tom prosaico, de conversa cotidiana. O verso surpreende o leitor de forma irônica e provocativa, fazendo lembrar o realismo psicológico de Machado de Assis. Releia as duas estrofes finais e, a partir delas, explique o sentido da utilização desses recursos no referido verso. c) Que modo verbal foi utilizado para expressar o tom de conselho ou ordem dos versos iniciais da segunda e terceira estrofes? O modo imperativo. 5. O vocabulário do poema escandaliza o leitor acostumado com a poesia parnasiana, incluindo expressões que, do seu ponto de vista, podem ser consideradas não poéticas. Identifique expressões desse tipo na terceira e quarta estrofes e explique por que não poderiam ser consideradas poéticas, no contexto do Parnasianismo dominante na época. Euclides da Cunha Os sertões (1902) Escrito com inteligência e sensibilidade, o livro tem um caráter científico que o eleva à condição de verdadeiro tratado geofísico e social de nosso país, privilegiando o Nordeste, palco da chacina de Canudos Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha ( ) Nascido no município de Cantagalo, Rio de Janeiro, Euclides da Cunha era engenheiro civil e bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais. De formação positivista e determinista, sempre gostou de escrever, tornando-se jornalista e depois escritor. Em 1897, passou por um episódio decisivo para a literatura brasileira: trabalhando no jornal A Província de São Paulo (o atual O Estado de S. Paulo), foi enviado como correspondente para o interior da Bahia, na região de Canudos, onde supostamente estaria havendo um levante monárquico. Lá, ao acompanhar os episódios finais da chamada Campanha de Canudos, foi testemunha de um massacre, resultante do encontro de duas sociedades que mutuamente se ignoravam: o litoral civilizado, europeizado, e o sertão inculto, bárbaro. A constatação da existência dos dois Brasis e da forma criminosa com que se defrontaram nessa campanha levou o jornalista a idealizar Os sertões, obra que denuncia contradições nacionais ainda não superadas e que manifesta um profundo sentimento patriótico. Eleito como membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Euclides da Cunha trabalhou no gabinete do barão do Rio Branco, de quem foi grande amigo. Em 1909, pouco tempo depois de nomeado professor de Lógica do Colégio D. Pedro II, foi assassinado por Dilermando de Assis, amante de sua esposa, dona Ana Sólon da Cunha. L I T E R A T U R A O Pré-Modernismo no Brasil 15

18 Sua estrutura revela a formação científica positivista e determinista de Euclides. Divide-se em três partes, que correspondem aos três fatores considerados fundamentais para o estudo de qualquer acontecimento social, de acordo com Hippolyte Taine, um dos mestres do determinismo francês. São eles o meio (1 ạ parte: A terra), a raça (2 ạ parte: O homem) e o momento histórico (3 ạ parte: A luta). Monteiro Lobato Urupês (1918) Urupês é o nome dado a um fungo parasita, também conhecido como orelha-de-pau, que se alimenta da seiva dos troncos das árvores. Foi tomado por Lobato como referência a um dos protagonistas de seu primeiro livro: o Jeca Tatu caipira caricato, que vive à margem da cidade grande e da História, sempre de cócoras e regido, em seus mínimos movimentos, pela lei do menor esforço. Tal imagem caricata do homem do interior aparece em dois contos, Velha praga e Urupês, texto que dá nome à obra, além de estar presente em seu contexto geral. Coletânea de trabalhos anteriormente publicados em jornais e revistas, Urupês reúne contos que narram histórias caipiras engraçadas ou dramáticas. Nelas percebemos o anúncio da modernidade, já que registram um cenário regional ignorado ou idealizado pela literatura até então dominante. Urupê ou orelha-de-pau na Floresta Amazônica (AM), Outras obras do escritor: Cidades mortas (1919), Negrinha (1920), O presidente negro ou o choque de raças (1926). Fabio Colombini Voltolino Coleção particular Monteiro Lobato, caricatura de Voltolino, em O Estado de S. Paulo, José Bento Monteiro Lobato ( ) Escritor, editor, diplomata, industrial, fazendeiro, Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, estado de São Paulo. Formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (SP), viveu em pequenas cidades do Vale do Paraíba e na fazenda que herdou do avô, o Visconde de Tremembé, até mudar-se para São Paulo, em 1918, quando começou a carreira literária e de editor. Nesse mesmo ano, comprou a Revista do Brasil, fundou a Editora Monteiro Lobato e editou Urupês, livro de contos do qual se destaca Urupês, texto em que faz a caricatura do Jeca Tatu, o caipira interiorano. Em 1925, após a falência de sua editora, fundou com alguns amigos a Companhia Editora Nacional, a pioneira das grandes editoras modernas brasileiras. De 1927 a 1931, Lobato viveu nos Estados Unidos, como adido comercial brasileiro. Ao voltar, convicto da necessidade de modernizar o país, entregou-se à causa da exploração do petróleo e do ferro em solo brasileiro. Durante 10 anos promoveu uma acirrada campanha nacionalista que resultou na sua prisão. Solto três meses depois, voltou a dedicar-se aos livros, participando da fundação da Editora Brasiliense. Em 1946, mudou-se para a Argentina. Ao retornar ao país, em 1947, participou de campanhas públicas contra a cassação de parlamentares do Partido Comunista. No ano seguinte, um espasmo vascular causou-lhe a morte. Como escritor, destaca-se por ter criado a literatura infantil brasileira. Suas histórias e fábulas, ambientadas no Sítio do Picapau Amarelo, têm marcado muitas gerações de leitores. Na literatura adulta, Lobato destacou-se como criador de contos regionalistas, um contador de histórias caipiras. Seus cenários, personagens e enredos resgatam o Brasil rural em extinção, com um tom marcado pela oralidade e uma constante preocupação com as contradições do país, no impasse entre o atraso e a modernização. 16

19 Lima Barreto Triste fim de Policarpo Quaresma (1911) Nessa obra, Lima Barreto faz a caricatura do patriota ingênuo, idealista, ufanista, em confronto com os que vencem na vida figuras bajuladoras, medíocres, carreiristas e burocráticas. Funcionário público digno e pontual, o Major Quaresma, protagonista do romance, fracassa nos projetos de melhorar o Brasil, a que se dedica após aposentar-se. No desfecho do livro, é ironicamente condenado por crime de alta traição à pátria, por denunciar ao ditador Floriano Peixoto as execuções sumárias dos adversários do governo ocorridas durante a Revolta da Armada, em Enquanto o Major se amargura com os próprios ideais, questionando-se só agora, quando lhe resta aguardar pelo triste fim a morte, seus antagonistas permanecem impunes. Entretanto, o leitor percebe o verdadeiro alvo de Lima Barreto em Triste fim de Policarpo Quaresma: não se trata exatamente da caricatura do patriota ingênuo, ridículo em sua insistência pelo ideal, mas da caricatura da pátria que ele julgava existir... Ao longo da leitura, portanto, a imagem ingênua da pátria é que vai sendo despida com crueza, em toda a sua mediocridade, enquanto a imagem do patriota se agiganta. Ele nada vê, nada percebe, nada compreende, em termos de senso de realidade prática. Luta contra moinhos de vento, como Dom Quixote. A proximidade entre o jornalista e o escritor torna a literatura de Lima Barreto mais coloquial e, portanto, mais acessível ao grande público. A incorporação de recursos da crônica jornalística é visível em seus textos, nos quais a simplicidade da linguagem, sua aproximação da fala cotidiana e a ironia sempre contundente estão voltadas para a denúncia de injustiças e arbitrariedades cometidas no Brasil pós-republicano, de que o autor traça um verdadeiro painel crítico e repleto de indignação. Outras obras do escritor: Numa e Ninfa (1915), Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Clara dos Anjos (1948). Filme de Paulo Thiago. Policarpo Quaresma, herói do Brasil Brasil Capa do DVD Policarpo Quaresma: herói do Brasil. s.d. Biblioteca Municipal Mário de Andrade, São Paulo Afonso Henriques de Lima Barreto ( ) Mulato, órfão de mãe aos seis anos, o pai doente mental, alcoólatra e sem estabilidade financeira, Lima Barreto teve uma existência desde cedo marcada pelo sofrimento. Quando o pai adoeceu, precisou afastar-se da faculdade que cursava, a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, para trabalhar na Secretaria da Guerra. As experiências com jornalismo, que vinham dos tempos de estudante, continuaram e se transformaram em profissão. Em 1905, tornou-se jornalista do Correio da Manhã, e dois anos mais tarde publicou, em Lisboa, seu primeiro romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha. Nesse trabalho, há fortes elementos autobiográficos, principalmente quando o autor focaliza os bastidores dos grandes jornais brasileiros, formadores de opinião, e o tema do preconceito racial, de que sempre se sentiu vítima. Em 1911, publicou, em forma de folhetim, seu romance mais conhecido: Triste fim de Policarpo Quaresma. Em 1914, sofreu sua primeira internação em um hospício. Foi afastado por invalidez da Secretaria da Guerra, em 1918, e passou novo período no sanatório. Vítima de um colapso cardíaco, faleceu no Rio de Janeiro, alguns meses depois da Semana de Arte Moderna. L I T E R A T U R A O Pré-Modernismo no Brasil 17

20 Leitura Conheça um fragmento do famoso conto Urupês (texto 1), em que Lobato descreve, pela primeira vez, a figura do Jeca Tatu. Espécie de anti- -herói nacional, o caipira representa, nesse momento histórico e literário, uma ruptura com a idealização romântica de nossos símbolos pátrios. Aqui ele aparece como a encarnação de um Brasil arcaico, anacrônico, que convive lado a lado com um Brasil que se pretende civilizado, moderno. Após a leitura do texto 1, compare-o com os outros dois textos: Os sertões (texto 2), de Euclides da Cunha, que tematiza o sertanejo, e Triste fim de Policarpo Quaresma (texto 3), de Lima Barreto, no qual há uma reflexão da personagem Olga (afilhada do Major Quaresma) sobre o homem do campo. Nos três textos a caracterização de tipos regionais brasileiros revela a preocupação dos autores em denunciar nossa distância em relação à imagem pós-republicana e parnasiana de um país civilizado, próximo à Europa, no ritmo da modernidade. Encontre semelhanças e diferenças entre os textos, lendo e respondendo às questões da releitura. Texto Urupês Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrovinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo. Pelo 13 de maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo. A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifica-se ante o inopinado da mudança. O caboclo não dá pela coisa. Vem Floriano; estouram as granadas de Custódio; Gumercindo bate às portas de Roma; Incitatus derranca o país. O caboclo continua de cócoras, a modorrar... Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jeca, antes de agir, acocora-se. Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie. Ei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência. Não vê que... A palavra no texto estrovinhado aturdido, desnorteado inopinado imprevisto, não esperado estouram as granadas de Custódio referência à Revolta da Armada (1893), liderada por Custódio de Melo Gumercindo bate às portas de Roma referência ao líder maragato Gumercindo Saraiva, morto em combate durante a Revolução Federalista (1894) Incitatus derranca o país referência ao presidente Hermes da Fonseca, por alusão ao cavalo que o imperador romano Calígula nomeou cônsul piraquara apelido que se dá aos habitantes das margens do Paraíba do Sul; caipira epítome síntese, resumo entramar confundir- -se; misturar-se Bramaputra rio sagrado do Tibete brejaúva palmeira silvestre 18

21 De pé ou sentado, as ideias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa. De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para aquentá-lo, imitado da mulher e da prole. Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostar um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras. Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos. Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade! Texto LOBATO, Monteiro. Urupês. 37. ed. São Paulo: Brasiliense, p Os sertões Jeca Tatu, ilustrado por Belmonte, em publicação de Belmonte Coleção particular L I T E R A T U R A (fragmento) O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente acurvada, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo cai é o termo de cócaras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável. É o homem permanentemente fatigado. [...] Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organi- A palavra no texto desempeno elegância, agilidade Hércules homem forte, hercúleo, como o herói da mitologia grega Quasímodo personagem monstruoso da obra Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo; monstrengo gingante oscilante translação ato ou efeito de transladar, mudar de um lugar para outro sofrear moderar, frear espenda parte da sela em que se assenta a coxa do cavaleiro cócaras cócoras adormido adormecido estadear ostentar desassombrado destemido O Pré-Modernismo no Brasil 19

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