HISTÓRIA, GÊNERO E EDUCAÇÃO: AS MOBILIZAÇÕES DE GÊNERO PELA DITADURA CIVIL-MILITAR BRASILEIRA SOB UMA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO.

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1 HISTÓRIA, GÊNERO E EDUCAÇÃO: AS MOBILIZAÇÕES DE GÊNERO PELA DITADURA CIVIL-MILITAR BRASILEIRA SOB UMA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO. ( ) 1 INTRODUÇÃO Thiago de Sales Silva Universidade Federal do Ceará O presente trabalho de pesquisa, ainda em estado inicial, é vinculado a um projeto maior desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em História e Gênero (GPEHG) do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará, coordenado e orientado pela Prof(a) Dr(a) Ana Rita Fonteles Duarte. A pesquisa empreendida pelo grupo analisa, dentro do recorte temático-temporal da ditadura civil-militar brasileira ( ), de que forma as estratégias psicossociais formuladas pelo Estado, baseado na Doutrina de Segurança Nacional, em combate ao comunismo, mobilizaram identidades de gênero na construção de um ideário patriótico. Nesse sentido, busca-se entender as articulações da Doutrina em torno do inimigo interno, personificado por setores da sociedade que promoviam ações comunistas. A estratégia de caráter psicossocial centralizava-se nas questões morais de comportamento e identidade, pois, segundo a Doutrina, a degradação da moral era um mecanismo utilizado pelos comunistas na tentativa de ganhar terreno para a divulgação e implementação de seus ideais (MOTTA, 2002). Diante desse quadro, foi criada, em âmbito nacional, a disciplina de Educação Moral e Cívica com a finalidade de promover um perfil ideal de cidadão comprometido com os valores e fundamentos que constituem os pilares da nação e com o fortalecimento de um povo unido em torno de um bem comum. Este artigo irá se deter em um recorte, dentro da pesquisa maior, analisando especificamente as mobilizações de gênero em torno da disciplina Educação Moral e Cívica (EMC), a partir da forma como as identidades masculinas e femininas foram pensadas tanto no âmbito da família quanto em âmbito nacional. Para isso, alguns livros 1 Esta pesquisa é financiada pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), contemplada por editais de ambas as instituições.

2 2 fonte serão fundamentais nesta pesquisa, tais como livros didáticos de EMC, Moral e Civismo de Moacir Araújo Lopes e o Manuel Básico da Escola Superior de Guerra Contextualização, fontes e problemáticas. A implementação da Ditadura Civil Militar no Brasil respondeu a expectativa de setores militares e civis temerosos a uma maior difusão de ideias comunistas no país, o que poderia levar a ações mais enérgicas de grupos sociais vinculados a este ideário. Considerado o inimigo interno, o comunismo será foco de violentas investidas por parte do Estado, que tomará como base a Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento para justificar seus atos. À frente das medidas acerca da segurança nacional estava a Escola Superior de Guerra (ESG), órgão que exercia funções de direção e planejamento da segurança nacional, o qual estabelecia as diretrizes que configuraram as estratégias de defesa do país. Segundo a cientista política Maria Helena Moreira Alves (1984, p. 26), a Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento Efetivamente prevê que o Estado conquistará certo grau de legitimidade graças a um constante desenvolvimento capitalista e a seu desempenho como defensor da nação contra a ameaça dos inimigos internos e da guerra psicológica. A legitimidade é vinculada aos conceitos de desenvolvimento econômico e segurança interna. Tal acepção nos faz indagar acerca de que ações foram mobilizadas para que os objetivos estatais fossem alcançados, bem como sua inserção na sociedade. Para ajudar a pensar essas questões nos são muito caras as contribuições do General Golbery de Couto e Silva, um dos maiores teóricos da Escola Superior de Guerra (ESG) sobre a segurança nacional, em seu livro Conjuntura Política Nacional O Poder Executivo e Geopolítica do Brasil, obra sobre os aspectos da Segurança Nacional no período do Regime Militar. Golbery nos apresenta as configurações da Segurança Nacional a partir de um quadro em que a política de segurança fomentava o conceito estratégico no qual estavam inseridas diretrizes governamentais que direcionavam estratégias para quatro âmbitos: o Político, o Econômico, o Psicossocial e o Militar. O recorte utilizado por esta pesquisa centralizar-seá na Estratégia Psicossocial, na medida em que esta atuará no campo da moral tendo em vista setores específicos da sociedade civil, tais como a família, as escolas e as universidades.

3 3 O Manual Básico da Escola Superior de Guerra (1977), obra organizada e frequentemente atualizada pela ESG, que concentra grande parte das estratégias elaboradas no âmbito da Segurança Interna e Externa, expressa que a Estratégia Psicossocial Visa à motivação de pessoas e da sociedade, com a finalidade de criar condições psicológicas favoráveis ao apoio das atividades de mobilização. [...] O impacto dessa influência se faz de maneira muito intensa na Expressão Psicossocial, alterando hábitos, costumes, padrões de comportamento, contribuindo para o surgimento de novas formas de pensar, sentir e agir, com efeitos profundos sobre o tecido social. O Estado de Segurança Nacional, tendo como base a Estratégia Psicossocial, preocupou-se de forma particular com a questão da degradação da moral, desestruturação familiar e com o desvio sexual. Como afirma Rodrigo Patto de Sá Motta (2002, p. 64) o comunismo significaria um desafio à sobrevivência da própria sociedade civilizada, ameaçada em seus fundamentos por estes bárbaros do mundo contemporâneo. Na perspectiva da Doutrina, uma sociedade marcada pela mudança de comportamento no sentido da desarticulação dos princípios morais cristãos se tornaria campo fértil para a difusão do ideário comunista no país. Dessa forma, estratégias serão pensadas na tentativa de instituir valores cristãos no âmbito social em detrimento da ameaça comunista que, supostamente, se instalava no país. Um dos mecanismos utilizados pelo Estado com o intuito de fortalecer os valores morais, foi a criação da disciplina de Educação Moral e Cívica, segundo o Decreto-Lei 869/69. Tal iniciativa tornou obrigatório o ensino da disciplina em todas as escolas brasileiras, de todos os níveis de ensino, tendo em vista a formação de um brasileiro consciente de suas obrigações com a nação. Uma das fontes utilizadas para o desenvolvimento deste trabalho de pesquisa será o livro Moral e Civismo de Moacir Araujo Lopes, principal idealizador da disciplina de Educação Moral e Cívica e primeiro presidente da Comissão de Moral e Civismo. Esta obra é composta por uma série de palestras, realizadas em diferentes oportunidades entre os anos de 1966 e 1970, pelo general. Segundo Araújo Lopes (1971, p. 121), a constituição do caráter com base na moral, originária da ética, tendo como fonte Deus bem como o amor a pátria e às suas tradições, com capacidade de renúncia levaria a ação intensa e permanente, em benefício do Brasil. Estes elementos constituíam o conceito de civismo que funcionava como chave para a defesa do princípio democrático, a preservação dos

4 4 valores espirituais e o aprimoramento do caráter, com apoio na moral, na dedicação à família e à comunidade. Nesse sentido, a elaboração de um principio cívico será bastante justificada a partir dos problemas os quais o país vinha enfrentando, apontados como grave fase atual da nação. Segundo afirma Juliana Miranda Filgueiras (2006) a Comissão de Moral e Civismo é vinculada diretamente à Doutrina de Segurança Nacional e à Escola Superior de Guerra e seus membros eram preferencialmente diplomados pelas ESG. As mobilizações em torno do exercício da cidadania contribuiriam para o estabelecimento de uma nação forte construída pelos jovens do país, pois estes deveriam se preparar para exercer uma função na sociedade, por isso, a disciplina de Educação Moral e Cívica traria em seu currículo a apreensão de direitos e deveres, do amor à pátria e, ainda dentro dessa perspectiva, o estabelecimento de identidades para homens e mulheres na construção desta nação. Refletir sobre as iniciativas estatais em torno da educação e seu viés de gênero seria pensar na proposta da historiadora Joan Scott (1991) quando esta formula que as relações de gênero são uma primeira forma de dar significado às relações de poder. Ter a dimensão de que as preocupações com as questões comportamentais e referentes à sexualidade estão inseridas dentro de um projeto para o país que procura articular aspectos da segurança nacional caracteriza bem a proposta lançada pela historiadora; demarca, inclusive, a linha de análise na qual esta pesquisa se orienta. O forte viés de gênero encontrado no manual de moral e civismo de Moacir Araújo Lopes pensará em modelos masculinos e femininos ideais baseados em princípios cristãos. Os desvios de comportamento e da moral sexual deveriam ser corrigidos, pois só assim o país estaria no caminho certo para o desenvolvimento, sobretudo, econômico. Identificamos esses aspectos no seguinte trecho escrito pelo general: A presente fase histórica, no mundo ocidental e no Brasil, é marcada por profunda involução da moral com a exaltação do erotismo, calmamente aceita; pela degradação da mulher; por demonstrações baixas de caráter - corrupção e subversão; e pela conseqüente decadência das instituições basilares da nacionalidade, entre as quais, sobretudo a Família e a Escola. (LOPES, 1971, p. 94)

5 5 A análise elaborada por Moacir Araújo Lopes se pauta bastante num olhar sobre os jovens e as mulheres, talvez por serem considerados os elementos mais vulneráveis ao desvio da moral. A partir da década de 1970 uma série de obras serão publicadas no país, na tentativa de atender a nova demanda dos currículos escolares, a disciplina de Educação Moral e Cívica. Segundo afirma Filgueiras (2006, p. 95), a disciplina tornou-se obrigatória em 1969, mas em 1970 já existiam dez livros no mercado. No ano de 1971 foram publicados mais treze livros da disciplina. As editoras didáticas atenderam rapidamente a demanda do marcado da Educação Moral e Cívica. Os elementos destacados por Moacir Araujo Lopes acerca do desvio da moral serão expressamente difundidos nos livros didáticos de EMC, sobretudo aqueles que se detêm no tema família. O lugar da família na sociedade, sua atuação na educação dos novos cidadãos, o caráter cristão que a constituiu, além do estabelecimento de papéis de mães e pais, mulheres e homens, no convívio familiar vão marcar as principais preocupações envolvendo a família. Os discursos marcados pelo gênero serão encontrados nos livros didáticos dos diferentes níveis de ensino, ou seja, 1 e 2 graus. Um exemplo disso está no seguinte trecho extraído do livro Curso de Educação Moral e Cívica de Pinto Ferreira (1974, p. 109): Vê-se assim a formulação de uma nova moral sexual, coadjuvada pela onda de erotismo, pelos festivais de pornografia, pelos hippies, pelos vestidos transparentes, pelas revistas de nudismo, pelo cinema, pelo desnudamento progressivo da mulher, pelo maiô topless, em ondas desagregadoras da estabilidade da família e do casamento. [...] Essa nova moral sexual, contudo deve ser combatida. É preciso contestá-la e superála. [...] É preciso então conter esta fúria agressiva e demolidora contra as instituições da família e do casamento, como medida indispensável de coesão e estabilidade social. O livro de Pinto Ferreira, voltado para o 2 grau (1 e 2 ano colegial) traduz um pouco o clima vivenciado pelo país na década de 1970, em que a difusão de novos modelos de sexualidade e comportamento emergiam no Brasil contrapondo-se ao tipo ideal proposto para o próprio desenvolvimento da nação. Dessa forma, a moral sexual encontraria na moral cristã o seu lugar, pois somente a instituição da família, devidamente constituída por princípios cívicos, traria a almejada estabilidade social ao país.

6 6 No livro Construindo o Brasil de Maria T. Pimentel (1977, p. 101), voltado para o 1 e 2 graus, as formulações acerca do lugar dos pais na sociedade se tornam mais clara, a partir do seguinte trecho. O esposo: apresenta características físicas e psicológicas diferentes da mulher. Tem maior força física e uma musculatura apropriada para trabalhos mais pesados. É mais racional, lógico e organizador que a mulher, faz planos a longo prazo. Tem o dom da organização, lançandose por causa disso, a emprêsas difíceis e corajosas. A esposa: tem o corpo apto para a maternidade. É dotada de grande capacidade de sentimento e amor, delicada, com inteligência e perspicácia, especialmente encaminhadas à missão de ser mãe. É mais intuitiva e mais sagaz que o homem, tem maior resistência à dor e capacidade de praticar o altruísmo, que quer dizer abertura para o outro, possui as qualidades essenciais de que a criança vai precisar nos primeiros anos de vida. A clara definição dos papéis exercidos por homens e mulheres no âmbito da família, constituindo aí identidades de gênero a estes sujeitos, demarca a linha em que se orienta esta pesquisa. As mobilizações em torno do gênero, atribuições de características específicas a homens e mulheres, a naturalização de determinados tipos de comportamentos, vão configurar uma espécie de modelo ideal de cidadão, considerado absolutamente necessário naquela conjuntura sócio-política. Diante de tal contexto, podemos perceber, inclusive, um duplo movimento ao pensar as relações entre público e privado. O primeiro, encontrado nos livros didáticos, está no próprio estabelecimento de modelos, para homens e mulheres na sociedade, o âmbito público constituído pelo elemento masculino e o privado pelo feminino. O segundo movimento compreende o fato da preocupação em encerrar o feminino no privado estar diretamente ligada ao próprio projeto elaborado para o país. Dessa forma, o privado se inscreve no campo político. As problemáticas formuladas, na tentativa de entender as formas pelas quais se sustentam os perfis de gênero elaborados pelos manuais e livros didáticos de moral e civismo, nos levam a questionamentos ainda mais desafiadores, como: havia divergências, entre as diferentes frentes que atuavam na Comissão de Moral e Civismo, na Escola Superior de Guerra e no próprio governo na fomentação de modelos identitários de gênero considerados adequados? É na análise destes discursos que notaremos como isso se deu no âmbito das relações de poder que, no sentido dado por Michel Foucault (2010, p.179),

7 7 atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e que estas relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um funcionamento do discurso. Tal prerrogativa se insere naquilo que Michel Foucault (2009, p ) vai chamar de caráter descontínuo dos discursos, na medida em que não se deve pensar em discursos reinantes ilimitados, mas no intercruzamento entre eles, notabilizando aí a instituição das práticas. A profusão de discursos estabelecendo modelos de gênero ganhará espaço no âmbito da educação, pois este exerce influência sobre os campos da cultura, do comportamento e até mesmo da censura, estando os três imbricados no campo do discurso e das práticas. Analisar a construção destes discursos, seus deslocamentos e articulações no campo político se apresentam como um desafio para esta pesquisa, na medida em que estas questões norteiam os objetivos a que pretendemos alcançar. Nesse sentido, as contribuições teóricas de Foucault e Scott, referências nos estudos de gênero, bem como o diálogo constante com dissertações de mestrado, livros, artigos e demais obras sobre o período, inseridas dentro do recorte aqui esboçado, são altamente relevantes para esta pesquisa. Conclusão Pensar as relações de gênero no período da Ditadura Civil Militar no Brasil é lançar um olhar acerca das relações de poder que ali se estabeleciam. A formulação de modelos identitários, como forma de legitimação, além de não ser algo inocente, se insere em determinado contexto e está sujeito a mobilizações carregadas de sentido. Entender o lugar, as possíveis contradições e o poder de penetração das prerrogativas sustentadas pela Comissão de Moral e Civismo dentro de um Projeto pensado para o Brasil, no período em questão, são objetiva-chave aos quais esta pesquisa pretende alcançar.

8 8 BIBLIOGRAFIA ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil ( ). Petrópolis: Vozes, FILGUEIRAS, Juliana Miranda. A Educação Moral e Cívica e sua produção didática: f. Dissertação (Mestrado em Educação) Programa de Estudos Pós- Graduados em Educação: História, Política, Sociedade, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, SP, FOUCAULT, Michel. A ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, Microfísica do poder. São Paulo: Graal, MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho o anticomunismo no Brasil ( ). São Paulo: Perspectiva; Fapesp, SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Trad. Christine Rufino Dabat, Recife, 1991, (mimeo). FONTES Escola Superior de Guerra. Manual básico. Rio de Janeiro: ESG, FERREIRA, Pinto. Curso de Educação Moral e Cívica. Rio de Janeiro: José Konfino, LOPES, Mociar Araújo. Moral e civismo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, PIMENTEL, Maria T. Construindo o Brasil. São Paulo: Edições Loyola, SILVA, Golbery do Couto. Conjuntura política nacional. O poder executivo e geopolítica do Brasil. Rio de Janeiro: livraria José Olimpío Editora, PIMENTEL, Maria T. Construindo o Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1977.

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