Transformações na cidade: vivências urbanas em Santo Antonio de Jesus/Ba ( )

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1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA UNEB DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS CAMPUS V PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL Edilma Oliveira Souza Quadros Transformações na cidade: vivências urbanas em Santo Antonio de Jesus/Ba ( ) Santo Antonio de Jesus Janeiro / 2009

2 2 Edilma Oliveira Souza Quadros Transformações na cidade: vivências urbanas em Santo Antonio de Jesus/Ba ( ) Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre, pelo Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local, na Universidade do Estado da Bahia. Orientador: Prof. Dr. Charles D Almeida Santana Santo Antonio de Jesus Janeiro/2009.

3 3 FICHA CATALOGRÁFICA Q1v Quadros, Edilma Oliveira Souza Transformações na cidade: vivências urbanas em Santo Antonio de Jesus: / Edilma Oliveira Souza Quadros. Santo Antonio de Jesus BA, f.: il. Orientador: Charles D Almeida Santana Dissertação (Mestrado em História Regional e Local) Universidade do Estado da Bahia, Vivências urbanas. 2. Santo Antonio de Jesus. 3. Urbanização. I. Santana, Charles D Almeida. II. Universidade do Estado da Bahia. III. Título.

4 4 Edilma Oliveira Souza Quadros Transformações na cidade: vivências urbanas em Santo Antonio de Jesus/Ba ( ) Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre, pelo Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local, na Universidade do Estado da Bahia. Banca Examinadora: Profº. Drº. Charles D Almeida Santana (UNEB) Orientador Profº. Drº. Daniel Francisco dos Santos (UNEB) Examinador Profº. Drº. Rinaldo César Nascimento Leite (UEFS) Examinador Janeiro / 2009.

5 Aos meus pais, Cornélio Maurício de Souza e Maria Macária de Oliveira 5

6 6 AGRADECIMENTOS: A realização desse trabalho tornou-se possível graças à participação de pessoas que se colocaram à disposição em diversos momentos, seja ao emprestar seus ouvidos para escutar as angústias do percurso, sobretudo relacionadas ao tempo escasso e às longas noites de insônia, seja ao entender a ausência em ocasiões que a presença tinha um significado tão importante. Meus sinceros agradecimentos são para todos que, de alguma forma, deram a sua contribuição. Especialmente, quero manifestar minha profunda gratidão aqueles que acompanharam mais diretamente os caminhos percorridos até aqui. Primeiramente, devo um agradecimento especial aos meus pais, que não vacilaram ao tomar a decisão de migrar do campo para a cidade, na tentativa de viabilizar a formação escolar minha e de meus irmãos. A minha família, pelo incentivo e apoio constante, por ter compreendido os momentos de distanciamento e reclusão. Ao meu companheiro Fábio, por conseguir relevar os dias de mau humor e intermediar os pequenos conflitos que surgiram na minha relação com a tecnologia do computador. Ao meu filho Kaian, por ter tornado mais leves aqueles dias cheios de afazeres, convocando-me para brincar com ele. A meu sobrinho Kaique, que sempre me divertia com a doçura da sua voz ao telefone, fazendo-me esquecer, momentaneamente, as angústias. Aos meus irmãos Edinélia, Edinaldo, Edilson e Érica, minhas cunhadas Adriana e Cristiane pela preocupação em oferecer conforto em situações não tão cômodas. A Edinaldo e Edinélia, com quem compartilhei minhas reflexões, meu agradecimento especial, pelo apoio incondicional, inclusive por encontrar, dentro dos seus dias corridos, tempo pra ler os meus escritos e propor sugestões valiosas. Ao professor Charles Santana, a quem sou profundamente grata, por não ter desistido de me incentivar na pesquisa desde os tempos da graduação, pela ampla contribuição intelectual e por ter me orientado, pacientemente, em cada fase desse processo.

7 7 Ao professor Rinaldo Leite e Daniel Francisco dos Santos, pelas enormes contribuições prestadas quando do exame de qualificação e por aceitarem o convite para participar da banca examinadora deste trabalho. A este último, agradeço ainda pela presença na minha trajetória acadêmica, desde a graduação. A todos os depoentes que, gentilmente, aceitaram re-visitar suas memórias ao abrir seus arquivos pessoais, oferecendo-me as fotografias, os jornais e a relatar suas experiências de vida. A todos os bibliotecários, arquivistas e demais funcionários das instituições visitadas, que facilitaram o meu acesso aos documentos utilizados nesta pesquisa. Pela dedicação e disponibilidade, referencio o Sr. Augusto, no arquivo Público Municipal de Santo Antonio de Jesus e Nice, na biblioteca e arquivo da COELBA de Salvador. Aos amigos Lucas Virgolino, que oportunizou as minhas visitas à COELBA e a Tau Tourinho por ceder fotografias do seu arquivo particular. Aos colegas do Curso que, muitas vezes, ajudaram a suavizar as dificuldades. Aos colegas de trabalho, do Colégio da Polícia Militar João Florêncio Gomes, que se multiplicaram para não me sobrecarregar de atividades, deixandome mais livre para a pesquisa. Ao Major Maurício e a Célia Marina pela leitura e correção da escrita.

8 8 Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado (Ítalo Calvino)

9 9 RESUMO O tema abordado neste estudo é a constituição das vivências que permearam o cotidiano dos moradores da cidade de Santo Antonio de Jesus, nas décadas de , momento em que a cidade dava os primeiros passos em um processo de urbanização marcado sobretudo pela modernização do seu espaço. Para tanto, utilizamos como fontes: depoimentos orais, jornais, fotografias, documentos oficiais do Legislativo e Executivo, processos trabalhistas, entre outras. Discute-se a coexistência dos costumes rurais e citadinos e as novas formas de viver em Santo Antonio de Jesus, configuradas pelos seus moradores, concomitantemente às transformações processadas, num contexto em que os sujeitos forjaram estratégias de sobrevivência nas suas práticas cotidianas e se envolveram numa multiplicidade de negociações e tensões para manter-se na urbe. A partir do diálogo com a historiografia recente sobre cidade e respaldado nos postulados teóricos da história social e cultural, destaca-se o advento da energia elétrica em Santo Antonio de Jesus e evidenciam-se alterações experimentadas pelos moradores nos espaços públicos e privados, assinalando a sua participação nas atividades ligadas ao lazer. Ao mesmo tempo, analisa-se os desdobramentos da utilização da eletricidade na vida material e também nas práticas e hábitos sociais, sem perder de vista a integração de tais aspectos a outras conjunturas vividas pela sociedade brasileira no período. PALAVRAS-CHAVE: Vivências urbanas Santo Antonio de Jesus Urbanização

10 10 ABSTRACT The theme addressed in this study is the constitution of that permeated the daily experiences of the residents of the city of Santo Antonio de Jesus, in the decades from , when the city gave the first steps in a process of urbanization marked mainly by the modernization of your space. For both, we use as oral sources, newspapers, photographs, official documents of the Legislative and Executive, labor processes, among others. It discusses the coexistence of rural and city habits and new ways of living in Santo Antonio de Jesus, set by its residents, to change processed concurrently, in a context in which the subjects forged strategies for survival in their daily practices and engaged in a multiplicity of negotiations and to keep tensions in the city. From the dialogue with the recent historiography on city and backed the theoretical postulates of social and cultural history, there is the advent of electricity in Santo Antonio de Jesus showed up and changes experienced by residents in public and private, noting the their participation in activities related to leisure. At the same time, it examines the ramifications of the use of electricity in the material life and social habits and practices, without losing sight of the integration to other aspects of such situations experienced by Brazilian society in the period. KEY WORDS: Urban experiences - San Antonio de Jesus - Urbanization

11 11 ÍNDICE DE FIGURAS: Figura 1 Esquema Geral da Estrada de Ferro de Nazaré, Figura 2 - Localização de Santo Antonio de Jesus e cidades vizinhas Figura 3 - Feira de Santo Antonio de Jesus, Figura 4 - Croqui de Santo Antonio de Jesus, anos Figura 5 - Aspecto da Rua de Cima nos anos 1940, atual Rua Ruy Barbosa...48 Figura 6 - A Igreja Matriz em construção...56 Figura 7 - Travessa Rio Branco, atual Travessa15 de novembro Figura 8 Sessão no Cine Rex Figura 9 - Sede da Rádio Clube/ Sociedade Palmeirópolis...134

12 12 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS: ACMSAJ Arquivo da Câmara Municipal de Santo Antonio de Jesus ALB Academia de Letras da Bahia AP Arquivo particular APMSAJ Arquivo Público Municipal de Santo Antonio de Jesus BNB Banco do Nordeste do Brasil S/A BPEB Biblioteca Pública do Estado da Bahia CHESF - Companhia Hidroelétrica de São Francisco CLT Consolidação das Leis do Trabalho COELBA Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia CPE - Comissão de Planejamento Econômico EMBASA Empresa Baiana de Águas e Saneamento IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística RFFSA Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima SEI Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia SSVP Sociedade São Vicente de Paulo SUDENE Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste UFBA Universidade Federal da Bahia UNEB Universidade do Estado da Bahia

13 13 SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS CAPÍTULO I: DIMENSÕES DO CAMPO E DA CIDADE Leituras da cidade Reformas urbanas Redefinindo espaços e costumes Cenários urbanos e costumes rurais CAPÍTULO II: SOBREVIVÊNCIAS, TENSÕES E SOCIABILIDADES NA URBE SANTOANTONIENSE Estratégias de sobrevivência urbana Práticas de solidariedade e caridade no cotidiano santoantoniense Tensões no espaço urbano CAPÍTULO III: ESPAÇOS DE LAZER A rua espaço de encontros e festas A casa Outros espaços CONSIDERAÇÕES FINAIS FONTES E REFERÊNCIAS

14 14 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A problemática da urbanização e seus corolários sociais se apresenta como uma das mais importantes questões das sociedades contemporâneas. No Brasil, o século XX assinala a transição de uma sociedade com população rural para uma sociedade cada vez mais urbana, como um fenômeno que marcaria de forma iniludível múltiplos aspectos da vida social. O processo de urbanização vivenciado na Bahia, a partir de meados do século XX, relaciona-se em grande medida com as iniciativas de investimentos no setor industrial observadas, sobretudo, desde a década de Em sua fase inicial, o processo de industrialização na Bahia esteve permeado pela influência e disputa de, sobretudo, dois projetos de desenvolvimento econômico. Enquanto a política do governo Vargas prosseguia seu intento nacionalista, outros setores desejavam a internacionalização do capital brasileiro. É nessa conjuntura, que algumas iniciativas são tomadas, com vistas a dotar o Recôncavo de uma infra-estrutura capaz de permitir a instalação dos futuros centros industriais: rodovias foram construídas e pavimentadas, empresas públicas de eletricidade e telefonia, como também um Banco de Fomento foram criados. Igualmente foram feitos investimentos em educação e saúde; iniciou-se a implantação de indústrias em Aratu e acordos foram firmados para obras com a Petrobrás; observou-se ainda a criação da CPE - Comissão de Planejamento Econômico e a elaboração de um plano de diretrizes econômicas para o estado. Foi, também, nessa década que a Usina de Paulo Afonso entrou em funcionamento para gerar a energia elétrica que viabilizaria tal projeto de desenvolvimento. Na década de 1950, ocorreu a construção da Refinaria Landulfo Alves. Já nos anos 1960, no governo Lomanto Júnior, foi instalado o Centro Industrial de Aratu. Nesse período, foram implementados vários centros industriais em municípios do interior da Bahia, culminando com a implantação do pólo petroquímico de Camaçari, no final dos anos Esse processo de industrialização foi acompanhado pelo êxodo rural e pelo crescimento acelerado da população urbana, tendo como desdobramento o fenômeno da favelização, a ocupação desordenada do espaço urbano e o surgimento de muitas demandas sociais.

15 15 Por força do surgimento de um complexo conjunto de desdobramentos das transformações urbanas por que passou a capital do estado, ampliou-se o interesse pela questão urbana, desde os anos Geógrafos, cientistas sociais e historiadores passaram a analisar o fenômeno da urbanização nos mais variados ângulos. Os estudos, em grande parte, estiveram fortemente referendados pela idéia de urbanidade da época, em que a cidade aparecia constantemente associada à idéia de progresso, modernização, contrastando com o campo geralmente analisado em termos de atraso, conservadorismo e ignorância. Nesse caso, a partir de uma visão dicotômica, aqueles trabalhos não atentaram para a existência de relações de complementaridade e interdependência que se estabelecem entre o campo e a cidade. Thales de Azevedo e Rômulo Almeida, aqui na Bahia, podem ser incluídos no universo de algumas dessas teses sociológicas dos anos 1950 e À época, cristalizaram-se e generalizaram-se imagens e atitudes sobre o campo e a cidade como realidades separadas e contrastantes, vinculando o campo como o lugar onde se constituem modos de viver ligados à natureza, com uma economia doméstica, formas simples de organização social, lugar de tranqüilidade, mas também de ignorância e atraso; e a cidade, como o lugar das realizações, do saber, da produção, da comunicação, do fortalecimento da política e da administração, como também o lugar da multidão e do barulho. Tais idéias nos intrigam e nos conduzem a outras possibilidades de análises, ao menos no sentido de reexaminar essa divisão e essa oposição e refletir sobre campos e cidades como fatos sociais e como paisagens fortemente imbricadas, ou como dimensões de uma mesma realidade. A cidade e o campo constituem realidades dinâmicas que se relacionam e estão em constante transformação. 1 As distâncias entre o campo e a cidade encurtaram-se muito, a partir da segunda metade do século XX. As trilhas foram substituídas pelas estradas de rodagens e a velocidade do automóvel suplantou as tropas de homens, carroças e animais. A abertura e o beneficiamento de ruas e avenidas, as escolas, os cinemas, telefones e mercados modernizaram as cidades. Entretanto, os benefícios do desenvolvimento econômico, que fomentou essa modernização urbana, deixaram de fora uma grande parte da população. Nesse contexto, ampliou-se a expropriação no 1 KHOURY, Iara Aun. Apresentação. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da Pontifica Universidade Católica de São Paulo, nº 18, Educ, São Paulo, 1999, p 9-11.

16 16 campo e na cidade, como também se desencadeou um processo de reconstrução de identidades e costumes no Recôncavo Baiano. Localizado em torno da Baía de Todos os Santos e compreendendo uma das mais antigas áreas de ocupação do território brasileiro, o Recôncavo Baiano, desde o período colonial, teve sua formação histórica fortemente influenciada pelo desenvolvimento de atividades econômicas, destinadas aos mercados externos (como o açúcar e o fumo) e ao abastecimento da cidade de Salvador, sobretudo a partir da produção de gêneros de subsistência. Era a economia do Recôncavo, com a produção de açúcar, farinha e tabaco, entre outros produtos, que sustentava o comércio de Salvador. Assim, qualquer problema que atingisse a região, como secas e enchentes, provocava dificuldades para a população da capital. Pode-se afirmar, ainda, que essa região sempre foi determinada por relacionamentos com o exterior, quase sempre processados através de Salvador. 2 No final do século XIX, a partir dos cenários inaugurados pela abolição da escravidão e pela proclamação da República, começava a surgir uma visão pessimista em relação à economia da Bahia. Naquele contexto, as elites baianas sofreram duros golpes com as mudanças políticas e econômicas processadas que abalaram profundamente a então frágil economia regional, com seus graves problemas internos e externos. Diante disso, o Recôncavo perdeu progressivamente sua antiga importância econômica e política, passando a ocupar uma posição marginal nos processos que então marcariam a vida nacional. 3 Os efeitos desse quadro desanimador começavam a se fazer sentir no clima de pessimismo que tomou conta das narrativas da intelectualidade baiana, através de projeções saudosistas e tomando como referencial o desenvolvimento econômico do Sudeste brasileiro. Esse olhar nostálgico levou um grupo de intelectuais, políticos e setores da imprensa baiana a fomentar um acalorado debate em torno do quadro de retrocesso com que avaliavam a posição da Bahia e do Recôncavo, buscando compreender o porquê da não industrialização do Estado. Dessa forma, tentava-se desvendar o enigma baiano para poder superá-lo. 4 2 PEDRÃO, Fernando. Novos e velhos elementos da Formação social do Recôncavo da Bahia de Todos os Santos, Salvador, 2001, Mimeografado, p 1. 3 BRANDÂO, Maria de A. Introdução. In: BRANDÃO, M. de Azevedo (org.). Recôncavo da Bahia: sociedade e economia em transição. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; ALB; UFBA, 1998, p Em síntese, o enigma baiano consistia na não industrialização da Bahia, ou melhor, no porquê dessa não industrialização. ALBAN, Marcus. O novo enigma baiano, a questão urbana-regional e a

17 17 Representando um território em constante transformação, plural e complexo, com uma multiplicidade de histórias e agentes econômicos e sociais, 5 o Recôncavo contrasta com as demais regiões por possuir identidade cultural única no Estado da Bahia. Para Milton Santos, o Recôncavo também constitui um complexo regional, cuja unidade provinha das relações mantidas de longa data entre suas várias porções com vocações e atividades diferentes, 6 coordenados pela cidade de Salvador. A diversidade identificada na região possibilita-nos pensar o Recôncavo como um grande conjunto composto por porções diferenciadas, que, apesar de se integrarem, dão-lhe um caráter multifacetado em que podem ser encontrados pequenos recôncavos : o canavieiro, o fumageiro, o mandioqueiro e da subsistência, o da pesca, o ceramista. 7 Em uma dessas porções, hoje denominada de Recôncavo Sul, está localizado o município de Santo Antonio de Jesus, uma das mais tradicionais áreas de ocupação e colonização do território brasileiro, fora das tradicionais áreas açucareiras que teve sua formação histórica marcada pela presença de uma economia de subsistência, além da produção de alimentos e materiais de construção que abasteciam a cidade de Salvador. Já em meados do século XX, a micro-região constituía um mosaico de subáreas compostas por diferentes atividades que, além da subsistência dos produtores, eram responsáveis pelo abastecimento das feiras locais, ajudavam a prover a cidade de Salvador e até mesmo mantinham relações com mercados externos, através de pequenas exportações de artigos como fumo, açúcar, café, minérios, madeira, cacau, couro, etc. 8 Ao estudar a evolução da sua rede de cidades, na década de 1950, Santos assinala que o Recôncavo é uma região de vida urbana notável e ao mesmo tempo alternativa de uma nova capital. Anais do XI Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós- Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional ANPUR, Salvador, maio de MACHADO, Gustavo Bittencourt & SANTOS, Valdir J. dos. Desenvolvimento Regional e Arranjos Produtivos no Recôncavo. Bahia Análise & Dados, Salvador: SEI, v.14, nº. 3, p , dezembro de 2004, p 1. 6 SANTOS, Milton. A Rede Urbana do Recôncavo. In: BRANDÃO, M. de Azevedo (org.). Recôncavo da Bahia: sociedade e economia em transição. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; ALB; UFBA, 1998, pp OLIVEIRA, Ana M. dos Santos. Recôncavo Sul: terra, homens, economia e poder no século XIX. Dissertação de Mestrado em História, UFBA, Salvador, 2000, p SOUZA, Edinaldo A. O.. Lei e Costume: Experiências de Trabalhadores na Justiça do Trabalho ( Recôncavo Sul, Bahia, ). Dissertação de Mestrado em História UFBA, Salvador, 2008, p 45.

18 18 onde as densidades rurais atingem índices bem elevados, os mais altos do estado. 9 O geógrafo identifica uma fase de grandes modificações na hierarquia dos núcleos urbanos da região, cujos agentes das mudanças seriam, a superposição de uma rede de estradas de rodagem aos antigos caminhos e ferrovias; a complementação de uma verdadeira rede de estradas de ferro; o agravamento da decadência das lavouras de fumo e cana-de-açúcar e o crescimento da cidade de Salvador, acompanhado da elevação dos seus padrões de vida, exigindo um abastecimento mais numeroso e animando o desenvolvimento de novas regiões de produção alimentar. 10 Percebe-se que o processo de urbanização nos municípios do Recôncavo estava diretamente ligado à evolução dos meios de transporte na região. Com o aparecimento de políticas de infra-estrutura e de modernização, iniciadas desde o período do Estado Novo, modificaram-se os papéis de cidades tradicionais como Cachoeira, que deixou de ser a única porta de entrada para o Sertão, através do vale do Rio Paraguaçu, cedendo lugar a Santo Antonio de Jesus, onde iniciou o plano de transporte rodoviário. 11 Costa Pinto observa que a introdução do transporte rodoviário, na segunda metade do século XX, promoveu alterações significativas na hierarquia das redes de cidades do Recôncavo, afirmando ainda que a ferrovia foi uma das inovações tecnológicas relativamente recentes, que determinaram fundas alterações nos padrões tradicionais e depois a rodovia e o caminhão promoveram mudanças ainda mais profundas. 12 O crescimento urbano verificado na espacialidade recôncava desenha-se a partir do entrecruzamento de sua história com o desenvolvimento dos sistemas de comunicação e transporte ferroviário e, posteriormente, rodoviário. Desde o final do século XIX, havia a presença de uma estação de linha férrea, que ligava Santo Antonio de Jesus à cidade de Nazaré e depois a São Roque do Paraguaçu, dando acesso à capital. Com a ligação dessa ferrovia a Santo Antonio de Jesus, 9 SANTOS, Milton. A Rede Urbana do Recôncavo. In: BRANDÃO, M. de Azevedo (org.). Recôncavo da Bahia: sociedade e economia em transição. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; ALB; UFBA, 1998, pp Idem, op. cit., pp PEDRÃO, Fernando. Op. cit, p COSTA PINTO, L. A. Recôncavo: Laboratório de uma Experiência Humana. In: BRANDÃO, M. de Azevedo (org.). Recôncavo da Bahia: sociedade e economia em transição. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; ALB; UFBA, 1998, pp

19 19 abre-se, festivamente, em data de 7 de setembro de 1880, o tráfego definitivo de Nazaré a Santo Antonio de Jesus, da Tram-Road, depois denominada, Estrada de Ferro de Nazaré, cujos trilhos foram prolongados até alcançarem a cidade de Jequié. 13 Com a Tram-Road, o município passou a integrar uma expressiva rede de comércio e de passageiros, fora da área de influência da Estrada de Ferro Central da Bahia, 14 o que o tornava um importante centro de convergência e circulação de pessoas, com vistas a atender às mais diversas necessidades, como o escoamento do café, fumo, açúcar e farinha de mandioca, cereais, madeiras e do minério de manganês. 15 Durante os dez anos que Santo Antonio de Jesus foi ponta de trilhos, a estrada trouxe prosperidade para o município, que em pouco tempo tornou-se um dos principais centros comerciais da redondeza. 16 Jequié não diminuiu substantivamente sua importância regional. Contudo, sua ampliação, até O esquema a seguir apresenta o traçado da Estrada de Ferro de Nazaré que permitia a ligação da cidade de Santo Antonio de Jesus à capital, através da Baía de Todos os Santos. 13 Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, 2 de julho de Rio de Janeiro, XXI volume. 14 A Estrada de Ferro Central da Bahia partia da borda do Recôncavo desde Cachoeira e São Félix, para o interior da província, em direção à Feira de Santana e à Chapada Diamantina. Seu traçado obedeceu à lógica locacional de conectar o interior da província da Bahia, através dos portos fluviais do Recôncavo, com a capital, Salvador. A estrada de ferro deveria se apoiar na rede das estradas gerais e caminhos de tropa do sertão. ZORZO, F. A.. O Movimento de Tráfego da Estrada de Ferro Central da Bahia e seu Impacto Comercial. Sitientibus, v. 1, p , SIMÕES, Lindinalva. As estradas de ferro do Recôncavo. Dissertação de Mestrado. Salvador-Ba. Bahia: UFBA, 1970, p ALVES, Isaías de Almeida. Matas do Sertão de Baixo. Bahia: Reper, 1967, pp. 171 e 233.

20 20 Figura I: Esquema Geral da ex-estrada de Ferro de Nazaré, Fonte: RFFSA. 4ª Divisão Leste. É uma imagem que provoca lembranças. Sr. Manoel Oliveira, nascido em Santo Antonio de Jesus em 1931, viveu por longa data em Salvador. Há oito anos voltou a morar na terra natal e ao ser entrevistado rememorou um tempo em que viajar de trem era o único meio de chegar à capital, saindo da estação de Santo Antonio até Nazaré: Antigamente a gente ia pra Salvador no trem né, não tinha navio até Nazaré. No dia que fui pra Salvador eu fui de trem, ainda não tinha ônibus não... todo mundo andava de trem, não tinha outro transporte [...] Era uma viagem muito demorada naquela época [...] Antigamente só vinha até Nazaré o trem, aí pegava o navio [...] mas quando o mar secava o navio encostava na areia, aí ficava atracado. Agora, quando o mar enchia é que ele saía pra Salvador. Então, era uma viagem muito demorada, naquela época. Era pra mais de seiscentos saveiros ali. Carregava mercadoria pra Salvador era

21 21 através dos Saveiros. 17 Depois que inventaram assim essa história que vai até São Roque do Paraguaçu. 18 Naqueles tempos, a aventura de ir pra Bahia, realizada por Sr. Manoel e tantas outras pessoas, envolvia um percurso de 34 Km de trem, indo de Santo Antonio de Jesus até Nazaré, e, a partir daí, uma longa viagem de saveiro até Salvador. Era uma viagem demorada, pois além da baixa velocidade do trem, devido às linhas irregulares e sinuosas, havia a necessidade de contar com a ajuda das marés para seguir viagem pelo mar. Só em 1941 a Estrada de Ferro de Nazaré alcançou São Roque do Paraguaçu e Nazaré deixou de ser o ponto final da ferrovia. Esse prolongamento até São Roque do Paraguaçu foi um acontecimento que levantou muitas dúvidas, quanto ao acerto da medida, pois os opositores a essa decisão mostravam que Nazaré seria grandemente prejudicada, e não traria nenhuma contribuição para o progresso da ferrovia, nem maior conforto para os passageiros, que continuariam tendo de tomar o navio no terminal para alcançar Salvador. Em seguida, o tempo veio demonstrar o acerto dos que se colocaram contra o prolongamento, na medida em que a cidade sofreu forte abalo em suas atividades. 19 A partir daí, o percurso do trem aumentou e ficou mais curta a travessia de saveiro que cruzava a Baía de Todos os Santos. É também nessa década que o transporte rodoviário passa a ser outra opção para os santoantonienses, nos deslocamentos para Salvador. Logo, a rapidez do transporte rodoviário e a falta de manutenção da ferrovia provocaram o abandono e a decadência dessa Estrada de Ferro, extinta em 1971, quando não só Nazaré, mas toda a região servida pela Estrada recebeu, impassível, o golpe fatal. 20 Anunciados nos discursos e projetos da política nacionaldesenvolvimentista, o planejamento econômico e seus ideais de progresso, desenvolvimento e modernização se materializavam no Recôncavo, em meados do século XX. Relacionavam-se, sobretudo, ao processo de implementação da indústria 17 Sobre os Saveiros da Bahia, ver CASTELLUCCI, Wellington J.. Pescadores da Modernagem: Cultura, Trabalho e Memória em Tairu, Bahia , 1ª Ed. São Paulo: AnnaBlume, v. 1, Depoimento do Sr. Manoel Oliveira, em agosto de 2007, 76 anos de idade, nascido em Santo Antonio de Jesus. 19 AUGUSTO, Lamartine. Porta do Sertão. 2ª ed. Salvador: Edições Kouraça, Idem

22 22 petrolífera, da construção das rodovias, além de outras realizações financiadas por instituições estatais como a SUDENE e o BNB. 21 No final dos anos 1940, o clima de expectativa criado pela iniciativa estatal e pela mobilização social em prol das atividades petrolíferas no Recôncavo, a chegada da energia elétrica viabilizada pela construção da Companhia Hidroelétrica de São Francisco (CHESF), somados aos efeitos da política desenvolvimentista, como a ampliação da malha ferroviária e a progressiva abertura de rodovias, foram acompanhados com grande euforia pela imprensa e pela intelectualidade baianas, contrastando com o pessimismo até então predominante. Os novos ares de progresso e modernização, inaugurados com a descoberta do petróleo na Bahia, mostram que os anos 1950 ficaram marcados por fazer ceder a visão pessimista apresentada anteriormente. No Recôncavo Sul, esses novos ares foram sentidos com a ampliação do uso do automóvel e dos transportes rodoviários. De uma forma particular, com dinâmica própria, a região experimentava a sua inserção nos ideais de modernização largamente propagados pelas elites política e econômica nacionais. Com a implementação do sistema de transporte rodoviário, a partir dos anos 1940, configuraram-se novos circuitos comerciais e de comunicações - processo que favoreceu Santo Antonio de Jesus pela sua localização geográfica e sua posição estratégica na malha rodoviária construída. Com a ampliação da oferta de serviços urbanos, a partir dos anos 1950, alcançou um relevante crescimento urbano. Aos poucos a cidade tornou-se pólo de atração comercial e de serviços, ampliando significativamente sua população, com uma forte presença de migrantes do campo, de toda a micro-região, que influenciaram nos modos de viver urbano da Capela do Padre Matheus, como é também conhecida. 22 A cidade experimentou um significativo processo de urbanização. Já nos anos 1970, o crescente dinamismo urbano 23 e a localização privilegiada, margeada pela BR 101 e pela BA 028, que dá acesso ao sistema ferry boat - responsável pela travessia de passageiros, veículos e mercadorias a bordo de navios, de Itaparica para Salvador - dimensionaram o poder 21 MATTOSO, Kátia de Queiroz. Prefácio. In: BRANDÃO, M. de Azevedo (org.). Recôncavo da Bahia: sociedade e economia em transição. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; ALB; UFBA, 1998, p Ver QUEIROZ, Fernando P.. A capela do Padre Matheus. Feira de Santana: Sagra, Sobre a dinâmica urbana de Santo Antonio de Jesus ver SANTOS, Miguel C. dos. O Dinamismo Urbano e suas implicações regionais: o exemplo de Santo Antonio de Jesus, Ba. Salvador. Editora UNEB, 2002.

23 23 de atração que Santo Antonio de Jesus exerceu/exerce sobre os habitantes dos municípios vizinhos. A este respeito, visualizemos o mapa abaixo: D. M Costa Figura II: Localização de Santo Antonio de Jesus e cidades vizinhas Fonte: A centralidade de Santo Antonio de Jesus mostra-se melhor evidenciada na imagem. A rodovia construída acompanhando o leito da antiga ferrovia, entre Nazaré e Varzedo cruza a BR 101, justamente na cidade. Para lá passam a convergir as atenções de uma vasta quantidade de municípios. Ao mesmo tempo, algumas iniciativas começaram a ganhar vulto, sobretudo implementadas pelo poder público local, visando criar um aspecto mais urbano, mais afinado com as representações das metrópoles modernas. Em geral, as reformas, então adotadas, sintonizadas com os discursos e ideais desenvolvimentistas, não consideravam o antigo como algo que devesse ser conservado. Assim, o velho passava a ser substituído pelo novo de uma forma agressiva, representando um processo de destruição criativa, segundo o qual, acreditava-se que seria necessário destruir o existente para a

24 24 construção de um novo mundo. 24 Ao longo do século passado, muitas cidades brasileiras vivenciaram efetivamente essa perspectiva da experiência civilizadora, como ação destruidora, em que ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete (...) autotransformação e transformação das coisas em redor mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. 25 Ainda que em Santo Antonio de Jesus esse espírito de modernidade possa ter motivado alguns projetos do poder público local, a cidade carregava sua própria temporalidade. De um modo geral, seus moradores possivelmente pouco se identificaram com esse ambiente promissor de mudança, além do que nem todos estavam dispostos a destruir tudo o que tinham, sabiam e eram, ou pretendiam romper com os seus costumes de uma maneira tão abrupta. Embora faça referência a outro período e outro local, Rinaldo Leite, ao analisar o processo de modernização da cidade de Salvador, no contexto compreendido entre 1912 e 1916, assinala que o processo de modernização das cidades renegava todo e qualquer legado arquitetônico e cultural do passado que pudesse representar um elemento de atraso. As noções de modernidade e de atraso quase sempre tiveram como referência as idealizações elaboradas por segmentos das elites urbanas, caracterizando, assim, a sua tendência demolidora, destruidora de tudo que fosse tomado por velho, ou associado ao antigo. 26 Pode-se observar que o cenário urbano de Santo Antonio de Jesus, particularmente na década de 1950, também passou por significativas remodelações no contexto do seu processo de urbanização, buscando substituir o que era tido como antigo pelos símbolos do moderno. Assim, a velha igreja cedia lugar à nova Matriz, a feira e o velho Mercado seriam afastados das áreas centrais. A energia elétrica, símbolo marcante da urbanização, que durante longas décadas fora apenas um sonho acalentado pela população, tornava-se um assunto de primeira hora. Desde a década de 1930, O Palládio, periódico local que circulou durante cinqüenta anos, já dedicava algumas notas ao assunto. Mas foi, sobretudo a partir das décadas de 1940 e 1950, com a construção da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF) e o início das obras de eletrificação urbana no Recôncavo, que a 24 HARVEY David, Condição pós-moderna. Edições Loyola, São Paulo, 1992, p BERMAN Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo, Companhia das Letras,1986, p LEITE, Rinaldo Cesar Nascimento. E a Bahia civiliza-se. Dissertação de Mestrado em História, UFBA, Salvador, 1996, 14.

25 25 falta da eletricidade e os limites que ela impunha à vida urbana tornaram-se temas recorrentes, tanto na imprensa como nos discursos dos políticos santoantonienses. 27 Criada em 1945 e constituída em 1948, com a missão de produzir, transmitir e comercializar energia elétrica para a Região Nordeste, a CHESF possibilitou a extensão do serviço para todo o Estado da Bahia, através de um programa de eletrificação, que não se deu ao mesmo tempo para todo o estado, 28 o que em Santo Antonio de Jesus só veio a se concretizar na década de Além da energia elétrica, outra inovação freqüentemente cobrada pela imprensa local era o melhoramento do sistema de abastecimento de água encanada. As antigas fontes e a compra de água nas mãos dos aguadeiros tornavam-se incompatíveis com os propósitos da modernização urbana. O novo modelo de cidade deveria oferecer a seus moradores certo conforto, o que destoava das caminhadas com as latas de água na cabeça. Afinal as idéias de civilidade estavam associadas a imagens de cidades bem iluminadas e higienizadas. Outro aspecto importante da urbanização é a extensão dos espaços de atuação da mulher. Atividades predominantemente femininas, desde o século XIX, como as de ganhadeiras e vendedoras, são ampliadas em Santo Antonio de Jesus, nos anos 1950, não obstante as resistências que aquelas mulheres encontravam no mercado de trabalho. Nas barracas das feiras elas vendiam flores, mingau de milho, de tapioca ou carimã, entre outros produtos ; 29 nos armazéns, realizavam o trabalho da destalagem do fumo, abrindo e separando as folhas que chegavam amontoadas em grandes fardos. Essa era uma função não muito bem aceita pelos maridos, devido a grande presença masculina no ambiente do armazém, o que gerava certo preconceito quanto àquele local de trabalho ser adequado ou não para as mulheres. 30 As funções de professora, costureira e bordadeira, também comumente femininas de longa data, expandiram-se na cidade, durante o período. Nas escolas predominava a presença feminina, onde se exercia quase que exclusivamente a função de ensinar às crianças e adultos a ler e escrever. Algumas davam aula de corte, costura e bordados em suas próprias residências. Havia uma preocupação de 27 Inúmeras matérias referentes a esse assunto podem ser encontradas no Jornal O Palládio, especialmente nos exemplares nº. 2068, nº e o nº NASCIMENTO, Luiz Fernando Motta, Paulo Afonso: luz e força movendo o nordeste, Salvador: EGBA/ACHÉ, 1998, p Depoimento de José Santos Vieira, de 67 anos idade, em maio de ASSIS, Cristina da Anunciação da Silva. Os trabalhadores dos armazéns de fumo. Monografia do Curso de Especialização em História Regional, UNEB, CAMPUS V, fevereiro/2004.

26 26 ensinar as prendas domésticas, tidas como importantes requisitos para as moças que pretendiam se casar. Os anúncios podiam ser vistos nos jornais O Palládio 31 e A Voz das Palmeiras. 32 Essas tarefas eram mais aceitáveis pelos maridos e pela sociedade em geral, pois além de tratar de atribuições consideradas femininas, aconteciam em ambientes familiares e algumas vezes em pequenas escolas. A investigação das experiências urbanas de Santo Antonio de Jesus aponta nuances que por si só justificariam o tema. Entretanto, esse estudo insere-se entre as iniciativas historiográficas que atualmente esforçam-se em compreender/analisar as complexidades inerentes ao processo de urbanização em cidades de porte médio do interior do Brasil ao longo do século XX, bem como as interações e inter-relações entre as práticas sociais urbanas e rurais que permearam tal experiência. Refletir sobre esse cenário urbano, os sentidos e significados atribuídos pelos diferentes sujeitos sociais da cidade de Santo Antonio de Jesus, é também redimensionar experiências minhas da infância e adolescência, onde se cruzam vivências rurais e urbanas, particularmente a partir da migração do campo para esta cidade nos anos 1980, a fim de continuar os estudos. As lembranças do cheiro de cabelo queimado pelas chamas do candeeiro a querosene e do longo percurso a pé ou a cavalo para ir à cidade imbricam-se com outras que vivenciei, quando junto com minha mãe e meus irmãos, fomos morar na cidade em busca de trabalho e escola. Naquele momento não foi fácil deixar o campo e aceitar a cidade com o seu ritmo acelerado. Mas, a adaptação não tardou. Logo fui atraída pelas luzes que permitiam brincar na rua até tarde da noite, a bicicleta que fascinava pela capacidade de locomoção, a proximidade da escola, da igreja, do consultório médico, a manutenção das relações de vizinhança, a televisão que nos nossos primeiros dias de vida urbana apresentou-se como um sonho que enfim, virava realidade. Minhas memórias ainda trazem à tona aventuras vividas nos caminhos da roça para conhecer o mundo mostrado pela televisão. Um episódio vivido quando eu e meus irmãos éramos crianças marcaria as nossas experiências de vida longe da cidade. Nos anos 1970, morávamos em um sítio na zona rural do município de Dom Macedo Costa, vizinho de Santo Antonio de Jesus. Mas, se na cidade a energia elétrica havia chegado, naquela localidade a única iluminação existente era a dos 31 Jornal O Palládio, Santo Antonio de Jesus, 9 abril de 1947, p Jornal A Voz das Palmeiras, Santo Antonio de Jesus, março de 1954, p 2.

27 27 lampiões e candeeiros. Possuir geladeira e televisão em casa era um luxo. Nós tínhamos uma geladeira que funcionava a gás, pois o meu pai era dono de venda e precisava oferecer cerveja e refrigerante gelados para os seus fregueses. Era um domingo de carnaval. Os moradores ouviam no rádio, ou através de pessoas que chegavam da capital, histórias e anúncios das atrações da grande festa. A curiosidade era inevitável, e como não havia possibilidade de participar do carnaval, podia-se satisfazê-la assistindo às atrações pela TV. Foi assim que minha mãe tomou a iniciativa, juntamente com sua sobrinha Marlene, de levarem a mim e meus três irmãos mais velhos, na velha jumenta da família, até a localidade do Gandu, para assistirmos o carnaval na casa de D. Eufulosina, numa televisão em preto e branco que funcionava à bateria. Lá fomos nós quatro distribuídos nos dois panacuns e na cangalha, enquanto minha mãe e minha prima iam a pé, guiando o animal. Tudo isso acontecia sem o conhecimento do meu pai que não aprovaria tal aventura. Inesperadamente, um acidente quase transforma aquele domingo de carnaval numa lembrança triste. Ao atravessar o Riacho de Água Suja, em virtude das fortes chuvas que haviam caído, a terra que sustentava uma pequena ponte de troncos de árvores cedeu e a jumenta tombou, derrubando todos nós nas águas escuras daquele riacho. O resgate foi rápido, e nós conseguimos sair a salvo, mas assustados e enlameados. Naquele estado não seria possível seguir viagem. Então, minha prima Marlene voltou em casa e pegou roupas limpas, sem que meu pai desconfiasse de nada. Tomamos novo banho e, sem nos intimidar continuamos a nossa viagem. Já na casa de D. Eufulosina, em frente à televisão, as imagens em preto e branco nos encantava e divertia, fazendo-nos acreditar que havia valido a pena a aventura que tornou aquele carnaval um momento inesquecível em nossas vidas. A experiência relatada diz do poder de sedução exercido pela televisão sobre moradores do campo, atraídos pela novidade das imagens que aproximava vivências rurais e urbanas. As limitadas oportunidades de lazer no meio rural e até mesmo nas pequenas e médias cidades faziam/fazem da TV um grande instrumento de diversão. Já morando na cidade, os modos de viver urbanos foram sendo incorporados às nossas práticas de vida, sem, contudo nos distanciar de costumes e valores experimentados no campo. Certamente trata-se do que Raymond Williams

28 28 chamou de terra de fronteira, entendendo-a como aquela terra em que muitos de nós vivemos: entre a tradição e a instrução, entre o trabalho e as idéias, entre o apego ao torrão natal e a vivência das mudanças. 33 Eis o lugar de onde falo, o ponto de referência, o lugar social, 34 a posição de partida das reflexões sobre Santo Antonio de Jesus. Entende-se, portanto, que os viveres rurais e urbanos imbricam-se, interagem e tensionam; ampliam-se e se reelaboram através dos processos da memória. Dessa forma, fazendo uso do cruzamento das memórias inscritas na oralidade, na imprensa, nos documentos oficiais, na fotografia, buscou-se desenvolver o estudo da temática das vivências urbanas em Santo Antonio de Jesus. Contudo, conforme já havia notado Rezende, verifica-se que cada cidade contém todas as cidades, percorrer sua história é encontrar-se com a multiplicidade e conviver com a sinfonia, às vezes dissonante, de todos os tempos. 35 Compreendendo a História, tal como concebida por Nora, uma reconstrução sempre problemática e incompleta, a intenção dessa pesquisa é revisitar o passado através da memória, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas sucessivas deformações, vulnerável a todo tipo de uso e manipulações. 36 Portanto, busca-se apreender modos de viver, idéias e pensamentos forjados nas experiências de vida de homens e mulheres de diferentes identidades étnicas e condições sociais, que se relacionavam e/ou se enfrentavam cotidianamente na constituição da sociedade santoantoniense, durante seu processo de urbanização entre 1950 e Para além dos aspectos apresentados nas conjunturas nacional e estadual presentes nas transformações em Santo Antonio de Jesus, o recorte justifica-se por ter sido a partir dos anos 1950 que o serviço de energia elétrica ampliou-se na cidade, estendendo-se a ruas, praças e casas, o que pode ser considerado um marco para a construção das suas vivências urbanas, fortemente influenciadas pela eletricidade. Por entender que as experiências de urbanização na cidade não têm fim, mas trata-se de um processo que continua acontecendo, elegemos os anos 33 WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p CERTEAU, Michel de. Operação historiográfica. In: A Escrita da História: Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p REZENDE, Paulo Antonio. O Recife: histórias de uma cidade. Recife: Fundação de Cultura Cidade de Recife, 2002, p NORA, Pierre. Entre memória e História: a problemática dos lugares. In: Projeto História nº 10, São Paulo, EDUSC, 1993, pp.7-28.

29 para delimitar o término desse estudo. Afinal, trata-se de uma década em que fatos importantes como a desativação da estrada de ferro, o asfaltamento da rodovia BR-101, a transferência da feira, entre outros, inauguraram uma nova fase na vida urbana santoantoniense. Como o recorte temporal desse estudo é recente, tornando possível colher depoimentos de pessoas que vivenciaram tais experiências, a memória oral foi uma grande aliada, ainda que ela nos ofereça sempre um sem número de significados. 37 Considerada como um instrumento e um objeto de poder, a memória é também um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. 38 Além disso, através do testemunho oral, novas histórias são geradas e estas, podem, literalmente, contribuir para o processo de dar voz a experiências vividas por indivíduos e grupos que foram excluídos das narrativas históricas anteriores, ou foram marginalizados. 39 Através da apreensão dos registros da memória na voz dos próprios sujeitos e do contato com suas práticas de vida, tornou-se possível surpreender pormenores que, certamente, estão na contramão dos estudos oficiais sobre vivências urbanas. A pesquisa oral, além de romper com a tradicional distância entre pesquisador e fontes, [...] permite ao historiador refletir sobre o sentido das falas, gestos e silêncios dos sujeitos entrevistados, 40 portanto, extrapola o universo das palavras, além do que o resultado final da entrevista é o produto de ambos, narrador e pesquisador. 41 As experiências sociais relatadas nos depoimentos trazem lembranças de Sr. Gregório Tavares da Silva, atualmente aposentado, que trabalhou no cultivo da terra, na criação de animais e na feira vendendo carne do sol; lembra como era acanhada a cidade quando ele chegou e como foi se modificando ao longo dos anos. José Santos Vieira trabalhou comprando carne do sol na feira de Santo Antonio para vender em Salvador, recorda as festas de largo, as micaretas, as sessões de cinema, as diversões que a cidade oferecia. Seu Gilberto Mello, artista 37 MALUF, Marina. Ruídos da Memória. São Paulo: Siciliano, 1995, p LE GOFF, Jacques.História e memória.campinas, SP: Editora UNICAMP, 1990, p THOMSON, Alistair. Recompondo a Memória: questões sobre a relação entre a história oral e as memórias. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e o Departamento de História PUC/SP, Projeto História n.º 15, SOUZA, Edinélia Mª Oliveira. Memórias e Tradições: viveres de trabalhadores rurais do município de Dom Macedo Costa Bahia ( ). Dissertação apresentada ao Mestrado em História da Pontifica Universidade Católica de São Paulo (PUC), São Paulo, 1999, p PORTELLI. Alessandro. O que faz a História Oral diferente. In: Projeto História nº 16, p. 21.

30 30 local, que viveu sua juventude em Santo Antonio de Jesus e há décadas mora em Brasília, refere-se também às atividades de lazer, à lavagem da igreja na véspera de Santo Antonio e à procissão do padroeiro que percorria as ruas principais da cidade ao som das filarmônicas locais. José Souza Sampaio rememora as brincadeiras nas ruas com a chegada e a partida do trem, as transformações trazidas com a construção das rodovias e com a chegada da energia elétrica. Antonio Santana Vieira e Manoel Oliveira recordam as relações de trabalho que se desenvolviam na cidade, sobretudo nas alfaiatarias em que trabalharam; lembram que o movimento era constante naquela época, pois não havia confecções, e se intensificava ainda mais em tempos de festas. Adelino Silvério de Assis se lembra da luta pela sobrevivência na cidade, dos percalços que passou para não voltar pra roça e se adaptar à vida urbana. Irênio Santos Pereira, mestre em marcenaria, fala das dificuldades enfrentadas pela família, de origem humilde, para viver na cidade e da sua experiência como marceneiro. Edivaldo Oliveira Souza e Tereza Leal Vita Souza denunciam a presença dos pobres na cidade e recordam as campanhas de caridade desenvolvidas pela sociedade santoantoniense. Maria Soares de Jesus rememora a dupla jornada de trabalho, nos armazéns de fumo e em casa, que ajudava a sustentar a família; fala das missas e procissões, das rezas e dos brinquedos de roda; recorda ainda as relações de solidariedade entre vizinhos. Maria da Conceição Souza Silva fala dos valores da época, das festas, quermesses, do namoro, e das mudanças nas ruas e nas casas, a partir da energia elétrica. As experiências de vida acumuladas na cidade de Santo Antonio de Jesus nas décadas de 1950 a 1970 e a disposição para relatá-las foram os principais requisitos utilizados na seleção dos depoentes. Inicialmente, contatamos pessoas que já tinham sido vistas contando seus casos na venda do meu pai. A partir daí, os próprios entrevistados indicaram nomes de contemporâneos com os quais haviam compartilhado suas histórias. Parentes e amigos, ao tomarem conhecimento da pesquisa que estava sendo desenvolvida, também participaram desse processo, sugerindo alguns nomes. Apesar de pessoas mais próximas dos entrevistados terem intermediado os encontros, momentos de insegurança, dúvidas e ansiedades acompanharam as visitas aos sujeitos. No primeiro contato ocorria apenas uma conversa informal sem fazer uso do gravador. Nos encontros seguintes, com o receio e a desconfiança já superados, as conversas passavam a ser gravadas. No local de moradia ou de trabalho das pessoas realizaram-se as conversas. Nesses

31 31 momentos, foi possível perceber segurança, confiança e certo conforto para expor suas memórias. Por vezes, evidenciou-se grande satisfação e auto-estima o fato de estar sendo ouvido por alguém, talvez em virtude do pouco tempo que é dispensado, de modo geral, aos mais velhos. O local da entrevista, a ausência de outras pessoas no ambiente e o clima de proximidade que tentou-se propiciar através da linguagem familiar, das palavras e dos gestos, foram aspectos importantes para deixar o depoente mais a vontade ao narrar suas práticas de vida. A utilização de textos memorialísticos foi de grande relevância para ajudar a compor o mosaico constituído pelas vivências urbanas de Santo Antonio de Jesus. Em produções ensaístas locais, como Matas do Sertão de Baixo, 42 o educador Isaías Alves, descendente de uma das mais tradicionais famílias do município, registrou suas memórias e impressões da infância e da mocidade, sobre o Recôncavo Sul Baiano. Descreve o processo de ocupação da região e destaca momentos memoráveis da cidade de Santo Antonio de Jesus, através da trajetória de algumas famílias. Fernando Pinto de Queiroz, advogado, professor e pesquisador, em A Capela de Padre Matheus, 43 foi em busca das origens do primeiro povoamento santoantoniense e reavivou a figura do padre fundador da Vila. Em Memórias de um Pária, 44 Eduardo de Souza Almeida, narrou sua história e registrou suas reminiscências, desde o final do século XIX, quando migrou do campo para a cidade de Santo Antonio de Jesus, onde viveu boa parte de sua vida, vindo a falecer em Embora priorizem períodos anteriores e não tratem especificamente de trabalhos sobre o viver urbano, lançaram luz sobre alguns aspectos do cotidiano urbano santoantoniense e sobre fontes documentais que contribuíram no caminhar desta pesquisa. Sobre o período pesquisado, Santo Antonio de Jesus 1965 A cidade que encontrei 45, de Geraldo Pessoa Sales, morador local e oficial reformado do Exército Brasileiro, possibilitou passear pelas antigas ruas e encontrar personagens que protagonizaram a história da cidade. Constituem, portanto, mananciais de dados e informações indispensáveis para quem se dedica a re-visitar a memória da cidade. Os jornais revelaram-se fontes de extrema importância pela riqueza de informações sobre temas diversos do cotidiano urbano, mesmo considerando que 42 ALVES, Isaias. Matas do Sertão de Baixo. Rio de Janeiro: Reper, QUEIROZ, Fernando P. A capela do Padre Matheus. Feira de Santana: Sagra, ALMEIDA, Eduardo de Souza. Memórias de um Pária. Salvador: Adipro, SALES, Geraldo Pessoa. Op. Cit.

32 32 por detrás de toda notícia está implícita uma visão de mundo que orienta o modo de produzir a notícia, de veiculá-la, de propagar idéias e valores. Ressalto, sobretudo, o semanário santoantoniense O Palládio, fundado e mantido pelo maragogipano Antonio Mendes de Araújo, tendo circulado, ininterruptamente, desde 15 de novembro de 1901 até o falecimento do seu fundador, ocorrido em 30 de maio de 1952; A Voz das palmeiras, do proprietário e diretor José Martins de Souza, circulou na cidade semanalmente, a partir de 1953; O Detetive, dirigido por Artur M. da Silva e redigido por Estevam M. Sampaio entre final dos anos 1940 e início dos anos 1950, de caráter humorístico e literário, apresentava notícias sobre a vida social e cultural da cidade. Eles nos deram a possibilidade de ler a cidade a partir dos discursos moralizadores e urbanistas que representavam os interesses das elites urbanas da época e que procuravam estabelecer os critérios para elaboração de um novo homem público. Contudo, por vezes, flagramos nesses periódicos, temas do cotidiano das camadas populares, o que sugere que a elaboração de suas pautas ultrapassava os limites do interesse das elites locais. Cenas do cotidiano das camadas populares e de outros grupos sociais também foram surpreendidas através de imagens fotográficas, que assim como textos e testemunhos orais, constituem-se numa forma importante de evidência histórica, pois, registram atos de testemunho ocular 46 que descortinam elementos da vida material da época. Sinalizaram aspectos da arquitetura, indumentária, formas de trabalho, manifestações populares e outros elementos de infra-estrutura urbana, tais como a iluminação, fornecimento de água, obras públicas, proporcionando reflexões sobre as intenções daqueles que as produziram, bem como quanto à seleção dos elementos que deviam ser mostrados e dos que deviam ser ocultados, ao dirigir o olhar para um determinado ponto que se quer deixar em evidência, obscurecendo e/ou ocultando o que, para o produtor da imagem, não é relevante ou digno de ser registrado. 47 As fontes iconográficas utilizadas nesse trabalho foram localizadas em jornais locais, em arquivos pessoais de antigos moradores - verdadeiros guardiães da memória de Santo Antonio de Jesus - e em textos de autores que também reconhecem a importância da fotografia como fonte documental privilegiada pela sua 46 BURKE, Peter. Testemunha Ocular: história e imagem. São Paulo: EDUSC, 2004, p REZENDE, Eliana Almeida de Souza. A Cidade e o Sanitarista - imagens de um percurso. In: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História, PUC- SP, 2000, p

33 33 capacidade de sobreviver e de perpetuar a memória. Em outras palavras, o momento vivido, congelado pelo registro fotográfico, é irreversível e jamais se repetirá. Por outro lado, os personagens retratados envelhecem e morrem, os cenários se modificam, se transfiguram e também desaparecem 48. Foi vasculhando caixas empoeiradas, arrumadas cuidadosamente num velho baú, em um quarto de sua casa, que Sr. Edivaldo Oliveira, depoente desse estudo, reviveu a inauguração do Cine Rex, através da cena gravada na imagem, que contém em si um inventário de informações acerca de um determinado momento passado. 49 O atelier do cineasta Tau Tourinho, também guarda uma boa parte da memória santoantoniense, pois naquele pequeno sótão de dimensão grandiosa em significado, abriga o seu arquivo particular de imagens que atravessaram os tempos e se mantiveram para contar a história da cidade. Lá encontrei um rico material fotográfico que apresenta sinais e indícios, fragmentos minúsculos de tempo e espaço 50 das vivências urbanas dos santoantonienses. Considerando que já não é mais possível se falar em uma história periférica e uma história central, ou em uma grande história e uma pequena história, o estudo sobre o espaço da cidade de Santo Antonio de Jesus, no seu processo de urbanização, não pode prescindir de uma investigação mais acurada, no tocante às implicações provocadas nos viveres citadinos, nas experiências históricas de homens e mulheres, cujas identidades são ainda freqüentemente ignoradas. Nessa perspectiva, esse estudo não tem a intenção de enquadrar a experiência de urbanização santoantoniense em modelos pré-estabelecidos, pois concordando com Certeau a tarefa do historiador nos dias de hoje é encontrar os desvios, avançar na pesquisa com maior quantidade de material para analisar profundamente para descobrir o que não é evidente, o que não é modelo KOSSOY, Boris. Fotografia e História: São Paulo, Ateliê Editorial, 2001, p Idem, op. cit. p FRAGA, E. K. C.. A Revolução Constitucionalista de 1932: Fotografia e Memória. Projeto História, Edusc, v. 21, p , CERTEAU, Michel de. Operação Historiográfica. In: A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p 86.

34 34 Partindo da percepção da cidade como texto 52, tentou-se, através desse trabalho, fazer leituras possíveis das vivências dos moradores da cidade de Santo Antonio de Jesus, entre os anos 1950 a Para tanto, foi necessário lançar mão de um conjunto de fontes que, embora não tenham se apresentado como janelas escancaradas ou possibilitassem um acesso imediato à realidade, ofereceram pistas valiosas para decifrar as linguagens urbanas. Isso se tornou possível, através de um trabalho metodológico orientado por preocupações de historiadores como Ginzburg, ao tratar as fontes como espelhos deformantes 53, que carecem ser desvendadas para delas extrair o não dito, as entrelinhas e aquilo que potencialmente permite olhares e leituras diversas. 54 Esta dissertação está organizada em três capítulos. O primeiro capítulo intitulado Dimensões do campo e da cidade discute a coexistência dos costumes rurais e citadinos na pequena cidade que começava a se urbanizar, situação que muito desagradava aqueles que queriam imprimir-lhe uma imagem de civilizada e moderna. Em contrapartida, a experiência vivida pelos moradores urbanos, que carregavam fortes vínculos com costumes e tradições rurais e se envolveram em novas formas de viver na cidade, não passaria despercebida. O segundo capítulo que leva o título Sobrevivências, tensões e sociabilidades na urbe santoantoniense, tenta desvendar sociabilidades e práticas de sobrevivência urbana, negociações e conflitos, como estratégias criadas nas experiências citadinas da urbanização santoantoniense. Nesse contexto, as relações de solidariedade e vizinhança foram constantemente re-elaboradas e fortalecidas, a partir das experiências vivenciadas no ambiente rural. Surpreendidos pelas regras do viver citadino, os moradores foram reinventando os seus modos de vida e se envolvendo numa multiplicidade de negociações e tensões para permanecer na urbe. No terceiro capítulo, intitulado Espaços de luzes, pretende-se destacar o advento da energia elétrica em Santo Antonio de Jesus, evidenciando alterações experimentadas pelos moradores nos espaços públicos (ruas, cinema, teatro, estádio de futebol, etc.) e privados (residências), sobretudo assinalando a sua 52 BARTHES, Roland. Semiologia e Urbanismo. In: A aventura semiológica. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p FENELON, Déa R.. Cultura e História Social: Historiografia e pesquisa. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC SP. São Paulo: Educ, 1981, p

35 35 participação nas atividades ligadas ao lazer. Buscou-se investigar os desdobramentos da utilização da eletricidade na vida material e também nas práticas e hábitos sociais, procurando, sempre, integrar tais aspectos a outras conjunturas vividas pela sociedade brasileira no período.

36 36 CAPÍTULO I: DIMENSÕES DO CAMPO E DA CIDADE Era uma vez, uma Vila; Vila de gente pobre, de poucas ruas e poucas casas e pouca gente; mas gente que quer ser gente, que quer crescer, quer progredir... e o caminho das tropas que chegavam a esta vila se tornou o mesmo caminho de trem de ferro; e, por este caminho, chegou gente e saiu gente; chegou mais do que saiu; saiu pra ser doutor, senador, governador, ser gente grande; ficou pra ser gente grande e engrandecer a Vila. E plantaram muitas Palmeiras; e as Palmeiras cresceram; e a Vila também cresceu; cresceu quis ser cidade. Virou cidade, CIDADE DAS PALMEIRAS; pequena, de pouca gente e de poucas casas; e a capela pequena, capela do Padre Matheus, cresceu, cresceu virou Matriz; no centro da grande praça e a cidade cresceu; chegou mais gente; fizeram casas nasceram ruas, fizeram ruas e bairros e a pequena Matriz cresceu, cresceu se tornou imponente e a gente, que é muita gente, no adro se sua igreja, não se cansa, não se poupa, de fazer a sua gente cada vez mais gente grande. (Texto do ex-prefeito Ursicino Pinto de Queiroz extraído de O Padroeiro, folhetim anual da Festa de Santo Antonio, de junho de 1969.)

37 Leituras da cidade Entre fins do século XIX e meados do século XX, o Brasil viveu um processo de intensas mudanças, tanto na vida material, quanto nas formas de compreensão do tempo e dos espaços público e doméstico, dos hábitos cotidianos, das formas de percepção da realidade, dos costumes e do comportamento social. 55 De um certo ângulo, pode-se observar transformações estritamente vinculadas à multiplicação de usuários de energia elétrica. O clima de desenvolvimentismo e os ideais de progresso propalados pelas diretrizes políticas nacionais, cujos esforços deveriam concentrar-se, no sentido de incrementar o fornecimento de energia e de melhorar o sistema de transportes para viabilizar o crescimento econômico,56 encontraram desdobramento em Santo Antonio de Jesus. A pequena cidade, sobretudo a partir dos anos 1950, com ritmo próprio, passou a experimentar um processo de urbanização percebido nos hábitos, costumes e práticas sociais dos santoantonienses. Os jornais foram, sem dúvida, um dos principais porta-vozes dos discursos e ideais urbanistas das elites locais. Periódicos como O Palládio, A Voz das Palmeiras e O Detetive, geralmente dirigidos por pessoas ligadas às camadas urbanas mais abastadas, freqüentemente veiculavam queixas em relação à precariedade das condições apresentadas pela cidade, revelando grande preocupação com a aparência de Santo Antonio de Jesus. Também eram comuns as denúncias contra a abertura do comércio fora dos horários e dias estabelecidos. Segundo A Voz das Palmeiras, muitas lojas abriam suas portas em dias de domingo e feriado, e nos dias úteis da semana, algumas vendas abriam às seis horas da manhã, quando o regulamento determinava às oito horas. 57 Não se observa, entretanto, nessas matérias, uma posição efetiva em defesa dos trabalhadores. O motivo da insatisfação estaria no fato de que o descumprimento da legislação afetava a imagem que queriam construir de uma cidade civilizada. 58 Outro aspecto muito debatido na imprensa era a presença de mendigos e crianças maltrapilhas nas portas, pedindo esmolas no centro da cidade. Tal 55 Centro de Memória da Eletricidade no Brasil. A vida cotidiana no Brasil moderno: a energia elétrica e a sociedade brasileira ( ). Rio de janeiro: 2001, p MANTEGA, Guido. A economia política brasileira. Petrópolis RJ: Vozes, 1984, p A cidade em revista. A Voz das Palmeiras. Santo Antonio de Jesus, fevereiro de 1954, p Idem

38 38 realidade comprometia a imagem positiva da cidade que se queria passar aos viajantes que a visitavam e que se deparavam com esses quadros de vergonha. Entre 1945 e 1951, no material acessado do periódico O Palládio, considerando os inúmeros exemplares que se perderam com o tempo pela falta de conservação e cuidado, foram encontradas dez matérias que sinalizavam o problema das crianças pobres. Em uma dessas matérias, intitulada Clama ne cesses, defendia-se a urgência e a precisão de uma colônia correcional para os menores que abundam à toa nas ruas da cidade. 59 A imagem de cidade civilizada, ordeira e harmoniosa, tão defendida nos periódicos locais, era colocada em cheque com a presença de menores abandonados nas ruas. Em 1954, uma matéria de A Voz das Palmeiras exasperava Já está demais! Mendigos e crianças maltrapilhas, de segunda a sábado em nossas portas! E a péssima impressão que tudo isso vinha causar aos viajantes vendo na cidade semelhantes quadros de miséria. 60 Na ocasião, o periódico ensaiava uma discussão sobre os conceitos de civilização, progresso e adiantamento, numa crítica veemente ao modismo instalado na cidade por um grupo de jovens santoantonienses que, em altas horas da noite, saíam pelas ruas da cidade cantando, gritando, correndo, urrando cantigas imorais e indecentes e soltando palavras de fazer mover as pedras. 61 Os rapazes estariam freqüentando as casas de mulheres de vida livre, que ficavam espalhadas por toda a cidade, inclusive nas chamadas ruas de residência de família : os moços quando para lá vão arrombam portas, quebram tudo de dentro da casa, gritam, fazem o diabo e as famílias que moram nas cercanias desses antros, além da perturbação do seu sagrado sossego, ainda tem que ouvir o diabo e quase presenciar. 62 A mesma nota afirma ainda ser uma perda de tempo pedir providências a esse respeito, pois os moços dizem que assim fazem porque têm força, o que nos leva a pensar que se trata de pessoas com certa influência. O periódico aparentemente critica a ação da polícia em tais circunstâncias, insinuando a possibilidade de que viesse a prender algum inocente só para dizer que estaria 59 Clama ne cesses. O Palládio, Santo Antonio de Jesus, 24 de novembro de 1950, p Calúnias brancas. A Voz das Palmeiras. Santo Antonio de Jesus, 12 de março de 1954, p A cidade em revista. A Voz das Palmeiras, Santo Antonio de Jesus, 27 de janeiro de 1954, p Idem.

39 39 agindo. Situação que nos reporta a uma prática ainda comum nos dias atuais. Mas conclui afirmando que os jovens dizem que isto é civilização, progresso e adiantamento. 63 Pelo que foi possível apurar, as casas de mulheres de vida livre encontravam-se espalhadas por vários bairros residenciais, conforme nos informa também o Sr. José Santos Vieira, antigo morador da cidade de Santo Antonio de Jesus. Com 67 anos de idade, Zeca Vieira, como é popularmente chamado, desde que nascera mora na Rua Wellington Figueiredo, no bairro de São Benedito. Lembra-se do tempo quando ali ainda era uma grande fazenda gerenciada por seu pai. Em sua narrativa, percebe-se elementos também destacados pela Voz das Palmeiras, a respeito dessas casas: De ponta a ponta onde você fosse não tinha madame fulana de tal não, onde tinha madame tinha uma puta do lado, uma casa [...] muito brega. Era a feira de mulheres aqui. Aqui foi um dos lugares que teve prostituta. A Rua do Gás, tudo era brega, a Maria Nunes, tudo era brega, Espera Negro, tudo era brega. 64 Parece que, em certo momento, a presença dessas casas passou a incomodar, principalmente aos vizinhos mais próximos que provavelmente preferiam uma vizinhança mais disciplinada, melhor comportada quanto aos costumes e normas vigentes na cidade. No interior de uma perspectiva que entende a imprensa como prática social e momento de constituição/instituição dos modos de viver e pensar, 65 compreende-se que a imprensa local colocava-se como porta-voz dessa insatisfação, passando a insinuar a necessidade da transferência dessas casas para um outro local. É possível perceber que conceitos como civilização e progresso foram sendo apropriados de diferentes formas e sentidos, dependendo da visão do grupo que os utilizava. 66 Talvez para os jovens, eles fossem entendidos como o amor livre, o sexo sem compromisso, a liberdade. Já a imprensa local, tinha uma visão mais moralista, empresarial e relacionava esses conceitos à idéia de cidade limpa, 63 Idem 64 Depoimento de José Santos Vieira, de 67 anos idade, em maio de CRUZ, H. de F. reflete sobre as relações entre cultura letrada, periodismo e vida urbana na cidade de São Paulo, entre os anos 1890 e In: São Paulo em papel e tinta. Educ, São Paulo, 2000, p Sobre o conceito de apropriação cultural, ver CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano artes de fazer. Vol. I, Petrópolis / RJ: Vozes, 1994, p 40.

40 40 higienizada, disciplinada, que cumpre as leis e que se mostra de forma harmônica, sem a presença de pobres, mendigos, pedintes e até mesmo de feirantes na praça, armando suas barracas antes do dia da feira. Outra situação muito questionada na imprensa dizia respeito à organização da feira livre. As cobranças insidiam, principalmente, sobre a fiscalização da Prefeitura, especialmente no que se referia à armação das barracas, que começava a ser feita à uma hora da tarde de sexta feira, enfeando e quebrando a beleza da grande praça. Pedia-se que essa montagem só começasse a ser feita sexta-feira à noite já que era imprescindível a necessidade de amanhecer o dia com elas armadas. 67 Ao que parece, a pretensão era distanciar o mercado da praça, que deveria estar livre e bela aos olhos dos transeuntes: O antigo [referindo-se ao mercado municipal], da Praça Luiz Viana, é um pardieiro já condenado pela época, pelo modernismo, pela marcha progressiva das coisas de serventia pública. Não só é de dimensões acanhadas, não permitindo todo o serviço ali dentro nos dias de feira, como é, ainda, um prédio que afeia a praça em questão. Desfigurando-a de modo incontestável. [...] Um mercado com aspecto de coisa moderna é o que visamos ao escrever estas linhas sobre assuntos urbanos. Um mercado, que, por sua construção, dimensões, divisões, ventilação e higiene desperte apreciação lisonjeira dos que nos visitam, dos que procuram aos sábados o ponto em que se faz entre nós a vendagem de todas as especiarias, cereais e gêneros de primeira necessidade. O antigo mercado seria então convertido em jardim público, pois aqui temos um só na cidade, coisa esquisita, aliás, porquanto todo mundo sabe que Santo Antonio de Jesus é a terra por excelência das flores. 68 Matérias desta natureza eram publicadas insistentemente nos periódicos locais e, por certo, acabavam por contribuir para a divulgação de um modelo de organização e funcionamento que queriam implantar na cidade. Fonte de expressão das elites, a imprensa é uma das instâncias sociais que mais colaboram na execução dos seus projetos políticos, criando condições favoráveis à aceitação do seu domínio, através da divulgação de idéias e valores. 69 No novo modelo de cidade não cabia mais a paisagem composta pelo velho mercado, aquele pardieiro já condenado pela época, no meio da praça. Nesse caso, o que estava sendo 67 A cidade em revista. A Voz das Palmeiras, Santo Antonio de Jesus, fevereiro de 1954,p Mercado Municipal. O Palládio, Santo Antonio de Jesus, 3 de fevereiro de 1949, p SOARES, Maria do Socorro. A Tarde e a construção dos sentidos. Dissertação de Mestrado em História, UFBA, Salvador, 2002, p 13.

41 41 questionado pelo periódico era mais uma vez a imagem da cidade, sobretudo como ela se apresentava esteticamente para os visitantes. Numa época em que ainda não havia supermercados, a população santoantoniense e também de cidades vizinhas, periodicamente, fazia feira, ou seja, adquiria os produtos necessários à subsistência na feira livre. Nela, pessoas de diferentes origens tanto compravam como vendiam produtos os mais variados. Inicialmente, a feira livre ficava localizada no centro da cidade. A Praça da Matriz, atual Praça Padre Matheus, era um local de concentração e grande movimentação de pessoas, onde encontravam-se o Correio e Telégrafo, a imponente Matriz e o Cine Glória. Era lá que se realizava a feira, inicialmente apenas aos sábados, fazendo triplicar o número de pessoas na cidade. Figura III - Feira de Santo Antonio de Jesus ( Fotografia de Pedro Carmelito 1957, cedida pelo IBGE-DERE/NE I) 70 A imagem em foco sugere que o fotógrafo compartilhava das influências de idéias referentes à higienização e à disciplinarização que as metrópoles estavam 70 Extraída de SANTANA, Charles D Almeida. Fartura e Ventura Camponesas: trabalho, cotidiano e migrações: Bahia São Paulo: Annablume, p. 89.

42 42 vivenciando desde o século XIX, como uma espécie de denúncia, tentando mostrar a aparente desorganização que existia no espaço da feira. Todavia, seguindo as pistas, numa tentativa de decifrar a referida fotografia, Santana observou que: o ângulo escolhido e profundidade de perspectiva na imagem visual descortinam seu interesse em registrar a pujança da feira de Santo Antonio de Jesus. Um registro fundado, talvez, numa visão melancólica que pressentia e já anunciava a sua transferência para áreas mais distantes do centro da cidade em expansão. Prenúncio de transformações várias nos modos de viver dos agricultores. Previsões de mudanças capazes de afastar este importante espaço social da proteção da igreja imponente, um templo monumental abençoando a população que circula no mercado. 71 Nessa perspectiva, o fotógrafo estaria eternizando, talvez, a última imagem da antiga feira, onde sobressai certa contigüidade entre o rural e o urbano. Observase a presença de animais e de pequenos caminhões, meios de transporte geralmente utilizados para conduzir, das zonas rurais e cidades vizinhas, a farinha de mandioca, o café, o fumo, a carne do sol, as frutas, as verduras, além de flores como palmas de Santa Rita, rosas, angélicas e gérberas - muitas vezes transportadas sobre as próprias cabeças -, que faziam da Terra das Palmeiras, também, a cidade das flores, pela grande quantidade que produzia, matizando com cores e cheiros o espaço da feira. Apesar de imagens fixas de um instante apenas, as fotografias sugerem inúmeras histórias, representam uma vida em movimento e um tempo que não para de passar. 72 A história de vida de Sr. Gregório pode ser uma, entre tantas outras registradas na fotografia. Nascido no vizinho município de Conceição do Almeida, o Sr. Gregório mudou-se para Santo Antonio de Jesus em 1948, instalando-se com familiares em um sítio nos arrabaldes da cidade, hoje praticamente integrado ao espaço urbano. Durante 42 anos trabalhou na feira-livre comercializando carne de sol. Começou ainda na feira velha. Toda sexta-feira ia, a pé, armar a sua barraca e voltava sábado bem cedo para vender a carne que, segundo conta, vinha de Castro Alves. No alto dos seus 99 anos, ele puxou pela memória para assim descrever a cidade que ele encontrou: 71 SANTANA, Charles D Almeida. Fartura e Ventura Camponesas: trabalho, cotidiano e migrações: Bahia São Paulo: Annablume, pg LEITE, Miriam Lifchitz Moreira. História e Fotografia, p 50. apud SANTANA, Charles D Almeida. Linguagens Urbanas, Memórias da Cidade: vivências e imagens da Salvador de migrantes. Tese de Doutoramento em História. PUC/SP, 2001, p 70.

43 lembrar. 74 Na fala do Sr. Gregório parece estar implícita a influência de idéias de 43 Quando eu cheguei aqui a cidade era uma caixa de fósforos. A feira era uma bacatelazinha, na rua da Praça Padre Matheus. É tanto que não tinha higiene, não tinha nada, tinha um mercado velho, tinha desmanchado a igreja, feito uma igreja nova, mas não tinha sanitário, não tinha nada. O pessoal se despachava ali mesmo [...] A rua de meio dia pra tarde, os catingueiros botavam os animais pra comer capim, ficava tudo sorto. Tinha um carçamento tudo coberto de capim. 73 A descrição de Sr. Gregório converge com a imagem apresentada na fotografia e acrescenta dados que só a memória e a voz de quem vivenciou determinadas experiências são capazes de trazer à tona, pois há verdades que são gravadas nas memórias das pessoas mais velhas e em mais nenhum lugar, eventos do passado que só eles podem explicar-nos, vistos sumidos que só eles podem modernização e higienização do espaço urbano, contatadas ao longo da experiência que acumulou como feirante. A sua preocupação em destacar a falta de sanitários, os animais soltos na rua, ou ainda a ênfase que dá aos adjetivos quando se refere ao mercado velho e a igreja nova, aponta um complexo exercício de memória, sem conseguir estabelecer um tempo linear. As lembranças daqueles tempos estão sempre misturando-se com o tempo presente, pois nada é esquecido ou lembrado no trabalho de recriação do passado que não diga respeito a uma necessidade presente daquele que registra. 75 Nesse sentido, a forma como a cidade se apresenta hoje para ele, acaba servindo como parâmetro, levando-o a estabelecer comparações ao rememorar a cidade de ontem. O processo de transferência da feira da Praça Padre Matheus para a atual Praça Duque de Caxias, é relembrado por Sr. Gregório de uma forma que nos sugere que algumas das idéias expressas em suas lembranças talvez não sejam originais, mas foram inspiradas nas conversas com os outros Depoimento do Sr. Gregório Tavares da Silva de 99 anos de idade, em maio de 2007, morador da cidade desde SAMUEL, Raphael. História Local e História Oral. In: SILVA, Marco Antonio. (Org). Revista Brasileira de História. História em quadro Negro: escola, ensino e aprendizagem. São Paulo: ANPUH/Marco Zero, vol. 9, nº. 19, setembro de fevereiro de MALUF, Marina. Ruídos da memória, São Paulo: Siciliano, 1995.p BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade : lembrança de velhos. São Paulo: Cia. das Letras, p 407.

44 44 Eu não achei ruim. Não achei ruim porque... Ficou ruim porque os freguês ficava tudo sem saber a donde era, dispois acertou, pronto. Segundo disso, quando passou pra a gente cortar carne no garpão melhorou porque era encoberta. A gente vendia nas barracas de tauba sabe? Aquilo era um desarranjo enorme. Toda sexta feira armar, quando era de tarde desarmar e dava prejuízo à gente. Dispois que fez o arpão, tinha bloco, conforme é até hoje, aí a gente se desenvolvia melhor. Não, não, ninguém achou ruim porque se a gente tava no tempo, então passou pra vender debaixo do bloco e ternit, né, coberto demais. Deu pra todo mundo. 77 A posição de Sr. Gregório sobre a mudança da feira começa meio confusa. Apesar da firmeza inicial ao afirmar que não achou ruim, imediatamente ele lembra que ficou ruim porque os fregueses não sabiam onde era. A infra-estrutura da nova feira quase conseguiu fazê-lo esquecer esse fato, pois, logo em seguida ele recorda nitidamente como ficou melhor em um local coberto, deixando de trabalhar no tempo, sem ter que armar e desarmar a barraca toda semana. Segundo Sr.Zeca Vieira, que comprava carne do sol e outras mercadorias na feira para vender em Salvador, os feirantes acharam o maior absurdo do mundo, consideraram um desperdício, uma loucura aquele mundo de terra ali pra fazer a feira, pois estavam acostumados com o espaço limitado na Praça Padre Matheus e foram surpreendidos com toda aquela área. Naquele local era uma fazenda que tinha animal, boi, burro [...] e era um fazendão retado, era fazenda mesmo. 78 É provável que tenha ocorrido insatisfação, sobretudo devido ao costume das pessoas de fazerem a feira ali na praça, perto de tudo, e de repente ter que andar um pouco mais para chegar até o local, o que pode ter provocado inicialmente uma queda nas vendas, pelo menos até as pessoas se acostumarem com o novo local. Entretanto, é possível que Sr. Gregório e outros companheiros seus tenham sido convencidos da necessidade das mudanças pelas próprias denúncias do incômodo que a presença da feira causava na praça central. Mas é também provável que, com o tempo, eles tenham percebido benefícios com a mudança. Se o funcionamento da feira na Praça Padre Matheus incomodava a alguns, para outros ela já fazia parte daquele cenário e a sua saída deixaria uma enorme lacuna, com a ausência de todo aquele burburinho comum nos dias de sábado. Nos dias de feira a dinâmica de relacionamentos entre o campo e a cidade ficava ainda mais visível, aprofundando-se a troca de experiências vivenciadas nesses universos 77 Depoimento de Sr.Gregório Tavares, já citado. 78 Depoimento do Sr. José Santos Vieira, já citado

45 45 inseparáveis; afinal a cidade se alimenta daquilo que o campo a seu redor produz 79 e, concomitantemente, ajuda a prover o campo com gêneros que ele normalmente não produz. Do campo, os trabalhadores abasteciam a cidade com farinha, café, carne do sol e frutas que os feirantes traziam para a cidade; na volta, levavam para casa querosene, cachaça, tecidos, tamancos, bacalhau, carne de boi fresca, comprados com o dinheiro da venda de suas mercadorias. Além da simples troca de mercadorias, as feiras eram também um espaço de sociabilidade. Nelas discutia-se os mais diversos assuntos, trocava-se informações sobre parentes e amigos, pilheriava-se, paquerava-se ou simplesmente batia-se papo. Era o dia do encontro na cidade e esses encontros significavam comunicação entre lugares e povos e que a troca de bens não se dava sem a troca de idéias e de prazeres. 80 Essa relação campo-cidade deixa continuamente suas marcas no espaço vivido, de modo que a vida nas ruas da cidade abriga a presença do campo, através das vivências rurais trazidas nas mentes e sentimentos das pessoas que migram para lá e em suas bordas pulsam viveres rurais, assim como viveres engendrados na cidade vão penetrando no campo, modificando gestos e rotinas, transformando olhares e perspectivas. 81 A transferência do mercado pode ser inserida também num processo mais amplo de divisão e hierarquização do espaço público urbano. Com este fim, outra iniciativa adotada seria o afastamento das prostitutas das regiões centrais da cidade. Tentar-se-ia também evitar a penetração das camadas populares nas festas e outros espaços de lazer freqüentados pelos mais ricos. As lavagens da igreja na festa de Santo de Antonio, como recordou seu Gilberto Melo, agrônomo e artista que vive há muitos anos em Brasília, fazem parte desse contexto. Segundo nos informa, eram as 79 Sobre esta relação entre o campo e a cidade, ver Raymond Williams O Campo e a Cidade: na história e na literatura, p.75. Analisando imagens e associações conectadas a variadas experiências históricas, Williams percebe que as atitudes inglesas em relação ao campo e às concepções da vida rural persistiram com um poder extraordinário, de modo que, mesmo depois de a sociedade tornar-se predominantemente urbana, a literatura, durante uma geração, continuou basicamente rural; e mesmo no século XX, numa terra urbana e industrializada, é extraordinário como ainda persistem formas de antigas idéias e experiências. 80 CARDOSO Carlos Augusto de Amorim & MAIA Doralice Sátyro. Das feiras às festas: as cidades médias do interior do Nordeste.IN Sposito Maria Encarnação Beltrão (org.). Cidades Médias: espaços em transição 1.ed. São Paulo: Expressão Popular, KHOURY, Iara Aun. Apresentação. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da Pontifica Universidade Católica de São Paulo, nº 18, Educ, São Paulo, 1999, p 9-11.

46 46 camadas populares que, mais efetivamente, participavam, 82 o que sugere uma espécie de concessão às camadas populares para realizarem sua festa separada, com os trajes, as danças, as músicas que possivelmente não seriam aceitas na tradicional procissão do padroeiro. O mesmo tipo de preocupação pode ser identificado nos apelos pela construção de um abrigo para guardar as crianças pobres e maltrapilhas, escondendo-as dos olhares dos visitantes; para que se desse um jeito nos animais criados soltos pelas ruas, apagando as feições de quintal que a cidade apresentava e pela transferência dos feirantes desarrumados e suas barracas que enfeavam a Praça Padre Matheus para outro lugar, afastando-os da sala de visita. Afinal, as cidades são como as mulheres, os homens só as disputam e se apaixonam quando elas se apresentam bem tratadas, enfeitadas e sedutoras. 83 Essa era a imagem que os políticos, empresários, comerciantes queriam imputar a Santo Antonio de Jesus: uma cidade limpa, bonita e bem tratada, capaz de atrair e seduzir cada vez mais pessoas para desfrutar dos produtos e serviços que oferecia. Os melhoramentos efetivados intensificaram a oferta de serviços urbanos e a cidade começou a receber um número crescente de pessoas que saíam do campo em busca de escolas, atendimento na Santa Casa de Misericórdia, oportunidades de trabalho em lojas, armazéns, feira livre, diversão no cinema, shows e festas. Mudanças que se fizeram acompanhar de outras alterações, notadamente na arquitetura urbana, no ritmo de vida, nas práticas de trabalho, no lazer, no cotidiano do espaço público e do privado. 1.2 Reformas Urbanas Um conjunto de reformas urbanas empreendidas pelo poder público fazia parte dos projetos e iniciativas que tinham como objetivo oferecer à cidade ares de urbanidade, capazes de atrair e de seduzir pessoas, ao mesmo tempo em que redimensionava as vivências citadinas. O olhar aqui lançado sobre essas vivências privilegia algumas reformas que redefiniram espaços e costumes em Santo Antonio de Jesus. À medida que novos elementos como a eletricidade, a água encanada, 82 Depoimento de Seu Gilberto Mello, 25 de maio de A cidade em revista. A Voz das Palmeiras. Santo Antonio de Jesus, 12 de março de 1954, p 1.

47 47 uma nova arquitetura foram entrando na vida das pessoas, elas experimentaram, vivenciaram e consumiram essas novidades dando-lhes, porém, novos significados. Modificaram, portanto, os comportamentos, hábitos e costumes, na perspectiva da conjugação entre o efêmero e fugidio e o eterno e imutável, 84 para assim constituírem suas práticas sociais. Embora os projetos das reformas urbanas santoantonienses possam ter sido pensados por uma parcela pequena da cidade, representada por empresários, políticos e demais autoridades locais, a participação dos sujeitos que receberam, resignificaram e vivenciaram esse processo, acabou transformando essas experiências de urbanização numa construção social. Recuando um pouco o olhar para o final dos anos 1930 e início da década de 1940, observamos que a cidade de Santo Antonio de Jesus correspondia à Praça Padre Matheus e algumas ruas adjacentes, formando um pequeno aglomerado de casas residenciais e comerciais, conforme o desenho apresentado a seguir. Avenida Luiz Argolo Rua de Cima ( Rua Rui Barbosa) Rua Chile Praça Luiz Viana (Praça Padre Mateus) Rua Espera Negro (R. St Antônio) Rua Silva Jardim (Rua Landulfo Alves) Rua Mª Nunes (R. Ant Fraga) Rua Prudente de Moraes Praça Felix Gaspar P r a ç a R io B ra n c o R u a A r m a n d o T a v a r e s Rua Sete de Setembro Avenida Barros e Almeida Av enida Luiz Viana Rua Wellington Figueiredo Largo do São Benedito BA-028 Rua do Casco Rua da Conceição Rua Tiradentes Rua C astr o Alv es (Rua d as Q ueimadas ) Figura IV: Croqui da cidade de Santo Antonio de Jesus alguns logradouros dos anos Editoração: Zaca Oliveira. 84 HARVEY, David. Condição Pós-moderna, Edições Loyola, São Paulo, 1992, p 21.

48 48 A população urbana era composta por habitantes. 85 O Mercado Municipal, no centro da praça, era o principal fornecedor de farinha, feijão, carne, café, frutas e verduras; a Loja Celeste propagava que vendia o melhor sapato do Brasil feito na Bahia ; 86 a Loja das Estrelas se encarregava dos tecidos finos, linhas e demais aviamentos para costura; a Loja Bahia abastecia a população com tecidos, perfumarias, chapéus, calçados, brinquedos, ferragens e artigos correspondentes ao ramo de miudezas. Havia ainda a Casa Imperial, que oferecia artigos para vestidos, casemira, calçados, brins, a Casa do Povo que fornecia bebidas, a Padaria Vitória, o Café Santo Antonio que entregava também em domicílio, além de armazéns de compra e venda de fumo e café, entre outros. A imagem apresentada na fotografia a seguir permite visualizar alguns aspectos do cotidiano pacato da pequena cidade, que ainda abrigava suas casas comerciais nos casarões centenários que integravam a arquitetura do início do século XX. Figura V: Aspecto da Rua de Cima nos anos 1940, atual Rua Ruy Barbosa. Foto do arquivo pessoal de Tau Tourinho. 85 Dados do IBGE e SEI O Palládio, Santo Antonio de Jesus, 6 de outubro de 1938, p 3.

49 49 Dimensões do campo e da cidade podem ser percebidas a partir dos elementos que se misturam na imagem, como a pavimentação das longas ruas calçadas, a movimentação de pessoas nas portas das lojas, a presença dos animais - responsáveis pelo transporte daqueles que vinham das roças negociar na cidade. O paletó, o chapéu e as botas sete-léguas, trajes indispensáveis àqueles que mantinham fortes relações com o viver urbano, indicam também o abreviamento da distância entre as fronteiras que demarcam os dois mundos. Nesse cenário urbano, o lazer e a diversão ficavam, sobretudo, por conta das festas. Na Rádio Sociedade Palmeirópoles, que funcionava na Rua Sete de Setembro, aconteciam os bailes sociais das camadas mais abastadas. No calendário de festas religiosas estavam a do Padroeiro Santo Antonio, de São Benedito, de São José e do Senhor do Bonfim, patrono da Filarmônica Amantes da Lira. Havia também a micareta, os ternos de reis, as festas juninas e as festas de fim de ano. Eram diversões garantidas as apresentações das filarmônicas Amantes da Lira, Carlos Gomes e do Jazz Tupi. Também faziam parte do lazer santoantoniense o Cine Glória, o Cine Rex, os passeios de recreio a bordo de trem para cidades vizinhas e o futebol que atraía, aos domingos, uma multidão para o campo do matadouro e mais tarde, para o Estádio Municipal. O Hospital da Santa Casa de Misericórdia, situado na Avenida Luiz Argolo, e alguns consultórios médicos localizados próximos ao centro prestavam assistência médica à população, dividindo espaços de cura com os curandeiros. Havia ainda uma agência bancária, escolas primárias, pequenas escolas de costura espalhadas nas ruas centrais. A água chegava até as casas das pessoas através dos aguadeiros ou dos próprios moradores que iam buscá-la na Fonte Santo Antonio, ali bem próximo da Praça Padre Matheus, onde ainda hoje podem ser encontradas algumas pessoas lavando roupas ou carros; ou na Fonte Maria Nunes, um pouco mais afastada da praça, localizada na Rua Maria Nunes, atualmente denominada Rua Antonio Fraga. Água encanada ainda era um problema a ser resolvido. Em 1938, o jornal O Palládio anunciava o comprometimento do poder público com a realização de obras para o abastecimento de água. De acordo com o periódico, Santo Antonio de Jesus

50 50 precisava de um serviço de água à altura das cidades adiantadas do Estado 87. Destarte, Dando mão forte à obra da água, que vem melhorar a cidade, de modo progressivo, no sentido hygiênico principalmente, o governo da cidade em ação conjunta com o do Estado, promette a Santo Antonio de Jesus esse commettimento. Obra de utilidade geral, nivelando Santo Antonio às outras localidades já providas deste grande recurso que se liga de perto aos interesses vitais do povo, a perspectiva em que estamos, a respeito, é a mais sympática e prazeirosa de quantas podiam nos dominar o espírito. 88 Assim, a higiene era um dos requisitos exigidos a uma cidade que pretendia alcançar o status de adiantada e a instalação do serviço de água encanada garantiria melhoramentos nesse aspecto. A nota vincula a água encanada a uma utilidade geral ou a interesses vitais do povo. Mas será que o projeto, ora em andamento, incluía a grande maioria da população da cidade, sobretudo aqueles moradores das áreas mais afastadas do centro? Embora a concessão de financiamentos para implantação de rede de água encanada nos municípios fizesse parte da pauta política desenvolvimentista, do governo do estado na época, não foram poucos os percalços enfrentados para a realização desse fim. Quase um ano depois de o prefeito e médico Gorgônio José de Araújo ter assumido um compromisso público quanto à questão da água, O Palládio informava, em tom eloqüente, a chegada de engenheiros e do diretor do Serviço de Águas para inspecionar a primeira perfuração. Estes, depois de inteirados das condições locais, definiram que a primeira perfuração seria feita naquele mesmo dia ou no dia seguinte, em terrenos situados ao lado do prédio da Usina Elétrica, na Rua Chile, no mesmo local onde atualmente funciona a COELBA. 89 Ainda em relação à década de 1930, campanhas pela reabertura do Hospital da Santa Casa de Misericórdia são matérias recorrentes nos periódicos locais, chamando a atenção para a necessidade de melhoria dos serviços de saúde da cidade. Nos casos da luz e da água, essas campanhas destacaram-se pela 87 O problema da água. O Palládio, nº. 1879, Ano 37, Santo Antonio de Jesus, 6 de outubro de 1938, p Idem 89 A água em Santo Antonio de Jesus vai ser uma realidade. O Palládio, Santo Antonio de Jesus, 14 de julho de 1939, p 2.

51 51 criação de um forte clima de mobilização social. Na reinauguração teve missa celebrada pelo padre Osvaldo da Silva Ramos, que benzeu as enfermarias, quermesse patrocinada pela Congregação Mariana, discursos de agradecimento e sons apresentados pela Filarmônica Amantes da Lira. 90 A longa trajetória percorrida até chegar a esse momento contou com a caridade daqueles que contribuíram financeiramente, bem como dos que se envolveram e se dedicaram na organização de festas, passeios de recreio, sessões de cinema, feiras, quermesses em prol da reforma. O dia da reabertura do Hospital foi um dia de festa na cidade. A Mesa Administrativa da Santa Casa convidou as autoridades, as sociedades locais, o professorado, a Congregação Mariana, as bandas de música, todos os irmãos da Casa, as famílias e o povo para assistirem à solenidade. 91 O hospital era uma obra de interesse geral para os habitantes do município e de toda região. Não era um lugar para atender apenas pobres, condição que provavelmente estimulou as iniciativas realizadas para arrecadar fundos, contando com a participação de pessoas ligadas ao poder político, religioso e econômico local. Já na década de 1940, a Santa Casa de Misericórdia aumentou suas campanhas de donativos com a meta de construir o pavilhão de cirurgias, onde seriam instalados os serviços de raio X e salas de operação. Motivado por esse apelo, o Dr. Otávio Soveral, Vice-Provedor do hospital, instalou, durante dois dias, numa casa espaçosa na Praça Félix Gaspar, próximo à antiga estação, o cinema que mantinha nas minas de manganês, ficando os resultados das entradas para auxílio das obras. 92 A ampliação da Santa Casa e a abertura do cinema nas proximidades da estação são dois indicadores daquilo que os santoantonienses começaram a vislumbrar nos finais dos anos Esse importante processo de remodelação do seu espaço urbano seria intensificado nas duas décadas seguintes. À medida que obras iam sendo realizadas, a cidade adquiria novas feições. A pequena cidade que se assemelhava a uma grande fazenda passou a ganhar contornos e expressões novas. O conjunto de reformas na cidade alterou de forma significativa o cenário até 90 A Santa Casa, afinal, renasce!. O Palládio, Santo Antonio de Jesus, 12 de agosto de 1939, p Idem. 92 Uma diversão visando a caridade. O Palládio, nº. 2319, Ano 48, Santo Antonio de Jesus, 6 de setembro de 1949, p 2.

52 espaço. 93 Espaço que ganhava novos desenhos a partir de desapropriações pelo 52 então existente e deu origem ao moderno espaço urbano, interferindo no cotidiano das pessoas que viviam ou apenas transitavam por ela. Nessa perspectiva, a mudança de paisagem significa muito mais do que uma série de alterações nas características das construções, das vias de circulação, do traçado das ruas, representando o estabelecimento de uma nova relação entre as pessoas e o seu poder público municipal para fins de construção de prédios na região do centro da cidade. Afinal, as cidades são antes de tudo uma experiência visual. 94 Entre as intervenções realizadas com tal finalidade, encontra-se a autorização do prefeito Antonio Fraga, empresário, eleito no ano de 1956, de desapropriar uma área de um terreno pertencente à família do médico Gorgônio de Almeida Araújo, na Rua Monsenhor Francisco Manoel, medindo 20 metros de frente a fundo, para construção do prédio dos Correios e Telégrafos, considerada uma obra de utilidade pública e de extrema urgência. 95 Também faz parte desse processo a desapropriação, em 1951, de uma parte do prédio nº. 2, situado à Rua Armando Tavares, pertencente ao Sr. Belarmínio Américo Franca, demolido para efeito de alinhamento da referida rua 96. Ou ainda a desapropriação, no mesmo ano, do prédio nº. 7, da Rua Dr. Gorgônio José de Araújo, de propriedade do Monsenhor Francisco Manoel da Silva, para construção de um moderno edifício destinado ao funcionamento do Banco Econômico S/A. 97 Embora a documentação encontrada não nos permita afirmar que esses prédios possuíam algum valor histórico, a ausência de processos na justiça e também de maiores desdobramentos sobre o assunto nos jornais locais, ou de algum tipo de mobilização contra a demolição, pode ser um indício de que se tratava de imóveis que representavam significado apenas para os seus proprietários. 93 LUCAS, Meize Regina de Lucena. Imagens do Moderno: o olhar de Jacques Tati. São Paulo: Annablume; Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desportos, 1998, p BRESCIANNI, Maria Stella M.. História e Historiografia das Cidades, um Percurso. In:FREITAS, Marcos Cezar (org). Historiografia Brasileira em perspectiva. 5ª. ed. São Paulo: Contexto, Lei nº 15 de 7 de fevereiro de Arquivo Público Municipal de Santo Antonio de Jesus, Livro de Leis, Decretos e Portarias da Prefeitura Municipal de Santo Antonio de Jesus. 96 Lei nº. 5 de 1º de junho de APMSAJ, Livro de Leis, Decretos e Portarias da Prefeitura Municipal de Santo Antonio de Jesus. 97 Lei nº. 02, de 1º de junho APMSAJ, Livro de Leis, Decretos e Portarias da Prefeitura Municipal de Santo Antonio de Jesus.

53 53 Ainda que eventualmente essas desapropriações pudessem carregar interesses de perseguições a adversários ou favorecimento a aliados políticos, elas não deixaram de representar despesas para o poder público municipal, que recorria a empréstimos para pagá-las. As intervenções municipais e seus respectivos custos eram justificados pela necessidade de dar à cidade um caráter de civilizado e moderno, conforme podemos observar em inúmeras matérias de jornais à época, legitimando a derrubada de uma memória arquitetônica que pouco restou. No Palládio, periódico local de maior tempo de circulação, que foi editado por 50 anos, de propriedade do jornalista Antonio Mendes, é notável a presença de matérias difundindo essas idéias, ao mesmo tempo em que comparavam o ritmo de civilização das cidades. As conotações que a palavra civilização assumia no contexto da urbanização de Santo Antonio de Jesus estavam associadas a múltiplos aspectos tecnológicos, ao refinamento dos hábitos, vestuário, entre outros. 98 Jornais locais registraram a passagem da década de 1940 para 1950 como uma fase de crescimento em Santo Antonio de Jesus. A cidade estava avançando na organização do seu espaço urbano para alcançar aquilo que era considerado por algumas autoridades da época como cidade adiantada: construções de estradas de rodagem e de ferro, calçamento a paralelo das principais ruas, reconstrução da cadeia pública, construção de novos prédios e abertura de estradas para o interior do Município. 99 Fazia parte desse conjunto de modificações urbanas, a construção da nova Igreja Matriz, obra que mobilizou a participação dos fiéis católicos que não pouparam contribuições. Os fortes apelos do padre nos seus sermões e das comissões responsáveis pelas obras, através da imprensa, convenciam os seguidores do padroeiro Santo Antonio a disponibilizarem animais ou outros bens para os famosos leilões. Bois, carneiros, porcos, perus, galinhas, queijo, goiabada, uísque, bolos eram alguns dos prêmios doados pela comunidade. Os leilões podiam acontecer antes ou durante as trezenas. Um palanque todo ornamentado era armado em frente à igreja, onde ficavam os prêmios, o leiloeiro e a comissão responsável. Ao redor, autoridades locais, fazendeiros, comerciantes, empresários, populares dividiam espaço para dar seus lances e adquirir os produtos ou apenas 98 De algum modo podemos aproximar o período aqui estudado com as reflexões de Nicolau Sevcenko em relação ao termo moderno que passa a ser corrente no uso cotidiano dos anos Ver do autor Orfeu extático na metrópole, São Paulo, 1922, p A Nova Matriz. O Palládio, Santo Antonio de Jesus, 4 de março de 1949, p 1.

54 54 para participar da festa que incluía, dentre as suas distrações, barraquinhas, quermesses e bandas musicais. 100 Listas circulavam pela cidade e adjacências, com os nomes dos prováveis doadores, que dificilmente retornavam em branco. Não se sabe até que ponto essas contribuições eram movidas apenas pela fé. Sabe-se, entretanto, que o folhetim anual, O Padroeiro, produzido pela igreja com o objetivo de divulgar a programação da festa, e também os periódicos locais, publicavam os nomes dos contribuintes com suas respectivas quantias, 101 atribuindo-lhes certo status e notoriedade, até porque, como advertiu Thompson, um ato de doar deve ser simultaneamente visto como um ato de ganhar. 102 Por ser um espaço de portas abertas para todos, a igreja atraía ricos e pobres, criando um forte vínculo da população com a matriz; a festa do padroeiro Santo Antonio, celebrada durante treze noites, no mês de junho, levava e ainda leva muitos fiéis todas as noites ao templo. Comissões eram encarregadas da ornamentação das fachadas das casas, passeios e ruas por onde a procissão iria passar, o que gerava uma disputa na qual vencia a rua mais bonita. Durante os treze dias de festa, cada noite era patrocinada por determinadas instituições ou segmentos da sociedade. Havia a noite das escolas, dos comerciários, dos funcionários públicos, dos motoristas e mecânicos, dos fazendeiros, comerciários, artistas, bancários, entre outros. 103 Tudo isso promovia uma aproximação das pessoas com a igreja que seguia em construção, proporcionando encantamento aos passantes. 104 Com os esforços do vigário e da comissão responsável pela obra e com os donativos dos mais diversos segmentos da população, apesar de pairar algumas suspeitas de desvio do dinheiro arrecadado, 105 o prédio da nova igreja foi erguido, causando impacto aos que visitavam a Praça Padre Matheus. D. Maria Soares de Jesus, mais conhecida como D. Senhora, reside em Santo Antonio de Jesus desde 100 Diversões Populares. O Padroeiro. Santo Antonio de Jesus, 1º de junho de 1944, p Idem 102 THOMPSON, E. P. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos, Editora Unicamp, Campinas SP, 2001, p Os exemplares de O Padroeiro, folhetim anual produzido pela Igreja Católica, trazem detalhadamente a programação do Trezenário de Santo Antonio com os nomes dos responsáveis por cada noite. 104 A Nova Matriz. O Palládio, Santo Antonio de Jesus, 4 de março de 1949, p A consciência popular da cidade de Santo Antonio de Jesus. O Palládio, 4 de dezembro de 1942, p 1.

55 55 pequena, quando sua família, fugindo da seca no município de Ipirá, encontrou abrigo e trabalho numa fazenda nos arrabaldes da cidade. Fazia charutos em casa para vender e também trabalhou nos armazéns de fumo. Para ela, era uma obra bonita de se ver e causava deslumbramento. Assim, lembra quando a torre da igreja foi colocada: Num dia de segunda feira eu vim na rua que eu ia comprar um vestido [...] Tinha aquele bando de gente ali. Eu perguntei ao homem. Alguma novidade? Ele disse: Não é a igreja nova? [...] Tava botando a pedra daquela nova igreja que ta ali. Graças a Santo Antonio eu vi botar a pedra, vi fazer, na primeira missa eu tava lá. A primeira missa daquela igreja nova foi com o padre Gilberto Sampaio Piton, que se formou em Salvador [...] Mas foi gente!! 106 Ir ao centro da cidade, para além da intenção de fazer compras, significava tomar contato com as novidades. As rememorações de D. Maria Soares, moradora da Joeirana, bairro afastado do centro e próximo à BA 028, que liga Santo Antonio de Jesus a Nazaré, evidenciam um pouco como certas pessoas que viviam longe do centro, recebiam e viam essas obras modificadoras do cenário urbano. A curiosidade, registrada na memória, pois tinha aquele bando de gente ali, indica que as pessoas comuns não estavam alheias aos fatos. Estavam lá, nas rodinhas de conversa, emitindo opiniões favoráveis ou contrárias. Sua expressão Mas foi gente!, evidencia que muitos estavam presentes também na primeira missa celebrada na nova igreja, ocasião em que provavelmente inaugurou o seu vestido novo. É possível notar na sua fala uma forte carga de satisfação, sobretudo, ao afirmar eu vi botar a pedra, vi fazer, na primeira missa eu tava lá, um forte sentimento religioso de pessoas das camadas populares e o seu envolvimento com a construção do templo católico, que ainda em 1º de junho de 1954 apresentava-se sem a torre, conforme mostra a fotografia: 106 Depoimento de D. Maria Soares de Jesus, em nov. de 2007, de 84 anos de idade, moradora da cidade desde os sete anos.

56 56 Figura VI A Nova Igreja Matriz [O Padroeiro folhetim anual da Festa de Santo Antonio] 107 A imagem é da primeira página do folhetim anual da Festa do padroeiro, no ano de 1954, compondo uma matéria sobre o andamento dos trabalhos para conclusão das obras da nova Igreja Matriz. Entretanto, imagens fotográficas trazem em si não a reprodução mecânica e objetiva de um fato real, mas sim uma reconstrução, uma representação de uma realidade, 108 Sendo assim, quais motivações estariam envolvidas no momento de sua produção? Considerando o conjunto da qual a foto é parte integrante, teria sido intenção do fotógrafo criar uma imagem capaz de sensibilizar os fiéis, tendo em vista a oferta de doações que seriam utilizadas na construção da torre? A imagem estaria indicando até onde a obra já havia chegado com as doações e o que restava para a sua conclusão? A obra da matriz estava quase concluída, faltando para isso apenas alguns cruzeiros, portanto era preciso reforçar a necessidade das contribuições e talvez a imagem pudesse ajudar a transmitir essa mensagem aos fiéis. 107 A Nova Igreja Matriz. O Padroeiro, Santo Antonio de Jesus, 1º de junho de 1954, p LACERDA, A. L.. Os sentidos da imagem: Fotografias em arquivos pessoais. Acervo, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1-2, 1993, p 44.

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