UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO CELACOM DOIS DISCURSOS EM UMA LEITURA

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1 UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO CELACOM DOIS DISCURSOS EM UMA LEITURA Análise comparativa do discurso da tese e da livre docência de Carlos Eduardo Lins da Silva Autor: Prof. Ms. William Araújo Trabalho elaborado para o Celacom a partir da disciplina Processos Comunicacionais, sob responsabilidade do Prof. Dr. José Marques de Melo SBC Maio, 2003

2 1 DOIS DISCURSOS EM UMA LEITURA: Análise comparativa do discurso da tese e da livre docência de Carlos Eduardo Lins da Silva Autor: William Pereira de Araújo, Mestre em Comunicação pela Umesp RESUMO Ao escrever Muito Além do Jardim Botânico para obtenção do doutorado, o jornalista e professor acadêmico Carlos Eduardo Lins da Silva propôs uma nova abordagem para o estudo da recepção, adotando pesquisa-ação em uma estrutura bastante formal. Três anos após, o mesmo autor, para obter a livre-docência, estuda em Mil dias, o que denominou ser a revolução frente as mudanças pretendidas pela direção do jornal. Desta vez, usou o estudo de caso mesclado com a pesquisa participativa, descartando aparentemente o rigor normalmente exigido pela academia. O presente estudo compara ambos e procura entender neste perfil algum tipo de ruptura e até que ponto isso pode ser entendido como pragmática aceitável. Palavras-chave: Estudo comparativo; Análise do discurso; Discurso jornalístico APRESENTAÇÃO Esta análise pretende ser um estudo comparativo entre os discursos d adotados pelo pesquisador jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, nas obras "Muito Além do Jardim Botânico", e "Mil Dias: os bastidores da revolução de um grande jornal", que abordam, respectivamente, produtos da Rede Globo de Televisão e do jornal Folha de S. Paulo. Por se tratarem de obras relativas à pesquisa científica, especificamente para obtenção de titulação doutorado e livre-docência, há que se entender que as mesmas possuem caráter ritualizado típico das academias e que, por isso, presumem aprovação feita mediante avaliação de especialistas. Com isso, é possível entender que os trabalhos, neste contexto, são elaborados mediante os recursos argumentativos possíveis, com objetivos de convencimento articulados dentro de parâmetros científicamente aceitáveis. A produção, dentro deste contexto, parece ser sempre elaborada visando atender certas expectativas do público final, por mais intermediário que ele seja. Ora, por mais que o relato

3 dissertativo, expositivo, narrativo ou híbrido necessite respeitar os critérios estabelecidos, ou justamente por estar embasado em regras (linguísticas, semânticas, pragmáticas, entre outras); por se tratar de leitura comparativa de duas obras do mesmo autor, e justamente por serem as mesmas de cunho científico, há que se observar, em primeiro lugar, os objetivos que nortearão esta análise: 1. Averiguar a estrutura e a intenção dos relatos; 2. Averiguar o teor de penetração no que diz respeito às questões da área de comunicação; 3. O nível de contribuição reconhecível em cada um deles; 2 Com estes objetivos deseja-se averiguar o nível de contribuição do autor, que é significativamente reconhecido tanto no meio profissional quanto no acadêmico, motivo pelo qual torna-se imprescindível observar algumas variáveis que precisam ser consideradas ou equalizadas. Em primeiro lugar, o fato de os estudos do autor terem ocorrido em tempos diferentes, mediante intenções diversas. Esta variável é significativa, mas não impeditiva, uma vez que o que se pretende é analisar o nível dos discursos adotados e seus devidos encaminhamentos. Associado a esta está a expressividade de Carlos Eduardo Lins da Silva, que, justamente por ser qualificado como um dos integrantes do Grupo de São Bernardo 1, traz importância a esta análise, uma vez que a mesma pode minimamente evidenciar algumas pistas adotadas pelo pesquisador. Em segundo lugar, o fato de os objetos terem merecido metodologias diferentes, o que de certa forma tende a alterar o tipo de discurso adotado. Este item, teoricamente falando, impediria tal análise, na medida em que são objetos diferentes, em momentos diferentes e com abordagens também diversas. Ocorre que o que se pretende averiguar é a flexibilidade do autor no uso do discurso, procurando notar elementos que sejam predominantes e que sirvam como pistas para outros pesquisadores. Com relação ao suporte teórico que servirá de apoio, há que se destacar a recorrência ao campo dos gêneros de discurso 2 e seus aspectos ideológicos implícitos 3, traçados por Mikail Baktin e, como decorrência, há que se recorrer às proposições teóricas oferecidas por Ingedora G. 1 José Marques de Melo & Samantha Castelo Branco (orgs), Pensamento Comunicacional Brasileiro: o grupo de São Bernardo, SBC-São Paulo: Umesp, 1999, pp Baktin, M, Estética da criação verbal, 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, Baktin, M, (Volochinov), Marxismo e filosofia da linguagem, 3ª ed., São Paulo: Hucitec, 1986.

4 Villaça Koch, referentes à intencionalidade dos discuros 4, bem como quanto à construção dos sentidos nos textos escritos 5. No que diz respeito ao aparato metodológico, há que se observar as contribuições de Irving Copi 6 que, em Introdução à lógica mostra a relação entre o discurso e determinados aspectos da linguagem, bem como quanto ao modus sciendi proposto por Othon Garcia 7. Já no âmbito da área jornalística, vale a pena considerar as abordagens adotadas pelo autor estudado Lins da Silva, que em "Muito além do Jardim Botânico", adota o estudo de recepção 8, aplicada por meio da pesquisa-ação. Já em "Mil dias: os bastidores da revolução de um jornal", há o predomínio de uma abordagem ligada ao newsmaking 9. Para o entendimento adequado do estudo pretendido, há que se conhecer primeiramente o autor estudado e as obras em questão. O AUTOR Carlos Eduardo Lins da Silva, hoje atuando como editor no jornal Valor Econômico, é jornalista desde os 18 anos. "No início suas preocupações ligavam-se mais à ecologia. Depois, à própria técnica filosófica e ética da comunicação". 10 Além da carreira profissional, o mesmo também privilegiou a atuação acadêmica no Brasil e no exterior, tendo concluído o mestrado na Michigan State, doutorando-se pela universidade de São Paulo, bem como pós-doutorando-se no Woodrow Wilson Internacional Center for Scholars (Washington). A decisão pelo jornalismo veio após ter freqüentado o curso de Ciências Sociais da USP e depois o de Jornalismo, tendo optado por este. No Jornalismo atuou em projetos alternativos como os Cadernos de Comunicação Proal, o Boletim da Sociedade Brasileira de Estudos da Comunicação, a revista Crítica da Informação, o Jornal Salário Mínimo, bem como na Folha de S. Paulo, alcançando o posto de secretário de Redação. No cenário acadêmico, além do já exposto, atuou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no Instituto Metodista de Ensino Superior (SBC), na Faculdade de Comunicação de Santos, e no Departamento de Jornalismo e Editoração da USP. AS OBRAS 3 4 I.G.V. Koch, Argumentação e linguagem, 4ª ed. São Paulo: Cortez, I.G.V. Koch, O texto e a construção dos sentidos, 2ª ed. São Paulo: Contexto, Eni P. Orlandi, Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos, São Paulo: Campinas, Humberto Eco, leitor in fabula, São Paulo: Perspectiva, Irving Copi, Introdução à lógica, São Paulo: Mestre Jou, Othon Garcia, Comunicacão em prosa moderna, 17ª ed., Rio de Janeiro: FGV, Maria Immacolata Vassalo de Lopes, Estratégis metodológicas da pesquisa de recepção, in: Revista Brasileira das Ciências da Comunicação, vol. XVI, nº 2, Julho/Dezembro, 1993, pp Ver também da mesma autora, Recepção dos meios, classes, poder e estrutura, in: Comunicação e Sociedade, ano XIII, nº 23, junho, 1995, pp Mauro Wolf, Teorias da Comunicação, 3ª ed., Lisboa: Presença Editorial, Ver orelha da obra Mil Dias, ob. cit.

5 Uma das obras analisadas, "Muito Além do Jardim Jardim Botânico", refere-se à pesquisa para a obtenção do doutorado e foi desenvolvida junto à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, tendo sido apresentada em março de Esta, segundo o próprio autor, consubstancia "uma parte de pesquisa mais ampla que foi desenvolvida por mim "[na instituição Woodrow Wilson Internacional Center for Scholars, sobre a influência do jornalismo americano sobre o brasileiro], "já que boa parte dos pressupostos que embasaram o projeto tem seu fundamento nos princípios que norteiam a prática do jornalismo nos Estados Unidos" 11 A mesma, destinada a estudar o Jornal Nacional, segundo o autor "partiu de um pressuposto simples: se o Jornal Nacional é um fenômeno cultural tão importante a ponto de ganhar a atenção da absoluta maioria dos brasileiros todas as noitres, ele merece ser estudado a sério" 12 Diz isso pois discorda já na apresentação daqueles que à época procuravam estigmatizar o JN como porta-voz oficioso do governo", taxando-o como "um dócil instrumento de manipulação, bem como pôr terem atribuído à audiência a pecha de alienação, ou seja: "Quem assistia o Jornal Nacional era 'alienado'; quem fazia o Jornal Nacional era manipulador". 13 Fugindo destes preconceitos o autor empregou cinco anos para estudar o objeto, recorrendo ao contato direto com os produtores e espectadores, procurando compreender tais contradições. Apesar de o autor qualificar de um estudo de caso, seu encaminhamento adquire muito mais as características de um estudo de recepção, motivo pelo qual, sem abandonar a proposição do autor, na análise destas obras e no tocante especificamente a esta, recorrer-se-á também aos estudos de audiência A outra obra, "Mil Dias: os bastidores da revolução de um grande jornal" é a tese de livredocência, apresentada ao Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, em junho de Trata-se de um estudo referente à aplicação do projeto editorial do jornal Folha de S. Paulo, ocasião em que o autor ocupou a Secretaria de Redação da Folha, na área de Produção. Segundo o autor, neste trabalho "seu objetivo não é dos mais ambiciosos: descrever como aconteceu um processo de reformulação profunda das relações de produção em um importante jornal brasileiro e tentar inferir da experiência algumas conclusões sobre como uma redação deve se organizar para enfrentar um mercado cultural com as características de uma metrópole como São Paulo". 14 No dizer de José Marques de Melo, "metodologicamente, seu caminho foi o da pesquisa-ação, buscando um 4 11 Mil Dias, ob. cit. p Muito além do Jardim Botânico, ob. cit. p Muito Além do Jardim Botânico, ob. cit. p Mil dias, ob.cit. p. 17.

6 referencial próximo da observação participante dos velhos antropólogos, mas que supera os pruridos cientificistas de neutralidade do pesquisador, enfrentando a evidência de que quem pesquisa possui sentimentos, emoções, ideologias, que não podem ser abstratamente desprendidos do objeto pesquisado". 15 Com relação à duração, diferentemente do trabalho anterior, o prazo empregado para esta pesquisa a julgar pela defesa da anterior foi de três anos. PROCEDIMENTOS Considerando o que diz Leônidas Hegenberg 16 sobre comparabilidade sendo este um dos conceitos classificadores (o outro é o quantitativo), é possível adotar este parâmetro levando em conta suas possibilidades relativas de gradação (maior ou menor), constituindo isso a hierarquização da qualidade, que pode também ser do universo quantitativo. A classificação necessária à aplicação da comparabilidade, por sua vez é oferecida por Othon Garcia enquanto sistematização do saber, sendo possível isso por meio da análise, da classificação, da definição e da síntese. Respectivamente entende-se por análise "a decomposição de um todo em suas partes (...), do todo para suas partes". 17 A análise, segundo o autor, caracteriza-se pelo detalhe, exatidão, detendo-se mais nas diferenças do que nas semelhanças. Por síntese se entende o oposto do que seja análise, motivo pelo qual este método é complementar, permitindo assim a rescontituição do que foi decomposto permitindo com isso o enriquecimento do caráter científico do que foi analisado. Neste estudo comparativo pretendese adotar o modelo de análise formal, procurando averiguar a estrutura científica adotada em ambas as obras, fazendo jus aso objetivos, cujo cerne reside: 1) na estrutura adotada; 2) na ênfase relacionada às questões do Jornalismo; 3) no estilo adotado. Por classificação se entende a distribuição dos "seres, as coisas, os objetos, os fatos ou fenômenos de acordo com suas semelhanças ou diferenças" 18. Definição, por sua vez, "é um recurso de expressão de que nos servimos para dizer o que é que queremos dar a entender quando empregamos uma palavra ou nos referimos a um objeto ou ser" 19. Mesmo considerando os parâmetros de análise dentro dos critérios lógicos e científicos oferecidos por Garcia, um procedimento necessário é a compreensão da dimensão adotada pelo autor para desenvolver um e outro trabalho. Em outras palavras, o tamanho e a articulação das 5 15 Mil dias, ob. cit. p Leonidas Hegenberg, Etapas da investigação científica: observação, medida, indução, São Paulo: EPU, 1976, vol. 1. pp Othon Garcia, ob.cit. p Othon Garcia, ob.cit. pp Othon Garcia, ob.cit. p. 322.

7 partes das obras, traduzidas na fundamentação e nos capítulos que notadamente varia em função dos mecanismos adotados e do tipo de estudo. Esta análise, apesar de seguir a estrutura formal ou justamente por isso procurará localizar estes elementos tanto em uma quanto em outra obra averiguando suas semelhanças e diferenças de dimensão e de conteúdo. Neste sentido, o texto do autor ganha expressão, pois foi elaborado a partir de propostas específicas. A definição de texto e suas implicações, segundo Koch, provém da trajetória histórica e pragmática, bem como as relacionadas às teorias acionais, cognitivas, de atividade verbal entre outras. Assim sendo, sugere que o texto seja abordado no seu próprio processo de planejamento, verbalização e construção com esta e outras perspectivas, concluindo deste modo que "textos são resultados da atividade verbal de indivíduos socialmente atuantes, na qual estes coordenam suas ações no intuito de alcançar um fim social, de conformidade com as condições sob as quais a atividade verbal se realiza". 20 OBRAS (RE)LIDAS O plano de uma obra Muito Além do Jardim Botânico, por mais sucinto que seja, serve para visualizar a organização e a classificação feita para enxergar um dado objeto. Considerando que este procedimento está no âmbito da classificação e que sua logicidade compreende dois elementos de relação a coordenação e a subordinação é possível dizer que na primeira obra o desenvolvimento da estrutura evidencia uma variedade maior de coordenadas, sendo isso não só pela extensão, mas sobretudo pelos desdobramentos, qualificando-a fortemente como formal. A segunda obra Mil dias, por sua vez, demonstra uma estrutura extremamente simplificada, porém bastante objetiva, obrigando, com isso, que a observação detenha-se mais no enunciado adotado e que, pressupõe-se, tende a articular quantidades e qualidades informacionais que equilibrem a referida estrutura. Vale a pena esclarecer que tanto o prefácio quanto a apresentação apesar de significativos não serão analisados, pois ao que tudo indica foram produzidos visando única e exclusivamente a publicação. Esta análise não tem a intenção de dissecar os referidos textos, motivo pelo qual recorre à sugestão de Koch (1998:23), quando a mesma evidencia que normalmente "a informação contida no texto distribui-se, como se sabe, em (pelo menos) dois grandes blocos: o dado e o novo, cuja disposiçào e dosagem interferem na construção do sentido. A Introdução da obra Muito Além do Jardim Botânico procura consolidar toda a base da dissertação que será desenvolvida posteriormente. Nela, uma aparente defesa do objeto aos poucos vais sendo substituída por uma reflexão acionada por dados históricos, bibliográficos e 6 20 O texto e a construção dos sentidos, ob, cit. pp

8 documentais não apenas expositivos, mas sequencialmente discutidos, numa espécie de diálogo que o autor tece com os dados, a novidade implícita nos mesmos, bem como as implicações. Para tanto, a estratégia adotado foi o afunilamento lógico do contexto da indústria cultural, suas relações com o Estado e o poder deste e de seus atores, bem como o surgimento da Rede Globo, como uma condição construída hegemonicamente. Com isso, sente-se seguro para expor melhor seu objeto de estudo, o contexto restrito ao qual faz parte, sinalizando assim o modo como passará a enxergá-lo, ou seja, sob a ótica teórica do estudo de recepção. A prova da densidade desta abertura pode ser comprovado não só pelo número de páginas destinadas (29) mas sobretudo pelo número de citações exigidas, consumindo 50 das 70 relacionadas na obra. Na obra Mil Dias, a Introdução é feita tipicamente na forma expositiva, semelhante ao que ocorre com as notícias que no entender de Nilson Lage, é "o relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante ou interessante; e de cada fato a partir do aspecto mais importante ou interessante" 21. Deste modo, com extremada ligeireza, oferece o contexto, a determinação da Folha de S. Paulo quanto à opção pelo mercado e, recorrendo a vários autores, coloca claramente a intenção da Folha, quem é contra a proposta, bem como relacionando o mesmo com o implantado nos EUA, destacando que aqui tal modelo vem com atraso. Além disso, mostra a contradição existente no jornalismo, deixando transparecer o viés ideológico paradoxal da categoria associada muito mais aos hábitos antigos e ao poder pressuposto por seus praticantes e mesmo pela corporação, remetendo ao texto "Vampiros de papel", de Frias Filho, para quem as mudanças estavam ancoradas em um outro tipo de ideologia, no caso "a da notícia (qualquer notícia) e na relação de solidariedade objetiva entre imprensa e público" 22. Comparativamente falando, notase não só a mudança não só no tipo de estrutura (formal e informal respectivamente), mas também na maneira como o enunciado é construído, sendo o da primeira obra mais complexa e reflexiva, ao passo que a da segunda obra muito mais diretiva, sendo esta característica baseada no volume de informação apresentada ou articulada, exposição esta que não admite rompimento do fluxo informacional para qualquer reflexão ou questionamento, bastante observado em Muito Além do Jardim Botânico. Prova disso é que em Mil Dias, ainda no trecho em questão, além da ligeireza, as falas adotadas parecem mais voltadas a comprovar a decisão da Folha do que o contrário. Portanto, se na primeira obra o aspecto ideológico fica no campo da persuasão, feita 7 21 Estrutura da notícia, São Paulo: Ática, 2000, p Mil Dias, ob. cit. pag. 30.

9 por meio da articulação do diálogo com os dados obtidos nos documentos e no campo, no segundo caso, a reflexão cede espaço para a exposição e posterior convencimento. OBJETIVOS (IM)PLÍCITOS Seguindo a estrutura formal, Muito Além do Jardim Botânico expõe seus objetivos e hipóteses em capítulo destacado. Estas, por sua vez, nascem de densa exposição teóricacontextual, recorrendo a argumentação relativa à ideologização que certamente perpassa o fazer televisivo, cujas matrizes contemporaneidade, realismo, fragmentação das imagens e timming adotado certamente perpassavam o objeto de estudo e, por isso, não poderiam ser desprezados no levantamento das referidas hipóteses. Já na obra datada de 1987, este critério científico além de não ser priorizado, é diluído ainda na Introdução, evidenciando a intenção implícita muito mais de explorar o objeto do que de colocá-lo em xeque com respostas antecipadas. Este procedimento é típico do modelo adotado estudo de caso, uma vez que o objeto precisa mostrar a que veio, no que é possível transformar-se, devendo o observador apenas relatar as ocorrências. Desta forma, a idéia de pesquisa participativa cai por terra, uma vez que ao fazer isso, o caso passa a ter o viés intencional de quem o estuda. Por outro lado curiosamente observando, o fato de o autor ser um funcionário do nível executivo, além de oferecer condições privilegiadas para a observação, impede que o mesmo assuma outros papéis, deixando de sondar o outro lado. Este (pre)suposto inibidor talvez represente um paradoxo, que é exposto pelo autor, como a dizer para si mesmo o risco que corria: "Se essa condição me confere a condição de expectador privilegiado dos acontecimentos e me permite uma descrição que outro analista seguramente não conseguiria realizar com acurácia, ela também me coloca em situação difícil para a realização de um trabalho de caráter científico" 23. Ora, sendo o estudo de caso um trabalho de cunho científico, o viés de aprofundamento é uma das condições imprescindíveis nestes casos, sob pena de comprometer sua leitura como algo modelar. Mais que isso, a aceitação da definição do texto de grande reportagem não isenta a pragmática de agir em profundidade, pois este item também compõe este gênero. Notadamente, o outro lado aparece no trabalho, mas em parcelas reduzidas, evidenciando que o objeto não era o jornalista e sua pragmática, mas sim o projeto e o que o mesmo tinha a oferecer. Em termos comparativos, o rigor na segunda obra é abrandada justamente pelo fato de o autor disponibilizar sua percepção para o registro da dita revolução na redação do jornal REFAZENDO O FAZER 8 23 Mil Dias, ob. cit. p. 36.

10 A metodologia adotada nestes trabalhos poder-se-ia dizer tem o aspecto explícito e implícito. Na obra Muito Além do Jardim Botânico, antes de aderir às regras, o autor tece crítica quanto à pretensa neutralidade científica, citando vários exemplo do enviesamento de boas propostas para usos visando interesses específicos. Por conta disso, opta pela pesquisa ação na leitura que fará da audiência televisiva, sempre procurando justificar a decisão, convencendo e convencendo-se de que assim poderia contribuir de modo diferente do que até então se fazia em termos de pesquisa de audiência. No caso da obra Mil Dias, a metodologia está exposta ainda no final da apresentação, na medida em que se propõe a analisar o conflito relativo à implantação do Projeto Folha, deixando claro que isso "não será um documento de defesa do 'Projeto Folha', apesar do meu envolvimento pessoal no processo de sua aplicação". Apesar de mostrar esta preocupação, o autor, que em Muito Além do Jardim Botânico exercita um posicionamento ideológico mais explícito, em Mil Dias, procura preservar isso dosadamente, como por exemplo quando, acaba esboçando sua adesão até certo ponto velada ou contraditória na medida em que diz ser "favorável à idéia de que a adoção de técnicas e métodos de organização é importante para a obtenção de um bom produto jornalístico nas sociedades de mercado" 24. Apesar disso, promete não cair no proselitismo ou na tentação de interferir na realidade para comprovar suas convicções. De modo muito mais objetivo que o trabalho anterior, aponta em poucas linhas que adotará documentação "disponível nos arquivos da direção do jornal (e metodicamente coletado e arquivado ao longo dos meses como conseqüência natural técnica do projeto)" 25, bem como entrevistas possíveis no campo. Sua justificativa para a escolha da Folha é a de que, por ser um estudo de caso, "a Folha é um estudo (...) representativo do universo dos jornais diários brasileiros". 26 Diferentemente do que trata a obra de 1984, a de 1987, Mil Dias traz no capítulo 2 e 3 o que poderia ser chamado de contexto para os procedimentos da análise do objeto. Tais procedimentos são nitidamente informativos e de baixa reflexão, enunciado típico dos estudos de caso, tendo como fio condutor as intenções da mudança, as iniciativas de metodologização implícitas no projeto Folha e, finalmente, as primeiras inovações. Nestes dois capítulos, diferentemente do que fez na obra de 1984, não polemiza nem critica, apenas retrata tomando como suporte documentos oficiais e artigos escritos à época para tratar da inovação na direção do 9 24 Mil Dias, ob. cit. pp Mil Dias, ob. cit. pp. 37.

11 jornal.. Lins da Silva, sempre que possível, compara este processo ao ocorrido no New York Times, recorrendo a Gay Talese, especificamente na obra The Kingdom and Power. Na relação que oferece no final do segundo capítulo, período que compreende de maio de 1984 a fevereiro de 1987, são expostos 33 itens considerados pelo autor como o roteiro dos principais acontecimentos do período, podendo ser classificados como administrativos, de mercado, de investimento, reivindicatório, de produção jornalística pautada ou relacionada ideologicamente às mudanças; de produção jornalística ligada ao contexto externo, cuja relação era ligada à credibilidade ou à nova imagem;. Esta classificação feita para efeito de estudo mostra que 57,6% são genuinamente administrativas, 9,1% são ligadas à produção, mas perpassadas pelo aspecto administrativo organizacional, 91% são de ordem reivindicatória, da categoria, 6% são relacionadas à produção jornalística pautada ou relacionada ideologicamente às mudanças, 3% dizem respeito ao investimento, e outros 3% são relacionados ao mercado, neste caso a obtenção de 150 mil assinantes. Ao relacionar estes itens, o autor aponta para um afunilamento das idéias e do discurso, na medida em que afirma serem estes fatos "muita vez citados no trabalho (...) e este roteiro poderá ajudar o leitor a se localizar no texto". Em outras palavras, modulando seu discurso de modo sugestivo-imperativo, recomenda uma espécie de trilha que certamente será perseguida dalí para a frente. CORPUS EXPLORADO A análise feita por Lins da Silva no corpus delimitado para Muito Além do Jardim Botânico e para Mil Dias expõe, por um lado, extrema acuidade no esforço de captar elementos que respondessem suas hipóteses. O enunciado articula dissertativamente as congruências e divergências encontradas, demonstrando um discurso fortemente flexionado não somente pelo nível das informações depreendidas observadas e captadas dos entrevistados, bem como por várias conjunções (aditivas, adversativas, conclusivas, entre outras), visando enfeixar o complexo pensamento em torno das mensagens emitidas no telejornal Jornal Nacional e, posteriormente, das novelas que parametrizavam antes e depois o dito telejornal no que passou a ser denominado de horário nobre. A esta altura, são pouco acionados os elementos teóricos, demonstrando, por parte do autor, segurança no olhar que fazia no objeto. A estratégia adotada por Lins da Silva é exemplar, uma vez que identifica estritamente o necessário quanto ao que é absorvido pela comunidade frente à televisão e, a continuidade da análise, desdobra-se justamente em outros itens, sendo estes destinados a averiguar os efeitos promovidos pôr outras fontes em relação a uma dada Id.ib.p.37.

12 notícia, variáveis denominadas por ele como "Senso crítico oriundo de outras fontes", "Senso crítico proveniente do conhecimento pessoal", e "Senso crítico através do conhecimento dos meios" que passam a ser controladas, uma vez que são consideradas como componentes de um fenômeno que, para muitos, estava restrito apenas na tela da televisão. Neste sentido, a contribuição do autor aparece e reforça o modelo adotado como plenamente seguro para se chegar aos objetivos propostos, mesmo que os mesmos mostrem certa dose de obviedade. Já na obra Mil Dias, nota-se que estruturalmente talvez pelo aspecto linear ou histórico dos acontecimentos ela avança indo ao encontro de um desfecho. A estrutura foi disposta da seguinte forma: Introdução, que destaca o objeto e o problema pelo qual passa; A história, mostrando a trajetória fragmentária da Folha; Os Terminais, que nitidamente é uma continuidade da história, a julgar pela abertura: "Muitas pessoas confundem o 'Projeto Folha' com a introdução dos terminais de vídeo na redação do jornal" 27 ; O Projeto, que mostra a proposta, a documentação que deu origem à idéia e sua continuidade, o contexto que possibilitou tal mudança, os embates entre direção e jornalistas, entre outros elementos. Talvez por isso esta seja a parte mais densa da obra, rico em informação, mas também com várias justificativas: umas explícitas, outras nem tanto; O Manual, que praticamente consolida os procedimentos e, paralelamente a adesão ao projeto. Articulando o discurso de modo informativo e depois de uma forma arejada, na qual muitos expõem o que pensam pró e contra o documento, no final, recorrendo a alguns autores, certifica-se, tal como diz, que "pode-se afirmar, sem medo, que apesar de tecnicamente o manual ainda estar longe de poder ser considerado um sucesso pelos motivos já expostos acima, politicamente ele é um êxito"; outro capítulo da estrutura é o denominado As Metas, que embora em uma linha linear de desenvolvimento é mais questionador no tocante aos resultados obtidos. Isso talvez por ter acompanhado de perto o que serve para provar a dificuldade de se manter a isenção em pesquisas participativas, tal como diz Lins da Silva 28 : "Eu posso dar um testemunho pessoal, pois durante dois anos e meio essa foi uma das minhas tarefas e acho que meu desempenho foi fraco". O mesmo pode ser estendido para os capítulos seguintes Os Controles, O Profissional, e O Leitor com ligeira variação no teor do discurso, sempre bem balizado com informações e vários níveis de justificativas recorrendo nem tanto à forma dos parágrafos, mas acima de tudo pela função 29 a eles atribuídas, às vezes Mil Dias, ob. cit. p Mil Dias, ob.cit. p Tal como diz Copi, ob. cit. p.53., às vezes em um discurso "podemos ser tentados a identificar a forma com a função e a pensar que as orações declarativas e o discurso informativo coincidem, ou que as orações exclamativas só

13 despertando a reflexão quanto a alguns aspectos do projeto, em outros momentos, informando e comparando com outros exemplos daqui e de fora, ou mesmo expondo dados estatísticos. Perscrutar a(s) estratégia(s) adotada(s) por Lins da Silva em minúcias se é que o autor as adotou estrategicamente 30 levaria tempo extremado, o que não é a proposta desta análise. Talvez valesse a pena, nestas palavras finais, um olhar mais pontual nas conclusões enxergadas pelo autor. CONCLUSÕES COMPARATIVAS Em Muito Além do jardim Botânico, as conclusões expostas pelo autor demonstram uma espécie de confirmação que já esboçar no ínicio da obra, ou seja, de que a teia de relações entre as pessoas e o que recebem de informações, dificilmente as deixam apáticas ou totalmente à mercê dos meio de comunicação, sobretudo a televisão. Mostra que aprendeu com o processo e aproveitando-se disso, distribui ainda suas últimas críticas aos teóricos exacerbados. O discurso é predominantemente expositivo, entremeado de referenciados bibliográficos pontuais, visando assim certificar os que o lêem do que efetivamente encontro. Na verdade, o autor comprova para si e para a academia, que o método escolhido pesquisa-ação, serviu não só para viabilizar a mescla metodológica, como para explicar que o poder pressuposto da mídia é extremamente tênue, se forem consideradas as variáveis que compõem o dia-a-dia das pesssoas, estejam onde estiver. Em Mil Dias, as conclusões acerca do Projeto Folha são, em um primeiro momento comparadas com os ideais americanos, tornando significativo o referido trabalho, mas também demonstrando uma relação teórica com uma provável influência americana no jornalismo brasileiro na medida em que o projeto adotou mecanismos e autores de fora. Esta associação não permeou o trabalho e parece ser já uma reflexão do autor frente a uma pesquisa maior sobre a influência americana, da qual o estudo da Folha fazia parte. De outro modo, expõe com extrema objetividade e desdobramento reflexivo, classificando metodicamente a estrutura adotada para a implantação do projeto Folha, oriunda, segundo diz, de "pessoas que passaram a exercer o poder na redação do jornal (...) formulando ao longo dos meses um sistema de valores para legitimar o seu exercício de poder e, ao mesmo tempo, traçar 12 são adequadas ao discurso expressivo", demonstrando assim a necessidade de averiguação de estratégias mais amplas. 30 É importante chamar a atenção para o fato de que, aquele que escreve, apesar de estar intencionado para certas coisas, pode estar construindo outras na forma de desdobramento. Ao colocar os textos de Lins da Silva sob análise, longe está a pretensão de entender que o mesmo efetivamente tenha sido construído com estes propósitos apresentados. Isso reforça dizer o seguinte: cada leitura pode ser feita de uma forma ou de outra, dentro das intenções pré-estabelecidas. Esta, portanto, configura uma análise bastante superficial e sem pretensão de colocar em xeque os esforços do pesquisador em questão.

14 roteiros de ação para seu mandato" 31. Apesar de oferecer informações suficientes para demonstrar os mecanismos que conferiram o sucesso ao projeto e mesmo de concordar com certos aspectos disso, o autor deixa em aberto alguns parâmetros de associação deste sucesso em relação ao modelo adotado. CONCLUSÃO (PRO)VISÓRIA Neste sentido, dentro do que foi observado e quanto aos objetivos, notou-se que a obra Muito Além do Jardim Botânico visando atender o objetivo nº 1 recorrendo a uma estrutura mais formal e pelo ineditismo sugerido no tipo de abordagem ligada ao estudo de recepção, priorizou uma densa fundamentação, procurando assim amenizar contradições ou argüições demolidoras. Por este motivo, o autor deu-se o direito de tecer críticas aos modelos adotados e o viés ideológico distorcido a qual servem. Após tal argumentação comprovada com exemplos, sente-se confortável para traçar seu caminho metodológico. Na obra Mil Dias, o mesmo não ocorre, sendo isso substituído pelo relato do contexto, deixando o foco mais no impacto do objeto que seria observado e da celeuma criada do que propriamente para uma exposição contextual mais isenta. Notadamente, ambas as pesquisas exprimem posicionamento ideológico do autor, mas na primeira isso fica mais explícito, ao passo que na segunda isso é utilizado mais estrategicamente na medida em que o discurso vai sendo montado. Por isso, o contexto da primeira obra remete a teorias, ao passo que na segunda remete mais a exemplos e estudos feitos sobre o próprio fenômeno. Com relação ao que trata o segundo objetivo proposto penetração às questões da área jornalística para esta análise, há que se expor o seguinte: em Além do Jardim Botânico, o aprofundamento prioriza mais a comunicação de modo mais abrangente, deixando claro que o Jornalismo é apenas uma parcela das informações que chegam às comunidades, sendo, como mostra o estudo, colocada em xeque por vários motivos ou variáveis do cotidiano. A contribuição disso é significativa, pois coloca o Jornalismo em seu devido lugar. Em primeiro lugar porque para a indústria cultural, o objeto estudado o mais famoso e visto à época vinha formatado entre dois produtos culturais (novelas) economicamente mais atrativos. Em segundo lugar, porque o próprio autor observou ser ilusão pensar que as estratégias teóricas da comunicação penetram despercebidamente pelos telespectadores, sendo isso verificado em níveis que vão do interesse regional, para os que dizem respeito às necessidades diárias, entre outros. Neste sentido, valeria a pena inverter o que foi dito, ou seja, o telespectador também coloca o telejornalismo em seu devido lugar, na medida em que o valida no dia-a-dia Mil Dias, ob. cit. p. 180.

15 No tocante à obra Mil Dias, este objetivo parece ser plenamente atendido, não pela polêmica implícita no objeto, mas pela discussão que a mesma provoca. O autor parece ter feito o que em Teoria da Comunicação pode ser ambientado no fenômeno metalinguagem, uma vez que apropriando-se de um objeto em ebulição portanto não conclusivo, valoriza os jornalistas não pelo que eles eram, mas pelo que podem vir a ser. O projeto passa a ser um mote, e a resistência a ele a comprovação do nível do poder que esta área ainda tinha. A questão mercantilista, apesar de justificada pelo autor e pelos idealizadores em vários momentos como algo associado à sobrevivência da empresa, é um mero detalhe uma vez que por traz disso estava na verdade a liberdade de pensar, que na sociedade moderna da época, requeria o pensar em tamanho apropriado. Mais que isso, evidencia o embate disso no campo exclusivamente ideológico, uma vez que as ideologias sejam quais forem, só se justificam quando conquistam a supremacia. Deixa claro em meio a dados bem sucedidos do projeto que, a liberdade aliás pouco mencionada não cabe no jornalismo, que precisa atender outro interesse que não os dos jornalistas, mas o da sociedade, por mais que entre estes esteja uma empresa assumindo tal papel. A metalinguagem não à toa percebida por um integrante da banca de avaliação como um ensaio jornalístico, idéia que é reforçada por Lins da Silva no prefácio do livro 32, como uma grande reportagem da segunda obra dá-se justamente pelo fato de estar sendo coberta exclusivamente pelo "repórter" Lins da Silva, no momento em que tudo estava ocorrendo. A adoção do modelo estudo de caso, na verdade, acaba por comprometer o relato, na medida em que abranda ou oficializa o discurso vivo quer deve ter sido sido captado no cotidiano e ajustado academicamente na forma relatorial. De outro modo, a forma ligeira e expositiva, mesmo que extremamente de ideologia velada, procura driblar isso, deixando o rigor de lado em nome do aprisionamento do dado histórico. Curiosamente, apesar de ser taxada de grande reportagem, depõe contra ela não o conteúdo ideológico que tende para a aprovação incondicional do projeto Folha, mas sobretudo pelo fato de o repórter estar na condição partidária de um dos lados. A isenção neste casos, mesmo que alardeada, perde o efeito, uma vez que o olhar e os ouvidos podem estar aguçados para ver e ouvir tudo, mas certamente um dos lados deixará lacunas, comprometendo assim a profundidade implícita nas grandes reportagens. Com relação à proposta de averiguar o estilo e os possíveis avanços que isso possa significar para as Ciências Humanas, a Comunicação e para o Jornalismo, há que se acentuar que, Mil Dias, ob. cit. p.15.

16 tal como dizem os literatos, um estilo é determinado pelo domínio dos códigos, que é dado pela experiência amealhada. Neste sentido, tal como dizia Décio Pignatari 33, torna-se impossível desassociar forma e conteúdo, bem como a função advinda na articulação de um texto destinado à avaliação de uma banca acadêmica e, posteriormente, por um público mais amplo. Em outras palavras, nota-se que apesar de a estrutura científica da primeira obra impor rigores que repercutem no texto denunciando seu estilo e exigindo uma logicidade argumentativa cunhada na comprobabilidade, tal rigor permite uma certa liberdade, na medida em que, tendo atendido às regras, pôr meio delas ou embasados nelas é possível questioná-las ou contrapô-las. Por outro lado, no segundo caso, a fluência do texto, baseada muito mais no volume de informação e nas expectativas que as mesmas geram no contexto social, político e ideológico, permite uma estratégia mais arriscada, na medida em que a tecitura do texto está fundamentada no nível de informação e das fontes envolvidas, motivo pelo qual deduz-se o modelo estudo de caso tenha colaborado. Há que se observar, no entanto, que o autor, procura fugir do aspecto relatoarial, optando pôr imprimir o aspecto mais jornalístico, ganhando expressão, na tecitura do texto a articulação dos elementos informacionais e argumentativos Como todo estudo, passível muito mais de erros que serão observados por outros, este aqui realizado torna-se válido para a concepção provisória de algumas certezas, bem como para algumas questões que podem servir de norteamento para aqueles que desejam da área de pesquisa não somente respostas, mas também questionamentos que chequem melhor determinadas pragmáticas. Neste caso, algumas certezas são: 1. De que o uso de modelos metodológicos tanto podem oferecer bons caminhos, como podem servir de estratégias para a articulação de variados elementos teóricos e pragmáticos. Em outras palavras, os próprios modelos são ideológicos pelo que restringem e pela liberdade que permitem, sendo esta muitas vezes um drible às regras; 2. De que independentemente de modelos científicos, o discurso, quando bem fundamentado e exposto com persuasão, pode transportar seus leitores para campos de decisão provisórios desejáveis. Neste sentido, usando recursos aparentemente simples do modelo jornalístico e não exclusivamente relatorial implícito nos estudos de caso, o autor Lins da Silva parece ter conseguido selecionar e indicar o caminho histórico-viável-imprescindível que o contexto exigia durante a implantação do Projeto Folha de S. Paulo; Décio Pignatari, Informação, Linguagem, Comunicação, São Paulo: Cultrix, 1984, p.11.

17 3. De que nem sempre o modelo está na mesma relação da experiência pessoal e das possibilidades do pesquisador mote que atualmente justifica o uso de várias metodologias, bem como não contempla o nível de extrapolação criativa e de inovação pretendida; 4. De que passa a ser um desafio mais denso o uso ou a articulação da criatividade e da mobilidade de estratégias inovadoras, não sendo isso impeditivo. Neste sentido, o autor estudado parece conseguido isso com o trabalho Muito Além do Jardim Botânico. 5. De que valeria a pena a academia principalmente os programas de pósgraduação pensar em mecanismos, não para driblar a si mesma no tocante às estratégias possíveis, mas seria interessante se isso fosse inserido como possibilidade nos moldes da destruição criadora apregoada por Joseph Shumpeter, ou seja: que fosse inserida uma disciplina, oficina ou algo parecido, visando laboratoriar o nível de respeito e do rompimento às regras notadamente sem preconceitos, visando assim o entendimento e mesmo o estímulo rumo a pretensões mais visionárias e vanguardistas. 16 Já as incertezas são as seguintes: 1. Até que ponto pode haver confortabilidade em uma pesquisa, sabendo que, de um lado, a metodologia oferece caminhos seguros para um trabalho cujas expectativas normalmente são previsíveis, ao passo que dependendo da titulação almejada, o nível de criatividade é exuberantemente esperado? 2. Até que ponto as duas pesquisas ajudam a entender a lógica científica, na medida em que o primeiro estudo indica ter sido extremamente rigoroso, ao passo que o segundo sem nenhuma depreciação praticamente fundamentou-se nas estratégias discursivas notadamente incluindo informações, direcionamento, justificativas, convencimentos de vários teores? 3. Até que ponto a academia está disposta a entender a criatividade sem abrir mão do rigor metodológico, e quais as garantias que os pesquisadores podem ao menos almejar frente a isso? 4. Até que ponto o discurso pode driblar os rigores e estabelecer patamares de convencibilidade em pessoas tão preparadas quanto a dos avaliadores

18 disponíveis nas bancas ou sessões de avaliação da produção científica da área de Humanas? BIBLIOGRAFIA BAKTIN, M, Estética da criação verbal, 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997 BAKTIN, M, (Volochinov), Marxismo e filosofia da linguagem, 3ª ed., São Paulo: Hucitec, COPI, Irving, Introdução à lógica, São Paulo: Mestre Jou, ECO, Humberto, leitor in fabula, São Paulo: Perspectiva, GARCIA, Othon, Comunicacão em prosa moderna, 17ª ed., Rio de Janeiro: FGV, HEGENBERG, Leonidas, Etapas da investigação científica: observação, medida, indução, São Paulo: EPU, KOCH, I.G.V., Argumentação e linguagem, 4ª ed. São Paulo: Cortez, KOCH, I.G.V., O texto e a construção dos sentidos, 2ª ed. São Paulo: Contexto, PIGNATARI, Décio, Informação, Linguagem, Comunicação, São Paulo: Cultrix, LAGE, Nilson, Estrutura da notícia, São Paulo: Ática, LOPES, Maria Immacolata Vassalo de, Estratégis metodológicas da pesquisa de recepção, in: Revista Brasileira das Ciências da Comunicação, vol. XVI, nº 2, Julho/Dezembro, 1993, pp Ver também da mesma autora, Recepção dos meios, classes, poder e estrutura, in: Comunicação e Sociedade, ano XIII, nº 23, junho, MELO, José Marques de & CASTELO BRANCO, Samantha, (orgs), Pensamento Comunicacional Brasileiro: o grupo de São Bernardo, SBC-São Paulo: Umesp, 1999, pp ORLANDI, Eni P., Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos, São Paulo: Campinas, WOLF, Mauro, Teorias da Comunicação, 3ª ed., Lisboa: Presença Editorial,

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